quinta-feira, 3 de maio de 2018

Paisagem brasileira

Praia de Piratininga (1922), Artur Timóteo da Costa


Bruxaria

O dicionário vai dizer de onde vem a palavra bruxo ou bruxa. Mas nenhum vai informar sobre o seu significado profundo.

Quem fez isso foram os antropólogos que, a partir de 1934, com a publicação do livro de E. E. Evans-Pritchard sobre os Azande (um povo do sul do Sudão) revelaram como a “bruxaria” é um idioma destinado a explicar infortúnios e acidentes, exibindo suas causas finais. O “porquê” do desastre foi ocorrer justamente com os nossos filhos e não com os dos nossos vizinhos ou desafetos.

A aceitação do acaso como um fenômeno não intencional é um problema no universo humano obcecado com equilíbrios, retribuições e motivos moralmente ancorados. Afinal, o tamanho do infortúnio deve ter alguma relação com a pessoa afetada. Se existe responsabilidade nas nossas vidas, por que não haveria também nos acidentes?

Se o pai é superior a ele, em contrapartida, tem mais deveres e muito mais culpa como doador de rumos e exemplos do que o filho. É o tal domínio do fato que a teoria dos papéis sociais desvenda em socioantropologia.


Diante do desastre somos levados ao doloroso processo de suspeitar o inocente da inocência; ou procurar o bruxo produtor da feitiçaria que coloca em dúvida a plausibilidade moral do mundo.

Nas sociedades tribais, as relações sociais são múltiplas porque todos são filhos, irmãos, primos, cunhados, tios e sobrinhos do chefe, do curador, do profeta ou do rei. Nelas, a bruxaria estaria ligada a essa multiplicidade de elos sociais que nem sempre funcionam em harmonia e conduzem aos conflitos de interesse que — pasmemos todos! — pela primeira vez, estamos tendo que lidar seriamente no mundo público nacional.

A bruxaria denuncia como o coração humano tem, parafraseando Pascal, razões que o próprio coração desconhece. E que Freud situou na dinâmica entre o coletivo (o superego ou o todo), o individualizado (o ego ou a parte) e o Id (o “isso”, o desejo) que a consciência se vê obrigada a reprimir e esconder. Seja o amor secreto pela irmã, o desejo pela exclusividade amorosa dos pais ou o êxito do cunhado.

Contradições entre motivos nos levam a buscar o feiticeiro ou o analista (significativamente chamado de “encolhedor de cabeça” nos EUA). Recolhidos ambos em seus consultórios e cobrando pelos segredos íntimos que lhes contamos, eles — como os confessores — têm em comum um relativo abandono do mundo. O poder oracular decorre do se olhar distanciado. Usando cartas (que não mentem), búzios, veneno e galinhas (como fazem os Azande), eles teriam a capacidade “objetiva” de dar intencionalidade ao acaso e ao malefício.

Os papéis sociais que nos envolvem são (para desengano dos tiranos) sempre limitados. O papel de presidente tem como complemento o de povo; o de rico tem no de pobre o seu chão. O de adulto é complementado pelo de criança, o de vivo tem no morto sua contraparte; e o de professor tem no aluno sua fonte de legitimidade. Note que os papéis de um pai bancando um filho produz doença ou anomia — essa bruxaria tão nossa conhecida. Nestes casos, um papel não existe sem o outro e eles são regidos por ética e não por lei. Aqui, invocação da lei é sinal de crise.

Mas tudo se transforma com a invenção do “estado” e da soberania centrada num território exclusivo. Agora os papéis sociais fundados na reciprocidade da casa e na aldeia, começam a competir com os “cargos” administrativos cujo centro não é mais o “sangue”, mas a coletividade e as ambições políticas. A passagem da casa para a rua — como tenho revelado na minha obra — é complicada.

A necessidade de atribuir intenções, sem as quais não há moralidade ou sociabilidade, continua, só que ela se complica com o “estado”. Agora o bruxo não é mais o egoísta frustrado e fechado em si mesmo e na sua sovinice, como o Scrooge de Dickens, mas o ocupante de um cargo público obtido por competição livre, cujo alvo é o bem estar nacional. Há uma severa e – como mostra a crise da crise brasileira – uma perversa divisão. De um lado, o bruxo prestes a virar “político” pensa na sua tribo e casa mas; de outro, ele é forçado a honrar novas e amplas lealdades com o seu partido e eleitores. Essas lealdades podem, numa democracia, ser usadas umas contra as outras.

As antigas lealdades de aldeia produziam bruxarias, as novas lealdades políticas nacionais e internacionais produzem contradições. O bruxo vira o político e a bruxaria se transforma num conjunto de opiniões legais paradoxais que só o bom senso (e haja bom senso!) pode resolver. Nesse caso, bruxaria é propina — esse laço entre o tribal e o nacional que fez com que o Brasil fosse vendido e comprado.

Síntese do Brasil

O prédio que pegou fogo e desabou em São Paulo sintetiza o Brasil: somos um país caindo aos pedaços, com um monte de gente pobre manipulada pela esquerda e convenientemente invisível aos olhos de quem ocupa regularmente o governo
O Antagonista 

A banalização do mal

Diz-se que filho feio não tem pai. Foi mais ou menos isto o que se deu em torno tragédia que envolveu o edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou durante a madrugada do dia 1º de maio, no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo. Prefeito, governador e presidente da República foram ao local ''prestar solidariedade'', mas, evidentemente, cada um eximiu sua administração da responsabilidade; ninguém assumiu a paternidade.

A tragédia acabou politizada. O esforço maior foi apontar o dedo para os adversários e encontrar culpados do que compreender a dinâmica social que leva milhares de pessoas a viver em locais como aquele. Culpou-se administrações atuais e anteriores, movimentos sociais sem-teto e urbanistas. Sem provas ou maiores elementos, houve ex autoridade que afirmou que o local servia de abrigo ao PCC — mas não disse o que fez a respeito.

Como se vê, não faltou quem desse bom dia a cavalos; houve até quem se culpasse os próprios pobres por não ter moradia (sic). Ora, ora… Mas, o fato é que, na política, somente notícias boas encontram padrinho. Não faltam oportunistas para assumir a paternidade de uma obra bacana, de um bom plano, da distribuição de recursos. Já no momento ruim ninguém se apresenta. Infelizmente, isso é normal.


Mas, o que não se discute — ou se prefere esquecer — é que o Estado, no Brasil, entrou em colapso. Seja porque não consegue estimular a economia, criar emprego e distribuir riqueza. Seja porque é incapaz de abrigar o povo pobre, sem-teto, miseráveis em situação de rua. Seja porque não consegue evitar ocupações em prédios vazios ou, diante do déficit de moradias inibir a especulação com imóveis ociosos.

Não se implementa políticas públicas inovadoras que estimulem a ocupação legal desses imóveis, que sejam capazes de incluir a população pobre. Por melhor elaborados e mais bem-intencionados que sejam, planos diretores acabam relegados à condição de letra morta da lei, em virtude da falta de recursos e ou de interesse.

Simplesmente, o Estado não existe. Não é porque seja pequeno e insuficiente, nem porque seja mastodôntico e perdulário. Na realidade cheia de paradoxos que é o Brasil, o Estado consegue ser ao mesmo tempo isso tudo: pequeno e insuficiente para o que é necessário e inescapável; mastodôntico e perdulário na má alocação de recursos, na sua apropriação por grupos corporativos, superprotegidos.

Culpa de quem? Provavelmente, culpa de todos. Inclusive, da sociedade que se omite.

O Brasil é um país acostumado a conviver com a miséria, com pessoas dormindo sob marquises, com crianças nos faróis; com pessoas comendo do lixo que recolhem. É também habituado à criminalidade e à violência e nada mais parece escandalizar, tudo se fez banal. Sem açúcar, sem sal, sem indignação. Apenas normal. Banaliza-se o mal.

Pois parece normal que seres humanos, famílias inteiras, tenham que ocupar pardieiros sem luz, sem água, sem sol, sem segurança, sem perspectiva e sem ar. Assim, como parece natural que surjam pessoas que se aproveitam disso. Parece normal que a prefeitura diga que o problema é federal; que o governo, em Brasília, esteja distante, que o presidente da República seja vaiado. Que governantes e ex governantes, depois de décadas de poder, assistam a tudo com ar blasé.

Nas redes sociais, no conforto de seus sofás, na modorra do feriado, os tais internautas se manifestaram informando estarem bem (sic). Marcaram-se como seguros, distantes de um lugar por onde, todos sabem, jamais passariam. Seria cinismo, desaviso ou melancolia por não estrem em Nova York, lugar de atentados terroristas? O terror, no Brasil, se manifesta a seu próprio modo.

Outros tantos, como sempre, preferiram, mais uma vez, demonizar inimigos. Surgiram milhares — talvez milhões — de especialistas, prontos a atirar pedra, capazes de discorrer sobre a questão urbana, o problema da moradia, das drogas, da segurança, da especulação imobiliária; do direito de propriedade, da banditização dos movimentos sociais.

Vem à minha cabeça Max Weber, num trecho de sua ''A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo'' — não, não se trata de um comunista. Diz ele que ''…neste último estágio de desenvolvimento cultural, seus integrantes poderão ser chamados de ‘especialistas sem espírito, sensualistas sem coração, nulidades que imaginam ter atingido um nível de civilização nunca antes alcançado’”. Esquecem que mesmo feio, todo o filho sempre terá seu pai. E, nesse caso, somos nós.

Carlos Melo 

Dizer de mim

A minha vida não serve de exemplo para ninguém, a não ser para mim próprio.Um homem é o que para os outros foi ou é, e, também, aquilo que o não deixaram ser. A minha vida permitiu-me acumular experiências, e tive a sorte de trabalhar, em dois diários, com grandes, extraordinários, profissionais. Os jornais, esses, acabaram e de forma triste e desamparada. Aos jornalistas, a esses, recordo-os sempre com estima e afeição. Sou um produto deles, e eles sempre olharam por mim com o cuidado suscitado pela amizade. Não exagero: o pulsar do meu coração não falha, quando leio ou assisto, pelas televisões, nos jornais, a reportagens que marcam o sobressalto daquilo que sinto. Esses sentimentos prolongo-os até hoje, numa memória constante que, amiúde, se confunde com o meu próprio destino.

Às vezes, apetece-me dizer estas coisas. Inspirações momentâneas, surgidas do que observo ou leio. Mas também desejo encorajar todos aqueles que, nos jornais ou nas televisões, têm sentido a frustração dos dias, a estranha paragem do tempo, a dor secreta da velhice. Nunca me queixei, nunca levei para casa a dor profunda e secreta do que me faziam. Fui fazendo. Algumas vezes disfarçando, nas frases, o sofrimento que ocultava com um riso só feliz na aparência. Tenho andado a remoer e a mastigar, com o esquecimento forçado e o sorriso aberto, as dores com as quais fui envelhecendo.
Tenho a cabeça e os sentimentos que nela se ocultam, sem se apagar, numerosos factos e histórias, afinal comuns a quem fez da vida um caudal de palavras e de frases. O culpado sou só eu. Mas só escrevo aquelas que não podem magoar ninguém. Sei que se chama a isto ter carácter. Salvei- -me do recurso à canalhice, e tudo concorria para que assim não fosse. A minha vida não serve de exemplo para ninguém, a não ser para mim próprio, e só a escrevo em minúsculos episódios, como este, agora, e devo-o não só a mim, mas, sobretudo, àqueles que de mim gostam. Até já. 

Imagem do Dia


Assim é a 'sopa de plástico' que asfixia o mundo

Plastiglomerado. Esse é o nome oficial de um novo mineral que não existia antes na natureza, mas agora se tornou frequente. Foi descoberto em 2014, na praia de Kamilo, da ilha do Havaí, e é formado por sedimentos e detritos plásticos. Na era atual, dominada pela ação dos seres humanos, “os perigos decorrentes da produção e uso indiscriminado deste material sintético, derivado da indústria petroquímica, nos perseguirão durante séculos”, diz o cientista político holandês Michiel Roscam Abbing, autor do recém-publicado Atlas da Sopa de Plástico do Mundo, cujo primeiro exemplar foi entregue a Karmenu Vella, comissário (ministro) europeu do Meio Ambiente. A obra diz que só um tratado internacional poderá conter um produto hoje inseparável do nosso cotidiano.

“Os oceanos cobrem 71% da superfície da Terra, e existe a crença errônea de que só há ilhas de plástico flutuando por aí (…), quando o certo é que ele está por toda parte: em terra, mar e ar. Sua acumulação e fragmentação são tamanhas que os danos derivados do plástico superam seus benefícios”, afirma Roscam Abbing. Especialista em meio ambiente e membro da Fundação Sopa de Plástico (Amsterdã), ele cita um exemplo visual para ilustrar uma luta que é de todos – produtores, Governos e consumidores. É a famosa imagem do cavalo-marinho com a cauda enroscada em um cotonete, que delata a responsabilidade mal compartilhada. Foi feita pelo fotógrafo Justin Hoffman, morador do Canadá, enquanto mergulhava na Indonésia, e aparece entre as ilustrações do Atlas. “Poderia ter sido evitado”, diz o escritor. “Os cotonetes plásticos vão para a privada e então diretamente para as águas superficiais e as praias. Sendo que o fabricante poderia fazê-los de cartolina ou madeira. Mas são mais caros.”


No texto, mostra-se que numa praia qualquer do Reino Unido há em média 24 cotonetes a cada 100 metros. Outros dados: nos Estados Unidos, são jogadas no lixo 2,5 milhões de garrafas de plástico por hora; a cada minuto, usa-se no mundo um milhão de sacolas desse material. E, o pior de tudo, na sua opinião: as embalagens pequenas, fabricadas com diversos tipos de plástico, e usadas uma só vez. “Nos países em desenvolvimento a publicidade do xampu costuma ser assim, porque as pessoas têm uma poder aquisitivo diferente. Acumulam-se em grandes quantidades, e poderia ser incentivado outro tipo de fabricação e um consumo mais responsável, por parte da própria empresa, com embalagens reutilizáveis”. Quanto ao pão, “perdeu-se o costume de levar as tradicionais sacolas de tecido, e são colocados em bolsas de plástico, destinadas ao lixo”, acrescenta.

Uma boa ideia para reduzir a fabricação e uso dos plásticos é a tatuagem a laser na casca de frutas e verduras. “É seguro e sustentável, mantém a etiquetagem obrigatória e foi aprovada pela União Europeia. A Espanha é pioneira nessa tecnologia (Laserfood, de Valência) e economiza pacotes porque a informação essencial é impressa na casca.” Com fotos dessa poluição em lavouras, no fundo dos mares, em redes pluviais e qualquer outro meio ou superfície imaginável, o Atlas recorda que todos os plásticos se degradam. Suas partículas, impossíveis de recolher, são ingeridas por humanos e animais. “Um perigo enorme: entram em organismos vivos e ignoramos seus efeitos”. De qualquer forma, embora a produção responsável, o manejo sustentável de terras e águas e a reciclagem e a cooperação entre o setor público e privado sejam essenciais, a sopa de plástico supera as barreiras nacionais. E há uma lacuna jurídica. “Nada menos que a falta de um tratado internacional no âmbito das Nações Unidas dedicado a conter a própria sopa”, é o conselho que fecha o Atlas.

Preso, Lula virou candidato por correspondência

A necessidade é a mãe da criatividade. Em plena era digital, Lula reinventou a carta. Virou candidato por correspondência. Atribuiu nova serventia aos advogados. Os doutores ainda não conseguiram livrá-lo da cadeia. Mas possuem ótima caligrafia. Lula só não conseguiu renovar o discurso. Mas seus devotos não se importam.

Neste 1º de Maio, Gleisi Hoffmann leu mais uma carta de Lula. Deu-se no encerramento do ato que reuniu em Curitiba as principais centrais sindicais do país. O missivista do cárcere declarou-se triste, porque “nossa democracia está incompleta”. Comparou os tempos bicudos da era Michel Temer —“O desemprego cresce e humilha”— à pujança de sua época —“Vocês se lembram da prosperidade do Brasil naqueles tempos…”


Embora faltassem a Gleisi a rouquidão e a desenvoltura de palco, o timbre eleitoreiro saltou, indisfarçável, do texto ditado para os advogados. “Sabemos que esse Brasil é possível. Mais do que isso, já vivemos nesse Brasil há muito pouco tempo atrás”.

Tomado pelos termos da carta, Lula deve ter sido picado na cela especial de Curitiba pelo mosquito que transmite uma febre causadora de amnésia. O sumiço da memória apagou da carta do presidiário petista a companheira Dilma Rousseff.

A gestão de Temer revela-se perversa. Mas a ruína econômica que espalhou desemprego e desesperança é consequência direta do desastre gerencial produzido por Dilma —um poste que Lula elegeu e que teve Gleisi como uma cultuada chefe da Casa Civil.

A correspondência do cárcere ataca Temer da boca para fora. No íntimo, o missivista agradece aos “golpistas”. Depois de fazer a sucessora duas vezes, Lula estava sendo desfeito por ela. Sem o impeachment, não haveria um Michel Temer para chutar.

Com Dilma em casa, o missivista do cárcere pode exercitar livremente sua mania de confundir memória com consciência limpa. Os devotos não se incomodam. O importante é manter em pé a hipotética candidatura. ''Se alguém falar em Plano B para vocês, não acreditem'', disse a ré Gleisi para a plateia.

Triste primeiro de maio

O trabalhador brasileiro não teve o que comemorar no dia de ontem. O IBGE havia divulgado, na semana passada, que a taxa de desemprego fechou, no primeiro trimestre de 2018, com um aumento de 13,1% em relação ao que havia sido apurado no último trimestre de 2017 (11,8%). Isso significa que o total de desempregados no Brasil aumentou em cerca de 1,4 milhão de pessoas. Temos hoje algo em torno de 13,7 milhões de desempregados. Além disso, foi detectado que a renda média do brasileiro caiu, no mesmo período, de R$ 2.173 para R$ 2.169.

Vale recordar que a chamada reforma trabalhista entrou em vigor em 11 de novembro de 2017. Seus promotores anunciavam que seus efeitos “benéficos” sobre o mercado de trabalho começariam a ser sentidos a partir do primeiro trimestre de 2018. Henrique Meirelles chegou a dizer que seriam gerados mais de 6 milhões de novos postos de trabalho. Como se vê, isso não aconteceu. Mesmo que novas vagas tivessem surgido, a partir das novas modalidades de contratações precárias, era de se presumir que a renda do brasileiro não aumentaria, fato que agora se confirma. Aliás, tivemos até, como assinalei acima, um pequeno retrocesso na nossa capacidade de consumo. Isso sem considerarmos os nefastos impactos sobre o FGTS e a Previdência Social que os novos tipos de ajustes laborais provocam, com o rebaixamento da base de cálculo das contribuições. Apenas para ilustrar, segundo a Receita Federal, a arrecadação do INSS em março de 2018 foi 0,53% menor que a do mesmo mês no ano passado.


O tema me é muito caro. A ele me dediquei na universidade e no início do primeiro governo Lula. Gostaria de destacar que a precarização das relações laborais se dá – ao lado da terceirização e do trabalho intermitente – de uma forma bastante peculiar, que consiste na chamada “pejotização” do trabalhador. O Simples virou “simplérrimo” ou “empreendedor de si mesmo”: quem só tem a sua força de trabalho e a vende de maneira não-eventual a quem determina o quê, como, quando e onde deve fazer algo jamais pode ser considerado um empresário que exerce a livre iniciativa. Trata-se de fraude grotesca da relação de emprego, cujo único objetivo é reduzir as contribuições sociais e tributárias, tão necessárias à implementação de políticas públicas em prol do próprio trabalhador, de sua família e da sociedade como um todo.

O mais triste é ver que, apeado do governo, o PT que denuncia Temer não se dá conta do quanto as suas gestões também contribuíram para que chegássemos a esse estado de coisas. Da terceirização selvagem nas estatais federais Lula e Dilma nunca reclamaram. E quando o Congresso Nacional aprovou a Lei 12.441/2011, que legitimou a “pejotização” de trabalhadores mais qualificados, as bancadas do PT na Câmara e do Senado não fizeram objeção alguma e a presidente Dilma Rousseff a sancionou sem nenhum drama de consciência. Os petistas insistem na velha conduta que não comporta autocrítica: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

Sandra Starling

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Gente fora do mapa

Fila de desempregados, no Engenhão, no Rio, à procura de emprego no Dia do Trabalho

O xodó de Lula e os quindins de ioiô

Antônio Palocci já foi de tudo na vida: sanitarista, funcionário público, guerrilheiro, prefeito, deputado federal, coordenador de campanhas eleitorais de candidatos vitoriosos à Presidência da República, ministro da Fazenda e chefe da Casa Civil. E, justiça seja feita, nunca foi santo.

Ao contrário, quando se tornou a mão direita do todo-poderoso padim Lula, já tinha uma capivara notória de denúncias de corrupção. Em 9 de março de 2006, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito dos Bingos, o delegado seccional de Ribeirão Preto, Benedito Antônio Valencise, relatou detalhes das investigações sobre irregularidades em contratos e licitações da prefeitura daquela cidade com a empresa de varrição urbana Leão & Leão. De acordo com o depoente, os inquéritos policiais contêm provas e indícios do envolvimento dos ex-prefeitos do rico município paulista Antônio Palocci e Gilberto Maggioni no comando do esquema, em conjunto com o presidente da Leão & Leão, Luiz Cláudio Leão. O rei dos animais passou, desde então, a sujar sua ficha de mau gestor.


Nada disso manchou a fama do ex-militante da trotskista Libelu e diligente servidor da Secretaria de Saúde do Estado que se elegeu duas vezes prefeito de sua cidade e deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), cuja alta hierarquia nunca cobrou dele malfeitos de que era acusado. Galgou a escada do poder e da glória bem ao lado do paxá dos petistas e foi parlamentar com discursos e projetos típicos do delírio soit-disant socialista, ao gosto do PT de antes do poder.

Em 2002, o protagonista do escândalo de corrupção na prefeitura de Santo André, Celso Daniel, foi executado por criminosos, impunes por mercê de uma penada do então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski. E Palocci assumiu a coordenadoria do projeto de governo de Lula. Nessa condição, inspirou e conduziu a guinada liberal, manifestada na célebre Carta aos Brasileiros, que cimentou a rampa de subida do chefão ao ápice do poder.

Aí, o xodó de papai Lula virou os quindins de banquetes de ioiôs da plutocracia patronal. Na Câmara e na militância petista ele pregava o calote da dívida externa e o rompimento com o mercado financeiro internacional, além de ter autorizado a abertura em seu município de escritório das Farc, guarda pretoriana marxista dos cartéis colombianos do narcotráfico. Como avalista da guinada do favorito à Presidência, passou a ser visto, recebido e mimado por banqueiros, empreiteiros e pensadores liberais como baluarte da moeda estável e da negociação de dívidas tomadas no exterior. E como garante de estabilidade se opôs ao companheiro de armas José Dirceu, que era chefe da Casa Civil de Lula.

No auge da república da farsa socialista do PT, Palocci logo deixou claro que sua verdadeira vocação era a extraordinária capacidade de transformar proximidade do poder em moeda sonante, não a medicina social, a militância política ou a gestão pública. Frequentou em Brasília uma mansão na qual prostitutas de fino trato e malas de propina eram distribuídas a ele e a alguns dos membros da patota dos tempos de Ribeirão Preto.

Sua presença foi denunciada pelo caseiro Francenildo Santos Costa, o Nildo, em entrevista ao Estado, confirmada na CPI dos Bingos, iniciando um episódio que cobriu de infâmia todas as suas personagens. O repórter Vladimir Netto revelou na revista Época que a principal testemunha dispunha então de saldo de R$ 38.860, quantia incompatível com sua renda, numa conta na Caixa Econômica Federal (CEF). Informados pela jornalista Helena Chagas, Palocci e Jorge Mattoso, então presidente da CEF, quebraram sem autorização judicial o sigilo bancário do caseiro, pretendendo provar que este havia recebido o dinheiro de interessados em prejudicá-lo. E o dinheiro fora depositado pelo pai biológico do destinatário, um segredo de família.

A reação dos petistas à folha corrida de Palocci foi, como de hábito, asquerosa: o senador Tião Viana (PT-AC) obteve do então ministro do STF César Peluso liminar para barrar o depoimento do caseiro na CPI dos Bingos. Demitido do governo, o beneficiário dessa sórdida fábula voltou à Câmara e às relações espúrias com a fina-flor da burguesia. Relatório da Receita Federal informou que seu alter ego jurídico, a Projeto Consultoria Empresarial e Financeira, recebeu R$ 81,3 milhões de 47 empresas.

Sua volta à cúpula não tardou. Com todo esse prontuário policial, Palocci coordenou a campanha vitoriosa de Dilma Rousseff em 2010 e tornou-se chefe da equipe de transição e, depois, da Casa Civil da sucessora estepe de Lula.

As figurinhas carimbadas desse álbum de horrores não recomendam: PT, MDB, PSDB, a cúpula do Judiciário e amigos ocultos do acordão que sabota o combate à corrupção no Brasil. Tião Viana governa o Acre e não disputará a reeleição: preferiu apoiar a permanência do irmão Jorge no Senado. Nildo, o único cidadão honrado do caso, sobrevive em empregos mal remunerados.

O protagonista foi apanhado pelo vendaval da Lava Jato. Condenado a 12 anos, 2 meses e 20 dias de reclusão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro e preso desde setembro de 2016, Palocci lutou com dificuldades para obter uma delação premiada, negociada a duras penas com o Ministério Público Federal (MPF), sabe-se lá por quê. E a firmou com a Polícia Federal.

Enquanto Palocci espera a homologação do TRF-4 e eventuais confirmações dos tribunais superiores, os petistas, que sempre o perdoaram, passaram a difamá-lo em cínico benefício próprio. Lula sugeriu que seu xodó de antes o acusa de ilícitos para sair da prisão. E Dilma Rousseff, em nota, garantiu que o chefe da Casa Civil de seu governo criou “peças de ficção” ao contar reuniões dos dois em que propinas foram citadas. Quem leu este texto sabe que até agora, se alguém mentiu, não foi só ele.

José Nêumanne

Mordida irada

O presidente cutucou a pobreza com o pé. E descobriu que ela morde
Josias de Souza

Dane-se a democracia

Nada está tão ruim no Brasil que não possa piorar. Pela primeira vez na nossa história (recente, pelo menos), não são os políticos que estão dando as cartas das eleições majoritárias de outubro. Perderam a bola para o poder judiciário. Quem está ditando regras para as eleições são juízes das mais diferentes instâncias. Das varas aos tribunais, ao STJ, TSE e Supremo.

A judicialização da política tem risco de epidemia. Só não é pior porque o cenário composto pelos candidatos, é ainda mais dramático. Se já temos medo do presente, as possibilidades de candidatos que se mostram medianamente viáveis, dão frio na espinha. Dá medo do futuro.

Sem dúvida, “a Lava Jato revelou o grau de promiscuidade de parte da nossa classe política, mas isso não pode servir de pretexto para que o direito substitua a política”, diz a doutora em Direitos Humanos pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Política Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Eloisa Machado. Ela enxerga na interferência do Judiciário perigo iminente de crise institucional e riscos à democracia.


Claro, todos os casos de corrupção devem ser investigados e devidamente punidos, diz a professora. Mas daí a permitir que o judiciário escolha quem governa e quem pode ser eleito vai distância considerável. Hoje, políticos correm atrás da agenda de moralização da política tocada por juízes e tribunais, campanha perniciosa para o ambiente democrático.

A interferência do Judiciário é tamanha que o ministro Gilmar Mendes teria dito que Lula só sairá da cadeia – ou terá sua pena reduzida pelo STF – se renunciar à candidatura à presidência da República. Faz sentido e deve ser verdade a profecia do ministro. Define-se assim não a punição de quem supostamente teria cometido “mal feitos” mas a permissão pelo Judiciário para que uma candidatura exista. Ou não exista.

Dos candidatos que começam a ganhar musculatura para outubro, a popularidade hoje registrada vem justamente do STF: o ex-presidente da Corte, Joaquim Barbosa. Se tiver bom desempenho eleitoral, Barbosa será reflexo do movimento que endemoniza a política e a escancara como algo sujo, intrinsecamente corrupta, onde até ações políticas são vistas como criminosas.

Vem daí a fabricação de super heróis, todos ou quase todos do Judiciário. E a tentação de substituir a via da política pelo discurso fácil e moralista dos evangelizadores da Pátria. Movimento encampado naturalmente pelo Ministério Público, Procuradores, Policia Federal…

Joaquim Barbosa precisa se posicionar, dizer o que pensa, o que pretende para o país, como vê as reformas em andamento. Sem isso, nada feito. Nem ele, nem Sergio Moro, juiz da Lava Jato, poderiam salvar o Brasil apenas combatendo a corrupção. Precisam tirar a toga, botar a cara a tapa e se jogar na estrada. Combater a corrupção é inadiável, mas as eleições estão ai e o Brasil precisa de candidatos de carne e osso, com os pés fincados na politica. Políticos na melhor dimensão da palavra. Sem judicialização. Políticos. Fazendo política, como ela é.
Mirian Guaraciaba

Imagem do Dia

Burano (Itália)

PT já não precisa de autocrítica, mas de autópsia

O grande problema das autocríticas é que elas sempre chegam tarde. No caso do Partido dos Trabalhadores, a demora foi tão grande que a providência tornou-se desnecessária. Ao reagir contra a mais nova denúncia da procuradora-geral Raquel Dodge, o PT deixou claro que seu caso não é mais de autoanálise, mas de autópsia.

Dodge acusou de corrupção e lavagem de dinheiro Lula, a presidente do PT Gleisi Hoffmann, os ex-ministros petistas Antonio Palocci e Paulo Bernardo, o empreiteiro Marcelo Odebrecht e um um ex-assessor de Gleisi: Leones Dall'Agnol. De acordo com a denúncia, a Odebrecht trocou vantagens empresariais por propinas. Coisa de US$ 40 milhões. Ou R$ 64 milhões, em moeda nacional. Parte da verba foi passada a sujo em campanhas eleitorais, entre elas a de Gleisi.



A Executiva nacional do PT soltou uma nota. O conteúdo não é original. Um redator qualquer limitou-se a apertar o botão da perseguição política. E a resposta fluiu: “Mais uma vez a Procuradoria Geral da República, de maneira irresponsável, formaliza denúncias sem provas a partir de delações negociadas com criminosos em troca de benefícios penais e financeiros. […] Mais uma vez o Ministério Público tenta criminalizar ações de governo citando fatos sem conexão e de forma a atingir o PT e seus dirigentes.”

A nota reforça a sensação de que os petistas dividiram-se em três grupos: há os presos, os que aguardam na fila e os que se comportam à maneira do avestruz, enfiando a cabeça no silêncio. E a Executiva mantém o PT no seu labirinto: “A denúncia irresponsável da Procuradoria vem no momento em que o ex-presidente Lula, mesmo preso ilegalmente, lidera todas as pesquisas para ser eleito o próximo presidente pela vontade do povo brasileiro.”

Mais um pouco e até a autópsia será desnecessária. Bastará emitir o atestado de óbito, anotando no espaço dedicado à causa mortis: “Cinismo crônico.”

Fazendo-se de santo

Vamos devolver o ódio com argumento, envergonhar os que gritam sem saber o que dizem. Vamos ensinar o que é democracia  
Jacques Wagner, ex-ministro de Dilma

O silêncio dos candidatos

Faltam apenas 20 semanas para as eleições gerais. E os 146 milhões de eleitores continuam na absoluta escuridão, sem ideia de qual é o Brasil imaginado por candidatos e partidos. Tem-se 18 nomes listados nas últimas sondagens de intenção de voto para a Presidência da República, mas, até agora, nenhum deles sequer demonstrou preocupação em submeter ao eleitorado uma proposta alternativa para a crise do Sistema Único de Saúde (SUS), do qual dependem diretamente 150 milhões de pessoas.


Mantêm silêncio, da mesma forma, sobre suas ideias para acabar com a irracionalidade dominante nas relações entre os 50 milhões de brasileiros que não dependem do SUS, porque têm acesso a planos de saúde, e as mais de 800 empresas operadoras médico-hospitalares. Na crise da Saúde, não há rota de fuga disponível a candidatos e partidos. Eles sabem que a situação do sistema é insustentável e, por isso, precisam dizer logo aos eleitores como pretendem resgatá-lo ou liquidá-lo — nesse caso, explicando o que planejam pôr no lugar.

O SUS é uma obra de arte política. Nasceu há exatos 30 anos, em circunstâncias de rara unanimidade parlamentar, em torno da ideia de saúde gratuita para todos. Os resultados estão visíveis no acesso irrestrito à rede pública de hospitais, no aumento da expectativa na prevenção de vida, na (vacinações), redução da nos mortalidade transplantes infantil, de órgãos e no tratamento de infecções pelo HIV.

Suas deficiências são indicadas como principal problema nacional desde junho de 2013, quando centenas de milhares de pessoas saíram às ruas, em todo o país, em protesto contra a inépcia nos serviços públicos básicos. Detalhe relevante nessas pesquisas é a boa avaliação do SUS pela massa que dele depende, quando consegue atendimento. Na origem da crise da Saúde está a apropriação privada de fatias do Orçamento público. União, estados e municípios investem R$ 230 bilhões por ano, o equivalente a 3,7% do Produto Interno Bruto, metade da média dos gastos registrados em sociedades ricas. Seria irracional propor tão somente um aumento de despesas numa etapa de virtual falência governamental. Mas a saída, certamente, começa pela higienização do poder político sobre os contratos. A degradação acelerada nos serviços é consequência do predomínio de interesses particulares, da regulação até a fila de pagamentos às empresas.

Os governos Lula, Dilma e Temer usaram a saúde coletiva como moeda no Congresso. Permitiram a expansão do loteamento partidário em áreas-chave do Ministério da Saúde, da Funasa e da agência setorial ANS. Os principais beneficiários (PT, PMDB e PP) estenderam sua influência aos estados e municípios.

É eloquente que um partido como o PP do senador Ciro Nogueira — recordista em investigados na Operação Lava-Jato (41% da atual bancada) —, comande o ministério e a ANS. Ou ainda, que o líder do governo, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), tenha recebido de presente a nomeação da mãe no comando da Funasa na Paraíba, 24 horas depois de ter sido denunciado ao Supremo por corrupção.

Sem propostas objetivas para resolver a crise na Saúde, candidatos e partidos se expõem às consequências de um “estelionato” eleitoral. O ronco das ruas de 2013 ecoa alto e claro, cinco anos depois.

Proteger as abelhas é dar espaço à natureza

O fato de a Comissão Europeia ter banido três inseticidas da classe dos neonicotinoides, provavelmente nocivos a abelhas, é à primeira vista uma boa notícia para o meio ambiente. Abelhas e muitos outros insetos – úteis e prejudiciais aos seres humanos – ficam mais bem protegidos.

Resultado de imagem para abelhas protegidas charge
Mas o fato de que os inseticidas não poderão ser mais usados ​​não significa necessariamente que as abelhas realmente passarão a ter uma vida melhor. É forte a suspeita de que os agricultores vão passar a recorrer a outros pesticidas, que provavelmente vão usá-los em concentrações mais altas. E é questionável que essas substâncias sejam realmente mais seguras e melhores para os insetos do que as agora proibidas.

Uma coisa é clara: a agricultura moderna não se sustenta sem herbicidas. As pragas se adaptam muito rapidamente e podem matar colheitas enormes em tempo recorde. E há mais uma verdade incômoda – sobretudo para muitos amigos da agricultura orgânica. Apenas a agricultura industrial pode sustentar a crescente população mundial. Sem uma produção eficiente de alimentos, haverá crises de fome.

Existem soluções para este dilema, mas elas exigem maiores esforços conjuntos de pesquisadores, indústria e agricultura: pesticidas bem seletivos, apenas para pragas muito específicas. O melhor seriam aqueles agentes que já atuam no estágio larval e, assim, evitam que as pragas possam se desenvolver. Ao mesmo tempo, as substâncias não devem atuar sobre organismos benéficos.

Isso é muito mais complicado do que um inseticida de amplo espectro, com o qual é possível se proteger de muitas pragas ao mesmo tempo. Porque cada praga tem de ser reconhecida individualmente, com uma estratégia de combate. Isso requer um alto nível de conhecimento técnico entre os agricultores. Isso custa tempo, dinheiro e, no final, sempre haverá, apesar disso, prejuízos nas colheitas.

Muito mais importante para a preservação da biodiversidade seria algo bem diferente: temos que dar mais espaço à natureza, sobretudo nas áreas onde podemos investir sem arriscar grandes perdas.

Os legisladores devem delimitar faixas verdes ao longo de estradas e caminhos nos campos que não podem ser desmatados. Assim, arbustos, árvores e flores silvestres podem se expandir novamente. Em volume, isso não mudaria muito em relação ao rendimento de um campo industrialmente cultivado, mas seria um grande ganho para a natureza.

E também nas cidades e nos vilarejos de interior podemos fazer muito mais não só pelos insetos, mas também pelos pássaros: por que não damos mais chances ao prado com flores, onde agora existe um gramado bem cortado? Por que cada dente-de-leão precisa ser arrancado? Por que paisagistas criam enormes superfícies mortas de cascalho, nas quais cada suposta erva daninha é imediatamente arrancada ou queimada com o lança-chamas? Por que tudo é tão pavimentado e sem plantas?

Um pouco mais de "desordem" na nossa paisagem não faria mal. E então, abelhas, moscas polinizadoras, borboletas e companhia também teriam novamente boas oportunidades de desenvolvimento – assim como muitos outros bichos.

Deutsche Welle

terça-feira, 1 de maio de 2018

Do maio de 68 francês para o Brasil: 'A imaginação no poder'

Há 50 anos, em um mês de maio como este, enquanto o Brasil estava aprisionado pela ditadura, na França irrompia a maior revolta estudantil do século, uma explosão em favor da liberdade, chamada também de “a revolução da alegria”. Desde aquele maio chegou-se a escrever que depois dele nada mais foi igual em boa parte do mundo. O poder mudou de domicílio e foi entregue à imaginação.

O Brasil já na democracia chega ao aniversário de meio século do maio francês confuso e alarmado, enquanto tocam os sinos de alerta ante a presença de nostalgias autoritárias e belicosas tanto por parte da direita como da esquerda. Seria preciso se perguntar se o Brasil de hoje que derrotou a ditadura militar deveria se espelhar naquele maio francês que despertou a sociedade conservadora, classista e tediosa, com o desafio da “imaginação no poder” e o lema “destruam as engrenagens”, dois dos grafites dos muros de Paris que percorreram o mundo com o “sejam realistas, peçam o impossível”.

As testemunhas e protagonistas ainda vivos daquele maio francês que lançou as bases da defesa dos direitos humanos e das liberdades de expressão, da revolução sexual, da luta contra o machismo e do reconhecimento da dignidade da mulher, discutem ainda hoje se foi uma revolução política ou cultural.

Nesses 50 anos foram publicados centenas de livros que pretendem explicar aquele incendiário maio francês. Vão desde os detratores daquela revolta que deixou um mês em suspenso a França de Sartre e de Voltaire, aos que a consideram a mais criativa das explosões juvenis conhecidas até hoje. Desde os que a viram como o ressurgimento dos valores do liberalismo que livrasse o poder das amarras do conservadorismo e estatismo aos que a consideram fracassada porque “não propôs a luta de classes”.

Nem a propôs nem podia, já que à revolta dos jovens, filhos da burguesia, se uniu o proletariado das fábricas, os sindicatos e o Partido Comunista, que, juntos, paralisaram o país durante um mês. Não foi um embate violento, apesar das centenas de feridos no enfrentamento com a polícia, mas uma explosão de liberdade, como um dos grafites demonstra: “Façam o amor, e não a guerra”. Aqueles estudantes eram lúdicos, queriam romper as correntes em que a sociedade conservadora, que definiam como uma “flor carnívora”, os havia amarrado, desde a proibição de sonhar à de poder usar a sexualidade em liberdade.


Se o Brasil de hoje quisesse se espelhar naquele maio francês libertador poderia fazer isso tornando seus alguns dos lemas que os jovens da época usaram, como o da “imaginação no poder”. Ou não é verdade que no poder que hoje domina a sociedade brasileira falta imaginação e sobra conformismo? Basta dar uma volta pelas instituições para observar a pobreza imaginativa que as aflige. Ou consideram imaginativos boa parte dos senhores deputados e senadores de hoje ou os magistrados do STF, que parecem petrificados em um tempo que já não existe, no qual falam para si mesmos, com as janelas fechadas para a rua da qual no maio francês diziam que “nela residia a poesia e o poder”? Existe por acaso imaginação no Governo, em seus ministros opacos e na maioria dos candidatos à presidência? Existe imaginação nos partidos nos quais há políticos que já militaram em oito diferentes? Serão imaginativos os Temer, os Renan, os Aécios, os Bolsonaros, os Maias, os Alckmin, as Gleisi ou os Lindenberg? O que diriam os jovens do protesto de Paris a personagens da alta magistratura como Gilmar Mendes, Lewandowski ou Toffoli, esses jovens que gritavam: “a imaginação e a arte morreram, não comam seu cadáver”?

Para que o Brasil deixe voar em liberdade a imaginação que possa se apropriar do poder, precisaria tornar seu também o outro slogan do maio francês: “Destruam as engrenagens”. A imaginação e a criatividade não chegarão às instituições do poder sem se romper antes as correntes que as condenam à imobilidade. É preciso romper o “mecanismo”, idealizado pelo cineasta Padilha, no qual se veem enredados os três poderes. Essa trágica cumplicidade da impunidade na corrupção que lhes permite se perpetuarem no poder e que impede a oxigenação e renovação de seus líderes, bloqueio para as novas gerações.

Só destruindo essas engrenagens será possível ao Brasil avançar nas reformas políticas e sociais que há 20 anos nenhum dos governos teve a coragem de enfrentar por medo da impopularidade que põe em perigo sua permanência no poder. O que hoje parece um beco sem saída para o Brasil aprisionado no labirinto de uma teia de aranha de interesses pessoais e de partido poderia amanhã ser um desses sonhos em que se acreditou no maio francês, quando cunhou: “sejam realistas, peçam o impossível”. O impossível pode tornar-se possível graças à fé de uma sociedade que, unida e não em guerra, decida mudar.

Na França, naquele maio da reviravolta libertadora a esperança no novo se tornou possível. Não a tiros e com ódios, mas com a força da convicção de uma sociedade unida. Com os jovens universitários e o ancião filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, autor de O Ser e o Nada, gritando juntos nas barricadas que os sonhos nem sempre são impossíveis. Aquele Sartre que dizia que “quando os ricos fazem a guerra, quem morre são sempre os pobres”.

Gente fora do mapa

Sebastio Salgado, Charcoal industry, Danbad, Bihar State, India, 1989
Danbad (Índia,1989), Sebastião Salgado