sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Assim é um líder

O líder é um canalha. Dirá alguém que estou generalizando. Exato: estou generalizando. Vejam, por exemplo, Stalin. Ninguém mais líder. Lênin pode ser esquecido, Stalin, não. Um dia, os camponeses insinuaram uma resistência. Stalin não teve nem dúvida, nem pena. Matou, de fome punitiva, 12 milhões de camponeses. Nem mais, nem menos: — 12 milhões. Era um maravilhoso canalha e, portanto, o líder puro. E não foi traído. Aí está o mistério que, realmente, não é mistério. É uma verdade historicamente demonstrada: — o canalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina e dinamiza massas de canalhas. Façam a seguinte experiência: — ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: — ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto.

Mas dizia eu que Stalin não foi traído, nem Hitler. O Fuhrer, para morrer, teve de se matar. (Nem me falem do atentado dos generais grã-finos. Há uma só verdade: — nem o soldado alemão, nem o operário, nem o jovem, nem o velho, traíram Hitler.) E, quanto a Stalin, ninguém mais amado. Só Hitler foi tão amado. Aqui mesmo, no Brasil. Bem me lembro, durante a guerra, dos nossos stalinistas. Na queda de Paris, um deles veio-me dizer, de olho rútilo e lábio trémulo: - «Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra.»


Sim, o que se sentia, aqui, por Stalin, era uma dessas admirações hediondas. Eu via homens de voz grossa, barba cerrada, ênfase viril. Em cada um dos seus gestos, a masculinidade explodia. E, quando falavam de Stalin, eles se tornavam melífluos, como qualquer «travesti» do João Caetano ou do Teatro República. O que se sentia, por trás desse arrebatamento stalinista, era um amor quase físico, uma espécie de pederastia idealizada, utópica, sagrada. Com as mandíbulas trémulas, uma salivação efervescente, os fanáticos chamavam o Guia de «o Velho». E essa paixão era de um sublime ignóbil.

Já o Czar foi o antilíder. Há um quadro russo da matança da Família Imperial. (A pintura de lá, tanto a czarista, como a soviética, é puro Osvaldo Teixeira.) Eis o que nos mostra a tela: empilhados, numa bacanal de defuntos, o Czar, a Czarina, as princesinhas, etc., etc. Uns por cima dos outros, e cravejados de balas. Os soldados receberam a ordem e estouraram a cara dos velhos, das mocinhas, dos meninos. Mas não vamos assumir, aqui, nenhuma postura sentimental. Eis o que importa dizer.

Na véspera de morrer, o nosso Nicolau entretinha-se na redação do seu diário. Fazia diário como qualquer heroína da Coleção das Moças. Reparem no antilíder, no anti-rei no antitudo. No dia seguinte estariam à mostra os intestinos dele mesmo, as tripas da mulher, dos filhos, dos sobrinhos, dos netos. Mas ele não teve nenhum sentimento da morte. No jardim havia um «lago azul» como o da nossa canção naval. E, lá, dois ou três cisnes deslizavam mansamente. Um mundo já morria e outro ia nascer. E o Czar estava fascinado pelos cisnes, e a última página do diário era a eles dedicada. Um homem assim teria de ser exterminado a bala ou a punhaladas, como uma ratazana.

Alguém lembrará a figura e o nome de Kennedy. Era um líder que preservava um mínimo de humanidade. Mas não era líder. Lembro-me da babá portuguesa da minha garotinha. Ao ver o retrato de Kennedy gemeu com sotaque: - «Bonito como uma virgem.» Era um líder de luxo, isto é, o antilíder. Ao entrar na política, o pai, outro aristocrata, deu-lhe um cheque de um milhão de dólares. E mais: - Johnny casou-se com Jacqueline. E a mulher bonita é própria do falso líder. Nem Stalin, nem Hitler, fariam essa dupla concessão ao sentimento e ao sexo. Reexaminem toda a vida de Kennedy: - não foi, em momento nenhum da sua história e da sua lenda, um canalha. E não soube fazer pulhas para juntá-los em torno de sua liderança.

Pensem no pacto germano-soviético. Todos os que o aceitaram ou que ainda hoje o justificam eram e são perfeitos, irretocáveis canalhas. De um só lance, Stalin e Hitler degradaram toda uma época. Eis o que desejo ressaltar: - faltava a Kennedy essa capacidade de aviltar um povo. Ao passo que Stalin fez seu povo à imagem e semelhança da própria abjecção. Mas foi na morte que Kennedy demonstrou a ineficácia e falsidade da sua liderança.

O líder não morre antes, nem depois. O derrame escolheu a hora certa para matar Stalin. Hitler meteu uma bala na cabeça no momento justo em que precisava estourar os miolos. Waterloo aconteceu quando se esgotou a vitalidade histórica da era napoleônica. Se Lênin vivesse mais 15 dias, seria outro Trotski. E Kennedy caiu antes do tempo, morreu quando não tinha que morrer. Imaginem um Cristo morto de coqueluche aos três anos. Não seria Cristo, não seria nada. Kennedy morreu ao lado da mulher bonita. E, de repente, veio a bala e arrancou-lhe o queixo, forte, crispado, vital.

Restava tudo por fazer; o horizonte da reeleição abria-se diante dele. Essa morte antes do tempo mostrou que Kennedy não era Kennedy. O amor que lhe consagramos é um equívoco.

Falo, falo, e não sei bem por que estou dizendo tudo isso. Agora me lembro. Eu disse algo parecido, ontem, num sarau de grã-finos. Não achem graça. Aprende-se muito no grã-finismo, e repito: — certos grã-finos têm um sutil faro histórico, diria melhor, profético. Sentem, por vezes, antes dos outros, o que eu chamaria «odor da História». E um desses estava-me dizendo, num canto, com uma convicção forte: — «Vai haver o diabo neste País.» O que era pouco para a minha fome. O grã-fino punha mais gelo no copo. Insinuou: — «Há muita insatisfação.» Ainda era pouco. E eu queria saber, concretamente, o que vinha por aí. Perguntei: — «Sangue?» E o outro, cara a cara comigo e um ar de quem promete uma hemorragia nacional inédita: disse e fez um «suspense». Instiguei-o: — «O diabo, como?» E ele, misterioso: — «Você não sente que vem por aí não sei o quê?» Esse «não sei o quê»— «Sangue.»

Todavia, o «suspense» continuava. «Sangue», dissera ele. Mas, quem ia derramar o sangue, e que sangue? Ainda olhei para os lados, como a procurar, entre os convidados, um possível Drácula. Quando, porém, o grã-fino falou em «esquerda», a minha perplexidade não teve mais tamanho. Recuei dois passos, avancei outros tantos e perguntei: - «Você acredita na nossa esquerda? Nessa que está aí?»

Ele acreditava. Então perdi a paciência e falei sem parar. Quem ia mudar alguma coisa neste País? A esquerda tem um canalha para exercer uma liderança concreta e proveitosa? Senhoras entraram no debate. Fez-se, ali, uma alegre pesquisa de pulhas.

Mas os canalhas lembrados eram, ao mesmo tempo, imbecis. E o que a História pedia era um crápula com seu toque de gênio. Em suma: não ocorria aos presentes um nome válido. A última palavra foi minha. Disse eu mais ou menos o seguinte: — enquanto a esquerda que aí está não for substituída até seu último idiota, não vai acontecer nada, rigorosamente nada.

Nelson Rodrigues, "O Homem Fatal"

Pensamento do Dia


Pão, pão, queijo, queijo

Ando muito pelo Brasil, mas não faço pesquisas. Nem pergunto em quem o interlocutor vai votar. Apenas converso. E com isso vou formando um quadro que, às vezes, é confirmado pelas pesquisas que dizem ter estreita margem de erro.

Faz algum tempo que tento me acostumar com a realidade que vem pela frente, um confronto polarizado entre dois líderes populares, Lula e Bolsonaro. Como um está na cadeia e o outro no hospital, a eleição ganha um tom de realismo fantástico. É preciso abstrair a dimensão romanesca e cair na realidade: um dos dois será vitorioso, com todas as consequências que isso implica.

Senti no Nordeste que Lula tem muita força. Na Bahia, sobretudo, um sentimento de gratidão a Lula e a popularidade do governo local indicam uma supremacia da esquerda. No Norte, Sudeste e Sul, ouço muito o nome de Bolsonaro. Se o que vi tem o valor de uma pesquisa espontânea, minha inclinação é supor que a aspiração de mudança está encarnando nele.


Às vezes tendo a imaginar se essa imensa resistência ao governo de esquerda não se parece com o susto que os franceses tiveram com o Maio de 1968, optando pela volta de De Gaulle.

Não vejo o momento que virá pela óptica dos anos 60 no Brasil, pelo menos não o descreveria como Roberto Campos ao analisar a queda de Goulart e a tomada do poder pelos militares. Para ele, a alternativa eram anos de chumbo ou rios de sangue. E também não é, como às vezes dizemos brincando, um dilema entre Venezuela e Filipinas. O presidente das Filipinas é um peso-pesado no gênero. E um destino venezuelano é altamente improvável. Maduro não se aguentaria tanto tempo se não tivesse cooptado as Forças Armadas com empregos que rendem muito aos generais. No Brasil isso seria diferente.

Ainda assim, descartando modelos mais assustadores, viveremos uma situação delicada. As duas forças em presença são dificilmente conciliáveis.

Nos Estados Unidos, apesar da rivalidade, em alguns e raríssimos momentos democratas e republicanos reconhecem o interesse nacional. Já a polarização brasileira, de uma certa forma, reduziu as chances de um esboço de projeto nacional para enfrentar a crise e reconstruir o País. Certamente cada uma das partes tem o seu. Mas ele dificilmente atravessa os limites dos seus entusiasmados seguidores.

O estímulo ao equilíbrio deve vir da sociedade, mas isso não é fácil quando a maioria dos eleitores pende para uma visão mais radical. O discurso do equilíbrio é sentido como uma das formas de manter o sistema político-eleitoral. As expectativas são muito maiores.

Num posto de gasolina da estrada, um homem com um longo chapéu de palha me disse: “Voto no Bolsonaro porque é preciso virar a mesa”. Nesses momentos sinto a fragilidade dos instrumentos com que deveríamos contar quando o presidente assumir: Congresso e Supremo Tribunal.

O Congresso, na verdade, é a força sobre a qual a sociedade ainda pode exercer uma influência maior. Ainda assim, com discretíssimas mudanças será sentido mais como parte do problema do que como solução.

O Supremo... Bem, o Supremo todos sabemos que está parcialmente empenhado em neutralizar a Lava Jato. Cada vez que concede um habeas corpus, liberta um condenado, desmembra um processo para tirá-lo de Curitiba, está alimentando o desejo de uma renovação pela direita.

Vejo um amplo jogo de grandes forças sociais e, diante dele, poucas as chances da intervenção individual. Reconheço que vivemos num país com alto nível de imprevisibilidade. Mas, com os dados que tenho, creio que a tarefa será cada vez mais pensar os próximos passos, estabelecer um roteiro de redução de danos. É uma tarefa para todos os que querem sair do atraso, incluídos os eleitores mais moderados dos dois líderes.

Ultimamente têm surgido alguns livros no Brasil sobre a decadência da democracia, que não sofre mais golpes de Estado, mas simplesmente transita para regimes autoritários. Os livros são ótimos, porém o cenário dos últimos anos no Brasil é um livro aberto. Várias vezes o Congresso votou projetos absurdos sabendo que estava cavando um abismo maior entre os políticos e a sociedade. Os escândalos de corrupção, que levaram um grupo para a cadeia e deixaram seu principal aliado agonizando diante da pressão policial, tudo isso contribui para um desencanto geral com o sistema político-partidário.

Não se trata de um “bem que avisei” ou de caça aos culpados, apenas uma constatação importante de como será difícil a nova fase.

Se uma visão mais moderada perder a batalha eleitoral, e isso me parece provável no momento, não terá perdido com isso a sua importância. Ela pode ser um fio de esperança para que surja um projeto de reconstrução mais consensual. E ser uma espécie de algodão entre cristais, lembrando que a guerra fria acabou e é necessário superar os grandes dilemas ideológicos para recuperar o tempo perdido.

A polarização entre dois líderes populares de certa forma simplifica e torna o processo mais caloroso ainda. Mas revela como surgem os líderes nacionais no Brasil democrático. Eles simbolizam também a força da comunicação oral. São capazes de transmitir a mensagem que a forma literária dos intelectuais não consegue.

Claro que seu discurso também é lido, perpassa os jornais e revistas. No entanto, é a linguagem oral, com seus erros, hesitações e exageros, que consegue chegar ao coração dos eleitores em escala nacional. Outros podem usá-la sem êxito. Entra aí um outro fator importante: o papel do indivíduo, sua trajetória e personalidade.

Poderia divagar muito sobre o dilema brasileiro. Poderia até desejar que não fosse assim. Mas seria perda de tempo. Se não estou muito equivocado, essa é a realidade que está aí. E é com ela que teremos de construir incessantemente nossos sonhos, ainda que modestos.

O verdadeiro mandatário

É o dinheiro quem controla o processo democrático, não as pessoas. É difícil ter uma democracia genuína se as eleições são tão caras
David-Harvey, "A loucura da razão econômica: Marx e a economia do século XXI" 

Ereções presidenciais

 Agora que não é mais candidato, Luiz Penitenciário Lula da Silva vai poder finalmente se dedicar ao que mais gosta: o ócio com indignidade.

Trancafiado nas dependências da Polícia Federal, Lula poderá se concentrar em suas leituras, escritos filosóficos e pensatas de formulação intelectual. Também vai voltar às suas aquarelas, paisagens bucólicas, marinhas e cenas pastoris. Lula também poderá retomar suas esculturas em metal. Enfim, a atividade intelectual e artística, que é o que ele realmente gosta de fazer.


Lula teve a generosidade, o espírito público, de sacrificar sua carreira artística em nome da grandeza do país. História bem parecida com de um cabo alemão que acabou chefe de Estado.

Ok, tudo bem que, no caso do Lula, a grandeza do Brasil começou justamente pela sua conta bancária, mas, enfim, a grandeza tinha que começar de algum lugar.

Na verdade, Lula espera, graças ao ministro Dias Toffoli, ser beneficiado com a prisão domiciliar. Só ainda não resolveu se vai para o sítio de Atibaia ou para o tríplex do Guarujá.

Fernando Haddad, o novo poste petista, não para de subir nas pesquisas eleitorais. Certo de que vai vencer Haddad, já superfaturou com a Odebrecht a construção de um imenso e profundo buraco onde pretende enterrar o Brasil. Vai ser uma obra e tanto. Vamos sentir saudades do buraco em que estamos hoje.

No Hospital Albert Einstein, o candidato Jair Bolsonaro continua em franca recuperação. Segundo os médicos, em mais alguns dias Jair já vai estar cagando e andando. No comando da campanha bolsonarista, ficou o General Morrão, o silvícola indolente. Quem está pedindo intervenção militar não pode reclamar das eleições brasileiras : tem cabo, capitão, major, general e até o coronel Ciro Gomes.

O Brasil é um país muito original: as principais campanhas presidenciais estão sendo comandadas a partir do CTI de um hospital ou de uma cela da cadeia: tudo a ver com a nossa situação.

Vencendo Bolsonaro ou Luiz Haddad Lula da Silva, a vida sexual do brasileiro vai ficar legal. Seja esquerda, seja direita, todo mundo vai se fuˆ%$#@#$%$#.

O Brasil ficou atrás da Venezuela em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano Fica a pergunta: o que estes venezuelenses vêm fazer aqui?

Agamenon Mendes Pedreira tem zero de intenção de votos nas pesquisas, mas, em compensação, não é candidato a nada

Paisagem brasileira

Casario, Roberval Cunha 

Partidos estão usando R$ 1,7 bilhão d fundo eleitoral para reeleger políticos

A paulistana Fernanda Gama, de 34 anos, disputará eleições pela primeira vez este ano. Ela mora na Zona Leste de São Paulo (SP) e decidiu se lançar candidata a deputada federal por convite de um amigo que milita no Partido da Mobilização Nacional (PMN). No início das conversas, diz Fernanda, a legenda acenou com a possibilidade de assistência jurídica e uma fatia do Fundo Especial para Financiamento de Campanha (FEFC).

Mas bastou que a candidatura dela fosse oficializada pela Justiça Eleitoral para a conversa mudar.

"O papo era 'Ah, vai ter uma verba, a gente não sabe quanto ainda'. Mas isso foi até o deferimento da candidatura. Aí, eles disseram que a gente não receberia nem um real. Disseram que estes 30% do Fundo, destinado às mulheres, o presidente (municipal) do partido destina para quem ele quiser", diz a candidata. Fernanda contará com a ajuda de familiares e de um grupo beneficente da Zona Leste de SP para a campanha.

Esta será a primeira eleição geral no Brasil desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em 2015, proibir as doações de empresas privadas para partidos e candidatos. Este ano, as campanhas serão financiadas principalmente com dinheiro do Fundo Especial - R$ 1,71 bilhão, no total. As maiores fatias serão as de MDB (R$ 230 milhões), PT (R$ 212 milhões), PSDB (R$ 185 milhões) e PP (R$ 131 milhões). Pelo menos 30% do valor do Fundo precisa ir para candidaturas de mulheres, conforme decidiu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Além do Fundo de campanha, as campanhas poderão ser financiadas este ano por doações de pessoas físicas (seja diretamente ou por meio de 'vaquinhas' online, o chamado crowdfunding). Cada brasileiro pode doar até o limite de 10% dos seus ganhos no ano anterior.


Além disso, candidatos também podem fazer doações para as próprias campanhas, sem limite de gastos. E os partidos podem usar também o dinheiro do Fundo Partidário, diferente do Fundo Eleitoral, e que este ano será de cerca de R$ 800 milhões.

O PMN de Fernanda terá cerca de R$ 3,8 milhões do FEFC para distribuir aos candidatos. Ao TSE, a sigla disse apenas que 98% do valor seria destinado às campanhas de deputados federais, mas não disse quais - a decisão fica a cargo da direção do partido.

A reportagem da BBC tentou contato com o presidente municipal do PMN, Ronaldo Barbosa, mas não obteve resposta.

A situação de Fernanda Gama está longe de ser uma exceção: a maioria das direções partidárias tende a concentrar os recursos do Fundo eleitoral em políticos tradicionais - principalmente os que já têm mandato.

Algumas das siglas reservam formalmente recursos para deputados e senadores, como fizeram PP e MDB. Outros não inscreveram os valores num documento formal, mas privilegiaram os políticos estabelecidos: é o que acontece no PT e no PSDB.

Até o momento, os partidos já distribuíram R$ 843 milhões do Fundo em campanhas para o Congresso. Deste total, 67% (ou R$ 563 milhões) foram para políticos que já têm mandato, segundo números compilados pelo jornal O Globo e checados pela BBC News Brasil usando informações do Repositório de Dados Eleitorais do TSE.

O cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP), Hilton Cesário Fernandes, lembra que caciques partidários sempre tiveram controle sobre a máquina partidária: decisões sobre o Fundo Partidário e o tempo de TV sempre foram deles.

"A diferença é que, antes, as doações de empresas em maior volume ajudavam a contrabalançar este poder das direções partidárias", diz. "Este ano, com menos fontes de recursos (para campanha), este poder dos líderes partidários ficou mais evidente", diz o professor.

Asfalto e calçamento se tornaram sinônimo de corrupção na política

Uma tarde, tocou o telefone na liderança do governo na Câmara Federal. Era o presidente Juscelino. Pedia urgência urgentíssima na aprovação do crédito de 8 bilhões para o asfaltamento da estrada Rio-Bahia. Às 8 da noite, o líder Abelardo Jurema ligou para o Catete: – Crédito aprovado, presidente.

Juscelino saiu do Planalto, foi jantar na casa do empresário mineiro Marco Pólo. E fez os maiores elogios a Jurema:

– É o líder mais barato que eu já tive. Me dá tudo e não pede nada.

O empreiteiro Spitzman Jordan ouvia a conversa, saiu e foi à casa de Jurema:

– Dr. Jurema, acabei de ouvir o Presidente fazer as mais calorosas referências ao senhor. Percebi que o que o senhor lhe pedir, ele dá. Tenho uma construtora. O senhor poderia pedir ao presidente que recomendasse ao DNER para me entregar um dos trechos?

– Dr. Jordan, o líder só cuida de problemas políticos.

– Dr. Jurema, podemos ver a coisa sob o aspecto político. O senhor é o candidato do PSD ao governo da Paraíba. Uma campanha eleitoral, hoje, exige muitos recursos. Posso depositar 100 milhões à disposição do PSD da Paraíba, para ajudar o partido. E, ajudando o partido, assegura sua eleição.


Abelardo desviou o assunto, falaram de outras coisas. Mas Jordan insistiu no asfalto da Rio-Bahia. Jurema encerrou a conversa:

– Doutor Jordan, se o senhor me conhecesse melhor já saberia que não é esse o tipo de política que eu faço. De qualquer maneira, se o senhor quer fazer o pedido ao Presidente, procure a bancada da Bahia. O asfaltamento foi uma reivindicação dela. Problema administrativo eu só encaminho os da Paraíba e por delegação da bancada ou do governador.

No dia seguinte, Spitzman Jordan procurou o senador Rui Carneiro, líder do PSD da Paraíba :

– Seu Carneiro, seu amigo Abelardo Jurema vai morrer pobre.

No governo de João Goulart, Jurema foi ministro da Justiça. No golpe militar de 64, foi cassado e exilado. E morreu pobre.

Outra história antiga e exemplar. Draiton Nejaim foi prefeito de Caruaru, em Pernambuco, e era deputado estadual da Arena. Francelino Pereira, presidente nacional do partido, foi a Recife, Draiton encontrou-o:

– Dr. Francelino, pode pôr nos seus cálculos que a Arena vai derrotar o deputado Fernando Lira em Caruaru e tomar a Prefeitura do MDB. Sou candidato e vou ganhar. Agora vai ser tudo diferente. Da outra vez, quando fui prefeito da UDN, me acusaram de roubo e eu saí pobre, inteiramente liso. Para me eleger deputado e depois eleger minha mulher, foi um sofrimento, um sufoco. Não se pode fazer política sem dinheiro, sem muito dinheiro, sobretudo no Nordeste. Desta vez vou sair rico da Prefeitura. Nunca mais volto a ser pobre.

– Sair rico, como, deputado? O senhor sabe o que está falando?

– Sei, sim, presidente. Vou roubar mesmo. Mas não vou roubar para mim. Vou roubar para nosso partido. Roubar para ter dinheiro e nunca mais a oposição ganhar eleição em Caruaru.

Francelino ficou perplexo:

– Mas isso é uma confissão louca, deputado. Não pode ser, o partido não pode permitir nem sequer ouvir isso. Seria um escândalo.

– Não, dr. Francelino, não vai ter escândalo, não. Ninguém fica sabendo. Tenho uma receita perfeita: calçamentos e aterro. Ninguém mede, nem conta nem pode fiscalizar calçamento e aterro.

Draiton derrotou o MDB, reelegeu-se prefeito de Caruaru. Não sei se cumpriu a palavra. Mas, só fez calçamento e aterro.

Asfalto e calçamento eram sinônimos de progresso. Tornaram-se símbolo de corrupção.

O buraco é maior

O pessoal do Ministério da Fazenda encontrou o que parece ser uma boa notícia: há uma folga de R$ 8 bilhões no orçamento deste ano. Folga é isso mesmo que o leitor está pensando: dinheiro para gastar.

A primeira reação de uma pessoa que acompanha o noticiário econômico, incluindo nossos comentários, é de espanto. Como pode haver sobra se só se ouve falar de déficits e dívida? Espanto correto. A folga é técnica, digamos assim.

Não é que esteja sobrando dinheiro, mas apenas que o buraco é menor que o antecipado.


Poucos números: o déficit do governo federal autorizado para este ano é de R$ 159 bilhões. É o que consta do orçamento aprovado pelo Congresso Nacional. Como a atual equipe econômica faz um esforço para segurar os gastos, verificou-se na última checagem que, mantida a atual programação, o déficit será de R$ 151 bilhões. Daí a tal folga de R$ 8 bilhões.

Ótimo, diria uma pessoa normal. Para quem está atolado em dívida qualquer economia já serve.

Mas não estamos em uma situação normal. O fato é que os serviços prestados pelo governo, educação, saúde, segurança, andam tão prejudicados pela contenção de recursos que faz sentido aproveitar aqueles R$ 8 bi e dar algum alívio a setores da administração.

Isso mostra bem como é dramático o estado das contas públicas e como isso ameaça toda a economia. Fechado 2018, serão cinco anos seguidos de déficits, acumulando-se um buraco de mais de R$ 572 bilhões – valor que foi incorporado à dívida bruta. Esta, obviamente em alta, se aproxima do equivalente a 80% do PIB, quando deveria ser inferior a 40% pelos padrões internacionais.

A atual equipe econômica, de reconhecida competência, calcula que haverá déficits nos próximos três anos, mesmo que sejam feitas reformas. Sem reformas, como a da Previdência, a dívida explode e o governo cai no dilema fatal: precisa ao mesmo tempo cortar gasto e gastar – para prestar serviços essenciais – e reduzir impostos, abusivos, e aumentá-los para fechar a conta.

E com isso, se vai da crise econômica para a política.

Acrescentem ao quadro que as despesas obrigatórias do governo com previdência, pessoal e programas sociais (pagamentos a pessoas, como desempregados, idosos mais pobres e do Bolsa Família) e isso chega a mais de 80% do orçamento. Sobram menos de 20% para todo o funcionamento – mau funcionamento – da máquina e um mínimo de investimentos.

Diante desse quadro, Paulo Guedes, economista do líder das pesquisas, diz que será até fácil zerar o déficit no primeiro ano de governo. Como? Vendendo estatais e imóveis.

É não conhecer o governo, o Congresso, os entraves legais, a resistência das corporações, dos sindicatos de funcionários de estatais e dos políticos que controlam aquelas estatais. Todas as privatizações já feitas passaram por uma complicada disputa política. Já pensaram o tamanho dos obstáculos para vender a Petrobras?

Por outro lado, podem notar, novos governos começam assim: a gente vende alguns prédios e terrenos e, pronto, está resolvido. Não está. Começa que estão sobrando imóveis comerciais novos. E quem vai querer comprar, a não ser por preço de banana, imóveis antigos e frequentemente legalmente enrolados?

Do lado do PT, a conversa é pior. Alguns economistas do partido dizem que basta cobrar impostos dos ricos – das grandes fortunas – para fechar o déficit. Não fecha. Não há ricos suficientes para isso.

Mas o pior é o retrospecto do governo Dilma. Assumiu com um superávit de R$ 126 bilhões e entregou com um déficit de R$ 170 bilhões. Sim, podem dizer que Lula fazia superávit. Mas foi o próprio Lula que endossou a política de gastança de Dilma e o PT continua oficialmente defendendo o programa de aumentar gasto público, sem fazer qualquer autocrítica da gestão anterior.

Na verdade, o PT teve até sorte com o impeachment de Dilma. O partido pode fazer campanha dizendo é tudo culpa do golpista Temer e seus aliados. Mas isso serve para campanha – e mentirosa – não para governar.

Parecia que essas eleições seriam de mudança. Parecia.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Medo e indignação

Está bem claro que nesta eleição vai se decidir contra alguma coisa, e não por alguma coisa. A maioria do eleitorado é a cara do fenômeno dos dispostos a romper “com o que está aí”. Provavelmente, encerra-se o período histórico iniciado com a saída do regime autoritário e a promulgação da Constituição de 1988. As grandes forças e o sentido político que se sobressaem nesta reta final da eleição claramente consideram obsoletos os sistemas político e boa parte das instituições que ali se consolidaram.


Alguns elementos que indicam o futuro próximo são bastante óbvios. A tendência do eleitorado em direção a figuras autoritárias é o mais notável desses elementos. O líder das pesquisas, Jair Bolsonaro, diz que resolve tudo praticamente no tapa, enquanto a agremiação política que parece, no momento, a que vai disputar o segundo turno com ele, o PT da corrupção, é o símbolo perfeito para a constatação de que enorme número de brasileiros não entende quais ideias erradas, entre elas a de que vontade política tudo resolve, levaram o País ao desastre. Estamos presenciando o enterro do “sonho” social-democrata tipo punho de renda do tucanato. O que havia de social-democracia no PT já havia sido sepultado pela avalanche de corrupção, cinismo e mentira.
Não existe neste momento um “centro”. O eleitorado raivoso clama por uma solução rápida – que a magnitude dos problemas enfrentados sugere ser impossível, mas não importa. Esse mesmo espírito do “vamos chutar o pau da barraca” prefere sonhar com passos para conter a crise que venham de fora da política, ou que sejam anunciados como soluções vindas de “fora do sistema”. Em outras palavras, e isso é bastante preocupante, há uma enorme aceitação da promessa de se resolver questões (como o déficit fiscal, que criaria perdedores por toda parte) sem considerar a necessidade de compromissos e de articulação política muito mais abrangentes do que conseguir 308 votos para maiorias na Câmara dos Deputados.

Há uma imensa desconfiança em relação às instituições e uma das mais recentes a serem devastadoramente atingidas é a da imprensa em geral, e dos grandes grupos de comunicação televisiva em especial. É assombroso como o jogo se inverteu, e em que velocidade: atacar esses colossos que antes eram capazes de determinar o futuro de políticos é o que hoje confere estatura a políticos, e vários se dedicam com êxito a lucrar em prestígio e simpatia no eleitorado fazendo uso em causa própria dessa espantosa perda de credibilidade (em boa medida, por cegueira política e covardia de dirigentes).

Numa sociedade com índices espantosos de violência, e alguns sinais graves de anomia (como na greve dos caminhoneiros), não deveria causar espanto algum a força com que medo e indignação empurram a candidatura de Jair Bolsonaro – e um atentado ter influenciado tanto a disputa.

Não me parece que o ex-capitão seja o criador da onda que está surfando – até agora com boa vantagem sobre os rivais. Talvez ele seja a expressão acabada de que o bom mocismo, o politicamente correto tivessem sido apenas delírios de elites dedicadas a si mesmas e vivendo em bolhas confortáveis em meio a um país pobre, desigual, ignorante e atrasado (basicamente as mesmas mazelas enfrentadas pela geração que escreveu a Constituição de 88). 

O atraso, o retrocesso, o desastre e os malefícios trazidos durante os 13 anos de populismo irresponsável do lulopetismo já conhecemos bastante bem. Para onde vamos agora é uma completa incógnita. O que sairá do que acredito ser a destruição da política brasileira tal como a conhecemos por mais de 30 anos ninguém sabe.

Brasil do eterno condenado


O PT e os outros

O Brasil está dividido entre o PT e os demais partidos. Desde 1989, quando Lula foi para o segundo turno na primeira eleição direta depois da ditadura de 1964, o PT consegue ser majoritário na captação dos votos da esquerda. Foi assim nas duas eleições seguintes, quando Lula perdeu no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso mas chegou em segundo lugar, e depois nas quatro que o PT ganhou. O Brasil é PT ou não é. Nos últimos 16 anos tem sido.

No começo, quando perdia eleições, o PT ainda não havia conseguido pintar sua imagem como a do partido da inclusão social, era apenas de esquerda. Na primeira eleição este papel coube ao caçador de marajás, e nas outras duas foi cumprido pelo criador do Real. Somente depois de Collor e FHC, o PT conseguiria somar ao seu eleitorado de esquerda aqueles que queriam e os que precisavam de um Brasil mais justo.


O PSDB, que havia conduzido com sucesso um dos mais importantes programas de distribuição de renda do mundo, não conseguiu capitalizar o Plano Real e deixou-se transformar aos olhos dos eleitores num partido da elite branca. Cometeu muitos erros, como o da polêmica emenda da reeleição, que contribuíram para que a sigla que construiu a estabilidade da economia acabasse com a imagem de partido paulista.

O “nós contra eles” não foi uma invenção de Lula, existe desde a primeira eleição presidencial. O que Lula fez foi dar uma coloração de classe ao termo. O “nós” são os pobres e as minorias, e o “eles” são os ricos. Discurso simples para um eleitor majoritariamente simples. Discurso que funciona. Embora não seja o único, claro que o PT é um partido preocupado com os mais pobres. O programa Bolsa Família foi o mais inclusivo da história do país, e o PT soube se valer dele politicamente.

Os demais partidos de esquerda viraram satélites. O PSDB, que depois de FHC perdeu quatro vezes para Lula, conseguiu atrair alguns partidos de centro, não todos. O maior deles, o MDB, ficou com o PT nas duas últimas eleições. Outros partidos de centro e de direita transitaram entre PSDB e PT ao longo dos últimos 16 anos. O PT foi mais competente. Apesar dessa miscigenação ideológica, os militantes orgânicos só enxergam o espectro de esquerda, e os eleitores não militantes só veem Luiz Inácio Lula da Silva quando miram o PT.

A campanha deste ano, ao que tudo indica agora, seguirá o mesmo roteiro, com a diferença que o PSDB perdeu seu protagonismo para Jair Bolsonaro. Dois episódios fundamentais da campanha ajudaram a impulsionar o capitão e o petista indicado por Lula. Bolsonaro foi esfaqueado enquanto era carregado nos ombros por eleitores, e Fernando Haddad recebeu a bênção de um ex-presidente preso que reconstruiu sua imagem de corrupto em mártir, injustiçado e perseguido.

É isso o que temos e com isso precisamos nos habituar. Resta saber se a habilidade política do PT será suficiente para ganhar a eleição no segundo turno. É verdade que a subida de Haddad nas pesquisas só ocorreu agora porque antes o candidato era Lula. Tem que se levar isso sempre em conta, mas é fato também que nunca, desde 2002, o PT esteve tão mal nesta fase da campanha. A corrupção ainda pode cobrar sua conta.

Nos quatro pleitos que ganhou, Lula e Dilma lideravam a corrida a esta altura da campanha. Em 2002, na pesquisa Ibope de 17 de setembro, Lula tinha 48% das intenções de voto. Em 2006, no dia 16 de setembro, Lula alcançava 42%. Na eleição de 2010, Dilma tinha 51% da preferência em 17 de setembro. Na sua reeleição, no dia 16 de setembro de 2014, a liderança de Dilma era mais apertada, com 36%, mas ainda assim quase o dobro do que Haddad tem agora.

O PT provou amplamente sua competência, tem seus principais líderes condenados e presos por corrupção, inclusive Lula, mas segue vivo na campanha. O PSDB, por sua vez, comprovou sua fama de incompetente político. Perdeu para Lula quando ele estava nas cordas do mensalão. Perdeu de Dilma quando seus sinais de fadiga já eram evidentes. E agora perde seu lugar na disputa para um novato em eleições presidenciais. E talvez perca também sua hegemonia paulista.

O PT continua, não se sabe até onde. O PSDB acabou de desembarcar.

Polarização acentua trinca que divide o Brasil

Juntos, o líder e o vice-líder da corrida presidencial somaram 47% das intenções de voto no Ibope mais recente —Bolsonaro com 28%, Haddad com 19%. Cristalizou-se a polarização: o anti-PT contra o petista. Somando-se as taxas atribuídas aos outros presidenciáveis e o índice dos sem candidato, verifica-se que 52% dos eleitores estão, por enquanto, fora da polarização. Esse é o retrato de uma sociedade trincada.

O Brasil a ser administrado pelo presidente que tomará posse em 1º de janeiro de 2019 é um país de ponta-cabeça. O Executivo está quebrado. O Legislativo, pulverizado. O Judiciário, abarrotado de escândalos por julgar. Esse já não é um cenário de fundo do poço. O Brasil se encontra num poço sem fundo.

Mantido o Fla-Flu, quem não morre de amores pelo capitão nem sonha com a volta da turma do presidiário terá de se posicionar. Muita gente votará em Haddad para evitar Bolsonaro. Outra parte optará pelo anti-PT para esconjurar o preposto de Lula. A preferência será substituída pela exclusão.

O Brasil é, hoje, um belo ponto no mapa, ideal para reerguer uma nação. Isso exige união. O problema é que a polarização deve produzir não um presidente, mas um herói vingador que os pára-choques de caminhão xingarão 15 dias depois da posse.

Inundações no rio Amazonas pioram nos últimos 30 anos

As inundações no rio Amazonas se tornaram mais frequentes e graves nos últimos 30 anos, segundo com um estudo realizado por cientistas brasileiros, chilenos e britânicos. Os pesquisadores apontam o aquecimento global como uma das causas deste fenômeno.

Para o estudo publicado nesta quarta-feira na revista especializada Science Advances, os pesquisadores analisaram os registros diários do nível do leito do Amazonas feitos no porto de Manaus há 113 anos.


Os dados mostram que enchentes acima de 29 metros, valor de referência para que as autoridades decretassem estado de emergência, ocorriam uma vez a cada 20 anos na primeira metade do século 20. Atualmente, esse tipo de inundação ocorre a cada quatro anos.

"O que realmente chama a atenção no histórico de registros é a gravidade e a frequência de inundações. Com poucas exceções, houve inundações extremas na bacia do Amazonas todos os anos entre 2009 e 2015", disse o autor da pesquisa Jonathan Barichivich, da Universidade Austral do Chile.

Segundo o estudo, o aumento das enchentes está relacionado a mudanças no sistema de circulação do ar movido pelo oceano, que influencia o clima e a quantidade de chuvas na região dos trópicos. Essa mudança foi causada pelo forte aquecimento do Oceano Atlântico e o resfriamento do Pacífico, o que aumentou a precipitação na bacia Amazônica.

"O efeito é mais ou menos o oposto do que acontece durante o El Niño. Ao invés de causar seca, resulta numa maior convecção e precipitação intensa nas regiões central e norte da bacia Amazônica", afirmou Manuel Gloor, da Escola de Geografia da Universidade de Leeds, no Reino Unido, coautor do estudo.

As causas do aquecimento do Atlântico não estão totalmente esclarecidas, porém, além da variabilidade natural, as mudanças climáticas influenciam esse fenômeno. Como resultado do aquecimento global, os cinturões de vento de média e alta latitudes no Hemisfério Sul têm se deslocado mais para o sul, o que abriu espaço para que as águas quentes do Oceano Índico sejam transportadas da ponta da África, através da corrente das Agulhas, para o Atlântico tropical.

Os cientistas indicam que as mudanças nos ciclos da água na bacia do Amazonas tiveram sérias consequências para os moradores de Brasil, Peru e outros países da região. O estudo aponta ainda que as inundações devem continuar ocorrendo nos próximos anos.

De acordo com o coautor do estudo Jochen Schöngart, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), as enchentes podem prejudicar o abastecimento de água, espalhar doenças, além de destruir casas e meios de subsistência.

O pesquisador destacou que com esses dados é possível aperfeiçoar os modelos de previsão de cheias na Amazônia Central e elaborar políticas públicas para mitigar os impactos das enchentes em regiões urbanas e rurais.
Deutsche Welle

Imagem do Dia

Cido Oliveira

O rancor petista virou veneno

Para quem joga numa eleição radicalizada, Fernando Haddad foi um colaborador impecável ao deixar a carceragem de Curitiba depois de visitar Lula. Ele definiu o papel do ex-presidente no governo que pretende fazer:

“Temos total comunhão de propósitos em relação a ele e o diagnóstico de que o Brasil precisa do nosso governo e precisa do Lula orientando como um grande conselheiro. Ele é um interlocutor permanente de todos os dirigentes do partido e nunca deixará de ser. Não temos nenhum problema com isso. Enquanto os outros partidos escondem os seus dirigentes, nós temos muito orgulho de ter o Lula como dirigente.”

Essa declaração poderia ter sido planejada pelo estado-maior de Jair Bolsonaro ou pelos urubus golpistas que pretendem deslegitimar uma eventual vitória da chapa petista.

Horas antes, em São Paulo, durante a sabatina da Folha/SBT/UOL, Haddad dissera algo racional, sem a soberba do comissariado:

“O presidente Lula, sem sombra de dúvida, na opinião da maioria dos brasileiros, foi o maior presidente da história deste país. Ele é um grande conselheiro e terá um papel destacado em aconselhamento, em falar de sua experiência. Jamais dispensaria a experiência do presidente Lula.”

Uma coisa é elogiar Lula e seus oito anos de governo. Bem outra é dizer que “não temos problema com isso”. Deviam ter, pois Lula está na cadeia, condenado por corrupção.

Milhões de eleitores estão dispostos a votar em Haddad porque ele é o candidato de Lula, mas quando se dá a um detento a condição de pai da pátria, estimula-se a dúvida em quem espera de uma vitória de Haddad a volta dos “bons tempos”, mas também teme que ela traga de volta o que há de pior no comissariado.
O consulado petista teve duas faces, a do progresso com Lula, e a do regresso com Dilma Rousseff, a da atenção para o andar de baixo e a das roubalheiras com o andar de cima. Oferecer as duas ao eleitorado num combo rancoroso é soberba.

Não se pode saber de onde está saindo o rancor petista. Pode ser que venha da inconformidade de Lula, ou ainda do interesse radical de uma parte do PT. Venha de onde vier, tornou-se um veneno que produz dois efeitos. O primeiro é o estreitamento da base eleitoral de Haddad, mas sempre se poderá dizer que uma eventual vitória transformará esse erro em asterisco. No seu segundo efeito, o modelo do “conselheiro” reforça as ameaças à sobrevivência das instituições democráticas. Não é preciso ser um gênio para se perceber que há um farfalhar golpista no ar. Bolsonaro, como Donald Trump, diz que teme uma fraude na contagem eletrônica dos votos. (Trump ganhou e não tocou mais no assunto.) O general Hamilton Mourão sonha com uma nova Constituição, redigida por sábios e sagrada num plebiscito. Coisa parecida, recente e próxima, só em 2007, na Venezuela.

Se houver um segundo turno entre Haddad e Bolsonaro, e o capitão reformado vier a prevalecer, será o jogo jogado. Se Haddad sair vencedor, a tese da vitória sem legitimidade irá para a mesa. A teoria do “conselheiro” serve à sua retórica.

As vivandeiras civis associadas à anarquia militar contestaram a legitimidade eleitoral em 1889 e em 1930 (com sucesso), em 1950 (fracassando até 1954, quando Getúlio Vargas matou-se) e em 1955 (com a teoria da falta de maioria absoluta de Juscelino Kubitschek). Coisa do século passado? Em 2014, Aécio Neves contestou a vitória de Dilma Rousseff. Depois, contou que a iniciativa foi uma “molecagem”, para “encher o saco”. Vá lá.

Que se recupere a dignidade

Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias
Byung-Chul Han

O irredutível

Mesmo tendo a consciência de que vou entrar num terreno movediço, a conjuntura me leva a abordar o irredutível.

O inarredável é a porta fechada à tranca. É o que não tem jeito ou remédio. O “The End” que nos obriga a sair do escurinho do cinema para a clareza cruel da vida. Como dizia Tia Amália para quatro meninos ouvintes nas tardes de chuva nas quais eram reduzidos a ficar em casa para não pegar pneumonia: “Acabou-se a história!”.

O irredutível fala de intenções e tentações. Ele também é uma óbvia ou oculta baliza social. O irredutível quarto escuro cheio de fantasmas volta a ser um rotineiro aposento quando a luz se acende! O pesadelo no qual o diabo surge em todo o seu poder simplesmente desaparece quando acordamos. Viver o “noves fora, zero!” ou perder uma eleição é passar pelo irredutível.

Reduzir faz parte do vezo ocidental. A água é redutível à combinação de moléculas de hidrogênio e oxigênio. Mas a liquidez ultrapassa o materialismo molecular. Basta recordar, com o antropólogo Leslie White, como um gesto transforma o líquido definido pela química numa alegórica e possante “água benta”. Por outro lado, um filtro a transforma em “água potável”; ao passo que o fogo produz “água destilada”. Colocado diante de copos com água benta, potável e destilada, beberíamos, com toda a certeza, o da água potável. A água assentada para beber que, mais além, não se confunde com a famosa “água que passarinho não bebe”...

Isso nos remete à variedade dos irredutíveis. Seria possível dizer que “cada sociedade tem o irredutível que merece?” — e que esse limite é o que produz sua singularidade ou colorido? E que quase sempre é reduzido a um estereótipo, tipo: os ingleses são fleumáticos; os franceses são refinados, e os americanos são chatos porque não mentem? Enquanto nós somos avessos ao trabalho porque fomos fabricados por “raças inferiores”?

O irredutível é o tido como natural — os homens são de Marte; as mulheres, de Vênus —; ele é o ponto, o dogma e o tabu. Em muitos casos, é o impensável e o antilógico cimentador do senso comum. Não brinque com fogo! Respeite a mulher alheia! Não beba demais!

Antes do advento da antropologia social (quando o mundo era grande), os irredutíveis dos outros eram tidos como heréticos, atrasados e primitivos. Talvez nem existissem...

Mas, na verdade, todo mundo tem seus irredutíveis. Decifrá-los é traduzi-los. Mas tome cuidado porque quando se questiona um irredutível, ele pode virar tabu; pode reafirmar-se como um dogma ou surgir na forma de uma crença. Antigamente, a crença e a fé surgiam no campo religioso. Num mundo sem Deus, porém, elas viram radicalismos que exigem fidelidade absoluta. Morrer por alguma coisa faz suspeitar que essa coisa seja um irredutível.

Todo radicalismo é irremível ou um resistente a outra linguagem. Seu absolutismo recusa a possibilidade de ele ser expresso num outro código. O irredutível recusa traduções.

Conhecer uma pessoa é ter acesso aos seus irredutíveis. Saber do que ela gosta, conhecer seus hábitos e valores.

Quais seriam os irredutíveis do Brasil lido como sociedade e cultura? A falta de gestão eficiente, privilégios além da conta, desperdícios de toda ordem, mentiras como credo, total ausência de senso de realidade, gastos excessivos e, por fim, mas não por último, o flagelo da corrupção que substituiu o dragão inflacionário. No espaço de uma croniqueta, esses são alguns irredutíveis conscientes.

Mas e os que nem são percebidos? Como o viés hierárquico que nos torna alérgicos a toda norma igualitária ou meritocrática e faz com que tenhamos duas faces? Uma para os nossos e outra para os outros? Afinal, como dizia um grande ator político, temos todas as coragens, menos a coragem de recusar o pedido de um amigo. Estaria nesse jogo contraditório o nosso irredutível?

Esse triste silêncio dos 50 milhões de jovens brasileiros

Há 50 milhões de jovens no Brasil, e seu silêncio é triste e assustador. O país atravessa uma crise grave, que ameaça seus princípios democráticos e as liberdades conquistadas com duros sacrifícios, e esse sangue jovem parece adormecido. Uivam as sirenes dos alarmes do ódio, e na rua emudecem as vozes dos jovens que deveriam querer um Brasil que ouça sua voz, com maior espaço para seus sonhos, que sempre são os de liberdade e de felicidade.


O paradoxo é que, segundo um estudo da Secretaria Nacional da Juventude (SNJ) da Presidência da República, 9 de cada 10 jovens brasileiros “acreditam ter capacidade de mudar o mundo”. E gostariam de mudá-lo. Sabem, entretanto, que não conseguirão fazer isso sozinhos, e sim pelas mãos de quem ponha fé neles, sem vontade de manipulá-los nem intoxicá-los, deixando que expressem o melhor de si mesmos.

Talvez os jovens se calem porque sabem que os mais velhos, que são os que deveriam aproveitar sua capacidade de querer melhorar o mundo, perderam a fé neles. Quando se acredita neles, esses jovens se entregam e respondem com o entusiasmo dos que ainda não foram poluídos pelo veneno do pessimismo.

Pôde-se ver isso, por exemplo, dias atrás, na Sicília, onde milhares de jovens, crentes e agnósticos, se entusiasmaram com um discurso do papa Francisco, que aos seus 80 anos soube tocar as melhores fibras dessa multidão à qual o futuro pertence. “Não olhem a vida pela janela. Não se coloquem na rabeira da História. Sejam os protagonistas”, disse-lhes, eletrizando-os.

Alertou a não ficarem parados nem mudos, a “sujar as mãos”, já que, citando Pirandello, recordou-lhes que “a vida não se explica, vive-se”. E é justamente em tempos de crise, observou Francisco, que os jovens “não devem se resignar e devem empreender o caminho”.

Por que não se veem no Brasil líderes capazes de dizer a esses milhões de jovens, com autoridade e credibilidade, que deixem de olhar a vida pela janela? Que saiam à rua para oferecer o que eles ainda não perderam, como sua fé no futuro, sua convicção de que são capazes de mudar o mundo, se os deixarem, se tiverem espaço, se forem ouvidos, respeitados, amados?

Leio que muitos desses jovens brasileiros se preparam para votar no mês que vem em candidatos a presidente que colocam sua fé na violência das armas, que querem amordaçar os direitos e as liberdades que os jovens cultivam mais que os mais velhos, porque fazem parte da sua essência. Os jovens deveriam, no entanto, abominar as correntes com as quais a intolerância das ideologias pretende atá-los.

Não por caso, segundo o relatório do SNJ, o conceito mais valorizado pelos jovens brasileiros, depois do estudo, é a “liberdade de expressão”, a possibilidade de poder manifestar o que sentem e amam, assim como o que condenam e desprezam. Se é assustador saber que há jovens dispostos a votar em candidatos alérgicos aos valores que eles mais amam, é também que não haja líderes capazes de entusiasmar esses milhões de jovens, reconhecendo seu direito, como fez o papa Francisco, de “sujar as mãos”, de perder o medo de errar, desde que sendo fiéis ao que acreditam e amam.

Ao Brasil, neste momento crítico para sua democracia e seu futuro, não faltam jovens com vontade de abrir novos espaços de liberdade, de semear nos caminhos do país mais marcos de diálogo que cadáveres de desilusão e de medo. O que falta são líderes que não os condenem a serem abandonados. Falta-lhes quem faça profissão de fé no que o coração de todo jovem ama antes de ser envenenado pelo cansaço dos que perderam a fé em si mesmos.

Esses líderes que preferem os jovens “olhando a vida pela janela” acreditam só na caricatura do medo com a qual se disfarçaram. Tomara que os jovens, sobretudo os que irão pela primeira vez exercer seu direito democrático nas urnas, saibam distinguir o trigo do joio. Saibam desmascarar esses falsos profetas da violência e do pessimismo, que são mais um tropeço que um impulso em suas vidas ainda por escrever.

A esses jovens, que são maioria entre os leitores deste jornal, e muitos leem espanhol, estes versos do grande poeta uruguaio Mario Benedetti que revela suas angústias e seus desejos:
No te rindas, por favor, no cedas.
Aunque el frío queme, aunque el miedo muerda, aunque el sol se ponga y se acalle el viento, aún hay fuego en tu alma, aún hay vida en tu seno…
Abrir las puertas, quitar los cerrojos, bajar el puente y cruzar el foso, abandonar las murallas que te protegieron, volver a la vida y aceptar el reto.
[Não se renda, por favor, não ceda.
Mesmo que o frio queime, mesmo que o medo morda, mesmo que o sol se ponha e se acalme o vento, ainda há fogo em sua alma, ainda há vida em seu seio…
Abrir as portas, tirar os ferrolhos, baixar a ponte e cruzar o fosso, abandonar as muralhas que lhe protegeram, voltar à vida e aceitar o desafio.]
Juan Arias