sexta-feira, 7 de junho de 2019
Na contramão a 100 km/h
Para o presidente da Comissão da Reforma da Previdência, Marcelo Ramos (PL), ele “não tem noção de prioridade e do que é importante para o País”. Além de “flexibilizar” a posse e o porte de armas, Bolsonaro levou orgulhosamente ao Congresso um projeto leniente com infratores e infrações de trânsito – um grande assassino no mundo. No Brasil, foram 35,3 mil mortes e 180 mil internações só em 2017.
Japão, Canadá, França e Espanha reduziram a mais da metade as mortes no trânsito. Como? Com educação, abordagem policial e penas duras para infratores. E o Brasil? Se depender do presidente da República, o Brasil vai na contramão, a mais de 100 km/h. Os radares estão ameaçados e os maus motoristas poderão cometer o dobro das barbaridades até perder a carteira, não terão de se preocupar com cadeirinhas e estarão livres de comprovar que não usaram algum tipo de droga, mesmo que dirijam ônibus e caminhões.

Não satisfeito com a reação, o presidente engatou a segunda e disse que, por ele, os pontos para cassar a carteira não deveriam ser “só” 40, mas 60. Divirtam-se os que pisam no acelerador, avançam o sinal, estacionam em calçadas e vagas de idosos e deficientes.
É possível que a base eleitoral de Bolsonaro ache tudo isso o maior barato, mas esse barato pode custar muito caro – em vidas humanas, em lesões irreversíveis e em custos para o sistema público de saúde, já tão depauperado.
Essas medidas, porém, combinam com a leniência de Bolsonaro em outras áreas, como Meio Ambiente. Pescar em áreas protegidas pode, desmatar fica mais fácil, transformar santuários em “Cancúns” está no horizonte, a carreira de agente ambiental corre risco. Ambientalistas são tratados como esquerdistas que atravancam o progresso, um perigo para o Ocidente.
Direitos Humanos? Deve ser coisa de gente que estuda Sociologia, Filosofia, Antropologia, vistas como inutilidades que alimentam a “balbúrdia” nas universidades públicas, aliás, elas próprias alvo da tesoura ideológica implacável do novo governo. E temos a ministra Damares e o chanceler Araújo, com o guru Olavo de Carvalho, pairando sobre tudo e todos.
E Bolsonaro tinha de declarar apoio ao craque Neymar, acusado de estupro e agressões por uma moça? “Ele está em um momento difícil, mas acredito nele. Neymar, hoje à noite estamos juntos!”, avisou o presidente, antes de ir ao jogo Brasil-Catar e visitar o jogador num hospital em Brasília.
Não se deve demonizar nem santificar Neymar, mas vai... numa mesa de bar, qualquer um pode achar que Neymar é culpado ou inocente e que a moça é isso e aquilo, mas um presidente da República? Ele assistiu à cena? Ouviu Neymar? A moça? Teve acesso aos autos? Tem informação de bastidores?
Verdade ou não, a mensagem subliminar do presidente é que ele não acha nada demais um estuprozinho daqui, uma agressãozinha dali. Afinal, minimizou a gravidade da situação, assumiu sem pestanejar a versão do craque e desqualificou a moça. Homens sempre têm razão.
Espantado com as mudanças propostas por Bolsonaro, o criador e presidente por dez anos da Frente do Trânsito da Câmara, ex-deputado Beto Albuquerque (PSB), acusa: “O Brasil está na contramão, ou andando de marcha a ré”. Não é só no trânsito, deputado!
Brasil regride nas armas, no trânsito, no ambiente, nos costumes, até no bom senso.
Governo do capitão sob rédea curta
Uma vez que o presidente Jair Bolsonaro o mantém à distância e o trata como se fosse um mero carimbador de suas vontades, o Congresso decidiu reagir. Não quer por bem compartilhar o poder? Será obrigado por mal a fazê-lo, e aguente as consequências.
Com ou sem ideias para tanto, Bolsonaro governará, mas sob rédea curta. A reforma da Previdência será aprovada não porque ele quer, mas porque o Congresso concorda que fora dela não há salvação. O governo tem pressa para votá-la? O Congresso menos.
O governo tem pressa para aprovar o pacote de leis anticrime do ministro Sérgio Moro, da Justiça e da Segurança Pública? Nesse caso, a pressa do Congresso é nenhuma. O que sair dali no final lembrará pouco o que foi recebido.
Foi posto para esfriar o projeto que facilita a compra e o porte de armas. Ele será modificado. Igual destino terá a proposta do novo e permissivo Código de Trânsito. Como afrouxar regras no quarto país do mundo onde o trânsito mata mais?
Quanto mais liberdade tiver para editar Medidas Provisórias (MPs), melhor para o governo. Pois o Congresso adotou um novo rito para a tramitação das MPs na contramão do que queria o governo. Adeus aos penduricalhos estranhos que antes elas podiam carregar.
Orçamento da União de mentirinha? Aquele que o Congresso aprovava e o governo fingia cumprir? Não. Pelo menos emendas ao Orçamento apresentadas por bancadas estaduais terão que ser respeitadas. É o tal do Orçamento da União Impositivo.
O governo pediu ao Congresso a aprovação de um crédito suplementar no valor de R$ 248 bilhões. Só assim não lhe faltará dinheiro para pagar suas contas. Será atendido, mas devagar. E não no valor que pediu. Vida que segue.
Audácia, empáfica, presunção e ignorância
Neymar Jr é considerado um grande jogador de futebol. Venceu etapas importantes em sua carreira. Eu não entendo nada de futebol, apenas repito, tal qual um papagaio, o que ouço dizerem desse jovem atleta.
Mas sobre esse episódio recente em Paris, longe dos gramados, não estou repetindo a opinião de ninguém. Digo o que penso depois de ler ou ouvir todos os depoimentos sobre o encontro desses dois brasileiros no hotel Sofitel, em Paris.
Primeiro vamos à figura da mulher que escreve para o jogador, homem famoso por seu talento nos campos de futebol. Ela não o conhece pessoalmente, nunca trocaram ao menos um aperto de mão, mas cismou que tem que ter relações sexuais com ele. Não sabe se é sexy, se com ele sua pele fará clique. Ela só sabe que ele é bom nos gramados e que por esse talento recebe fortunas. Mostra ser uma mulher, digamos, audaciosa.
Neymar dela só sabe o que ela lhe garante na mensagem em que se oferece para transar com ele: que ela vale por quatro e que, portanto, valerá a pena pagar-lhe uma viagem Rio/Paris/Rio e sua hospedagem.
Neymar, concluo, sofre de empáfia. Como assim? Ao constatar que ele não duvida da ansiedade dela em estar com ele para transarem livremente. Duvidar por que, se ele se acha o máximo? Sua arrogância é de tal ordem que ele acha muito possível que ela largue o filho aqui no Rio, com o ex-marido (pai do menino), para poder passar uns dias em Paris transando com seu ídolo.
Não é o caso de dizer: ‘Vá ser presunçoso assim no inferno?’ Mas eu vou além disso: arrogante e presunçoso, sim. Mas também ignorante já que não lhe ocorre que o encontro com essa moça deve ser tratado com algum cuidado, dado o fato de sua fortuna ser o objeto do desejo de muita gente. Sendo assim, todo cuidado é pouco!
De uns tempos para cá relatos de estupro têm feito vítimas em muitos lugares do mundo. Se a mulher é atacada em sua cama, em casa, na rua, numa festa, num encontro em algum parque, ou seja, em determinadas circunstâncias e em lugares onde ela está desprotegida, em perigo, é preciso além de não duvidar da queixa interceder para que a PF examine com muito cuidado para concluir pela verdade. E se o estupro for comprovado, que o estuprador seja julgado e condenado com a seriedade que o fato exige.
Mas num caso estranho como esse num quarto em Paris, vamos ser francos: tem algo nessa história que não bate. Posso acreditar numa mulher que se queixa de agressões e de violência sexual num dia, mas convida o agressor para um segundo encontro no dia seguinte, alegando que fez isso para conseguir provas do ocorrido no dia anterior? E não é que ele comparece ao segundo encontro, no qual é filmado, como se vê num vídeo que, francamente, dá até aflição assistir?
Dá para acreditar numa mulher que vai preparada para uma noite de sexo levando um celular para filmar os dois em ação, mas se esquece de levar preservativos?
E num homem milionário que se sabe muito visado e que vai a um encontro com uma mulher que nunca viu, sem levar preservativos?
Amigos, sinto muito, mas esse roteiro não está bom.
Mas sobre esse episódio recente em Paris, longe dos gramados, não estou repetindo a opinião de ninguém. Digo o que penso depois de ler ou ouvir todos os depoimentos sobre o encontro desses dois brasileiros no hotel Sofitel, em Paris.
Primeiro vamos à figura da mulher que escreve para o jogador, homem famoso por seu talento nos campos de futebol. Ela não o conhece pessoalmente, nunca trocaram ao menos um aperto de mão, mas cismou que tem que ter relações sexuais com ele. Não sabe se é sexy, se com ele sua pele fará clique. Ela só sabe que ele é bom nos gramados e que por esse talento recebe fortunas. Mostra ser uma mulher, digamos, audaciosa.
Neymar dela só sabe o que ela lhe garante na mensagem em que se oferece para transar com ele: que ela vale por quatro e que, portanto, valerá a pena pagar-lhe uma viagem Rio/Paris/Rio e sua hospedagem.
Neymar, concluo, sofre de empáfia. Como assim? Ao constatar que ele não duvida da ansiedade dela em estar com ele para transarem livremente. Duvidar por que, se ele se acha o máximo? Sua arrogância é de tal ordem que ele acha muito possível que ela largue o filho aqui no Rio, com o ex-marido (pai do menino), para poder passar uns dias em Paris transando com seu ídolo.
Não é o caso de dizer: ‘Vá ser presunçoso assim no inferno?’ Mas eu vou além disso: arrogante e presunçoso, sim. Mas também ignorante já que não lhe ocorre que o encontro com essa moça deve ser tratado com algum cuidado, dado o fato de sua fortuna ser o objeto do desejo de muita gente. Sendo assim, todo cuidado é pouco!
De uns tempos para cá relatos de estupro têm feito vítimas em muitos lugares do mundo. Se a mulher é atacada em sua cama, em casa, na rua, numa festa, num encontro em algum parque, ou seja, em determinadas circunstâncias e em lugares onde ela está desprotegida, em perigo, é preciso além de não duvidar da queixa interceder para que a PF examine com muito cuidado para concluir pela verdade. E se o estupro for comprovado, que o estuprador seja julgado e condenado com a seriedade que o fato exige.
Mas num caso estranho como esse num quarto em Paris, vamos ser francos: tem algo nessa história que não bate. Posso acreditar numa mulher que se queixa de agressões e de violência sexual num dia, mas convida o agressor para um segundo encontro no dia seguinte, alegando que fez isso para conseguir provas do ocorrido no dia anterior? E não é que ele comparece ao segundo encontro, no qual é filmado, como se vê num vídeo que, francamente, dá até aflição assistir?
Dá para acreditar numa mulher que vai preparada para uma noite de sexo levando um celular para filmar os dois em ação, mas se esquece de levar preservativos?
E num homem milionário que se sabe muito visado e que vai a um encontro com uma mulher que nunca viu, sem levar preservativos?
Amigos, sinto muito, mas esse roteiro não está bom.
Capitalismo sem ética não é capitalismo, é crime organizado
Por seu lado, os que ouvem esse dizer indizente estão mais confusos do que suportam, acostumados que estavam com uma linguagem simples e clara que todos conheciam. A nova linguagem é a da incerteza com que nos fazem pensar sem querer e querer sem pensar. O real está desencaixado, anômico.
Essa linguagem nos tem sido apresentada como se fosse a de uma nova era, direita e de direita, contra uma era só de esquerda. Mas estamos confusos até mesmo quanto ao que quer dizer direita e, mais ainda, quanto ao que quer dizer esquerda. Fica evidente que quem perdeu o poder, perdeu-o porque sua fala foi esvaziada pelo desenraizamento. Em todas as eleições dos últimos anos, as esquerdas foram derrotadas porque não sabiam dizer o que eram. Nem ao que vinham. Perderam-se no desencontro entre linguagem e alianças esquisitas.
A confusa direita acabou revelando que é de direita sem saber o que a direita é, votada por um eleitorado que tampouco o sabe. Tudo o que as esquerdas e o centro fizeram no poder passou a ser avaliado e concebido como o que deveria ser banido eleitoralmente. O não dessa direita é apenas um não sem um sim alternativo.
Os partidos, de esquerda e de direita, esqueceram-se de que a classe média é apenas média. Como toda média, é apenas um ponto na escala de vacilações da sociedade. Para a classe média, direita é o setor político que pode saciar o que a esquerda não lhe deu, no muito mais de sua voracidade, do que queria e até do que a esquerda dissera que carecia.
Essa direita, que não é uma convicção político-ideológica, é em boa parte apenas disposição para seguir quem personifica os urros do ressentimento. Esta confusa direita do poder foi criada na corrosão dos partidos no processo eleitoral, que emergiu das urnas com uma cara desconhecida, sem doutrina nem direção.
Portanto, nesse vocabulário dominado pela incerteza, os significados vão sendo inventados de um dia para o outro. Vários dos membros do governo não têm hoje, sobre o próprio governo, as mesmas certezas que diziam ter no dia 1º de janeiro. Mesmo o presidente da República vem desenvolvendo a peculiar linguagem de desdizer no dia seguinte o que dissera no dia anterior. O vocabulário da dúvida está implantado na alma do poder. É uma técnica antidemocrática de dominação.
Não só lá, mas também nos diferentes âmbitos da sociedade. Num grupo de conversação, testemunhei alguém dizer que a coisa está ficando preta. Na hora, alguém da seita dos politicamente corretos reagiu e repreendeu quem dissera a verdade ao definir a situação com a cor que melhor cabia. "Isso é racismo", acrescentou.
As nuvens negras anunciadoras de temporal, raiz desse dito popular, são apenas nuvens negras. Na boa e quase sempre correta e poética meteorologia popular, esse dito não ofende ninguém, não discrimina as nuvens e nada diz além do fato de que, provavelmente, vai cair um temporal. Ou, em português claro: vai chover, independentemente da cor de quem prognostica ou a de quem se molhará.
Nesse quadro de mudança de sentido das palavras, no incômodo que nos provoca o fato de que o que dizemos já não é o que queremos dizer, há um efeito desconstrutivo e revelador, formador de consciência social e política: capitalismo sem ética não é capitalismo - é crime organizado. Por isso está mais nas páginas policiais dos jornais do que nas páginas econômicas.
Economia que gera 13 milhões de desempregados e fome não é fruto de ciência e competência empresarial, é falta de respeito pelo outro. Partido político sem ética não é partido político: é quadrilha. Por isso, alguns dos nossos estão mais nas mesmas páginas policiais do que nas páginas políticas. Movimentos sociais que não reconhecem o direito à singularidade do outro não são movimentos sociais: são hordas. Por isso escaparam da linha reta do possível para cair prisioneiros do aparelhismo partidário, o peleguismo carneiril da renúncia ao protagonismo histórico a que os simples têm direito.
Socialismo sem liberdade de pensamento, de crítica, de individualidade, de discordância, não é socialismo: é barbárie. Democracia em que todos são iguais perante a lei, mas em que alguns são mais iguais, os de "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, não é democracia. É usurpação política. Governo em que os governantes se acham acima da lei e da ordem não é governo, é golpe.
José de Souza Martins
O revólver e a cadeirinha
O dado está no Atlas da Violência, divulgado ontem pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O estudo mostra que as armas são de longe o principal instrumento da morte no país. Foram usadas em 72,4% dos assassinatos.
Os pesquisadores afirmam que a tragédia poderia ser ainda maior. Desde 2003, o índice de mortes por armas de fogo sobe em média 0,85% ao ano. Antes disso, o ritmo de crescimento era seis vezes maior. O motivo do recuo foi o Estatuto do Desarmamento, que dificultou a tarefa de apertar o gatilho.
O Atlas cita fatos e dados que contrariam o discurso armamentista que ganhou força em Brasília. “Há consenso na literatura científica internacional sobre os efeitos perniciosos da difusão de armas de fogo na sociedade”, afirma o documento.
Um estudo de Daniel Cerqueira, do Ipea, mostra que o aumento de 1% na quantidade de armas em circulação produz um aumento de 2% no índice de homicídios. Duas teses de doutorado apresentadas na USP e na FGV chegaram à mesma conclusão.
“Se o Estatuto do Desarmamento funcionou como um freio dos homicídios no Brasil, hoje nós vemos a situação mudando com uma flexibilização total sobre arma de fogo”, alertou Cerqueira.
Os números do Atlas deveriam convencer os políticos a reforçarem o controle sobre as armas. No Brasil de 2019, ocorre o contrário. O presidente decidiu afrouxar a lei qualquer base científica. Disse apenas que o “cidadão de bem” tem direito ao próprio revólver.
O desprezo pelas estatísticas também está por trás da decisão de acabar com a multa para os motoristas que se recusam a usar a cadeirinha. As mortes de bebês e crianças no trânsito caíram 60% depois de 2008, quando a regra atual entrou em vigor. Entre a retórica do palanque e a responsabilidade de preservar vidas, o governo aposta no que dá mais votos.
A arrancada de Bolsonaro

Ocorre que é o nó político que precisa ser desatado quando se pensa em qualquer questão fundamental: gastos públicos, reforma tributária, insegurança jurídica. Goste-se ou não das escolhas consolidadas nas urnas em outubro, é obrigatório reconhecer que a onda disruptiva tornou ainda mais precário o funcionamento de um sistema de governo que opõe um chefe do Executivo muito forte a um Legislativo cheio de prerrogativas, mas fracionado e com partidos políticos que, em sua maioria, nem merecem esse nome. Receita para um desgaste permanente, de parte a parte.
Em outras palavras, a transformação empurrada em boa parte pelo lavajatismo, e seu esforço em estabelecer um controle externo ao sistema político, agravou o fator de crise “estrutural” das instâncias que se mostram há muito tempo incapazes de lidar com questões como a fiscal – para falar apenas do problema mais agudo de curtíssimo prazo. O fenômeno é de amplo alcance e transcende os nomes de Jair e Rodrigo (e de Toffoli também). Daí a forte desconfiança (total descrédito talvez fosse a melhor expressão) com que foi recebido o tal “pacto entre Poderes”. Fatores de longo e curto prazos combinaram-se para a atual tempestade perfeita.
Essa tempestade se caracteriza pela imensa dificuldade percebida em “arrancar” em alguma direção – e não é por falta de diagnóstico ou de palavras. O ministro da Economia, Paulo Guedes, foi apenas o último a dizer, na Câmara, na terça-feira, que a economia está estagnada há muito tempo, que, sem reformas (além da Previdência), o País não cresce, que a jovem força de trabalho precisa de emprego e aumento de produtividade. E que ele preferia um novo pacto federativo, descentralizador.
O problema é a percepção de que pouco acontece nessa direção. Talvez voluntariamente Guedes expresse uma noção que se amplia nas elites. O de que o nó político é muito mais do que o “toma lá, dá cá” nas relações entre Executivo e Legislativo, nas quais se concentra o já monótono noticiário político de cada dez minutos. Que a corrupção é um problema importante, mas nem sequer o pior. Que a insegurança jurídica, além dos problemas velhos do Judiciário, vem também de decisões políticas do Supremo. E que no público em geral, descrente das instituições (inclusive imprensa), cresce uma raivosa impaciência em relação a “tudo”.
Jair Bolsonaro pode achar que essa raiva lhe favorece no ímpeto declarado de romper o nó político. Por ele entendido até aqui na acepção mais reduzida, a do “toma lá, da cá”. Conscientemente ou não, é formidável o dilema no qual o presidente se colocou: respeitar e ao mesmo tempo desprezar as regras do “sistema” político – que está falido na sua acepção mais ampla. Se ele acha que o dilema tem saída, ainda não deixou exatamente claro com quais meios, além dos apelos à sua base fiel. Nesta semana, quando atravessou a Esplanada e foi ao Congresso, foi falar de pontos na carteira de motorista.
Enquanto a “arrancada” da estagnação política e econômica sugerida pelos eventos de 2018 está se fazendo esperar.
Mapa da morte prova que não existe solução fácil para violência
Segundo o levantamento do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de assassinatos no país chegou a 65 mil em 2017. A taxa de homicídios cresceu 24% em uma década. A matança foi puxada pelas regiões Norte e Nordeste, onde o índice saltou 68%.
Os pesquisadores atribuem os números ao aumento da renda nesses estados —o que estimula o mercado ilegal da droga— e à guerra entre facções criminosas. Grupos que agiam no Sudeste expandiram suas atividades pelo Brasil e entraram em conflito com quadrilhas locais.
Nenhum governante pode se dizer surpreso. O descontrole sobre o tráfico é tratado como parte da rotina dos estados e continua sem resposta.
Os coordenadores do estudo apontam que a maioria dos homicídios jamais é elucidada e fica, portanto, sem punição. Enquanto isso, medidas como o aumento de penas para o narcotráfico, inserido na lei em 2006, não tiveram efeitos visíveis.
Cresceu também o número de assassinatos de mulheres. Foram 1.407 homicídios dentro de casa, um aumento de 38% em dez anos. A pesquisa aponta ainda uma alta das mortes por arma de fogo nesses casos.
Na apresentação dos dados, o presidente do Ipea quis fazer um “reparo” ao estudo. “Como cidadão, me incomoda a impossibilidade de o cidadão de bem ter uma forma de defender a integridade física, de sua propriedade e da sua família”, disse Carlos von Doellinger. Seria melhor que ele olhasse os números com atenção.
Se é para destruir...
Somos isto e aquilo, e excelentes destruidores dos bens que temosJosé Saramago, "Viagem a Portugal"
Bolsonaro, Witzel e Crivella, os comediantes
A comédia é uma arte nobre, que exige talento e espírito (auto)crítico e tem enorme poder de destruição pelo ridículo e pelo riso, muitas vezes, mais contundente do que qualquer discurso político. Não se confunde com palhaçada, que também tem seu valor, mas é mais tosca e ingênua.
O “sinistro” da Educação merecia ser processado pela família de Gene Kelly pela paródia canhestra de “Singin’in the rain” para atacar supostas fake news sobre cortes de verbas, que o expôs ao ridículo até para apoiadores do governo. Queria ser lúdico e didático e foi patético. O fake era ele.
Tentou uma estapafúrdia metáfora cacaueira para mostrar que de cem chocolates do orçamento ele estava tirando só três e uma mordida — para serem comidos em setembro. Mas Bolsonaro não perdeu a chance: “Você não vai sair daqui levando esse pacote de chocolate, não! Tá confiscado 30% aí”.
Bolsonaro é um manancial inesgotável de piadas, intencionais ou não, que vão do pênis dos japoneses a ter mais tinta na sua caneta do que Rodrigo Maia. Só faltou dizer que sua caneta era maior.
Desde Freud já se sabe que atrás de cada piada ou “brincadeira” há um fundo de verdade, que não pode ser dita “a sério”, e se disfarça de humor para se proteger das consequências. E esconder o rancor.
Mas quando ele e seu chanceler dizem que o nazismo e o fascismo eram de esquerda, não estão brincando. Brincadeira seria chamar a Rússia stalinista de direita.
O governador Witzel protagonizou um esquete dos Trapalhões, só que sem o talento deles. Como um Rambo de araque, de metralhadora na mão e sangue nos olhos, marchou para o helicóptero da PM gritando ameaças de morte aos traficantes.
Acabaram metralhando por engano uma tenda de orações vazia e dois dias depois os traficantes reapareceram na TV dominando a área. Gargalhadas no auditório.
#CrivellaNosDáSaudadeDosNossosPioresPrefeitos também se acha um comediante. A última foi que mulheres não entendem de futebol, mas elas acham que é ele que não entende de prefeitura. Nem de mulheres.
O “sinistro” da Educação merecia ser processado pela família de Gene Kelly pela paródia canhestra de “Singin’in the rain” para atacar supostas fake news sobre cortes de verbas, que o expôs ao ridículo até para apoiadores do governo. Queria ser lúdico e didático e foi patético. O fake era ele.
Tentou uma estapafúrdia metáfora cacaueira para mostrar que de cem chocolates do orçamento ele estava tirando só três e uma mordida — para serem comidos em setembro. Mas Bolsonaro não perdeu a chance: “Você não vai sair daqui levando esse pacote de chocolate, não! Tá confiscado 30% aí”.
Bolsonaro é um manancial inesgotável de piadas, intencionais ou não, que vão do pênis dos japoneses a ter mais tinta na sua caneta do que Rodrigo Maia. Só faltou dizer que sua caneta era maior.
Desde Freud já se sabe que atrás de cada piada ou “brincadeira” há um fundo de verdade, que não pode ser dita “a sério”, e se disfarça de humor para se proteger das consequências. E esconder o rancor.
Mas quando ele e seu chanceler dizem que o nazismo e o fascismo eram de esquerda, não estão brincando. Brincadeira seria chamar a Rússia stalinista de direita.
O governador Witzel protagonizou um esquete dos Trapalhões, só que sem o talento deles. Como um Rambo de araque, de metralhadora na mão e sangue nos olhos, marchou para o helicóptero da PM gritando ameaças de morte aos traficantes.
Acabaram metralhando por engano uma tenda de orações vazia e dois dias depois os traficantes reapareceram na TV dominando a área. Gargalhadas no auditório.
#CrivellaNosDáSaudadeDosNossosPioresPrefeitos também se acha um comediante. A última foi que mulheres não entendem de futebol, mas elas acham que é ele que não entende de prefeitura. Nem de mulheres.
Brasil perde jovens para violência em patamar de países como Haiti
O Brasil registrou 65.602 homicídios no ano retrasado, um aumento de 4,2% em relação ao ano anterior e, o mais preocupante, um número recorde que equivale a 31,6 mortes para cada 100 mil habitantes - mais do dobro, por exemplo, da taxa de homicídios do Iraque em 2015 (ano mais recente com estatísticas da OMS, a Organização Mundial da Saúde).

A OMS considera epidêmicas taxas de homicídio superiores a 10 homicídios a cada 100 mil habitantes.
E, levando-se em conta apenas os dados da violência contra jovens, o cenário é ainda pior: entre os 65,6 mil de homicídios no Brasil em 2017, mais da metade - ou 35.783 - vitimaram pessoas entre 15 a 29 anos, o que leva o Ipea e o FBSP a falarem em uma "juventude perdida por mortes precoces".
Considerando-se apenas essa faixa etária, a taxa brasileira de homicídios por 100 mil habitantes sobe para 69,9. É equivalente à taxa de homicídios (70) que o Haiti, país mais pobre das Américas, registrou nessa faixa etária em 2015, segundo o dado mais recente da OMS.
E, se compararmos o dado às taxas gerais dos países, o "Brasil dos jovens" fica atrás apenas de nações de extrema pobreza e crise, como Honduras (85,7 mortes por 100 mil habitantes em 2015) e Venezuela (81,4 por 100 mil habitantes em 2018, segundo o Observatório Venezuelano da Violência).
"O Brasil é um país de nível social médio mas, na segurança pública, convive com padrões semelhantes aos dos países mais violentos do mundo e de instituições frágeis", diz à BBC News Brasil Renato Sergio de Lima, presidente e pesquisador do FBSP.
"A morte prematura de jovens (15 a 29 anos) por homicídio é um fenômeno que tem crescido no Brasil desde a década de 1980", aponta o estudo recém-divulgado, lembrando que essa é uma idade em que as pessoas têm alto potencial produtivo, que acaba sendo desperdiçado. "Além da tragédia humana, os homicídios de jovens geram consequências sobre o desenvolvimento econômico e redundam em substanciais custos para o país."
Levantamento da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo federal de junho de 2018 aponta que o Brasil perde cerca de R$ 550 mil para cada jovem de 13 a 25 anos vítima de homicídio, levando-se em conta o quanto o país deixa de ganhar com a capacidade produtiva (o trabalho) da vítima e os custos de saúde, judiciais e de encarceramento ligados a cada morte.
"A perda cumulativa de capacidade produtiva decorrente de homicídios, entre 1996 e 2015, superou os R$ 450 bilhões de reais", diz o texto.
De volta ao relatório do Ipea, traçando um perfil dos casos de homicídios em 2017, identificou-se o seguinte:
- 91,8% das vítimas são homens. Desses, 77% são mortos por armas de fogo;
- 75,5% são negras;
- O pico de mortes é aos 21 anos de idade;
- A maior parte das vítimas tem baixa escolaridade (ensino fundamental incompleto);
- A maioria das mortes tem se concentrado em 12 Estados do Norte e do Nordeste, muitos dos quais têm visto a violência crescer exponencialmente, na contramão de 15 dos Estados do Centro-Oeste, Sul e Sudeste, onde os índices de mortes têm diminuído.
quinta-feira, 6 de junho de 2019
Ainda vivo e necessário
Na realidade, aquilo que Guedes chama de social-democracia foi uma visão generosa de país gestada na luta contra o autoritarismo e cristalizada na Constituição de 1988.

Tratava-se de compatibilizar competição política, liberdades individuais e políticas públicas que reduzissem a pobreza e as múltiplas desigualdades —de renda bem como de acesso a direitos civis e sociais.
Com muito ensaio-e-erro, a agenda social reformista, implementada tanto por governos tucanos quanto por petistas, mudou o país para melhor: o contingente de pobres encolheu, enquanto os desníveis de toda ordem diminuíram algo.
Mesmo assim, o país está muito longe daquele imaginado pela geração de democratas dos anos 1980. Milhões de pessoas continuam apenas parcialmente cidadãs, sobrevivendo nas fronteiras do salário mínimo, vítimas de desrespeitos múltiplos.
Têm razão os que advertem que a expansão do gasto social nos termos em que se deu sob os governos do PSDB, e especialmente do PT, chegou ao limite por volta de 2014.
Fosse a política dos governos petistas menos focalizada no curto prazo e no êxito fácil, a bonança dos anos 2000 poderia ter sido aproveitada para promover reformas progressistas, especialmente na Previdência Social e na legislação trabalhista.
Mas sobram razões para duvidar de que as propostas ultraliberais do ministro sirvam à construção de uma sociedade minimamente decente.
Estão aí as mudanças contidas no projeto da reforma da Previdência relativas à aposentadoria rural, ao Benefício de Prestação Continuadae, sobretudo, à criação do regime de capitalização. Está aí a proposta, hoje meio esquecida, da carteira verde amarela de minguados direitos para o trabalhador.
Na verdade, o liberalismo do ministro e seus seguidores é mais próximo do darwinismo social do século 19 —com a exumação do mercado desregulado e do cada um por si— do que do liberalismo temperado, que foi um dos ingredientes do progresso social europeu ocidental, no segundo pós-guerra. Equivale a abrir mão da perspectiva de um país mais coeso porque menos iníquo.
Mudanças no sistema previdenciário e em outras políticas sociais, atentas às limitações fiscais, são necessárias e urgentes. Mas há outras respostas possíveis nos marcos de um reformismo social renovado, que continua tão vivo quanto necessário. Espera-se das oposições trazê-las à luz.Maria Hermínia Tavares de Almeida:
Mesmo assim, o país está muito longe daquele imaginado pela geração de democratas dos anos 1980. Milhões de pessoas continuam apenas parcialmente cidadãs, sobrevivendo nas fronteiras do salário mínimo, vítimas de desrespeitos múltiplos.
Têm razão os que advertem que a expansão do gasto social nos termos em que se deu sob os governos do PSDB, e especialmente do PT, chegou ao limite por volta de 2014.
Fosse a política dos governos petistas menos focalizada no curto prazo e no êxito fácil, a bonança dos anos 2000 poderia ter sido aproveitada para promover reformas progressistas, especialmente na Previdência Social e na legislação trabalhista.
Mas sobram razões para duvidar de que as propostas ultraliberais do ministro sirvam à construção de uma sociedade minimamente decente.
Estão aí as mudanças contidas no projeto da reforma da Previdência relativas à aposentadoria rural, ao Benefício de Prestação Continuadae, sobretudo, à criação do regime de capitalização. Está aí a proposta, hoje meio esquecida, da carteira verde amarela de minguados direitos para o trabalhador.
Na verdade, o liberalismo do ministro e seus seguidores é mais próximo do darwinismo social do século 19 —com a exumação do mercado desregulado e do cada um por si— do que do liberalismo temperado, que foi um dos ingredientes do progresso social europeu ocidental, no segundo pós-guerra. Equivale a abrir mão da perspectiva de um país mais coeso porque menos iníquo.
Mudanças no sistema previdenciário e em outras políticas sociais, atentas às limitações fiscais, são necessárias e urgentes. Mas há outras respostas possíveis nos marcos de um reformismo social renovado, que continua tão vivo quanto necessário. Espera-se das oposições trazê-las à luz.Maria Hermínia Tavares de Almeida:
Bolsonaro leva gestão para trás, não para direita
Jair Bolsonaro não leva o seu governo para a direita. Na economia, leva-o para baixo. Nas outras áreas, para trás. Por decreto, afrouxou o controle de armas e munições num instante em que cresce o número de mortos a bala. Por projeto de lei, sugere que sejam premiados os motoristas infratores num país que ocupa a quarta colocação no ranking mundial das mortes no trânsito. Com o decreto, esquartejou o Estatuto do Desarmamento. Com o projeto, tenta esmigalhar o Código Nacional do Trânsito.
Dizer que o presidente assumiu o volante sem definir um itinerário não traduz adequadamente o que se passa. Sabia-se que o capitão rumava para a direita. Mas não se imaginou que faria uma opção preferencial pela contramão. Imaginou-se menos ainda que governaria em marcha à ré.
Alega-se que a volta ao passado foi avalizada pelas urnas. Conversa fiada. No segundo turno, o eleitorado de Bolsonaro foi tonificado pelo voto de pessoas que não admitiam votar de jeito nenhum no adversário Fernando Haddad. Elegeram o rival do flagelo petista, não o demolidor de marcos civilizatórios.
Argumenta-se, de resto, que Bolsonaro apenas assegura direitos. Com as armas, o direito do brasileiro à autodefesa. Com os mimos aos infratores, o direito ao trabalho de categorias como os caminhoneiros, penalizados a granel. Ignora-se o essencial: na escala de direitos, a sociedade prevalece sobre o indivíduo. Sobretudo quando a vida alheia está em jogo.
Armar civis não elimina a matança que produz 65 mil cadáveres por ano. Elevar o número de pontos para a perda da carteira não injeta responsabilidade na cabeça do mau motorista. Eliminar o exame toxicológico de caminhoneiros não resolve o drama da sobrecarga de trabalho. Acabar com a multa para o transporte irregular de crianças não melhora os pais. É como se Bolsonaro quisesse tratar o câncer destruindo os exames.
O furor retroativo do presidente deixa mal até os seus melhores ministros. Ao justificar os retrocessos no trânsito, Tarcísio de Freitas, titular da pasta da Infraestrutura, declarou: "O Código já é antigo. Tem mais de 20 anos. Ele necessita de atualização". Ora, o hábito de comer ovo frito também é antigo. E não há na praça ninguém sugerindo às pessoas que comecem a desfritar ovos.
Tarcísio prosseguiu: "Dois terços das penalidades do Código Brasileiro de Trânsito são graves e gravíssimas. Acaba sendo muito fácil o cidadão perder a carteira, atingir a pontuação. E isso tem se mostrado ineficaz, porque os Detrans não conseguem operacionalizar os processos para a suspensão do direito de dirigir." Não seria o caso de aparelhar os Detrans para assegurar as punições?
Enquanto Bolsonaro desperdiça energia com a volta ao passado, deixa de se concentrar nos projetos que apontam para o futuro, como a reforma da Previdência. Costuma dizer que o caos econômico não é obra do atual governo. Verdade. Mas a perda de tempo já puxou para baixo o PIB no primeiro trimestre. O crescimento econômico de 2019 foi para o saco, como se diz. O capitão logo estará na alça de mira. Se bobear, acaba atropelado pelas circunstâncias.
Manifesto pela Educação
A obtusa visão do presidente Jair Bolsonaro sobre educação é tão perniciosa que anima vozes dos mais diferentes matizes político-ideológicos, tidas como irreconciliáveis, a sair em uníssono em defesa de uma área que está na espinha dorsal de qualquer plano para o desenvolvimento do Brasil que se pretende sério.
Reunidos na Universidade de São Paulo (USP) na terça-feira passada, seis ex-ministros da Educação assinaram um manifesto no qual declaram ter “grande preocupação” com as políticas adotadas pelo governo federal para a área. No entender dos signatários, estas podem produzir “efeitos irreversíveis e até fatais” num futuro não muito distante.
O grupo – do qual fazem parte José Goldemberg (1991-1992, governo de Fernando Collor), Murilio Hingel (1992-1995, Itamar Franco), Cristovam Buarque (2003-2004, Lula), Fernando Haddad (2005-2012, Lula e Dilma Rousseff), Aloizio Mercadante (2012-2014 e 2015-2016, Dilma Rousseff) e Renato Janine Ribeiro (2015, Dilma Rousseff) – afirma que a área da educação é vista como uma “ameaça” por Jair Bolsonaro. “A educação se tornou a grande esperança, a grande promessa da nacionalidade e da democracia. Com espanto, porém, vemos que, no atual governo, ela é apresentada como ameaça”, lê-se num trecho do manifesto assinado pelos ex-ministros.
É possível enumerar pontos positivos e negativos na gestão de cada um dos signatários do manifesto à frente da pasta da Educação, alguns deles, a bem da verdade, com mais erros do que acertos. Mas isto não vem ao caso. O que merece nota é o fato de todos eles, acertando ou errando, terem afinidade com a área da educação. Conhecem as necessidades da pasta e, sobretudo, não negam o papel fundamental da educação como um dos pilares de políticas públicas benfazejas que podem tirar o País desse longo e inaceitável atraso no qual nos encontramos.
O presidente Jair Bolsonaro, se vê alguma coisa, é o exato oposto. Quando se manifesta sobre temas relacionados à educação, abre as comportas de uma usina de preconceitos e desconhecimento. Comete erros factuais inaceitáveis para quem ocupa o mais alto cargo do Poder Executivo federal (ver editorial Como Bolsonaro vê a educação, publicado em 4/5/2019).
Seu desapreço por uma área que enxerga apenas como o front de uma batalha ideológica, batalha esta que só existe em sua imaginação e na paranoia conspirativa de alguns membros de seu círculo de interlocutores, manifesta-se pelas escolhas que fez até agora para o comando do Ministério da Educação.
O atual ministro, Abraham Weintraub, não satisfeito em amesquinhar políticas públicas voltadas para a educação, insiste em ridicularizar sua própria posição, uma das mais importantes no primeiro escalão da República. Talvez como forma de escamotear sua absoluta incompetência para o cargo de ministro da Educação, Abraham Weintraub vem tentando, pateticamente, manter acesa a chama da militância bolsonarista nas redes sociais por meio de vídeos em que aparece dançando com um guarda-chuva, distribuindo bombons ou tocando gaita. Talvez um dia chegue a vez de vídeos com propostas robustas e bem estruturadas para resolver os crônicos problemas da pasta.
A reunião de ex-ministros da Educação não foi um caso isolado. No mês passado, sete ex-ministros do Meio Ambiente nos governos de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer criticaram, também por um manifesto, o que chamaram de “desmonte” da governança socioambiental e a política do governo de Jair Bolsonaro para a área. De igual forma, 11 ex-ministros da Justiça manifestaram-se contra alguns pontos do decreto que flexibilizou as regras para posse e porte de armas de fogo. Outras críticas também já tinham sido feitas ao projeto anticrime idealizado pelo ministro Sergio Moro.
O presidente Jair Bolsonaro pode receber todas essas manifestações de integrantes de governos passados com desdém ou com humildade. Não só o seu governo, mas o País tem muito a ganhar se a humildade prevalecer.
Reunidos na Universidade de São Paulo (USP) na terça-feira passada, seis ex-ministros da Educação assinaram um manifesto no qual declaram ter “grande preocupação” com as políticas adotadas pelo governo federal para a área. No entender dos signatários, estas podem produzir “efeitos irreversíveis e até fatais” num futuro não muito distante.
O grupo – do qual fazem parte José Goldemberg (1991-1992, governo de Fernando Collor), Murilio Hingel (1992-1995, Itamar Franco), Cristovam Buarque (2003-2004, Lula), Fernando Haddad (2005-2012, Lula e Dilma Rousseff), Aloizio Mercadante (2012-2014 e 2015-2016, Dilma Rousseff) e Renato Janine Ribeiro (2015, Dilma Rousseff) – afirma que a área da educação é vista como uma “ameaça” por Jair Bolsonaro. “A educação se tornou a grande esperança, a grande promessa da nacionalidade e da democracia. Com espanto, porém, vemos que, no atual governo, ela é apresentada como ameaça”, lê-se num trecho do manifesto assinado pelos ex-ministros.
É possível enumerar pontos positivos e negativos na gestão de cada um dos signatários do manifesto à frente da pasta da Educação, alguns deles, a bem da verdade, com mais erros do que acertos. Mas isto não vem ao caso. O que merece nota é o fato de todos eles, acertando ou errando, terem afinidade com a área da educação. Conhecem as necessidades da pasta e, sobretudo, não negam o papel fundamental da educação como um dos pilares de políticas públicas benfazejas que podem tirar o País desse longo e inaceitável atraso no qual nos encontramos.
O presidente Jair Bolsonaro, se vê alguma coisa, é o exato oposto. Quando se manifesta sobre temas relacionados à educação, abre as comportas de uma usina de preconceitos e desconhecimento. Comete erros factuais inaceitáveis para quem ocupa o mais alto cargo do Poder Executivo federal (ver editorial Como Bolsonaro vê a educação, publicado em 4/5/2019).
Seu desapreço por uma área que enxerga apenas como o front de uma batalha ideológica, batalha esta que só existe em sua imaginação e na paranoia conspirativa de alguns membros de seu círculo de interlocutores, manifesta-se pelas escolhas que fez até agora para o comando do Ministério da Educação.
O atual ministro, Abraham Weintraub, não satisfeito em amesquinhar políticas públicas voltadas para a educação, insiste em ridicularizar sua própria posição, uma das mais importantes no primeiro escalão da República. Talvez como forma de escamotear sua absoluta incompetência para o cargo de ministro da Educação, Abraham Weintraub vem tentando, pateticamente, manter acesa a chama da militância bolsonarista nas redes sociais por meio de vídeos em que aparece dançando com um guarda-chuva, distribuindo bombons ou tocando gaita. Talvez um dia chegue a vez de vídeos com propostas robustas e bem estruturadas para resolver os crônicos problemas da pasta.
A reunião de ex-ministros da Educação não foi um caso isolado. No mês passado, sete ex-ministros do Meio Ambiente nos governos de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer criticaram, também por um manifesto, o que chamaram de “desmonte” da governança socioambiental e a política do governo de Jair Bolsonaro para a área. De igual forma, 11 ex-ministros da Justiça manifestaram-se contra alguns pontos do decreto que flexibilizou as regras para posse e porte de armas de fogo. Outras críticas também já tinham sido feitas ao projeto anticrime idealizado pelo ministro Sergio Moro.
O presidente Jair Bolsonaro pode receber todas essas manifestações de integrantes de governos passados com desdém ou com humildade. Não só o seu governo, mas o País tem muito a ganhar se a humildade prevalecer.
Desejo animal de extinção

Nem por isso o governo dá a mínima atenção ao assunto. Desde que assumiu, Bolsonaro defende a flexibilização da legislação, o que resulta no desmonte do sistema de proteção ambiental brasileiro, aperfeiçoado desde 1967, quando a caça de espécies nativas foi proibida. Um conjunto de cinco propostas tramita na Câmara pedindo a liberação da caça esportiva, a criação de reservas particulares de caça, a permissão para a captura, criação e comércio de animais silvestres, a proibição do porte de armas de fogo para fiscais ambientais, a eliminação de penas pesadas para crimes ambientais e poder aos municípios sobre o que pode ser abatido ou capturado. Contrariando as recomendações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, o Ibama, há até o desejo de explorar petróleo perto do Parque Nacional de Abrolhos, no sul da Bahia, que é um berçário de baleias.
“Estamos diante de um amontoado de barbaridades”, diz Warner Bento Filho, do WWF-Brasil. A ONG denuncia que as propostas estão repletas de armadilhas jurídicas. Uma delas mudaria o status dos animais nativos, que se tornariam “bens de domínio público” em vez de “propriedade do estado”. Outro caso ocorreu em abril, quando o Ministério da Agricultura pediu ao do Meio Ambiente que revisse os critérios para a definição de espécies aquáticas ameaçadas.
O tiro inicial pela liberação da caça foi dado em 2016, pelo ex-deputado Valdir Colatto (MDB-SC). No ano passado, ele perdeu sua quarta reeleição consecutiva, mas ganhou a chefia do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), que saiu da pasta do Meio Ambiente e foi parar na Agricultura. Colatto é considerado pelos ambientalistas uma raposa no galinheiro. Ele nega. “Qualquer projeto pode ser aprovado totalmente ou desfigurado”, diz, com razão. Parte dos deputados da Frente Parlamentar Ambientalista quer apenas engavetar o que tramita. É tido como certo que se aprovados, quase tudo será discutido no STF. O apoio popular é questionável. Em 22 de maio, uma pesquisa do Ibope em 142 municípios demonstrou que 93% dos brasileiros são contra a liberação. Nas grandes cidades, a rejeição é de 95%, no interior, 91%. Nas redes sociais, correm manifestos com mais de 500 mil assinaturas.
O temor é que a pressão sobre a fauna aumente apenas para cumprir promessas da campanha presidencial. De acordo com o MMA, os maiores riscos hoje estão no aumento da atividade agrícola, na derrubada de florestas e no crescimento desordenado das cidades. A caça e a captura são o quinto fator de extermínio, atrás também da produção de energia e da poluição, respectivamente. “Ninguém precisa de caça para viver. É uma irresponsabilidade”, reclama a atriz e ativista ambiental Alexia Dechamps. Questionado se haveria algum estudo de impacto, o MMA afirmou em nota que a “questão da caça em unidades de conservação é a pauta de discussões”. É só reler a sentença para perceber a lógica torta. Áreas de conservação não devem ser destinadas ao abate de animais que lá estão para serem mantidos vivos.
Valdir Colatto diz que seu principal objetivo quando parlamentar era o controle de espécies exóticas, como o javali, o javaporco e o lebrão, que exterminam plantações e transmitem doenças. Para a fundadora da Ampara Silvestre, Juliana Camargo, o argumento é só uma desculpa para atirar no que aparecer na frente. Ela cita que das doze suçuaranas libertadas na Mata Atlântica nos últimos quatro anos por órgãos ambientais, oito foram abatidas. Existiriam formas menos brutais de manejo, com captura e esterilização de animais exóticos. “A alternativa ética dá trabalho, mas não é injusta”, diz Juliana.
Há também miopia e até revanchismo. Na terça-feira 28, Bolsonaro voltou a defender a extinção da Estação Ecológica dos Tamoios, em Angra dos Reis (RJ). Para ele, o lugar deveria ser aberto ao turismo de massa. A “nossa Cancún”, disse. Cobrindo só 5% da Baía de Ilha Grande, é um dos locais mais intactos do estado do Rio. Permitir a exploração ali seria ruim até para os pescadores, já que os peixes que os sustentam não teriam onde se reproduzir. O presidente também ignorou que Tamoios é justificada pela necessidade de monitoramento dos reatores da usina nuclear de Angra. Em 2012, Bolsonaro foi multado por pesca ilegal naquelas águas. Ele brigou para não pagar até conseguir a anulação. Em 27 março, o fiscal que o flagrou foi exonerado. José Augusto Morelli perdeu o cargo de chefe de operações do Ibama e se diz perseguido por ter cumprido a lei.
Disputas entre a Câmara e o Senado acabaram por alterar o Código Florestal, contrariando o Executivo. Como os senadores não gostam de prazos curtos para a votação das medidas provisórias vindas da Câmara, resolveram retaliar na quarta-feira 29, anunciando que vão ignorar solenemente a votação que alteraria a legislação ambiental. Como a MP que desobrigaria os produtores rurais a recuperarem áreas desmatadas ou degradadas vai perder a validade na segunda-feira 3, os ambientalistas comemoraram. A lei que caduca anistiaria o desmatamento de 5 milhões de hectares — o dobro da área do estado de Sergipe.
A Educação precisa de paz
Nesse curto espaço de tempo, o MEC foi palco de uma guerra intestina entre alas do bolsonarismo. No seu interior instalou-se uma dança de cadeiras, responsável por dezenas de demissões nos principais escalões do Ministério.
Aquilo que educadores de diversas colorações temiam de fato aconteceu. O ministro Abraham Weintraub está causando mais danos do que o seu antecessor Ricardo Vélez Rodriguez, tal tem sido sua obstinação em levar até as últimas consequências a guerra contra o “marxismo cultural”.
Como disse o presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia, “a sociedade foi para as ruas tratar da Educação porque o ministro assumiu o ministério falando ‘vou cortar 30% da universidade A, B e C”. De fato, as declarações de Weintraub de que puniria as universidades que fossem palco de ”balbúrdia” incendiaram a pradaria. Da mesma maneira, suas afirmações contra o ensino de ciências humanas colocaram mais lenha na fogueira.
Reconheça-se, Weintraub conseguiu a proeza de levar às ruas estudantes, professores, funcionários e pais de alunos. Não para reclamar por salários, mas em defesa da Educação, algo raro em nossa história de reinvidicações quase sempre corporativistas. E na esteira fez ressurgir a UNE, entidade esvaziada desde seu aparelhamento por forças de esquerda.
Sua resposta às manifestações foi criticada amplamente, desagradando até mesmo a setores moderados do governo. Sem apresentar provas, acusou, irresponsavelmente, professores de fazer proselitismo em salas de aula em favor dos atos públicos. Como se não bastasse, o MEC divulgou uma nota oficial que transformou o denuncismo em política oficial de Estado, prática abjeta usada e larga escala na Revolução Cultural da China, também adotada na Alemanha de Hitler e na União Soviética de Stalin.
Ninguém é ingênuo. Há sempre quem queira se apropriar de manifestações legítimas da sociedade. Que o diga a presidente do PT, Gleisi Hoffman, ávida por enfiar de contrabando nos atos em defesa da Educação a bandeira do “Lula Livre”. Mas este tipo de oportunismo também aconteceu nas manifestações pró-governo, onde uma minoria adotou palavras de ordem antidemocráticas. Tanto em um caso como no outro, os desvios não tiraram a legitimidade das ruas.
Falta ao ministro respeito à liturgia do cargo. Convocado pela Câmara, ofendeu deputados ao insinuar que eles nunca trabalharam na vida. No dia da segunda manifestação, divulgou um vídeo patético, onde aparece dançando com um guarda-chuva, como se fosse o Gene Kelly em “Dançando na Chuva”. O propósito do vídeo foi transferir responsabilidades sobre o desleixo com o Museu Nacional.
Difícil crer que o atual titular da pasta, por falta de serenidade e de liderança, leve a bom termo a missão que até agora tem relegado a segundo plano.
No final do ano termina a validade do Fundeb, instrumento fundamental para o financiamento da Educação. Sua renovação exigirá muita negociação entre os entes federativos e os gestores da área educacional. Se esse processo não for bem conduzido, retroagiremos a antes de 1996, quando o ministro Paulo Renato Souza criou o Fundo.
Weintraub já deu provas soberbas de que não é apenas o homem errado no lugar errado. É uma persona non grata por ser o grande obstáculo ao que a Educação mais precisa atualmente: paz.
Hubert Alquéres
Cada pessoa come até 121 mil partículas de plástico por ano
Entre 2% e 5% de todo o plástico produzido no mundo acaba despejado nos oceanos, em forma de resíduo. Ali, esse material vai se degradando lentamente, se deteriorando - e se transforma no chamado microplástico, pequenas partículas que podem ser microscópicas ou chegar até 5 milímetros de comprimento.
Os mares estão cheio disso, em um processo que começou nos anos 1950, quando a indústria mundial passou a produzir mais maciçamente esses materiais.
Mas esse lixo todo não para no mar. Essas pequenas partículas acabam ingeridas por animais marinhos e, assim, entrando na cadeia alimentar. No fim da linha, nós, humanos, acabamos comendo plástico.
Resíduos do material também podem acabar entrando em nosso organismo quando consumimos produtos embalados em plástico, seja um invólucro que envolve a carne processada, seja a água tomada na garrafinha.
O resultado foi que a ingestão de microplásticos varia de 74 mil a 121 mil partículas por ano, conforme idade e sexo.
E se você é daqueles que só bebe água de garrafinha, um alerta: a pesquisa constatou que quem prefere água assim em vez da de torneira pode estar ingerindo microplásticos a mais.
"Indivíduos que cumprem sua ingestão de água recomendada apenas por meio de fontes engarrafadas podem estar ingerindo mais 90 mil microplásticos anualmente, em comparação com 4 mil microplásticos para quem consome apenas água da torneira", pontua Cox, em artigo publicado nesta quarta-feira no periódico científico Environmental Science & Technology.
Segundo o estudo, crianças do sexo feminino ingerem 74 mil partículas em média, contra 81 mil de crianças do sexo masculino. No caso dos adultos, mulheres ingerem uma média de 98 mil microplásticos enquanto os homens, 121 mil.
É muito difícil quantificar em termos de volume ou mesmo tamanho toda essa quantidade de microplásticos. Isso porque as partículas podem ser microscópicas - mas, por conceito, um fragmento de até 5 milímetros de comprimento ainda pode ser chamado de microplástico.
Se considerarmos o limite extremo dessa escala, ingerir 121 mil partículas de microplásticos - na hipótese de isso ser feito de uma só vez - seria o equivalente a engolir uma fita plástica de 605 metros.
No ano passado, uma pesquisa encontrou microplásticos em sal de cozinha. O trabalho, realizado por cientistas sul-coreanos em parceria com a ONG Greenpeace, encontrou o material em 36 de 39 marcas analisadas.
Também no ano passado, outra pesquisa demonstrou pela primeira vez o que já se suspeitava: que nós, seres humanos, estamos ingerindo microplásticos. O estudo, desenvolvido pelo médico Philipp Schwabl, da Divisão de Gastroenterologia e Hepatologia da Universidade de Medicina de Viena, na Áustria, encontrou partículas de microplásticos em fezes humanas colhidas em oito países diferentes: Finlândia, Itália, Japão, Holanda, Polônia, Rússia, Reino Unido e Áustria.
A reportagem da BBC News Brasil pediu para que Schwabl analisasse os dados do estudo divulgado nesta quarta. Considerando que o seu próprio estudo encontrou uma média de 20 partículas de microplásticos em cada 10 gramas de fezes humanas, ele afirma que é bem pertinente que a ingestão anual desse material seja superior a 70 mil partículas.
Os mares estão cheio disso, em um processo que começou nos anos 1950, quando a indústria mundial passou a produzir mais maciçamente esses materiais.
Mas esse lixo todo não para no mar. Essas pequenas partículas acabam ingeridas por animais marinhos e, assim, entrando na cadeia alimentar. No fim da linha, nós, humanos, acabamos comendo plástico.
Resíduos do material também podem acabar entrando em nosso organismo quando consumimos produtos embalados em plástico, seja um invólucro que envolve a carne processada, seja a água tomada na garrafinha.
Mas quanto de plástico realmente estamos ingerindo?
Para responder a essa pergunta, um grupo de cientistas do Departamento de Biologia da Universidade de Victoria, no Canadá, resolveu fazer um levantamento inédito. Liderados pelo pesquisador Kieran Cox, eles revisaram e compilaram 26 estudos anteriores que analisaram as quantidades de partículas de microplásticos em peixes, moluscos, açúcares, sais, álcoois, água - de torneira e engarrafada - e no próprio ar.
Então, usando como base as Diretrizes Alimentares - guia com a recomendação do governo americano -, os cientistas avaliaram quanto desses alimentos costuma ser ingerido por homens, mulheres e crianças por ano
Para responder a essa pergunta, um grupo de cientistas do Departamento de Biologia da Universidade de Victoria, no Canadá, resolveu fazer um levantamento inédito. Liderados pelo pesquisador Kieran Cox, eles revisaram e compilaram 26 estudos anteriores que analisaram as quantidades de partículas de microplásticos em peixes, moluscos, açúcares, sais, álcoois, água - de torneira e engarrafada - e no próprio ar.
Então, usando como base as Diretrizes Alimentares - guia com a recomendação do governo americano -, os cientistas avaliaram quanto desses alimentos costuma ser ingerido por homens, mulheres e crianças por ano
O resultado foi que a ingestão de microplásticos varia de 74 mil a 121 mil partículas por ano, conforme idade e sexo.
E se você é daqueles que só bebe água de garrafinha, um alerta: a pesquisa constatou que quem prefere água assim em vez da de torneira pode estar ingerindo microplásticos a mais.
"Indivíduos que cumprem sua ingestão de água recomendada apenas por meio de fontes engarrafadas podem estar ingerindo mais 90 mil microplásticos anualmente, em comparação com 4 mil microplásticos para quem consome apenas água da torneira", pontua Cox, em artigo publicado nesta quarta-feira no periódico científico Environmental Science & Technology.
Segundo o estudo, crianças do sexo feminino ingerem 74 mil partículas em média, contra 81 mil de crianças do sexo masculino. No caso dos adultos, mulheres ingerem uma média de 98 mil microplásticos enquanto os homens, 121 mil.
É muito difícil quantificar em termos de volume ou mesmo tamanho toda essa quantidade de microplásticos. Isso porque as partículas podem ser microscópicas - mas, por conceito, um fragmento de até 5 milímetros de comprimento ainda pode ser chamado de microplástico.
Se considerarmos o limite extremo dessa escala, ingerir 121 mil partículas de microplásticos - na hipótese de isso ser feito de uma só vez - seria o equivalente a engolir uma fita plástica de 605 metros.
No ano passado, uma pesquisa encontrou microplásticos em sal de cozinha. O trabalho, realizado por cientistas sul-coreanos em parceria com a ONG Greenpeace, encontrou o material em 36 de 39 marcas analisadas.
Também no ano passado, outra pesquisa demonstrou pela primeira vez o que já se suspeitava: que nós, seres humanos, estamos ingerindo microplásticos. O estudo, desenvolvido pelo médico Philipp Schwabl, da Divisão de Gastroenterologia e Hepatologia da Universidade de Medicina de Viena, na Áustria, encontrou partículas de microplásticos em fezes humanas colhidas em oito países diferentes: Finlândia, Itália, Japão, Holanda, Polônia, Rússia, Reino Unido e Áustria.
A reportagem da BBC News Brasil pediu para que Schwabl analisasse os dados do estudo divulgado nesta quarta. Considerando que o seu próprio estudo encontrou uma média de 20 partículas de microplásticos em cada 10 gramas de fezes humanas, ele afirma que é bem pertinente que a ingestão anual desse material seja superior a 70 mil partículas.
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