quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Medo e indignação

Está bem claro que nesta eleição vai se decidir contra alguma coisa, e não por alguma coisa. A maioria do eleitorado é a cara do fenômeno dos dispostos a romper “com o que está aí”. Provavelmente, encerra-se o período histórico iniciado com a saída do regime autoritário e a promulgação da Constituição de 1988. As grandes forças e o sentido político que se sobressaem nesta reta final da eleição claramente consideram obsoletos os sistemas político e boa parte das instituições que ali se consolidaram.


Alguns elementos que indicam o futuro próximo são bastante óbvios. A tendência do eleitorado em direção a figuras autoritárias é o mais notável desses elementos. O líder das pesquisas, Jair Bolsonaro, diz que resolve tudo praticamente no tapa, enquanto a agremiação política que parece, no momento, a que vai disputar o segundo turno com ele, o PT da corrupção, é o símbolo perfeito para a constatação de que enorme número de brasileiros não entende quais ideias erradas, entre elas a de que vontade política tudo resolve, levaram o País ao desastre. Estamos presenciando o enterro do “sonho” social-democrata tipo punho de renda do tucanato. O que havia de social-democracia no PT já havia sido sepultado pela avalanche de corrupção, cinismo e mentira.
Não existe neste momento um “centro”. O eleitorado raivoso clama por uma solução rápida – que a magnitude dos problemas enfrentados sugere ser impossível, mas não importa. Esse mesmo espírito do “vamos chutar o pau da barraca” prefere sonhar com passos para conter a crise que venham de fora da política, ou que sejam anunciados como soluções vindas de “fora do sistema”. Em outras palavras, e isso é bastante preocupante, há uma enorme aceitação da promessa de se resolver questões (como o déficit fiscal, que criaria perdedores por toda parte) sem considerar a necessidade de compromissos e de articulação política muito mais abrangentes do que conseguir 308 votos para maiorias na Câmara dos Deputados.

Há uma imensa desconfiança em relação às instituições e uma das mais recentes a serem devastadoramente atingidas é a da imprensa em geral, e dos grandes grupos de comunicação televisiva em especial. É assombroso como o jogo se inverteu, e em que velocidade: atacar esses colossos que antes eram capazes de determinar o futuro de políticos é o que hoje confere estatura a políticos, e vários se dedicam com êxito a lucrar em prestígio e simpatia no eleitorado fazendo uso em causa própria dessa espantosa perda de credibilidade (em boa medida, por cegueira política e covardia de dirigentes).

Numa sociedade com índices espantosos de violência, e alguns sinais graves de anomia (como na greve dos caminhoneiros), não deveria causar espanto algum a força com que medo e indignação empurram a candidatura de Jair Bolsonaro – e um atentado ter influenciado tanto a disputa.

Não me parece que o ex-capitão seja o criador da onda que está surfando – até agora com boa vantagem sobre os rivais. Talvez ele seja a expressão acabada de que o bom mocismo, o politicamente correto tivessem sido apenas delírios de elites dedicadas a si mesmas e vivendo em bolhas confortáveis em meio a um país pobre, desigual, ignorante e atrasado (basicamente as mesmas mazelas enfrentadas pela geração que escreveu a Constituição de 88). 

O atraso, o retrocesso, o desastre e os malefícios trazidos durante os 13 anos de populismo irresponsável do lulopetismo já conhecemos bastante bem. Para onde vamos agora é uma completa incógnita. O que sairá do que acredito ser a destruição da política brasileira tal como a conhecemos por mais de 30 anos ninguém sabe.

Brasil do eterno condenado


O PT e os outros

O Brasil está dividido entre o PT e os demais partidos. Desde 1989, quando Lula foi para o segundo turno na primeira eleição direta depois da ditadura de 1964, o PT consegue ser majoritário na captação dos votos da esquerda. Foi assim nas duas eleições seguintes, quando Lula perdeu no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso mas chegou em segundo lugar, e depois nas quatro que o PT ganhou. O Brasil é PT ou não é. Nos últimos 16 anos tem sido.

No começo, quando perdia eleições, o PT ainda não havia conseguido pintar sua imagem como a do partido da inclusão social, era apenas de esquerda. Na primeira eleição este papel coube ao caçador de marajás, e nas outras duas foi cumprido pelo criador do Real. Somente depois de Collor e FHC, o PT conseguiria somar ao seu eleitorado de esquerda aqueles que queriam e os que precisavam de um Brasil mais justo.


O PSDB, que havia conduzido com sucesso um dos mais importantes programas de distribuição de renda do mundo, não conseguiu capitalizar o Plano Real e deixou-se transformar aos olhos dos eleitores num partido da elite branca. Cometeu muitos erros, como o da polêmica emenda da reeleição, que contribuíram para que a sigla que construiu a estabilidade da economia acabasse com a imagem de partido paulista.

O “nós contra eles” não foi uma invenção de Lula, existe desde a primeira eleição presidencial. O que Lula fez foi dar uma coloração de classe ao termo. O “nós” são os pobres e as minorias, e o “eles” são os ricos. Discurso simples para um eleitor majoritariamente simples. Discurso que funciona. Embora não seja o único, claro que o PT é um partido preocupado com os mais pobres. O programa Bolsa Família foi o mais inclusivo da história do país, e o PT soube se valer dele politicamente.

Os demais partidos de esquerda viraram satélites. O PSDB, que depois de FHC perdeu quatro vezes para Lula, conseguiu atrair alguns partidos de centro, não todos. O maior deles, o MDB, ficou com o PT nas duas últimas eleições. Outros partidos de centro e de direita transitaram entre PSDB e PT ao longo dos últimos 16 anos. O PT foi mais competente. Apesar dessa miscigenação ideológica, os militantes orgânicos só enxergam o espectro de esquerda, e os eleitores não militantes só veem Luiz Inácio Lula da Silva quando miram o PT.

A campanha deste ano, ao que tudo indica agora, seguirá o mesmo roteiro, com a diferença que o PSDB perdeu seu protagonismo para Jair Bolsonaro. Dois episódios fundamentais da campanha ajudaram a impulsionar o capitão e o petista indicado por Lula. Bolsonaro foi esfaqueado enquanto era carregado nos ombros por eleitores, e Fernando Haddad recebeu a bênção de um ex-presidente preso que reconstruiu sua imagem de corrupto em mártir, injustiçado e perseguido.

É isso o que temos e com isso precisamos nos habituar. Resta saber se a habilidade política do PT será suficiente para ganhar a eleição no segundo turno. É verdade que a subida de Haddad nas pesquisas só ocorreu agora porque antes o candidato era Lula. Tem que se levar isso sempre em conta, mas é fato também que nunca, desde 2002, o PT esteve tão mal nesta fase da campanha. A corrupção ainda pode cobrar sua conta.

Nos quatro pleitos que ganhou, Lula e Dilma lideravam a corrida a esta altura da campanha. Em 2002, na pesquisa Ibope de 17 de setembro, Lula tinha 48% das intenções de voto. Em 2006, no dia 16 de setembro, Lula alcançava 42%. Na eleição de 2010, Dilma tinha 51% da preferência em 17 de setembro. Na sua reeleição, no dia 16 de setembro de 2014, a liderança de Dilma era mais apertada, com 36%, mas ainda assim quase o dobro do que Haddad tem agora.

O PT provou amplamente sua competência, tem seus principais líderes condenados e presos por corrupção, inclusive Lula, mas segue vivo na campanha. O PSDB, por sua vez, comprovou sua fama de incompetente político. Perdeu para Lula quando ele estava nas cordas do mensalão. Perdeu de Dilma quando seus sinais de fadiga já eram evidentes. E agora perde seu lugar na disputa para um novato em eleições presidenciais. E talvez perca também sua hegemonia paulista.

O PT continua, não se sabe até onde. O PSDB acabou de desembarcar.

Polarização acentua trinca que divide o Brasil

Juntos, o líder e o vice-líder da corrida presidencial somaram 47% das intenções de voto no Ibope mais recente —Bolsonaro com 28%, Haddad com 19%. Cristalizou-se a polarização: o anti-PT contra o petista. Somando-se as taxas atribuídas aos outros presidenciáveis e o índice dos sem candidato, verifica-se que 52% dos eleitores estão, por enquanto, fora da polarização. Esse é o retrato de uma sociedade trincada.

O Brasil a ser administrado pelo presidente que tomará posse em 1º de janeiro de 2019 é um país de ponta-cabeça. O Executivo está quebrado. O Legislativo, pulverizado. O Judiciário, abarrotado de escândalos por julgar. Esse já não é um cenário de fundo do poço. O Brasil se encontra num poço sem fundo.

Mantido o Fla-Flu, quem não morre de amores pelo capitão nem sonha com a volta da turma do presidiário terá de se posicionar. Muita gente votará em Haddad para evitar Bolsonaro. Outra parte optará pelo anti-PT para esconjurar o preposto de Lula. A preferência será substituída pela exclusão.

O Brasil é, hoje, um belo ponto no mapa, ideal para reerguer uma nação. Isso exige união. O problema é que a polarização deve produzir não um presidente, mas um herói vingador que os pára-choques de caminhão xingarão 15 dias depois da posse.

Inundações no rio Amazonas pioram nos últimos 30 anos

As inundações no rio Amazonas se tornaram mais frequentes e graves nos últimos 30 anos, segundo com um estudo realizado por cientistas brasileiros, chilenos e britânicos. Os pesquisadores apontam o aquecimento global como uma das causas deste fenômeno.

Para o estudo publicado nesta quarta-feira na revista especializada Science Advances, os pesquisadores analisaram os registros diários do nível do leito do Amazonas feitos no porto de Manaus há 113 anos.


Os dados mostram que enchentes acima de 29 metros, valor de referência para que as autoridades decretassem estado de emergência, ocorriam uma vez a cada 20 anos na primeira metade do século 20. Atualmente, esse tipo de inundação ocorre a cada quatro anos.

"O que realmente chama a atenção no histórico de registros é a gravidade e a frequência de inundações. Com poucas exceções, houve inundações extremas na bacia do Amazonas todos os anos entre 2009 e 2015", disse o autor da pesquisa Jonathan Barichivich, da Universidade Austral do Chile.

Segundo o estudo, o aumento das enchentes está relacionado a mudanças no sistema de circulação do ar movido pelo oceano, que influencia o clima e a quantidade de chuvas na região dos trópicos. Essa mudança foi causada pelo forte aquecimento do Oceano Atlântico e o resfriamento do Pacífico, o que aumentou a precipitação na bacia Amazônica.

"O efeito é mais ou menos o oposto do que acontece durante o El Niño. Ao invés de causar seca, resulta numa maior convecção e precipitação intensa nas regiões central e norte da bacia Amazônica", afirmou Manuel Gloor, da Escola de Geografia da Universidade de Leeds, no Reino Unido, coautor do estudo.

As causas do aquecimento do Atlântico não estão totalmente esclarecidas, porém, além da variabilidade natural, as mudanças climáticas influenciam esse fenômeno. Como resultado do aquecimento global, os cinturões de vento de média e alta latitudes no Hemisfério Sul têm se deslocado mais para o sul, o que abriu espaço para que as águas quentes do Oceano Índico sejam transportadas da ponta da África, através da corrente das Agulhas, para o Atlântico tropical.

Os cientistas indicam que as mudanças nos ciclos da água na bacia do Amazonas tiveram sérias consequências para os moradores de Brasil, Peru e outros países da região. O estudo aponta ainda que as inundações devem continuar ocorrendo nos próximos anos.

De acordo com o coautor do estudo Jochen Schöngart, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), as enchentes podem prejudicar o abastecimento de água, espalhar doenças, além de destruir casas e meios de subsistência.

O pesquisador destacou que com esses dados é possível aperfeiçoar os modelos de previsão de cheias na Amazônia Central e elaborar políticas públicas para mitigar os impactos das enchentes em regiões urbanas e rurais.
Deutsche Welle

Imagem do Dia

Cido Oliveira

O rancor petista virou veneno

Para quem joga numa eleição radicalizada, Fernando Haddad foi um colaborador impecável ao deixar a carceragem de Curitiba depois de visitar Lula. Ele definiu o papel do ex-presidente no governo que pretende fazer:

“Temos total comunhão de propósitos em relação a ele e o diagnóstico de que o Brasil precisa do nosso governo e precisa do Lula orientando como um grande conselheiro. Ele é um interlocutor permanente de todos os dirigentes do partido e nunca deixará de ser. Não temos nenhum problema com isso. Enquanto os outros partidos escondem os seus dirigentes, nós temos muito orgulho de ter o Lula como dirigente.”

Essa declaração poderia ter sido planejada pelo estado-maior de Jair Bolsonaro ou pelos urubus golpistas que pretendem deslegitimar uma eventual vitória da chapa petista.

Horas antes, em São Paulo, durante a sabatina da Folha/SBT/UOL, Haddad dissera algo racional, sem a soberba do comissariado:

“O presidente Lula, sem sombra de dúvida, na opinião da maioria dos brasileiros, foi o maior presidente da história deste país. Ele é um grande conselheiro e terá um papel destacado em aconselhamento, em falar de sua experiência. Jamais dispensaria a experiência do presidente Lula.”

Uma coisa é elogiar Lula e seus oito anos de governo. Bem outra é dizer que “não temos problema com isso”. Deviam ter, pois Lula está na cadeia, condenado por corrupção.

Milhões de eleitores estão dispostos a votar em Haddad porque ele é o candidato de Lula, mas quando se dá a um detento a condição de pai da pátria, estimula-se a dúvida em quem espera de uma vitória de Haddad a volta dos “bons tempos”, mas também teme que ela traga de volta o que há de pior no comissariado.
O consulado petista teve duas faces, a do progresso com Lula, e a do regresso com Dilma Rousseff, a da atenção para o andar de baixo e a das roubalheiras com o andar de cima. Oferecer as duas ao eleitorado num combo rancoroso é soberba.

Não se pode saber de onde está saindo o rancor petista. Pode ser que venha da inconformidade de Lula, ou ainda do interesse radical de uma parte do PT. Venha de onde vier, tornou-se um veneno que produz dois efeitos. O primeiro é o estreitamento da base eleitoral de Haddad, mas sempre se poderá dizer que uma eventual vitória transformará esse erro em asterisco. No seu segundo efeito, o modelo do “conselheiro” reforça as ameaças à sobrevivência das instituições democráticas. Não é preciso ser um gênio para se perceber que há um farfalhar golpista no ar. Bolsonaro, como Donald Trump, diz que teme uma fraude na contagem eletrônica dos votos. (Trump ganhou e não tocou mais no assunto.) O general Hamilton Mourão sonha com uma nova Constituição, redigida por sábios e sagrada num plebiscito. Coisa parecida, recente e próxima, só em 2007, na Venezuela.

Se houver um segundo turno entre Haddad e Bolsonaro, e o capitão reformado vier a prevalecer, será o jogo jogado. Se Haddad sair vencedor, a tese da vitória sem legitimidade irá para a mesa. A teoria do “conselheiro” serve à sua retórica.

As vivandeiras civis associadas à anarquia militar contestaram a legitimidade eleitoral em 1889 e em 1930 (com sucesso), em 1950 (fracassando até 1954, quando Getúlio Vargas matou-se) e em 1955 (com a teoria da falta de maioria absoluta de Juscelino Kubitschek). Coisa do século passado? Em 2014, Aécio Neves contestou a vitória de Dilma Rousseff. Depois, contou que a iniciativa foi uma “molecagem”, para “encher o saco”. Vá lá.

Que se recupere a dignidade

Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias
Byung-Chul Han

O irredutível

Mesmo tendo a consciência de que vou entrar num terreno movediço, a conjuntura me leva a abordar o irredutível.

O inarredável é a porta fechada à tranca. É o que não tem jeito ou remédio. O “The End” que nos obriga a sair do escurinho do cinema para a clareza cruel da vida. Como dizia Tia Amália para quatro meninos ouvintes nas tardes de chuva nas quais eram reduzidos a ficar em casa para não pegar pneumonia: “Acabou-se a história!”.

O irredutível fala de intenções e tentações. Ele também é uma óbvia ou oculta baliza social. O irredutível quarto escuro cheio de fantasmas volta a ser um rotineiro aposento quando a luz se acende! O pesadelo no qual o diabo surge em todo o seu poder simplesmente desaparece quando acordamos. Viver o “noves fora, zero!” ou perder uma eleição é passar pelo irredutível.

Reduzir faz parte do vezo ocidental. A água é redutível à combinação de moléculas de hidrogênio e oxigênio. Mas a liquidez ultrapassa o materialismo molecular. Basta recordar, com o antropólogo Leslie White, como um gesto transforma o líquido definido pela química numa alegórica e possante “água benta”. Por outro lado, um filtro a transforma em “água potável”; ao passo que o fogo produz “água destilada”. Colocado diante de copos com água benta, potável e destilada, beberíamos, com toda a certeza, o da água potável. A água assentada para beber que, mais além, não se confunde com a famosa “água que passarinho não bebe”...

Isso nos remete à variedade dos irredutíveis. Seria possível dizer que “cada sociedade tem o irredutível que merece?” — e que esse limite é o que produz sua singularidade ou colorido? E que quase sempre é reduzido a um estereótipo, tipo: os ingleses são fleumáticos; os franceses são refinados, e os americanos são chatos porque não mentem? Enquanto nós somos avessos ao trabalho porque fomos fabricados por “raças inferiores”?

O irredutível é o tido como natural — os homens são de Marte; as mulheres, de Vênus —; ele é o ponto, o dogma e o tabu. Em muitos casos, é o impensável e o antilógico cimentador do senso comum. Não brinque com fogo! Respeite a mulher alheia! Não beba demais!

Antes do advento da antropologia social (quando o mundo era grande), os irredutíveis dos outros eram tidos como heréticos, atrasados e primitivos. Talvez nem existissem...

Mas, na verdade, todo mundo tem seus irredutíveis. Decifrá-los é traduzi-los. Mas tome cuidado porque quando se questiona um irredutível, ele pode virar tabu; pode reafirmar-se como um dogma ou surgir na forma de uma crença. Antigamente, a crença e a fé surgiam no campo religioso. Num mundo sem Deus, porém, elas viram radicalismos que exigem fidelidade absoluta. Morrer por alguma coisa faz suspeitar que essa coisa seja um irredutível.

Todo radicalismo é irremível ou um resistente a outra linguagem. Seu absolutismo recusa a possibilidade de ele ser expresso num outro código. O irredutível recusa traduções.

Conhecer uma pessoa é ter acesso aos seus irredutíveis. Saber do que ela gosta, conhecer seus hábitos e valores.

Quais seriam os irredutíveis do Brasil lido como sociedade e cultura? A falta de gestão eficiente, privilégios além da conta, desperdícios de toda ordem, mentiras como credo, total ausência de senso de realidade, gastos excessivos e, por fim, mas não por último, o flagelo da corrupção que substituiu o dragão inflacionário. No espaço de uma croniqueta, esses são alguns irredutíveis conscientes.

Mas e os que nem são percebidos? Como o viés hierárquico que nos torna alérgicos a toda norma igualitária ou meritocrática e faz com que tenhamos duas faces? Uma para os nossos e outra para os outros? Afinal, como dizia um grande ator político, temos todas as coragens, menos a coragem de recusar o pedido de um amigo. Estaria nesse jogo contraditório o nosso irredutível?

Esse triste silêncio dos 50 milhões de jovens brasileiros

Há 50 milhões de jovens no Brasil, e seu silêncio é triste e assustador. O país atravessa uma crise grave, que ameaça seus princípios democráticos e as liberdades conquistadas com duros sacrifícios, e esse sangue jovem parece adormecido. Uivam as sirenes dos alarmes do ódio, e na rua emudecem as vozes dos jovens que deveriam querer um Brasil que ouça sua voz, com maior espaço para seus sonhos, que sempre são os de liberdade e de felicidade.


O paradoxo é que, segundo um estudo da Secretaria Nacional da Juventude (SNJ) da Presidência da República, 9 de cada 10 jovens brasileiros “acreditam ter capacidade de mudar o mundo”. E gostariam de mudá-lo. Sabem, entretanto, que não conseguirão fazer isso sozinhos, e sim pelas mãos de quem ponha fé neles, sem vontade de manipulá-los nem intoxicá-los, deixando que expressem o melhor de si mesmos.

Talvez os jovens se calem porque sabem que os mais velhos, que são os que deveriam aproveitar sua capacidade de querer melhorar o mundo, perderam a fé neles. Quando se acredita neles, esses jovens se entregam e respondem com o entusiasmo dos que ainda não foram poluídos pelo veneno do pessimismo.

Pôde-se ver isso, por exemplo, dias atrás, na Sicília, onde milhares de jovens, crentes e agnósticos, se entusiasmaram com um discurso do papa Francisco, que aos seus 80 anos soube tocar as melhores fibras dessa multidão à qual o futuro pertence. “Não olhem a vida pela janela. Não se coloquem na rabeira da História. Sejam os protagonistas”, disse-lhes, eletrizando-os.

Alertou a não ficarem parados nem mudos, a “sujar as mãos”, já que, citando Pirandello, recordou-lhes que “a vida não se explica, vive-se”. E é justamente em tempos de crise, observou Francisco, que os jovens “não devem se resignar e devem empreender o caminho”.

Por que não se veem no Brasil líderes capazes de dizer a esses milhões de jovens, com autoridade e credibilidade, que deixem de olhar a vida pela janela? Que saiam à rua para oferecer o que eles ainda não perderam, como sua fé no futuro, sua convicção de que são capazes de mudar o mundo, se os deixarem, se tiverem espaço, se forem ouvidos, respeitados, amados?

Leio que muitos desses jovens brasileiros se preparam para votar no mês que vem em candidatos a presidente que colocam sua fé na violência das armas, que querem amordaçar os direitos e as liberdades que os jovens cultivam mais que os mais velhos, porque fazem parte da sua essência. Os jovens deveriam, no entanto, abominar as correntes com as quais a intolerância das ideologias pretende atá-los.

Não por caso, segundo o relatório do SNJ, o conceito mais valorizado pelos jovens brasileiros, depois do estudo, é a “liberdade de expressão”, a possibilidade de poder manifestar o que sentem e amam, assim como o que condenam e desprezam. Se é assustador saber que há jovens dispostos a votar em candidatos alérgicos aos valores que eles mais amam, é também que não haja líderes capazes de entusiasmar esses milhões de jovens, reconhecendo seu direito, como fez o papa Francisco, de “sujar as mãos”, de perder o medo de errar, desde que sendo fiéis ao que acreditam e amam.

Ao Brasil, neste momento crítico para sua democracia e seu futuro, não faltam jovens com vontade de abrir novos espaços de liberdade, de semear nos caminhos do país mais marcos de diálogo que cadáveres de desilusão e de medo. O que falta são líderes que não os condenem a serem abandonados. Falta-lhes quem faça profissão de fé no que o coração de todo jovem ama antes de ser envenenado pelo cansaço dos que perderam a fé em si mesmos.

Esses líderes que preferem os jovens “olhando a vida pela janela” acreditam só na caricatura do medo com a qual se disfarçaram. Tomara que os jovens, sobretudo os que irão pela primeira vez exercer seu direito democrático nas urnas, saibam distinguir o trigo do joio. Saibam desmascarar esses falsos profetas da violência e do pessimismo, que são mais um tropeço que um impulso em suas vidas ainda por escrever.

A esses jovens, que são maioria entre os leitores deste jornal, e muitos leem espanhol, estes versos do grande poeta uruguaio Mario Benedetti que revela suas angústias e seus desejos:
No te rindas, por favor, no cedas.
Aunque el frío queme, aunque el miedo muerda, aunque el sol se ponga y se acalle el viento, aún hay fuego en tu alma, aún hay vida en tu seno…
Abrir las puertas, quitar los cerrojos, bajar el puente y cruzar el foso, abandonar las murallas que te protegieron, volver a la vida y aceptar el reto.
[Não se renda, por favor, não ceda.
Mesmo que o frio queime, mesmo que o medo morda, mesmo que o sol se ponha e se acalme o vento, ainda há fogo em sua alma, ainda há vida em seu seio…
Abrir as portas, tirar os ferrolhos, baixar a ponte e cruzar o fosso, abandonar as muralhas que lhe protegeram, voltar à vida e aceitar o desafio.]
Juan Arias 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Pensamento do Dia


Voto útil, casamento de conveniência

À parte de fatos novos sempre possíveis e tão constantes no Brasil, as próximas semanas devem se dar em torno da ansiedade despertada e a realidade que aos poucos se consolida à medida em que são divulgadas as pesquisas eleitorais. A princípio, as pesquisas são meros medidores de opinião. Como se diz, uma fotografia, um instantâneo do momento de um grande filme que é o processo eleitoral. Mas, não é tão simples assim. Dependendo das circunstâncias, as pesquisas não apenas medem como influenciam na formação da opinião dos eleitores e, assim, na movimentação dos candidatos.

Sobretudo, quando há um quadro de incerteza somado aos jogos estratégicos que todo eleitor costuma a fazer e que, no Brasil, dá-se o nome de “voto útil”.

A lógica do “voto útil” é simples: em tese, todo eleitor tem um candidato de preferência; aquele por quem sente maior empatia e que, com tranquilidade, cederia seu apoio. Este seria o que podemos chamar de um voto afirmativo. O eleitor afirma e reafirma sua preferência, sem qualquer mediação, interferência ou questão de segunda ordem. Ele faz a sua melhor escolha; uma espécie de primeiro melhor.


Acontece que no mundo moderno, competitivo e polarizado, nada é assim tão simples e protegido de contaminação. Num ambiente de conflito, o eleitor se dá também ao direito de definir o que, para ele, seria o “pior resultado”, o mau maior. O candidato dentre todos que “mais” rejeita, que descarta decisiva e definitivamente.

O sentimento do que “seria o pior” e a definição de seu nome, nessa condição, é um sentimento e um fenômeno tão forte que consegue se impor à preferência afirmativa, ao candidato que o sujeito entenderia como o melhor. É o “ruim”, portanto, que se impõe, na função de preferências e na lógica da escolha eleitoral ao “bom”. O mal menor em oposição ao bem.

Nestes tempos, o eleitor vota antes de tudo contra e não a favor. Vota-se, principalmente, para derrotar o que se reconhece como “maior perigo”, o mais pernicioso cenário, de acordo com os valores, conceitos e preconceitos do eleitor. E para isto procura-se, no universo de candidaturas, aquela que mais condições reúne para papel insólito: antes de vencer, derrotar o inimigo.

Mesmo que isto signifique abrir mão da escolha afirmativa, do entendido como melhor, em favor daquilo a que não se deixa de ter também restrições. Às vezes, fortes restrições, até. Um caso clássico foi, em 1990 na eleição ao governo paulista: contra Paulo Maluf, os eleitores de esquerda votaram em Luís Antônio Fleury Filho, candidato de Orestes Quércia.

Ainda assim, este foi um caso de segundo turno. Às vezes, essa situação é antecipada e já no primeiro turno, os eleitores se veem forçados a adiantar esse tipo de escolha. Em 1998, por exemplo, Mário Covas derrotou (novamente) Paulo Salim Maluf, na disputa ao governo do estado, não porque os eleitores aprovassem Covas, mas porque, acima de tudo, mais uma vez, rejeitavam Maluf. Covas, assim foi eleito. Ou antes, Maluf foi derrotado.

O “melhor”, portanto, é sempre uma questão relativa. É claro que nem todos pensam assim. Mas, basta que uma parcela do eleitorado raciocine desse modo e desloque sua preferência de modo a mudar o resultado de uma eleição. Este quadro se repete nesta eleição de 2018, no país. Todavia, de um modo ainda mais complexo, nesta, a mais complexa das eleições nacionais.

Ao que se percebe, há grupos de eleitores que definiram, cada um ao seu modo, “o mal maior”. A novidade é que desta vez, não é apenas um mal; mas pelo menos dois. E há três grupos que se movimentam assim, há vinte e tantos dias da eleição.

De um lado, aqueles que não admitem o PT e entendem a vitória do partido como um grande mal para o país. De outro, aqueles que compreendem Jair Bolsonaro como o maior desastre. Haveria ainda um terceiro, que não consegue assimilar nem por hipótese nenhum dos dois personagens governando o Brasil pelos próximos 4 anos, pelo menos.

Voltamos às pesquisas: eles indicam, neste momento, que a maior possibilidade é que Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, do PT, disputem o segundo turno da eleição. Cada um, cuja vitória é considerada, ao seu modo e por público distinto, como maior mal em relação ao outro. É nesse sentido que surgem os apelos pelo voto estratégico, ou pelo “voto útil” — “útil” para derrotar o desafeto.

De um lado, Ciro Gomes, cuja dinâmica política o desfavorece, explora o fato de as pesquisas apontarem que venceria com maior facilidade a Jair Bolsonaro, o “mal maior” definido pelo eleitorado de boa parte do centro e da esquerda. Nesse sentido, tenta desqualificar a candidatura de Haddad, em si, pelos problemas em torno do PT e pelos riscos e dificuldades que Haddad talvez venha a ter para vencer Bolsonaro.

De outro lado, Geraldo Alckmin. Paralisado abaixo dos 10% das preferências, limitado por seus vínculos com o governo Temer, com o Centrão e com os problemas éticos de membros do seu partido, mas com convicção de que seria o candidato com maior facilidade para vencer o PT, mal maior para a maioria dos eleitores de Direita e do Centro. Neste caso, até mesmo Marina Silva, que se descapitaliza a olhos vistos desde a entrada de Haddad no processo, pode surgir como alternativa às dificuldades de Alckmin.

O “voto útil” traz consequências: ao votar contra, o eleitor adere apenas circunstancialmente ao eleito. Não aderiu a ele, apenas o engoliu como “mal menor”; não há cumplicidade, menos ainda apoio. O eleito começa o mandato com legitimidade diante das urnas, mas com um déficit real em relação à maioria do eleitorado que o elegeu, apesar de seus defeitos e em virtude do perigo que significa o outro. O Congresso Nacional, é claro, perceberá isso, sabendo que a tradicional lua-de-mel do presidente com o eleitor durará bem menos, posto que, desta vez, o casamento foi de conveniência.
Carlos Melo 

A desgraça dos números primos

O dia do mês em que este artigo será publicado, 19, é um número primo. Para quem não lembra, números primos são aqueles que só podem ser divididos por eles próprios, ou pelo número 1. Números primos são responsáveis por inúmeros problemas matemáticos e conjecturas até hoje sem solução. Matemáticos ainda não foram capazes de encontrar nenhuma regularidade ou padrão na sequência infinita de números primos existentes. Sobre os mistérios dos números primos, disse o matemático, físico, e astrônomo suíço Leonhard Euler no século 18: “A matemática tentou em vão descobrir alguma ordem na sequência de números primos, e temos motivos para crer que esse é um mistério impenetrável para a mente humana”. Entre todos os números primos há sempre números pares que impedem que se toquem. Entre os primeiros dez números primos está o número 13, imediatamente seguido pelo número 17.


Tínhamos o 45, o 18, o 12. Também tínhamos o 30 e o 15. Todos números afeitos à composição, todos provenientes da multiplicação de pares de outros números que não eles próprios ou o singular dígito 1. Infelizmente, nas eleições brasileiras, já não cabem os arranjos, a conciliação de diversos, a estruturação em conjunto. Em meio à paranoia, às teorias conspiratórias, à confusão, e à desordem, parece claro que os números compostos estão prestes a cair no esquecimento do eleitorado brasileiro. Movimenta-se a população em direção àqueles números que se reduzem apenas a si mesmos ou ao isolamento unitário.

Como seriam os governos de números primos? Parte da resposta está em sua própria definição. Grandes dificuldades na composição com o Congresso, imensos desafios para alcançar a necessária conciliação do eleitorado brasileiro, a possibilidade de que testemunhemos um distanciamento ainda mais profundo entre as pessoas. Números compostos também enfrentariam problemas assim, não sejamos ingênuos. Contudo, as características dos números primos sugerem que suas dificuldades serão maiores.

Tomemos os números em sequência, começando, portanto, com 13. Há um imenso conjunto da sociedade brasileira que está enojada com o 13. Culpam o número por todos os problemas que o Brasil atravessou nos últimos anos, desde a crise de 2015-2016 até a eleição polarizada, a ascensão de militares da reserva, e a falta de opções viáveis para o voto iminente – passando, é claro, pela Lava Jato. Muitos dizem que o 13 é a razão única para apoiar 17, ainda que tal número seja controvertido, ainda que tenha apresentado vices e defensores com algum desprezo pela democracia, ainda que o próprio 17 tenha já manifestado o mesmo desprezo. Para esses, o 13 é o que há de mais vil na política brasileira, aquilo que não dá para cogitar, mesmo que o risco institucional associado ao 17 exista. Um governo de 13, portanto, careceria do apoio de boa parte do setor privado brasileiro, com ecos evidentes no Congresso. Sem apoio, difícil seria a tarefa de dar alguma ordem às contas públicas brasileiras. Mercados em turbulência constante, além de possíveis manifestações de seguidores e apoiadores de 17, alguns mobilizados pela falsa advertência de que se 13 porventura vencesse, as eleições teriam sido manipuladas, tornariam esse governo inviável.

O que passaria com 17? Da mesma forma que existe contingente mobilizado contra 13, as falas inflamadas de 17 e de seus companheiros militares da reserva aglutinou profundo repúdio em outras camadas da população. Camadas que já estavam mobilizadas pelo assassinato de Marielle Franco, pelas declarações do vice, pelos temores de que o viés antidemocrata possa acabar resvalando para o estranho fenômeno das democracias iliberais que testemunhamos mundo afora: na Turquia, na Polônia, na Hungria, nas Filipinas. A diferença apenas é que o sabor seria tropical. O governo de 17, portanto, se assemelharia bastante ao de 13, marcado por alto risco de ingovernabilidade, de turbulências financeiras, e por imensas dificuldades de implantar qualquer agenda de melhorias para o País.

Portanto, a escolha que se coloca diante dos eleitores brasileiros é: caos de esquerda ou caos de direita? Caos de 13 ou caos de 17? Risco institucional ou risco institucional? Eleições entre números primos, afinal, só poderiam mesmo gerar resultados irredutíveis na sua semelhança.

Placebo

A política é uma sucessão de remédios temporários para males permanentes e recorrentes
John Gray

Haddad beijou o anel de Lula e virou um político velho

Quem sonhava que Fernando Haddad iria conduzir a esquerda brasileira a novos tempos e a novos padrões políticos deve estar, no mínimo, constrangido ao assistir o mergulho cego dele rumo ao populismo, ao proselitismo e ao radicalismo. Como pagamento por ter sido sagrado candidato a presidente na vaga de Lula, o moço da ciclovia abandonou o apelido de que tanto se orgulhava reservadamente, o de ser o "mais tucano dos petistas" (por tirar dele a pecha de radical que acompanha alguns petistas), e passou a comungar em público de todos os dogmas do PT.


Em privado, Haddad gostava de celebrar sua amizade com Fernando Henrique Cardoso, com quem costumava ir à Sala São Paulo, e com Geraldo Alckmin, que o livrou de apanhar ainda mais durante a rebelião das ruas em 2013. Naquele tempo, então no cargo de prefeito de São Paulo, Haddad também cultivava, sempre reservadamente, uma distância crítica da presidente Dilma Rousseff. Não são poucos os interlocutores que ouviram dele cobras e lagartos sobre ela e o governo dela. Um deles conta que, na eleição de 2014, Haddad chegou a especular com mais de um aliado que a vitória de Marina Silva poderia ser melhor para o País e para a cidade de São Paulo do que a reeleição de Dilma.

Mas eis que agora nos deparamos com um Haddad diferente daquele que, nos meios acadêmicos e nas pizzarias dos Jardins (bairro nobre de São Paulo), mantinha o tal distanciamento crítico em relação às práticas pouco ortodoxas do PT e se gabava de liderar a nova esquerda brasileira, uma esquerda "imaterial", preocupada não apenas com a luta de classes, mas também com a mobilidade urbana, com a questão de gênero e com o ambientalismo.

Desde que virou candidato a presidente, após ter beijado o anel de Lula, Haddad tem se rebaixado ao que há de pior no petismo: a recusa (patológica) em admitir erros, o populismo descarado, construção de narrativas fantasiosas e a velha tática do nós contra eles. Nessa toada, não hesitou em subverter o que disse Tasso Jereissati (PSDB) ao Estado.

Ao admitir erros do PSDB, o tucano cearense jamais afirmou que o fracasso magnânimo do governo Dilma se deu por conta do PSDB. Haddad deveria era ter se espelhando na autocrítica de Tasso para responder a quem o pergunta sobre os erros de seu partido. Em vez disso, preferiu a desonestidade intelectual de usar a autocrítica e a clareza de Tasso para mascarar as mancadas de Dilma e do PT.

Para a militância petista, isto não tem a menor importância, pelo contrário, os que tinham alguma restrição a Haddad na igreja do PT agora deverão passar a venerá-lo também. Porém, para quem tem o desafio de ampliar apoios num eventual segundo turno, provavelmente contra Jair Bolsonaro (PSL), e diminuir a rejeição do campo antipetista, essa inflexão radical de Haddad pode se mostrar desastrosa. Sem falar no compromisso com a democracia e com outros valores essências, como a verdade e a transparência.

O único traço que, infelizmente, permanece autêntico no Haddad atual é o de um certo autoritarismo, aquele olhar de cima para baixo de quem pensa "eu sei o que é bom para vocês e pronto, acabou". Em entrevista ao "Jornal Nacional" na sexta-feira passada, Haddad afirmou que não foi reeleito porque o povo foi induzido a um erro. Para Haddad, o povo é apenas uma massa de manobra que, ora é induzida ao acerto, quando vota nele e no PT, ora é induzida ao erro, quando não consegue reconhecer suas inegáveis qualidades.

O moço da ciclovia envelheceu 20 anos em menos de uma semana. Virou um político velho, fazendo uma política velha, sem autocrítica e sem transparência, desperdiçando uma grande chance de se contrapor de verdade ao radical Bolsonaro, aquele que nega a história e não admite o contraditório.
Alberto Bombig

Brasil na margem de erro


A violência das paixões

Com base na trilogia de Alexei Tolstoi, escritor do chamado “realismo socialista”, a série O Caminho dos Tormentos, da Netflix, narra a saga de duas irmãs aristocratas, um oficial do Exército russo e um engenheiro que se torna oficial do Exército Vermelho. Com locações e figurinos irretocáveis, a produção russa de 2017 mostra os horrores da guerra civil na Rússia (1917 a 1924), em meio ao ódio de classe, às paixões ideológicas e toda sorte de oportunismo e sectarismo políticos. Da derrocada da autocracia russa à consolidação dos bolcheviques no poder, houve um banho de sangue trágico, que esfacelou famílias e destruiu amizades.

Talvez essa história fosse diferente se uma carnificina ainda maior não tivesse ocorrido: a 1ª Guerra Mundial (1914-1918), na qual a Rússia se engajou ao lado da Sérvia, da França e da Inglaterra, a chamada Tríplice Entente, contra a Alemanha, Itália e Império Austro-Húngaro, que formavam a Tríplice Aliança. Houve uma estupidez política sem tamanho de toda a elite europeia, encerrada no que a historiadora Barbara Tuchman, em seu livro, chamou de “Torre do Orgulho”. O mundo vivia a euforia da chamada Belle Époque (Bela Época), um período de grande progresso econômico e tecnológico; ao mesmo tempo, a exaustão do colonialismo e fortes tensões políticas e sociais.


O revanchismo latente na França e na Alemanha por causa da região da Alsácia-Lorena, que os franceses haviam perdido para os alemães na Guerra Franco-Prussiana, precisou apenas de um estopim para degenerar em gigantesca carnificina: o assassinato de Francisco Ferdinando, príncipe do império austro-húngaro, enquanto fazia uma visita a Sarajevo, região da Bósnia-Herzegovina, por um jovem terrorista sérvio. Insatisfeito com as atitudes tomadas pelo governo contra o criminoso, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia em 28 de julho de 1914. Ao fim do conflito, o saldo de mortos chegou a 10 milhões. A Alemanha acabou derrotada e perdeu não somente a Alsácia-Lorena, como todas as suas colônias, no Tratado de Versalhes, e ainda teve que pagar pesadas indenizações de guerra.

Em 1914, a Alemanha era governada pelo poderoso Partido Social-Democrata Alemão, que aprovou os créditos de guerra, o que provocou um tremendo racha na chamada II Internacional, que reunia a esquerda europeia. O Partido Trabalhista britânico e o Partido Socialista francês, ambos marxistas, seguiram o mesmo caminho e aderiram à guerra. O Partido Socialista Operário Russo (bolchevique), sob a liderança do revolucionário russo Vladimir Lênin, um dos personagens secundários da série russa, porém, seguiu outro caminho: defender a paz, fazer uma insurreição com apoio dos soldados insatisfeitos e tomar o poder. Tudo o que ocorreu depois na política foi consequência da 1ª Guerra Mundial, a começar pela radicalização política que levou ao poder Mussolini, na Itália, e Hitler, na Alemanha, os dois grandes países derrotados.

O fascismo foi derrotado na Segunda Guerra Mundial, mas a divisão entre comunistas e social-democratas se manteve na Europa por causa da “guerra fria”. Com a dissolução da União Soviética e o colapso do chamado “socialismo real” no Leste Europeu, essa divisão perdeu completamente o significado histórico. O mesmo processo de globalização e revolução tecnológica que levou à derrota o comunismo europeu, depois levou de roldão o Estado de bem-estar social na Europa ocidental. A grande obra social-democrata do pós-guerra entrou em colapso. O Ocidente passou a viver a hegemonia do pensamento liberal.

Vivemos um período de paz maior do que os anos da Belle Époque (1871-1914), apesar dos conflitos localizados e do terrorismo religioso na Eurásia e na África. A globalização e a revolução tecnológica, porém, com o esgotamento do Estado de bem-estar social, engendraram um agravamento das desigualdades e desequilíbrios regionais, principalmente na relação Norte-Sul. Essa é a raiz da crise humanitária e da emergência de movimentos racistas, xenófobos e fascistas na Europa. E também do fortalecimento de tendências autoritárias em regimes democráticos como respostas a essas contradições, como acontece na Venezuela, no Egito, na Turquia, nas Filipinas, em Israel, na Rússia e até nos Estados Unidos, que reage à expansão da China comunista, um misto de capitalismo de Estado e ditadura.

A crise da democracia representativa e dos partidos políticos tradicionais no Ocidente não se restringe ao fracasso de suas elites políticas. É também uma crise dos valores liberais — igualdade, fraternidade e liberdade — nas sociedades democráticas, contraditória com a exacerbação da liberdade individual. O processo de radicalização política em curso nas eleições brasileiras não está fora desse contexto, muito pelo contrário. Suas raízes ideológicas e políticas, historicamente, estão datadas, vêm lá da 1ª Guerra Mundial: a busca de soluções para os problemas econômicos e sociais do desenvolvimento por uma via “prussiana” ou “jacobina” é uma tentação, como se a tomada do poder fosse a solução para tudo. O mundo mudou, está cada vez mais veloz e integrado. As velhas fórmulas não dão conta da realidade de uma sociedade “líquida”. Mesmo assim, a democracia ainda é a melhor saída para as crises.

Facadas

O eleitor está de saco cheio do poder estabelecido, com raiva da atividade política e dos políticos, mas também está desempregado.
 
Quando será lembrado de que não votará num plebiscito sobre se Lula é ou não injustiçado nem sobre se o establishment político deve ser morto à bala ou faca? 
Carlos Andreazza

Paz de Toffoli significa impunidade de suspeitos

Desde o dia 13 passado, que foi véspera de sexta-feira, a Nação – parte esperançosa, parte ansiosa – perdeu um pouco de seu sono diante das dúvidas que vislumbra no horizonte turvo. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, perdoará e soltará o ex-chefe Lula? Ele porá de joelhos nus sobre caroços de milho agentes, procuradores e juízes federais que devassarem o passado mais turvo do que tal horizonte de figurões honrados com convite para sua festa de subida ao topo? O nome dessa sensação não é só incerteza, mas também insegurança jurídica.


Não me venha de borzeguins ao leito quem achar que aqui incorro em exagero. Quem exagerou foi ele. À véspera de sua posse solene, não esperou ser entronizado para beneficiar o ex-ministro da Fazenda dos governos e do partido a que serviu como advogado, Guido Mantega, alcançando com sua benemerência os marqueteiros criminosos confessos João Santana e Mônica Moura. Encaminhou um processo em que o trio é acusado de corrupção para a Justiça Eleitoral, a forma mais barroca e disfarçada da impunidade dada por sua grei de justiceiros que soltam, em vez de punir. Não adianta buscar no noticiário dos meios de comunicação nem no Google salvador: nenhum desses réus disputa nenhuma eleição. E mais, puxou a orelha do juiz que os processa, Sergio Moro, ídolo número um do populacho por causa da Operação Lava Jato, acusando-o de quebrar a hierarquia por “desprezar” decisão da Segunda Turma do STF, à qual o presidente não pertence mais.

Cármen Lúcia, a substituída, foi para a tal turma, que agora, a depender do decano, Celso de Mello, pode deixar de ser o éden dos réus para assumir o tridente do inferno de quem demanda habeas corpus. Que outra denominação pode ser dada, que não seja insegurança jurídica, ao fato de mera mudança de um dos cinco membros de uma turma alterar de forma radical o ânimo de punir de um colegiado? E que pecado será maior do que esse?

Mais do que a inoportuna reprimenda a Moro na carteirada, que Sua Excelência deu antes de se tornar primus inter pares, ameaça o combate à corrupção, e não apenas a Lava Jato, a possibilidade de, na principal cadeira do plenário, o ex-advogado-geral da União, de Lula, pôr em votação a mudança de uma jurisprudência: a da autorização para prender condenado em segunda instância. Ora, direis, jurisprudências mudam, porque dependem da dinâmica da vida real. Mas, como tem lembrado insistentemente sua colega Rosa Weber, ao lado de quem se sentava quando era apenas um “nobre par”, não devem ser alteradas em prazos curtos. Isso, acrescento, emula as “constituições” periódicas na ditadura militar.

Nos dois últimos anos Toffoli formou ao lado de Gilmar Mendes, que virou a casaca na jurisprudência citada, e de Ricardo Lewandowski, um trio que, para impor suas convicções partidárias ou seus interesses pessoais, distribui habeas corpus a quem tiver renda para pagar advogados que frequentam o STF. Nessa prática aparentemente generosa, mas, de fato, muito duvidosa e pouco judiciosa, seus adeptos, aos quais se reúne sempre com gosto e parolagem o ministro da Primeira Turma Marco Aurélio Mello, tornam despicienda a exigência de insuspeição do julgador. O novo chefão da grei mandou soltar José Dirceu, que foi preso por ter reincidido no delito pelo qual já havia sido condenado e cumpria pena de 30 anos e meio, o dobro do que cabe ao ex-chefão de ambos, Lula: 12 anos e 1 mês.

Ricardo Lewandowski chegou a rasurar o artigo 52 da Constituição, na presidência da sessão do impeachment da petista Dilma Rousseff, em conluio com os senadores Renan Calheiros e Kátia Abreu, hoje vice na chapa de Ciro Gomes, do PDT. E tornou possível a condenada disputar eleição para o Senado em Minas, sem reprovação de nenhum de seus “mui zelosos” guardiões.

Toffoli assumiu o mais poderoso posto do Judiciário em meio à turbulência pública entre os ministros daquela para a qual a denominação de “Corte” lembra a nobreza da época dos Luíses antes da Revolução Francesa. Valeroso combatente do lado de quem exige mudar a jurisprudência da autorização para prisão em segunda instância, soprou fumaças de paz de um cachimbo que já lhe entortou a boca. Quando, movido pelos eflúvios dos “espíritos”, torturou, condenou e executou, sem piedade, a canção Tempo Perdido, sucesso de seu ídolo Renato Russo, citado no discurso conciliador, emitiu, sem querer, sinais de que perderá seu tempo quem imaginar que a pax toffoliana beneficie alguém mais do que os convidados à solenidade e os parceiros da indecorosa carraspana. Será mais prudente imaginar que a palavra defina o sono solto que poderá ter quem hoje teme ser despertado no alvorecer pela campainha acionada por um policial.

O novo presidente do STF não é um campeão do notório saber jurídico, mas deve conhecer o significado óbvio da palavra “novilíngua”, com a qual o escritor britânico George Orwell definiu o dialeto imposto pelo Grande Irmão no celebrado 1984. Pois, em seu discurso do trono, falou em “prudência”, embora sua prática de ministro torne mais correto o uso de “leniência”. Tais conceitos, ao menos nos dicionários disponíveis, não são sinônimos.

Numa amostra de sua alienação da realidade, o jurisconsulto de Marília não hesitou em dar a definição mais estapafúrdia da atual conjuntura. “Não estamos em crise, estamos em transformação”, disse. E nem corou. Ao esbofetear a cara limpa de 24 milhões de brasileiros sem ocupação decente para lhes garantir a sobrevivência, ele não hesitou em também interferir no universo dos antônimos, ao adotar “permanência” como se mudança pudesse ser.

Ao fazer Dilma apta a ser “merendeira de escola”, Lewandowski ocupou o posto de pior presidente da História do STF. Mas Toffoli tem plenas condições de superá-lo.

Gente fora do mapa