segunda-feira, 12 de agosto de 2019
A insensatez e a classe média
Não foi à toa que Insensatez fez uma espetacular carreira musical no Brasil e no exterior, gravada por João Gilberto, Astrud Gilberto e outros grandes artistas brasileiros, como Nara Leão, Elis Regina, Sylvia Telles, Maria Creuza, Roberto Carlos e Fernanda Takai; a versão inglesa, de Norman Gimbel, por Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Peggy Lee, Nancy Wilson, Morgana King, Stan Getz, Claudine Longet e Dianna Krall. Na voz de Iggy Poop, mais recentemente, fez parte da trilha do filme Sete Vidas, com Will Smith no papel principal.
O filme é uma história sobre sentimento de culpa e depressão de um homem que se envolve num acidente automobilístico no qual morreram sete pessoas e cuja redenção, ele acredita, depende de salvar sete vidas. A letra de Insensatez mostra como fraqueza revela as ações desalmadas e apela à razão e à sinceridade como atitudes que levam ao perdão: “Vai, meu coração, ouve a razão/Usa só sinceridade/ Quem semeia vento, diz a razão/ Colhe sempre tempestade”. Termina com uma autoadvertência: “Vai, meu coração, pede perdão/ Perdão apaixonado/ Vai, porque quem não perde perdão/ Não é nunca perdoado”.
A bossa nova foi uma revolução musical que assinalou dois fenômenos interligados: a emergência cultural da classe média e “verticalização” das cidades. Surgiu na euforia dos Anos Dourados do governo Juscelino Kubitschek, protagonizado por um grupo de jovens músicos e compositores da classe média carioca que queriam promover a cultura brasileira internacionalmente. Seu marco fundador é a gravação de Chega de saudade num compacto simples, por João Gilberto, cuja batida de violão se inspirou no tamborim para revolucionar o que, na voz de Elizeth Cardoso, segundo Tom Zé, em Estudando a bossa, “era apenas mais um samba-canção.”
O LP Chega de saudade consagrou a bossa nova um ano depois, projetando Tom Jobim e Vinícius de Moraes nacional e internacionalmente. A seguir, o estrondoso sucesso de Garota de Ipanema, na voz de Astrud Gilberto, com Stan Getz no sax, João no violão e Tom no piano, fez dessa música uma das 50 grandes obras musicais da humanidade, segundo a Biblioteca do Congresso norte-americano. O canto falado de João Gilberto, influenciado pelo samba e pelo jazz, rompeu o paradigma da grande voz operística, sendo considerado a simbiose perfeita do violão e da voz, e passou a ser imitado por sucessivas gerações de instrumentistas e cantores.
Com a bossa nova, um banquinho e um violão bastavam para encher de amor e poesia os pequenos bares boêmios e os ambientes apertados dos apartamentos. Com o golpe militar de 1964, a bossa nova passou a abordar temas sociais e políticos e suas letras românticas passaram a ter dupla interpretação, uma forma de contestação política da classe média. Em razão da repressão instaurada pelo regime militar, acabou dando origem à chamada MPB, a moderna música popular brasileira. Entretanto, a estética da bossa nova até hoje serve de referência para inúmeros artistas.
Em 2012, um estudo feito pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, então sob comando do ex-ministro Moreira Franco, calculou a classe média brasileira em 104 milhões de pessoas. Segundo o levantamento, no curto período de 10 anos, 35 milhões de brasileiros haviam passado à condição de classe média, graças à criação de 18 milhões de empregos formais no período. A renda média desse segmento havia crescido 3,5% ao ano, enquanto a das demais famílias cresceu, no mesmo período, 2,4% ao ano. A nova classe média movimentava cerca de R$ 1 trilhão/ano na economia.
Esse ganho se perdeu com a recessão do governo Dilma Rousseff, que se pautou pela insensatez na economia, levando a classe média de volta aos antigos patamares demográficos. Na política, os que se mantiveram na classe média, diante do risco de perder essa condição, e os que voltaram à pobreza, mas não se conformam com a perda desse status social, promoveram o giro à direita que levou o presidente Jair Bolsonaro ao poder. Entretanto, com a insensatez na política e a persistência do desemprego, há muitos sinais de descolamento desses segmentos do atual governo. Afinal, como na música que até hoje encanta os corações de classe média, nem sempre é mais seguro ser temido do que amado; a maldade pode ser um sinal de fraqueza, como diriam Tom e Vinicius: “Ah, porque você foi fraco assim? / Assim tão desalmado/ Ah, meu coração, quem nunca amou / Não merece ser amado”.
O stand-up do Alvorada
Eleito com a alcunha de mito, Jair Bolsonaro faz do ato de governar um espetáculo. Desde que assumiu o cargo, viajou oito vezes ao exterior. Reuniu-se com líderes europeus da envergadura de Angela Merkel e Emmanuel Macron, além de dois encontros com Donald Trump.A trajetória poderia ser um grande salto para quem há pouco menos de um ano era um deputado do baixo clero. Mesmo assim, nenhum desses feitos foi capaz de despertar no chefe do Executivo o mesmo entusiasmo que tem ao desempenhar seu papel favorito, de "showman".
Buscando difundir sua narrativa, nas últimas semanas, Bolsonaro passou a se dividir entre as lives nas redes sociais e a porta do Palácio da Alvorada, de onde tem falado pelas manhãs. Como um apresentador de programa de auditório, aguarda a plateia antes de aparecer. Na ausência de apoiadores do lado de fora, o comboio passa direto. As interações com a imprensa no local garantem ao presidente chamadas nos principais veículos. Como o ofício de showman não é compatível com o de dirigente de um país, suas declarações ofuscam o governo.
Para proteger sua narrativa, o mandatário pede que os auxiliares filmem tudo. Antes de falar com jornalistas, para no cercadinho dos fãs, convidados a vigiar o trabalho dos profissionais. Nas entrevistas, que duram 20 minutos, Bolsonaro fala sobre economia, política e violência e quase sempre termina na metáfora de casamentos. Quando uma pergunta o incomoda, encerra a entrevista com grosseria ou devolve ao repórter uma questão provocadora. Raramente se alonga quando confrontado com temas econômicos. Na polêmica, se solta.
O aumento dos stand-ups presidenciais coincide com a ida de generais do Exército para as coxias. Augusto Heleno (GSI) sumiu das lives. O porta-voz, Otávio Rêgo Barros, teve briefings diários esvaziados. Talvez estejam reunidos no teatro de operações do Planalto, de onde esperam Bolsonaro retomar a cadeira de comando.
Lição de casa
Naquele intervalo dramático, entre o crash de 1929 e a Segunda Guerra Mundial, EUA e Alemanha protagonizaram uma disputa global por esferas de influência econômica. Vargas definiu como sua prioridade o programa de arrancada industrial e a política externa apropriada: uma estratégia de equidistância ativa e pragmática. O Brasil navegaria a tormenta incrementando o intercâmbio com as duas grandes potências.
Assinamos Acordos de Compensação com a Alemanha, em 1934 e 1936, que facilitavam o comércio direto, sem uso de divisas internacionais. As importações de bens alemães saltaram de 9% do total, em 1932, para 25%, em 1938. Paralelamente, em 1935, o Brasil firmou um Tratado de Comércio com os EUA, o que suavizou a redução no fluxo de intercâmbios bilaterais. Os produtos americanos, que representavam 30% das nossas importações em 1932, ainda contribuíam com 24% do total em 1938.

O jogo pendular propiciou contratos de modernização militar com a Krupp e outras empresas alemãs, numa ponta, e concessões americanas no pagamento da dívida brasileira, além de ajuda técnica para a criação da Sumoc, berço de nosso Banco Central, na outra. A equidistância perdurou até o início da guerra, quando Vargas inclinou-se aos poucos para o campo dos Aliados. O lance final foi a barganha da declaração de guerra ao Eixo em troca do financiamento americano para a implantação da Companhia Siderúrgica Nacional.
A Grande Depressão devastou o sistema de comércio internacional e destruiu o padrão ouro, delineando a paisagem tumultuosa na qual desenrolou-se a disputa geopolítica entre EUA e Alemanha. Hoje, nove décadas depois, a rivalidade entre EUA, a potência estabelecida, e China, a potência ascendente, ameaça romper o intrincado tecido da economia globalizada.
Sob o neonacionalismo trumpiano, os EUA estão muito perto de ceder à tentação da guerra cambial. No horizonte de curto prazo, a estratégia de manipulação do dólar provocaria violentas ondas especulativas nos mercados financeiros, sem reduzir o déficit geral na conta-corrente dos EUA. Num prazo mais longo, a aventura abalaria o reinado do dólar, fragmentando a economia mundial em esferas regionais concorrentes. A tormenta que se avizinha atingirá um Brasil singularmente despreparado para enfrentá-la.
Vargas equilibrou-se entre as pressões conflitantes de seus principais assessores, utilizando-as como ferramentas táticas. Oswaldo Aranha, um convicto pan-americanista que defendia o alinhamento com os EUA, serviu como ministro da Fazenda, embaixador em Washington e, na conclusão do jogo pendular, ministro do Exterior. Já os generais Góes Monteiro e Gaspar Dutra, que se sucederam no Ministério da Guerra, operavam pela aproximação com a Alemanha. Mão firme no timão, Vargas identificou o interesse nacional, colocando-o acima da polêmica que crepitava no núcleo do governo.
Nada indica que Bolsonaro se debruçará sobre a lição de casa. Vargas tinha, ao seu lado, lideranças com luz própria que descortinavam alternativas políticas contrastantes. Bolsonaro, pelo contrário, cerca-se de figuras deploráveis, bufões imersos numa lagoa de misticismo ideológico, que rezam todos os dias no altar do “Deus de Trump”. De Ernesto Araújo a Eduardo Bolsonaro, passando por Olavo de Carvalho, os conselheiros do presidente em política externa cantam, em uníssono, o hino da direita nacionalista americana.
Há um preço a pagar quando se fazem escolhas eleitorais apocalípticas. Trump prepara-se para inflacioná-lo.
Demetrio Magnoli
E segue em passo acelerado a marcha da insensatez
Outro dia, o capitão do mato Jair Bolsonaro sugeriu que não teve o menor prazer em conversar com ela durante o encontro no Japão dos chefes de Estado das 20 maiores economias. Nem com ela nem com o presidente francês Emmanuel Macron.
Antes de Bolsonaro, o vice-presidente Hamilton Mourão havia debochado do problema de saúde de Merkel que a fez tremer em sucessivas cerimônias públicas. Segundo Mourão, o problema decorre de “uma encarada” que ela levou de Donald Trump.
Mourão, hoje, é uma sombra do general destemido do passado, e do vice que em matéria de sensatez contrastava com o desvario e a ignorância do titular da República. Foi enquadrado pelo capitão indisciplinado. Deixou-se intimidar por um filho dele.

O capitão e o general foram surpreendidos com a decisão da pacata Merkel de congelar R$ 155 milhões para o financiamento de projetos de proteção da floresta amazônica. O motivo? O aumento do desmatamento desde que os dois tomaram posse dos cargos.
Foi a ministra alemã do Meio Ambiente, Svenja Schulze, a responsável pelo anúncio da decisão. E ela o fez em entrevista ao jornal “Tagesspiegel”. Qual foi a reação do governo brasileiro? Acusou Schulze de ser uma ministra de esquerda.
Para lá de ser um presidente acidental e sem a menor noção do que deveria fazer além de só desmontar o que o desagrada, Bolsonaro cercou-se de gente que pensa como ele ou que não está disposta a contrariá-lo com medo de perder o emprego.
É o caso, por exemplo, do ministro Sérgio Moro, da Justiça, submetido por Bolsonaro a uma dieta severa de humilhações. Moro acabou de entrar no rol dos auxiliares considerados desleais por Bolsonaro ao se opor a recente decisão de Dias Toffoli.
O presidente do Supremo Tribunal Federal suspendeu os processos abertos com base em informações fiscais sem prévia autorização da justiça. Com isso, beneficiou o senador Flávio Bolsonaro que estava sendo investigado pelo Ministério Público.
Moro procurou ministros do tribunal para argumentar que a decisão de Toffoli prejudicará o combate à corrupção. Bolsonaro soube e, aos berros, mandou chamá-lo para uma reunião no Palácio do Planalto. Moro levou um carão que jamais esquecerá.
Sobrou até para o ministro Paulo Guedes, da Economia, o ex-Posto Ipiranga. Bolsonaro desconfia que ele apoiou a atitude de Moro. É por isso que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) irá para a órbita do Banco Central.
Quando quer, o capitão sabe ser mau como um torturador. No seu entorno só há espaço para quem lhe diga amém. A Amazônia perderá com o dinheiro congelado por Merkel? Danem-se a primeira-ministra, os que pensam como ela e a Amazônia.
Tão estreita é a visão de Bolsonaro que ele não se dá conta de que seu desapreço por temas como o da preservação do meio ambiente poderá levar os países europeus a não selarem o acordo econômico com o Mercosul. Ficaria para depois que ele fosse embora.
Loucura ambiental vive a fase de rasgar dinheiro
"Podem fazer bom uso dessa grana, o Brasil não precisa disso", declarou Jair Bolsonaro ao ser indagado sobre a decisão do governo da Alemanha de suspender o repasse de R$ 150 milhões que seriam destinados a projetos de proteção da floresta amazônica. Em mais uma evidência de que a loucura ambiental tem razões que a sensatez desconhece, o capitão soltou fogos. Para ele, a Alemanha "não vai mais comprar a Amazônia, vai deixar de comprar à prestação a Amazônia."
A decisão da Alemanha é decorrência da aparente despreocupação do governo com a elevação do desmatamento na Amazônia. Dados do Inpe apontam indícios de que, na comparação com junho e julho de 2018, o tombamento da floresta aumentou respectivamente 88% e 278% nos mesmos meses em 2019. O governo desqualifica os dados científicos. E não esboça reação contra o flagelo ambiental.
O gesto alemão é café pequeno perto do que está por vir, pois a administração Bolsonaro ergue barricadas contra o Fundo Amazônia, maior projeto de cooperação internacional já concebido para preservar a floresta amazônica. Em uma década, o fundo recebeu doações de R$ 3,4 bilhões. A Alemanha também contribuiu, mas o grosso (93%) veio da Noruega. Dinheiro a fundo perdido, sem a necessidade de ressarcimento.
O Fundo Amazônia subiu no telhado depois que o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) passou a questionar a gestão dos recursos, feita sob a supervisão do BNDES. Salles diz coisas definitivas sem definir muito bem as coisas. E os financiadores ameaçam bater em retirada. Para satisfação de Bolsonaro, que logo convocará os refletores para repetir: "O Brasil não precisa desse dinheiro".
O governo do capitão não chega a negar a escalada do desmatamento. Apenas alega que uma orquestração das imagens de satélite e dos cientistas do Inpe, mancomunados com a mídia comunista, trata a encrenca com alarmismo. Não se enxerga, porém, nenhuma "orquestra" em cena. O que há é gente colocando a boca no trombone para realçar a maluquice de um governo cujo Ministério do Meio Ambiente descuida do ambiente inteiro.
Além de refugar o auxílio financeiro internacional, o governo do capitão anuncia a intenção de contratar um novo sistema de aferição do desmatamento. Sem uma demonstração cabal de que o monitoramento do Inpe produz dados "mentirosos", como alega Bolsonaro, gastar dinheiro público para atestar mais do mesmo não é senão uma variação do costume atribuído aos loucos de rasgar dinheiro.
O problema é que os doidos ambientais picotam verbas que a Receita Federal arranca na marra dos brasileiros antes de chamá-los indevidamente de "contribuintes". Num ambiente assim, só não reconhecem que o governo está mesmo meio doido as pessoas que estão inteiramente malucas.
Por que decidi escrever estas memórias?
Petrópolis, 20 de Abril de 1909Minha aspiração – sem pretender chocar os que lerem estas minhas memórias desabusadas, algumas décadas mais à frente – é a de que o Brasil possa dispor, no futuro, de homens políticos mais bem preparados para o cargo, tribunos competentes e educados, estadistas comprometidos com a dignidade das causas nacionais, sem essas nódoas de corrupção que nos maculam internacionalmente, sem o peso da ignorância abissal que infelizmente ainda marca muitos dos aventureiros e oportunistas que procuram cargos públicos, alguns inclusive por razões inconfessáveis.Barão do Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos Júnior), patrono da diplomacia brasileira
Alguns pensadores de nossos dias
Donald Trump: A figura que convenceu os eleitores a votar nele para juntos “Make America Great Again”. Conheci os EUA em 1954 e lá passei um bom tempo. Ao comparar aquele país com este de Trump sinto que ele conseguiu exatamente o contrário. O que ele está fazendo com famílias de imigrantes é de uma crueldade que não combina, em absoluto, com a imagem do país que significou, durante tantos anos, o acolhimento generoso que, sem slogans hipócritas, mas com ações positivas, fez dos EUA uma grande nação.
Ernesto Araújo: Nem Freud explica os meandros do pensamento desse senhor. A respeito das mudanças climáticas, imagino que todos tenham lido essa informação fantástica que ele nos deu e que aqui copio por medo de que algum leitor tenha perdido a oportunidade de ler, com calma, suas palavras geniais: "Não acredito em aquecimento global. Vejam que fui a Roma em maio estava tendo uma onda de frio enorme. Isso mostra como as teorias estão erradas. Isso a mídia não noticia".
E que tal esta frase sobre os direitos da Mulher: "Você tem um bolo e dentro desse bolo tem uma gilete. Eu quero abrir esse bolo e tirar a gilete. O que é o bolo? A saúde da mulher, os direitos da mulher. Agora, tem uma gilete lá dentro, que é o aborto, que tem de ser discutida em outra discussão, de acordo com a legislação nacional, que pune o aborto".
Jair Bolsonaro: esse merece uma antologia. É um espanto. Mas é só ter um pouco de paciência que logo teremos nas livrarias uma coletânea das mais estapafúrdias frases que jamais saíram do Planalto. Abaixo dois pequenos exemplos: “O que é que tem nomear meu filho para embaixador em Washington? De alguém o embaixador tem que ser filho, não é? Por que não meu?”. Ou “Daqueles governadores de paraíba, o pior é o do Maranhão. Tem que ter nada com esse cara”. São palavras de um presidente da República, de um capitão do Exército, de um ex-parlamentar. Acreditem, se quiserem.
Mas nenhum foi capaz da síntese perfeita de Luiz Inácio Lula da Silva.</strong> Ao ser perguntado se era comunista: “Não sou comunista nem nunca fui. Sou torneiro mecânico”.
Inteligência não é para qualquer um.
Diante dos terríveis e repetidos massacres em seu país: “As armas não cometem crimes. São os homens que os cometem”. Que tal?
Ele é uma pessoa tão formidável que consegue reconhecer no filho do presidente brasileiro um rapaz bem preparado e inteligente que será um excelente embaixador do Brasil nos EUA. Conviveram largamente? Passaram um tempo juntos? Eduardo fez longas visitas aos Trump? Não, não foi isso. Toda essa simpatia surgiu por osmose. Não é sensacional?
Ele é uma pessoa tão formidável que consegue reconhecer no filho do presidente brasileiro um rapaz bem preparado e inteligente que será um excelente embaixador do Brasil nos EUA. Conviveram largamente? Passaram um tempo juntos? Eduardo fez longas visitas aos Trump? Não, não foi isso. Toda essa simpatia surgiu por osmose. Não é sensacional?
Ernesto Araújo: Nem Freud explica os meandros do pensamento desse senhor. A respeito das mudanças climáticas, imagino que todos tenham lido essa informação fantástica que ele nos deu e que aqui copio por medo de que algum leitor tenha perdido a oportunidade de ler, com calma, suas palavras geniais: "Não acredito em aquecimento global. Vejam que fui a Roma em maio estava tendo uma onda de frio enorme. Isso mostra como as teorias estão erradas. Isso a mídia não noticia".
E que tal esta frase sobre os direitos da Mulher: "Você tem um bolo e dentro desse bolo tem uma gilete. Eu quero abrir esse bolo e tirar a gilete. O que é o bolo? A saúde da mulher, os direitos da mulher. Agora, tem uma gilete lá dentro, que é o aborto, que tem de ser discutida em outra discussão, de acordo com a legislação nacional, que pune o aborto".
Jair Bolsonaro: esse merece uma antologia. É um espanto. Mas é só ter um pouco de paciência que logo teremos nas livrarias uma coletânea das mais estapafúrdias frases que jamais saíram do Planalto. Abaixo dois pequenos exemplos: “O que é que tem nomear meu filho para embaixador em Washington? De alguém o embaixador tem que ser filho, não é? Por que não meu?”. Ou “Daqueles governadores de paraíba, o pior é o do Maranhão. Tem que ter nada com esse cara”. São palavras de um presidente da República, de um capitão do Exército, de um ex-parlamentar. Acreditem, se quiserem.
Mas nenhum foi capaz da síntese perfeita de Luiz Inácio Lula da Silva.</strong> Ao ser perguntado se era comunista: “Não sou comunista nem nunca fui. Sou torneiro mecânico”.
Inteligência não é para qualquer um.
A República tutelada. Mas quem é o tutor?
A cena, narrada pelos repórteres Felipe Recondo e Luiz Weber, é uma das mais fortes do livro-reportagem "Os onze", lançado na quarta-feira (31) pela Companhia das Letras. Ele revela os bastidores do STF, desde o mensalão, em 2005, ao governo do capitão, neste ano. O episódio é mais um a receber a luz do sol num momento em que, mais do que nunca, está posta a discussão: a que ponto chega a influência dos militares na vida nacional?
Qual é o tamanho que as Forças Armadas têm no governo Bolsonaro? A República, embora não subjugada como entre 1964 e 1985, ainda é tutelada pelas fardas? Mas que tutela é essa, em que, no mais militarizado governo desde 1985, os generais têm sido recorrentemente esnobados ou humilhados por Bolsonaro?

A referência a uma tutela vem de outro livro, que voltou recentemente às prateleiras, "Forças Armadas e política no Brasil", lançado em 2005 pelo historiador José Murilo de Carvalho e até então esgotado. Agora reeditada pela Todavia, a obra ganhou um novo capítulo, “Uma República tutelada”, em que Carvalho analisa o papel dos militares sob a égide da Constituição de 1988.
O historiador registrou algumas melhorias nas relações entre civis e militares depois da redemocratização até poucos anos atrás. A principal delas foi um distanciamento, principalmente da Marinha e da Aeronáutica, da política. O anteparo do Ministério da Defesa passou a ser progressivamente respeitado. Mas restaram alguns pontos negativos dos dois lados. Do militar, a insistência em não reconhecer abusos praticados durante a ditadura e a resistência em abrir os arquivos da repressão — ao contrário do Chile e da Argentina, por exemplo. Do lado civil, a pouca importância dada à defesa nacional e a hostilidade de alguns políticos contra os fardados. Carvalho aponta um elemento definidor dessa relação: a Constituição de 1988.
Ele avalia que o texto constitucional deu um papel político e social às Forças Armadas ao expressar, no artigo 142, que elas se destinam à defesa da pátria e à garantia dos Poderes constitucionais e da lei e da ordem, por iniciativa de qualquer um desses Três Poderes. “É como se a República desconfiasse de sua capacidade de exercer o autogoverno civil e entregasse às Forças Armadas o papel político de tutela”, escreveu o historiador. “Não por acaso, chefes militares repetem sistematicamente que é seu dever constitucional intervir quando julgarem que as instituições correm risco.”
Carvalho ressalta que a inédita presença de militares no governo não significa que ali estejam as Forças — seja porque a quantidade de oriundos do Exército é bastante superior, seja porque os ministros, secretários e assessores não estão ali em nome de suas corporações, mas como civis. Mas vai explicar isso para a população...
Afinal, foi a Eduardo Villas Bôas que Bolsonaro agradeceu pela vitória, na passagem de comando do Exército, em janeiro. E foi também Villas Bôas que, em 2018, comandando o Exército, tuitou instando o STF a votar pela prisão de Lula.
O sucesso ou o fracasso de Jair Bolsonaro cairá na conta dos fardados. E é natural que seja assim.
O vice Hamilton Mourão concorda que os erros e acertos serão creditados às Forças, mas não compartilha da visão de que a República seja tutelada pelos militares. “Discordo frontalmente. As Forças Armadas, depois do período militar (1964-1985), entraram numa linha de profissionalismo muito forte. Nos separamos da política. Foi eleita uma chapa vinda do meio militar, eu muito mais militar, Bolsonaro muito mais político, mas as Forças Armadas continuam no papel delas. A República não é tutelada pelos militares”, argumentou Mourão à coluna.
Mourão, que já defendeu a possibilidade de um autogolpe pelo presidente numa situação de “anarquia” e de intervenção militar caso a Justiça não controlasse a corrupção, entende que é excessivamente subjetivo o trecho da Constituição que fala no acionamento das Forças Armadas para garantia dos Poderes constitucionais. “Isso merece uma discussão. É muito vago na Constituição”, avaliou.
Entre uma visão e outra, os fatos dos últimos sete meses mostram uma humilhação sem precedentes para os generais. Olavo de Carvalho debochou da doença de Eduardo Villas Bôas e foi condecorado. Carlos Bolsonaro atacou Mourão, conseguiu a demissão de Alberto dos Santos Cruz e, ao menos publicamente, não recebeu nenhuma repreensão. Até o general tido como eminência parda do governo, Augusto Heleno, está apagado no dia a dia do Planalto.
Num governo em que o descolamento da realidade aumenta a cada dia, pouco importa se são os ministros com DNA militar que trazem notícias boas para o presidente. O olavismo parece estar ganhando a parada.
Na segunda-feira 29, o general Otávio Rêgo Barros, peça-chave na comunicação do presidente, passou por um momento difícil. Ao ser perguntado no briefing diário sobre qual seria o crime cometido pelo jornalista Glenn Greenwald, Rêgo Barros não teve como sair de uma espiral orwelliana de apenas repetir que havia ocorrido um crime, sem especificar qual. O repórter perguntou sete vezes, e, em todas elas, o porta-voz se viu obrigado a repetir que essa era a visão de Bolsonaro, mesmo que a resposta não conversasse com a razão — outrora tão cara aos militares.
Certamente não era a esse tipo de cena que Eduardo Villas Bôas, tão preocupado com o futuro do país nas eleições de 2018, esperava assistir em 2019.
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
Moro esta aprendendo machismo na escola de seu chefe Bolsonaro?

Em seguida, a antropóloga Debora Diniz, que se mudou para os Estados Unidos depois de ter recebido ameaças de morte por seu protagonismo na defesa da mulher e de seu direito a decidir sobre seu corpo e sua sexualidade, escreveu: “Ministro Moro, por favor, apague essa mensagem. É uma questão de dignidade. Os homens que ameaçam a mulher são apenas covardes”.
Há quem tenha ironizado que a ideia de Moro sobre a violência machista, segundo a qual se deveria ao fato de que a mulher adquiriu maior poder na sociedade moderna e ameaça o homem, não parece aprendida na ilustre Universidade de Harvard, onde se formou, mas na nova escola de seu chefe, o presidente Bolsonaro. Foi ele, conhecido misógino, que disse à deputada Maria do Rosário que só não a estupraria porque ela era feia e não o merecia, e que ofendeu sua filha pequena ao confessar que “deu uma fraquejada”, já que ele teria preferido mais um filho homem. Teria sido o quarto.
Parece que Moro, de repente, se esqueceu de que vive no país que aparece em quinto lugar entre os 84 países com maior taxa de feminicídios. Que de acordo com a BBC, todos os dias há uma média de 13 assassinatos de mulheres no país. Talvez Moro ignore que três quartos dos crimes cometidos por machismo são contra mulheres negras e de baixa renda. Será que também elas intimidam os homens pela consciência que de repente adquiriram sobre seu poder na sociedade?
Será que a experiência que Moro teve como filho, marido e pai o levou a ter medo das mulheres fortes como ele as qualifica? Sim, a grande maioria das mulheres que hoje são sacrificadas no altar do machismo mais primitivo são mulheres fortes, é verdade, mas com a fortaleza da dura experiência da pobreza e de serem condenadas pela cor da pele como escória da sociedade. Elas são conscientes não de seu poder, mas de terem nascido, como recitavam os velhos códigos patriarcais ainda hoje vigentes no Brasil, só para dar ao homem prazer e filhos. Essa força interior da mulher negra e pobre não é a que segundo Moro intimida hoje os homens que matam suas companheiras. Eles as matam porque, no fundo, se sentem mais fortes do que elas e protegidos pelo manto da impunidade.
Não apenas personagens de primeira ordem da Igreja, como Santo Tomás de Aquino, chegaram a duvidar de que a mulher tivesse alma e, portanto, era apenas um objeto nas mãos dos homens. Desde os tempos de Adão e Eva, no mito da criação, há mais de três mil anos, aparece claro que a culpada de todos os males sempre foi e continua sendo a mulher. No paraíso, interrogado por Deus sobre o pecado de ter comido o fruto proibido, Adão imediatamente culpou Eva: “A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto, e eu comi” (Gênesis 3,11 e seguintes).
Teria sido melhor que Moro, o juiz mito, que não tremeu a mão na hora de levar à cadeia centenas de personagens do mundo político e empresarial, começando pelo carismático, amado e popular ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, tivesse aterrissado no Governo extremista de Bolsonaro para trazer novos ventos de democracia e modernidade em vez de aparecer também ele hoje como discípulo aplicado na escola do obscurantismo, do machismo e do desprezo à mulher e seus melhores valores.
Se for verdade que Moro vislumbra horizontes políticos que se resolveriam nas urnas, não deveria se esquecer de que a maioria dos milhões que votam no Brasil é composta por mulheres. E não acredito que as mulheres, das menos cultas às mais modernas, tenham gostado do deslize antifeminista do ministro que minimizou a tragédia e a dor de milhares de mulheres que no Brasil são condenadas à morte por seus maridos ou ex-maridos. Não porque elas já se sintam liberadas e empoderadas e imponham intimidação e medo aos homens, mas porque continuam sendo carne de canhão fácil do poder que o homem ainda exerce sobre elas.
É muito triste.
Direita sem máscara
Muito injusta essa perseguição ao presidente. Seu jeitão de “sou assim mesmo” e suas declarações sinceras ajudam o Brasil a se confrontar consigo mesmo e com sua História. Jair faz a extrema-direita sair do armário e arreganhar os dentes, todos salivando contra o próximo, contra dados negativos sobre a pátria ou contra o mero debate de ideias.
Sabiam que o desmatamento da Amazônia quase quadruplicou? Ou só souberam depois das provocações de Bolsonaro ao físico e presidente do Inpe, Ricardo Galvão, exonerado por “falta de clima”? Aliás, todos já conheciam o Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – ou só depois da guerra ambientalista de Bolsonaro? Eu não sabia que a Noruega doa tantos bilhões para o Fundo Amazônia. Confesso que estou aprendendo muito com Bolsonaro no poder.
Sabiam que a Ancine viabiliza o cinema e o audiovisual brasileiros? Só “A Turma da Mônica” teve 2 milhões de espectadores. Por implicar com filmes “pornográficos” como Bruna Surfistinha, Jair declarou: “Vamos buscar a extinção da Ancine. Não tem nada que o poder público tenha que se meter a fazer filme.” Por causa do Jair, O Globo mostrou que, em 2018, biografias, família, relacionamentos e religião foram temas de 40% dos 185 filmes. Prostituição, 1%. Um filme religioso teve a maior bilheteria no ano passado. Eu não fazia ideia.
Sabiam que, dos 62 presos mortos em Altamira, no Pará, 26 ainda aguardavam julgamento e não tinham condenação? Talvez não chegássemos a saber se Jair tivesse reagido dignamente às bárbaras decapitações. Em vez de pensar na dor das famílias, disse: “Pergunta para as vítimas (dos presidiários decapitados) o que elas acharam”.
Sabiam da corrida de garimpeiros em terras indígenas, ou só estão se informando depois do auê causado pelo Jair? Ele tentou transferir da Funai para a Agricultura a demarcação das terras, peitou o Congresso, feriu a Constituição e depois recuou.
Sabiam no Sudeste o nome do governador da Paraíba, antes de Jair se referir pejorativamente aos nordestinos como “paraíbas” e deflagrar uma guerra orçamentária contra a região, acusando o Nordeste de querer “a divisão do país”? Sabiam que 1,8 milhão de crianças trabalham ilegalmente em vez de estudar? Conheciam a dimensão do trabalho escravo, que Jair vê com condescendência?
Um terço dos brasileiros pensa e age como o presidente. Atacam com ofensas, ameaças e palavrões qualquer um que não se alinhe com o bolsonarismo. Jair tirou a máscara da extrema-direita. E isso é bom.
Jair obriga o isentão a se posicionar e sair do muro. Com seus arroubos, pitis e ataques, Jair estimula a imprensa a dar o maior duro, em tempo real, para esclarecer a população e desmascarar mentiras. Quem sabe, um dia, Jair personificará tanto ódio, preconceito e desumanidade que uma oposição inteligente surgirá em nosso país.
Jovens e velhos, aproveitem as trevas e busquem a luz e a informação. Já sabiam que o pai do presidente da OAB havia sido sequestrado e assassinado sob custódia do Estado durante a ditadura militar? Ou só souberam porque Bolsonaro resolveu vociferar e inventar que os companheiros de guerrilha o tinham executado?
Sabiam que o desmatamento da Amazônia quase quadruplicou? Ou só souberam depois das provocações de Bolsonaro ao físico e presidente do Inpe, Ricardo Galvão, exonerado por “falta de clima”? Aliás, todos já conheciam o Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – ou só depois da guerra ambientalista de Bolsonaro? Eu não sabia que a Noruega doa tantos bilhões para o Fundo Amazônia. Confesso que estou aprendendo muito com Bolsonaro no poder.
Sabiam que a Ancine viabiliza o cinema e o audiovisual brasileiros? Só “A Turma da Mônica” teve 2 milhões de espectadores. Por implicar com filmes “pornográficos” como Bruna Surfistinha, Jair declarou: “Vamos buscar a extinção da Ancine. Não tem nada que o poder público tenha que se meter a fazer filme.” Por causa do Jair, O Globo mostrou que, em 2018, biografias, família, relacionamentos e religião foram temas de 40% dos 185 filmes. Prostituição, 1%. Um filme religioso teve a maior bilheteria no ano passado. Eu não fazia ideia.
Sabiam que, dos 62 presos mortos em Altamira, no Pará, 26 ainda aguardavam julgamento e não tinham condenação? Talvez não chegássemos a saber se Jair tivesse reagido dignamente às bárbaras decapitações. Em vez de pensar na dor das famílias, disse: “Pergunta para as vítimas (dos presidiários decapitados) o que elas acharam”.
Sabiam da corrida de garimpeiros em terras indígenas, ou só estão se informando depois do auê causado pelo Jair? Ele tentou transferir da Funai para a Agricultura a demarcação das terras, peitou o Congresso, feriu a Constituição e depois recuou.
Sabiam no Sudeste o nome do governador da Paraíba, antes de Jair se referir pejorativamente aos nordestinos como “paraíbas” e deflagrar uma guerra orçamentária contra a região, acusando o Nordeste de querer “a divisão do país”? Sabiam que 1,8 milhão de crianças trabalham ilegalmente em vez de estudar? Conheciam a dimensão do trabalho escravo, que Jair vê com condescendência?
Medidas Provisórias e decretos presidenciais têm levado o Brasil a entender mais de: porte e posse de armas; estações ecológicas; papel do Itamaraty; repressão policial. Jair está excitado com o pacote anticrime porque agora os criminosos “vão morrer na rua igual barata”(sic).
Um terço dos brasileiros pensa e age como o presidente. Atacam com ofensas, ameaças e palavrões qualquer um que não se alinhe com o bolsonarismo. Jair tirou a máscara da extrema-direita. E isso é bom.
Agora aguentem
A Amazônia irá salvar os direitos humanos?
Walt pergunta “quem irá salvar a Amazônia?”, e parte de uma cena fantasiosa de política internacional de 2025, em que o futuro presidente dos Estados Unidos ameaçaria invadir o Brasil para evitar uma catástrofe global. A provocação é sobre o uso de sanções militares, econômicas e políticas aplicadas a países em crises humanitárias (como anunciou recentemente o presidente Trump à Venezuela), caso se mantivessem as políticas ambientais depredatórias no Brasil. Se a Amazônia é de interesse global e sua destruição terá efeitos para além das fronteiras do país, a analogia parece servir: assim como o direito internacional reconhece a legitimidade do uso da força para salvar povos em extermínio, similarmente o faria para recuperar um bem que é de interesse da humanidade, o meio ambiente.

“Diferentemente de Belize ou Burundi, o que o Brasil faz pode ter um grande impacto”, atesta Walt, que cuida de não fazer uma defesa explícita da intervenção militar, mas de operar no campo hipotético entre o uso legitimado da força para proteger direitos humanos de populações ameaçadas, como ocorre na Síria, ou analogicamente para salvar o meio ambiente. Walt sabe que não é só a história que o separa da realidade de um enfrentamento de potências globais contra o Brasil: é o que descreve como “paradoxo cruel” — os países que mais ameaçam o meio ambiente são também grandes potências nucleares ou econômicas, como China, Estados Unidos, Índia, Japão e Rússia.
O paradoxo é ainda mais cruel do que traça Walt: poder militar e econômico determinam o silêncio sobre políticas ambientais e de direitos humanos. Não por coincidência que muitas das potências militares-econômicas que ameaçam o meio ambiente também são violadoras de direitos humanos. Novamente o Brasil de Bolsonaro é um caso paradigmático: a alegoria da floresta Amazônica como uma “virgem” e sua posse como o desejo de um “tarado” estrangeiro denuncia, como diz Jason Stanley, alguns dos sintomas da política fascista, como a “ansiedade sexual” e a “hierarquia” que move a “irrealidade” dos líderes. Mesmo que alinhado a políticas ultraconservadoras globais, como as instauradas na Hungria de perseguição aos estudos de gênero nas universidades, Bolsonaro estabelece sua própria lógica hierarquizante do mundo: “eles” são todos aqueles contra os interesses econômicos e militares que movem sua agenda desenvolvimentista de exploração do meio ambiente e espoliação dos povos indígenas.
É na irrealidade da fantasia fascista que os líderes mentem e promovem a perseguição a cientistas e universidades, o “anti-intelectualismo” descrito por Stanley. Não sem razão que o presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil foi demitido após demonstrar o crescimento de 40% no desmatamento da floresta Amazônia nos últimos doze meses. É um dado alarmista e, por isso, “antinacionalista”. Mas, inesperadamente, pode ser a Amazônia a oferecer o salva-vidas a um país em naufrágio pelas políticas fascistas. O papa Francisco se disse preocupado com a “mentalidade cega e destruidora que privilegia o lucro sobre a justiça”, e convocou o Sínodo da Amazônia para definir o papel da Igreja Católica na defesa da floresta e dos povos indígenas. É certo que são diferentes agentes políticos, pois a mesma igreja que promove a homofobia e a misoginia que encanta os líderes ultraconservadores, é a que se lança contra as políticas ambientais predatórias. Por isso, deve haver esperança de que na fragmentação das alianças de poder a Amazônia salve os direitos humanos.Debora Diniz, pesquisadora da Universidade de Brown/ Giselle Carino, diretora da IPPF/WHR.
Dissonância cristã
o Cacá Diegues deve ter razão: Deus é brasileiro – e ele precisa tirar umas férias. Ele deve estar sobrecarregado já há alguns anos. Afinal, a busca pelo apoio divino está grande. Parece que o Brasil inteiro está rezando por um futuro melhor. Na missa, no estádio, na rua, na praia, na comunidade, na prisão, no Congresso e no Planalto.
Por isso, como cristã e membro da comunidade luterana peço a vocês: deixem Deus descansar! Tirem Deus da agenda política! Poupem o Senhor dos abismos de Brasília e do Planalto. Pois a palavra de Deus é grande demais para se enquadrar em campanhas eleitorais ou em programas de partidos.
Aliás, poucas palavras da Bíblia bastam para chegar à conclusão de que é melhor separar fé pessoal de políticas públicas. Na sua epístola aos Gálatas, o apóstolo Paulo escreveu que "o fruto do Espírito de Deus é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade" (Gálatas 5,22).

No Sermão da Montanha, o apostolo Mateus advertiu: "Cuidado com os falsos profetas! Vêm ter convosco como se fossem ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. Pelos seus frutos é que vocês os hão-de reconhecer. Porventura podem colher-se uvas das silvas ou figos dos cardos? (Mateus 7, 15-16).
O presidente Jair Bolsonaro parece mais um "falso profeta" do que um "fruto do Espírito de Deus". O seu lema "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos" sugere fé. Mas essa fé em Deus que move milhões de brasileiros pelos quais tenho profunda admiração, para Bolsonaro parece mais uma ferramenta de campanha política do que um guia pessoal.
Bolsonaro não age sozinho. Na campanha eleitoral, os crentes eram cobiçados por diversos pré-candidatos. E a poderosa bancada evangélica no Congresso, que reúne 195 deputados e oito senadores, muitas vezes também se apresenta na pele de ovelha. Pois pautas como o porte de armas e a redução da maioridade penal não refletem o mandamento cristão do amor ao próximo.
Os planos do presidente e de seus aliados não se restringem a esses projetos legislativos. Poucos dias atrás, Bolsonaro avisou que quer indicar para o Supremo Tribunal Federal um ministro "terrivelmente evangélico". Na sua conta no Twitter ele postou: "O Estado é laico, sim. Mas o Presidente da República é cristão, como aproximadamente 90% do povo brasileiro também o é."
Está certo. O Brasil é um Estado laico desde 1889. A Constituição brasileira defende a liberdade de religião bem como a liberdade de não ter religião nenhuma. E graças a essa garantia, o católico Bolsonaro teve a liberdade de mudar de religião, de se converter de católico para evangélico. Em maio de 2016, ele foi batizado nas águas do rio Jordão, em Israel, pelo pastor da Assembleia de Deus Everaldo Dias Pereira, ex-candidato a presidente da República pelo PSC.
Mas infelizmente, com Bolsonaro, chegou ao poder um cristão que prega o evangelho, mas na prática o desrespeita. Um presidente que ainda como deputado, em 2014, ofendia uma colega dizendo que ela não merecia ser estuprada por ele porque era "muito feia" e não fazia seu "tipo". Um presidente que disse que "direitos humanos no Brasil só defendem bandidos". Um presidente que defende a tortura, a violência policial, o trabalho infantil e o desmatamento da Amazônia.
Imagino que essa dissonância cristã deve doer nos ouvidos divinos. Por isso imploro a vocês: pelo amor de Deus, parem de gritar e abusar do nome Dele! Tenho certeza que ele preferiria preces silenciosas a posts polêmicos nas redes sociais. Se Deus é brasileiro, o Diabo também é.
Astrid Prange de Oliveira
Herói da tortura
Um herói nacional que evitou que o Brasil caísse naquilo que a esquerda hoje em dia querJair Bolsonaro recebendo a viúva do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra acusado de prática de tortura no regime militar
Ela veio para ficar
Com o cientista político Fernando Guarnieri, do Iesp-Uerj, analisamos resultados das pesquisas de intenção de voto feitas pelo Datafolha no ano das eleições. Em junho de 2018, quando a campanha não começara, Bolsonaro era o preferido de 17% dos entrevistados.
À época, o eleitor típico do capitão era homem, jovem (25 a 34 anos), branco ou amarelo, com renda familiar entre 20 e 50 salários mínimos, evangélico, empresário ou autônomo regular, morador das regiões norte, sul e centro-oeste. A probabilidade de um cidadão com esse perfil declarar-se disposto a votar em Bolsonaro beirava os 90%.
Já em outubro, na última pesquisa realizada imediatamente antes do primeiro turno o índice subiu para 95%. Ou seja, praticamente todos os eleitores com tais características pretendiam votar no candidato do PSL. Esse parece ser o núcleo duro do bolsonarismo.

Marcos Coimbra, diretor do Instituto Vox Populi, em artigo publicado na revista Carta Capital, chega a conclusão semelhante quanto ao porte dessa parcela do eleitorado —embora divirja sobre as suas características sociais. "Os encantados com o capitão", assinalou, "são predominantemente mais velhos e ricos".
Dias atrás, este jornal publicou informações coletadas pelo Datafolha nos últimos meses e que permitem avaliar o apoio da população às posições mais extremadas de Bolsonaro. Elas revelam que aproximadamente 1/3 dos entrevistados —número semelhante aos dos seus eleitores no primeiro turno e dos que continuam a apoiá-lo— acredita que a política ambiental prejudica o desenvolvimento, que o governo deve reduzir as áreas destinadas às reservas indígenas, que o golpe de 31 de março de 1964 deve ser comemorado e que a posse de armas deveria ser um direito. Na mesma linha, pouco menos de 1/3 concorda que a segurança seria maior se a polícia matasse mais suspeitos e, enfim, que o Brasil deve dar preferência aos Estados Unidos em comparação com outros países.
Em suma, focalizando apenas o núcleo inicial dos adeptos do capitão, constituído por homens brancos de renda alta, ou o grupo mais amplo que hoje forma a sua base de apoio, a extrema direita é minoria. Minoria, porém considerável, que parece ter vindo para ficar e é suficiente para levar seu candidato ao segundo turno em 2022. Seja ele o próprio Bolsonaro ou outro "mito" qualquer.Maria Hermínia Tavares de Almeida
Bolsonaro submete Sérgio Moro a encolhimento

No início do governo, o presidente endossou a prioridade de Sergio Moro —um pacote anticrime e anticorrupção— e editou medida provisória entregando a ele a engrenagem do Coaf. Hoje, Bolsonaro avisa que o pacote de Moro não é mais prioritário. E passou a chamar de "perseguição política" a investigação em que o Ministério Público do Rio de Janeiro maneja dados do Coaf para apurar o que o primogênito Flávio Bolsonaro fez no verão passado.
O Congresso devolveu para Paulo Guedes, ministro da Economia, a engrenagem do Coaf. Dizia-se que Guedes manteria intacta a equipe de Moro. Quem acreditou fez papel de bobo. Bolsonaro encomendou a cabeça de Roberto Leonel, um auditor fiscal que Moro colocou no comando do Coaf. Leonel ousou criticar decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo, que aproveitou um recurso de Flávio Bolsonaro para suspender investigações fornidas com dados do Coaf.
Digamos que há alguns meses Sergio Moro tivesse uma biografia impecável, estabilidade no emprego, um pacote anticrime, uma promessa de poltrona no Supremo Tribunal Federal e uma mulher chamada Rosângela. Hoje, o ministro precisa levar flores diariamente para Rosângela. Ela pode ser a única coisa que lhe resta. Quanto a Bolsonaro, embora o capitão ainda não tenha notado, seu comportamento deixa seu discurso sem nexo.
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