sábado, 6 de abril de 2019

Pare (mesmo) de acreditar no governo

Bruno Garschagen, o assessor do (até agora) ministro Ricardo Vélez exonerado pela Casa Civil, tem ao menos uma qualidade: a capacidade de produzir uma autocrítica devastadora, ainda que involuntária. "Quando os antissocialistas mimetizam a mentalidade e a ação política do inimigo, tornam-se o espelho da perfídia", escreveu o "olavete" num artigo de jornal velho de quase dois anos. Seria preciso acrescentar que, quando tentam utilizar o poder de Estado para escrever uma "história oficial", os autointitulados liberais revelam a sua face autoritária e antiliberal.

Descubro que o mesmo Garschagen é autor do livro "Pare de Acreditar no Governo". Não o li, mas concordo com o comando do título, que tem validade geral e serve como advertência de singular relevância no caso do governo Bolsonaro. Esses "antissocialistas" não só mimetizam a "ação política" do "inimigo" como a conduzem para além de limites que o PT jamais ultrapassou. O MEC é a prova disso.


Vélez saltou da mera bufonaria —a solicitação de vídeos propagandísticos de escolares entoando o hino nacional— ao exercício abusivo da autoridade. O ministro, que oscila entre o apego canino ao cargo e a fidelidade ao Bruxo da Virgínia, anunciou uma revisão "progressiva" dos livros escolares talhada a apagar a ditadura militar do registro histórico. A missão do MEC, explicou, é "preparar o livro didático de tal forma que as crianças possam ter a ideia verídica, real, do que foi a sua história".

O governo exige que acreditem nele. Para isso, usará o poder de distribuir livros escolares, a palavra legitimada do professor e a prerrogativa de produzir o exame nacional de acesso às universidades federais.

Os poderes estatais adoram moldar as crianças de modo que elas repitam as palavras e os gestos dos governantes. A "história oficial" tem longa história escolar, que se estende das narrativas nacionalistas do século 19 até o contemporâneo revisionismo separatista catalão, passando pelos sinistros artigos de fé dos totalitarismos stalinista e nazista. O Brasil não ficou imune à politização da escola.

Sob o lulopetismo, o MEC engajou-se a fundo numa revisão "progressiva" dos manuais escolares com a finalidade de adaptá-los aos dogmas da doutrina racialista. A nação deveria ser descrita, nas aulas de História e Geografia, como uma confederação de etnias ou "raças". Nossas extensas miscigenações precisariam ser reinterpretadas como uma lenda criada para ocultar um racismo mais letal que os dos EUA da discriminação oficial ou da África do Sul do apartheid. O movimento abolicionista, uma ampla luta social que abrangeu brancos e negros, teria que escorrer pelo ralo destinado aos mitos. Vélez mimetiza o PT, mas sem a tintura "bondosa" do revisionismo racialista.

A operação lulopetista fluiu suavemente, prescindindo de rudes declarações ministeriais, maquiada como releitura acadêmica do passado. Obteve algum sucesso, graças à cumplicidade de comissões de docentes universitários militantes e à bovina obediência de editoras sempre prostradas diante da pilha de dinheiro das compras públicas. Vélez, porém, fracassará. A "verdade" estatal que ele tenta veicular choca-se com a resistência da opinião pública, dos historiadores e dos professores. Só um regime de força conseguiria impor a negação do caráter golpista do 31 de Março e da natureza ditatorial dos governos militares.

As democracias aprenderam a respeitar a autonomia das escolas. Nelas, há muito, os governos se abstêm de formular a "ideia verídica, real" da história que deve ser ensinada. O sucesso relativo do PT e o inevitável fracasso de Vélez funcionam como sinais de alerta: a sala de aula não é pátio de diversões de ideólogos ou doutrinadores. Pare (mesmo) de acreditar no governo, pois o pior professor ainda é melhor que o discurso do poder estatal.
Demétrio Magnoli

Brasil inocente desinformado


Cem dias de aflição

Esperança? Desespero? Raiva? Indignação? Orgulho? Agonia? Meu sentimento é a aflição nestes 100 dias transcorridos desde a posse de Bolsonaro. Aflição por um país que permanece sem rumo, por um país que se deixou levar pela fúria constante das redes, pelas brigas, pela incivilidade, pela barbárie. Aflição por um país que elegeu um presidente da República que nada conhece além do confronto, pouco importa quem seja o alvo: jornalistas, intelectuais, congressistas, gente comum.


Seguidores fiéis imitam o comportamento vulgar e os gestos ofensivos. Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro mostrou que sua ignomínia não tem limites, o que deveria ser causa de profunda aflição e angústia para quem realmente se ocupa de preocupar-se com o Brasil.

Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro viajou para os Estados Unidos e ajoelhou-se perante Trump. Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro viajou para o Chile e insultou as autoridades do país com seus comentários sobre a ditadura de Pinochet. Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro foi a Israel e disse a todos que o nazismo é de esquerda, imitando seu vergonhoso ministro das Relações Exteriores, para o profundo constrangimento internacional do país. Nenhuma dessas viagens trouxe qualquer ganho econômico para o Brasil ou mesmo alguma melhoria da imagem do país, a percepção de que há rumo bem traçado para os próximos anos. Nos últimos 100 dias, Bolsonaro permitiu que o Palácio do Planalto divulgasse vídeo abjeto e revisionista sobre a ditadura militar e sobre o golpe de 1964. Os macacos de auditório do Twitter — não tão numerosos, mas bastante barulhentos — rapidamente repercutiram a estupidez e a inominável ofensa às vítimas da opressão que o Brasil jamais condenou como fizeram outros países latino-americanos.

Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro questionou as estatísticas de desemprego como um liderzinho qualquer. Curioso será se resolver questionar o déficit da Previdência.

Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro nomeou um ministro despreparado para uma das pastas mais importantes do governo, a da Educação. Não é mistério para ninguém que o país padece quando o assunto é educação. A dificuldade do próprio presidente da República com as palavras é exemplo de nossas falências. O ministro despreparado foi corajosamente enquadrado pela jovem deputada de 25 anos, Tabata Amaral, formada em astrofísica e ciências políticas pela Universidade Harvard. Amaral foi o bálsamo para a aflição destes 100 dias, deixando entrever um pouquinho de esperança. A outra ministra despreparada, Damares Azul-Rosa Alves, não merece mais do que essa frase.

Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro brigou com congressistas de seu próprio partido, de outros partidos, com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Foi por ele repreendido algumas vezes ao não entender que o Congresso é poder democrático independente tão relevante quanto o Executivo — mas fora Bolsonaro quem elogiara Fujimori por ter o presidente peruano fechado o Congresso em 1992, inaugurando o autogolpe. Portanto, de democracia nada entende. Ao instalar o caos nas relações entre o Congresso e o Executivo, ao deixar ressabiados os parlamentares com quem terá de negociar a reforma da Previdência, fez de seu ministro da Economia o Sísifo tupiniquim. Guedes foi encarregado de empurrar as rochas da reforma ladeira acima, mas Bolsonaro haverá de assegurar que voltem ladeira abaixo, já que não entende que só ele pode respaldar politicamente o que muitos esperavam que fosse o principal feito de seu governo. E, mesmo que depois de tudo isso consiga aprovar a reforma da Previdência, restará fazer todo o resto para tirar 13,1 milhões de pessoas do desemprego, para melhorar a segurança do país, para socorrer os estados quebrados, para uma lista infindável de prioridades perdidas na balbúrdia dos 100 dias.

Nestes 100 dias, inflou-se a ideia de que basta a reforma da Previdência para o país voltar a crescer. Mas a Previdência é um ajuste fiscal e, como ajuste fiscal, contracionista no curto prazo. Essa verdade inconveniente e aflitiva está perdida em meio ao pensamento mágico das expectativas que empurrariam a economia.

Cem dias. Sem nada. Socorro, alguma alma, mesmo que penada, me empreste suas penas.

Monica De Bolle

O provérbio

Em toda calamidade
seja o atingido um rei
ou um cidadão obscuro
na foto do processo do seguro
ao lado do rei
diante do palácio desmoronado
ou do pobretão
no sobradinho arruinado
uma figura aparece
que parece dizer
eu não disse
eu não avisei?

Raul Drewnick

Sabemos que estamos numa ditadura quando o povo receia as autoridades

Escrevo esta coluna em Luanda, onde cheguei há alguns dias. Numa roda de amigos, discutia-se a trágica situação das cheias em Moçambique. Em determinada altura alguém comentou que Angola, país afortunado, nunca sofreu graves desastres naturais. Um outro sujeito, ainda mais entusiasmado, acrescentou que não só a natureza nunca ataca Angola, como, ainda por cima, tende a beneficiar o país em todos as suas manifestações: “Temos os eclipses mais lindos do mundo!”

Tomei nota da frase para a usar um dia como título de um romance. Ela traduz a elevada autoestima do angolano comum. A mesma autoestima que os estrangeiros costumam confundir com arrogância. Ou talvez seja o contrário, e sejamos nós, angolanos, quem confunde arrogância com autoestima. Em todo o caso é um sentimento que sempre surpreende quem, desembarcando no imenso caos que é a capital de Angola, espera encontrar lágrimas e ranger de dentes e, ao invés, dá de caras com um povo muito mais afeito ao riso do que ao choro e que até nas piores derrotas vê possibilidades de vitória.

Na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, a seleção angolana estreou-se jogando contra Portugal, um dos times favoritos, perdendo por um a zero. Quem assistiu ao jogo nunca mais esquecerá a festa angolana. Lembro-me de ter ligado para um amigo, jornalista, que acompanhava a seleção: “Os portugueses já estão convencidos de que perderam. Se vocês continuarem a festejar com esse entusiasmo por mais quinze minutos o mundo inteiro vai acreditar que ganhamos. Não parem!”

É assim Angola. Fica difícil vencer quem nunca se sente derrotado.


No último ano, desde que João Lourenço assumiu a presidência da República, houve três ou quatro mudanças importantes. A primeira tem a ver com o medo. Sabemos que estamos numa ditadura quando o povo receia as autoridades. Em Angola, o medo deslocou-se da população tão sofrida para membros importantes do partido no poder, pessoas que enriqueceram de forma ilícita ao longo das últimas décadas. Ou seja, os inocentes perderam o medo, ao passo que os criminosos (ao menos alguns criminosos), perderam a tranquilidade.

Pode parecer pouco, mas é imenso. Um dos filhos do anterior presidente, José Eduardo dos Santos, foi recentemente libertado, após seis meses em prisão preventiva, enfrentando agora uma série de acusações por peculato e má gestão de empresas públicas. Outros filhos de José Eduardo, antigos ministros e figuras relevantes da vida política e econômica de Angola estão igualmente em apuros.

Infelizmente, a situação econômica e social não melhorou. Na opinião de muitos, tem vindo até a piorar. Dirigentes políticos da oposição colocam em dúvida as convicções democráticas do novo presidente, desde logo porque João Lourenço resiste em alterar a atual constituição, confeccionada à medida das exigências e ambições do antigo ditador. São dúvidas legítimas. A minha esperança reside sobretudo na sociedade civil, que nos últimos anos se fortaleceu e sofisticou, e nessa alegria indomável de um povo que acredita ter o universo aos pés, produzindo, para seu benefício exclusivo, os mais lindos eclipses do mundo.

José Eduardo Agualusa

Autores se autocensuram sobre ditadura para não perder espaço no MEC de Bolsonaro

Na reta final das eleições presidenciais 2018, um movimento atípico tomou conta de ao menos quatro grandes editoras de livros didáticos do país. Autores de história, muitos conceituados e com longa carreira na educação, pediam para fazer modificações na última versão dos livros de história que iriam disputar a licitação do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) para o ano de 2020, voltada à compra de obras para os anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano). Os pedidos, que incluíam substituir a palavra ditadura por regime, e golpe de 64 por movimento —em contraste com o recomendado pelas próprias diretrizes oficiais que citam ditadura civil-militar—, surpreenderam até mesmo editores. Os próprios autores, antecipando o posicionamento ideológico do Governo Bolsonaro prestes a ser eleito, optaram pela autocensura para não perder espaço potencial num mercado milionário.


O EL PAÍS apurou que, de ao menos três pedidos diretos de modificação de texto para retirar o termo ditadura, um foi acatado e o livro, já modificado. Em um quarto caso, a petição do autor foi para trocar charges de uma obra por "imagens menos impactantes" e as modificações também foram feitas. Todos os envolvidos falaram com a reportagem em condição de anonimato por causa da delicadeza do tema no momento em que a gestão bolsonarista redobra a aposta na estratégia negacionista de ditadura, apoiada principalmente pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez, que, segundo o próprio presidente, está ameaçado de demissão.

Vélez afirmou ao Valor Econômico nesta semana que o país deve mudar os livros didáticos para "resgatar uma versão da história mais ampla" sobre o período de 1964 a 1985. Mas o clima nas editoras mostra que talvez nem seja necessário uma mudança formal. “Muitos autores têm sua principal renda vinda do programa do livro didático, a preocupação em reduzir a críticas é uma estratégia para sobreviver ao Governo Bolsonaro", diz um editor, que frisa que a autocensura não é ideológica.

Os profissionais do setor dizem que o cenário é de insegurança tanto quanto ao futuro do trabalho quanto a qualidade do material publicado. “Fomos orientados para reduzir a crítica nas publicações”, conta um editor. “Escolhemos imagens menos impactantes, evitando charges, por exemplo, que exageram o problema para fazer a crítica”, explica outro editor.
Editoras negam modificações

Questionadas, as maiores fornecedoras do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) mantêm um discurso neutro em relação às demandas pelo Governo Bolsonaro. Consultadas, as editoras Somos Educação (grupo Kroton), Moderna, FTD e IBEP afirmam que não houve nenhuma mudança no material didático enviado para o edital do PNLD 2020 e que não há planos de mudar terminologia sobre a ditadura nas obras de seus portfólios. Todas afirmam seguir o que determina as Diretrizes Curriculares Nacionais e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que define o conjunto de aprendizagens essenciais para todos os alunos no Brasil.

A BNCC determina que no 9º ano, o ensino de história contemple o tema da “Modernização, ditadura civil-militar e redemocratização: o Brasil após 1946”. O objetivo é trabalhar a ditadura e os processos de resistência, bem como os processos que levaram a redemocratização do país. Espera-se que os alunos sejam capazes de identificar e compreender o processo que resultou na ditadura civil-militar brasileira, discutam questões relacionadas à memória e à justiça sobre as violações de direitos humanos cometidas pelos militares no período, discutam processos de resistência e reorganização da sociedade, bem como o papel da mobilização da sociedade nos anos finais da ditadura, até a Constituição de 1988.

“Não recebemos nenhuma instrução oficial sobre a mudança na abordagem do tema. A orientação que seguimos é a da BNCC homologada”, afirma Célia de Assis, diretora editorial da IBEP. “Também não temos projeto ou obras que tratem da ditadura militar como regime ou movimento”, lembra.

Em nota, a Somos Educação, dona das marcas Ática, Scipione, Saraiva e Atual, afirma que “preza pela pluralidade e liberdade de compreensão de seus autores, promovendo a manutenção da visão neutra de seus conteúdos”. E reitera que “nenhuma obra publicada passou por algum tipo de ajuste, e no que se refere à historiografia, respeita e veicula em seus materiais o resultado dos mais recentes estudos nessa área”. Por telefone, a Moderna também afirmou que não houve alteração em obras de seu catálogo. A FTD por sua vez, afirmou que possui autores, em todas as áreas do conhecimento, totalmente atualizados com o que existe de mais recente em termos de pesquisa acadêmica, alinhados, também, com todos os documentos oficiais que pautam a educação brasileira.”

Esta é a primeira vez que a autocensura rondou o PNLD e o tamanho do programa federal explica a precaução ou até antecipação. “Havia muita expectativa quanto ao PNLD 2019, 2020 e 2021, mas com a chegada de uma nova mentalidade, estes programas foram colocados em xeque tanto do ponto de vista prático, quanto ideológico”, afirma um editor. “Desde a LDB de 96, no Governo FHC, temos um desenvolvimento sólido do programa do livro didático, que foi interrompido no Governo Temer”, avalia outro.

O PNLD 2019, que está sendo entregue este ano nas escolas públicas, determinou as regras para a aquisição de material didático a estudantes e professores dos anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano). As coleções compradas no edital são de livros consumíveis, que significa que os alunos não precisarão devolvê-los no final do ano letivo. As restrições orçamentárias da Educação, no entanto, abrem a possibilidade de um novo cenário. “Discute-se a possibilidade de convocar um edital para compra de novos livros não-consumíveis para o 4º e 5º anos. Isto vai significar que as editoras terão que refazer os livros, mesmo com uma expectativa menor de receita”, conta um editor.

Quanto ao PNLD 2020, as editoras entregaram as obras para avaliação em outubro de 2018. A expectativa é que o resultado das avaliações saísse em maio, para que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) pudesse publicar o guia do livro didático, onde professores escolheriam as obras que chegariam na escola em 2020. Porém, a triagem das obras foi liberada apenas no final de março. E, consultado pelo EL PAÍS, o MEC não sabe informar quando as avaliações serão finalizadas. “Nos bastidores, já avisaram que o resultado as avaliações podem nem sair neste ano, e que as compras serão feitas apenas no ano que vem”, conta um dos editores.

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Reforma da Previdência precisa recuperar as receitas que o INSS vem perdendo

O economista Filipi Campello, amigo meu, coloca uma questão essencial em torno da reforma da Previdência, infelizmente ignorada tanto por parte de Paulo Guedes quanto da parte dos deputados que se opõem as modificações propostas. Trata-se de alterar as regras no que se refere aos salários dos trabalhadores e trabalhadoras que se aposentam por tempo de serviço ou por idade. Mas também a reforma proposta pelo governo não levou em conta a necessidade de uma mudança profunda no que se relaciona as receitas. Perfeito, digo eu, considerando que a reforma por princípio tinha de abranger os dois setores.

Paulo Guedes acentuou que as despesas com aposentadorias e pensões atinges mais de 700 milhões de reais por ano, dez vezes mais do que a rubrica orçamentária relativa a educação.


Nem eu nem o economista Filipi Campello, em nenhum momento, ouvimos falar em um aperto indispensável do governo contra os sonegadores e aqueles que descontam de seus empregados, mas não recolhem ao INSS.

Paulo Guedes, na exposição que fez a Comissão de Constituição de Justiça da Câmara dos Deputados, chegou a falar em desoneração dos empregadores, incluindo as empresas estatais. Como é possível assegurar a receita previdenciária reduzindo ou até zerando a parte dos empresários?

Simplesmente não é possível. Deve-se lembrar que os empresários contribuem para a Previdência na base de 20% sobre a folha de salário, muito mais do que o recolhimento dos empregados cujo limite máximo é de 11% sobre 5.800,00 reais teto das aposentadorias e pensões. Isso de um lado.

De outro lado, a questão implica inclusive nas contratações de técnicos, não pela CLT, mas sim pela transformação dos empregados em pessoa jurídica. Assim o desconto mensal para o INSS passa a ser zero pela empresa e o empregado paga se quiser ao INSS como autônomo. Quando o salário é muito alto, caso dos artistas de TV, por exemplo, nem se interessam em pagar INSS. Mas esta é outra questão.

Na exposição feita diante da CCJ Guedes não fez qualquer referência a esse ponto. A reunião, que acabou em tumulto, foi muito bem apresentada na reportagem de Adriana Fernandes, Idiana Tomazelli e Lorena Fernandes, edição de ontem de O Estado de São Paulo.

Ficou caracterizado em meio à confusão, a dificuldade que começou a ser colocada pelos partidos de oposição. O desfecho foi simplesmente lamentável.

Devo destacar uma face do conflito. As acusações de Paulo Guedes aos governos do PT, Lula e Dilma Rousseff que desoneraram tributos pagos pelas empresas num montante de 300 bilhões de reais.

Esse argumento não se ajusta a cultura econômica de Paulo Guedes. Uma coisa não tem nada a ver com outra. E tem mais: por que Paulo Guedes não propõe ao presidente Jair Bolsonaro a reforma profunda desse monumento de absurdos legados pelo PT. Apenas é o caso de Paulo Guedes apresentar um projeto seu anulando tamanha liberalidade com o dinheiro da população.

São contradições nas quais o governo fica imobilizado.

De olho no retrovisor, capitão trombou com o país

Quem olha muito para trás acaba ganhando um torcicolo. Ao ordenar às Forças Armadas que fizessem as "comemorações devidas" do golpe militar de 1964, Jair Bolsonaro obteve algo ainda mais grave do que a torção no pescoço: antipatia popular. O Datafolha informa algo que até as criancinhas de 5 anos já sabiam: a maioria dos brasileiros (57%) acha que o 31 de março de 1964, dia do golpe que resultou numa ditadura de 21 anos, deveria ser desprezado, não celebrado.

"Não nasci para ser presidente, nasci para ser militar", disse Bolsonaro nesta sexta-feira, discursando para servidores do Planalto. O Exército discordou da segunda parte da frase, pois expurgou o orador dos seus quadros quando ele ainda era um capitão encrenqueiro. E o brasileiro, tomado pelo resultado do Datafolha, parece preferir que Bolsonaro seja mais presidente da República do que capitão.



É como se o brasileiro, ao tomar conhecimento dos festejos do golpe, indagasse para os seus botões: O que isso tem a ver com o meu café com leite? O problema da ordem que Bolsonaro deu às Forças Armadas é a distância que separa a agenda militar do presidente das aflições do brasileiro. Com o desemprego a pino, 13,1 milhões de patrícios no olho da rua, Bolsonaro imita o avestruz, enfiando a cabeça em 1964. E o Brasil lá longe, atormentado com 2019.

No discurso aos servidores do Planalto, Bolsonaro disse que às vezes pergunta ao Todo-Poderoso: ";Meu Deus, o que eu fiz para merecer isso? É só problema". Muita gente acha essa descontração simpática. Bolsonaro parece humano. Sorri, diz piadas, é informal. Mas tudo isso tende a ser esquecido se o presidente se distancia do café com leite dos brasileiros.

Desemprego uma tragédia? Saúde pública um escândalo? Educação uma tristeza? Não é com Bolsonaro. Ele demorou três meses para notar que as caneladas no Congresso não ajudam na tramitação das reformas que tirarão a economia do freezer. Não há vestígio de novidade capaz de atenuar o descalabro hospitalar. Ricardo Vélez, a piada que foi nomeada para comandar a pasta da Educação, envergonha o país.

Contra esse pano de fundo, o negócio de Bolsonaro é trombetear a tese segundo a qual o golpe não foi um golpe e a ditadura jamais existiu. O capitão ainda não se deu conta. Mas, na condição de presidente, deveria cuidar dos segundos, porque as horas passam. Presidente que mata o tempo comete suicídio político.

Banco Mundial alerta para aumento da pobreza no Brasil

Um relatório do Banco Mundial divulgado nesta quinta-feira afirma que a pobreza aumentou no Brasil entre 2014 e 2017, atingindo 21% da população (43,5 milhões de pessoas).

O documento intitulado Efeitos dos ciclos econômicos nos indicadores sociais da América Latina: quando os sonhos encontram a realidade, demonstra que o aumento da pobreza nesse período foi de 3%, ou seja, um número adicional de 7,3 milhões de brasileiros passou a viver com até 5,50 dólares por dia.

No ano de 2014, o total de brasileiros que viviam na pobreza era de 36,2 milhões (17,9%). O quadro negativo teve início com a forte recessão que o país atravessou a partir do segundo semestre daquele ano, que durou até o fim de 2016.

O Banco Mundial avalia que o fraco crescimento da América Latina e Caribe, especialmente na América do Sul, afetou os indicadores sociais no Brasil, país que possui um terço da população de toda a região.

Mesmo assim, o Banco Mundial manteve as previsões de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, com altas de 2,2% em 2019 e 2,5% em 2020. As projeções são melhores do que as de outros países, como o México (1,7%), mas ficam abaixo de nações como a Colômbia (3,3%). Os países com previsão de queda no PIB são a Argentina (- 1,3%) e a Venezuela (-25%).

Para a região da América Latina e Caribe, o crescimento deve ser menor do que o do Brasil. As estimativas iniciais eram de 1,7%, mas, no mais recente relatório, elas despencaram para 0,9%, puxadas pelo péssimo desempenho da Venezuela. O crescimento da América do Sul também deverá sentir os efeitos da crise venezuelana, ficando em apenas 0,4%.

O relatório destaca as incertezas quanto à reforma da Previdência, afirmando que sua aprovação "depende da formação de coalizões", uma vez que o partido governista não tem maioria no Congresso. A instituição elogia o Brasil por buscar um programa "ambicioso" de reformas, mas afirma que o país é o caso mais preocupante na região depois da Venezuela.

O Brasil deverá ter um déficit fiscal de 6,9% do PIB em 2019 e um déficit primário de 1,2% do PIB. A dívida pública deve corresponder a 80% do PIB.

"As perspectivas de crescimento para este ano não mostram uma melhora substancial em relação a 2018, como consequência do crescimento débil ou negativo nas três maiores economias da região – Brasil, México e Argentina – e do colapso total na Venezuela", afirma o relatório. Se excluídos os números venezuelanos, o PIB da América do Sul teria alta de 1,8% em 2019.

O relatório afirma que os programas sociais podem ser os mais eficazes amortecedores dos choques econômicos. Segundo o economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e Caribe, Carlos Végh, essas iniciativas são comuns em países desenvolvidos, mas não nessa região.

"A região deve desenvolver, além dos programas estruturais existentes, ferramentas de rede de segurança social que possam apoiar os pobres e os mais vulneráveis durante o ciclo de baixa nos negócios", afirma o relatório.

O Banco Mundial afirma que a América latina e Caribe é a região com os indicadores mais voláteis em todo o mundo por ser exposta a fatores externos (como preços das commodities e liquidez internacional) e instabilidades institucionais e políticas.

O Banco Mundial analisou três indicadores: taxa de desemprego, pobreza e necessidades básicas insatisfeitas (habitação, educação e saneamento).

sexta-feira, 5 de abril de 2019

O Ministro da Deseducação

Não consigo encontrar uma passagem do governo dos Bolsonaros que me entusiasme, que me deixe esperançosa de um futuro melhor para o Brasil. Nada. E fico muito triste com isso, pois gostaria muito de morrer levando comigo a esperança de deixar para filhos e netos um país forte, rico e, sobretudo, instruído.

Mas com esse ministro que alguém teve a infeliz ideia de colocar no MEC? Com esse cidadão que ignora completamente nossa História, que agora nos ameaça com a edição de livros didáticos que mentirão para nossas crianças? Com essa figura que já confessou estar encantado com o cargo que ocupa e que, portanto, pouco se lixa com as críticas que lhe fazem?

Se o tal ministro ao menos quisesse conhecer melhor a História do país onde vive, ele poderia ter o imenso prazer sim, porque ler as entrevistas de Geneton Moraes Neto é um imenso prazer, não só pelo talento que ele tinha como entrevistador, mas como pela seriedade com que ele descrevia as mais célebres figuras e os fatos mais importantes de nossa época.


Geneton infelizmente nos deixou. E muito cedo. Mas seus textos ainda estão aqui e lê-los é conhecer melhor o Brasil. São suas palavras que deveriam ser entregues aos nossos estudantes e não, por exemplo, o vídeo que nos envergonha ao negar o Golpe de 1964.

Leiam aqui uma das muitas barbaridades ditas pelo colombiano Vélez: "O golpe foi uma votação no Congresso, uma instância constitucional, quando há a ausência do presidente". Bem, Vélez talvez não saiba, mas em 31 de março de 1964 Goulart ainda estava no país.

Mas vamos lá, vamos tentar acreditar nessa figura espalhafatosa, nesse ministro que deseduca o MEC e nem tenta se educar.

Digamos que não tenha havido golpe. Nem muito menos, por óbvio, revolução. Como disse Luis Fernando Veríssimo em sua coluna de 4 de abril, o que houve foi Nada. Tudo bem. Aceito, foi um Nada vergonhoso, feio, mas um Nada.

Mas se não houve nada, nem golpe, nem revolução, porque diabos o pernambucano Gregório Bezerra foi velado sob a forte emoção de seus companheiros que lotavam a Assembleia Legislativa de Pernambuco e mais sussurravam do que cantavam a Internacional Socialista para depois, ao ouvir o brado "Companheiro Gregório!", responder a uma só voz "Presente!".

Dirão os adeptos do ministro deseducador: "mas ele era um comunista!" Era, sim, e daí? por isso merecia viver o que Geneton Moraes Neto chamou de seu Último Canto Gregoriano?

"A imagem de Gregório Bezerra ensanguentado, amarrado a uma corda e arrastado pelas ruas do Recife por um coronel raivoso ganhou a força de um emblema. O desfile foi filmado e exibido na televisão".

O arquivo sumiu. No entanto a força dessa imagem permanece até hoje. Não há recifense que ali vivesse em abril de 1964 que não guarde na memória a dor e o desespero de ver passar por suas ruas aquele homem decente e correto puxado como um animal por um coronel alucinado cujo nome prefiro nunca repetir.

Mas a pergunta ainda vive. Se não houve golpe, se os militares agora, 55 anos depois, só queriam rememorar o golpe que não houve, se a intenção, segundo o capitão Bolsonaro, foi "rememorar" o fato e identificar pontos corretos e errados para o "bem do Brasil no futuro", garantindo que a ascensão dos militares ao poder se deu para interromper "a escalada em direção ao totalitarismo", só me resta lastimar. Preferia mil vezes viver sob um governo de Gregório Bezerra, do que sob as armas indecentes do coronel que o arrastou pelo bairro de Casa Forte, Recife, PE, 3 de abril de 1964.

Bolsonaro ainda não entende o que é democracia

O passado tem um poder fascinante sobre os seres humanos, tanto no plano individual como no mundo público. Mas há duas maneiras de se usar a história como referência de nossas ações. Uma é se prender nos acontecimentos passados e travar uma batalha sem fim com eles, nunca se libertando por completo do que já ocorreu. A outra é utilizando a experiência pregressa como um farol para iluminar as decisões no presente e no futuro. A diferença entre tais visões está em quanto aprendemos com os que vieram antes de nós.


O presidente Jair Bolsonaro construiu uma frase de efeito em sua viagem a Israel: "Aquele que esquece o seu passado está condenado a não ter futuro". A sabedoria contida nessa afirmação não revela, de imediato, qual é a concepção de história que orienta nosso atual governante. Isto é, se ele prefere se digladiar com os fatos passados, ou se opta por uma visão na qual se deve aprender com o passado para melhorar as escolhas do futuro.

Tomando como base as opiniões e decisões vindas do presidente nestes três meses de governo, constata-se que Bolsonaro pouco tem aprendido com a história. Ele insiste mais num ajuste de contas com o passado, seja para reverenciar o que foi feito em tempos pretéritos, como aparece em sua visão sobre o regime militar, seja para se colocar como um ponto de ruptura completa, de modo que é preciso criar algo novo que seja o inverso da "velha política" da Nova República.

O governante que aprende com o passado evita os erros das gestões anteriores e se inspira naquilo que é possível de ser replicado ou ser tomado como um ponto de partida. Dois exemplos mostram que Bolsonaro está seguindo outra linha, mais preocupado em defender posições derivadas de sua peculiar interpretação do que foi a história e menos em utilizar os ensinamentos do tempo como instrumento para produzir uma trilha diferente. Trata-se dos posicionamentos referentes ao presidencialismo de coalizão e às ditaduras do passado, no Brasil e fora dele.

A visão bolsonarista sobre o presidencialismo de coalizão se alimenta de uma interpretação da história. Olhando para o passado mais recente, Bolsonaro tem uma opinião segundo a qual tal modelo de governabilidade se baseava em negociatas entre o Executivo e o Legislativo, gerando processos imensos de corrupção. No fundo, ao se ancorar nesta ideia, o presidente está se colocando de forma contrária aos governantes anteriores e seus partidos, PSDB e PT. É a lógica da competição eleitoral que ainda alimenta a visão de mundo de alguém que agora precisa governar o país.

Obviamente que houve corrupção nos últimos governos e que ela, em parte, se originou da relação do Poder Executivo com membros do Legislativo, inclusive para aprovar certas matérias no Congresso Nacional. O problema está em interpretar que o modelo presidencialista brasileiro, vinculado à combinação de multipartidarismo, federalismo e presidente sem maioria congressual derivada da eleição, sempre levará a negociatas e roubalheiras.

Por meio do presidencialismo de coalizão, foi possível, nos últimos 30 anos, manter o jogo democrático, algo raro e pouco duradouro na trajetória política do Brasil. Utilizando esse modelo, o país fez várias reformas - quase cem emendas constitucionais - e teve avanços significativos nos campos econômico, político e social. Presidentes que tentaram evitar ou passar por cima dos congressistas e, especialmente, dos partidos políticos, não foram bem-sucedidos em suas políticas públicas e, ao fim e ao cabo, foram depostos. Essa é a maior lição da história que Bolsonaro deveria aprender.

Isso quer dizer que o presidente deve simplesmente dar todos os cargos e verbas que os congressistas pedirem? Essa também não é a resposta que pode ser retirada do aprendizado histórico. Na verdade, esse varejo só pode ser bem utilizado, com os cuidados necessários, para se garantir simultaneamente a governabilidade e padrões éticos, se for feito um pacto partidário prévio. Erram os governos que não começam pelo atacado, isto é, pela criação de alianças partidárias que alicercem a participação dos congressistas no Poder Executivo.

O mensalão nasceu no primeiro governo Lula porque o PT se recusou a fazer um pacto partidário com o maior partido congressual à sua disposição, que era o PMDB, e preferiu fazer negociações miúdas com os pequenos partidos da centro-direita. O petismo acreditava que bastava dar alguns pequenos nacos de poder a essas legendas invertebradas e, assim, manteria o controle sobre todo o processo legislativo sem perder sua hegemonia na condução da governabilidade. Com base num discurso purista e de superioridade sobre o restante do sistema político, esse hegemonismo petista foi a porta para a crise política e, ao contrário do que imaginavam, para a corrupção.

O discurso bolsonarista nas redes sociais lembra os tempos iniciais do petismo no plano federal. De um lado, como no passado petista, a parte mais radical do bolsonarismo acredita que vai substituir o antigo regime por meio da pressão popular - hoje baseada nas redes sociais. Para aprovar emendas constitucionais e outras legislações, bem como para evitar a pressão congressual sobre o presidente, esse caminho é um desastre. Mas, por outro lado, há outra parcela de bolsonaristas, mais localizados nos postos-chave do governo, cuja concepção de governabilidade passa pela conversa individualizada com os parlamentares e com a entrega de pequenas benesses, sem dividir efetivamente o poder e as responsabilidades que dele derivam.

A combinação da deslegitimação do sistema político com um jogo pouco coordenado de distribuição de prebendas aos parlamentares, inclusive aos do PSL, não garantirá a formação de uma maioria governista sólida. Será sempre um modelo baseado na desconfiança mútua entre Executivo e Legislativo. Esse era também o clima, em medidas variadas, nos governos de Jânio, Collor e Dilma, ensina a história, e os resultados finais são conhecidos. Ou então haverá algum revisionismo histórico que diga que nesses casos a culpa do fracasso não foi do presidente?

Se o presidente Bolsonaro quer instalar o novo na política brasileira, o que quer que seja isso, deve seguir uma máxima produzida pelo aprendizado histórico: somente é possível fazer mudanças de larga escala e de longo prazo, dentro de um regime democrático, por meio de alianças partidárias estáveis, nas quais haja compartilhamento de poder e responsabilidades. Para fazer isso, é preciso abandonar o comportamento messiânico e antipolítico, segundo o qual o presidente e seus seguidores são os únicos donos da verdade. Os congressistas são tão legítimos perante o voto do eleitor quanto Bolsonaro, e ele não tem maioria congressual para dar as cartas do jogo sem precisar de parceiros.

A história revela, ademais, que a eleição municipal de meio de mandato começa a afetar os parlamentares no fim do segundo semestre do primeiro ano de governo. Esse é o prazo para se aprovar reformas estruturais. Depois disso, tudo ficará mais difícil. O fato é que, se aprendesse com o passado, Bolsonaro estaria agora fazendo uma reforma ministerial com vistas não só a aprovar a reforma da Previdência, mas para criar uma aliança partidária mais estável, pelo menos de médio prazo, e voltada para o pleito local de 2020. Mas, no momento, o bolsonarismo está mais preocupado em olhar para a história para resgatar valores tradicionais e encontrar quem são seus inimigos eternos.

E aqui entra o segundo exemplo da dificuldade de Bolsonaro em lidar com o passado: suas ações e frases em relação a regimes autoritários no Brasil e no exterior. Sua insistência em dizer que não houve uma ditadura em nosso país a partir de 1964 luta contra os fatos: os presidentes não eram eleitos pelo povo, muitos políticos e cidadãos perderam seus direitos políticos, a sociedade foi calada pela censura, pessoas foram torturadas, morreram e desapareceram. Se o bolsonarismo não achar que isso é um modelo ditatorial, vai ter que dizer que há democracia em Cuba e na Coreia do Norte.

O que está por trás do raciocínio bolsonarista fica mais claro quando é dito que o nazismo foi um fenômeno político de esquerda. Tal versão contraria os fatos - os comunistas foram os primeiros presos por Hitler, que os odiava - e a visão dos dois principais interessados em elucidar o Holocausto, que são Alemanha e Israel, países onde majoritariamente e de forma oficial se diz que os nazistas eram de extrema direita. Essa interpretação tresloucada tem como propósito comprovar que a esquerda está vinculada à maior tragédia do século XX, e desse modo continuar a guerra política para aniquilar o inimigo.

No fundo, Bolsonaro ainda não aprendeu o que é democracia, ou pior, tem uma visão peculiar dela, na qual só são admitidos os que pensam como ele. Trata-se de uma doutrina que não aceita a pluralidade necessária para a vida democrática. O bolsonarismo está dizendo que não se pode aceitar a velha política e só ele representa o novo. Não há espaço para o diálogo e o convencimento. Ao seguir essa trilha, Bolsonaro reinventa o passado para interditar o futuro pensado como um feixe de possibilidades.
Fernando Abrucio

Brasil emporcalhado


STF ganha novo nome: Suprema Impotência

Realizou-se no plenário do Supremo Tribunal Federal uma inusitada solenidade. Nela, a Corte recebeu um manifesto de apoio com cara de desagravo. Subscrito por duas centenas de entidades, o documento classifica como inadmissíveis discursos que pregam o ódio e a violência contra a Suprema Corte. A cerimônia foi reveladora, inadequada e inútil.

A pajelança foi reveladora porque os ministros do Supremo, normalmente vistos como semideuses, reconheceram que também estão sujeitos à condição humana. Aceitaram a muleta de um desagravo depois que Dias Toffoli, presidente da Corte, num gesto de rara prepotência, abriu por conta própria um inquérito sigiloso para identificar autores de ameaças virtuais aos magistrados e seus familiares.


A coisa foi inadequada porque o rol de apoiadores do Supremo inclui certas entidades cujos dirigentes e associados merecem interrogatório, não reconhecimento público. O ato foi inútil porque, considerando-se o histórico de suas decisões mais recentes, o Supremo tomou gosto pelo comportamento de alto risco. Nesse contexto, pomadas como manifestos de apoio e inquéritos secretos podem aliviar momentaneamente as dores, mas não resolvem o problema.

Bons juízes, como se sabe, não devem aderir cegamente aos clamores da comunidade. Mas também não precisam virar as costas para a sociedade. Generalizou-se no Brasil a percepção de que não há local mais seguro para os corruptos do que o Supremo Tribunal Federal. Juízes de primeira instância aprenderam a prender. Certos ministros da Corte Suprema especializaram-se em soltar.

O Supremo envernizou sua reputação com decisões favoráveis a minorias e grupos sociais vulneráveis. Foi assim com a validação da Lei Maria da Penha, a interrupção da gravidez em casos de fetos anencefálicos, o direito ao aborto no primeiro trimestre da gravidez, o reconhecimento da união homoafetiva e das cotas para negros e deficientes em universidades. Mas nada disso atenua a má repercussão da política de celas abertas patrocinada por ministros como Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski.

Alheio a todos os sinais de alerta, o Supremo adotou comportamento que levou à auto-desmoralização. Os ministros insultam-se diante das câmeras. Um deles julga casos de amigos. Outro decide sobre ex-chefes. E os demais fingem não ver. Há duas turmas na Corte. Uma notabilizou-se por prender. Outra solta a mais não poder. A primeira e a segunda instância condenam larápios. O Supremo os protege. Acaba de transformar a Justiça Eleitoral numa espécie de novo foro privilegiado para políticos em apuros.

De temeridade em temeridade, desceu à lata do lixo todo o prestígio social que o Supremo amealhara no julgamento do mensalão. A corrupção endêmica e reincidente fez do brasileiro um pretenso especialista em Supremo. Mesmo quem não entende de leis percebeu que certos magistrados não são necessariamente magistrados certos.

Foi contra esse pano de fundo que se avolumaram nas redes sociais, no noticiário, nos meios acadêmicos e no Ministério Público as críticas ao Supremo. Solidificou-se a percepção de que a Corte encostou sua reputação na desmoralização que atinge o sistema político e os outros Poderes. A diferença é que os outros agentes públicos foram arrastados para o caldeirão pela Lava Jato. As togas saltaram para dentro do melado por conta própria.

As críticas descambaram para as ameaças nas redes sociais? A integridade dos magistrados está ameaçada? Se a resposta for positiva para esse tipo de pergunta, o remédio é a abertura de inquéritos isentos de segredo, requisitados a quem de direito, seguidos da consequente responsabilização dos transgressores. Fora disso, remendos como manifestos oportunistas, longe de revitalizar, acabam por rebatizar a instância máxima do Poder Judiciário de Suprema Impotência.

Perda do brilho


A guerra é a obra de arte dos militares, a coroação da sua formação, a insígnia dourada da sua profissão. Não foram criados para brilhar na paz
Isabel Allende

Sem dias em cem

O problema não é o presidente Jair Bolsonaro não descer do palanque, como se diz por aí. Afinal, o celebrado Lula tampouco desceu do púlpito eleitoral em seus oito anos de poder. A questão que a muitos preocupa e a vários infelicita é o fato de, transcorridas doze semanas de governo, ele ainda não ter subido a rampa e, no gabinete do Palácio do Planalto, dado efeito ao que importa: o funcionamento da coisa pública. Como na piada do sujeito que fez dieta por quinze dias e no fim percebe que perdeu duas semanas na vida, o país completa 100 dias de Bolsonaro na Presidência sem nenhum ganho relevante no desatamento dos nós da administração que impedem o Brasil de sair do atraso na economia, saúde, educação e segurança. Na política, pretendendo avanços semeou paralisia pela falta de consistência do que seria o “novo” jeito de se relacionar com o Poder Legislativo.

Nenhuma de suas propostas andou. Nem as medidas provisórias, entre as quais estão a remodelação do Ministério da Economia e a liberação de auxílio de emergência às vítimas de Brumadinho. Isso num Parlamento que já aprovou confisco de cadernetas de poupança e quebra de paradigmas estatizantes com o impulso das urnas.

A situação soa ainda mais inusitada por se tratar de um presidente oriundo do Congresso e que, em tese, deveria ter noção sobre o papel da Casa no jogo democrático. Uma coisa é a campanha presidencial, durante a qual conta a relação do candidato com os anseios, reais ou ilusórios, do eleitorado. Outra, bem diferente, é a tratativa institucional que norteia o funcionamento da interdependência entre os poderes da República.

A independência consignada na Constituição requer harmonia. De forma alguma pressupõe que cada um faça o que lhe der na telha. Se o chefe do Executivo acha que pode atuar em desconexão com o Legislativo, é natural que a recíproca seja verdadeira. Donde os dois “trocos” que os deputados deram a Bolsonaro ao lhe infligir derrotas significativas com a aprovação do Orçamento impositivo e a rejeição do decreto que ampliava o escopo do sigilo a documentos oficiais.

O cacoete de parlamentar meramente reativo, livre para provocar em seu nicho de atuação no baixo ¬clero, parece ser o que impede Jair Bolsonaro de perceber que o início do período presidencial corresponde à entrada em cena do Congresso, à mudança da natureza do palco e, sobretudo, às demandas da plateia.

Na campanha candidatos falam à arquibancada, mas na Presidência governantes precisam lidar com o pessoal das cadeiras e camarotes se não querem ver a partida ser encerrada antes do tempo regulamentar.

O Supremo e o sacrifício de animais

O Supremo Tribunal decidiu que o sacrifício de animais em cultos religiosos afro-brasileiros é constitucional. Foi por unanimidade. E isso me decepcionou um pouco. Esperava uma corrente mais crítica ao antropocentrismo e sensível à dor dos animais.

Esses ventos ainda não sopram na Justiça brasileira. Mas já chegaram aqui da Argentina. Foi o caso de um habeas corpus concedido à chimpanzé Cecília, que visitei no Santuário dos Grandes Primatas, em Sorocaba. Cecília vivia triste e maltratada num zoo, mas ao chegar ao Brasil recuperou a alegria e até acasalou. Fiz um documentário sobre sua sorte.

Na mesma época entrevistei o escritor Peter Singer, autor do livro Libertação Animal, lançado em 1975, um texto inspirador do movimento moderno de defesa dos bichos. Singer estava exultante com a libertação de Cecília. Ele via ali os primeiros lampejos da aceitação de sua tese sobre os direitos dos animais.

Na vida cotidiana sabemos que essa é uma bandeira de minorias. E como tal precisa ser tratada com habilidade para atravessar a bandeira de ironia que se ergue diante dela.

Foi assim, por exemplo, que vi em Santa Catarina o movimento que criticava a Farra do Boi. É uma festa popular, tradicional na costa catarinense, onde para, os pescadores, o boi aparece como um invasor. A ideia na época não era acabar com a Farra do Boi, mas, na medida do possível, ajudar a transitá-la do boi real para um boi figurado, como, por exemplo, no Bumba meu Boi.

Creio que haveria uma possibilidade de argumentar com adeptos dos rituais de origem africana. Será que o sacrifício de animais é essencial para sua existência? Assim, como um leigo, posso afirmar que um dos mais belos rituais religiosos, envolvendo milhões de pessoas, são as oferendas a Iemanjá. Flores, quase todas flores. Na Baixada Fluminense documentei inúmeros trabalhos religiosos, nem todos usavam animais e, quando usavam, eram apenas uma parte das oferendas.

Creio que na própria religião afro-brasileira estão contidos os elementos que poderiam facilitar uma transição do corpo animal para o símbolo. Uma transição que a cultura popular brasileira, com suas representações do boi, já realizou.

Falei com um jovem político sobre o tema. Ele me respondeu: “Se me preocupar com isso, vou denunciar o peru de Natal”. Mas o peru de Natal é diferente. Ele é comido. Sempre afirmei que a proteína animal ainda é a maneira de alimentar tantas bocas no mundo. Mais ainda, para desalento dos vegetarianos, considero que o crescimento da humanidade, que nos levará aos 9 bilhões de pessoas em 2050, dificilmente dispensará a proteína animal. Mas o fato de comermos peru no Natal e sabermos que milhares morrem diariamente não justifica arrancar o pescoço de uma ave numa celebração mística.

A votação do Supremo lembrou-me de uma coisa: adianta apenas proibir? A experiência com a Farra do Boi, levei muitas pancadas por causa disso, é diálogo e compreensão. Mais que uma decisão da Corte, o ideal é uma transição em que o debate cultural realize o trabalho de suprimir maus-tratos aos animais.

Essa discussão no Supremo foi apenas um momento. Animais morrem inutilmente em grande escala no Brasil. E a causa, de certa forma, é o progresso material. Tenho documentando a mortandade dos jegues no Nordeste. Estão sendo substituídos pelas motocicletas. Morrem atropelados, abandonados pelos donos na margem das estradas.

Em alguns lugares, como em Apodi (RN), os jumentos foram recolhidos. Um promotor propôs que as pessoas passassem a comer carne de jegue. Ofereceu um churrasco. Sua proposta não vingou. Alguns empresários ainda esperam vender carne de jegue para a China.

Na verdade, uma extinção gradual vai tirando os jegues do cenário nordestino. Isso valeria uma política pública. Assim como o sacrifício de animais em cultos religiosos merecia um debate mais amplo.

Felizmente, nada vai deter o trabalho que se faz no Brasil. O próprio Santuário de Primatas em Sorocaba é um exemplo internacional. Em Três Rios há uma pousada que recebe bichos resgatados. A dona adotou uma jaguatirica que cruzou com uma gata e deu um belo gato mestiço. Na Serra da Mantiqueira, os chiqueiros estão cheios de filhos de javalis que cruzam com as porcas de madrugada. O que fazer com os javalis devastadores?

É todo um mundo girando. Levá-lo em conta ainda é muito difícil numa cultura em que o ser humana é o centro de tudo. Mas, apesar de decisões como a do Supremo, é possível dizer que está melhorando. Além disso, as crianças vêm aí e não são as mesmas do passado.

São Paulo já tem um hospital gratuito para animais. Em dezenas de lojas e restaurantes é possível ver tigelas de água para os animais de rua. Quando implodiram o presídio da Ilha Grande muitos cachorros fugiram para o mato. Hoje a ilha é cheia deles. Alguns estrangeiros às vezes retardam sua passagem pelo País apenas para adotar um cachorro da ilha.

O antropocentrismo aos poucos vai enfraquecendo, apesar do mundo institucional. Lembro-me das difíceis discussões no Congresso sobre experiências científicas com animais. Algumas envolvem a salvação de vidas humanas. No entanto, foi possível um nível de acordo. Acredito que hoje já exista uma tendência à simulação, fórmulas de cada vez eficazes para poupar os animais.

É uma escolha que transcende a polaridade esquerda-direita: um tipo de civilização está em jogo. Isso escapa ao próprio governo, preocupado, corretamente com a morte de 60 mil brasileiros por ano, mas totalmente perdido nas suas dúvidas sobre aquecimento global, nas suas estúpidas certezas como dizer que o nazismo foi um movimento de esquerda. Invadiu a União Soviética por engano? Milhões de mortes foram resultado de fogo amigo?

Animais racionais têm cada ideia.

Gente fora do mapa


Verdades alternativas no governo

O general Mourão precisa dizer, com jeitinho, ao presidente Bolsonaro e seu chanceler que a única coisa que une o nazismo à esquerda marxista é a tirania. Não são ruins por ser de direita ou de esquerda, são abomináveis porque não respeitam a liberdade e os direitos dos indivíduos, que devem se colocara serviço do Estado e de sua burocracia, com os resultados que se conhecem. Parece um absurdo ainda discutir isso a essas alturas da história.


O nazismo — com seu racismo, supremacismo ariano e eugenismo, seu militarismo e coletivismo — rivaliza em mortes com os democratas assassinados na União Soviética stalinista, militarizada e coletivista, em que o indivíduo não tinha liberdade política, econômica, cultural e de comportamento. Tudo em nome do Estado e pelo “povo”. A mesma coisa com sinal trocado, iguais na tirania e no autoritarismo.

Parece um absurdo ainda discutir isso a essas alturas da história. Imaginem alguém dizendo a Hitler, Himmler e Goebbels que eles são de esquerda. Câmara de gás ou gargalhadas? Ou chamando Stalin de nazista; fuzilado na Sibéria. O que eles têm em co mu mé o desprezo pelo indivíduo e pela liberdade.

Depois do nazismo de esquerda, o que mais podemos esperar? O comunismo democrático? O fascismo liberal-social? O judaísmo evangélico ? A ditadura democrática de força? O criacionismo? Uma nova mentalidade ou a volta de uma velha? Viveremos numa Bibliocracia?

É possível acreditar que o golpe militar de 64 foi “para salvar o país do comunismo”, como apoio de boa parte da população, mas é impossível negar os “probleminhas” de milhares de prisões arbitrárias, mortes e tortura institucionalizada. E quais seriam os “problemões”? Pareceu m absurdo ainda discutir isso a essas alturas da história.

Em vez de discutir o futuro, e o presente urgente, perdem tempo tentando reescrever o passado para adequá-lo a suas crenças e preconceitos. É um mi
toque de 55% do eleitorado votaram em Bolsonaro, boa parte só votou contra o PT. É verdade esse bilhete.

A força democrática



Foi um regime democrático de força
Ricardo Vélez Rodriguez, ministro da Educação