terça-feira, 3 de julho de 2018

O abismo à frente

A crise ética, a violência do cotidiano, a desagregação da família e uma economia que demanda mais tecnologia e menos mão de obra explicam muita coisa, inclusive o recrudescimento da misoginia, do preconceito, da intolerância e da radicalização política

A famosa Escola de Frankfurt, que reuniu a nata da inteligência judaico-alemã — Theodor Adorno, Max Horkheimer, Hebert Marcuse, Erich From, Friedrich Pollok, Franz Neumann e Jürgen Haberman, Walter Benjamin, entre outros — exerceu notável influência sobre o pensamento social-democrata e liberal no século passado. Surgiu para explicar o fracasso da revolução socialista (espartaquista) na Alemanha, mas acabou dedicando boa parte de sua “teoria crítica” ao estudo das razões que levaram o povo alemão a apoiar o nazismo.

O livro Grande Hotel Abismo (Companhia das Letras), do jornalista britânico Stuart Jeffries, conta a história desse grupo de jovens intelectuais judeus de famílias abastadas, que foi obrigado a fugir da Alemanha para sobreviver ao nazismo e buscou refúgio nos Estados Unidos. Curiosamente, o Instituto de Pesquisa Social nasceu sob influência soviética e foi financiado por um banqueiro alemão, numa cidade onde os judeus buscavam a plena integração e o sucesso social, tendo eleito o prefeito local em 1924. Em 1933, eram 26 mil asquenazes em Frankfurt; antes que terminasse a Segunda Guerra Mundial, 9 mil haviam sido deportados. Hoje, os mortos do Holocausto são homenageados em 11.134 cubos de metal na Wand der Namen.

Entretanto, a Escola de Frankfurt, como se tornou conhecida, logo renegou a ortodoxia marxista. Seus integrantes não concordavam com a tese de que os intelectuais devem transformar o mundo, eram céticos em relação à luta política e se colocavam acima dos partidos. Haviam abandonado a conexão entre a teoria e a prática, mas não imaginavam que muitos anos depois, após maio de 1968, intelectuais como Adorno e Marcuse seriam os gurus de estudantes radicais e da chamada nova esquerda.

Para a esquerda mais ortodoxa, o fascismo era “a ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas, mais imperialistas do capital financeiro”, uma fórmula simplificada, que permitiria aos comunistas alemães classificarem a socialdemocracia como uma força “social-fascista”, num ajuste de contas pelo fracasso da Liga Espartaquista, que tentou tomar o poder em 1919. Enquanto a esquerda se digladiava, o fascismo se expandia pela Europa, com ajuda das tropas nazistas (Itália, Alemanha, Hungria, Bulgária, Áustria, Espanha, França, Holanda, Romênia, Suíça, Polônia, Grécia e Iugoslávia), chegava ao Oriente (Japão, China e Líbano) e à América Latina (Brasil, Chile e Costa Rica).

Como explicar a adesão das massas ao fascismo? Esse debate emergiu na Escola de Frankfurt por vias completamente diferentes da abordagem tradicional. Wilhelm Reich, por exemplo, em 1933, no livro Psicologia de massas do fascismo, atribuiu sua ascensão à repressão sexual. Para ele, a família não era, como tinha sido para Hegel, uma zona autônoma que resistia ao Estado, mas a miniatura de um Estado autoritário que preparava a criança para sua ulterior subordinação. Esse debate foi retomado por Erich Fromm, o principal formulador do grupo na área de psicanálise, para quem o sadismo era a outra face da moeda do masoquismo, conforme a conclusão de Freud. O sadomasoquismo era caracterizado por um esforço compulsivo em busca de ordem.

Na República de Weimar, quando a Alemanha transitava para o capitalismo monopolista de Estado, o povo alemão estava impotente, esmagado pela crise econômica e espiritualmente alienado. De forma sadomasoquista, não pretendia mudar o próprio destino, preferiu se submeter à autoridade que faria isso por ele. “O desejo de estar sob uma autoridade é canalizado para um líder forte, enquanto outras figuras paternas específicas tornam-se alvo de rebelião”, escreveu Fromm. A personalidade autoritária de Hitler não somente governou a Alemanha em nome de uma autoridade maior, a superioridade racial ariana, como a tornou atraente para o povo alemão, principalmente uma insegura classe média.

Essa abordagem freudiana do fascismo tornou-se predominante na Escola de Frankfurt, mas não era única. Foi contestada por outros intelectuais, que viam o fascismo como a resultante do capitalismo de Estado e do nacionalismo, entre outras causas. Mas há que se reconhecer: ela tem o seu valor, pode ajudar a compreender certos fenômenos que não têm uma explicação aparente e nos surpreendem pelo mundo afora. Não é à toa que a chamada “teoria crítica” da Escola de Frankfurt desperta um novo interesse. A crise das democracias e a estagnação econômica no Ocidente contrastam com a modernização e emergência de regimes autoritários no Oriente.

No Brasil, por exemplo, o buraco negro do chamado centro democrático não tem a ver apenas com a crise ética de nossa elite política; a violência do cotidiano, a desagregação da família unicelular-patriarcal e uma economia que, demandando mais tecnologia e menos mão de obra, explicam muita coisa, inclusive o recrudescimento da misoginia, do preconceito de gênero e racial, da intolerância religiosa e da radicalização ideológica no debate eleitoral. “O indivíduo assustado busca alguém ou algo a que possa atrelar o seu ‘eu’”, diria Fromm. Ou seja, à incapacidade de mudar o seu próprio destino, o cidadão comum desesperançado procura alguém que supostamente possa fazê-lo na marra.

Lula no mata-mata

Com a chegada do recesso do Judiciário, bateu o desespero no ex-presidente Lula e nos seus advogados, que saíram em desabalada carreira para entupir o Supremo de recursos, tentando atropelar o plenário e até o sorteio eletrônico (!) para escolher não só a turma, mas o próprio relator desses recursos. Esse serve, esse não serve... Uma audácia incrível, no vale tudo para Lula trocar a prisão em Curitiba pela campanha à Presidência.

Nessa corrida, com chute, cotovelada e empurrão, os advogados Sepúlveda Pertence e Cristiano Zanin disputam homem a homem quem apresenta seus recursos primeiro e, no fundo, quem cai mais nas graças do cliente famoso. Sepúlveda tem mais credenciais, como ex-presidente e grande referência no Supremo. Zanin, bastante esforçado, foi escolhido por ser genro de um dos maiores benfeitores de Lula, Roberto Teixeira.


Assim, Pertence, mais experiente, mais pé no chão, trabalha com a prisão domiciliar de Lula como lance na negociação com o Supremo. Mas o próprio Lula, a cúpula do PT e Zanin aderiram ao tudo ou nada, têm uma posição menos jurídica e mais política e não admitem um milímetro a menos do que a anulação da condenação do juiz Sérgio Moro e do TRF-4, com a conversão do réu em vítima. Por isso, a defesa acabou apresentando dois recursos conflitantes.

O primeiro foi para anular a condenação e todos os seus efeitos: a prisão e a inelegibilidade. O segundo, num evidente recuo, para anular apenas a prisão e deixar a questão da inelegibilidade para lá. Por que? Porque o PT pretende registrar a candidatura Lula até 15 de agosto e a partir daí guerrear contra a impugnação na Justiça Eleitoral, mas, se o STF confirmar a inelegibilidade antes, nada feito, a guerra já estará perdida. O STF tem sempre a última palavra.

Enquanto rola solto o confronto de egos e estratégias entre os advogados de Lula, mais o Supremo vai se organizando em três grupos. O dos que gritam pelo fim da prisão em segunda instância e, até lá, soltam todo mundo e abrem caminho para soltar Lula também. O dos que não soltam ninguém, não admitem votar pela quarta vez a prisão em segunda instância e não parecem dispostos a salvar Lula. E um terceiro que serve de pêndulo.

Assim, foram eleitos os “amigos” de Lula, os “inimigos” e as “incógnitas”. Entre os amigos, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello. Entre os inimigos, Cármen Lúcia – que vai chegando ao fim de sua presidência sem por em pauta a revisão da prisão após a segunda instância – e Edson Fachin, o “petista roxo” que bate de frente o tempo todo com os lulistas (desde sempre ou de ocasião) na Segunda Turma. Entre as incógnitas, Celso de Melo e Rosa Weber, que guardam seus votos para... a hora do voto.

E, assim, chegamos a julho com Cármen Lúcia no olho do furacão. Ela distribuiu a pauta de agosto sem os recursos de Lula, mas assume poderes monocráticos durante o recesso e pode decidir a qualquer momento levar esses recursos ao plenário na primeira quinzena de agosto. Uma responsabilidade monumental, porque impacta a Lava Jato, a autoestima do brasileiro, a percepção internacional sobre o combate à corrupção no Brasil, a eleição presidencial e, sem exagero, o rumo da história.

O Brasil está parado, com a respiração suspensa, não só pela disputa do hexa na Rússia, mas também pela indefinição de uma eleição que praticamente congelou. O líder nas pesquisas é uma ficção, o segundo é um perigo, os demais não vão nem para a frente nem para trás. Passada a Copa e decidido finalmente o destino de Lula (e, com ele, o da Lava Jato e da Ficha Limpa...), os advogados vão parar de correr e a eleição vai enfim andar. Na verdade, enfim começar.

O preço da inconsequência

O tempo está passando rápido, para especial alegria daqueles que contam com a boa vontade e a inércia do Judiciário. E, para ajudar, o STF entrou em férias por 30 dias, mantendo de plantão apenas sua presidente, Cármen Lúcia, reservada para tomar eventuais decisões que não puderem esperar pela volta dos companheiros da Corte, com seus assessores, capinhas, seguranças, motoristas e empurradores de poltronas. Levando-se em conta que cada ministro do STF tem a seu serviço 220 funcionários, 2.200 estão unicamente ocupados com o nada. Melhor assim. Glória a Deus!

Absurdo esse sentimento, mas é notável como se respira com certo alívio quando em Brasília as instituições se acham operando a meia-boca, independentemente do poder a que estejam vinculadas e das responsabilidades que a Constituição formalmente lhes reserva.

Um exemplo disso foi a decisão, ao apagar das luzes, do ministro Ricardo Lewandowski, aquele que desastradamente presidiu no Senado o impeachment de Dilma Rousseff, deixando-a habilitada para, depois de tanta burrice, lambança e corrupção, ainda poder disputar cargos eletivos, com a ameaça de que possa vir a ser, segundo fontes bem-informadas, candidata ao Senado por nossa já tão sofrida Minas Gerais. “Só Deus na causa”, para iluminar a nós, mineiros, e nos livrar desse agravo.

Voltando a Lewandowski, nosso ministro do STF decidiu suspender, em medida liminar, o leilão com o qual se sonhava para privatizar a Ceal (Companhia Energética de Alagoas), um cadáver em forma de concessionária de energia elétrica, totalmente falida e posta à venda por um lance inicial de R$ 50 mil (quase o preço de um carro popular com alguns opcionais). Isso para que os alagoanos – já punidos por terem tido, na produção de seus fracassos, o concurso de nomes como Fernando Collor, Renan Calheiros pai e filho, os Liras, atores de toda sorte de tragédias sempre em profusão – pudessem tirar de suas costas encargos gerados dentro de uma empresa estatal por políticos escolhidos a dedo. Estes foram naturalmente selecionados pela incapacidade de cada um deles e conseguiram produzir um quadro desastroso, cujos números expressam um endividamento de R$ 1,98 bilhão, com prejuízos de R$ 920 milhões, acumulados nos últimos cinco anos.

Trata-se de um quadro de total inviabilidade econômica e financeira e sem créditos, a não ser se forem tomados em bancos públicos, para não serem pagos. Esse bonde chamado Ceal, assim não enxergado pelo ministro Lewandowski e por seus assessores, já não poderá ser leiloado, porque há um questionamento do Estado de Alagoas sobre um passivo que tal concessionária deve aos cofres do governo. Suspensa essa privatização, duas situações são certas. Primeiro, nós, contribuintes brasileiros, continuaremos a pagar, em impostos sempre majorados pelas necessidades do Tesouro, o preço da histórica má gestão que o Estado brasileiro sempre representou. E, ainda, esses cadáveres insepultos, chamados de “empresas estatais”, continuarão dentro de armários à espera de abrigar políticos malsucedidos em eleições ou outra classe de apaniguados, destacados para praticar, com raras exceções, os mais degradantes desmandos, todos de custoso sustento, verdadeiros sorvedouros de recursos que deveriam ser destinados pelo poder público à promoção e ao avanço da sociedade. Enquanto houver tais posturas, resta-nos pagar a conta.

Gente fora do mapa

Estação de trem do aeroporto de Dhaka, na Índia (Tanveer Hassan Rohan), prêmio National Geographic  de 2018 

O gosto amargo dessa eleição

Os avanços e retrocessos das nações geralmente decorrem dos seus modelos de desenvolvimento. Em países democráticos, os programas de governo são necessariamente submetidos ao crivo de parlamentares eleitos pelo conjunto da sociedade. Nos regimes totalitários, onde o comando da nação resulta de golpes de Estado ou de estratagemas para perpetuar no poder determinados grupos políticos, as decisões são tomadas de cima para baixo sem anuência da população.

Achei oportuno trazer à tona essa dualidade por estarmos vivendo um momento político extremamente delicado. A proximidade das eleições trouxe um sabor amargo ao colocar diante de nós posicionamentos ideológicos fortemente antagônicos. Não obstante o fato de não concordar com os discursos de certos candidatos, defendo o direito de manifestarem as suas opiniões com absoluta liberdade.


Infelizmente temos observado comportamentos extremados de parte a parte, principalmente dos seus correligionários. Em geral, a reação ao contraditório tem se dado por meio de posturas agressivas que beiram o desequilíbrio emocional. Um candidato com esse perfil se eleito for, certamente, ao primeiro contratempo, jogará a toalha pela incapacidade de governar em sintonia com os demais poderes constituídos.

Para agravar essa apreensão vemos viúvas da ditadura destilando ódio e conclamando uma nova intervenção militar. Juntam-se a essas figuras esdrúxulas os indivíduos que gostam de se intitular “cidadãos de bem” e empunhar bandeiras preconceituosas contra quem não compartilha do seu ideário político e seus costumes ultrapassados. Felizmente, nossas instituições democráticas falam mais alto que o discurso rancoroso desses radicais da intolerância.

Também não dá para se deixar levar pela retórica de candidatos outsiders que tentam ganhar espaço demonizando a própria estrutura política da qual anseiam participar. Apoiados em postulados empresariais consagrados mercadologicamente, fazem dos seus discursos uma valorização específica da sua vivência como gestores profissionais. Esquecem, contudo, que administrar um país com a extensão e a complexidade do Brasil é muito diferente do que dirigir uma empresa privada.

Além do mais, os futuros mandatários deverão estar cientes de que terão que enfrentar os graves problemas conjunturais que afetam diretamente os nossos estados combalidos. No caso específico do Rio de Janeiro, será preciso resgatar a sua imagem de prosperidade, atualmente comprometida pela corrupção deslavada que se apoderou do governo passado. Será preciso grande sensibilidade política para que o novo governador obtenha o apoio necessário do governo federal e das administrações municipais.

Reativar a economia, atrair novas empresas nacionais e internacionais e proporcionar oportunidades diversificadas de trabalho, dependerá de grandes investimentos em infraestrutura urbana, ambiental e tecnológica. E, sobretudo, na completa reformulação das políticas de mobilidade urbana para suprir as demandas da população. Integrar os modais de transportes coletivos, privilegiando os trens e o metrô, não pode ser mais adiado.

Todavia, de nada adiantará esse esforço se não houver, de fato, uma política de segurança pública integrada que envolva solidariamente os governos federal, estadual e municipal. Não dá continuar fechando os olhos para essa violência urbana descontrolada, que ceifa vidas de inocentes, que mata policiais aleatoriamente e que incentiva a execução sumária de bandidos. Trata-se de mais uma guerra sem vencedores ou vencidos que evidencia as condições adversas que estamos vivendo.

Por serem referências da existência humana, as cidades não podem continuar sendo apreciadas unicamente por sua materialidade. O convívio pacífico nos espaços públicos constitui o principal instrumento para valorizar a ambiência urbana e desenvolver uma sociabilidade coletiva harmoniosa.

Entendo que o resgate da urbanidade perdida seja uma questão de honra para os que decidiram continuar morando no Brasil e uma questão de sobrevivência para quem vive entre os limites da pobreza e da miséria. Quando se sabe mais claramente o que se quer, sem dúvida, fica mais fácil fazer suas escolhas.

Futuro só virtual

O Brasil ainda corre o risco de ficar obsoleto antes de ficar pronto
Claude Lévi-Strauss (1908 - 2009)

Lamentamos informar que o próximo governo não conseguirá salvar o país

Quando compôs a trilha sonora do documentário “Jango”, dirigido por Silvio Tendler com roteiro de Cláudio Bojunga, o pianista Wagner Tiso mostrou a música-tema ao seu amigo e parceiro Milton Nascimento, que ficou tão encantado que resolveu escrever uma letra para a belíssima canção. Nascia, assim, uma obra extraordinária que passou a se chamar “Coração de Estudante” e acabou virando slogan do movimento das diretas já.

A letra de Milton é belíssima e verdadeira, especialmente na parte em que se refere a “renova-se a esperança”. Em toda eleição presidencial é sempre assim. Não importa o valor dos candidatos, seus objetivos e qualificações, há sempre uma esperança de que as coisas possam melhorar.

Esse sentimento é tão forte que ocorreu até no regime militar, quando não havia eleições. Sempre que mudava o general-presidente, surgia a esperança de dias melhores. Aconteceu com mais intensidade quando houve eleições internas nas Forças Armadas, com cerca de 240 oficiais-generais escolhendo o candidato preferido para suceder Costa e Silva (ou a “troika” que assumira no lugar dele).

O general nacionalista Afonso Albuquerque Lima, que se demitira do Ministério do Interior e abrira dissidência, foi o vencedor desta eleição do oficialato, mas não levou, porque era general de três estrelas. Se ele tivesse sido o presidente, o Brasil hoje seria outro.

Repetiu-se, assim, o que ocorrera em 1945. Naquela época, se Vargas tivesse lançado Oswaldo Aranha, ao invés do general Eurico Dutra, o Brasil também teria sido outro.

Agora, mais uma vez, renova-se a esperança. As pessoas se animam com as candidaturas, acham que as coisas podem melhorar. Mas talvez isso não seja possível. O mal que Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e Dilma Rousseff fizeram ao país foi tão profundo que será muito difícil consertar a médio prazo, não importa quem vença a eleição.

É triste lembrar que após o governo renovador de Itamar Franco, o Brasil tinha tudo para deslanchar, mas aconteceu o contrário – os Três Patetas (FHC, Lula e Dilma) deixaram a dívida pública se multiplicar desmesuradamente e o país se tornou refém dos “investidores”, que deveriam ser chamados de “exploradores” ou “aproveitadores”.

Cada um a seu jeito, os Três Patetas incharam a máquina pública e permitiram que Estados e municípios fizessem o mesmo, tudo sem base sólida, à custa de endividamento.

Hoje, os brasileiros trabalham para rolar (não é pagar…) a dívida interna e sustentar a máquina pública e sua orgulhosa nomenklatura, beneficiada por penduricalhos e mordomias de toda sorte. Não há investimento, apenas custeio. O único setor que cresce é a agricultura, porque não depende diretamente do governo, que só faz atrapalhar.

É um país endividado, mas que teve dinheiro para construir em Cuba um dos mais modernos portos do mundo e que financiou obras em muitos outros países, todas elas sem a menor garantia de pagamento, e o ex-presidente do BNDES, Luciano Coutinho, continua solto, nem processado está.

Além disso, um país que não tem mais plano de carreira no serviço público, em muitas funções o concursado já entra recebendo o teto da função, embora nada – nada, mesmo – funcione adequadamente na máquina estatal.

Anestesia geral

Ouvimos, lemos, sabemos ou somos diretamente atingidos, diariamente, por toda sorte de acintes, assaques, misérias, decretos e decisões que visivelmente nos prejudicam – a todos. Leis lidas a bel prazer. Bancos, seguradoras, poderosos limpam os pés nas nossas costas. Vemos gente pela qual temos apreço ou mesmo mal conhecemos, sofrendo ou caindo, miseráveis, seja nos postos de saúde ou nas calçadas, mortas pela violência desmedida e sem fim. Assistimos impassíveis a embates públicos nojentos e é como se nada daquilo nos dissesse respeito, estivesse ocorrendo em outro planeta.

Doenças terríveis que já haviam sido erradicadas – sarampo, raiva, poliomielite! – voltam céleres. Matam. E há quem tenha – para isso, sim – energia e coragem de negar as vacinas; pior, criminosamente tentam ainda argumentar contra elas do alto de suas ignorâncias, e acabam conseguindo, atingem uma importante parcela da população, aquela que a cada dia mais não sabe onde está parada. Apenas está parada esperando o futuro do país do futuro que não chega nunca.

Faltam pouco mais de três meses para a eleição de um novo presidente da República, repito, presidente. Isso, além dos cargos de governadores e deputados que serão regentes dessa desafinada orquestra a partir do primeiro dia do ano que vem. E é como se nada da crise braba que estamos vivendo, das terríveis descobertas de corrupção, roubos, extorsões, pilhagens e pilantragens em geral fizessem real diferença fora dos vídeos feitos com celular deitado. Depoimentos que mostram, sim, um Brasil real, pobre, largado, cheio de recônditos de nomes estranhos, de pessoas e cidades, e onde se fala uma língua que portuguesa não é, com seus esses e plurais esquecidos tanto quanto eles próprios.

O primeiro colocado nas pesquisas eleitorais, feitas com esses nominados aí que pretendem por a mão na direção, aparece; e é um preso com várias condenações e que de lá onde está trancafiado ainda posa de mártir e redentor, perseguido, um Messias. O segundo colocado é um ser abominável, incapaz de nada a não ser de bravatas, que até parecem soar reais nesse verdadeiramente desesperador momento: é como se ele pudesse bater, balear, fuzilar todos os problemas. Nas intenções de voto, vêm seguidos de outros: um amorfo, uma amorfa, um destrambelhado e outros pequenos seres prontos a negociar suas cadeirinhas nos estúdios de tevê por algum cargo. Estão ali no meio do campo, meio transparentes, correndo como os bobinhos, esperando quem sabe qual será a jogada.

O resultado mais plausível nesse instante é que saiam vitoriosos os votos nulos, brancos e abstenções. Afinal, em quem votar nessa seara, nesse deserto de ideias e propostas reais? Mais: como levarmos esses seis meses que temos adiante com um presidente que só consegue cair cada vez mais em desgraça e impopularidade? Que anda com cascas de banana nos bolsos e que vai jogando a cada passo que dá, escorregando?

A apatia é tanta que alcançou o que jamais imaginaríamos possível, as demonstrações populares. O futebol. Ah, que bom, tem Copa do Mundo. Ponto. Ah, que bom, o Brasil ainda está classificado. Gol. Depois do silêncio e da tensão que acompanham as sofridas partidas – como todas têm sido – gritos rápidos nas janelas, uma bombinha aqui; outra ali. Pronto. Ah, acabou o jogo e o Brasil ganhou. Não se ouve mais nada, a não ser a vida tentando voltar ao seu normal. Até o ufanismo das bandeirinhas espalhadas para decorar os espaços pouco tremulam.

O tempo está passando e não conseguimos mover o pé para fora dessa areia movediça que nos imobiliza.

Belisquem-se. Alguém, por favor, ligue o alarme. Bote água para ferver. Dê um antídoto para a população acordar e ver o que ainda podemos fazer; mas de verdade, não pelas redes sociais que parecem ser o que nos anestesia!

Eu só queria muito poder desejar um feliz segundo semestre. Percebeu que o ano já chegou à sua metade?

Marli Gonçalves

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Gente fora do mapa

Azli Jamil 

O barro é esse

A situação do STF é irremediável. Em parte, por culpa própria: não faz o que deve – como decidir, finalmente, sobre o pagamento de auxílio-moradia para juízes e procuradores, que são hoje “a” corporação mandando no Brasil. Ou julgar, finalmente, se é mandatório encarcerar depois de condenação em segunda instância. Em parte, a situação é irremediável por ser o STF um espelho fiel do emaranhado impasse da crise política, cuja maior expressão de gravidade é a impossibilidade de se vislumbrar uma saída.


O STF virou o grande templo da insegurança jurídica por ter se transformado há bastante tempo numa esfera de embate político, que permite até vislumbrar “facções” em torno de um eixo de contencioso. O eixo é a ordem jurídica dentro da qual se dá a Lava Jato, entendida aqui como um fenômeno de enorme abrangência e apenas em segundo plano como uma questão de respeito ou não a normas legais (drama traduzido no bordão que se tornou tão popular: “juiz bom prende, juiz mau solta”).

Como instituição, conseguiu manobrar-se na pior posição possível: a de que a Justiça tarda e falha, que poderosos ali encontram confortável acolhida, e que corruptos são beneficiados por liminares e o volta-atrás em entendimentos (como a prisão após a segunda instância) que pareciam já consagrados. Não estou dizendo que os fatos do ponto de vista técnico necessariamente suportam essa percepção, mas ela se consagrou.

Estou sendo condescendente e retirando na avaliação da atuação do STF as lealdades políticas dos ministros, as preferências pessoais, as vaidades, a falta de preparo técnico e a ausência de escrúpulos por parte de alguns. Se o prezado leitor acha que é isto que explica as decisões ou não decisões do STF, adianto que mesmo crápulas contumazes são parte voluntária ou involuntariamente de um jogo político, no qual vou me concentrar.

A narrativa que impera hoje na sociedade brasileira é a de que a corrupção é o problema central, e que tudo o mais se resolve a partir do combate aos corruptos. Cujo completo domínio da esfera do sistema político-partidário – ao mesmo tempo resultado e causa da atuação dos políticos – justifica a sua destruição. E encarregada dessa destruição, com feroz apoio popular, é “a” corporação.

Incapaz de definir o jogo, ou de deslocá-lo para um outro eixo de debate, a instância política foi substituída, para efeito de grandes decisões, pela política no STF (que cuida hoje até de tabela de frete). Composto por donos e donas de cargo vitalício que, mesmo se fossem 11 santos iluminados, por definição jamais conseguiriam dar as respostas que sociedades organizadas em sistemas democráticos precisam que venham do sistema que, no Brasil, imensa maioria combinou odiar: o sistema político.

Ocorre que “o barro é esse”, expressão atribuída a Teotônio Vilela, nome de Alagoas que virou referência no processo político de redemocratização na saída do regime militar – época na qual o Brasil, num espelho distante dos tempos atuais, também queria se rearrumar. O material para fazer/refazer/renascer o País é composto pelos políticos e seus eleitores que estão aí, ou que querem entrar na política, pelo Congresso que existe, e que pode ser renovado/reciclado, e pelos partidos e movimentos políticos que podem ser fundados ou refeitos.

Essa é a diferença fundamental entre o jogo da política e a política na qual está envolvida “a” corporação que manda hoje no Brasil. Apesar do descrédito com que se encara a política no Brasil, ela é por definição reciclável. O Judiciário e o Ministério Público não são, nem existem para substituir a política, que não se verifica em termos ideais em parte alguma do planeta.

Podemos não gostar, mas o barro é esse.

Máfia de toga

Garantismo à brasileira é uma mistura de compadrio com omertà
Ministro do STF, Luís Roberto Barroso:

Entenda por que Gilmar Mendes exibe esse estranho comportamento bipolar

Com o Supremo Tribunal Federal em recesso, o país pode respirar mais aliviado, sem a expectativa do sobressalto de nova série de libertações de criminosos notórios ou de concessões de habeas corpus que nem tenham sido solicitados, como aconteceu no caso do ex-ministro José Dirceu, presenteado por um de seus melhores amigos, o ministro Dias Toffoli, que foi advogado do PT e depois ocupou a chefia do setor jurídico da Casa Civil, quando Dirceu era uma espécie de primeiro-ministro do governo Lula da Silva.

Até 31 de julho, experimentaremos um pouco da ansiada segurança institucional, as coisas podem fluir melhor para todos os brasileiros de bem, porque o recesso impede que o Supremo continue a voltar a ser Supremo, na visão distorcida e sinistra do ministro Gilmar Mendes.

Sob o ponto de vista psicológico, nem mesmo Freud seria capaz de explicar o estranho comportamento de Gilmar Mendes, que às vezes vota de um jeito, em outras vezes vota de outro.

Não há explicação analítica para essa postura bipolar, mas as coisas ficam mais claras quando se pesquisa qual são os verdadeiros objetivos do surpreendente ministro. Na verdade, ele não pretende implantar o caos nem a insegurança jurídica.

Gilmar Mendes pretende apenas abrir caminho para garantir a impunidade de seu amigo Michel Temer, que, em condições normais de temperatura e pressão, não tem a menor condição de escapar da cadeia. Ao mesmo templo, o ministro busca preservar também seus correligionários do PSDB, que estão sob a mesma ameaça de Temer, como os senadores Aécio Neves, José Serra e Aloysio Nunes.

Enquanto a Lava Jato prendia parlamentares do PT, do PP e outros partidos, Gilmar Mendes defendia a prisão após segunda instância. Somente quando os ventos mudaram e os tucanos e peemedebistas caíram na rede é que o ministro do Supremo mudou de idéia.

Diante desse fato concreto, Freud, Lacan, Jung e Pinel nem precisam analisar nada. O comportamento bipolar de Gilmar Mendes está explicando. Todos os seus atos visam a preservar Temer, os cúmplices dele no agora MDB e os tucanos que começam a ser abatidos em vôo. Pra mantê-los em liberdade, o ministro/sinistro tem de libertar os outros, inclusive Lula, para exibir sua versão de analogia jurídica. Apenas isso.

Jogo de azar

A ANS aprovou, por vias tortas, a proposta de planos de saúde acessíveis do ex-ministro Ricardo Barros, que foi barrada pelo Congresso Nacional. A autorização do aumento de 10% para planos individuais e venda de contratos que preveem valores muito elevados de coparticipação ou franquia atendem a demandas empresariais relativas à comercialização de produtos relativamente mais baratos com restrição de coberturas. Ambas as medidas estão direcionadas pela lógica de vender mais planos e reduzir acesso. O reajuste muito acima da inflação expulsa pessoas de planos individuais, que asseguram assistência mais abrangente, e induz a migração para contratos restritos, que estabelecem maior pagamento direto pelos usuários. Mensalidades mais baixas tendem a atrair adesões de pessoas com menor renda aos planos privados. Mas, quem não pode financiar os atuais preços não conseguirá arcar com pagamentos diretos relativamente vultosos para usar serviços de saúde. Portanto, a decisão protege a expansão de mercados para empresas e dificulta a melhoria da saúde. Haverá mais contratos de planos e repressão de demanda para os serviços de saúde. O plano acessível é um esquema assistencial ilusório, na prática engrossa o fluxo de pacientes para a rede pública e litigações judiciais.

Uma simulação ajuda a entender o que irá ocorrer. Quem paga cem reais por mês e tiver que ir à emergência porque se machucou e precisa de dois pontos, e depois topou em uma pedra e apresenta fissura no dedo mindinho, poderá ter que desembolsar mais cem. Os acidentes foram inesperados, ainda assim serão objeto de cobrança adicional, se tornarão eventos tipo “perdeu, doente.” Pacientes com câncer e outras doenças crônicas, e também as gestantes, terão o tratamento limitado aos procedimentos específicos e onde for determinado pela operadora. Poderá haver cobrança na hora da consulta ou exame para uma grávida que precisar atendimento para diabetes ou apoio fisioterápico, ou nutricional, para doentes em tratamento quimioterápico. Não pagamento para quem precisar atendimento será uma exceção. Quase todos terão que botar mais dinheiro do bolso, exceto os poucos que se enquadrarem nos seguintes critérios: ter exatamente uma das poucas doenças franqueadas sem nenhuma comorbidade, dispensar suporte diagnóstico e terapêutico adicional ao tratamento mínimo e obter assistência somente nas unidades indicadas pelas operadoras. Assim, a isenção se limita ao uso de certos procedimentos em estabelecimentos escolhidos mediante critério de menor valor de remuneração, e não melhor qualidade.

A decisão de permitir, por via administrativa, a comercialização de contratos que transferem para os pacientes até 100% nos gastos contraria a lei que regulamentou os planos e seguros de saúde. A legislação foi promulgada para garantir coberturas, e a atual norma concentra-se em definir apenas o que as empresas não pagarão. Regras para a organização de informações sobre as contas individualizadas de cada cliente e emissão das informações sobre o saldo, como e por quem será cobrada a coparticipação, e especialmente as precauções para impedir a desassistência para condições clínicas graves foram negligenciadas. A promessa, “de boca", de segmentos empresariais de diminuir as prestações em cerca de 20% a 30% para “desonerar” o SUS não justifica revirar a lei de cabeça para baixo. Existem evidências cabais sobre a interdependência entre planos privados e SUS. As filas para a rede pública aumentaram durante a onda de crescimento dos planos. E a recente pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Medicina expõe a insatisfação dos entrevistados com a saúde pública (87%) e privada (94%), e sugere a importância do SUS para a maioria (88%).

Portanto, o pensamento sobre os planos acessíveis tem uma concatenação, no mínimo, questionável. Começa com uma teleologia, o SUS deve ser entendido como sistema falido, ruim, nefasto, e jamais se detém nos desafios concretos para a resolução dos problemas de saúde, sejam os mais simples ou os supercomplexos. A salvação para tudo e todos é o plano privado, seja lá o que se passe a entender por plano e por privado. Plano não é um termo que se aplique a algo que por definição impede qualquer planejamento. A maioria dos problemas de saúde é imprevisível, plano de saúde, digno do nome, é aquele que proporciona alguma tranquilidade financeira em casos de doença. Um sistema de asseguramento para riscos futuros, que prevê o pagamento em dobro durante o mês ou ano, é quase um jogo de azar. E o “privado acessível” refere-se frequentemente apenas ao receptor das mensalidades do plano, já que o local de atendimento de usuários poderá ser o mesmo que atende ao SUS. Remunerar médicos e procedimentos em unidades de saúde com dupla porta é mais barato, ainda que, durante a coabitação público-privado, os preceitos de concorrência e liberdade de escolha evaporem. Coerência e abertura para o diálogo são rarefeitas na equipe empresarial-política que obteve, no tapetão, permissão para a comercialização do plano acessível, no final de um governo que perdeu rumo e prumo. Quando o jogo é democrático, dificilmente a saúde sai derrotada.
Ligia Bahia

Brasil de hoje


Responsabilidade invertida

O Brasil vive um momento particularmente instrutivo. Sem rodeios ou meias palavras, parece ter chegado o tempo de se pôr as cartas na mesa: a fatura da inconsequência das elites políticas e econômicas será, uma vez mais, quitada pelo povo. A inversão do ônus da responsabilidade de ações que resultaram na degradação das instituições no país está em curso.


Impulsionada por essa tendência, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou a PL 580/2015, que altera a lei de execução penal para que os/as encarcerados/as passem a ressarcir o Estado pela sua manutenção no sistema prisional. Na justificativa da proposta, sinaliza-se que a transferência dos custos do cárcere para os/as presos/as abre espaço para o investimento em outras áreas estratégicas. Nas declarações de muitos senadores/as, está a preocupação de se evitar que o erário seja onerado com a manutenção das “mordomias” patentes nos presídios brasileiros.

Essa pauta está alinhada à uma agenda governamental que trabalha por meio de ações truculentas. Não nos deixa mentir a intervenção militar deflagrada no Rio de Janeiro em fevereiro desse ano. O desfile de tanques de guerra; a humilhação das revistas e o toque de recolher impostos às periferias negras da cidade foram as cenas televisionadas para se sinalizar a firmeza do golpe. Os resultados mais palpáveis desse espetáculo bélico são as pilhas de corpos desumanamente descartados, como no caso que deixou a Maré de luto pelo assassinato de Marcus Vinicius da Silva no último dia 20. Com o slogan do controle e do extermínio, cobra-se o pedágio de quem mais sofreu com as artilharias pesadas da alardeada corrupção.

Com uma previsão de cortes orçamentários e a roleta das urnas se aproximando, o discurso sustentado pela cultura punitiva ganha fôlego renovado. Nessa manobra, a pintura da prisão em cores dóceis é a faceta mais aviltante dessa retórica de perversidades.

O contra-discurso necessário a esse contexto deve ser pautado a partir das vozes que são sistematicamente abafadas, humilhadas, esquecidas. Numa dessas raras oportunidades temos acesso a essas narrativas, visibilizadas no âmbito do projeto Cartas do Cárcere, promovido pela parceria entre PNUD e a PUC-Rio. A análise de mais de 8.000 cartas encaminhadas pelos/as encarcerados/as à Ouvidoria Nacional dos Serviços Penais em 2016, nos permitem visualizar as entranhas do sistema a partir de testemunhos reais e dolorosos.

São cartas que falam de escolhas marcadas pelas armadilhas da exclusão social, da falsidade de acusações, das ameaças que tem a morte como desfecho provável. Relatos que denunciam a superlotação, pleiteiam o acesso à saúde, rogam pelo fim das torturas. Rabiscos desesperados que, na contramão do que se declara na propaganda conservadora, tem o acesso à justiça e não o reclame por frivolidades, como seu principal mote. No espaço em que sobram as iniquidades das violações, da insalubridade e do abandono, se amontam demandas pelas garantias básicas da legislação: a progressão de pena, a assistência judiciária, o proferimento da sentença definitiva.

É na escuta dessas vozes ignoradas e não nos autofalantes de carrascos engravatados que podemos encontrar saídas fora do cinismo político.

Pautado em perspectivas reacionárias, o aludido projeto determina que os/as encarcerados/as que não puderem indenizar o Estado com seu patrimônio, o façam com o suor de sua lida. Trata-se do ciclo insidioso que vulnerabiliza os indivíduos, os encarcera, para depois expropriar sua força de trabalho. O espelho com as marcas históricas da escravidão não é mera coincidência.

Afinal, só um país que renova e aprofunda os sentidos do racismo pode acolher esse tipo de proposta. Há que se lembrar que nosso sistema prisional é o resultado mais bem-acabado dos desmandos institucionais que degradaram as estruturas básicas da saúde e da educação. Nele desembocam os/as representantes da massa negra empobrecida e historicamente perseguida pelo Estado. Agora, é no boleto do cárcere que se quer creditar a sustentação das plataformas sociais que nunca estiveram à serviço desses indivíduos.

Por óbvio, é na conta dos privilégios, e não na exploração das algemas, que os recursos para a compensação do orçamento devem ser procurados. A grande dívida acumulada no país é com as pessoas socialmente marginalizadas, seletivamente encarceradas, gratuitamente exterminadas para que se forjem falsas sensações de segurança. É esse, em verdade, o grande rombo no orçamento no Brasil: o de caráter ético que tem de achar os caminhos de uma revisão política efetiva e não o aprofundamento de nossas tragédias seculares, para que possa ser finalmente liquidado.

Dois pesos...

Quem rouba pouco é ladrão; quem rouba milhões é simplesmente corrupto 

Os donos da bola

Derrotada pela França, a Argentina exige a realização de um novo jogo para tentar vencer. E, enquanto a nova partida não é marcada, se comporta como campeã da Copa.

Parece absurdo – e é. Mas tem sido esse o comportamento dos vencidos no STF quanto à possibilidade de início do cumprimento da pena de condenados em segunda instância.


Sempre que podem – em decisões monocráticas ou no voto na segunda turma, onde três dos cinco ministros perdoadores e perdedores têm assento -, eles desacatam a decisão suprema da Corte para impor seus entendimentos ou vontades. Conduta que se agudizou depois de Lula ir para a cadeia.

A prisão pós-condenação em segunda instância, que vigorou por décadas antes de ser revogada por dádiva da Constituição de 1988, foi votada e autorizada pela maioria dos ministros por duas vezes, a última delas em 2016, por 6 x 5. Placar tão apertado quanto o 4 x 3 que eliminou a Argentina.

Mas as regras do STF são mais frouxas do que as da Fifa e, pior, podem ser alteradas enquanto a bola rola.

Com a já anunciada mutação de voto de Gilmar Mendes, sabe-se que a decisão em vigor será alterada, possivelmente em setembro, quando Dias Toffoli, reprovado em exames para magistratura, assumirá a Presidência do Supremo no lugar de Cármen Lúcia.

Toffoli foi voto vencido. Mas, assim como Marco Aurélio Mello, tem agido por conta própria contra a prisão sem a exaustão dos recursos em instâncias superiores, prática que garante impunidade quase eterna aos que têm dinheiro a rodo para as bancas milionárias de causídicos.

Na semana que passou, ele lembrou os tempos de ex-advogado das campanhas de Lula, protagonizando um voto emblemático ao soltar José Dirceu por meio de um habeas corpus “de ofício”. Ato de iniciativa própria, sem que a defesa do ex-ministro reivindicasse formalmente o benefício.

Toffoli deveria estar impedido de julgar ações envolvendo qualquer um ligado ao PT. Mas, por aqui, um ministro só fica excluído quando ele se auto impõe um cartão vermelho. Imaginem se fosse assim nas pelejas do futebol.

Ainda que com argumentos para fundamentar teses pró e contra a prisão em segunda instância, os dois times plantados no Supremo não mais escondem seus antagonismos. De um lado, os que se dizem “garantistas”, mas que interpretam as leis de acordo com quem são os condenados ou investigados. De outro, os que se imaginam salvadores da pátria, que demonizam a política e que, em nome do combate à corrupção, creem ser os fazedores da justiça.

Juntos, só têm conseguido denegrir a Corte, e, assim, ampliar o descrédito popular nas instituições.

Com suas idas e vindas, pontapés e catimbas, o Supremo se tornou o principal ator da descrença na Justiça. E, sem ela, o fim do jogo é sempre catastrófico: não há civilidade e muito menos democracia
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Mary Zaidan

O peso da camisa

Nos tempos heroicos do futebol, as camisas não tinham patrocínios e as luvas de goleiro eram costuradas à mão. Hoje os jogadores mais parecem outdoors ambulantes, como os chamativos garotos-propaganda que caminhavam pelas cidades promovendo alguma pomada contra o pé de atleta.

Ainda assim, as cores de uma equipe costumam ter valor transcendental. Após a derrota contra o Uruguai em 1950, o Brasil não quis regressar ao campo com sua habitual camisa branca. Qualquer alusão ao Maracanazo traria má sorte. A então Confederação Brasileira de Desportos e o jornal Correio de Manhã organizaram um concurso em busca de um novo uniforme, que foi vencido por Aldyr Garcia Schlee. Assim surgiu a canarinha. O curioso é que Aldyr era devoto da seleção uruguaia. Como em verdadeiro ritos, a mudança de pele precisava do favor de um inimigo.

A Copa do Mundo gera a ilusão de que os protagonistas a disputam em nome de um país e não de uma companhia aérea de Cingapura. Certas camisas ostentam uma condecoração sobre o escudo no lado esquerdo do peito: uma estrela por cada Copa do Mundo. Fala-se do “peso da camisa” em alusão à investidura, quase sagrada, de quem parece triunfar só de pisar na grama. A Alemanha das quatro estrelas pertence a essa legião, mas não esteve à altura de seu uniforme. Assim como a Argentina, que suou para passar de fase e caiu diante da França.

Às vezes, o peso da camisa é literal. Para sua partida crucial contra a Inglaterra, na Copa do México, em 1986, os argentinos deveriam usar seu segundo uniforme: camisas azul marinho, de tecido grosso. Ao contrário das albicelestes, confeccionadas com minúsculos buracos que permitiam a circulação do ar, as camisas reservas absorviam o suor e a chuva, se convertendo em uma couraça insuportável. Carlos Bilardo, treinador argentino, pesava a roupa com o cuidado com que pesava bebês em seus tempos de obstetra. Decidiu que a equipe de Maradona e companhia não poderia jogar com o uniforme B. Um dia antes do jogo, comprou uniformes novos. Por sorte, encontrava-se no México, bastião da economia informal. Em 12 horas, descolou a roupa pirata. Os números foram arrancados de camisas de futebol americano. O emblema da Coq Sportif não parecia um galo, mas sim um frango. Vestidos com essa picardia de bairro, só podiam ganhar.

A habilidade mexicana para improvisar uniformes não diminuiu. Em todas as partes há postos de venda de camisas que variam de preço de acordo com os altos e baixos da seleção.

Juan Carlos Osorio, treinador da Tri, exerce um popular gênero literário: os lemas de camisa. Nos treinamentos, seus jogadores levam no peito o que devem sentir na alma: “amar o triunfo” em vez de “temer a derrota”. Quando jogaram contra a Suécia, esse leva provavelmente ficou na lavanderia. Precisa reestampá-lo na atitude de seus comandados para ter alguma chance contra o Brasil nas oitavas de final.

Um episódio desta Copa na Rússia fala da camisa como uma carteira de identidade. Quando Shin Tae-yong, técnico da Coreia do Sul, soube que seu treinamento era vigiado por espiões suecos, pediu aos seus homens que trocassem de camisetas. Para o limitado olhar ocidental, os números são mais eloquentes que as caras asiáticas.

sábado, 30 de junho de 2018

Acordar no Brasil


Responsabilidade invertida

O Brasil vive um momento particularmente instrutivo. Sem rodeios ou meias palavras, parece ter chegado o tempo de se pôr as cartas na mesa: a fatura da inconsequência das elites políticas e econômicas será, uma vez mais, quitada pelo povo. A inversão do ônus da responsabilidade de ações que resultaram na degradação das instituições no país está em curso.

Impulsionada por essa tendência, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou a PL 580/2015, que altera a lei de execução penal para que os/as encarcerados/as passem a ressarcir o Estado pela sua manutenção no sistema prisional. Na justificativa da proposta, sinaliza-se que a transferência dos custos do cárcere para os/as presos/as abre espaço para o investimento em outras áreas estratégicas. Nas declarações de muitos senadores/as, está a preocupação de se evitar que o erário seja onerado com a manutenção das “mordomias” patentes nos presídios brasileiros.


Essa pauta está alinhada à uma agenda governamental que trabalha por meio de ações truculentas. Não nos deixa mentir a intervenção militar deflagrada no Rio de Janeiroem fevereiro desse ano. O desfile de tanques de guerra; a humilhação das revistas e o toque de recolher impostos às periferias negras da cidade foram as cenas televisionadas para se sinalizar a firmeza do golpe. Os resultados mais palpáveis desse espetáculo bélico são as pilhas de corpos desumanamente descartados, como no caso que deixou a Maré de luto pelo assassinato de Marcus Vinicius da Silva no último dia 20. Com o slogan do controle e do extermínio, cobra-se o pedágio de quem mais sofreu com as artilharias pesadas da alardeada corrupção.

Com uma previsão de cortes orçamentários e a roleta das urnas se aproximando, o discurso sustentado pela cultura punitiva ganha fôlego renovado. Nessa manobra, a pintura da prisão em cores dóceis é a faceta mais aviltante dessa retórica de perversidades.

O contra-discurso necessário a esse contexto deve ser pautado a partir das vozes que são sistematicamente abafadas, humilhadas, esquecidas. Numa dessas raras oportunidades temos acesso a essas narrativas, visibilizadas no âmbito do projeto Cartas do Cárcere, promovido pela parceria entre PNUD e a PUC-Rio. A análise de mais de 8.000 cartas encaminhadas pelos/as encarcerados/as à Ouvidoria Nacional dos Serviços Penais em 2016, nos permitem visualizar as entranhas do sistema a partir de testemunhos reais e dolorosos.

São cartas que falam de escolhas marcadas pelas armadilhas da exclusão social, da falsidade de acusações, das ameaças que tem a morte como desfecho provável. Relatos que denunciam a superlotação, pleiteiam o acesso à saúde, rogam pelo fim das torturas. Rabiscos desesperados que, na contramão do que se declara na propaganda conservadora, tem o acesso à justiça e não o reclame por frivolidades, como seu principal mote. No espaço em que sobram as iniquidades das violações, da insalubridade e do abandono, se amontam demandas pelas garantias básicas da legislação: a progressão de pena, a assistência judiciária, o proferimento da sentença definitiva.

É na escuta dessas vozes ignoradas e não nos autofalantes de carrascos engravatados que podemos encontrar saídas fora do cinismo político.

Pautado em perspectivas reacionárias, o aludido projeto determina que os/as encarcerados/as que não puderem indenizar o Estado com seu patrimônio, o façam com o suor de sua lida. Trata-se do ciclo insidioso que vulnerabiliza os indivíduos, os encarcera, para depois expropriar sua força de trabalho. O espelho com as marcas históricas da escravidão não é mera coincidência.

Afinal, só um país que renova e aprofunda os sentidos do racismo pode acolher esse tipo de proposta. Há que se lembrar que nosso sistema prisional é o resultado mais bem-acabado dos desmandos institucionais que degradaram as estruturas básicas da saúde e da educação. Nele desembocam os/as representantes da massa negra empobrecida e historicamente perseguida pelo Estado. Agora, é no boleto do cárcere que se quer creditar a sustentação das plataformas sociais que nunca estiveram à serviço desses indivíduos.

Por óbvio, é na conta dos privilégios, e não na exploração das algemas, que os recursos para a compensação do orçamento devem ser procurados. A grande dívida acumulada no país é com as pessoas socialmente marginalizadas, seletivamente encarceradas, gratuitamente exterminadas para que se forjem falsas sensações de segurança. É esse, em verdade, o grande rombo no orçamento no Brasil: o de caráter ético que tem de achar os caminhos de uma revisão política efetiva e não o aprofundamento de nossas tragédias seculares, para que possa ser finalmente liquidado.