quarta-feira, 30 de maio de 2018
Deus é brasileiro
Vivendo os fatos da semana — esses eventos que, no caso brasileiro, estão sempre em busca de destino ou gaveta histórica que possa agasalhá-los porque, como as meias furadas, eles denunciam a indigência do dono do sapato — não sei se o meu título deve terminar com reticências (promotores de algo mais), com um ponto de exclamação (aprovativo); ou com o de interrogação perguntador e e ambíguo.
Vejam como surge:
Deus é brasileiro...
Deus é brasileiro!
Deus é brasileiro?
Poesia ou reza...
Fui levado pela vida a uma saudável descrença — um ateísmo brasileiro que acredita “um pouco”. O quanto basta, diz-me alguém, para se ter a imensa fé de um grão de mostarda.
Não presumo mais um além povoado de anjos, mas convivi com eles na forma dos meus filhos e netos — e na presença das pessoas que amo. Posso não crer mais em anjos de procissão ou de carnaval, mas jamais deixei de topar com um anjo da guarda, graças (entre muitas evidências) a um filme de Frank Capra (“A felicidade não se compra”), visto quando eu tinha meus 13 anos.
O anjo guardião da minha infância e adolescência atribuladas pelas mudanças de uma Maceió, uma Niterói, uma Juiz de Fora, uma São João Nepomuceno e uma Copacabana “Princesinha do Mar” (na voz de Dick Farney) parte da “Cidade Maravilhosa” que foi o Rio de Janeiro.
Essas cidades iam e vinham. O resultado tem sido uma vida vivida mais pelo presente do que pelo passado numa só rua, colégio, bairro e, eis o essencial no Brasil, turma.
Tenho uma permanente sensação de estrangeirismo por ser um canhoto de Niterói, singularidades agravadas pelo choque cultural harvardiano nos anos 60, pelas temporadas nos Estados Unidos, sem esquecer os interlúdios parisienses e na Cambridge que os ingleses dizem ser a verdadeira.
Por fim, mas não por último, há a vida motivada pelo permanente aprendizado da antropologia social dos anthtropological blues, ouvidos por meio do requerimento paradoxal de viver não apenas entre os nativos, mas com eles. Por causa da contradição em termos que é o observar-e-participar, verifico, nesse apanhado intrometido do por onde andei (pois meu objetivo apenas era falar da greve dos caminhoneiros e, como todo mundo, falar mal do governo) — devo igualmente incluir os quase dois anos nos quais fui um intrusivo hóspede dos povos tribais gavião e apinayé. Tempos de uma vida paralela, na qual eu fui uma simples e dolorosa consciência individual que tudo anotava.
Em todos esses lugares, vivi os ritos de passagem que os estrangeiros merecem: levei trote e fui apupado porque era sempre o “de fora”. Nos Estados Unidos, passei de “Matta” a “DaMatta”. Um sobrenome mais plausível, caso escolhesse ser médico porque, como me dizia um amado Tio Mário, ninguém iria querer ser socorrido por um “Doutor Mata!”.
Ganhei também, em ritual solene, nomes de prestígio entre os chamados “índios”. Se, como ainda sabem alguns antropólogos, o nome tem muito que ver com a alma e a pessoa, eu (aos 81) ainda não sei bem quem sou!
Jamais duvidei de que Deus era brasileiro até os anos 60. Tanto, que até duas décadas depois, eu só usei a interrogação diante do autoritarismo fascistoide do regime militar quando fui depor num daqueles tribunais como testemunha de defesa. Ali, como nestes nossos tristes tempos, tenho interrogado: “Meu Deus! — Deus é mesmo brasileiro?”
Nas crises políticas e nas greves rotineiras que se repetiam nos anos 60 e 70, eu ficava entre a inocente assertiva etnocêntrica de que Deus, apesar de tudo, era mesmo brasileiro; mas oscilava um pouco para as reticências indicativas de um Deus um tanto duvidoso de sua nacionalidade.
Outro dia, recebi do o meu ex-mentor Dick Moneygrand um longo SMS perguntando por que eu havia deixado o paraíso universitário americano. Sendo, porém, um intelectual de boa-fé, Dick, na mesma mensagem, lembrou-se de Trump e foi ao fundo do próprio poço. “Começo a suspeitar que não podemos mais ser o povo eleito moderno — aquele que afirma no seu dinheiro: ‘Confiamos em Deus’.”
Caros leitores, eu reitero que queria escrever sobre a greve, mas meu inconsciente não deixou. Ademais, todo mundo falou com mais informação e sapiência que eu. No desalento, apelei para o infalível “Deus é brasileiro” convencido de que Deus continua brasileiro, mas foi para Portugal....
PS: Estou consternado pela morte de Alberto Dines, jornalista consciente do seu papel e autor de um livro realmente importante sobre Stefan Zweig, um grande escritor europeu que terminou sua vida no Brasil. Sobre Philip Roth, perdi um mestre da raríssima arte de estranhar sua própria sociedade e um companheiro de reclamações.
Roberto DaMatta
Vejam como surge:
Deus é brasileiro...
Deus é brasileiro!
Deus é brasileiro?
Poesia ou reza...
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Fui levado pela vida a uma saudável descrença — um ateísmo brasileiro que acredita “um pouco”. O quanto basta, diz-me alguém, para se ter a imensa fé de um grão de mostarda.
Não presumo mais um além povoado de anjos, mas convivi com eles na forma dos meus filhos e netos — e na presença das pessoas que amo. Posso não crer mais em anjos de procissão ou de carnaval, mas jamais deixei de topar com um anjo da guarda, graças (entre muitas evidências) a um filme de Frank Capra (“A felicidade não se compra”), visto quando eu tinha meus 13 anos.
O anjo guardião da minha infância e adolescência atribuladas pelas mudanças de uma Maceió, uma Niterói, uma Juiz de Fora, uma São João Nepomuceno e uma Copacabana “Princesinha do Mar” (na voz de Dick Farney) parte da “Cidade Maravilhosa” que foi o Rio de Janeiro.
Essas cidades iam e vinham. O resultado tem sido uma vida vivida mais pelo presente do que pelo passado numa só rua, colégio, bairro e, eis o essencial no Brasil, turma.
Tenho uma permanente sensação de estrangeirismo por ser um canhoto de Niterói, singularidades agravadas pelo choque cultural harvardiano nos anos 60, pelas temporadas nos Estados Unidos, sem esquecer os interlúdios parisienses e na Cambridge que os ingleses dizem ser a verdadeira.
Por fim, mas não por último, há a vida motivada pelo permanente aprendizado da antropologia social dos anthtropological blues, ouvidos por meio do requerimento paradoxal de viver não apenas entre os nativos, mas com eles. Por causa da contradição em termos que é o observar-e-participar, verifico, nesse apanhado intrometido do por onde andei (pois meu objetivo apenas era falar da greve dos caminhoneiros e, como todo mundo, falar mal do governo) — devo igualmente incluir os quase dois anos nos quais fui um intrusivo hóspede dos povos tribais gavião e apinayé. Tempos de uma vida paralela, na qual eu fui uma simples e dolorosa consciência individual que tudo anotava.
Em todos esses lugares, vivi os ritos de passagem que os estrangeiros merecem: levei trote e fui apupado porque era sempre o “de fora”. Nos Estados Unidos, passei de “Matta” a “DaMatta”. Um sobrenome mais plausível, caso escolhesse ser médico porque, como me dizia um amado Tio Mário, ninguém iria querer ser socorrido por um “Doutor Mata!”.
Ganhei também, em ritual solene, nomes de prestígio entre os chamados “índios”. Se, como ainda sabem alguns antropólogos, o nome tem muito que ver com a alma e a pessoa, eu (aos 81) ainda não sei bem quem sou!
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Jamais duvidei de que Deus era brasileiro até os anos 60. Tanto, que até duas décadas depois, eu só usei a interrogação diante do autoritarismo fascistoide do regime militar quando fui depor num daqueles tribunais como testemunha de defesa. Ali, como nestes nossos tristes tempos, tenho interrogado: “Meu Deus! — Deus é mesmo brasileiro?”
Nas crises políticas e nas greves rotineiras que se repetiam nos anos 60 e 70, eu ficava entre a inocente assertiva etnocêntrica de que Deus, apesar de tudo, era mesmo brasileiro; mas oscilava um pouco para as reticências indicativas de um Deus um tanto duvidoso de sua nacionalidade.
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PS: Estou consternado pela morte de Alberto Dines, jornalista consciente do seu papel e autor de um livro realmente importante sobre Stefan Zweig, um grande escritor europeu que terminou sua vida no Brasil. Sobre Philip Roth, perdi um mestre da raríssima arte de estranhar sua própria sociedade e um companheiro de reclamações.
Roberto DaMatta
O que penso sobre a greve dos caminhoneiros
Engana-se quem pensa que essa greve traz à população algo que não seja caos. Ela é pelo Diesel e não reduzirá nem o frete.
Essa frase, que postei dia 26/05 nas minhas páginas do Facebook, suscitou inúmeros comentários. A maioria expressando desagrado. Era previsível porque pesquisa feita pelo Instituto Methodus informava, na véspera, que 86% da população apoiava a greve. No entanto, não tenho o hábito de auscultar a opinião pública para decidir o que devo escrever ou falar. Se fosse fazê-lo, não teria escrito ou dito coisa alguma quando poucos, muito poucos, combatíamos as ideias de esquerda e o petismo na segunda metade dos anos 80.
Estou convencido, pela simples aplicação da razão aos fatos, de que é preciso distinguir as motivações. Uma coisa é a greve dos caminhoneiros, com apoio dos transportadores e produtores rurais interessados em reduzir o preço do diesel. Atendida essa reivindicação e isentos do pagamento de pedágio quando vazios, não fica um caminhão no acostamento. Ou alguém acredita que seus condutores continuarão parados até que o país tome jeito, que o Estado encolha, que os impostos diminuam, que a segurança aumente, que as estradas melhorem?
Outra coisa, então, são as pautas nacionais, sobre as quais muito tenho escrito e das quais poucos se têm ocupado. Quanto mais terrível for a situação no dia 7 de outubro, quanto maior o caos, mais receptiva estará a massa de eleitores a quem lhe oferecer, em 7 de outubro, o conhecido prato feito de mentira, populismo, corporativismo, estatismo e, claro, subsídios públicos. Não vislumbro a menor chance de que em tal situação a maioria do eleitorado decida optar por uma política econômica liberal. Ao contrário, ela se inclinará para o lado de quem lhe oferecer doses mais robustas do mesmo veneno através da mão falsamente dadivosa do Estado. Sou contra o plantio do caos.
Comece a falar em privatização e fim do monopólio e veja o que acontece. Quais as demandas da greve da Federação Única dos Petroleiros (FUP) programada para quarta feira? Demissão do presidente da Petrobras, retirada das Forças Armadas das refinarias onde garantem o abastecimento dos caminhões, manutenção dos empregos, “não às privatizações” e ao “desmonte da Petrobras”. Ah! Enquanto a empresa era vampirizada pelo governo petista que a transformou em objeto de escândalo e escárnio mundial, a turma da FUP, agora grevista, posava para fotos ao lado de Lula e Dilma. Agora, faz greve e se une aos caminhoneiros... “para o bem do Brasil”. Deve haver apoiador do caos aplaudindo a greve desses hipócritas porque, afinal, ela ajuda o caos, certo?
A pluralidade de expectativas em relação aos caminhoneiros é uma evidência de que ela está sendo vista como uma espécie de Bombril com usos contraditórios. Ora é uma porta aberta para a “intervenção militar constitucional”, ora uma oportunidade para o "Fora Temer", ora uma chance de criar clima para a volta da esquerda ao poder, ora uma oportunidade de acabar com os males do estatismo e ora uma oportunidade de buscar soluções junto ao Estado, ora servirá para acabar com o monopólio do petróleo e ora servirá para preservar definitivamente o monopólio. Entendam-se, porque eu não entendo.
Ponderação final: se você está convencido que a greve é boa para o país, que o “Fora Temer” petista que vi em caminhões, vindo ontem de Santa Maria, é uma boa pauta, que o agravamento do caos institucional fará o que até agora não foi feito, responda para você mesmo, a quatro meses de eleições gerais, qual o grupo político que colherá maior vantagem dele com vista aos próximos quatro anos de poder no país?
Percival Puggina
Estou convencido, pela simples aplicação da razão aos fatos, de que é preciso distinguir as motivações. Uma coisa é a greve dos caminhoneiros, com apoio dos transportadores e produtores rurais interessados em reduzir o preço do diesel. Atendida essa reivindicação e isentos do pagamento de pedágio quando vazios, não fica um caminhão no acostamento. Ou alguém acredita que seus condutores continuarão parados até que o país tome jeito, que o Estado encolha, que os impostos diminuam, que a segurança aumente, que as estradas melhorem?
Outra coisa, então, são as pautas nacionais, sobre as quais muito tenho escrito e das quais poucos se têm ocupado. Quanto mais terrível for a situação no dia 7 de outubro, quanto maior o caos, mais receptiva estará a massa de eleitores a quem lhe oferecer, em 7 de outubro, o conhecido prato feito de mentira, populismo, corporativismo, estatismo e, claro, subsídios públicos. Não vislumbro a menor chance de que em tal situação a maioria do eleitorado decida optar por uma política econômica liberal. Ao contrário, ela se inclinará para o lado de quem lhe oferecer doses mais robustas do mesmo veneno através da mão falsamente dadivosa do Estado. Sou contra o plantio do caos.
Comece a falar em privatização e fim do monopólio e veja o que acontece. Quais as demandas da greve da Federação Única dos Petroleiros (FUP) programada para quarta feira? Demissão do presidente da Petrobras, retirada das Forças Armadas das refinarias onde garantem o abastecimento dos caminhões, manutenção dos empregos, “não às privatizações” e ao “desmonte da Petrobras”. Ah! Enquanto a empresa era vampirizada pelo governo petista que a transformou em objeto de escândalo e escárnio mundial, a turma da FUP, agora grevista, posava para fotos ao lado de Lula e Dilma. Agora, faz greve e se une aos caminhoneiros... “para o bem do Brasil”. Deve haver apoiador do caos aplaudindo a greve desses hipócritas porque, afinal, ela ajuda o caos, certo?
A pluralidade de expectativas em relação aos caminhoneiros é uma evidência de que ela está sendo vista como uma espécie de Bombril com usos contraditórios. Ora é uma porta aberta para a “intervenção militar constitucional”, ora uma oportunidade para o "Fora Temer", ora uma chance de criar clima para a volta da esquerda ao poder, ora uma oportunidade de acabar com os males do estatismo e ora uma oportunidade de buscar soluções junto ao Estado, ora servirá para acabar com o monopólio do petróleo e ora servirá para preservar definitivamente o monopólio. Entendam-se, porque eu não entendo.
Ponderação final: se você está convencido que a greve é boa para o país, que o “Fora Temer” petista que vi em caminhões, vindo ontem de Santa Maria, é uma boa pauta, que o agravamento do caos institucional fará o que até agora não foi feito, responda para você mesmo, a quatro meses de eleições gerais, qual o grupo político que colherá maior vantagem dele com vista aos próximos quatro anos de poder no país?
Percival Puggina
Temer desligou-se perigosamente da realidade
Para Temer, seu governo enfrenta “dificuldades naturais em um processo de desenvolvimento sustentado.” Mas tudo continua bem porque “temos um projeto” reformista. Nenhuma palavra franca e direta sobre o caminhonaço que transtorna o país há nove dias. O orador não pronunciou palavras como “caminhão” ou “pararalisação”. Sobre a encrenca que monopoliza o noticiário, fez apenas referências indiretas e autoelogios. Temer é o negociador mais habilidoso que Temer já conheceu
Temer teve a oportunidade de dialogar com os caminhoneiros e o baronato do setor de transporte de cargas. Desde outubro de 2017, negligenciou três avisos que chegaram ao Planalto por escrito. Deu-se, então, o bloqueio sem precedentes de estradas, num movimento que sequestrou a paz dos brasileiros. Zonzo, Temer pagou o resgate com um pacote 100% feito de déficit público.
Embora esteja imprensado contra a parede, o presidente acha que é protagonista de um processo de negociação. Com a credibilidade rente ao piso, ele se considera um portento. Para Temer, o único problema existente no país é a cegueira alheia: “Alguns confundem —quero dizer isso em letras garrafais— a vocação para o diálogo com eventual leniência política ou fraqueza política. Na verdade, é o contrário. O diálogo é a essência da boa política e da democracia, é, aliás, a sua fortaleza.”
O problema de políticos habituados a operar com a meia-verdade é que, nos momentos mais críticos, eles privilegiam sempre a metade que é mentirosa. Quando não sabe o que dizer, Temer recorre à empulhação. O truque perdeu a serventia. O inquilino do Planalto deveria firmar consigo mesmo um pacto básico: o de não dizer asneiras. O silêncio não resolve o problema. Mas evita que a plateia fique chocada com a constatação de que o presidente da República desligou-se perigosamente da realidade.
Realidade x Perspectiva
Nossa triste realidade todos conhecemos bem, agora agravada pelo inaceitável caos provocado pela greve dos caminhoneiros, impasse pessimamente administrado pelo governo: corrupção generalizada, 14 milhões de desempregados, boa parte deles desistindo de buscar trabalho, mercadoria cada vez mais escassa, continuo empobrecimento da população já atingindo em cheio a classe media, que não consegue mais custear os estudos de seus filhos nas escolas privadas nem pagar o condomínio, infraestrutura sucateada, saúde em frangalhos, insegurança total, violência campeando, educação de baixo nível, economia rateando, dólar batendo recorde, bolsa caindo, etc., etc.
E dizem que nossa democracia está forte porque as instituições estão funcionando bem…
Cada vez menos brasileiros acreditam nisso. Basta ver as pesquisas de opinião, que revelam claramente que o povo está farto de tanta roubalheira, desmando, descaso com a coisa pública, falta de vergonha e respeito e que quer mudança, venha ela de onde vier.
Vejamos o lastimável estado atual das nossas instituições:
O executivo em estado terminal, fraco, sem apoio das “bases” para promover reformas, envergonhado e paralisado, vítima de denúncias, umas atrás das outras, envolvendo o Chefe da Nação, sua família, amigos e ministros mais próximos.
O legislativo seguindo fielmente a sua cartilha de legislar em causa própria, como fizeram agora demagogicamente seus integrantes aprovando de afogadilho projetos para aplacar a fúria dos donos das estradas, além de outras barbaridades como a criação do execrável fundo eleitoral. Nossos parlamentares não demonstram a menor intenção de olhar para os lados e ver que mais de 200 milhões de brasileiros esperavam que os representantes do povo cuidassem do povo, e não só deles. Agora, então, com Copa do Mundo e eleições, nem pensar.
O judiciário, cuja representação máxima é o Supremo Tribunal Federal, perdendo vertiginosamente seu prestígio e se transformando na maior fonte de insegurança jurídica.
Falando em STF, nunca entendi porque os personagens que o compõem se transformaram em imperadores, em ditadores (além de “celebridades e “pop stars”), fazendo o que bem entendem monocraticamente sem nenhum controle da sociedade. O ministro soltador geral da República acaba de consumar mais algumas de suas peripécias liberando mais um bando de criminosos, inclusive o Paulo Preto, o coitadinho que não merecia ficar preso mesmo tendo contas bancárias na Suíça de mais de mais de 34 milhões de dólares e de ser acusado de desviar milhões de reais das obras do Roboanel para beneficiar seus patrões tucanos entre eles o “ínclito” senador Jose Serra. Esta solerte manobra do prelado em causa aliviou a barra do tucanato, que estava morrendo de medo que o operador mor do seu propinoduto abrisse a boca a atirasse muita “sujeira” no ventilador.
E a perspectiva?
Olhando o quadro pré-eleitoral atual, dá para ter alguma esperança de que venhamos a eleger um verdadeiro estadista para o comando do Executivo? Como nos ensinou Benjamin Disraeli, primeiro ministro britânico do século 19, “estadista é o que pensa nas próximas gerações, político é o que pensa nas próximas eleições”. Entre os candidatos melhor posicionados, incluindo Lula, que ainda pode ser beneficiado por mais uma escandalosa manobra do STF que o torne elegível (convém não esquecer que dos 11 ministros do Supremo 7 foram nomeados pelo PT), é possível identificar o estadista que tanta falta está nos fazendo?
E o Congresso? As velhas raposas, inclusive as dezenas de postulantes que estão sendo investigados pela Lava Jato, alguns já transformados em réus, podem muito bem se reeleger e manter o foro privilegiado, já que da nossa grana que surripiaram (cerca de 3 bilhões de reais, entre fundo partidário e eleitoral) a maior parte vai ficar com elas mesmas, graças às manobras dos donos dos partidos políticos aos quais pertencem. Tenho a impressão de que a sonhada renovação que almejávamos irá pro brejo. Aqueles que pensavam que o parlamento seria purificado e que ficaria livre dos Renan Calheiros e Romeros Jucás desta vida já estão tirando o cavalinho da chuva e assumindo que este não passa de mais um sonho de uma noite de verão. Afinal, com um eleitorado de mais de 140 milhões que é obrigado a votar, grande parte dele pobre ou beirando a pobreza e analfabeta funcional, dá para esperar grandes revoluções cívicas? Não é querer demais que assim seja? Lembremo-nos de Ulisses Guimarães: “se vocês estão descontentes com o atual Congresso, esperem para ver o próximo”. Sua ameaça está em vias de se consumar mais uma vez.
E o poder judiciário? Quando haverá a renovação do “pretório excelso”, cujos integrantes, graças à Lei da Bengala, só se aposentam compulsoriamente aos 75 anos de idade? A idade média atual deles é 60 anos, os mais jovens sendo Alexandre de Moraes, nascido em 1968 e Dias Tofolli, que tem 50 anos e, que, portanto, poderá ficar por lá mais 25. Como a sociedade não consegue emplacar nenhum impeachment de ministros do STF, apesar de várias tentativas frustradas (ler artigo de Modesto Carvalhosa na Veja de 2 de maio), renovação da Suprema Corte fica para as calendas gregas…
Por essas e muitas outras, tudo indica que para o Brasil pior do que a realidade só a perspectiva.
Lamentavelmente.
OCDE: Brasil paga benefícios a família 'que não são pobres'
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reduziu para 2% sua previsão de crescimento do PIB brasileiro neste ano, segundo relatório divulgado nesta quarta-feira. Mas além da estimativa sobre a economia do país, a entidade também destacou um problema crescente detectado no pagamento de benefícios sociais, como as aposentadorias.
"Uma grande e crescente parte dos benefícios sociais no Brasil é paga a famílias que não são pobres", afirma o estudo, para o qual o sistema previdenciário atual é favorável a pessoas com renda mais alta. Segundo a entidade, o país deveria investir mais em programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, e limitar aumentos daqueles que "na maioria da vezes" beneficiam a classe média.
Em suas projeções anteriores para a economia brasileira, divulgadas em fevereiro em um relatório específico sobre o país, a organização previa que o PIB cresceria 2,2% em 2018.
A estimativa da OCDE para o Brasil neste ano é menor do que a projeção do mercado: na última pesquisa Focus do Banco Central, divulgada após o início da greve dos caminhoneiros, a expectativa de expansão do PIB brasileiro, também reduzida, passou a ser de 2,37%.
Já o presidente Michel Temer disse que o Brasil deve fechar o ano com crescimento de 2% a 2,5%, "se Deus quiser".
A OCDE, no entanto, melhorou seus números em relação à economia brasileira no próximo ano.
O PIB do país deverá crescer 2,8% em 2019, segundo o estudo "Perspectivas Econômicas da OCDE". O documento, com previsões para a economia mundial, é publicado semestralmente.
Em fevereiro, no relatório específico sobre o Brasil, que não é membro da OCDE, a organização havia projetado expansão de 2,4% da economia em 2019. A estimativa era levemente superior à do estudo semestral anterior, de novembro, que previa avanço do PIB de 2,3% no próximo ano.
"A recuperação está se reforçando e o crescimento irá atingir 2,8% em 2019. Um sólido aumento do investimento reflete a melhoria na confiança graças às recentes reformas", diz a organização.
O estudo também afirma que "calibrar" os gastos públicos assegura forte potencial para tornar o crescimento econômico mais inclusivo e reduzir a corrupção.
De acordo com a OCDE, uma parte crescente do 15% do PIB gasto com benefícios sociais no Brasil é paga a famílias que não são de baixa renda.
No sistema de aposentadoria, a diferença entre benefícios e contribuições é desequilibrada e vantajosa para pessoas com renda mais alta, afirma a organização.
"Limitar aumentos futuros de benefícios sociais que na maioria das vezes beneficiam a classe média poderia financiar mais transferências de renda para os pobres, crianças e jovens, com um impacto mais forte na redução das desigualdades."
A OCDE afirma que o Bolsa Família "é um exemplo de sucesso" de programas de transferência de renda e ressalta que ele representa apenas 0,5% do PIB.
"Gastar mais com esse programa, aumentando os limites para ter direito e os níveis do benefício reduziria a pobreza e a desigualdade", diz o estudo.
O "crescimento inclusivo", com melhor acesso à educação, emprego, saúde e moradia, é um dos temas da reunião ministerial da OCDE que começa nesta quarta-feira e coincide com o lançamento do estudo da organização.
"Reforçar o foco nos gastos sociais para aqueles que mais precisam e redimensionar ineficazes isenções de impostos e subsídios para setores específicos da economia pode tornar os gastos públicos mais eficientes e mais inclusivos e frear oportunidades de corrupção", diz a OCDE sobre o Brasil.
No estudo, a organização se refere a gastos fiscais e subsídios para empresas do setor privado que criaram um terreno fértil para a corrupção, "sem nenhum benefício aparente para o bem-estar ou a produtividade".
"Uma grande e crescente parte dos benefícios sociais no Brasil é paga a famílias que não são pobres", afirma o estudo, para o qual o sistema previdenciário atual é favorável a pessoas com renda mais alta. Segundo a entidade, o país deveria investir mais em programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, e limitar aumentos daqueles que "na maioria da vezes" beneficiam a classe média.
Em suas projeções anteriores para a economia brasileira, divulgadas em fevereiro em um relatório específico sobre o país, a organização previa que o PIB cresceria 2,2% em 2018.
A estimativa da OCDE para o Brasil neste ano é menor do que a projeção do mercado: na última pesquisa Focus do Banco Central, divulgada após o início da greve dos caminhoneiros, a expectativa de expansão do PIB brasileiro, também reduzida, passou a ser de 2,37%.
Já o presidente Michel Temer disse que o Brasil deve fechar o ano com crescimento de 2% a 2,5%, "se Deus quiser".
A OCDE, no entanto, melhorou seus números em relação à economia brasileira no próximo ano.
O PIB do país deverá crescer 2,8% em 2019, segundo o estudo "Perspectivas Econômicas da OCDE". O documento, com previsões para a economia mundial, é publicado semestralmente.
Em fevereiro, no relatório específico sobre o Brasil, que não é membro da OCDE, a organização havia projetado expansão de 2,4% da economia em 2019. A estimativa era levemente superior à do estudo semestral anterior, de novembro, que previa avanço do PIB de 2,3% no próximo ano.
"A recuperação está se reforçando e o crescimento irá atingir 2,8% em 2019. Um sólido aumento do investimento reflete a melhoria na confiança graças às recentes reformas", diz a organização.
O estudo também afirma que "calibrar" os gastos públicos assegura forte potencial para tornar o crescimento econômico mais inclusivo e reduzir a corrupção.
De acordo com a OCDE, uma parte crescente do 15% do PIB gasto com benefícios sociais no Brasil é paga a famílias que não são de baixa renda.
No sistema de aposentadoria, a diferença entre benefícios e contribuições é desequilibrada e vantajosa para pessoas com renda mais alta, afirma a organização.
"Limitar aumentos futuros de benefícios sociais que na maioria das vezes beneficiam a classe média poderia financiar mais transferências de renda para os pobres, crianças e jovens, com um impacto mais forte na redução das desigualdades."
A OCDE afirma que o Bolsa Família "é um exemplo de sucesso" de programas de transferência de renda e ressalta que ele representa apenas 0,5% do PIB.
"Gastar mais com esse programa, aumentando os limites para ter direito e os níveis do benefício reduziria a pobreza e a desigualdade", diz o estudo.
O "crescimento inclusivo", com melhor acesso à educação, emprego, saúde e moradia, é um dos temas da reunião ministerial da OCDE que começa nesta quarta-feira e coincide com o lançamento do estudo da organização.
"Reforçar o foco nos gastos sociais para aqueles que mais precisam e redimensionar ineficazes isenções de impostos e subsídios para setores específicos da economia pode tornar os gastos públicos mais eficientes e mais inclusivos e frear oportunidades de corrupção", diz a OCDE sobre o Brasil.
No estudo, a organização se refere a gastos fiscais e subsídios para empresas do setor privado que criaram um terreno fértil para a corrupção, "sem nenhum benefício aparente para o bem-estar ou a produtividade".
O Maquiavel do iê-iê-iê
Num show em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, a orquestra executou os primeiros acordes de uma canção de muito sucesso desde os anos 1980, e o autor, Roberto Carlos, o rei do iê-iê- iê, permitiu-se uma introdução engajada. “Às vezes”, disse ele, “os fins justificam os meios. Meu carinho e meu respeito por todos os caminhoneiros que estão fazendo todo esse movimento. As causas que eles estão reivindicando com certeza não são causas só deles. São nossas causas. Meu abraço e meu carinho para esses nossos heróis caminhoneiros de todas as estradas. Para a gente realizar este show, por exemplo, temos o trabalho de caminhoneiros valentes. Caras que enfrentam coisas incríveis”. Em seguida, entoou os primeiros versos de uma canção de amor romântico descabelado, que tem tanto que ver com a saga “heroica” de seus personagens quanto a Marselhesa com a máquina de degolar do dr. Joseph-Ignace Guillotin.
O apoio de Roberto Carlos Braga, que era o alvo favorito dos engajados contra a ditadura militar por ser considerado o papa do estrelato “alienado” no Brasil, é algo a ser comemorado pelos “grevistas” das estradas como um feito realmente extraordinário. Até recentemente ele foi tão alheio a temas políticos que muitos atribuíam sua neutralidade suíça ao fato de se considerar realmente “rei” e, portanto, acima de meras querelas republicanas. Na verdade, imune a guerras que não dão lucro, como, por exemplo, pelos direitos humanos, ele sempre foi muito atento a causas que afetam seu patrimônio particular. Foi ao Senado com um grupo de estrelas defender a interferência estatal na atuação do Escritório Central de Arrecadação de Direitos (Ecad), na certa por sentir ameaçado seu naco no bolo autoral. Aderiu também à cruzada de famosos das artes para censurar biógrafos no mesmo Congresso Nacional, convencido de que incertos historiadores abelhudos não deviam ganhar rios de dinheiro à sua custa.
No ano passado, o prenome composto pelo qual ele zela muito, a ponto de processar para impedir o corretor imobiliário Roberto Cavalli de vender terrenos na praia do Conde, no litoral sul da Paraíba, usando as próprias iniciais, RC, foi citado falsamente em sites petistas. Segundo estes, ele teria dito no programa de Jô Soares que seria inaceitável o que está acontecendo com Lula e que o lugar do ex-dirigente sindical seria a Presidência da República. O portal boato.org desmascarou a fake news. Afinal, Jô não tinha mais um programa para chamar de seu e, ao contrário do que os apoiadores do petista disseminaram, o que se encontrou dele sobre a Lava Jato, cujas investigações já levaram Lula à cadeia após condenação em duas instâncias, foi chamar o juiz federal Sergio Moro de “maravilhoso”.
Agora o PT e a direita pitbull, que quer dois em um – Bolsonaro eleito presidente e intervenção militar – encontraram, enfim, uma declaração indiscutível em que novamente o criador da Jovem Guarda apoiou uma luta na qual a esquerda larápia e a direita truculenta se empenham com fervor. De verdade, o autor de Se Você Pensa meteu os pés pelas mãos. Sua homenagem aos heróis das redes sociais e novos veículos do “fora Temer” começa com o famoso lema comuno-fascista, que o georgiano Stalin viveu para confirmar no poder: “Os fins justificam os meios” – falsamente atribuído a Nicoló Maquiavel, conselheiro político, cujas pérolas da Realpolitik são populares há seis séculos.
Logo em seguida, Sua Majestade da guitarra elétrica decretou édito imperial conforme o qual as causas dos caminhoneiros são “as nossas”. De quem mesmo, cara-pálida? O decreto real merece um reparo que deve ser estendido aos noticiários nos meios de comunicação. A obstrução de pontos nas estradas de todo o País tem sido chamado de “greve”, definida no Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa como “cessação voluntária e coletiva do trabalho, decidida por assalariados para obtenção de benefícios materiais e/ou sociais, direitos trabalhistas, etc., ou ainda para se garantirem as conquistas adquiridas que, porventura, estejam ameaçadas de supressão”. Nos pontos de obstrução nas estradas (quebra da liberdade de ir e vir), reúnem-se, segundo os próprios participantes dos bloqueios, motoristas autônomos. Ou seja, que não trabalham para ninguém e, portanto, não fazem greves. A duração do movimento e sua pauta de reivindicações autorizam quem acredita que eles contem com apoio e infra-estrutura de transportadoras de cargas. Se for verdade, já é o caso de apontar a segunda ilegalidade, ou seja o locaute, aportuguesamento da expressão inglesa lock out, paralisação de patrões, proibida por lei..
O desgoverno federal tornou-se o principal responsável pelo caos gerado pelo desabastecimento de derivados de petróleo, que paralisou fábricas, aeroportos e transportes que não consomem diesel e centrais e mercados de frutas, verduras, carnes e hortaliças, por se ter mostrado incapaz de entender e reprimir à altura o terceiro crime cometido pelos soit-disants manifestantes: a chantagem. Na prática, uma espécie de sequestro em que os produtores, comerciantes e consumidores de outros derivados de petróleo e alimentos, incluindo o sr. Braga, somos vítimas, e não beneficiários eventuais das exigências de suas pautas.
Estes são os caminhoneiros autônomos, as transportadoras, as grandes empresas proprietárias de frotas que consomem preferencialmente diesel, cujo preço passou a ser subsidiado com a subtração de 46 centavos por litro. Os sacrifícios a que Temer se referiu em sua fala do trono no domingo serão não do governo, como disse, mas do contribuinte, que arcará com o pagamento do resgate no valor de R$ 13,5 bilhões, divididos em prestações nos sete meses que ainda restam ao desgoverno Temer.
A benemerência do constitucionalista de Tietê com o chapéu dos outros brasileiros, entre os quais 24 milhões de desempregados e desiludidos, atenderá às transportadoras, como ele fez questão de acentuar, retirando-as das listas das empresas que não terão desoneradas suas folhas de pagamento. Criará uma figura estranha à pretensa ideologia liberal da atual gestão, qual seja, a reserva de mercado dos fretes da Companhia de Abastecimento (Conab). E revolucionará a relação entre capital e trabalho com o estabelecimento de um tabelamento mínimo do frete, uma jabuticaba inacreditável em que o doutor Michel superará seus dois mestres nesse gênero de malabarismos: o colega José Sarney e a ex-titular do cargo Dilma Vana Rousseff, ambos já batidos pelo discípulo no quesito impopularidade extrema.
Em favor de RC, o Único, pode-se dizer que suas vantagens pecuniárias, com o aumento da circulação da canção O Caminhoneiro, não podem ser comparadas nem com esses benefícios citados nem com os outros, de natureza política. O ex-presidente Lula, que está preso em Curitiba e consegue fazer-se ouvir do lado de fora da cadeia sempre que é visitado por algum companheiro, criticou a maneira como o desgoverno Temer tem conduzido a “greve” dos caminhoneiros contra o aumento no preço dos combustíveis e que paralisou o país ao longo da semana. Segundo o líder da oposição na Câmara, José Guimarães (PT-CE), Lula lhe disse: “A que ponto chegamos, o preço da gasolina, uma greve deste porte, cadê o governo, o governo não faz nada?”. Não é mesmo emocionante?
De Lula, contudo, não se podia esperar nada diferente. O mesmo não se pode dizer de Eunício Oliveira, presidente do Senado e correligionário do presidente, que se manifestou contra a política de preços da Petrobrás, à qual atribuiu a crise. Também pudera: o cidadão é candidato à reeleição e seu MDB é um dos 24 partidos que, sob a liderança do presidenciável Ciro Gomes, do PDT, quer reeleger o governador petista do Ceará.
O oportunismo populista deve ser considerado estranho na voz de Roberto. O mesmo se pode dizer do vice-presidente do Senado, Cássio Cunha Lima, que rasgou os discursos liberais de seu partido, o PSDB, ao pedir a cabeça de Pedro Parente pelo crime de estar trabalhando corretamente para evitar a falência da Petrobrás, empreendida pela dupla Lula-Dilma. Ou da governadora do Paraná, Cida Borghetti, mulher do ex-ministro da Saúde de Temer, Ricardo Barros, ao declarar que no seu Estado não permitirá que tropas desmanchem os piquetes dos recalcitrantes praticantes dos crimes continuados de obstrução à mobilidade, garantida pela Constituição, locaute, sequestro e chantagem.
O apoio de Roberto Carlos Braga, que era o alvo favorito dos engajados contra a ditadura militar por ser considerado o papa do estrelato “alienado” no Brasil, é algo a ser comemorado pelos “grevistas” das estradas como um feito realmente extraordinário. Até recentemente ele foi tão alheio a temas políticos que muitos atribuíam sua neutralidade suíça ao fato de se considerar realmente “rei” e, portanto, acima de meras querelas republicanas. Na verdade, imune a guerras que não dão lucro, como, por exemplo, pelos direitos humanos, ele sempre foi muito atento a causas que afetam seu patrimônio particular. Foi ao Senado com um grupo de estrelas defender a interferência estatal na atuação do Escritório Central de Arrecadação de Direitos (Ecad), na certa por sentir ameaçado seu naco no bolo autoral. Aderiu também à cruzada de famosos das artes para censurar biógrafos no mesmo Congresso Nacional, convencido de que incertos historiadores abelhudos não deviam ganhar rios de dinheiro à sua custa.
No ano passado, o prenome composto pelo qual ele zela muito, a ponto de processar para impedir o corretor imobiliário Roberto Cavalli de vender terrenos na praia do Conde, no litoral sul da Paraíba, usando as próprias iniciais, RC, foi citado falsamente em sites petistas. Segundo estes, ele teria dito no programa de Jô Soares que seria inaceitável o que está acontecendo com Lula e que o lugar do ex-dirigente sindical seria a Presidência da República. O portal boato.org desmascarou a fake news. Afinal, Jô não tinha mais um programa para chamar de seu e, ao contrário do que os apoiadores do petista disseminaram, o que se encontrou dele sobre a Lava Jato, cujas investigações já levaram Lula à cadeia após condenação em duas instâncias, foi chamar o juiz federal Sergio Moro de “maravilhoso”.
Agora o PT e a direita pitbull, que quer dois em um – Bolsonaro eleito presidente e intervenção militar – encontraram, enfim, uma declaração indiscutível em que novamente o criador da Jovem Guarda apoiou uma luta na qual a esquerda larápia e a direita truculenta se empenham com fervor. De verdade, o autor de Se Você Pensa meteu os pés pelas mãos. Sua homenagem aos heróis das redes sociais e novos veículos do “fora Temer” começa com o famoso lema comuno-fascista, que o georgiano Stalin viveu para confirmar no poder: “Os fins justificam os meios” – falsamente atribuído a Nicoló Maquiavel, conselheiro político, cujas pérolas da Realpolitik são populares há seis séculos.
Logo em seguida, Sua Majestade da guitarra elétrica decretou édito imperial conforme o qual as causas dos caminhoneiros são “as nossas”. De quem mesmo, cara-pálida? O decreto real merece um reparo que deve ser estendido aos noticiários nos meios de comunicação. A obstrução de pontos nas estradas de todo o País tem sido chamado de “greve”, definida no Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa como “cessação voluntária e coletiva do trabalho, decidida por assalariados para obtenção de benefícios materiais e/ou sociais, direitos trabalhistas, etc., ou ainda para se garantirem as conquistas adquiridas que, porventura, estejam ameaçadas de supressão”. Nos pontos de obstrução nas estradas (quebra da liberdade de ir e vir), reúnem-se, segundo os próprios participantes dos bloqueios, motoristas autônomos. Ou seja, que não trabalham para ninguém e, portanto, não fazem greves. A duração do movimento e sua pauta de reivindicações autorizam quem acredita que eles contem com apoio e infra-estrutura de transportadoras de cargas. Se for verdade, já é o caso de apontar a segunda ilegalidade, ou seja o locaute, aportuguesamento da expressão inglesa lock out, paralisação de patrões, proibida por lei..
O desgoverno federal tornou-se o principal responsável pelo caos gerado pelo desabastecimento de derivados de petróleo, que paralisou fábricas, aeroportos e transportes que não consomem diesel e centrais e mercados de frutas, verduras, carnes e hortaliças, por se ter mostrado incapaz de entender e reprimir à altura o terceiro crime cometido pelos soit-disants manifestantes: a chantagem. Na prática, uma espécie de sequestro em que os produtores, comerciantes e consumidores de outros derivados de petróleo e alimentos, incluindo o sr. Braga, somos vítimas, e não beneficiários eventuais das exigências de suas pautas.
Estes são os caminhoneiros autônomos, as transportadoras, as grandes empresas proprietárias de frotas que consomem preferencialmente diesel, cujo preço passou a ser subsidiado com a subtração de 46 centavos por litro. Os sacrifícios a que Temer se referiu em sua fala do trono no domingo serão não do governo, como disse, mas do contribuinte, que arcará com o pagamento do resgate no valor de R$ 13,5 bilhões, divididos em prestações nos sete meses que ainda restam ao desgoverno Temer.
A benemerência do constitucionalista de Tietê com o chapéu dos outros brasileiros, entre os quais 24 milhões de desempregados e desiludidos, atenderá às transportadoras, como ele fez questão de acentuar, retirando-as das listas das empresas que não terão desoneradas suas folhas de pagamento. Criará uma figura estranha à pretensa ideologia liberal da atual gestão, qual seja, a reserva de mercado dos fretes da Companhia de Abastecimento (Conab). E revolucionará a relação entre capital e trabalho com o estabelecimento de um tabelamento mínimo do frete, uma jabuticaba inacreditável em que o doutor Michel superará seus dois mestres nesse gênero de malabarismos: o colega José Sarney e a ex-titular do cargo Dilma Vana Rousseff, ambos já batidos pelo discípulo no quesito impopularidade extrema.
Em favor de RC, o Único, pode-se dizer que suas vantagens pecuniárias, com o aumento da circulação da canção O Caminhoneiro, não podem ser comparadas nem com esses benefícios citados nem com os outros, de natureza política. O ex-presidente Lula, que está preso em Curitiba e consegue fazer-se ouvir do lado de fora da cadeia sempre que é visitado por algum companheiro, criticou a maneira como o desgoverno Temer tem conduzido a “greve” dos caminhoneiros contra o aumento no preço dos combustíveis e que paralisou o país ao longo da semana. Segundo o líder da oposição na Câmara, José Guimarães (PT-CE), Lula lhe disse: “A que ponto chegamos, o preço da gasolina, uma greve deste porte, cadê o governo, o governo não faz nada?”. Não é mesmo emocionante?
De Lula, contudo, não se podia esperar nada diferente. O mesmo não se pode dizer de Eunício Oliveira, presidente do Senado e correligionário do presidente, que se manifestou contra a política de preços da Petrobrás, à qual atribuiu a crise. Também pudera: o cidadão é candidato à reeleição e seu MDB é um dos 24 partidos que, sob a liderança do presidenciável Ciro Gomes, do PDT, quer reeleger o governador petista do Ceará.
O oportunismo populista deve ser considerado estranho na voz de Roberto. O mesmo se pode dizer do vice-presidente do Senado, Cássio Cunha Lima, que rasgou os discursos liberais de seu partido, o PSDB, ao pedir a cabeça de Pedro Parente pelo crime de estar trabalhando corretamente para evitar a falência da Petrobrás, empreendida pela dupla Lula-Dilma. Ou da governadora do Paraná, Cida Borghetti, mulher do ex-ministro da Saúde de Temer, Ricardo Barros, ao declarar que no seu Estado não permitirá que tropas desmanchem os piquetes dos recalcitrantes praticantes dos crimes continuados de obstrução à mobilidade, garantida pela Constituição, locaute, sequestro e chantagem.
De Tancredo@pol para Todo Mundo
Quem viveu o meu tempo deve lembrar. Em 1981, o último dos generais presidentes perdeu a credibilidade com o atentado do Riocentro e a saúde com um enfarte. Um ano depois, ele perdeu o controle da economia, com a quebra do país. Em 1984, o general João Baptista Figueiredo perdeu o controle da rua com a campanha das Diretas. Seu sistema nervoso explodiu, e ele tentou criar crises institucionais, disse coisas que não faziam nexo e acabou indo embora do palácio por uma porta lateral, pedindo para ser esquecido. Teve tanto êxito nisso, que essas reminiscências parecem conversa de defunto.
Eu governava Minas, percebi que a campanha das Diretas naufragaria, e disso resultaria minha eleição, pelo sistema indireto criado para perpetuar o poder dos interesses que apoiavam a ditadura. Passei todo o tempo da campanha com o pé no freio. Nunca usei informações nem dei passos que agravariam a crise. Tirei as bandeiras vermelhas dos comícios. Acabei com o regime sem gritar “abaixo a ditadura”.
Digo isso porque a situação de Michel Temer ficou parecida com a de Figueiredo. Seus gestos e sua calma beduína não se assemelham aos do general cavalariano, mas seu palácio lembra o dele em 1984, o de Vargas em 1954, o de João Goulart em 1964 e o de Costa e Silva em 1968. Tudo o que podia dar errado, errado dava. E se nada de errado podia acontecer, o presidente e seus conselheiros criaram novas encrencas.
Temer teve aquela conversa desastrosa com Joesley Batista. Quando começou o movimento dos caminhoneiros e das transportadoras, foi para uma cerimônia banal no Rio. Lá atrás, Gregório Fortunato, chefe dos capangas de Getúlio, mandou matar Carlos Lacerda. Dezenove dias depois, matou-se Vargas. Em março de 1964, contra minha opinião, Jango foi à reunião com os sargentos no Automóvel Club, e seis dias depois estava asilado no Uruguai. Em julho de 1968, Costa e Silva repeliu o estado de sítio, que duraria, no máximo, quatro meses. Em dezembro, baixou o AI-5, que durou dez anos. Como não falo mal de senhoras, passo longe de Dilma Rousseff.
Nessa estranha crise dos caminhoneiros, os colaboradores de Temer deram entrevistas desconexas e inúteis. Nem ceder ele soube. Como diria o divertido jornalista Nertan Macedo, com quem almocei outro dia, o governo foi para a televisão com a imponência de senadores romanos e a inteligência de Mike Tyson.
Quem não gosta de Temer tem todos os motivos para se regozijar, mas não deve se esquecer de que o futuro está no próximo passo, e só nele. Em outubro será escolhido um novo presidente. Muita gente dirá que as escolhas disponíveis são pobres. Nada posso fazer, mas novamente peço-lhes que olhem para trás. Em janeiro de 1964 o Brasil tinha dois candidatos: Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek. No clima polarizado daqueles dias, uma parte da militância e da elite política não aceitava a ideia de empossar o algoz de Vargas ou o mineiro que chamava de corrupto. Três meses depois começou uma noite que durou 21 anos.
Durante a treva, o mais entusiasmado dos lacerdistas admitia que teria sido preferível uma vitória de JK. O mesmo se deu com o outro lado. Aliás, em 1967 os dois juntaram-se, mas já era tarde.
Saúdo meus compatriotas e despeço-me.
Tancredo Neves.
Elio Gaspari
A seleção que despreza sua gente
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| Mauro Pimentel (AFP) |
Resumo da ópera: teve tentativa de invasão, frustração e muita desorganização. Na Copa de 2014, a Granja Comary já havia reproduzido um retrato fiel da desigualdade social no Brasil. Boa parte dos treinos era aberta a torcedores, porém, somente àqueles que moram no condomínio fechado vizinho ao complexo e a seus convidados VIPs. Condôminos resolveram lucrar em cima do privilégio e passaram a cobrar por convites. Ter o nome na lista custava entre 50 e 100 reais. Os treinos “abertos” serviram só para reforçar benesses dos ricos e tornar a seleção ainda mais inacessível aos pobres.
A Copa “padrão FIFA” tinha ingressos proibitivos para quem depende de salário mínimo padrão Brasil. Houve casos de abastados que torraram até 5.000 reais pelo direito de assistir à humilhante eliminação diante da Alemanha na semifinal. O encarecimento virou regra pós-Copa. Estádios se converteram em espaços elitizados e os clubes, na esteira das novas arenas, inflacionaram a arquibancada, chancelados pela política de preços da CBF. Os jogos do Brasil em casa pelas Eliminatórias foram um acinte ao bom senso num cenário de crise econômica. Em Porto Alegre, contra o Equador, as entradas custaram, em média, 214 reais. Mais de 20.000 lugares na Arena do Grêmio ficaram vazios. Contra o Paraguai, na Arena Corinthians, que confirmou a classificação antecipada para o Mundial, o preço dos ingressos variou entre 100 e 1.000 reais. Também em São Paulo, a partida contra o Chile, realizada do Allianz Parque, alcançou renda superior a 15 milhões de reais, um recorde nacional. O bilhete mais barato, desconsiderando a meia-entrada, saía por 250 reais.
Quantos brasileiros podem se dar ao luxo de pagar 250 reais para ver um jogo de futebol? Talvez seja pouco para aquele 1% da população que concentra uma enorme fatia das riquezas, mas representa quase 1/3 do rendimento mensal de mais da metade dos trabalhadores do país. A CBF, que fatura caminhões de dólares por ano, não teve sensibilidade para compreender que um treino aberto em Teresópolis é muito pouco para um time que diz representar mais de 200 milhões de torcedores. Depois do fracasso na última Copa, a confederação sequer moveu esforços para reaproximar a seleção de seu povo. Preferiu seguir caminho inverso ao afastá-la de quem não tem dinheiro sobrando.
Um quadro ainda mais grave se levarmos em conta que, dos 23 jogadores convocados para a Copa, apenas três (Cássio, Fágner e Geromel) atuam no Brasil. Nos acostumamos a ver a seleção e nossos talentos pela TV. Interesses de patrocinadores e acordos comerciais sempre falam mais alto. Os dois únicos amistosos antes da Copa, contra Áustria e Croácia, serão promovidos no exterior por intermédio da Pitch International, empresa investigada pela Justiça americana no escândalo de corrupção da FIFA. Ao contrário dos torcedores comuns, representantes e convidados de patrocinadores da CBF tiveram livre acesso às atividades da seleção na Granja Comary.
A comissão técnica chegou a cogitar um jogo de despedida no Brasil, mas a cúpula da confederação não encontrou brecha na agenda para viabilizar o desejo de Tite. Aquele clima de oba-oba inflado em 2014, de fato, é totalmente dispensável. Mas o torcedor brasileiro, carente de ídolos e violentado pela elitização de sua própria seleção, merecia, no mínimo, uma despedida com ingressos a preços populares e estádio cheio – de preferência, o Maracanã, pelo simbolismo. Ou, pelo menos, um treino de verdade, portões abertos, como fez a Argentina ao receber 30.000 torcedores no estádio do Huracán antes de enfrentar o Haiti na mítica Bombonera. Dirigentes que mandam em nosso futebol parecem habitar outro planeta, incapazes de reconhecer o valor de quem se dispõe a enfrentar fila e pegar senha sonhando resgatar, em frações de um minuto, o vínculo perdido com estrelas tão distantes.
terça-feira, 29 de maio de 2018
Podem parar as provocações, porque os militares não aceitam fazer intervenção
Como reflexo da decepção com os políticos em geral, vem crescendo o apoio a uma intervenção militar, não há a menor dúvida. Nos botecos da vida, não se fala em outra coisa. E a grave crise provocada pelos caminhoneiros aumentou a pressão. Agora, já na chamada undécima hora, quando os postos começaram a ser reabastecidos e se esperava o final do protesto, aparece em cena um ilustre desconhecido chamado José da Fonseca Lopes, da Associação Brasileira dos Caminhoneiros, para revelar que a greve não acabou e há mobilização para os motoristas defenderem a intervenção militar.
Pessoalmente, não acredito nessa história mal contada, sem pé nem cabeça, pois o tal líder dos caminhoneiros disse que ia revelar ao governo os “intervencionistas”, porém nada fez.
Pessoalmente, não acredito nessa história mal contada, sem pé nem cabeça, pois o tal líder dos caminhoneiros disse que ia revelar ao governo os “intervencionistas”, porém nada fez.
Em política as aparências geralmente enganam. Nesta quarta-feira o mais provável é que os grevistas esvaziem o movimento e voltem às estradas. Posso estar errado, mas é o que eu penso.
O fato concreto é que muitos defensores da intervenção militar esqueceram o conselho de Garrincha e não consultaram os russos. Ou seja, não perguntaram aos oficiais generais o que eles acham dessa possibilidade. Se tivessem feito essa consulta, saberiam que os militares não pretendem intervir na política.
Acompanham tudo de perto, podem fazer algumas operações pontuais, se forem especificamente convocados pelo governo, mas não pretendem tomar o poder.
Em 3 de abril, véspera do julgamento do habeas corpus de Lula da Silva no Supremo, quando os ministros poderiam soltá-lo e até garantir sua candidatura, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, fez uma clara advertência. Divulgou uma mensagem dizendo que a instituição “julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade”, acrescentando que o Exército também defende o “respeito à Constituição, à paz social e à Democracia”, e se mantém atento às suas missões institucionais.
O general destacou , ainda que “nessa situação que vive o Brasil”, é preciso questionar às instituições e ao povo quem “está pensando no bem do país” e “quem está preocupado apenas com interesses pessoais”.
Felizmente, o Supremo soube captar a mensagem do chefe militar e manteve Lula na cadeia, deixando-o impossibilitado de se registrar como candidato, devido à Lei da Filha Limpa.
A possibilidade de intervenção militar era concreta, palpável, definida. No entanto, como o Supremo recuou, os chefes militares também fizeram uma retirada estratégica. Estão atentos, podem ser convocados para resolver problemas que ameacem a ordem democrática, mas não ultrapassarão a fronteira institucional.
Sabem que foram os civis que criaram a situação em que o país se encontra e não pretendem assumir a responsabilidade de recuperar a nação. Basta constatar o que aconteceu nesta greve dos caminhoneiros. O Exército nem entrou em ação, fez apenas uma presença discreta e deixou que o problema fosse se resolvendo sozinho.
Depois de oito dias de greve, o ministro da Defesa, general Joaquim Silva e Luna disse ontem que ainda não é possível afirmar quando o protesto terminará. Sinceramente, esperava-se que ele dissesse algo assim: “Todas as reivindicações foram atendidas, a greve tem de acabar agora!”. Mas acontece que ele não sabe jogar no ataque, está conformado em ficar apenas na defesa.
O fato concreto é que muitos defensores da intervenção militar esqueceram o conselho de Garrincha e não consultaram os russos. Ou seja, não perguntaram aos oficiais generais o que eles acham dessa possibilidade. Se tivessem feito essa consulta, saberiam que os militares não pretendem intervir na política.
Acompanham tudo de perto, podem fazer algumas operações pontuais, se forem especificamente convocados pelo governo, mas não pretendem tomar o poder.
Em 3 de abril, véspera do julgamento do habeas corpus de Lula da Silva no Supremo, quando os ministros poderiam soltá-lo e até garantir sua candidatura, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, fez uma clara advertência. Divulgou uma mensagem dizendo que a instituição “julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade”, acrescentando que o Exército também defende o “respeito à Constituição, à paz social e à Democracia”, e se mantém atento às suas missões institucionais.
O general destacou , ainda que “nessa situação que vive o Brasil”, é preciso questionar às instituições e ao povo quem “está pensando no bem do país” e “quem está preocupado apenas com interesses pessoais”.
Felizmente, o Supremo soube captar a mensagem do chefe militar e manteve Lula na cadeia, deixando-o impossibilitado de se registrar como candidato, devido à Lei da Filha Limpa.
A possibilidade de intervenção militar era concreta, palpável, definida. No entanto, como o Supremo recuou, os chefes militares também fizeram uma retirada estratégica. Estão atentos, podem ser convocados para resolver problemas que ameacem a ordem democrática, mas não ultrapassarão a fronteira institucional.
Sabem que foram os civis que criaram a situação em que o país se encontra e não pretendem assumir a responsabilidade de recuperar a nação. Basta constatar o que aconteceu nesta greve dos caminhoneiros. O Exército nem entrou em ação, fez apenas uma presença discreta e deixou que o problema fosse se resolvendo sozinho.
Depois de oito dias de greve, o ministro da Defesa, general Joaquim Silva e Luna disse ontem que ainda não é possível afirmar quando o protesto terminará. Sinceramente, esperava-se que ele dissesse algo assim: “Todas as reivindicações foram atendidas, a greve tem de acabar agora!”. Mas acontece que ele não sabe jogar no ataque, está conformado em ficar apenas na defesa.
'Vaselina' pra bilhar
Nenhum dos pré-candidatos demonstrou ter noção da gravidade do problema. Não sei o que esperar das eleições diante de respostas tão esvaziadas. Foi um show de “vaselina” e contradiçõesSérgio Abranches, sociólogo e cientista político
O momento é mais delicado que o impeachment
Mas, na última semana, o país resvalou a dúvida a respeito disto. Até mais que o impeachment de Dilma Rousseff, a greve de caminhoneiros – ou o lockout das empresas de transporte — foi o acontecimento mais delicado, em riscos e eventuais consequências, para a democracia do país. Os desacertos revelam uma torrente de erros históricos e também explicitam a incapacidade de diálogo e a dificuldade de encontrar saídas.
Sem explorar o potencial hidroviário e tendo abandonado as ferrovias, o país optou pelo modelo de transporte rodoviário, péssima escolha para quem depende de petróleo. Mais recentemente, o BNDES dos governos do PT deu enorme incentivo à ampliação da frota, sem se importar com os riscos do excesso. O mercado foi inundado por um acréscimo de 83% no número de caminhões. Ao mesmo tempo, o crescimento econômico secou e os fretes escassearam. O desastre foi inevitável.
Já no governo Temer, a nova mentalidade da Petrobrás (by PSDB) considerou estar acima dos problemas da economia real. Bastava-lhe o interesse de acionistas minoritários. O choque de credibilidade e a busca da confiança do mercado eram pedra-de-toque do próprio governo. Esqueceu-se, porém, o papel fundamental do acionista majoritário, o Estado: zelar pelo mínimo indispensável de equilíbrio social.
No acumulado de erros históricos, ninguém considerou que poderia dar M… Nenhuma força política está isenta de crítica.
Ainda assim, o que se poderia chamar de “governo” Temer comeu mosca ao não se antecipar aos problemas, no momento em que o mercado internacional e a política de preços de sua estatal colidiriam com uma massa incomum de trabalhadores. Não é conversa mole o slogan corporativista que diz que “sem o caminhoneiro, o Brasil para”.
No sábado o Jornal Nacional, da TV Globo, mostrou que em ofício de outubro passado a Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam) alertou a Casa Civil para as dificuldades do setor. Em caráter de urgência, reiterou recentemente o apelo ao presidente da República. Nem Eliseu Padilha, nem Michel Temer se tocaram. Mais vitais eram as articulações para o salvamento da própria pele. Quando se deram conta, o Brasil parou de fato.
O governo também parece ter errado no diagnóstico da crise. Demorou a atinar para a influência de empresas do setor sobre o movimento de trabalhadores. Nos últimos dias percebeu-se indícios de lockout, com transportadoras fornecendo apoio aos grevistas, um crime que exigem rápida punição, com multas e prisões.
Além disso, a turma de Michel Temer inverteu o mais rudimentar princípio de negociação: primeiro endurecer, para só depois ceder. Começando pelo fim, despertou-se o sentimento de que os motoristas poderiam retirar mais da contenda. Talvez pela consciência da fraqueza, talvez pela íntima percepção da pouca credibilidade que carrega, já nos primeiros dias o governo mostrou estar nas cordas.
Na sexta-feira, o governo dava sinais de pânico. E se errou ao ceder, resolveu exceder no endurecimento. Na incapacidade de articulação com governadores e na incerteza de contar com o suporte das polícias dos estados, mais uma vez, recorreu às Forças Armadas. Viciado vai ficando no uso de um recurso mais que excepcional.
Deu-se então o paradoxo: quem deveria sentir-se acuado pela força acabou por pedir a intervenção da caserna, não contra si, mas em desfavor do próprio governo e dos políticos em geral. A antipolítica ganhou os ares, apelos pelo uso da força foram explícitos. Boatos expandiram-se. Namorou-se o retrocesso institucional. E o mais assustador, a insensatez recebeu franco apoio.
Sentindo a faca no pescoço, na noite de domingo, Michel Temer foi a TV para capitular. Mais uma vez, cedeu amplamente. Ao fundo, ouviu-se um ressuscitado rumor de panelas… Agiu no limite de suas debilitadas forças para evitar mau maior: a crise de desabastecimento, a paralisia das cidades, o caos no país. O problema é ter exposto o nervo que será fustigado: recorrer aos militares foi bravata. Riscos e ameaças não cessam com armistícios desse tipo.
Como não poderia deixar de ser, no paralelo disparam os cálculos eleitorais: por ter agido com maior desenvoltura que a trôpega tropa de Temer, o governador de São Paulo ganhou luzes. Márcio França não mais será um desconhecido. Mesmo ao final esvaziado pelo ciúme de adversários, despertou a atenção que precisava. E de forma positiva.
Já a imperícia do governo federal o afunda ainda um pouco mais. Sobram respingos para os candidatos de algum modo identificados com Michel Temer. Por sua vez, a radicalização favorece nomes e discursos mais agressivos e voluntaristas — à esquerda e, sobretudo, à direita. Brilham os olhos dos postulantes a salvador da pátria.
No deserto de liderança política, questões estruturais são abandonadas diante da aflição das crises agudas. Cego fica o olhar para o futuro. O paliativo torna-se a norma e nada é mais brasileiro que a gambiarra. Não há mal que não possa ser piorado. Mais que do momento, o drama é do lugar: não há sociedade, há briga de torcidas; não há Congresso, há cartório; não há economia, há uma feira ruidosa. Não há governo, há um vazio. Se não é um país, será um abismo?
Presidente eleito terá de governar já na transição
Além dos reflexos econômicos, a crise dos caminhões deixará marcas políticas. O governo já havia entrado em colapso ético em maio de 2017, quando explodiu o grampo do Jaburu. Na crise atual, o que se convencionou chamar de gestão Temer viveu um apagão administrativo. No momento, Temer dispõe de uma equipe inepta, uma base congressual estilhaçada e uma autoridade que cabe numa caixa de fósforos. Tudo isso leva o mercado, a sociedade e os atores políticos a desligarem o presidente da tomada.
Entre o colapso moral de maio de 2017 e o apagão de maio de 2018, o desgoverno de Temer operou em duas velocidades que podem ser consideradas insultuosas. Moralmente, foi ligeiro como um punguista. Gerencialmente, foi lento como uma lesma. A autoridade de Temer ruiu porque a sociedade tem a exata percepção de que honestidade e eficiência são como virgindade. Quem perdeu não recupera.
A crise dos caminhões fez de Temer um presidente terminal. Ele não deixará a Presidência, terá alta. Sairia em 1º de janeiro de 2019. Mas, na prática, seu mandato será encurtado para 28 de outubro. Nesse dia, o brasileiro escolherá, em segundo turno, o próximo presidente da República. A realidade forçará o presidente eleito a iniciar o novo governo já na fase de transição. Temer, que se queixava de ser tratado por Dilma como um vice “decorativo”, permanecerá no Planalto até 1º janeiro como um vaso quebrado à espera de ser removido para o entulho da história.
Entre o colapso moral de maio de 2017 e o apagão de maio de 2018, o desgoverno de Temer operou em duas velocidades que podem ser consideradas insultuosas. Moralmente, foi ligeiro como um punguista. Gerencialmente, foi lento como uma lesma. A autoridade de Temer ruiu porque a sociedade tem a exata percepção de que honestidade e eficiência são como virgindade. Quem perdeu não recupera.
A crise dos caminhões fez de Temer um presidente terminal. Ele não deixará a Presidência, terá alta. Sairia em 1º de janeiro de 2019. Mas, na prática, seu mandato será encurtado para 28 de outubro. Nesse dia, o brasileiro escolherá, em segundo turno, o próximo presidente da República. A realidade forçará o presidente eleito a iniciar o novo governo já na fase de transição. Temer, que se queixava de ser tratado por Dilma como um vice “decorativo”, permanecerá no Planalto até 1º janeiro como um vaso quebrado à espera de ser removido para o entulho da história.
O custo da embromação
No domingo, 26 de outubro de 2014, quando Dilma foi reeleita, o problema já dormitava em sua mesa no Planalto. Nem prestou atenção, até porque vivia um paradoxal “luto” da vitória, segundo a descrição feita pelo aliado Lula, no livro “A verdade vencerá”: “A sensação que tive foi de que ela não tinha gostado de ganhar.” Ambos governaram segurando os preços da Petrobras.
Ela demorou a reagir. Em fevereiro de 2015 houve bloqueio de rodovias, sob a alegação de que mais de 90% do frete entre São Paulo e Nordeste estavam sendo consumidos no custo de óleo diesel, pedágio e manutenção dos veículos. Dilma autorizou Miguel Rossetto (PT-RS), chefe da Secretaria de Governo, a receber representantes do setor. Depois do carnaval.
Duas semanas depois, sancionou em ato fechado a Lei dos Caminhoneiros, aprovada pelo Congresso. Rossetto tratou-a como dádiva pela “liberação das rodovias”. A lei previa coisas não efetivadas, como isenção de pedágio para caminhão vazio — anunciada de novo no último domingo, agora ao custo de R$ 50 milhões mensais.
Nada aconteceu nos oito meses seguintes de 2015, além de três reuniões, a última num certo “Departamento de Diálogos Sociais” do Planalto. Até que na terça-feira 9 de novembro, caminhões pararam em 14 estados. José Eduardo Cardozo (PT-SP), ministro da Justiça, anunciou aumento de multa por bloqueio.
Os protestos voltaram em janeiro de 2016. Dilma acenou com uso da força: “Meu governo não ficará quieto”. Cardozo enxergou “vários crimes”, e o ministro dos Transportes, César Borges (DEM-BA), viu conspiração. As conversas só foram retomadas em abril, cinco semanas antes do afastamento de Dilma da Presidência.
Em agosto, sob Temer, caminhoneiros se queixaram no Senado dos compromissos não cumpridos. Repetiram advertências sobre “parar o país”. Promessas legislativas adormeciam.
Quando Temer completou o primeiro ano no Planalto, transportadoras paulistas divulgaram um video sobre como fazer “a sociedade entrar em colapso”. O governo atravessou os 19 meses seguintes fingindo que o problema não existia. Na quinta-feira 5 de outubro de 2017, chegou outra advertência à Casa Civil. Temer foi visitar a base espacial, no Maranhão. E o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB-RS), foi para casa, em Porto Alegre, em voo da FAB por “motivo de segurança”.
Passaram-se sete meses. No último 14 de maio, novo documento chegou ao Planalto. Nele, pedia-se que “o governo leve mais a sério!!!” Ameaçava-se: “Imagine o Brasil ficar sem transporte por uma semana, ou mais???” Temer e Padilha estavam dedicados à campanha “O Brasil voltou, 20 anos em 2”. E o chefe da Secretaria de Governo, Carlos Marun (PMDB-MS), curtia Nova York.
Novo aviso aterrissou no palácio 48 horas depois: “É altamente inflamável, como palha seca”. Indicava até a data (21/5) dos protestos. Nesse enredo de 42 meses ninguém se mexeu na máquina de 53 mil órgãos, com mais de 49.500 chefes, espalhados por 1.400 cidades. Deu nisso aí.
Terra de zumbis
Hoje temos um sistema morto que não representa ninguém. Está morto, mas continua de péJoão Moreira Salles, documentarista:
Quadrilha
Alberto que achacava Ferreira que achacava Márcio que achacava Oliveira que achacava Leandro que achacava Leonardo que achacava Paulo que achacava Pedro que achacava Nestor que achacava André que achacava Carlos que achacava Marcelo que achacava Coelho que achacava Santos que achacava Viana que achacava Eduardo que achacava Arantes que achacava Mohamed que achacava Fernando que achacava Augusto que achacava Galdino que achacava Jayme que achacava Ricardo que achacava Pinheiro que achacava Nogueira que achacava Moura que achacava Camargo que achacava Lucas que achacava Maria que achacava Matheus que achacava que achacava Nelma que achacava Pereira, que achacava que achacava Gonçalves que achacava que achacava Assad que achacava Ribeiro que achacava Teixeira que achacava João que achacava que achacava Almeida que achacava Goes que achacava Pedro que achacava Renato que achacava Sônia que achacava André que achacava Leon que achacava Ricardo que achacava Luiz que achacava Fonseca que achacava Castro que achacava Galvão que achacava Alberto que achacava Paulo que achacava Marcelo que achacava Faria que achacava Rogério que achacava César que achacava Alencar que achacava Pedro que achacava Costa que achacava Jose que achava Silva que achacava a população que votava em políticos que achacavam estatais que achacavam o contribuinte que achacava ninguém.
Alguns delataram, o contribuinte paga a conta, a população sofre com o desastre, as empresas continuam estatais, os políticos são os mesmos, a reforma ficou para tia, e a quadrilha foi pega por Sergio, que ainda não tinha ainda entrado na história.
Elton Simões
Alguns delataram, o contribuinte paga a conta, a população sofre com o desastre, as empresas continuam estatais, os políticos são os mesmos, a reforma ficou para tia, e a quadrilha foi pega por Sergio, que ainda não tinha ainda entrado na história.
Elton Simões
A perigosa miragem de uma solução militar para a crise do Brasil
Minha amiga Telma, que trabalha com cultura, me conta consternada: “Juan, estão gritando que eu vá embora para Cuba, que sou comunista por defender que a greve dos caminhoneiros pode favorecer o ultradireitista Bolsonaro.” Outro amigo meu, Antonio, aposentado da Petrobras que sabe que sofri a longa ditadura militar franquista na Espanha, confidencia: “Juan, não se iluda, só os militares podem salvar o Brasil, fechando esse Congresso corrupto e assumindo o comando do país.”
A história ensina que, em muitas experiências de cunho fascista, não poucos intelectuais e artistas acabaram colaborando explícita ou implicitamente sob pretexto de defender os oprimidos. A miragem das soluções totalitárias contra as arbitrariedades dos governantes das democracias acabou apoiando totalitarismos e regimes militares que chegaram ao poder não com o voto, mas pela imposição das armas. Já tivemos isso na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini e na Espanha de Franco, para falar apenas da Europa.
No momento em que escrevo esta coluna ainda não é possível fazer um balanço do que representou, politicamente, a greve dos caminhoneiros no Brasil, à qual parece querer seguir a dos petroleiros e, quem sabe, também a de outras categorias que poderiam sair às ruas “contra tudo e contra todos”, que é a fórmula mais perigosa para impedir uma solução dialogada que faça justiça aos abusos que podem ter sido o estopim das manifestações.
Quem viveu e sofreu por muitos anos um regime totalitário sabe que, com todas as suas limitações, a democracia ainda é a única possibilidade para que um povo possa conviver com o melhor de seus valores. Quem, por exemplo, hoje pode gritar nas estradas contra o governo para defender o que considera seus direitos, ignora que não poderia fazê-lo sob nenhum regime totalitário sem pôr em perigo sua própria vida.
Na política, na família ou em qualquer relacionamento humano, nada é capaz de substituir o diálogo se não se quiser viver no inferno da incomunicabilidade. Nunca a força imposta pelas armas fez a Humanidade crescer no melhor que possui, como sua possibilidade de viver em liberdade sem a tirania dos muros, nem os de Berlim nem os do México, emblema, ambos, dos crimes contra a liberdade e a convivência democrática.
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