quinta-feira, 28 de março de 2019

Quanto pior melhor para o capitão

Ao Congresso, uma vez que queira se comportar com responsabilidade, cabe pôr suas impressões digitais na reforma da Previdência e aprová-la em tempo razoável. Porque para o presidente Jair Bolsonaro, tanto faz como tanto fez.


Bolsonaro votou contra todas as propostas de reforma da Previdência nos seus sete mandatos de deputado. Para isso até alinhou-se com o PT. Terceirizou a área econômica de um eventual governo só para obter o apoio do mercado.

Uma vez que se elegeu, pouco se lhe dá se a reforma for aprovada ou não. Cumpriu o ritual de ir ao Congresso apresentá-la. Vez por outra repete que sem ela o país quebrará. Mas ao mesmo tempo a torpedeia sempre que pode.

Se ela passar, Bolsonaro dirá que se deveu ao seu empenho e ao do ministro Paulo Guedes. Do contrário, culpará o Congresso pelo que possa acontecer ao país mais tarde. Jamais confessará que aposta no pior. É nisso, de fato, no que aposta.

Os que analisam o governo Bolsonaro cedem à tentação de normalizá-lo, de o observarem como a maioria dos governos que o país já teve – particularidades à parte. Mas ele não é e não quer ser um governo como qualquer outro.

Embora tenha ficado quase 30 anos na Câmara, Bolsonaro nada aprendeu ali, nada quis aprender, e por isso jamais se destacou entre seus pares – salvo como um tosco parlamentar, estridente e monotemático, em defesa das piores causas.

Ele foi a primeira pessoa a surpreender-se com a descoberta de suas chances de se eleger presidente – a segunda foi sua mulher. Isso ocorreu depois da facada em Juiz de Fora. À falta de equipe e de um plano de voo, montou o pior governo das últimas décadas.

Sem compromisso com coisa alguma, apreciador de ralas e confusas ideias, todos os seus passos até aqui têm sido na direção do enfraquecimento da democracia. Direto ao ponto: Bolsonaro sonha com o estabelecimento de um regime autoritário sob seu comando.

Daí seu desprezo pelos partidos, seu pouco caso com a Justiça cada vez mais acossada por seus devotos nas redes sociais, e seu ódio à imprensa independente. Se não houver a ruptura institucional tão desejada por ele, seguirá em frente aos trancos e barrancos.

Se sua situação no cargo tornar-se insustentável, será capaz de jogar tudo para o alto e ir gozar a vida confortável de ex-presidente. Era seu plano original: ajudar os filhos a se reelegerem e desfrutar da companhia de dona Michele e da filha mais nova. Aí deu no que deu.

Nova política, velha palavra

O culto do novo é velho. Um grego chamado Homero —ou as gerações de poetas anônimos embutidos nesse nome— já observava na "Odisseia", muitos séculos antes de Cristo, que o número musical mais aplaudido era sempre o mais recente.

O interesse despertado pela novidade se reflete nas palavras que nomeiam o que é notícia. Hoje pouco usamos "nova" nessa acepção, mas a boa nova, a notícia auspiciosa, mantém viva uma associação presente em diversas línguas, do latim medieval "nova" ao francês "nouvelles" e ao inglês "news".


Se isso é notícia antiga, só nos últimos dois ou três séculos virou cacoete de uma época de progresso tecnológico desembestado sair colando o adesivo "novo" nas coisas do mundo.

Que a busca do novo já começava a virar neurose no século 18, comprova-o uma ponderação do filósofo Denis Diderot em 1762: "Só Deus e alguns raros gênios conseguem forjar continuamente o novo". Ou seja: calma, pessoal. Na maior parte das vezes, estaremos no lucro se aprendermos a reproduzir bem o já sabido.

"Novo" e suas traduções ("new", "nouveau", "neu" etc.) fizeram a carreira brilhante que se viu. Pelo menos na cultura ocidental, ficamos viciados na musa das vanguardas, aquela que promete simplesmente reinaugurar a história.

Mais que desejável, o novo passou a ser nossa única saída, o que vai nos libertar do passado com seus protocolos que caducam cada vez mais depressa —a princípio a cada 50 anos, depois a cada 20, dez, um...

O envelhecimento nos morde os calcanhares. A obsolescência ridiculamente rápida de nossos telefones não deixa ninguém esquecer: o novo é um valor em si, mas envelhece correndo.

O jeito é fugir para a frente. Para a frente fugimos até nos momentos —felizmente raros— em que a realidade dá um cavalo de pau, o cenário gira 180 graus à nossa volta e acontece de, fugindo para a frente, irmos cada vez mais para trás.

O Brasil, estrela grandalhona do Novo Mundo, é só mais um fiel seguidor desse culto. No entanto, é provável que o peso do novo seja ainda maior em nossa cultura, que preza menos que outras a tradição.

Além de relativamente curta e escassa de heroísmo, nossa história de ex-colônia escravocrata portuguesa habita um cercadinho escolar sobre o qual a sociedade guarda um silêncio entre constrangido e abestalhado.

Das glórias que temos, raras e por isso mais valiosas, fazemos pouco. "A cada 15 anos, o povo brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos", disse o genial Ivan Lessa, também ele em processo de esquecimento.

Nossa relação apaixonada com a palavra "novo(a)" pode ser demonstrada assim: daria para contar uma versão bem razoável da história do Brasil, dos anos 1950 para cá, só com coisas que a trazem no nome.

Bossa nova. Novacap. Cinema Novo. Neoconcretismo. Novos Baianos. Cruzeiro novo, cruzado novo. Nova República. Nova matriz econômica. As novinhas. O Novo. E, por fim, estrela de um ano tumultuoso, a nova política do governo Bolsonaro.

Está claro que essa "nova política", que se oporia à "velha" de um Congresso fisiológico, é uma mistificação: conjunto vazio, trata-se da simples negação da negociação política. Subscrevo os argumentos de Carlos Melo, do Insper, em artigo publicado terça-feira (26) nesta "Folha".

Só faltou dizer que, como palavra-fetiche, "novo(a)" é das mais fortes que há. Embalando —e engambelando— a humanidade há séculos, não dá pinta de envelhecer tão cedo.

Pensamento do Dia


Administração de Jair Bolsonaro sofre um apagão

Ninguém disse ainda, talvez por pena, mas o governo de Jair Bolsonaro sofre um apagão político-gerencial. A nova administração vive uma pane antes de completar três meses de existência. De acordo com uma lei não escrita da política, esse seria um período em que o presidente teria direito a uma tolerância, para se estabelecer no poder e deflagrar os seus planos. Mas Bolsonaro conseguiu transformar lua-de-mel em pesadelo. Fez isso sem a ajuda da oposição.


O governo dividiu-se em quatro grupos: a ala dos superpoderosos, o bloco circense, o núcleo militar e o puxadinho dos filhos. Na ala dos superpoderosos, a reforma previdenciária de Paulo Guedes subiu no telhado. E o pacote anticrime e anticorrupção de Sergio Moro passa por um processo de lipoaspiração num grupo de trabalho da Câmara.

No bloco circense, Vélez Rodrigues leva o MEC à corda bamba e a "estilista" Damares Alves diverte a plateia ensinando que meninas vestem rosa e meninos vestem azul. O núcleo militar cumpre a ordem de organizar a estapafúrdia comemoração do aniversário de 55 anos do golpe de 64, enquanto estuda uma maneira de tutelar o presidente. E o puxadinho dos filhos dedica-se a ajudar o pai-presidente a tocar fogo no circo.

Após sofrer uma derrota vexatória na Câmara, com a aprovação de emenda que engessa mais um orçamento que a pasta da Economia queria liberar, Bolsonaro diz que vai dialogar com presidentes e líderes de partidos. Para fazer isso, talvez tenha de ficar fora de si, pois não está habituado a sentar-se à mesa. Acostumou-se a virar a mesa. Para Bolsonaro, o bom diálogo é quando ele consegue obrigar o interlocutor a calar a boca. Ou o capitão revoluciona sua personalidade ou o apagão do governo desligará o Brasil da tomada.

Bancando presidente

Abalados estão os brasileiros que estão esperando desde primeiro de janeiro que o governo comece a funcionar.

São 12 milhões de desempregados, 15 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza, capacidade de investimento do Estado brasileiro diminuindo, 60 mil homicídios… E o presidente brincando de presidir o Brasil
Rodrigo Maia, presidente da Câmara

Quanto custa o mito

Bolsonaro não dá sinal de se importar com crise; mercado se irrita com Guedes
A pororoca no mercado financeiro parece feia, mas as baixas por ora são apenas espuma. A reincidência do governo em erros, despropósitos e arruaças é lama.

Menos de 24 horas depois de ficar explícito que não dispõe de coalizão partidária para sobreviver no Congresso, Jair Bolsonaro voltou a provocar parlamentares e discórdia. Em entrevista na TV, fez comentários de escarninho colegial sobre o presidente da Câmara. Em resposta, Rodrigo Maia (DEM-RJ) disse que Bolsonaro está "brincando de presidir o Brasil". Nas redes insociáveis, voltou a incitar rixas ideológicas sinistras (1964).

No Congresso, não houve tentativa organizada de criar uma mesa de conversa para valer entre governo e parlamentares. No DEM, há gente empenhada em levar Bolsonaro para a luz mínima da política, como Ronaldo Caiado, governador de Goiás. Será um esforço em vão caso Bolsonaro não crie uma equipe, no governo e no Congresso, experiente e com poderes de organizar uma coalizão, o que significa ceder à "velha política".


Como se não bastasse, causou má impressão a audiência do ministro Paulo Guedes (Economia) na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

Para os senadores, mesmo os simpáticos a reformas, Guedes se comportou de modo "arrogante", "agressivo", "ignorante dos modos da política" e "desavisado" por levantar a hipótese de que pode deixar o governo caso as reformas sejam bloqueadas. Trata-se de possibilidade óbvia, mas isso não se antecipa em público.

No mais, gente da praça do mercado se irrita loucamente com Guedes porque o ministro "não controla" Bolsonaro. "O mito saiu caro", diz um financista.

A maioria dos preços desabou no mercado financeiro, em parte por reação estereotipada, em parte porque o clima na finança mundial não está bom, faz semanas.

Os maus humores podem se dissipar em dias, sem deixar efeito na economia real, mera espuma. Mas a persistência de condições financeiras degradadas por uns dois meses deve multiplicar vetores de estagnação.

Por exemplo, a confiança de empresários e consumidores está em queda, provavelmente devido à frustração das promessas de recuperação econômica. O tumulto político pode engrenar um círculo vicioso.

É difícil entender ou encontrar alguém que explique os objetivos de Bolsonaro.

Um general conselheiro acredita que o presidente espera com otimismo exagerado ver o Congresso "se dobrar às necessidades do país", mas que vai se tornar mais maleável aos poucos.

Visto de fora, Bolsonaro e seu núcleo puro, filhos e assessores, não parecem diferentes da campanha: vieram para "quebrar o sistema". Trata-se de uma crença rude, entre fantástica e autoritária, de que governará "fora do mecanismo", apoiado por pressão popular permanente.

A paranoia parece, no entanto, agravada, em particular pela opinião pública de elite cada vez mais favorável ao vice-presidente, Hamilton Mourão.

Por ora, não parece haver força que demova Bolsonaro. No Congresso, não há ordem, recursos ou impulsos para tirar a política do impasse, o que em tese não é difícil.

Não há racha essencial na elite econômica, que quase toda colaborou com a vitória de Bolsonaro, na crença de que o capitão seria "business as usual", com um tempero amargo de ferocidade inócuo em termos materiais, "reformas" etc.

Assim, um mero acordo de divisão de poder do governo com alguns partidos resolveria a parada. Mas Bolsonaro acha que é uma revolução.

O golpe

Partidos e grupos comunistas, mais seus associados, discutiam qual a maneira de derrubar o capitalismo burguês e implantar a ditadura do proletariado: pela luta armada ou pelo caminho reformista? Isso era em 1964, e a ampla maioria da esquerda era reformista – pelas chamadas reformas de base, processo que começava com a agrária e incluía um amplo cardápio de estatizações.

O presidente João Goulart, do PTB getulista, no cargo desde a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, estava claramente no campo da esquerda. Havia comunistas no seu governo ou no seu entorno, mas Jango estava longe de ser ele mesmo comunista. O mesmo se poderia dizer de ilustres membros de seus gabinetes, durante o curto período parlamentarista, como os primeiros-ministros Tancredo Neves e Santiago Dantas.

No máximo, seriam socialdemocratas ou trabalhistas ou socialistas no sentido que a palavra tem hoje nos Estados Unidos – um pessoal preocupado com distribuição de renda e proteção social. Nacionalistas, também.

Como o grupo comunista era claramente minoritário nessa aliança, o sucesso de Jango levaria o Brasil a uma economia mais estatizada, com o aumento de gastos públicos em todos os setores, dos sociais à infraestrutura. Mais ou menos como aconteceu no governo ditatorial do general Ernesto Geisel, um nacionalista e estatizante da primeira linha. E como aconteceu com o governo Lula.

Para o leitor verificar como isso de ideologia e política econômica estava bem confuso.

Acontece que em 1964, o mundo estava em plena guerra-fria, dividido entre os Estados Unidos e a União Soviética (vejam, por favor, a coluna da semana passada, aqui mesmo.

As plataformas reformistas – aqui, no Chile, na Argentina, em toda parte – procuravam se aproximar não propriamente da URSS, mas de um bloco que se declarava independente, o do Terceiro Mundo, que, entretanto, pendia para a esquerda. Ou seja, adversário dos EUA.

Nessa disputa, os EUA patrocinavam ditaduras direitistas para, com o se dizia, evitar a ditadura comunista.


Pela minha história pessoal (17 anos em 1964) e pelo que estudei, não havia a menor possibilidade de uma vitória comunista, nem pela via reformista, nem pela luta armada. Qual a chance de uma guerrilha no Araguaia ou no Vale do Ribeira? Ser massacrada, como aconteceu.

Mas foi nesse quadro que parte da elite brasileira, representada por partidos e associações civis, bateu às portas dos quartéis. Os militares atenderam rapidamente, pois a doutrina que aprendiam era simplesmente Ocidente versus o Pacto de Varsóvia (a frente militar da URSS).

Sim, o Congresso brasileiro chancelou a derrubada de Jango em abril de 1964 e depois elegeu presidente o então chefe do Estado Maior das Forças Armadas, marechal Castelo Branco. Só que o Congresso estava diante da alternativa: ou isso ou o fechamento.

Muitos democratas e liberais apoiaram o golpe. Achavam que seria um interregno necessário para garantir as eleições presidenciais de 1965, nas quais haveria o embate entre Juscelino Kubitschek (pelo lado reformista democrático) e Carlos Lacerda (conservador, liberal, democrata).

Todos esses democratas se decepcionaram e foram abandonando o governo militar na medida em que este radicalizava e se transformava em verdadeira ditadura. Carlos Lacerda, apoiador do golpe, terminou cassado e se unindo a JK, também cassado, numa frente pela democracia.

Sim, o Congresso funcionou o tempo todo, mas foi fechado nos breves momentos em que ousou discordar do regime. O Congresso elegeu os presidentes, mas depois que os nomes eram selecionados entre os generais de quatro estrelas. Partidos políticos foram proibidos, a imprensa foi censurada, opositores – fossem democratas ou comunistas – foram presos, torturados, mortos.

A ditadura caiu em 1985, quando se formava uma onda mundial pró-democracia, apoiada até pelos EUA. O presidente Jimmy Carter e sua mulher Rosalyn pisaram nos calos da ditadura brasileira. Rosalyn chegou a se reunir com padres que haviam sido torturados.

E quando a política econômica finalmente fracassou, com recessão, dívida externa explosiva e inflação, a ditadura caiu. Os militares se retiraram, liderados por colegas de bom senso, num processo conduzido por políticos habilidosos.

Não há nada para comemorar em 31 de março.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Pensamento do Dia

Mana Nevestani

Um presidente impelido pelas próprias obsessões

Carmen A. foi presa em 1974 em São Paulo, ela tinha 28 anos. Os militares a levaram para uma prisão para ser torturada. Lá ligaram um cabo a seu seio direito e lhe deram choques. Eles queriam saber do paradeiro do marido dela e ameaçaram maltratar seu filho de 1 ano.

Seus algozes se chamavam Doutor Romero e Capitão Ubirajara. Quando Carmen me contou sua história, um ano atrás, ambos estavam soltos. Eles tiveram que pagar tão pouco por seus crimes quanto todos os demais torturadores e assassinos de uniforme que, entre 1964 e 1985, afirmavam ter que proteger o Brasil da ameaça comunista.


Para o presidente Jair Bolsonaro, homens como Romero e Ubirajara não são criminosos, eles são heróis. Isso diz muito sobre o caráter patológico de um homem cujo livro preferido foi escrito por um torturador que, entre outras coisas, mandava inserir ratos na vagina de suas vítimas.

Esses e outros crimes nunca entraram na memória coletiva dos brasileiros. Isso se deve sobretudo à lei da anistia, que os militares introduziram em 1979, também para si mesmos. Assim, os cidadãos ficaram sabendo pouco sobre os aspectos sombrios do regime. Conservadores afirmam até hoje que a lei e a ordem imperavam na época.

A falta de estudo e conhecimento sobre a história do país é um dos solos sobre os quais Jair Bolsonaro pode agora declarar o 31 de março dia comemorativo nas casernas. Em outros países da América Latina que sofreram sob regimes militares, seria impensável uma coisa dessas, hoje em dia. No Brasil de Jair Bolsonaro, é possível.

Em 31 de março de 1964, as Forças Armadas brasileiras perpetraram um golpe de Estado contra o presidente constitucionalmente legítimo João Goulart, acusando-o de comunismo por, entre outros motivos, almejar uma reforma agrária.

Milhões de brasileiros conservadores apoiaram o golpe, do mesmo modo que a elite econômica, empresas de mídia, a Igreja Católica e o governo dos Estados Unidos. Navios de guerra americanos se encontravam perto do litoral brasileiro. Era o início dos "anos de chumbo". Para Bolsonaro, em contrapartida, foi o começo de uma época gloriosa.

"Não houve golpe militar", ele comunicou agora através de seu porta-voz, foi uma "intervenção democrática". É a tentativa do político de reescrever a história de acordo com a própria percepção. E faz lembrar o romance de George Orwell 1984, em que o "Ministério da Verdade" está constantemente ocupado em acomodar o passado à linha partidária dominante.

O presidente da República é obcecado por duas coisas: a homossexualidade alheia, que de forma repetida e inteiramente inútil insiste em tematizar, e o passado, o qual, assim como a todos os reacionários, o ocupa muito mais do que o futuro. O motivo por que ele se interessa mais pelos homossexuais e por uma ditadura militar que terminou 35 anos atrás do que, por exemplo, pela reforma da aposentadoria, um melhor sistema de ensino ou o combate à pobreza, é um caso para psicólogos.

O fato é que esse presidente bloqueia novamente o Brasil. Ele não leva o país adiante, mas o toma como refém de suas obsessões. Ele não tem nenhum interesse em unir, ele divide; não quer paz, mas conflito permanente. Isso é seu combustível, o que ele tem em comum com Donald Trump, outro narcisista de coração pequeno e mente estreita.

Cerca de 2 mil pessoas foram torturadas durante a ditadura militar brasileira, assim como Carmen A.. Quanto ao número de mortos, falta clareza até hoje. Embora por muito tempo se computassem 357 mortos, sobretudo oposicionistas de esquerda e guerrilheiros, em 2012 acrescentaram-se outras 600 vítimas: lavradores, sindicalistas, párocos de aldeia, ambientalistas. Um novo cálculo inclui agora também milhares de índios mortos por estarem no caminho de projetos de infraestrutura, como as represas no Amazonas.

Devido a esses números de vítimas relativamente baixos, se comparados às ditaduras do Chile e Argentina, o regime militar do Brasil é também denominado "ditadura light". Mas isso existe? É do filósofo alemão Theodor W. Adorno a constatação: "Não há vida certa no que é errado". Da mesma forma não há ditadura suave para as vítimas. O torturador coronel Paulo Malhães foi assustadoramente franco, ao dizer perante a Comissão Nacional da Verdade, introduzida em 2011: "Nós matamos tantos quanto foram necessários."

A pergunta decisiva: há mais do que mero revisionismo histórico por trás dos esforços de minimização desses homens? Trata-se de um projeto de legitimação de uma política que persegue o que é contrário e impõe seus projetos inescrupulosamente?

Será então que este 31 de março visa apontar em direção ao futuro e, por exemplo, legitimar a destruição da selva amazônica e a expulsão dos indígenas em favor de interesses econômicos? Ou o procedimento cada vez mais brutal da polícia nas favelas? Será que a resposta aos graves problemas sociais do Brasil é, mais uma vez, repressão?

Na realidade, em tudo isso há uma contradição dialética com que nem mesmo Bolsonaro possivelmente contou: os militares brasileiros estão pouco entusiasmados com a ideia de celebrar um golpe militar. O fato de essa ordem ter vindo do ex-capitão Bolsonaro, que nunca passou do baixo escalão, possivelmente gera desagrado adicional.

Como se mostra de forma cada vez mais aberta, em sua maioria os generais não estão interessados em aprofundar o cisma da sociedade brasileira. São não raro pessoas racionais, que têm em vista o bem do Brasil e a paz. Isso os distingue de um presidente impelido por suas obsessões e que prefere promover a arruaça.

Taokey?


Todo privilégio corrompe
Modesto Carvalhosa

Deu no jornal

Ricos, em condomínio de luxo não atingido, receberão indenização da Vale
A Vale, frequentemente acusada de desamparar pessoas pobres atingidas pelas tragédias que provoca, ofereceu a moradores de um condomínio de luxo, que fica muito acima da barragem de Brumadinho e não foi nem de longe atingido, o auxílio de um salário mínimo por um ano. E por incrível que pareça parte dos moradores pretende aceitar a "indenização emergencial", como é chamado o benefício.
O condomínio Retiro das Pedras fica na divisa com Nova Lima, em uma parte alta, mas ainda está no município de Brumadinho. Só que a altura em que fica o Retiro jamais fez a lama tóxica ameaçá-los.
 Mesmo assim no último fim de semana houve disputa dos formulários levados pelo prefeito e representantes da companhia, segundo conta um dos moradores que recusou a ajuda imerecida e revela que houve até tumulto na disputa dos formulários. Acharam que foram poucos os formulários levados.

A Vale confirma que vai pagar esse benefício, alegando que pelo critério geográfico o condomínio fica na cidade. A síndica Claudia Baeta confirma que alguns moradores vão receber e conta que o tumulto na reunião foi motivado também pela surpresa. Os moradores não imaginavam que teriam direito à indenização. De fato não deveriam ter. Ela conta que o prefeito de Brumadinho visitou também outros condomínios que ficam longe da barragem rompida, como o Retiro do Chalé e o Casa Branca, e tem sugerido que todos os moradores aceitem a indenização, e, segundo ela, ele disse que quem não quer ficar com o dinheiro poderá doar.
 O Retiro das Pedras tem em torno de 680 lotes e havia cerca de 100 pessoas na reunião. Claudia relata que nem todas as pessoas aceitaram a indenização.
 — Eu ainda não decidi e não tenho a obrigação de divulgar minha decisão. Não acho que tenho direito à indenização, mas a regra foi decidida pelos órgãos responsáveis— diz a síndica. Ela diz que cogita doar os valores.
 Cada um dos adultos que comprove que morava em Brumadinho no dia 25 de janeiro, quando a barragem se rompeu, tem direito a um salário mínimo mensal por um ano. É preciso apenas um documento de comprovação, como a conta de água ou o registro em posto de saúde. Adolescentes têm direito a meio salário mínimo. Para crianças, a indenização é de um quarto do salário mínimo, também pelo prazo de um ano.
Até aqui, ao todo 1.300 pessoas se cadastraram para receber a indenização emergencial. A Vale não informa quantos são moradores do Retiro das Pedras ou dos outros condomínios da região. A empresa explica que está cumprindo o acordo firmado com a Advocacia-Geral do Estado e também a da União, o Ministério Público do Estado e o MPF, além das Defensorias Públicas do Estado e da União.
É óbvio que o acordo tem que ser para quem for atingido e não para moradores de condomínios de luxo, longe de onde ocorreu o fato e bem acima da terrível tragédia.Míriam Leitão

O pesadelo do sono de Bolsonaro

Foi o presidente Jair Bolsonaro quem contou. Durante uma de suas internações os médicos conferiram a qualidade do seu sono e registraram 89 breves alterações por hora. Nas suas palavras: "Um recorde. Os médicos disseram: 'Como é que você consegue raciocinar?'".

Sono é assunto sério. Donald Trump diz que dorme de quatro a cinco horas por dia num quarto onde tem três televisões. Talvez isso explique muita coisa. Os primeiros meses da Presidência de Bill Clinton foram uma calamidade. Irritava-se, não conseguia prestar atenção nos outros. Era a noite maldormida. O primeiro-ministro britânico Winston Churchill regulava com o horário de Trump, mas sua soneca da tarde era sagrada.

Em dezembro do ano passado Bolsonaro sentiu-se mal porque se confundiu com os medicamentos e teve uma sonolência. Dormindo pouco, ou mal, ele compromete seu desempenho nas horas em que fica acordado, sobretudo se tiver um celular à mão. Nesse caso, o disparador de mensagens produz no meio político o efeito letal do revólver que mantém ao alcance mesmo quando está na cama.

Desde que entrou no Planalto, Bolsonaro descumpre uma das normas que regem o funcionamento do prédio. Ele se destina a diminuir o tamanho dos problemas. Alguns presidentes, como Fernando Henrique Cardoso e Lula, foram amortecedores de encrencas e crises. Nos seus 16 anos de poder a crise entrava no palácio e saía menor. Outros, como Dilma Rousseff e João Figueiredo, foram propagadores de dificuldades. Ambos perderam o controle de seus governos.
À primeira vista, Bolsonaro continua em campanha. Isso explica que vá a Washington condenar o "antigo comunismo" e que tenha obrigado o presidente chileno, Sebastián Piñera, a considerar "infelizes" algumas de suas opiniões. Campanha é assim mesmo, quanto mais tensão se puser na mesa, melhor, sobretudo numa disputa como a eleição brasileira do ano passado.

Governo é outra coisa e Bolsonaro sabe que a campanha terminou, mas procura afirmar-se produzindo tensões. À falta do "antigo comunismo", não tendo Lênin nem Fidel Castro para desafiar, encrencou com Rodrigo Maia. Ganha um fim de semana em Cuba quem souber por que ele se desentendeu com o presidente da Câmara.

Há duas semanas anunciou-se que o presidente da República teria um almoço com os presidentes dos dois outros poderes para um encontro harmonizador. Não era bem assim. O que poderia ter sido uma conversa de três pessoas virou um churrasco ao qual compareceram 15 ministros. Uma assembleia geral, enfim. Maia não reclamou, mas registrou.

Fabricar tensões é mau negócio para governante. Como ensinou Tancredo Neves, presidente tem que dar as cartas, não pode ficar o tempo todo embaralhando-as.

Nos últimos meses Jair Bolsonaro teve uma vida dura, com um atentado, três cirurgias e longas internações. Em poucos meses passou pela tensão da montagem do governo e, desde janeiro, chefia uma equipe que pretende mudar a estrutura e os métodos da administração. Em alguns setores, como nos ministérios da Agricultura e da Infraestrutura, a coisa está funcionando. Em outros, como na Educação, o clima é de gafieira.

Quando os médicos de Bolsonaro surpreenderam-se com a má qualidade do seu sono, eles sabiam do que estavam falando. Uma das consequências mais mencionadas desse distúrbio é a irritabilidade. Pode parecer bobagem, mas David Gergen, conselheiro de Bill Clinton, contou que as coisas melhoraram quando o presidente passou a dormir direito.
Elio Gaspari:

Brasil no poste por má direção


Bolsonaro reforma o lema 'nós contra eles'

A tramitação da reforma da Previdência enviada pelo presidente Jair Bolsonaro ao Parlamento foi contaminada por uma nova versão do “nós contra eles”, famigerada palavra de ordem cunhada durante os governos petistas e em parte responsável pela polarização política até hoje vivenciada no Brasil. Para Bolsonaro e seus aliados mais próximos, “eles” são os políticos tradicionais, detentores de parte considerável dos votos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

A má notícia para quem deposita na reforma previdenciária suas esperanças de retomada do crescimento econômico é que, no presidencialismo à brasileira, dificilmente o Legislativo se tornará um terreno menos árido sem a liderança do próprio presidente da República. Por outro lado, a boa notícia é que cedo ou tarde Bolsonaro e seus articuladores políticos acabarão por entender que negociar não é sinônimo de fazer negociata.

Hoje, o Congresso Nacional é um território hostil à tramitação de propostas de emenda à Constituição Federal. As PECs exigem maioria absoluta dos votos na Câmara e no Senado para serem aprovadas, e depois de passarem por dois turnos em cada uma dessas Casas são promulgadas em sessão do Congresso Nacional. Ou seja, o presidente da República não tem como alterar essas emendas constitucionais, se não for com muita conversa e usando o seu poder de influência durante a tramitação.

A expressão “nós contra eles” foi incluída no léxico político pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e durante muito tempo teve uma conotação social e era também relacionada à luta de classes. Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff e seus correligionários a usaram à exaustão para desqualificar adversários e obter seguidas vitórias nas urnas. Foi a ela também que petistas apelaram, em vão, para tentar reunir votos e militantes contra o processo de impeachment de Dilma, a prisão de Lula e amplificar críticas à administração de Michel Temer.

O PT insistiu no mesmo cântico de guerra durante a última disputa eleitoral, mantendo a candidatura de Lula ficta até o limite do prazo legal.

Já a candidatura de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto foi fruto desse ambiente de polarização política e nele prosperou. Antipetistas uniram-se aos eleitores de primeira hora do então deputado federal do PSL, levando o capitão da reserva do Exército a uma vitória no segundo turno contra o petista Fernando Haddad.

Durante décadas, Bolsonaro atuou na Câmara dos Deputados mais para barrar os projetos com os quais não concordava do que para construir consensos e viabilizar a aprovação de suas próprias propostas. Percorreu o país no período pré-eleitoral com esse mesmo comportamento e boa parte de sua campanha foi fundamentada na crítica à política. Muitos dos seus eleitores esperavam que, uma vez empossado, Bolsonaro assumiria uma postura mais virtuosa. Mas suas primeiras movimentações como chefe do Poder Executivo mantiveram o mesmo tom, o que, deve-se ressaltar, também é responsável por manter mobilizada a base social que o apoiou desde o início dessa jornada.

Bolsonaro preferiu criar uma barreira entre o Palácio do Planalto e os partidos políticos. Disse que a diferença em relação aos seus antecessores é que nunca correrá o risco de ser preso, responsabilizando o presidencialismo de coalizão pelos crimes praticados por políticos.

Durante o fim de semana, afirmou que não seria arrastado para batalhas que não são suas no Senado. E sublinhou que já fez a sua parte em relação à reforma, acrescentando que agora a bola está com o Congresso.

Está, assim, executando o plano que desenhou durante o período de transição, mas agora diversos parlamentares começam a se queixar de que ficarão expostos sozinhos às críticas pela aprovação de uma medida impopular.

O presidente também passou a questionar, em conversas com a imprensa e transmissões ao vivo em redes sociais, o que mais poderia fazer para viabilizar a aprovação da reforma da Previdência sem ferir o Código Penal. Muitos parlamentares têm a resposta na ponta da língua: assumir a liderança do processo e compartilhar o ônus político de desagradar trabalhadores do setor privado, servidores públicos e militares, em vez de resguardar-se para depois poder avocar a autoria do projeto e seus efeitos positivos sobre a economia.

Embora tenha ocupado a função de vice-líder do PDC em 1991 no início de seu primeiro mandato, Bolsonaro nunca exerceu de fato cargo de liderança em seus quase 30 anos na Câmara dos Deputados. No entanto, certamente o fez quando estava em serviço ativo do Exército e ainda deve ter em mente as diretrizes definidas para quadros de liderança da Força.

Publicado em 2011 pelo Estado-Maior do Exército, a segunda edição do “Manual de Campanha – Liderança Militar” tem algumas dicas úteis. O texto diz, por exemplo, que os liderados só agem quando se sentem afiançados. Em tempos de normalidade, prossegue o guia, o gestor deve se preocupar não somente com o controle do estresse de seus subordinados, por meio de comportamentos atentos e comunicativos, mas também consigo próprio. “O estresse detectado nos líderes é extremamente ‘contagioso'”, anota.

“O cenário de crise caracteriza-se por um estado de tensão, provocado por fatores externos ou internos. Um choque de interesses, se não administrado adequadamente, corre o risco de sofrer um agravamento, podendo haver uma escalada a uma situação de guerra ou conflito”, acrescenta o manual, antes de se referir às peculiaridades da liderança militar em combate: “Seus desafios não se encerram com a tomada de decisões, pois é preciso disseminá-las de forma que não haja dúvidas sobre sua legitimidade e acerto, além de garantir que sejam devidamente cumpridas por subordinados comprometidos. Ao agir dessa forma, o comandante evidenciará sua proficiência profissional e conseguirá mostrar-se confiável e persuasivo, favorecendo o surgimento da liderança”. 

Homem lobo do homem

Antigamente o que oprimia o homem era a palavra calvário; hoje é salário
Carolina Maria de Jesus

Código de barra trava a reforma da Previdência

O sistema político brasileiro, como se sabe, morreu. E não foi para o céu. A despeito disso, um Congresso supostamente renovado discute a reforma da Previdência ostentando os mesmos vícios que levaram à deslegitimação de um modelo insustentável. No gogó, há na Câmara uma imensa maioria de deputados a favor da proposta de reforma previdenciária. Mas a emenda constitucional não avança porque o governo e seus potenciais apoiadores não se entendem quanto ao preço dos votos.


Bolsonaro se autoproclama um presidente limpinho. E oferece um balcão mixuruca, com emendas orçamentárias impositivas e cargos de quinta categoria. Os potenciais aliados do governo olham ao redor, enxergam o laranjal que cresce no quintal do PSL, partido do presidente, vêem o primogênito Flávio Bolsonaro encrencado com o Ministério Público, observam a queda da popularidade do capitão e sentenciam: "Bolsonaro é um dos nossos. Terá que jogar o jogo". E nada avança.

Depois de cinco anos de Lava Jato, o Brasil continua às voltas com a síndrome do quase. A faxina quase foi alcançada quando as ruas escorraçaram Collor do poder. A higienização quase foi obtida quando cassaram-se os mandatos de meia dúzia de anões do Orçamento. A purificação quase chegou quando o Supremo mandou para a Papuda a bancada do mensalão. Sobrevieram o impeachment de Dilma, a prisão de Lula, a eleição de uma chapa puro-sangue militar, o pesadelo criminal de Temer... E prossegue a maldição do quase.<

Churchill ensinou que a democracia é o pior regime possível com exceção de todos os outros. No Brasil, os políticos continuam engajados num esforço para implementar as alternativas piores. Se tivessem juízo, os congressistas arrancariam da lapela o código de barras. A sociedade e a economia do país não suportam mais.

Bolsonaro escancara cadáver insepulto da ditadura com celebração do golpe

O presidente Jair Bolsonaro sinalizou oficialmente que as Forças Armadas poderão comemorar o golpe de 31 de março de 1964, que instaurou uma ditadura militar no país, deixando centenas de mortos e desaparecidos, e cuja repressão lançou mão de artifícios como estupros e tortura. O anúncio, feito pelo porta-voz do Governo, Otávio Rêgo Barros, na noite de segunda, escancarou os fantasmas que o Brasil carrega e não consegue superar apesar de todas as tentativas de se pacificar com o passado. "O nosso presidente já determinou ao Ministério da Defesa que faça as comemorações devidas com relação a 31 de março de 1964”, afirmou Barros. A então presidenta Dilma Rousseff, ela própria vítima das torturas da ditadura, havia suspendido em 2011 qualquer celebração da data.


Agora, com número recorde de militares ocupando o primeiro escalão do Governo desde os anos de chumbo, Bolsonaro faz um aceno considerado por especialistas "mais simbólico do que prático" para a ala mais radical da tropa, conhecida como generais de pijama, ou militares da reserva. Porém, a simples menção à data como fonte de celebração ganha dimensão humilhante para familiares que tiveram parentes torturados e mortos na ditadura. Ieda de Seixas, que tinha 24 anos ao ser presa e torturada no período da ditadura apenas por ser filha de um militante político, criticou a decisão de Bolsonaro, mas não se disse surpresa. “Anistiaram os torturadores, o que eu posso esperar? O que me deixa indignada é saber que os torturadores estão morrendo de pijama em casa, sem serem julgados”, afirmou ao EL PAÍS. A Lei da Anistia de 1979 deixou os militares livre de punição, mesmo com as provas irrefutáveis dos crimes cometidos de então.

A decisão de Bolsonaro contrasta com o cenário vigente em outros países da América Latina que também passaram por ditaduras militares. No Chile um general foi destituído pela cúpula do Exército ao saudar um torturador, e a Argentina fez história ao processar e julgar os integrantes do aparato repressivo da Junta Militar. Não há homem público capaz de reverenciar abertamente os tempos da ditadura nesses dois países, pois a sociedade os rejeitaria. O presidente chileno, Sebastián Piñera, um político de direita que sempre criticou o regime do general Pinochet, fez questão de se distanciar do ideário bolsonarista durante a visita do brasileiro ao país. De acordo com ele, as frases do capitão sobre ditadura “são tremendamente infelizes”. “Não compartilho muito do que Bolsonaro diz sobre o tema”, concluiu. Uma das frases de Bolsonaro citadas por Piñera é o “quem procura osso é cachorro”, que ilustrava o gabinete do então deputado que zombava dos brasileiros em busca de restos mortais de seus familiares mortos e enterrados na região do Araguaia.

A chacota de Bolsonaro com assunto tão delicado, no entanto, parece calculada. Enquanto a polarização se reacende com sua decisão, ele faz do assunto um tema de distração em seu Governo que está às voltas com a pressão pela reforma da Previdência. “A esquerda raivosa e os bonecos de ventríloquos estão em polvorosa por causa da decisão do governo de autorizar as comemorações devidas ao Março de 1964. Podem berrar. O choro é livre e graças aos militares, o Brasil também!”, tuitou Joice Hasselman, para amplificar a mensagem de Bolsonaro.

Se em outros países que viveram traumáticos regimes ditatoriais esse quadro seria inimaginável, no Brasil uma parcela de brasileiros diminui o tamanho das feridas da ditadura. Bolsonaro, porém, sempre a defendeu publicamente, e se declarou ser assumido fã do torturador Carlos Brilhante Ustra, morto em 2015 sem nunca responder por seus crimes. Mesmo assim, ganhou apoio geral dos brasileiros na eleição. O anúncio desta segunda-feira de deixar que as Forças Armadas celebrem a data de 31 foi apoiada por seus seguidores.

Entre militares, porém, há mais comedimento para tratar do assunto, embora o golpe de 1964 seja visto com pragmatismo. O discurso do golpe como um remédio amargo para evitar que o país caminhasse para o comunismo é uma constante entre militares da reserva, ainda que na historiografia essa tese já tenha sido refutada. Em conversa com o EL PAÍS, o general da reserva Paulo Chagas comemorou a medida anunciada por Bolsonaro. “É um resgate de uma dívida histórica, porque é um fato histórico. O país caminhava de forma rápida para se tornar uma república socialista”, afirmou. Já o general Rocha Paiva, também reformado, defende que “o 31 de março seja tratado como uma parte da história do país, que deve ser contada pelos que participaram, sem matiz ideológico. E de 30 anos pra cá, a história tem sido contada com matiz ideológico socialista”.

A própria retórica do presidente deriva deste grupo de reservistas que repudia a “ameaça vermelha”. “Bolsonaro faz isso porque sua base de apoio sempre foi em grande medida costurada por grupos de pressão de oficiais da reserva e no Clube Militar. Tais grupos eram, por assim dizer, o fio de resistência de comemorações que tinham um viés anticomunista, como a da Intentona de 1935”, afirma Piero Leirner, antropólogo e especialista em estratégia militar da Universidade Federal de São Carlos. “Muito do que ele fala vem de construções ideológicas formadas por estes grupos. Por exemplo, o brado ‘Brasil acima de Tudo!’, que foi adotado pelos paraquedistas, inicialmente é de um grupo militar nacionalista chamado ‘Centelha Nativista’, ainda da época do regime militar. Talvez por isso os comandantes da ativa pediram cautela com esta sugestão de Bolsonaro”, explica Leirner. Em 19 de março a Folha de S.Paulo publicou reportagem afirmando que a cúpula militar “quer evitar comemorações públicas e efusivas dos 55 anos do golpe militar”. O objetivo seria evitar polêmicas e manter o foco na aprovação da Reforma da Previdência.

Mesmo entre a intelligentsia das Forças Armadas esta tese prevalece. “Quem viveu o período como eu vivi, de forma intensa, sabe que o que havia naquela época era o preparo de uma revolução comunista patrocinada por Cuba. Na época o Governo começou a adotar uma série de ações que estariam a indicar que isso iria acontecer”, diz Gustavo Heck, professor da Escola Superior de Guerra do Ministério da Defesa.

Mas esta visão dos militares embotada com o período da Guerra Fria não é unanimidade. “Os oficiais mais modernos com quem tenho contato não estão preocupados com isso. Ao contrário, acham que é um fardo desnecessário ter que fazer a defesa de algo que evidentemente cometeu uma série de violações”, afirma Carlos Fico, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A nova orientação dada pelo presidente, ele próprio um capitão da reserva, teria um viés mais simbólico do que prático. “É uma recomendação midiática, não surte efeito algum no ambiente interno das Forças Armadas”, afirma o antropólogo Leirner. O professor explica que os quartéis já vinham realizando uma espécie de celebração da data: “Não exatamente uma celebração como nós civis a poderíamos entender, mas eles produzem discursos formais nas Ordens do Dia, que são lidas em todas unidades militares do País antes do início dos trabalhos pela manhã”. Durante este momento do expediente as efemérides são mencionadas para a tropa.

O historiador Carlos Fico também não vê efeitos práticos na medida. “A não ser que estas iniciativas do presidente transbordassem para algo mais efetivo na Educação, por exemplo, com a mudança de livros didáticos em disciplinas como historia com o intuito de reescrever o período”, afirma. Fico também destaca que a medida não foi bem vista por todos os integrantes das Forças Armadas. “Note-se que os militares que estão no entorno de Bolsonaro talvez preferissem não celebrar, por entender que talvez seja adequado ser mais discreto. Mesmo nesse campo há discordâncias no Governo”, diz.

O porta-voz da presidência justificou as comemorações da data. "O presidente não considera 31 de março de 1964 um golpe militar. Ele considera que a sociedade, reunida e percebendo o perigo que o país estava vivenciando naquele momento, juntou-se, civis e militares, e nós conseguimos recuperar e recolocar o nosso país em um rumo”. O porta-voz concluiu, dizendo que “salvo o melhor juízo, se não tivesse ocorrido [o golpe], hoje nós estaríamos tendo algum tipo de Governo aqui que não seria bom para ninguém".

Imagem do Dia


Tristes tempos

A gente anda de luto há muito tempo, e parece que esse processo demorado não tem prazo para acabar. A cada dia surge uma nova perda, envolvendo a morte de um ídolo, de vítimas de catástrofes como quedas de aviões, rompimento de barragens, chacinas em escolas, assassinatos de mulheres, crianças, idosos, incêndios de grandes proporções, enchentes, assaltos, epidemias e demais manchetes da mídia que nos entristecem.

Chega a ser temeroso começar o dia abrindo o jornal ou ligando a tevê, pois tudo parece colaborar para comprometer o humor e aumentar a angústia de quem é apenas espectador de trágicos eventos. Rezamos, pedindo paz no mundo e dias melhores para o país, mas a realidade nos atropela com sua crueldade. Temos, cada vez mais, a certeza de vivermos um período de mutação, em que estranhamos a velocidade com que se sucedem as catástrofes e não nos identificamos com o modo de pensar e agir dos semelhantes.

Paira no ar a insatisfação coletiva. O futuro é uma grande incerteza, em todos os sentidos. Você não sabe, por exemplo, se volta para casa sem sofrer algum tipo de agressão, física ou moral. Não sabe o que esperar de nossos governantes, economia, justiça, educação, saúde. Direitos e deveres foram abalados por novas diretrizes mal esboçadas, divulgadas e canceladas às vezes no mesmo dia.

A mentira ganhou status. Inventam-se currículos logo desmentidos, bravatas e frases de efeito divulgadas rapidamente nas redes sociais e falta transparência nas negociações oficiais, nos três níveis de governo, enquanto nossos ditos representantes não representam anseios e necessidades da população.

Assim, a cidadania também morre um pouco, ignorada ou silenciada. Definham o amor à cultura nacional, a noção do bem coletivo, o estímulo ao conhecimento, os relacionamentos interpessoais, o cuidado com o planeta. E tentamos sobreviver, alguns migrando para outros países, outros, convivendo com o indesejado, numa esperança teimosa de que, um dia, tudo vai mudar.

É tempo de Quaresma, mas antes dela já nos entristecíamos, frente a um obscuro horizonte, frequentemente nublado. Perdemos o costume de ser felizes, desde que alguma coisa com muitos nomes vem nos sugando a autoestima. O número de deprimidos e suicidas cresce a cada dia, assim como os exemplos de desonestidade bem sucedida vindos lá de Brasília, dos Estados, dos Municípios. Parece que, como as estátuas dos santos católicos, fomos cobertos com panos roxos, enlutados por tudo isso. Infelizmente, ainda conseguimos visualizar o que acontece no entorno, através da trama do tecido. Só nos aliviam as quaresmeiras floridas.
Madô Martins

E a reforma da Previdência, hein?

Não é novidade que o funcionário público ganhe mais do que o trabalhador do setor privado. Nas contas da consultoria IDados, o salário médio mensal do barnabé — com todo o respeito — é de R$ 4,2 mil, 87% maior do que o do empregado privado, com média de R$ 2,3 mil. Mas a questão é outra: na última década, você acha que essa diferença aumentou ou diminuiu? A resposta é que... cresceu. Em 2007, a diferença, sempre a favor do funcionalismo, era de “só” 72%.
Ancelmo Gois