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| Lee McLaughlin (1973) |
domingo, 15 de julho de 2018
Todos cavando o poço
O que se viu na saideira do Congresso antes do recesso prolongado de eleição foi um show de irresponsabilidade que cobrará um preço incalculável a um País que insiste em cavar dia a dia um poço ainda mais fundo para si.
Como se não houvesse um amanhã logo ali, para o futuro presidente, e ele já não trouxesse um rombo nas contas públicas que inviabiliza qualquer governo, deputados e senadores trataram de prorrogar benefícios, liberar reajustes a servidores e restabelecer benesses que haviam sido cortadas para pagar outra insensatez, a “bolsa-caminhoneiro” legada pela malfadada greve do transporte de cargas.
Mais assustador é verificar que foram cúmplices, para não dizer coautores, os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), do Senado, Eunício Oliveira (MDB), e do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia.
Diante de um presidente-zumbi, o que se tornou Michel Temer, e uma equipe econômica manietada pela falta de respaldo político do governo, contribuíram cada um no seu papel para o resultado das votações, seja por cálculo eleitoral, no caso dos dois primeiros, ou por defesa corporativa, no de Cármen – que, nesse quesito, não se mostrou diferente do antecessor, Ricardo Lewandowski.
E como reagiram os postulantes à Presidência, potenciais herdeiros dessa bomba-relógio, diante de votações no apagar das luzes do Congresso que comprometem as condições mínimas de governabilidade que terão?
Os que despontam com mais chances nas pesquisas se comportaram entre a omissão deliberada e o silêncio covarde. As únicas vozes a condenar a escalada de irresponsabilidade fiscal das votações foram as de João Amoêdo (Novo) e Paulo Rabello de Castro (PSC), ambos do bloco dos nanicos.
Jair Bolsonaro é o único dos líderes nas pesquisas que tem mandato parlamentar. Portanto, poderia estar lá não só votando a LDO – que estabelece as diretrizes para o Orçamento com o qual governará, se eleito – , mas coordenando a bancada suprapartidária de 140 deputados que diz ter consigo. Mas preferiu se ausentar para não ficar com a “marca na testa” de ter votado contra milhões de servidores, como me disse neste sábado.
Não vou mais considerar Maia, que comandou parte das votações, como pré-candidato a presidente. Ele mesmo já se despiu discretamente deste papel que desempenhou sem brilho.
E Geraldo Alckmin, postulante do PSDB, partido que no governo implementou a Lei de Responsabilidade Fiscal? Não deu um mísero pio sobre o show de populismo do Congresso. Por quê? Assim como Bolsonaro, com quem adora se comparar, por cálculo eleitoreiro raso. Não quer se indispor não só com os servidores, mas com o Centrão, cujo apoio negocia na bacia das almas.
E Ciro Gomes, que tem feito discursos incendiários sobre como o Brasil dança à beira do precipício nas contas públicas? Idem.
E Marina Silva, que não gosta quando é questionada pelo fato de se omitir nas questões polêmicas? Se omitiu.
E Henrique Meirelles, que tenta vender o peixe de que tirou o País da lama na economia? O que tinha a dizer enquanto seu sucessor na Fazenda, Eduardo Guardia, tentava alertar sobre os riscos de explosão nas contas públicas? Nada. Estava mais preocupado em equacionar uma candidatura em que Temer o ajude a se viabilizar no partido, mas não apareça em público.
Nesse aspecto, o único coerente é o PT. Mais empenhado em libertar da cadeia seu não candidato a presidente, o partido que provocou com Dilma Rousseff a maior recessão da história do País estava lá, votando alegremente junto com os adversários para alargar e aprofundar o poço em que nos enfiou.
Triste País em que, quando todos resolvem andar na mesma direção, invariavelmente é em marcha à ré.
Como se não houvesse um amanhã logo ali, para o futuro presidente, e ele já não trouxesse um rombo nas contas públicas que inviabiliza qualquer governo, deputados e senadores trataram de prorrogar benefícios, liberar reajustes a servidores e restabelecer benesses que haviam sido cortadas para pagar outra insensatez, a “bolsa-caminhoneiro” legada pela malfadada greve do transporte de cargas.
Mais assustador é verificar que foram cúmplices, para não dizer coautores, os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), do Senado, Eunício Oliveira (MDB), e do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia.
Diante de um presidente-zumbi, o que se tornou Michel Temer, e uma equipe econômica manietada pela falta de respaldo político do governo, contribuíram cada um no seu papel para o resultado das votações, seja por cálculo eleitoral, no caso dos dois primeiros, ou por defesa corporativa, no de Cármen – que, nesse quesito, não se mostrou diferente do antecessor, Ricardo Lewandowski.
E como reagiram os postulantes à Presidência, potenciais herdeiros dessa bomba-relógio, diante de votações no apagar das luzes do Congresso que comprometem as condições mínimas de governabilidade que terão?
Os que despontam com mais chances nas pesquisas se comportaram entre a omissão deliberada e o silêncio covarde. As únicas vozes a condenar a escalada de irresponsabilidade fiscal das votações foram as de João Amoêdo (Novo) e Paulo Rabello de Castro (PSC), ambos do bloco dos nanicos.
Jair Bolsonaro é o único dos líderes nas pesquisas que tem mandato parlamentar. Portanto, poderia estar lá não só votando a LDO – que estabelece as diretrizes para o Orçamento com o qual governará, se eleito – , mas coordenando a bancada suprapartidária de 140 deputados que diz ter consigo. Mas preferiu se ausentar para não ficar com a “marca na testa” de ter votado contra milhões de servidores, como me disse neste sábado.
Não vou mais considerar Maia, que comandou parte das votações, como pré-candidato a presidente. Ele mesmo já se despiu discretamente deste papel que desempenhou sem brilho.
E Geraldo Alckmin, postulante do PSDB, partido que no governo implementou a Lei de Responsabilidade Fiscal? Não deu um mísero pio sobre o show de populismo do Congresso. Por quê? Assim como Bolsonaro, com quem adora se comparar, por cálculo eleitoreiro raso. Não quer se indispor não só com os servidores, mas com o Centrão, cujo apoio negocia na bacia das almas.
E Ciro Gomes, que tem feito discursos incendiários sobre como o Brasil dança à beira do precipício nas contas públicas? Idem.
E Marina Silva, que não gosta quando é questionada pelo fato de se omitir nas questões polêmicas? Se omitiu.
E Henrique Meirelles, que tenta vender o peixe de que tirou o País da lama na economia? O que tinha a dizer enquanto seu sucessor na Fazenda, Eduardo Guardia, tentava alertar sobre os riscos de explosão nas contas públicas? Nada. Estava mais preocupado em equacionar uma candidatura em que Temer o ajude a se viabilizar no partido, mas não apareça em público.
Nesse aspecto, o único coerente é o PT. Mais empenhado em libertar da cadeia seu não candidato a presidente, o partido que provocou com Dilma Rousseff a maior recessão da história do País estava lá, votando alegremente junto com os adversários para alargar e aprofundar o poço em que nos enfiou.
Triste País em que, quando todos resolvem andar na mesma direção, invariavelmente é em marcha à ré.
Prisão de 100 dias de Lula já custou mais de R$ 1 milhão

Comparada a presídios comuns, a prisão é precária. E atrai adoradores e malucos variados, que põem em risco a segurança do próprio Lula.
Se fosse enviado para presídio de São Paulo, Lula ficaria mais perto da família, custaria R$ 1,4 mil/ mês e o bolso do contribuinte agradeceria.
Em média, cada preso no Brasil gera um custo mensal de R$ 2,5 mil. Um dia da prisão especial de Lula equivale a 4 meses do gasto normal.
No Amazonas, onde o custo está entre os mais altos, o gasto por preso é pouco mais de R$ 4 mil por mês, ou cerca de 10h de prisão de Lula.
Onde brincam as crianças?
Essa congregação global a cada quatro anos não é sobre o futebol apenas. É sobre uma memória corporal, coletiva, sobre um gozo de existência que toda criança tem, mas que perdemos à medida em que envelhecemos. Para os adultos, gostem ou não de futebol, é também um exercício de memória, sobre brincar, sobre alegria, sobre compartilhar um campo de jogo, de diversão, grama ou terra, bola ou qualquer brinquedo. É sobre uma afinidade humana essencial.
Infelizmente, acaba hoje. Agora, só em 2022. Eu e minha mulher teremos 50. As “crianças” terão 24, 16, 14 e 8. Mas será igual a diversão, a ansiedade com os jogos do Brasil e mais uma chance de celebração e brincadeira.
Agora, voltemos às nossas coisas de adulto.
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| Brincadeiras de criança, Ricardo Ferrari |
O duro contexto brasileiro leva à urgência de escolher bem, num cenário eleitoral marcado pelo signo da raiva. O país necessita prosperar, empregar, incluir e dar oportunidade para todos. Estamos massacrados mentalmente por um longo período de cizânia, desde antes da Copa do Brasil de 2014, bastando um domingo do plantonista inconsequente para soprar a brasa do ódio ideológico.
No Rio, uma administração inepta não consegue fazer a cidade avançar após tantas melhorias na infraestrutura urbana. O próprio prefeito contribui para a imagem negativa da cidade quando, repetida e insistentemente nos últimos dois anos, anuncia para todos que tudo vai mal. Crivella parece não entender que governa uma cidade global, em competição com outras, e quanto mais proclamar que o Rio está mal, mais empurrará negócios e empregos para outros lugares.
Esforçou-se ao máximo junto ao legislativo municipal para evitar investigação sobre o uso do Palácio da Cidade como igreja, entretanto não se empenha da mesma maneira para aprovar o novo Código de Obras que traria inovações e benefícios.
Atitudes como rever dimensões mínimas para apartamentos, flexibilizar exigências de vaga para automóvel ou dar fim à obrigação dos PUCs, ou pavimentos de uso comum, popularmente conhecidos como “playgrounds”, ajudariam muito o Porto, por exemplo, e animariam o combalido mercado imobiliário carioca. Investidores olham para o Rio hoje e acabam optando pela previsibilidade da legislação de São Paulo, ou Goiânia, ou Belo horizonte. Competição é a brincadeira dos adultos.
Na década de 1970, predominava uma ideia de que o aumento da densidade populacional das cidades era prejudicial, e, nesta ocasião, novas leis de construção trouxeram para dentro dos prédios e condomínios o lugar de brincar das crianças, que antes ficava no espaço público e nas praças. Surgiram os “plays”, depois os “lounges”, os “fitness centers” e os “espaços gourmet”.
Esse fenômeno de segregação da vida comum no Brasil é um dos ingredientes do ódio que vivemos hoje, organizado em condomínios de pensamento político.
Melhoraríamos a qualidade da esfera pública e também das cidades brasileiras se pensássemos mais sobre onde brincam as crianças?
Em reportagem de Maurício Peixoto no GLOBO, nos Jornais de Bairro da Tijuca, de 12 de julho, constatamos o abandono das praças na região. Esse é um quadro que observamos em muitos bairros, infelizmente. Brincar só é possível no play ou no shopping.
Contudo, mais do que a necessidade de zelo e manutenção, há um problema crítico de design. Crianças da era dos games, YouTube e redes sociais precisam de maior interação e atratividade nos brinquedos. Para além de escorrega, balanço, trepa-trepa e gangorra, é fundamental oferecer mobiliário mais provocador e estimulador para uma geração hiperconectada e que se entedia facilmente.
Dentro dos nossos jogos mentais de pessoas grandes, não estamos mais enxergando coisas simples. E muito menos as crianças, que não são de esquerda, nem de direita, simplesmente são o que fomos um dia, mas que precisamos de Copas para nos lembrar. Há um vasto universo de soluções eficazes e simples de melhorias nas cidades e em nós mesmo, se conseguíssemos usar a mente de forma livre e forte como fazem os jogadores em campo e pensar onde caminham as crianças, onde brincam, onde estudam, onde jogam bola, onde leem, onde conversam.
Quantas Copas precisaremos para perceber que são as crianças o futuro do Brasil, como disse um dia Pelé?
Nossa derrubada Torre de Babel
Tá louco. Você fala uma coisa e o povo entende outra. Escreve sobre uma coisa e o povo entende outra. Parece que a cada dia a comunicação entre os seres se torna mais difícil e os deuses agora devem estar é tampando os ouvidos para não se afetarem por tanta besteira vinda de um certo país da América do Sul
Conta a Bíblia, no Gênesis, que a uma determinada altura dos acontecimentos os homens quiseram subir até bem perto do céu para demonstrar sua tecnologia e capacidade de instalar-se perto de Deus. Imagine, eles lá no bem bom dando ordens e nós aqui embaixo só levando pedradas. Também queriam ficar conhecidos, ganhar poder. Teriam então se disposto a construir uma gigantesca e colossal cidade em uma torre de barro, pontuda, semelhante a uma lança, desafiadora, que chegasse até lá em cima. Tarefa a que deram início em conjunto porque inicialmente ali todos se entendiam, falavam a mesma língua. Não era igual obra ou reforma de hoje em dia que você pede para fazer uma coisa e te entregam outra.
Teria então o Senhor, irritado com a arrogância e soberba dos construtores, decidido mostrar quem é que que mandava ali (ou aqui nisso tudo). Não gostou nada do que viu, embora tenha até se espantado com a capacidade humana, até a achado bonitinha, mas quis parar logo com tudo aquilo, prevendo que dali sairia uma espécie de poderosa empreiteira que poderia mandar em tudo.
Não deu outra. De uma só canetada acabou com a brincadeira. Desceu, confundiu a língua de todos, e os dispersou sobre a Terra. A maior confusão.
Nesse pisão – maior barata voa da história – pode ter escorregado e empurrado aqui para esse continente umas turmas muito estranhas. A brasileira, entre elas. Assim, não há Cristo que faça com que nos entendamos século após século, década após década, dia após dia, principalmente quando perto de períodos eleitorais ou quando se trata de jogos e times de futebol e escolas de samba, entre outros competitivos assuntos.
Aqui tenta ganhar quem grita mais alto. Se bate no peito quando fala em outro idioma, mesmo que seja esquecido o próprio, natural. Somos criativos até para mudar o sentido das palavras, ou para impostá-las, fazendo firulas que as tornam formas de poder e domínio, vide contratos de seguradoras, bancos, leis, tratados e teses que não se entende nada desde seu próprio título, muito menos ao que se referem e para o que podem servir.
Aqui se fala e não se cumpre o que se fala. A palavra dada não tem valor. Palavras lançadas como flechas apenas pairam no ar, como se fossem, hora dessas cair bem em cima das nossas cabeças. Esqueçam o que se falou. esqueçam o que se escreveu. Esqueçam o que foi prometido. Mentiras são como praga de gafanhotos, devastadoras.
O problema é que está chegando a hora de tentarmos nos entender. De ser dada informação e uma educação suficiente para que a população consiga raciocinar, discernir, compreender sozinha o que é que está sendo dito, o que significa e aonde levará. Hora de usarmos uma linguagem clara e comum. Agora, sim, tipo a daquele locutor de tevê que durante o jogo fica o tempo inteiro dizendo exatamente o que está acontecendo, como se não fôssemos capazes nem de enxergar e precisássemos de sua santa ajuda para entender o que se passa ali naquela partida.
Agora, sim, entraremos em outro campo, precisaremos saber tudo sobre os jogadores, o seu passado e o que pretendem de futuro com suas jogadas e estratégias, quais bandeiras levantarão, se as jogadas serão individuais ou coletivas, como se movimentarão no cenário global. E, principalmente, quais serão os seus salários. E os nossos.
Que tudo isso seja dito em linguagem bem clara, olhos nos olhos. Inclusive utilizando sinais – bem simples, para todos poderem entender, e com as mãos poderem apertar as melhores opções nas teclas. Confirmar.
Marli Gonçalves
Conta a Bíblia, no Gênesis, que a uma determinada altura dos acontecimentos os homens quiseram subir até bem perto do céu para demonstrar sua tecnologia e capacidade de instalar-se perto de Deus. Imagine, eles lá no bem bom dando ordens e nós aqui embaixo só levando pedradas. Também queriam ficar conhecidos, ganhar poder. Teriam então se disposto a construir uma gigantesca e colossal cidade em uma torre de barro, pontuda, semelhante a uma lança, desafiadora, que chegasse até lá em cima. Tarefa a que deram início em conjunto porque inicialmente ali todos se entendiam, falavam a mesma língua. Não era igual obra ou reforma de hoje em dia que você pede para fazer uma coisa e te entregam outra.
Teria então o Senhor, irritado com a arrogância e soberba dos construtores, decidido mostrar quem é que que mandava ali (ou aqui nisso tudo). Não gostou nada do que viu, embora tenha até se espantado com a capacidade humana, até a achado bonitinha, mas quis parar logo com tudo aquilo, prevendo que dali sairia uma espécie de poderosa empreiteira que poderia mandar em tudo.
Não deu outra. De uma só canetada acabou com a brincadeira. Desceu, confundiu a língua de todos, e os dispersou sobre a Terra. A maior confusão.
Nesse pisão – maior barata voa da história – pode ter escorregado e empurrado aqui para esse continente umas turmas muito estranhas. A brasileira, entre elas. Assim, não há Cristo que faça com que nos entendamos século após século, década após década, dia após dia, principalmente quando perto de períodos eleitorais ou quando se trata de jogos e times de futebol e escolas de samba, entre outros competitivos assuntos.
Aqui tenta ganhar quem grita mais alto. Se bate no peito quando fala em outro idioma, mesmo que seja esquecido o próprio, natural. Somos criativos até para mudar o sentido das palavras, ou para impostá-las, fazendo firulas que as tornam formas de poder e domínio, vide contratos de seguradoras, bancos, leis, tratados e teses que não se entende nada desde seu próprio título, muito menos ao que se referem e para o que podem servir.
Aqui se fala e não se cumpre o que se fala. A palavra dada não tem valor. Palavras lançadas como flechas apenas pairam no ar, como se fossem, hora dessas cair bem em cima das nossas cabeças. Esqueçam o que se falou. esqueçam o que se escreveu. Esqueçam o que foi prometido. Mentiras são como praga de gafanhotos, devastadoras.
O problema é que está chegando a hora de tentarmos nos entender. De ser dada informação e uma educação suficiente para que a população consiga raciocinar, discernir, compreender sozinha o que é que está sendo dito, o que significa e aonde levará. Hora de usarmos uma linguagem clara e comum. Agora, sim, tipo a daquele locutor de tevê que durante o jogo fica o tempo inteiro dizendo exatamente o que está acontecendo, como se não fôssemos capazes nem de enxergar e precisássemos de sua santa ajuda para entender o que se passa ali naquela partida.
Agora, sim, entraremos em outro campo, precisaremos saber tudo sobre os jogadores, o seu passado e o que pretendem de futuro com suas jogadas e estratégias, quais bandeiras levantarão, se as jogadas serão individuais ou coletivas, como se movimentarão no cenário global. E, principalmente, quais serão os seus salários. E os nossos.
Que tudo isso seja dito em linguagem bem clara, olhos nos olhos. Inclusive utilizando sinais – bem simples, para todos poderem entender, e com as mãos poderem apertar as melhores opções nas teclas. Confirmar.
Marli Gonçalves
A árvoree que pensava
Houve uma árvore que pensava. E pensava muito. Um dia transpuseram-na para a praça no centro da cidade. Fez-lhe bem a deferência. Ela entusiasmou-se, cresceu, agigantou-se.
Aí vieram os homens e podaram seus galhos. A árvore estranhou o fato e corrigiu seu crescimento, pensando estar na direção de seus galhos a causa da insatisfação dos homens. Mas quando ela novamente se agigantou os homens voltaram e novamente amputaram seus galhos.
A árvore queria satisfazer aos homens por julgá-los seus benfeitores, e parou de crescer. E como ela não crescesse mais, os homens a arrancaram da praça e colocaram outra em seu lugar.
Oswaldo França Júnior
Aí vieram os homens e podaram seus galhos. A árvore estranhou o fato e corrigiu seu crescimento, pensando estar na direção de seus galhos a causa da insatisfação dos homens. Mas quando ela novamente se agigantou os homens voltaram e novamente amputaram seus galhos.
A árvore queria satisfazer aos homens por julgá-los seus benfeitores, e parou de crescer. E como ela não crescesse mais, os homens a arrancaram da praça e colocaram outra em seu lugar.
Oswaldo França Júnior
Manhã de domingo
Mais tarde, minha sensação se confirmou no vídeo em que José Dirceu comemorava a saída de Lula na cadeia. Ele estava tão emocionado quanto estaríamos depois de uma vitória do Brasil contra o Panamá. Seu ar era muito mais de travessura do que de vitória. Concluí, mesmo vendo tudo de tão longe, que estávamos diante do que os russos chamam de provokatsiya, uma tentativa contundente de colocar um tema na agenda, independentemente do resultado. Como a imprensa, de todos os horizontes, precisa eletrizar sua plateia, mantê-la colada ao desenrolar de um fato, só se falou nisso no domingo. E não foi por acaso que alguns jornalistas estrangeiros compararam o fato a uma novela.
A origem disso está numa análise mais realista do PT, segundo a qual seu grande líder só teria chance de ser libertado se houvesse uma grande comoção popular. Isso não aconteceu nos primeiros meses. A própria solidariedade internacional é minguante, quando não acontece nada no país. Isso vale para prisioneiros em diferentes posições no espectro político. Faz um abaixo-assinado, como de um defensor dos direitos humanos na Chechênia, mas com o tempo só resta escrever: não podemos esquecer nosso preso, lembrem esse nome etc. A vida continua, outros presos entram em cena, alguém faz greve de fome na Crimeia, de novo a advertência: cuidado que pode morrer etc., mas ainda assim a vida continua.
Diante desse quadro desolador para ele, o PT decidiu arriscar um golpe de mão. Como na sua cabeça a Justiça é partidarizada, não resta outra saída exceto usá-la quando um juiz amigo estiver de plantão. O resultado, em termos eleitorais, foi ocupar o espaço de debate no fim de semana. Candidatos, presos ou não, costumam comemorar a ocupação de espaço, sem analisar o conteúdo. Seu nome fica na boca do povo. No entanto, ao escolher uma tese de partidarismo na política, o PT deixou muitas pessoas com medo, não só do que seria capaz, se voltasse ao governo. Mas com a possibilidade de cada grande partido tirar um dos seus nos plantões de fim de semana. O Brasil seria uma terra sem lei. No fundo, não aconteceu nada e o país discutiu esse não acontecimento durante toda a semana. Ele ocupou o espaço pós-Copa do Mundo, precisamente o espaço necessário para o início de um debate sério sobre os rumos do país. Até o momento, uma parte substancial da esquerda está ausente dele, porque se fixou na libertação de Lula.
O próprio PSOL, através de seu candidato Guilherme Boulos, fez uma intervenção que sensibiliza quem está na Rússia. Disse que Moro saiu da praia de tanguinha para manter a prisão de Lula. Não havia evidência de que Moro estava na praia, muito menos que usava tanga. O que Boulos quis insinuar com isso? Não é por acaso o candidato do partido que defende os gays? Não tem um deputado gay no Congresso e um ícone na figura da vereadora assassinada do Rio Marielle Franco?
Na vida política do Brasil, parece que tudo se derrete no ar. E, no entanto, temos toda uma reconstrução pela frente.
sábado, 14 de julho de 2018
O valor mais alto que sempre se alevanta
Foi só mais um golpezinho chinfrim, desta vez envolvendo deputados e desembargadores plantados. A cara do Lula. A cara do PT. A medida exata do valor que dão à democracia, às instituições que manipulam, ao Brasil e aos brasileiros.
A vitória, excepcionalmente, foi “dos mocinhos”. Teriam atirado no alvo errado ao visar o TRF-4, a outra Curitiba, a quem o Brasil fica devendo mais essa? Há quem diga que tudo o que queriam era desmoralizar as instituições. Já as gravações na rede comemorando antes da hora a libertação do chefe feitas por toda a cúpula da organização criminosa descrita na Ação Penal 470 que Lula, como o PCC, comanda de dentro do presídio indicam que eles realmente esperavam que essa armação mequetrefe pudesse colar...

Mas isso pouco importa, pois no universo moral do lulismo nenhuma sujeira se perde, todas apenas se transformam. O que choca é terem os 200 milhões de brasileiros da “2.ª Classe” razões de sobra para se angustiar com mais essa palhaçada, pois os favretos do STF que acabam de dar fuga ou apagar os pecados da cúpula da quadrilha fixaram a jurisprudência de que os fatos, a lei, a Constituição e até as sentenças deles próprios não valem nada, tudo pode virar do avesso conforme a “turma” que estiver de plantão. E se pode a “turma” (que em dois meses estará “lá”) ou mesmo um só entre eles nesta nossa monocracia, por que não o aparelhado solitário de turno plantado no TRF-4 pela janela do “quinto constitucional”?
Causa “intolerável insegurança jurídica” a decisão “inusitada e teratológica” baseada em “premissa falsa” por autoridade “manifestamente incompetente”? Revela dolo ter ela redobrado sua truculência ameaçando juízes e policiais federais depois de alertada para o “flagrante desrespeito a decisões colegiadas do STJ e do plenário do STF”? Desejavam espicaçar perigosamente “paixões partidárias e políticas” pondo o País inteiro em risco e causando prejuízos sistêmicos à economia com esse “tumulto processual sem precedentes”?
Sim, sim e sim, é “óbvio e ululante”! Mas, data maxima venia, os editorialistas são estes aqui ao lado. Da meritíssima Laurita Vaz, que representa a instituição agredida, o País tem o direito de esperar medida saneadora exatamente proporcional aos adjetivos todos que usou. Afinal, já está provado: a 2.ª Instância, unida, isola e desarma até a última instância bandida.
A pergunta que nunca se faz em voz alta diante dessas mixórdias todas – alguns dos que deveriam porque mamam diretamente, outros porque mamam indiretamente, o favelão nacional apenas porque ninguém amplifica o som da sua voz – é: porque, afinal de contas, o Poder Judiciário “mocinho”, de quem depende a segurança jurídica, pela ausência da qual está o País inteiro se afogando em sangue e miséria, convive com os seus favretos e dá a esses cânceres no máximo a aspirina de um “pito”?
A resposta é igualmente óbvia e ululante: porque tem de ser monolítico o edifício periclitante da “privilegiatura”, especialmente no meio desse terremoto permanente que a esta altura ele custa à Nação. E é natural que seja assim. É o instinto de sobrevivência que nos move como espécie. E não há, fora da seara dos santos, altruísmo que resista a essa força da natureza. Por isso ninguém, nem no que resta de menos poluído no funcionalismo que ainda é pago em dia (e astronomicamente muito), dispõe-se a permitir que sua indignação vá mais longe do que foi a de Laurita Vaz.
A democracia é o regime que reconhece as forças da natureza e trata de colocá-las a serviço do bem. Não há resposta institucional às bofetadas que o PT et caterva dão na cara das instituições, não porque elas não disponham de armamento de defesa, mas porque estão nas mãos erradas os gatilhos que o acionam.
Tudo o que está errado no Brasil, aliás, está errado porque é isso que está errado.
É “dinheiro de pinga” essa montanha que escandaliza o mundo do que nos roubam por fora da lei. O que arrebenta mesmo é o que nos tomam por dentro da lei. É o que nos tomam convertendo todo e qualquer assalto em mais um “direito adquirido”; automatizando o avanço anual sobre os bolsos do favelão nacional; rebatizando pedaços do esbulho como “auxílio”, “contribuição” ou “salário-xis”. O que nos mata mesmo é, com todos os chineses do mundo fungando no cangote dos nossos empregos, ter o peso desses penduricalhos multiplicado pela ausência de cobrança de resultados, a estabilidade eterna e até hereditária no emprego, o avanço na carreira por decurso de prazo, a antecipação das aposentadorias...
Enquanto não estiver nas nossas mãos o direito de deseleger a qualquer momento estes que hoje elegemos para uma “privilegiatura” eterna, destruir o Brasil continuará parecendo-lhes mais barato que perder uma eleição. Enquanto a pena máxima para juiz ladrão continuar sendo a aposentadoria precoce, eles continuarão a soltar, em vez de prender bandidos. Enquanto não for você que decide quem fica e quem sai do serviço público, toda corporação que chantagear o povo será perdoada, toda lei adicional contra a corrupção se transformará na mais nova arma da corrupção, todo teto imposto ao funcionalismo será imediatamente convertido em piso.
Instituições e seus dispositivos de defesa são armas de afirmação de uma determinada hierarquia. Qual? Vai depender de quem puxa o gatilho. Se quisermos que mude o que está aí, temos de tirar a mão do Brasil que nos está matando do gatilho e pôr no lugar a do Brasil que queremos que sobreviva. O resto acontece sozinho.
Alô, indignados de boa vontade! Alô, candidatos sem bandeira nenhuma! Alô, povo que ainda pode derrubar governos com passeatas sem levar tiro! Eleições distritais puras, retomada de mandatos a qualquer momento (recall), referendo de todas as leis que vierem deles, eleição de retenção de juízes regularmente, é isso que nos tira da condição de alvos e nos põe na de atiradores.
Togas partidárias
A judicialização da política elimina a separação de poderes, que era a base da democracia liberal. Ela é a causa principal da crise institucional. Ela acontece em muitos países, mas, no Brasil, é muito mais brutal e mais direta, com objetivos diretamente políticos da parte do poder judicialManuel Castells
Gastos com alimentação na Câmara trataria câncer de 18 mil
Os 513 deputados federais já receberam reembolso de R$5,56 milhões de gastos com alimentação desde a posse em 2015. Em vez de encher a barriga dos parlamentares, literalmente, o valor seria suficiente para pagar mais de 4 mil sessões de quimioterapia e mais de 14 mil sessões de radioterapia de pacientes de câncer, além de 400 cirurgias para remover tumores no SUS.
Em média, cada deputado recebeu de volta R$10.845. Esse valor seria suficiente para bancar 8 sessões de quimioterapia e 27 de radioterapia.
Enquanto o trabalhador se vira com R$954, deputados ganham R$33,7 mil mensais, mas pedem reembolso de R$ 1 gasto com pão de queijo.
Dos 86.984 pedidos de reembolsos, o maior foi da liderança do PT: R$6.205,00. Dos dez maiores pedidos, nove são do PT e um do PSDB.
Cláudio Humberto
Em média, cada deputado recebeu de volta R$10.845. Esse valor seria suficiente para bancar 8 sessões de quimioterapia e 27 de radioterapia.
Enquanto o trabalhador se vira com R$954, deputados ganham R$33,7 mil mensais, mas pedem reembolso de R$ 1 gasto com pão de queijo.
Dos 86.984 pedidos de reembolsos, o maior foi da liderança do PT: R$6.205,00. Dos dez maiores pedidos, nove são do PT e um do PSDB.
Cláudio Humberto
O país à beira do abismo com a crise institucional

A Carta Magna tinha cunho parlamentarista, mas o plebiscito de 21 de abril de 1993 confirmou o presidencialismo, e, sem a adequada revisão prevista para aquele ano, o presidente da República ficou com poderes imperiais, especialmente no que se refere à medida provisória e proposição de emendas constitucionais. Ele subjuga os parlamentares com o controle das dotações orçamentárias, loteia a administração pública e nomeia ministros para os tribunais superiores, sem que haja acurada análise do Senado Federal.
Entre os absurdos da Constituição está a atribuição ao STF de julgamento de autoridades federais, misturando ações penais com sua missão essencial de Corte constitucional. Isso gera sobrecarga de processos para um pequeno colegiado, privilégio para alguns cidadãos e chance de impunidade para os patronos dos magistrados do momento, como ficou explícito na Ação Penal (AP) 470, em 2012, quando os políticos receberam penas menores do que as dos empresários. O despropósito cresceu com a proteção partidarizada a denunciados na operação Lava Jato, que elucidou muitos crimes de corrupção. O cidadão comum tem percebido interpretações subjetivas de artigos da Constituição de 1988, com endereçamento ajustado a alguns réus. Isso tem provocado aversão entre os cidadãos, sempre apreensivos a cada sessão na Corte maior, porque há forte engajamento político dos ministros que não se preocupam com a consolidação da jurisprudência.
O Brasil precisa de nova Constituição para reconstruir o Estado, mas quem serão os constituintes? Estamos em embate ideológico, e não há lideranças confiáveis para nortear a redação de um novo texto por uma equipe específica. O presidente da República não tem credibilidade nem se empenha para conduzir uma administração dinâmica, austera e consequente para a modernização do país. É indispensável eliminar os privilégios, mas ninguém aceitará reduzir os seus. Há dezenas de partidos sem sedimentação ideológica, pois os políticos preferem o fisiologismo e o aluguel da legenda para o bloco hegemônico do momento. O Poder Judiciário está repleto de militantes a serviço de seus patronos. O cidadão comum presta-se à venda de seu voto ou quer distância do processo eleitoral. Assim, continuaremos com uma Constituição bizarra ou apostaremos na elaboração de outra, que pode nos jogar definitivamente no abismo.
Uma país de especialistas
Tivemos que nos especializar em economia no duro aprendizado de incontáveis crises.
Agora todos entendem de inflação, câmbio, juros, e debatem os números da economia como se fossem futebol ou novela.
De política, todos entendem, têm profundas convicções, soluções para todos os problemas. As causas mais nobres.
Nelson Rodrigues reclamava que, em tempos passados, os idiotas vocacionais e as bestas quadradas tinham um certo pudor em dar opiniões, sabiam de sua estupidez e conheciam seu lugar, mas, na alvorada da era das comunicações, estavam dando opinião sobre tudo, orgulhosos da própria burrice. Imaginem Nelson na era da internet... rsrs
Um cínico nelson-rodrigueano diria que, no Brasil, os competentes raramente são honestos; e os honestos e incompetentes, com sua burrice e boas intenções, dão mais prejuízo que os ladrões.
Ninguém tem culpa de ser burro, nem qualquer mérito em ter nascido inteligente ou bonito de fábrica. Mas a burrice é perigosa, se convence de soluções fáceis para problemas complexos, se aferra às suas convicções como verdades absolutas, é impermeável a razões e argumentos, e até a números e evidências científicas.
Sim, inteligência não tem nada a ver com ignorância, e Lula é a melhor prova disso, em contraponto às manadas de burros ilustrados no meio acadêmico. Mas o que é pior: a inteligência voltada para o mal, pelo seu maior potencial de danos, ou a burrice bem-intencionada e voluntarista, pelos desastres que provoca?
“São cegos guiados por loucos rumo ao abismo”, diria o Rei Lear, se vivesse no Brasil.
Em nome de Deus...
Vamos aproveitar esse tempo que nós estamos na prefeitura para arrumar nossas igrejasMarcelo Crivella, pastor licenciado e prefeito do Rio
O Brasil onde se zomba da ética se coloca às portas da ditadura
Se instituições como a política e a Justiça são concebidas por seus responsáveis como uma confraria de interesses pessoais, à custa das pessoas, é inevitável que surja a tentação de soluções autoritárias para impor e decidir o que é bom e o que é mau, à margem do que a sociedade possa pensar.
E esse é um perigo real hoje no Brasil, onde o emblemático caso de Lula, com tudo o que arrasta de paixões e interesses e que pode condicionar o presente e o futuro do país, está revelando que o conceito de ética está desmoronando a ponto de não se saber mais onde começa a verdade e a mentira, a liberdade e a tirania.

Quando uma sociedade percebe que os principais responsáveis nacionais por lutar pelo princípio da ética – vista como o sal que impede que a democracia apodreça – são os primeiros a pisoteá-la e ajoelhá-la perante seus interesses, não há nada de estranho que ela acabe envenenada, dividida, incrédula e tentada a tomar a justiça nas suas próprias mãos. Nesse ponto, a explosão de violência é inevitável.
Quando magistrados, juízes e políticos (preciso dar nomes?) usam seu poder a favor ou contra os que consideram ser “deles”, em detrimento do princípio de que ela deve ser igual para todos; quando os que nomeiam os cargos consideram normal que os nomeados sejam gratos a esses padrinhos ou ao seu partido, mesmo que à custa de usar dois pesos e duas medidas; quando observamos esse conluio político judicial à custa da sociedade e até da Constituição, não é de estranhar que as pessoas nas ruas vejam isso como um grotesco espetáculo que não corresponde ao peso e à importância de uma sociedade como a brasileira.
Que Lula seja julgado como qualquer outro cidadão, nem com maior nem com menor rigor, já que a lei é igual para todos. Mas que a sociedade sinta de forma palpável que esse rigor da lei serve também com os outros personagens da política. Do contrário, não é de estranhar que acabe convencida de que existem réus de estimação e réus para serem perseguidos.
E quando uma sociedade se sente traída e burlada, não é difícil que caia na tentação de jogar a ética na sarjeta para fazer justiça com as próprias mãos. Pudemos ver isso nos últimos dias, depois da loucura judicial da ordem de domingo do juiz Rogério Favreto de tirar Lula da prisão, e tudo o que isso desencadeou no mundo político e judicial. Um episódio que serve para pôr sobre a mesa a irritação nacional contra as diversas instituições. O eco que isso produziu entre cidadãos de ambos os lados do espectro político foi significativo e aterrador. Por parte da esquerda, os tuítes violentos lançados à sombra do anonimato das redes, como os que diziam: “Eu queria libertar Lula com as minhas mãos, e com as mesmas matar Moro”, ou “Gente, é preciso mandar matar o Moro”. E pela direita, a divulgação do celular do juiz Favreto, que também culminaram em ameaças de morte a ele e à sua família, e até o tuíte do general Paulo Chagas, que, com a cara descoberta, incita à violência contra o juiz que mandou soltar a Lula: “Gauchada!!! O nome dele é Rogerio Favreto. É um desembargador petralha, está de plantão no TRF.4. Será fácil encontrá-lo para manifestar-lhe, com a veemência cabível, a nossa opinião sobre ele e a sua irresponsabilidade. Ele é mais um apaixonado pelo ladrão maior. Conversem com ele”.
Alguém poderá estranhar que a sociedade se sinta em guerra? Dividida em lados, como quem a governa, quando vê que aqueles em quem deveria confiar para que a deusa da justiça não seja estuprada a colocam aos pés de seus piores interesses?
Até nas guerras, nos campos de batalha, existem entre inimigos certas regras e pausas em que os soldados enfrentados param para conversar e até se confraternizar. Na guerra do Brasil, não parece haver nem momentos de pausa para refletir. Existirá alguém com autoridade e moralidade capaz de erguer a bandeira branca da paz, ou os políticos continuarão aproveitando o descontrole que criaram para continuar pescando nas águas revoltas?
Quando na Espanha, há mais de 40 anos, faleceu o ditador militar Franco, o país, ferido com mais de um milhão de mortos vítimas da guerra civil, estava partido em dois. O então futuro rei Juan Carlos, perante o cadáver do ditador, prometeu: “Serei o rei de todos os espanhóis”. Ali começou a difícil e ainda inacabada reconciliação nacional.
Quando em um país perde-se a medida para distinguir o bem do mal, onde a Justiça pode ter muitas caras e a ética aparece doente e desprezada, a democracia corre perigo de morte e abrem-se as portas dos fantasmas autoritários.
Uma história de 15 anos (ou "Os Demônios")
Lula foi eleito em 2002. Na posse, disse que “não tinha o direito de errar”. O resto é história. Mas recuemos um pouco. Nossa história há de começar por um crime: em 18 de janeiro de 2002 o então prefeito de Santo André foi sequestrado enquanto jantava em companhia de Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, e assassinado. Celso Daniel era coordenador de campanha de Lula. Oito pessoas ligadas à cena do crime foram assassinadas – desde o garçom que o atendeu até o agente funerário que reconheceu o corpo. Sigamos.
A viúva de Celso Daniel, Miriam Belchior, seria figura importante nos governos Lula e Dilma: foi assessora especial do presidente da República, subchefe de Articulação e Monitoramento da Casa Civil da Presidência da República, ocupou a secretaria executiva do tal Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – substituindo a então ministra Dilma Rousseff, a gerentona –, até que, em 2011, chegou ao topo da carreira: foi ministra do Planejamento, Orçamento e Gestão, e em 2015 assumiu a presidência da Caixa Econômica Federal, de onde só saiu com o impeachment.
Se um fato simboliza o PT, e se alguém simboliza o petismo, estes são o assassinato de Celso Daniel e a carreira de Miriam Belchior no governo e na burocracia. Mas sigamos.
Algo não estava previsto: em 2005, Roberto Jefferson denunciou o mensalão. Mas Lula foi poupado. Foi poupado por Marcos Valério, foi poupado por seus companheiros de partido, foi poupado pela Procuradoria-Geral da República, que não o denunciou, foi poupado pela imprensa e, principalmente, foi poupado por Fernando Henrique Cardoso e sua tese de que era preciso “deixá-lo sangrar”. O resultado: em 2006 Lula foi reeleito.
O STF só viria a julgar o mensalão em 2012. Os políticos em geral ou foram absolvidos, ou receberam as penas mais brandas; os empresários pegaram cana dura. Delúbio Soares tinha razão: o brasileiro tem memória curta e uma hora tudo iria virar piada de salão. José Dirceu, por exemplo, recebeu um perdão judicial. O próprio Delúbio, vejam só, também recebeu perdão judicial. Marcos Valério segue preso.
O método de governar do PT era sair comprando. Com dinheiro compravam-se os deputados. Era com dinheiro também que o PT iria comprar os grandes empresários. E aí entravam o BNDES, a Petrobras e a pletora de estatais. Era a época em que ouvíamos falar das “campeãs nacionais”, das empreiteiras e dos estádios para a Copa, das desonerações tributárias para a linha branca. A imprensa? Ora, compra-se também, com anúncios. Os pobres? Compra-se com Bolsa Família, com fogão novo, com bolsa em faculdade que não ensina. Os sindicatos, a academia e a igreja, estes já estavam comprados desde sempre.
Os artistas eram financiados gordamente com Lei Rouanet, e no palco homens nus andando em círculo enfiavam o dedo no ânus uns dos outros, com dinheiro público. Nas galerias de arte, com apoio dos grandes bancos, Nossa Senhora segurava um macaco, hóstias eram vilipendiadas. Artistas-militantes-comediantes, soi-disantes politizados, em eventos-comícios gritavam “fim da PM, se não acabou, tem de acabar”. O auge de toda esta loucura foi um programa Roda Viva, em 5 de agosto de 2013, em que Bruno Torturra, do Mídia Ninja, e Pablo Capilé, do Fora do Eixo, deram explicações muito sérias e compenetradas sobre como funcionava o “Cubo Card”, a moeda alternativa das casas coletivas – a mídia é ninja, a casa é alternativa e coletiva, mas no entanto recebe financiamento de George Soros, em dólar de verdade.
As ideias mais extravagantes eram acolhidas com entusiasmo. Um vento de alegria e loucura soprava sobre o país.
Sem oposição política, com a simpatia da imprensa e da classe artística, e com apoio do PIB e dos movimentos sociais, o PT sentia-se à vontade para esmagar a classe média e os seus opositores. Uma constatação feita há muitos anos pelo filósofo Olavo de Carvalho se cumpria: todos os políticos tradicionais, de oposição ao PT, ou aderiram ao petismo, ou então seriam presos, ou relegados ao ostracismo, com suas biografias destruídas.
E o PT avançava desavergonhadamente. Montou a Comissão da Verdade, para punir inimigos e indenizar amigos, trouxe médicos cubanos, tentou aprovar um decreto (o 8.243/2014 que implantava sovietes e suprimia o poder do Congresso), avançou sobre a regulação da internet, sobre a regulação da publicidade; sob o manto do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), avançou a sua agenda politicamente correta à revelia do Congresso Nacional, em temas como controle social dos meios de comunicação, expansão do Bolsa Família, reforma agrária, relativização do direito à propriedade, cotas para negros e índios, legalização do aborto (inclusive com realização do procedimento pelo SUS), imposto sobre grandes fortunas, legalização da prostituição, políticas LGBT e identidade de gênero e desarmamento; emprestou mais de R$ 50 bilhões a juros subsidiados e mediante contratos secretos para governos esquerdistas como os de Venezuela, Cuba, Bolívia e Nicarágua.
Fernandinho Beira-Mar foi preso. Ele trocava fuzis por cocaína com as Farc. O PT era parceiro das Farc e de seus líderes, Raúl Reyes e Manuel Marulanda, com quem se sentava todos os anos em reuniões do Foro de São Paulo. Lula chegou a admitir que, se não fosse o Foro de São Paulo e o silêncio obsequioso da imprensa, os governos de esquerda da América Latina não teriam sido eleitos; Hugo Chávez não teria sido eleito. Na capital paulista, uma liderança do PCC dá a ordem: “No dia da eleição é pra todo mundo votar pro Genoino”.
E Lula chegou ao fim do seu segundo mandato com altíssima popularidade, capaz até de eleger um poste. Os petistas pareciam ter aprendido o segredo de como, habilmente, manobrar os espíritos. Pareciam ter entendido que, afinal, o êxito do socialismo é em grande parte devido ao sentimentalismo. Com João Santana e meia dúzia de palavras-gatilho, o PT elegeu o seu poste – Dilma Rousseff. O resto é história.
Todos se deixavam seduzir.
Após o julgamento do mensalão, os petistas perceberam que o Judiciário também não lhe ofereceria mais resistências. O Judiciário, na verdade, cooperava em seu projeto: enquanto os próceres petistas eram condenados no mensalão e gestavam o petrolão, o STF julgava demarcação de terras indígenas e quilombolas; liberava o aborto de fetos anencéfalos, o casamento gay, a Marcha da Maconha, o aborto até o terceiro mês de gestação por decisão monocrática; proibiu a prisão após condenação em segunda instância, julgou constitucionais as cotas raciais, liberou o auxílio-moradia para todos os juízes do Brasil por decisão liminar e proibiu a extradição de Cesare Batistti.
Impossível falar em STF e em PT sem lembrar de Dias Toffoli. Ele foi advogado do PT – repita-se, advogado do PT – nas campanhas de Lula em 1998, 2002 e 2006, e entre janeiro de 2003 e julho de 2005 exerceu o cargo de subchefe da área de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República, durante a gestão de José Dirceu – repita-se, era assessor de José Dirceu. Era advogado do PT. Hoje é ministro do Supremo. Nascido em 1967, Toffoli foi nomeado por Lula em 2009, aos 42 anos de idade. Poderá ficar no tribunal até completar 75 anos, ou seja, até 2042. Foi Toffoli quem deu o voto condutor, na Segunda Turma, que tirou José Dirceu da cadeia dias atrás. Não vamos nos iludir: em breve Lula também será tirado da cadeia.
E é significativo que, no STF, os ministros que hoje são identificados com a moralidade e o combate à corrupção – Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, ambos nomeados por Dilma – sejam também os esquerdistas da corte: o primeiro, ex-advogado de Cesare Batistti, autor da tese que resultou na proibição das doações de empresas para campanhas eleitorais, defensor da liberação das drogas e do aborto. O segundo, parceiro do MST e da CUT, acaba de dar um voto a favor do restabelecimento da contribuição sindical.
Em 2016 Dilma sofreu o impeachment. A dívida interna teve um aumento, só em 2016, de 12,67% saltando para R$ 2,98 trilhões. Segundo dados do Tesouro, a dívida pública mais do que dobrou entre 2006 e 2016. A inflação batia em mais de 10% ao ano. O déficit do governo federal era de R$ 154 bilhões. A retração do PIB foi de 3,8% em 2015, ano em que foram destruídas 1,5 milhão de vagas formais de empregos. O roubo à Petrobras foi de R$ 6 bilhões, segundo lançamento contábil da própria empresa. O número de assassinatos em 2016 foi de 61.619, o maior registro de mortes violentas da história do nosso país.
Os demônios vieram para roubar, matar e destruir.
E o assassinato de Celso Daniel? Nunca foi esclarecido. Em 2014 o STF deferiu o Habeas Corpus 115714, impetrado pela defesa de Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, para determinar a anulação, desde a fase de interrogatório dos réus. Ou seja, foram anulados todos os atos processuais ocorridos desde dezembro de 2003. Em 27 de setembro de 2016, Sérgio Sombra morreu em decorrência de um câncer, sem ter sido julgado.
Luiz Cezar de Araújo
A viúva de Celso Daniel, Miriam Belchior, seria figura importante nos governos Lula e Dilma: foi assessora especial do presidente da República, subchefe de Articulação e Monitoramento da Casa Civil da Presidência da República, ocupou a secretaria executiva do tal Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – substituindo a então ministra Dilma Rousseff, a gerentona –, até que, em 2011, chegou ao topo da carreira: foi ministra do Planejamento, Orçamento e Gestão, e em 2015 assumiu a presidência da Caixa Econômica Federal, de onde só saiu com o impeachment.
Se um fato simboliza o PT, e se alguém simboliza o petismo, estes são o assassinato de Celso Daniel e a carreira de Miriam Belchior no governo e na burocracia. Mas sigamos.
Algo não estava previsto: em 2005, Roberto Jefferson denunciou o mensalão. Mas Lula foi poupado. Foi poupado por Marcos Valério, foi poupado por seus companheiros de partido, foi poupado pela Procuradoria-Geral da República, que não o denunciou, foi poupado pela imprensa e, principalmente, foi poupado por Fernando Henrique Cardoso e sua tese de que era preciso “deixá-lo sangrar”. O resultado: em 2006 Lula foi reeleito.
O STF só viria a julgar o mensalão em 2012. Os políticos em geral ou foram absolvidos, ou receberam as penas mais brandas; os empresários pegaram cana dura. Delúbio Soares tinha razão: o brasileiro tem memória curta e uma hora tudo iria virar piada de salão. José Dirceu, por exemplo, recebeu um perdão judicial. O próprio Delúbio, vejam só, também recebeu perdão judicial. Marcos Valério segue preso.
O método de governar do PT era sair comprando. Com dinheiro compravam-se os deputados. Era com dinheiro também que o PT iria comprar os grandes empresários. E aí entravam o BNDES, a Petrobras e a pletora de estatais. Era a época em que ouvíamos falar das “campeãs nacionais”, das empreiteiras e dos estádios para a Copa, das desonerações tributárias para a linha branca. A imprensa? Ora, compra-se também, com anúncios. Os pobres? Compra-se com Bolsa Família, com fogão novo, com bolsa em faculdade que não ensina. Os sindicatos, a academia e a igreja, estes já estavam comprados desde sempre.
Os artistas eram financiados gordamente com Lei Rouanet, e no palco homens nus andando em círculo enfiavam o dedo no ânus uns dos outros, com dinheiro público. Nas galerias de arte, com apoio dos grandes bancos, Nossa Senhora segurava um macaco, hóstias eram vilipendiadas. Artistas-militantes-comediantes, soi-disantes politizados, em eventos-comícios gritavam “fim da PM, se não acabou, tem de acabar”. O auge de toda esta loucura foi um programa Roda Viva, em 5 de agosto de 2013, em que Bruno Torturra, do Mídia Ninja, e Pablo Capilé, do Fora do Eixo, deram explicações muito sérias e compenetradas sobre como funcionava o “Cubo Card”, a moeda alternativa das casas coletivas – a mídia é ninja, a casa é alternativa e coletiva, mas no entanto recebe financiamento de George Soros, em dólar de verdade.
As ideias mais extravagantes eram acolhidas com entusiasmo. Um vento de alegria e loucura soprava sobre o país.
Sem oposição política, com a simpatia da imprensa e da classe artística, e com apoio do PIB e dos movimentos sociais, o PT sentia-se à vontade para esmagar a classe média e os seus opositores. Uma constatação feita há muitos anos pelo filósofo Olavo de Carvalho se cumpria: todos os políticos tradicionais, de oposição ao PT, ou aderiram ao petismo, ou então seriam presos, ou relegados ao ostracismo, com suas biografias destruídas.
E o PT avançava desavergonhadamente. Montou a Comissão da Verdade, para punir inimigos e indenizar amigos, trouxe médicos cubanos, tentou aprovar um decreto (o 8.243/2014 que implantava sovietes e suprimia o poder do Congresso), avançou sobre a regulação da internet, sobre a regulação da publicidade; sob o manto do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), avançou a sua agenda politicamente correta à revelia do Congresso Nacional, em temas como controle social dos meios de comunicação, expansão do Bolsa Família, reforma agrária, relativização do direito à propriedade, cotas para negros e índios, legalização do aborto (inclusive com realização do procedimento pelo SUS), imposto sobre grandes fortunas, legalização da prostituição, políticas LGBT e identidade de gênero e desarmamento; emprestou mais de R$ 50 bilhões a juros subsidiados e mediante contratos secretos para governos esquerdistas como os de Venezuela, Cuba, Bolívia e Nicarágua.
Fernandinho Beira-Mar foi preso. Ele trocava fuzis por cocaína com as Farc. O PT era parceiro das Farc e de seus líderes, Raúl Reyes e Manuel Marulanda, com quem se sentava todos os anos em reuniões do Foro de São Paulo. Lula chegou a admitir que, se não fosse o Foro de São Paulo e o silêncio obsequioso da imprensa, os governos de esquerda da América Latina não teriam sido eleitos; Hugo Chávez não teria sido eleito. Na capital paulista, uma liderança do PCC dá a ordem: “No dia da eleição é pra todo mundo votar pro Genoino”.
E Lula chegou ao fim do seu segundo mandato com altíssima popularidade, capaz até de eleger um poste. Os petistas pareciam ter aprendido o segredo de como, habilmente, manobrar os espíritos. Pareciam ter entendido que, afinal, o êxito do socialismo é em grande parte devido ao sentimentalismo. Com João Santana e meia dúzia de palavras-gatilho, o PT elegeu o seu poste – Dilma Rousseff. O resto é história.
Todos se deixavam seduzir.
Após o julgamento do mensalão, os petistas perceberam que o Judiciário também não lhe ofereceria mais resistências. O Judiciário, na verdade, cooperava em seu projeto: enquanto os próceres petistas eram condenados no mensalão e gestavam o petrolão, o STF julgava demarcação de terras indígenas e quilombolas; liberava o aborto de fetos anencéfalos, o casamento gay, a Marcha da Maconha, o aborto até o terceiro mês de gestação por decisão monocrática; proibiu a prisão após condenação em segunda instância, julgou constitucionais as cotas raciais, liberou o auxílio-moradia para todos os juízes do Brasil por decisão liminar e proibiu a extradição de Cesare Batistti.
Impossível falar em STF e em PT sem lembrar de Dias Toffoli. Ele foi advogado do PT – repita-se, advogado do PT – nas campanhas de Lula em 1998, 2002 e 2006, e entre janeiro de 2003 e julho de 2005 exerceu o cargo de subchefe da área de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República, durante a gestão de José Dirceu – repita-se, era assessor de José Dirceu. Era advogado do PT. Hoje é ministro do Supremo. Nascido em 1967, Toffoli foi nomeado por Lula em 2009, aos 42 anos de idade. Poderá ficar no tribunal até completar 75 anos, ou seja, até 2042. Foi Toffoli quem deu o voto condutor, na Segunda Turma, que tirou José Dirceu da cadeia dias atrás. Não vamos nos iludir: em breve Lula também será tirado da cadeia.
E é significativo que, no STF, os ministros que hoje são identificados com a moralidade e o combate à corrupção – Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, ambos nomeados por Dilma – sejam também os esquerdistas da corte: o primeiro, ex-advogado de Cesare Batistti, autor da tese que resultou na proibição das doações de empresas para campanhas eleitorais, defensor da liberação das drogas e do aborto. O segundo, parceiro do MST e da CUT, acaba de dar um voto a favor do restabelecimento da contribuição sindical.
Em 2016 Dilma sofreu o impeachment. A dívida interna teve um aumento, só em 2016, de 12,67% saltando para R$ 2,98 trilhões. Segundo dados do Tesouro, a dívida pública mais do que dobrou entre 2006 e 2016. A inflação batia em mais de 10% ao ano. O déficit do governo federal era de R$ 154 bilhões. A retração do PIB foi de 3,8% em 2015, ano em que foram destruídas 1,5 milhão de vagas formais de empregos. O roubo à Petrobras foi de R$ 6 bilhões, segundo lançamento contábil da própria empresa. O número de assassinatos em 2016 foi de 61.619, o maior registro de mortes violentas da história do nosso país.
Os demônios vieram para roubar, matar e destruir.
E o assassinato de Celso Daniel? Nunca foi esclarecido. Em 2014 o STF deferiu o Habeas Corpus 115714, impetrado pela defesa de Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, para determinar a anulação, desde a fase de interrogatório dos réus. Ou seja, foram anulados todos os atos processuais ocorridos desde dezembro de 2003. Em 27 de setembro de 2016, Sérgio Sombra morreu em decorrência de um câncer, sem ter sido julgado.
Luiz Cezar de Araújo
sexta-feira, 13 de julho de 2018
As razões da miséria e a morte do grilo falante
Você sabe por que o Brasil não consegue solucionar o problema da miséria? Porque, de um lado, deixamos de agir sobre os fatores que lhe dão causa, e, de outro, nos empenhamos em constranger e coibir a geração de riqueza sem a qual não há como resolvê-la. Os fanáticos da política, os profetas de megafone, os "padres de passeata", para dizer como Nelson Rodrigues (ao tempo dele não existiam as Romarias da Terra), escrutinando os fatos com as lentes do marxismo, proclamam que os pobres no Brasil têm pai e mãe conhecidos: o capitalismo e a ganância dos empresários. Em outras palavras, a pobreza nacional seria causada justamente por aqueles que criam riqueza e postos de trabalho em atividades desenvolvidas sob as regras do mercado.
Estranho, muito estranho. Eu sempre pensei que as causas da pobreza fossem determinadas por um modelo institucional todo errado (em 2017, o 109º pior entre 137 países, segundo o World Economic Forum (WEF). Pelo jeito, enganava-me de novo quando incluía entre as causas da pobreza uma Educação que prepara semianalfabetos e nos coloca em 59º lugar no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), entre 70 países. Sempre pensei que havia relação entre pobreza e atraso tecnológico e que nosso país não iria longe enquanto ocupasse o 55º lugar nesse ranking (WEF, 2017). Na minha santa ignorância, acreditava que a pobreza que vemos fosse causada, também, por décadas de desequilíbrio fiscal, gastos públicos descontrolados tomados pela própria máquina e inflação. Cheguei a atribuir responsabilidades pela existência de tantos miseráveis à concentração de 40% do PIB nas perdulárias mãos do setor público (veja só as tolices que me ocorrem!). E acrescento aqui, se não entre parêntesis, ao menos à boca pequena, que via grandes culpas, também, nessas prestidigitações que colocam nosso país em 96º lugar entre os 180 do ranking de percepção da corrupção segundo a Transparência Internacional.
Contemplando, com a minha incorrigível cegueira, os miseráveis aglomerados humanos deslizantes nas encostas dos morros, imputava tais tragédias à negligência política. Não via como obrigatório o abandono sanitário e habitacional dos ambientes urbanos mais pobres. Aliás, ocupamos a 112ª posição no ranking, entre 200 países, no acesso a saneamento básico. Pelo viés oposto, quando vou a Brasília, vejo, nos palácios ali construídos com dinheiro do orçamento da União, luxos e esplendores de uma corte dos Bourbons.
Mas os profetas do megafone juram que estou errado. A culpa pela pobreza, garantem, tampouco é do patrimonialismo, do populismo, dos corporativismos, do culto ao estatismo, dos múltiplos desestímulos ao emprego formal. Não é sequer de um país que, ocupando a 10ª posição entre os países mais desiguais do mundo, teve a pachorra de gastar, sob aplauso nacional, cerca de R$ 70 bilhões para exibir ao mundo sua irresponsabilidade na Copa de 2014 e nos Jogos Olímpicos de 2016. No entanto, os Pinóquios da política, das salas de aula, da mídia e dos púlpitos a serviço da ideologia, fanáticos da irrazão, asseguram-nos que existem pobres por causa da economia de empresa e dos empreendedores.
Um dos fenômenos brasileiros deste início de século é o silêncio das consciências ante toda falsidade. É a morte do grilo falante.
Estranho, muito estranho. Eu sempre pensei que as causas da pobreza fossem determinadas por um modelo institucional todo errado (em 2017, o 109º pior entre 137 países, segundo o World Economic Forum (WEF). Pelo jeito, enganava-me de novo quando incluía entre as causas da pobreza uma Educação que prepara semianalfabetos e nos coloca em 59º lugar no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), entre 70 países. Sempre pensei que havia relação entre pobreza e atraso tecnológico e que nosso país não iria longe enquanto ocupasse o 55º lugar nesse ranking (WEF, 2017). Na minha santa ignorância, acreditava que a pobreza que vemos fosse causada, também, por décadas de desequilíbrio fiscal, gastos públicos descontrolados tomados pela própria máquina e inflação. Cheguei a atribuir responsabilidades pela existência de tantos miseráveis à concentração de 40% do PIB nas perdulárias mãos do setor público (veja só as tolices que me ocorrem!). E acrescento aqui, se não entre parêntesis, ao menos à boca pequena, que via grandes culpas, também, nessas prestidigitações que colocam nosso país em 96º lugar entre os 180 do ranking de percepção da corrupção segundo a Transparência Internacional.
Contemplando, com a minha incorrigível cegueira, os miseráveis aglomerados humanos deslizantes nas encostas dos morros, imputava tais tragédias à negligência política. Não via como obrigatório o abandono sanitário e habitacional dos ambientes urbanos mais pobres. Aliás, ocupamos a 112ª posição no ranking, entre 200 países, no acesso a saneamento básico. Pelo viés oposto, quando vou a Brasília, vejo, nos palácios ali construídos com dinheiro do orçamento da União, luxos e esplendores de uma corte dos Bourbons.
Mas os profetas do megafone juram que estou errado. A culpa pela pobreza, garantem, tampouco é do patrimonialismo, do populismo, dos corporativismos, do culto ao estatismo, dos múltiplos desestímulos ao emprego formal. Não é sequer de um país que, ocupando a 10ª posição entre os países mais desiguais do mundo, teve a pachorra de gastar, sob aplauso nacional, cerca de R$ 70 bilhões para exibir ao mundo sua irresponsabilidade na Copa de 2014 e nos Jogos Olímpicos de 2016. No entanto, os Pinóquios da política, das salas de aula, da mídia e dos púlpitos a serviço da ideologia, fanáticos da irrazão, asseguram-nos que existem pobres por causa da economia de empresa e dos empreendedores.
Um dos fenômenos brasileiros deste início de século é o silêncio das consciências ante toda falsidade. É a morte do grilo falante.
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