quinta-feira, 14 de junho de 2018
O eterno Galvão
Quando a Seleção entrar em campo para a sua primeira partida no Mundial da Rússia, neste domingo, um homem estará lá mais uma vez: Galvão Bueno. Como acontece em toda Copa do Mundo – há 35 anos!
Com timbre sonoro de voz, ele vai narrar a partida e gritar "Olha o gol” de vez em quando. Ele vai celebrar o seu queridinho, Neymar, o garoto-propaganda mais caro do Brasil. Mas Galvão não vai contribuir essencialmente para a compreensão do jogo.
Após o apito final, o jornalista de 67 anos ficará de pé na cabine de imprensa da TV Globo, acompanhado por dois comentaristas e um ex-jogador. Como sempre, será um evento tenso protagonizado por senhores idosos de terno, gravata e poses idênticas e cujas análises não vão muito além de "o jogo foi bom ou ruim". Dezenas de vezes, repete-se o que o público já viu. A falta de conteúdo é dissimulada com piadinhas e frases melodramáticas como "Tite nos resgatou o orgulho de ser brasileiro".
A estética da emissão lembra o fim dos anos 1980, início dos anos 1990. Como esse, de qualquer maneira, muitos programas da televisão brasileira parecem como se o mundo tivesse parado há 30 anos. O melhor exemplo ao lado de Galvão é o sexista Domingão do Faustão.
Por isso, entendo que muitos brasileiros estejam fartos desse tipo de cobertura. Querem um refresco. Um rosto novo, uma voz nova. Um (ou uma) repórter que saiba ler uma partida de futebol, que seja original e crítico/a.
Mas a esperança é inútil. Galvão Bueno é o resultado de uma concentração extrema de meios de comunicação, além de um Brasil refratário a tudo o que é novo e progressivo. É que Galvão ainda narra futebol por só uma única razão: ele não precisa temer a concorrência. Até perder um gol da Seleção não tem consequências para ele. Ele está lá porque sempre esteve.
Essa monopolização de discurso pode ser encontrada com frequência nos meios de comunicação brasileiros. São sempre as mesmas figuras conservadoras que querem explicar o mundo ao público, seja na televisão, no rádio ou nos jornais: Carlos Alberto Sardenberg, Merval Pereira, Miriam Leitão, Ricardo Boechat, Reinaldo Azevedo, Ricardo Noblat. Vozes jovens têm pouca chance. Se não houvesse a internet, deveria-se falar de uma oligarquia da informação.
A concentração de poder nas mãos de poucos também é característica da política brasileira, onde, há décadas, os mesmos senhores se refestelam nos mais diferentes postos. Alguns políticos aproveitam para abrigar a família inteira na profissão, clãs familiares e círculos de amigos dominam Estados inteiros. E, naturalmente, fazem de tudo para manter o poder. Por isso, é claro que novatos ficam desencorajados ou têm dificuldade extrema de conquistar espaço.
Quando uma figura independente consegue a proeza de conquistar uma posição de destaque na política, pode acabar como Marielle Franco, assassinada há exatos três meses e cuja morte ainda não foi esclarecida. O prognóstico não é exagerado. Dois exemplos: a jovem vereadora Talíria Petrone (Psol), de Niterói, já foi alvo de ameaças de morte: "Merece uma 9 mm na nuca."
E, na Rocinha, recentemente um policial de UPP falou em plena rua para uma amiga minha de 24 anos que luta pelos direitos de jovens negros na área: "Você é gostosa demais pra virar outra Marielle".
São exemplos extremos, mas ilustram como é impedido o progresso no Brasil. Enquanto outras sociedades promovem jovens talentos, os já privilegiados desse país se agarram a seus postos até caírem. Políticos e muitos jornalistas consagrados se acham insubstituíveis e atuam como se fossem semideuses. Por não terem concorrência, assentaram na mediocridade e ficam se repetindo dia após dia. Ideias novas e originais? Que nada.
Assim, os brasileiros terão que suportar o eterno Galvão Bueno durante mais essa Copa. É o preço que o país paga por sua meritocracia – que não estimula novos talentos nem contribui para a diversidade. Ao contrário, apenas protege um establishment que mantém o Brasil preso no seu próprio passado.
Philipp Lichterbeck
Com timbre sonoro de voz, ele vai narrar a partida e gritar "Olha o gol” de vez em quando. Ele vai celebrar o seu queridinho, Neymar, o garoto-propaganda mais caro do Brasil. Mas Galvão não vai contribuir essencialmente para a compreensão do jogo.
Após o apito final, o jornalista de 67 anos ficará de pé na cabine de imprensa da TV Globo, acompanhado por dois comentaristas e um ex-jogador. Como sempre, será um evento tenso protagonizado por senhores idosos de terno, gravata e poses idênticas e cujas análises não vão muito além de "o jogo foi bom ou ruim". Dezenas de vezes, repete-se o que o público já viu. A falta de conteúdo é dissimulada com piadinhas e frases melodramáticas como "Tite nos resgatou o orgulho de ser brasileiro".
A estética da emissão lembra o fim dos anos 1980, início dos anos 1990. Como esse, de qualquer maneira, muitos programas da televisão brasileira parecem como se o mundo tivesse parado há 30 anos. O melhor exemplo ao lado de Galvão é o sexista Domingão do Faustão.
Por isso, entendo que muitos brasileiros estejam fartos desse tipo de cobertura. Querem um refresco. Um rosto novo, uma voz nova. Um (ou uma) repórter que saiba ler uma partida de futebol, que seja original e crítico/a.
Mas a esperança é inútil. Galvão Bueno é o resultado de uma concentração extrema de meios de comunicação, além de um Brasil refratário a tudo o que é novo e progressivo. É que Galvão ainda narra futebol por só uma única razão: ele não precisa temer a concorrência. Até perder um gol da Seleção não tem consequências para ele. Ele está lá porque sempre esteve.
Essa monopolização de discurso pode ser encontrada com frequência nos meios de comunicação brasileiros. São sempre as mesmas figuras conservadoras que querem explicar o mundo ao público, seja na televisão, no rádio ou nos jornais: Carlos Alberto Sardenberg, Merval Pereira, Miriam Leitão, Ricardo Boechat, Reinaldo Azevedo, Ricardo Noblat. Vozes jovens têm pouca chance. Se não houvesse a internet, deveria-se falar de uma oligarquia da informação.
A concentração de poder nas mãos de poucos também é característica da política brasileira, onde, há décadas, os mesmos senhores se refestelam nos mais diferentes postos. Alguns políticos aproveitam para abrigar a família inteira na profissão, clãs familiares e círculos de amigos dominam Estados inteiros. E, naturalmente, fazem de tudo para manter o poder. Por isso, é claro que novatos ficam desencorajados ou têm dificuldade extrema de conquistar espaço.
Quando uma figura independente consegue a proeza de conquistar uma posição de destaque na política, pode acabar como Marielle Franco, assassinada há exatos três meses e cuja morte ainda não foi esclarecida. O prognóstico não é exagerado. Dois exemplos: a jovem vereadora Talíria Petrone (Psol), de Niterói, já foi alvo de ameaças de morte: "Merece uma 9 mm na nuca."
E, na Rocinha, recentemente um policial de UPP falou em plena rua para uma amiga minha de 24 anos que luta pelos direitos de jovens negros na área: "Você é gostosa demais pra virar outra Marielle".
São exemplos extremos, mas ilustram como é impedido o progresso no Brasil. Enquanto outras sociedades promovem jovens talentos, os já privilegiados desse país se agarram a seus postos até caírem. Políticos e muitos jornalistas consagrados se acham insubstituíveis e atuam como se fossem semideuses. Por não terem concorrência, assentaram na mediocridade e ficam se repetindo dia após dia. Ideias novas e originais? Que nada.
Assim, os brasileiros terão que suportar o eterno Galvão Bueno durante mais essa Copa. É o preço que o país paga por sua meritocracia – que não estimula novos talentos nem contribui para a diversidade. Ao contrário, apenas protege um establishment que mantém o Brasil preso no seu próprio passado.
Philipp Lichterbeck
Não culpe o eleitor
O que se pode dizer a esta altura é que a história do Brasil prova que o eleitor é muito mais cuidadoso e racional quando vota em candidato a cargo executivo. Quando decide quem vai cuidar da sua rua, da sua cidade, do seu estado ou do país, ele tende a ser mais racional e caprichoso no seu voto. Desde Collor, talvez com essa única exceção que confirma a regra, os presidentes eleitos do Brasil foram melhores do que os seus Congressos.
Não há dúvida de que Fernando Henrique Cardoso era melhor que os deputados e senadores que ocuparam as cadeiras do Congresso durante seus dois mandatos. Pode-se afirmar a mesma coisa de Lula e até de Dilma, apesar de o primeiro estar preso por corrupção e lavagem de dinheiro e a segunda ter sido afastada do cargo por crime na execução do orçamento, as famosas pedaladas fiscais.

Mas você pode dizer que esta regra para valer precisa ser comprovada nos estados e nos municípios. Se você prestar atenção, verá que ela se comprova. Mesmo no Rio. Alguém discorda de que Cabral, antes de começar a meter a mão no cofre público, era melhor que a Assembleia Legislativa, a famosa Alerj? Acho que não.
Embora cada eleição seja uma nova corrida, o que o eleitor quer em todas é ver os seus problemas resolvidos ou pelo menos encaminhados. O eleitor brasileiro sabe que a eleição presidencial de outubro é a mais importante do país desde a redemocratização. Sabe que o que está em jogo é o futuro do país, da coletividade, o seu próprio futuro. O eleitor é pragmático. Não é por outra razão que muitos deixam para decidir apenas na última hora.
Entre os pré-candidatos a presidente já lançados, há os que atendem às demandas do eleitor e outros que jamais as alcançarão. Aquele que promete colocar bandido na cadeia e acabar com a corrupção na porrada não cola. O eleitor sabe que quem prende bandido e corrupto é juiz, não presidente. Ele reconhece, de longe, quem está mentindo, quem está enrolando, quem está jogando para a plateia. E sabe também até onde um candidato pode ir. Poucos ainda caem em promessas mirabolantes.
As pesquisas feitas hoje, mesmo as sérias, não servem de balizamento para se dizer como votará o eleitor. Apesar de as necessidades do eleitor serem bastante conhecidas, para atendê-las, não basta prometer e jurar. Tem que explicar como vai fazer, quanto vai custar, de onde vai tirar o dinheiro e quem vai pagar a conta. O custo da greve dos caminhoneiros foi muito educativo neste aspecto.
Na hora de votar, o brasileiro precisa que os candidatos a presidente mostrem o que farão com a economia para que o país volte a crescer e gerar empregos; como pretendem resolver o problema da Previdência; como vão controlar os gastos públicos e onde vão fazer cortes; de que maneira tratarão os impostos altíssimos que paga; e que respostas terão para a segurança, a saúde e a educação.
O eleitor, portanto, não é o problema. Atender às suas demandas é objetivo e obrigação de quem entra na vida pública. Sobretudo dos que querem presidir o país. São muitos os candidatos, o Brasil é uma fábrica de fazer partidos e candidatos. Mas são poucas as opções do eleitor. Variando entre a esquerda e a direita, há no máximo três ou quatro alternativas de orientação política disponíveis.
A lista de candidatos é desanimadora. Nas águas turvas da extrema-direita está o PSL (Bolsonaro). No Centro, PSDB (Alckmin), Podemos (Alvaro Dias) e PMDB (Meirelles). No Centro há variações para a esquerda ou para a direita. O PT (o poste de Lula) é centro-esquerda, assim como o PDT (Ciro) e a Rede (Marina). E há inúmeros nanicos na centro-direita. À esquerda estão os pequenos de sempre, PCdoB (Manuela) e PSOL (Boulos). Além dos partidos novos, que ainda terão de mostrar a que vieram, há os irrelevantes de sempre. O novo presidente do Brasil sairá dessa lista, é pegar ou largar.Ascânio Seleme
Um trago de palavras sobre a bebida
Mas surge terrível erro de lógica nos próximos versos: “Tem gente que já tá com o pé na cova/ Não bebeu e isso prova/ Que e bebida não faz mal”. É insensata a relação entre morrer e se abster de bebida.
Todos morrem, os que bebem e os que não bebem. O excesso de bebida ─ alcoólica, naturalmente ─ resulta numa doença terrível, a cirrose, palavra vinda do francês cirrhose, vocábulo criado em 1805 pelo médico francês René Laënnec (1781-1826), a partir dos compostos gregos kirro, amarelo, e o sufixo ose, provavelmente radicado também no grego nose, doença. O doutor, comparando um fígado sadio com o de um alcoólatra, registrou a cor amarela das granulações no do bebum.
O famoso humorista gaúcho Aparício Torelly, que adotou o título nobiliárquico de Barão de Itararé, para fazer blague em cima de uma batalha que não houve, na localidade que lhe inspirou o baronato, descobriu o inverso, sem fazer pesquisa nenhuma: ‘o fígado faz muito mal à bebida’.

Não usamos em Português o verbo equivalente ao Latim potare. Dizemos da água boa para beber que é potável, do Latim potare, beber, suplantado pelo Latim bibere, que deu beber em português.
Outra palavra abandonada foi equus, que cedeu a caballus, cavalo. Mas o radical permaneceu em equitação, o exercício, a técnica ou a arte de andar a cavalo. E, claro, transformou-se num esporte em que homem e animal devem ter entendimento que raia a perfeição.
Paradoxalmente, cavalo veio a designar o bruto, a pessoa sem modos, rude. Uma injustiça ao animal, o que, aliás, ocorre também com o burro, invocado para ofender o estúpido, o que não tem inteligência. Ah, se os ofendidos tivessem ao menos um pouco da sabedoria do burro!
O escritor João Guimarães Rosa deixou patente sua admiração por bois, cavalos e burros, especialmente pelo pequeno animal que ele celebrizou no conto O burrinho pedrês. Na história, ameaçado de morte, um bêbado chamado Badu, montado no animal, chega são e salvo ao outro lado de um rio cheio. Oito vaqueiros morrem, mas Francolim também é salvo de modo insólito: agarra-se ao rabo de Sete-de-Ouros, o burrinho pedrês.
Também a palavra morte, radicada no latim em mors, prevaleceu sobre letum, que predominava no latim clássico para indicar o falecimento. No português, letum permaneceu na raiz de palavras como letal, letífico, letífero.
E falecer veio a consolidar-se como sinônimo de morrer, quando originalmente indicava faltar e também enganar, do latim fallescere. Está ainda hoje presente em expressões como ‘se algum dia eu vier a faltar’, em que ‘faltar’ é eufemismo para morrer.
Já defunto, outra designação para morto, veio do latim defunctus, cujo significado é pronto. Também é um eufemismo. Foi criado pela Igreja, sempre cerimoniosa com os atos decisivos de nossa existência ─ nascimento, casamento, morte etc. Defunctus formou-se a partir de defungi, cumprir, acabar, terminar.
Ager, o campo cultivado, cujo genitivo é agris, está embutido em agrário, agrimensor, agricultura. Está na ordem do dia ─ aliás, há mais de quatro séculos ─ a ‘reforma agrária’ que, como as palavras indicam, consiste em reformar, isto é, corrigir, retificar a posse agrária, a propriedade da terra.
Como se vê, faz séculos que as palavras viajam e fazem mudanças de significado. A balzaquiana tinha apenas 30 anos no século 19! Atualmente, com a mesma idade das célebres personagens de Balzac, a mulher é mocinha ainda.
A balzaquiana de hoje tem pelo menos 50 anos. Talvez o mundo beba mais hoje do que no tempo de Balzac, mas uma coisa é certa: nenhum dos grandes facínoras da Humanidade estava bêbado quando deflagrou malefícios duradouros, que resultaram em abomináveis genocídios.
Estavam todos sóbrios e sabiam muito bem o que faziam.
Deonísio da Silva
Ager, o campo cultivado, cujo genitivo é agris, está embutido em agrário, agrimensor, agricultura. Está na ordem do dia ─ aliás, há mais de quatro séculos ─ a ‘reforma agrária’ que, como as palavras indicam, consiste em reformar, isto é, corrigir, retificar a posse agrária, a propriedade da terra.
Como se vê, faz séculos que as palavras viajam e fazem mudanças de significado. A balzaquiana tinha apenas 30 anos no século 19! Atualmente, com a mesma idade das célebres personagens de Balzac, a mulher é mocinha ainda.
A balzaquiana de hoje tem pelo menos 50 anos. Talvez o mundo beba mais hoje do que no tempo de Balzac, mas uma coisa é certa: nenhum dos grandes facínoras da Humanidade estava bêbado quando deflagrou malefícios duradouros, que resultaram em abomináveis genocídios.
Estavam todos sóbrios e sabiam muito bem o que faziam.
Deonísio da Silva
Não é a corrupção
Há razões para estranhar: como as pessoas podem endossar um movimento que lhes causou tantos prejuízos? Será que não se importam em ficar sem gasolina ou pagar o dobro pelo quilo de batata?
Não é simples assim. As pessoas ficaram de bronca, reclamaram intensamente da falta e do preço das coisas, mas, esse é o ponto, achavam que não era culpa dos caminhoneiros. De quem, então? Fácil: do governo, dos políticos em geral e dos corruptos em particular.
Tanto é assim que as pessoas não gostaram nada das soluções propostas pelo governo Temer, especialmente o subsídio incluído no preço do diesel. Muitos entenderam que se tratava de dinheiro público, que vinha da arrecadação dos impostos pagos por todos, mas achavam que o governo não devia fazer isso.
Resumindo: por culpa do governo, os caminhoneiros, assim como a maior parte da população, passavam por momentos de dificuldade. A paralisação, portanto, era uma arma legítima. Do mesmo modo, os sacrifícios impostos às pessoas eram consequência da incapacidade do governo em resolver a situação. Logo, querer aumentar imposto para pagar a conta dos caminhoneiros não fazia o menor sentido.
Mas se não há subsídio grátis, como pagar?
Fácil, respondiam nossos ouvintes: cortando salários e outras vantagens de políticos e, sobretudo, cobrando o dinheiro da corrupção.
Mudemos de assunto, para a previdência. Pesquisa nacional do instituto Ipsos, patrocinada pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida, Fenaprevi, mostrou que a metade dos entrevistados (51%) entende que nosso regime de aposentadoria é sustentável. Apenas 28% acham que modelo exige reforma e 21% não têm opinião.
Por outro lado, também uma metade dos brasileiros (49%) acha que o assunto deve ser tratado pelo próximo presidente. E uma maioria de 43% afirma que será necessário fazer uma reforma no futuro, contra 38% para os quais o modelo não requer mudanças nem hoje nem mais à frente.
Com reforma ou sem reforma, a maioria espera se aposentar antes dos 65 anos e afirma que será totalmente dependente do sistema público. A maioria não sabe qual será o valor do benefício, mas desconfia que não será suficiente. Nada menos que 60% acham necessária uma previdência complementar.
Não que a façam – 63% dizem que não fazem investimentos para o futuro.
Resumindo: o sistema é sustentável, a aposentadoria está garantida, mas não será suficiente para uma vida confortável. Seria bom ter uma previdência complementar, se houvesse dinheiro para poupar.
E se houver algum desequilíbrio nas contas da previdência pública? Quem paga? As próprias pessoas, trabalhando mais e se aposentando mais tarde? A resposta é não. Aumentar o valor da contribuição? Negativo. Diminuir o valor da aposentadoria? Também não.
Então não tem problema algum?
Tem – e o leitor já adivinhou: a corrupção. Nada menos dos que 75% dos entrevistados pela Fenaprevi acham que o maior problema do sistema é a roubalheira e o desvio de verbas. E, de novo, cobrem a conta dos políticos.
Olhando os fatos, sem ideologias, é evidente que há um enorme problema na previdência, tanto a do INSS quanto na dos servidores públicos. Aliás, dois desequilíbrios. Primeiro, o dinheiro arrecadado com as contribuições não é suficiente para pagar as aposentadorias. Há um déficit crescente, em ritmo vertiginoso. Segundo, o gasto previdenciário total alcança 13% do PIB, nível de países ricos e velhos.
Voltando aos caminhoneiros, está claro que as suas reivindicações, sem exceção, pediam subsídios, dinheiro público e preços favoráveis tabelados. Ou seja, estavam mandando a conta para algum outro lado da sociedade. Por isso mesmo, não está dando certo.
Tudo considerado, a situação do país é ainda mais complicada do que se sabia. Não apenas há uma crise nas contas públicas e numa economia travada por mecanismos errados. Há um déficit de percepção. Há muita corrupção no Brasil, os políticos estão fazendo de tudo para serem desprezados, mas não se vai pagar as contas simplesmente botando todos para fora , ou melhor, na cadeia.
Vai daí que ou elegemos um presidente que consiga convencer a população sobre a necessidade de reformas – e diga claramente quais reformas, com o fizeram Macri e Macron – ou não haverá políticos suficientes para culpar e prender.
Quando a Viena da valsa sambou
Viena foi centro da mitologia moderna. É preciso lembrar que Sigmund Freud, o inventor de uma nova concepção humana ali floresceu? Ou basta falar da valsa que pela primeira vez permitiu que homens e mulheres pudessem dançar se abraçando frontalmente, olho no olho, num ritmo que um observador da época chamava preconceituosamente de “africano” — hipnótico, sensual e embriagador. A valsa fabricou Viena tal como o samba inventou um Brasil. Esse mesmo Brasil que roubou o futebol dos seus “colonizadores” ingleses e, no domingo que passou, deu o baile no time austríaco em plena Viena, mais uma vez desbancando as teses de uma velha teoria colonialista. Essa sim, tão vira-lata quanto os seus inventores. Foi quando a Viena da valsa sambou.
René Descartes inventou o “penso, logo existo”. Freud desmantelou o axioma, afirmando o oposto: quanto mais penso, menos existo; quanto mais controlo minha consciência reprimindo o profundamente desejado, mais faço o indesejado. Quem nos controla é (também) e sobretudo o (in) consciente. A ele pertence esse Brasil oculto que o futebol revela em toda a sua plenitude, talento e orgulhosa honestidade. Tudo o que vergonhosamente tem estado ausente de um mundo público dominado por administradores desonestos — “políticos” que nos levam ao jogo interminável da derrota. Justamente os que afirmam ser o futebol (e não o populismo autoritário e mendaz) o ópio do povo...
Freud não inventou o reino do esporte e do futebol. Mas asseguro que o esporte é um mecanismo mais do que adequado para viver as agruras do mundo. Nele, perdemos honradamente e vencemos sem arrogância. Pela mesma pauta, podemos pensar em todos os condicionais sem sermos filósofos. Para mim, não há melhor educador do “princípio de realidade” do que o futebol que nos ensina com a frustração, com a compulsão, com as doenças e com a derrota.
Por que o mundo não é como queremos? Ora, diz a cartomante, porque temos a capacidade de pensar alternativas. Quem pensa em ganhar, pensa em perder, embora a consciência, como o coração, possa ter razões que, como ensinou Pascal, ele não conheça. O desejo do triunfo ocorre com o jogo. Ele é oposto à sociabilidade brasileira corrente do “mais ou menos”. No esporte e na Copa, há o tudo ou nada.
Deus pode ser ou não ser brasileiro...
O interesse pelo futebol corre em paralelo à busca pela igualdade como um valor num sistema profundamente desigual. É isso que proporciona a experiência de igualdade, de mobilidade, de vitória e, hoje em dia, de transparência junto do resgate de uma honra coletiva aviltada e perversamente roubada por quem tinha como dever preservá-la.
O populismo e o messianismo negam a esfera do esporte que harmoniza carisma, patrimonialismo e um conjunto de regras que valem para todos, coagindo dirigentes, jogadores, árbitros, comentaristas e torcedores.
Um mesmo conjunto de regras produz resultado diversos. Ocorrendo em tempos e espaços demarcados, o esporte abre uma trégua entre países e pessoas ricas ou pobres, fracas ou poderosas; ao mesmo tempo em que concilia o jogador excepcional com o seu time. Há um confronto consciente de uma equipe contra outra; mas há também o confronto inconsciente de ambas as equipes com as circunstâncias que elas criam durante a partida.
E assim vai o futebol criando eventos que se transformam em estruturas e estruturas que engendram eventos e ciclos cuja determinação é impossível fora do generoso eixo do “destino”, e do dualismo “sorte/azar”. De qualquer forma, prefiro mil vezes os gastos com uma Copa e uma Olimpíada do que com uma guerra ou roubalheira política como tem sido o caso do Brasil.
Quebramos a invencibilidade dos austríacos que ganharam da Alemanha. Ambos falantes de uma língua que muitos acham difícil. Tão complicada que só os mais inteligentes a aprendiam. Vejam até onde ia a nossa autodepreciação e, pior que isso, a nossa burrice.
Roberto DaMatta
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René Descartes inventou o “penso, logo existo”. Freud desmantelou o axioma, afirmando o oposto: quanto mais penso, menos existo; quanto mais controlo minha consciência reprimindo o profundamente desejado, mais faço o indesejado. Quem nos controla é (também) e sobretudo o (in) consciente. A ele pertence esse Brasil oculto que o futebol revela em toda a sua plenitude, talento e orgulhosa honestidade. Tudo o que vergonhosamente tem estado ausente de um mundo público dominado por administradores desonestos — “políticos” que nos levam ao jogo interminável da derrota. Justamente os que afirmam ser o futebol (e não o populismo autoritário e mendaz) o ópio do povo...
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Deus pode ser ou não ser brasileiro...
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Ao refletir sobre o futebol, assinalei essa ausência do “mais ou menos” que exige um novo horizonte na vitória ou derrota. Como o melhor professor de democracia do Brasil, o futebol obriga ao desempenho — a resultados. E, pior que isso, ele tem como premissa uma igualdade absoluta. No futebol — ao contrário da política — sabemos de tudo, menos do resultado. Ademais nele não cabem os triunfos eternos. No Brasil, os ladrões e os ricos jamais perdem; no futebol, os marginalizados viram, por conta exclusiva do seu talento, reis e milionários.
O interesse pelo futebol corre em paralelo à busca pela igualdade como um valor num sistema profundamente desigual. É isso que proporciona a experiência de igualdade, de mobilidade, de vitória e, hoje em dia, de transparência junto do resgate de uma honra coletiva aviltada e perversamente roubada por quem tinha como dever preservá-la.
O populismo e o messianismo negam a esfera do esporte que harmoniza carisma, patrimonialismo e um conjunto de regras que valem para todos, coagindo dirigentes, jogadores, árbitros, comentaristas e torcedores.
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E assim vai o futebol criando eventos que se transformam em estruturas e estruturas que engendram eventos e ciclos cuja determinação é impossível fora do generoso eixo do “destino”, e do dualismo “sorte/azar”. De qualquer forma, prefiro mil vezes os gastos com uma Copa e uma Olimpíada do que com uma guerra ou roubalheira política como tem sido o caso do Brasil.
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Roberto DaMatta
Por que o Brasil ainda não conseguiu erradicar o trabalho infantil
A ele se somam fatores socieconômicos e a falta de uma legislação específica que penalize criminalmente empresários que empregam crianças. A Constituição brasileira permite o trabalho, em geral, a partir dos 16 anos de idade, e a partir dos 14 anos somente na condição de aprendiz.
O levantamento mais recente sobre o tema é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2016, segundo a qual o país tem cerca de 1 milhão de crianças de cinco a 15 anos de idade em situação de trabalho infantil, não permitida pela legislação. Na Pnad anterior, de 2015, o número era de 2,4 milhões.
Para o Ministério Público do Trabalho (MPT), a aparente queda milagrosa do número de crianças afetadas, no intervalo de um ano, foi resultado de uma mudança na metodologia de pesquisa. A Pnad passou a desconsiderar produção familiar como trabalho, entre outras alterações.
Além disso, especialistas apontam que apenas levantamentos mais abrangentes, como o Censo, podem dar um panorama preciso da situação do trabalho infantil no Brasil. No último, de 2010, pesquisadores apontaram que mais de 3,4 milhões de crianças e jovens de dez a 17 anos de idade trabalhavam no país.
"No Brasil ainda persiste uma mentalidade de que é melhor uma criança trabalhando do que roubando. É errado, criança precisa ser protegida e ter seu papel respeitado. Criança não pode trabalhar para a sua subsistência, isso o Estado precisa garantir", afirma Patrícia Mello Sanfelice, procuradora do Trabalho e coordenadora Nacional do Programa da Infância e Juventude do MPT.
A procuradora reforça que há uma subnotificação de casos de trabalho infantil no Brasil, ou seja, muitos hesitam em denunciar. "Há uma cultura de aceitação. Você não vê uma criança no sinal ou na praia e pensa em ligar para denunciar", diz.
Sanfelice vê um retrocesso nos avanços conquistados desde a década de 1990 no país, quando surgiram as primeiras leis que protegem a criança e o adolescente.
Pesquisas reforçam o cenário pouco animador. De acordo com os observatórios do Trabalho Escravo e Digital de Saúde e Segurança do Trabalho, de 2003 a 2017, foram resgatadas 897 crianças e adolescentes em situação análoga à escravidão. Entre 2012 e 2017, 15.675 menores de 18 anos foram vítimas de acidentes de trabalho.
Neste ano, as 24 procuradorias Regionais do Trabalho ajuizaram 83 ações sobre trabalho infantil no país. Se continuar nesse ritmo, o MPT vai terminar o ano com mais de 160 processos, número maior que os 137 registrados em 2017. O resultado também representaria o primeiro aumento no histórico de ações trabalhistas sobre o assunto envolvendo desde 2014, o que, segundo Sanfelice, é algo negativo.
Desde que assumiu o cargo, em meados de 2016, o presidente Michel Temer fez pelo menos dois grandes cortes no principal programa social do governo, o Bolsa Família, retirando quase 1 milhão de famílias da lista de beneficiados. Segundo especialistas, programas como esse fazem com que menos famílias tenham que recorrer ao trabalho infantil.
"Os casos de trabalho puramente por sobrevivência diminuíram nos últimos anos, principalmente por causa da atuação de programas sociais como o Bolsa Família", reconhece Mariana Neris, diretora do Departamento de Proteção Social Especial da Secretaria Nacional de Assistência Social do Ministério do Desenvolvimento Social.
Ela reitera, no entanto, que o principal vilão do combate ao problema é a cultura popular de que criança deve trabalhar. "Informação e mobilização estão entre nosso principais eixos de atuação, justamente para acabar com esse conceito de que a criança deve trabalhar. Isso concorre com atividades que deveriam ser próprias da crianças, como educação e lazer", diz.
Ao contrário de Sanfelice, Neris aponta avanços no combate ao trabalho infantil no país nas últimas décadas. "Há uma evolução das ações contra o trabalho infantil no Brasil há pelo menos 20 anos. "Desde 1996, mais de 4 milhões de crianças foram retiradas da situação de trabalho infantil no Brasil", afirma.
"Isso é [o resultado de] um esforço de várias instituições e Poderes. A meta ambiciosa que foi acordada com diversos setores é de erradicação do trabalho infantil até 2025."
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Desinteresse fatal
Sou da geração que entrou na universidade em 1971 e que viveu uma situação quase esquizofrênica: como torcer para um time tão maravilhoso como o de 1970 se a paixão pelo futebol era vista por nós, estudantes engajados em política, como um alicerce do regime militar? Tínhamos a ideia, por sinal tão arraigada sobretudo nos países comunistas, que a paixão pelo esporte cria identificação com o regime político (a ponto de lhe conferir legitimidade). Portanto, vitórias ou derrotas influenciariam diretamente disputas políticas. Como eleições, por exemplo.
Os economistas mencionam frequentemente o “feel good factor”, segundo o qual a percepção por parte de consumidores da situação econômica ao seu redor, mais irracional do que qualquer outra coisa, condiciona de alguma maneira comportamentos políticos. Ganhar uma Copa faz esquecer desemprego, por exemplo? Ou inflação? Acredito que não. Acho que não é tanto a vitória ou derrota nos jogos em si que nos diz alguma coisa sobre o “clima” político mas, sim, a forma como nossa sociedade evoluiu na dedicação a esse jogo.
Neste sentido, é possível detectar grosso modo uma transformação que mantém paralelos com o que está acontecendo na política. Torcer pela seleção em época de Mundial era um acontecimento compartilhado. Havia uma espécie de solidariedade em pintar as calçadas, as caras, decorar as janelas – um “fervor” que correspondia (embora totalmente fútil, admito) a um tipo de “esperança”.
Onde vejo hoje uma correlação entre futebol e a situação política é na ausência de “heróis” (no caso do PT, o “herói” Lula tem mais a ver com a veneração com que seitas tratam seus guias). Depois de muitos anos na reportagem reluto em acolher teses de causa/efeito mecânicas, por isso não consigo afirmar que o desânimo com a política explica em parte o desinteresse pelo futebol (onde antes era tão vibrante) e vice versa. Mas não consigo ignorar que um é o espelho do outro.
Acho até mais fácil explicar o desinteresse pelo Mundial, que tem a ver com a própria forma como mudaram os hábitos de consumo de entretenimento, entre eles o esporte. Tecnologias digitais, disruptivas na sua essência, espalharam o espetáculo futebol, que continua presente, mas agora também on demand. No caso da política, é o próprio “espetáculo” que passou a ser visto como um jogo sujo no qual as pessoas nada tem a dizer, dominado por elementos (partidos e políticos) corruptos e distantes.
A diferença são as consequências. O desinteresse pelo mundial traz só nostalgia. Desinteresse pela política é fatal.
A crise atual se deve não à política, mas aos que se apropriaram dela
Deixei o laboratório a pé. Minha intenção era, pouco adiante, lá no alto da avenida Afonso Pena, próximo à praça da Bandeira, quase aos pés da serra do Curral, que nos contempla em instigante silêncio, estacionar meu carro ao lado do posto de gasolina que se localiza a dois quarteirões de minha casa. O frentista não me forneceu informação sobre a chegada de combustível naquele dia: “O caminhão – disse ele – pode chegar hoje à noite, até as 24h, amanhã ou qualquer outro dia. Vou dormir aqui, mas não lhe posso garantir nada”.
Embora ainda inseguro, retirei meu carro da garagem e me dirigi ao local mencionado, que antes estava completamente vazio. A operação durou 15 minutos, se tanto. Só que, quando lá cheguei, encontrei, e com idêntico objetivo, 12 ou mais veículos já estacionados. Estávamos realmente dispostos a enfrentar a noite e a madrugada. Nenhuma fila, por maior que viesse a se formar, nos faria voltar atrás.
Na enorme fila que logo se formou, comecei a refletir sobre meu país. Aqui vivi minha infância, minha juventude e aqui espero concluir em paz a maturidade. Chega – disse em voz alta só para mim – de corrupção! Nesse instante, ouvi alguém dizendo que não haveria gasolina naquele dia. Liguei o carro e fui para minha casa com medo.
Tenho medo, leitor, do que vem pela frente. A greve dos caminhoneiros foi apenas um aperitivo. A esperança que se acendeu na eleição indireta de Tancredo Neves e, depois, na promulgação da Constituição de 1988, mas, sobretudo, com os primeiros mandatos de Fernando Henrique e Lula, parece ter chegado ao fim. O povo está saturado das roubalheiras e da incompetência de seus representantes. Chega de mentiras! Mas não somos nós, afinal, que os elegemos e os colocamos na Presidência da República, no Congresso Nacional, nos governos estaduais, nas Assembleias legislativas, nas prefeituras, nas Câmaras de vereadores? Político não nasce em árvore.
Os veículos de comunicação (refiro-me aos jornais e às emissoras de rádio e televisão), em seus noticiários, nos passam a ideia, com realismo, do que poderá acontecer ao país se não fizermos reformas urgentes e profundas. As redes sociais estão inundadas de notícias, umas verdadeiras, outras falsas, mas, curiosamente, repletas de “gozações” sobre a desgraça do povo. Só nós fazemos piada com nossa própria desgraça. Ou isso é só despiste diante do que poderá acontecer?
Não nos iludamos, leitor: a crise não terminou. Os candidatos a presidente da República têm que pensar no país, não em seus egos. Têm que pensar em 210 milhões de brasileiros! A ausência de bons políticos e de boas ideias agrava a crise. A democracia está sob ameaça, e o atual governo, desmoralizado, não tem condições de acionar seus instrumentos de autodefesa. O remédio contra isso só virá com mais democracia e mais liberdade. A arma, leitor, para conquistá-lo, está no voto responsável de cada um de nós no próximo dia 7 de outubro.
quarta-feira, 13 de junho de 2018
A falência das elites
Vivemos a hora da xepa, a escolha é do menos estragado, do menos pior. E eleição não foi feita para isso. Deveríamos escolher os melhores, os mais preparados.
Este processo de desilusão está relacionado com o sistema político-jurídico que nasceu com a Constituição de 1988. Vivemos a turbulência mais longa e mais profunda da história da República. Há uma crise estrutural e não apenas conjuntural. As possibilidades de mudanças reais estão vedadas. A petrificação da estrutura é evidente. Não há sequer brechas, mesmo que mínimas. A eficácia para a preservação do mesmo desmoralizou a democracia. A desilusão do eleitor é a resposta a tudo isso. É o máximo que, por hora, pode fazer.
A seleção dos piores acabou, evidentemente, levando à falência das elites dirigentes. O empobrecimento moral associou-se à mediocridade intelectual. Que cena infame e vil. Meu Deus! Meu Deus! Que horror, como diria Castro Alves (que para os poderosos não passa de uma praça — ponto de partida dos trios elétricos no carnaval baiano). São Paulo é um bom exemplo. Em 1922, a célebre Semana de Arte Moderna teve como patrocinador a família Prado. E diversas ações culturais foram apoiadas pelos potentados locais. Cem anos depois, o quadro é muito diferente. O top é convidar para alegrar as suas festas Anitta, Pablo Vittar ou Jojo Todynho. E, se em 1954, quando do IV Centenário da fundação de São Paulo, William Faulkner, prêmio Nobel de literatura, visitou a cidade como convidado especial; hoje preferem os livros de algum padre de fancaria, um Santo Agostinho da decadência — e haja decadência.
O descaso com os rumos do país é muito claro quando nos aproximamos da elite financeira. Ela está no Brasil mas não vive aqui, apenas habita — há exceções, claro, mas são raríssimas. Seu mundo é, principalmente, os Estados Unidos e, secundariamente, a Europa. Lembra aqueles degredados do século XVI. O sonho é voltar à civilização — viver longe do Brasil. Quando tivemos de enfrentar e vencer o projeto criminoso de poder petista, que queria transformar o país numa Venezuela, o que fez o sistema financeiro? Silenciou, o que já seria um crime de lesa-pátria? Não, fez pior. Manifestou apoio ao PT até o final. Não custa recordar que Dilma Rousseff insistiu muito para que o presidente de um grande banco brasileiro fosse o seu ministro da Fazenda, quando do segundo governo. Só não obteve seu intento porque o banco não tinha um substituto para o cargo. Outro dirigente de banco, três meses antes do impeachment, deu uma longa entrevista a um periódico paulista defendendo de forma envergonhada a gestão petista, isto, volto a lembrar, quando o país já tinha conhecimento pleno do petrolão e as ruas eram ocupadas por milhões de brasileiros exigindo que a nossa bandeira não fosse vermelha. Ah se não fosse a classe média...
A falência das elites e a petrificação das estruturas de poder são as principais responsáveis pela crise estrutural. O processo eleitoral é apenas sua face mais visível. Aguardamos atônitos o que poderá acontecer a 28 de outubro, quando do segundo turno. O chamado centro lançou meia dúzia de candidatos e nenhum conseguiu entusiasmar. A direita tem um candidato que sequer poderia ser qualificado neste campo ideológico se estivesse na Europa — e que mal consegue expor uma ideia com um mínimo de coerência. Na esquerda, seu candidato mais forte está preso e condenado a 12 anos de prisão. Tivemos também pretensos candidatos que logo abandonaram a raia. Um é conhecido por animar auditórios aos sábados; outro por treinar times de voleibol e o último porque presidiu o STF por algumas semanas. O primeiro dissertava platitudes — o máximo que poderia abstrair; o segundo é considerado um motivador de equipes (o que é isso?) e o último ficou conhecido por alguns tuítes — isso mesmo, no Brasil atual pensamento se resume a 280 caracteres com espaço. E basta — para ele, claro.
Os candidatos e as lideranças partidárias estão desconectados do Brasil real. Vivem em outro plano. Não entendem que as ruas querem uma profunda transformação.
Permanecem no passado. Supõem que as maquinações nos gabinetes em Brasília vão surtir algum efeito, como se o eleitor fosse uma simples marionete. E o presidente da República nisso tudo? Tem como objetivo máximo manter-se no cargo até a posse do seu sucessor. Se conseguir, vai se considerar um vitorioso. E depois terá de acertar contas com a Justiça — e não são poucas. Entrará para a história das eleições presidenciais como o único mandatário que nenhum candidato quis receber seu apoio.
Em síntese: estes candidatos são frutos de uma república apodrecida. O Brasil merece coisa muito melhor.
Marco Antonio Villa
País sequestrado por um condenado preso
Os 30% de preferência pelo soit-disant presidenciável do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, impressionam por dois motivos. Antes de tudo, porque ele foi condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, a 12 anos e 1 mês por corrupção e lavagem de dinheiro. E é inelegível. Em segundo lugar, por cumprir pena em Curitiba e, portanto, não ser disponível para participar de comícios, carreatas e até, conforme presume quem tem bom senso, gravar pronunciamentos para a propaganda nada gratuita no rádio e na televisão. O comportamento inusitado da Justiça, permitindo-lhe um dia a dia não vivido por outro preso comum – e ele é apenas mais um –, pode pôr em questão a segunda afirmativa. Mas, por enquanto, prever a continuação dessa anomalia, vencidos os prazos legais para o registro de candidaturas, não é realista.
A fidelidade de quase um terço do eleitorado brasileiro ao carisma do mais popular líder político e mais famoso presidiário do País, a esta altura do campeonato, confirma uma evidência e nega uma lenda urbana. O primeiro lugar no ranking atesta que a emoção é decisiva no ato de digitar o número do pretendente na máquina de votar. E o petista é, disparado, o único dos que se apresentaram à liça a despertar a paixão do cidadão, seja por afeto, seja por repulsa. Mas também, por paradoxal que pareça, o voto em quaisquer nível social e escolaridade é decidido pelo estômago e pelo bolso.
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso”, resmungará o leitor aflito, citando o repetido verso de Olavo Bilac. Afinal, além de condenado, Lula responde na Justiça a mais seis processos criminais, que, juntos, o desmascaram na chefia de uma organização criminosa que levou a Petrobrás à falência, quebrou as contas públicas, esfolou a economia a ponto de gerar 24 milhões de desempregados e desiludidos, conforme o confiável IBGE, e indicou os dois presidentes mais desastrados e, por isso mesmo, mais impopulares da História: a companheira petista Dilma Rousseff e o cúmplice Michel Temer, do PMDB. Sem Temer, Dilma não teria sido eleita. Sem os votos do PT, Temer não seria presidente.
É aí que entra neste raciocínio a negação de que o brasileiro não tem memória, uma lenda antiga e frágil. Os apressadinhos, que, conforme ensinava vovó, comem cru ou sapecado, arguirão que, ao desprezarem os dados da realidade que fazem de Lula um réprobo, e não os quindins de iaiá, os brasileiros que vegetam abaixo da linha da pobreza não têm memória mesmo e ponto final. Alto lá! História é uma coisa, memória é outra. A História é objetiva, relata fatos indesmentíveis, questiona mitos aparentemente indestrutíveis. A memória é subjetiva. Cada um tem a sua. A lembrança dos fatos ao redor é sempre imprecisa e traiçoeira. A recordação dos benefícios pessoais é permanente. Os que asseguram que votarão em Lula têm a memória gostosa dos tempos de ouro do crédito fácil e do acesso à proteína barata sobre a mesa da família.
A História revela que a inflação acabou, o poder de compra da moeda permitiu o acesso das famílias pobres ao consumo inatingível, por obra e graça do Plano Real, do câmbio flutuante e da Lei de Responsabilidade Fiscal, sob a égide do tucano Fernando Henrique. Mas a memória ressuscita o crédito farto e fácil e é isso que segura Lula no topo das pesquisas.
Detratores de institutos de opinião poderão até constatar que os índices recentes não se confirmarão. Mas dificilmente as tendências serão desmentidas. A principal delas é a novidade que ameaça surgir do panorama visto da pinguela sobre a fossa: a disseminação generalizada de que político nenhum presta mesmo e, então, o melhor é escolher um entre tantos condenados que no passado mais recente lhes “encheram o bucho”, como se diz em meu Nordeste de origem, região tida como baluarte lulista. Sabe o “rouba, mas faz”? Pois…
Em 2013, a população foi à rua protestar contra tudo e no ano seguinte reelegeu Dilma e Temer, dois precipícios para a tragédia. Em 2016 o eleitor surrou o PT porque a Lava Jato levou o partido aos tribunais e às prisões. Presos em Curitiba estão todos os chefões petistas: o próprio Lula, Zé Dirceu e Palocci. E, pior de tudo, três ex-tesoureiros – Delúbio, Vaccari e Paulo Ferreira – tiveram o mesmo destino. Há quem lembre diante desse fato que a organização criminosa, vulgo quadrilha, se afigura na forma da lei com a reunião de mais de quatro membros. Ou seja…
Em 2014 o PSDB fez de Aécio Neves a esperança anti-PT para pelo menos metade da sociedade, que não cai na lábia do profeta de Vila Euclides. O neto de Tancredo Neves, ilusão da Nova República abatida pela septicemia, contudo, protagonizou a maior frustração política da nossa História. Denunciado por um suspeito de ter enriquecido pelo compadrio de Lula e asseclas, gravado anunciando a morte do primo, caso este o delatasse, o mineiro poderia ter passado em branco pela inutilidade que protagonizou em seu mandato de senador pelo Estado mais habilidoso do Brasil. Mas fez muito pior, ao mostrar que seu adversário-mor comprou até a oposição fajuta em que ele mandava.
Lula nem precisará candidatar-se para encarnar o paradoxo deste país surreal, que mantém sob sequestro em sua cela de preso comum: beneficia-se por ter escolhido sucessores que quebraram o Brasil e pagou à oposição para anulá-la.
José Nêumanne
Gestão Temer não se limita a derreter, apodrece
O inquérito que investiga a venda de registros de sindicatos no Ministério do Trabalho demonstra que a corrupção é mais ou menos como o futebol. Ninguém marca gol sozinho. Há toda uma estrutura por trás: o clube, o médico, o técnico e o time em campo, preparando a jogada. A corrupção é igual. Há o presidente do clube (Temer), o partido aliado (PTB de Roberto Jefferson), e o time de servidores levantando a bola para que agentes políticos —como a deputada Cristiane Brasil– marquem gols contra o erário.
Indicada por Temer para o cargo de ministra do Trabalho, a filha de Roberto Jefferson só não sentou na cadeira porque a Justiça impediu. Agora, além de ordenar batidas policiais de busca e apreensão no gabinete e nas residências de Cristiane Brasil, em Brasília e no Rio, o ministro Edson Fachin, do Supremo, proibiu a ex-quase-futura-ministra de entrar no Ministério.
A safadeza tornou-se um moto-contínuo nos ministérios. Na pasta do Trabalho a delinquência é mais ofensiva, porque desrespeita os 13 milhões de desempregados que deveriam merecer a atenção de um ministério qualificado. No governo Temer, ministros e servidores que têm alguma qualidade precisam disfarçar ou se esconder. A atual administração não foi feita para competentes. Muitos acreditam que o governo Temer, com apenas 3% de aprovação, está derretendo. É mais grave do que isso. O governo está apodrecendo. Convém retirar as crianças da sala na hora do noticiário.
Indicada por Temer para o cargo de ministra do Trabalho, a filha de Roberto Jefferson só não sentou na cadeira porque a Justiça impediu. Agora, além de ordenar batidas policiais de busca e apreensão no gabinete e nas residências de Cristiane Brasil, em Brasília e no Rio, o ministro Edson Fachin, do Supremo, proibiu a ex-quase-futura-ministra de entrar no Ministério.
A safadeza tornou-se um moto-contínuo nos ministérios. Na pasta do Trabalho a delinquência é mais ofensiva, porque desrespeita os 13 milhões de desempregados que deveriam merecer a atenção de um ministério qualificado. No governo Temer, ministros e servidores que têm alguma qualidade precisam disfarçar ou se esconder. A atual administração não foi feita para competentes. Muitos acreditam que o governo Temer, com apenas 3% de aprovação, está derretendo. É mais grave do que isso. O governo está apodrecendo. Convém retirar as crianças da sala na hora do noticiário.
Por que tanta gente torce contra a seleção
Para quem gosta de bola e de Copa, chega a ser irritante escutar sermões do tipo “o país nessa situação e o povo preocupado com futebol”, “só querem saber de pão e circo”, “enquanto você grita gol, estão roubando nosso dinheiro em Brasília”, “que o Brasil caia na primeira fase”, “que venha outro 7 a 1” e por aí vai… Porém, o descrédito popular que tem colocado em xeque o poder da seleção de mobilizar massas e unificar a identidade nacional a cada quatro anos não é fruto exclusivamente do mau humor dos que não enxergam a poesia que emana dos gramados. As causas transcendem o campo de jogo.
A última pesquisa de torcidas do Datafolha, divulgada em abril, mostra que o número de pessoas que não se interessam por futebol no país aumentou de 31% para 41% em relação a 2010, quando a seleção ainda era comandada por Dunga. Praticamente o mesmo percentual de brasileiros que desprezam a Copa do Mundo. Chama a atenção que, no “país do futebol”, de acordo com pesquisa da MindMiners, 54% dos torcedores consultados dizem acreditar que uma eventual conquista do Mundial pela seleção não vai melhorar a autoestima do brasileiro. E o mais sintomático: 58% entendem que os episódios que levaram ao indiciamento dos três últimos presidentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) afeta, de alguma forma, a vontade de torcer pela seleção.
Tempos atrás, as suspeitas de ilícitos envolvendo cartolas eram tratadas como folclore no Brasil. Até que uma investigação do FBI desatou o Fifagate e implicou figuras como Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, menos de um ano depois do 7 a 1. Em compasso com os escândalos de corrupção na política, a entidade que controla nosso futebol sucumbiu na mão de dirigentes que, durante a Copa de 2014, exigiam patriotismo dos jornalistas e torcedores que criticavam as atuações do time de Felipão. E segue sem ter a exata dimensão de como a imagem associada a mandachuvas corruptos contribuiu para abalar a confiança dos brasileiros na seleção.
Seleção que, inevitavelmente, acabou castigada por seguidas administrações primitivas e nebulosas na CBF. Há décadas o esporte nacional é gerido à base da troca de favores, politicagem barata e interesses comerciais sustentados pela lógica da propina. Por mais vitoriosa que seja sua história em campo, não há instituição que passe incólume a tantas mazelas fora das quatro linhas. O que ajuda a explicar a perda de apelo não só da seleção, mas do futebol brasileiro como um todo.
Desconsiderando os comerciais de TV que apelam ao ufanismo, é cada vez mais raro presenciar demonstrações de amor à seleção. O que também dá uma medida do ódio. Por trás dele, irrompem jatos de frustração e raiva represadas pelo legado às avessas que a realização da Copa deixou para o país. Dos estádios superfaturados ao vexame contra a Alemanha, tanto o cético em relação a futebol quanto o torcedor mais apaixonado amargaram alguma dose de ressentimento. Havia caminho para uma reconciliação ao menos afetiva após Tite assumir a seleção e resgatá-la do fundo do poço. Mas, ao longo dos últimos quatro anos, dirigentes da CBF estavam mais preocupados em se livrar dos escândalos de corrupção do que em reaproximar o “brasileiro comum” do futebol.
A elitização tomou conta dos estádios, torcedores mais pobres foram afastados das arquibancadas, e a seleção virou produto cobiçado por empresas e patrocinadores que não veem problema em atrelar sua marca a uma entidade devassada pelas denúncias de corrupção. No meio desse processo de distanciamento, a camisa amarela da seleção ainda sofreu com a apropriação por grupos de manifestantes que a utilizaram como instrumento político. Neste cenário de Fla x Flu ideológico, uma parte da população agora sente ojeriza pelo uniforme com o escudo da CBF. Rejeição que, para muitos, se estende à seleção. Pela primeira vez no período democrático, o Brasil acompanhará uma Copa diante de tamanha polarização das correntes políticas, já que, em 2013, nos protestos que antecederam a Copa das Confederações, e em 2014, nas manifestações contra o megaevento, a pauta de reivindicações era bem mais difusa e menos identificada com determinada ala de militância.
Entre o apreço e o desdém por símbolos nacionais, a crise de credibilidade da seleção brasileira também respinga nos jogadores. A maioria deles joga no exterior, tem poucos vínculos com torcedores locais – algo acentuado pela falta de empenho da CBF em promover jogos com preços acessíveis no país – e falha ao não se esforçar para romper o estigma de cidadãos alienados, que, sob o status de personalidades globais, quase sempre resumem engajamento social a ações de caridade. Naturalmente, uma hora ou outra, torcedores como os que engrossaram o sarcástico protesto “um professor vale mais que o Neymar” se revoltam ao ver os ídolos reduzidos à figura de meros popstars.
Há quem interprete o desleixo pela seleção como um sinal de maturidade do brasileiro, que, supostamente, não se deixa mais enganar por “pão e circo” – como se fosse impensável conciliar a paixão pelo futebol com senso crítico. Todavia, é bem provável que, com o início dos jogos na Rússia, ainda mais se o Brasil mantiver o bom nível de atuação, o clima de Copa se espalhe tal qual em 2014, quando o grito de “não vai ter Copa” deu lugar a euforia nas ruas. Mas não resta dúvida de que os acontecimentos desde o Mundial passado, principalmente os escândalos de corrupção na CBF, arranharam a imagem do nosso futebol e, por tabela, a da seleção. Aquele que torce contra a pátria de chuteiras não é menos brasileiro que aquele que comemora fervorosamente cada gol anotado pelos comandados de Tite. Pois nada tem a ver com antipatriotismo. O “torcer contra” é, acima de tudo, uma resposta dos que não se sentem representados pelas instituições que se apropriaram da seleção. Um direito tão legítimo quanto o de quem prefere torcer a favor, apesar das contraindicações.
Os jornais
Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:
— Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime. “Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz…” Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:
“Anteontem, cerca de 21 horas, na rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos, de 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraçá-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando em um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavras: “Meu amor”, ao que ele retorquiu: “Deolinda”. Na manhã seguinte, Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência às 7:45 da manhã, isto é, dez minutos mais tarde do que o habitual, pois se demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra de propriedade do casal.”
A impressão que a gente tem, lendo os jornais — continuou meu amigo — é que “lar” é um local destinado principalmente à prática de “uxoricídio”. E dos bares, nem se fala. Imagine isto:
“Ontem, cerca de 10 horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente à rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar “Flor Mineira”, à rua Cruzeiro, 524, em companhia de seu colega Pedro Amâncio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joca de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo-se aos dois amigos, Joca manifestou desejo de sentar-se à sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo acontecendo aos três amigos que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciário Adalberto Ferreira, residente à rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegado a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada.”
E meu amigo:
— Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida…
Rubem Braga,"200 crônicas escolhidas"
— Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime. “Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz…” Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:
A impressão que a gente tem, lendo os jornais — continuou meu amigo — é que “lar” é um local destinado principalmente à prática de “uxoricídio”. E dos bares, nem se fala. Imagine isto:
“Ontem, cerca de 10 horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente à rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar “Flor Mineira”, à rua Cruzeiro, 524, em companhia de seu colega Pedro Amâncio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joca de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo-se aos dois amigos, Joca manifestou desejo de sentar-se à sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo acontecendo aos três amigos que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciário Adalberto Ferreira, residente à rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegado a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada.”
E meu amigo:
— Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida…
Rubem Braga,"200 crônicas escolhidas"
terça-feira, 12 de junho de 2018
O que acontece quando o poder público escolhe cortar investimentos em áreas sociais?
Embora de extrema relevância, o tema não tem sido tão pautado e ainda é encoberto por dúvidas, a despeito do esforço de diferentes pessoas e instituições em divulgar os prejuízos dessa emenda, muitas delas reunidas na Coalizão “Direitos valem mais, não aos cortes sociais".
A verdade é que precisamos falar sobre isso e ter consciência do quanto seremos afetados, em nosso cotidiano e em nossos direitos. É preciso ter em mente também que, em cenários de crise e escassez, crianças e adolescentes são os mais prejudicados.
Segundo estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, publicado recentemente, a política de austeridade instituída pela Emenda 95 será responsável por um aumento de 8,6% na mortalidade infantil até 2030, pois deixarão de ser evitadas 124 mil internações e vinte mil mortes de crianças de até cinco anos.
Ainda, nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) de 2016 afirmou que, em vinte anos de aplicação da referida emenda na política de assistência social brasileira, haverá menos da metade dos recursos necessários para garantir a manutenção da cobertura nessa área nos padrões atuais, o que afetará diferentes programas estatais, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada, por exemplo. Reduzir o acesso ao Bolsa Família, inclusive, vai na contramão do recomendado pelo Banco Mundial o qual defende a necessidade de ampliação dos recursos neste programa a fim de mitigar os impactos da crise econômica brasileira no agravamento da desigualdade social.
A experiência internacional, também, demonstra os prejuízos das políticas de austeridade, especialmente em crianças e adolescentes. Relatório do Unicef apontou que diminuição e corte nos serviços em saúde, educação e nutrição geram ainda maior pressão sobre as famílias vivenciando perda de renda e desemprego, o que aumenta índices de ansiedade e estresse nas crianças, especialmente nas mais pobres. Outra experiência revela-se, também, sintomática: na Grécia, em decorrência da política de austeridade, houve aumento no número de casos de malária, de AIDS e de tuberculose, além de crescimento de 43% na mortalidade infantil entre 2008 e 2010, que vinha sofrendo queda constante desde os anos 1950, bem como um aumento de 21% no número de natimortos entre 2008 e 2011.
É importante pontuar que a emenda 95 é fruto de uma escolha política, que optou por congelar despesas primárias, responsáveis pela oferta de bens e serviços à população, ou seja, pelo investimento social, e manter as despesas financeiras intactas. Se, antes da emenda 95, já tínhamos índices de investimento nas áreas de educação e saúde considerados baixos, a tendência após a medida é piorar. Nesse sentido, vale ressaltar que, embora não haja um corte, a fixação de um teto não permite o crescimento do investimento, que acaba por se desvalorizar, especialmente considerando a inflação e o crescimento populacional. Essa escolha política tem permeado recentemente a ação do poder público: a Medida Provisória 859 de 2018 abriu crédito extraordinário superior a nove bilhões em favor dos Ministérios de Minas e Energia e da Defesa, por meio de cancelamento de gastos em programas como Criança Feliz e Rede Cegonha, bem como cortes nas áreas de assistência social, saúde e saneamento básico - os quais, sabidamente, irão impactar de maneira grave crianças e adolescentes.
Estamos em ano eleitoral e é preciso cobrar de candidatas e candidatos o compromisso com a revogação da emenda 95 e a retomada do investimento social, o qual, em verdade, já está assegurado em nossa Constituição, que garante como direitos sociais a educação, a saúde, a assistência, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, bem como a proteção à maternidade e à infância. É também preciso lembrar: crianças e adolescentes – os mais gravemente afetados por medidas de austeridade – devem, por força do artigo 227 da Constituição, ter seus direitos assegurados com absoluta prioridade, o que significa primeiro lugar em orçamento, políticas e serviços públicos, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Ainda não alcançamos esse patamar de proteção social, especialmente no que diz respeito à infância e adolescência brasileiras. Mas, se queremos reverter esse cenário de violações e desigualdades, é preciso assegurar investimentos que cumpram a norma da prioridade absoluta, respeitando a força de uma Constituição vigente há quase trinta anos e não a relegando ao papel de uma carta vazia de princípios.
Thaís Dantas, conselheira do Conselho Nacional de Direitos de Crianças e Adolescentes (Conanda)
Histórias contadas por idiotas
A eleição que se avizinha engana os sentidos: incita e frustra, ela põe e tira, persuade e desencoraja, faz levantar-se e depois derruba. Engana enquanto dormimos, conta mentiras, e depois nos deixa.
Com os olhos e línguas, candidatos do momento fingem lavar nossa honra com ondas lisonjeiras, transformando faces em máscaras, enganando nossos corações, e ocultando quem de fato são.
O eleitor não tem sossego. Habita lugar muito frio para ser o inferno. Não precisa ser porteiro do diabo. Mas já fez entrar gente de todas as profissões, que vão pelo caminho florido à fogueira eterna. A traição já fez seu pior; nem aço, nem veneno, inveja doméstica, armada estrangeira, nada pode afetá-lo mais.
Já quase esquecemos o gosto do medo. Já foi o tempo em que nossos sentidos gelariam ao ouvir tamanhas falsidades. Estamos fartos de horrores. Todos familiares com nossas memórias recentes. Nada mais nos abala. A chegada da eleição arrasta-se nesse passo miúdo dia após dia. Para a última sílaba do tempo narrado.
A nós tolos, todos esses ontem já nos enganaram. As próximas eleições não mais são que sombra errante de maus atores que se pavoneiam e se afligem no seu momento sobre o palco. E então nada sincero se ouve. São histórias contadas por idiotas, cheias de som e fúria. Significando nada. (*)
Elton Simões
(*) Texto inspirado em Macbeth, de William Shakespeare
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