![]() |
| Morro Branco (CE) |
quinta-feira, 12 de abril de 2018
Lula conduz o PT ao matadouro
A sorte do Partido dos Trabalhadores sempre esteve atrelada a Lula. Estabeleceu-se entre os dois uma relação de dependência, onde, erigido a semideus, o caudilho pensava e decidia por todos. Se no passado a lulo-dependência deu bons frutos, agora pode levar o PT ao isolamento político e eleitoral se for para valer a decisão de sua executiva de Lula ser o candidato e “em qualquer circunstância”.
A prisão de Lula – e a possibilidade de ela se estender por um prazo longo – recomenda a revisão da estratégia petista. Mas o próprio caudilho tomou medidas acautelatórias para que isto não aconteça. Da cela, escalou sua dama de ferro, Gleisi Hoffman, como porta-voz e responsável pela articulação com outras forças políticas. O recado foi claro: qualquer negociação, interna e externa, tem de se dar em torno da candidatura de Lula. Fora disso, não há conversa.
Desde sua condenação em primeira instância, estabeleceu-se uma estratégia de mão única – ele ou ele -, vedando qualquer debate sobre um plano alternativo. Era pedra cantada, mas o ex insistiu no bordão “eleição sem Lula é fraude”, afastando aliados como o PSB e o PDT de Ciro Gomes.
O próprio Lula passou atestado do isolamento quando no circo de São Bernardo bradou que ali não estavam os engravatadinhos. De fato, de aliados apenas dois puxadinhos do PT: o PC do B de Manuela D’Avila e o Psol de Guilherme Boulos.
Se Lula não é mais senhor do próprio destino, por que então está conduzindo o PT para o matadouro mesmo sabendo que o registro de sua candidatura será negado de ofício pela Justiça Eleitoral?
Possivelmente está mais interessado na sobrevivência da narrativa que construiu para a história do que no destino do partido. Não necessariamente, os interesses de Lula e do PT são coincidentes.
A recusa em adotar o plano B é uma espada de Dâmocles na cabeça dos parlamentares petistas que vão disputar a eleição. E um obstáculo para a costura de alianças eleitorais.
Até quando será possível interditar um debate que está na cabeça de muitos petistas?
Outro fator contribui para a ampliação do isolamento petista: o “Lulinha paz e amor” deu lugar ao Lula carbonário, como se viu em seu discurso em São Bernardo.
É voltar ao PT do macacão. Só que este PT não pode ser reinventado, e a radicalização de seu líder acontece no momento em que se esvaiu o seu dom de mobilização. O palanque do ABC de agora ilustra bem que pouco ou quase nada restou do líder que encantava multidões.
Hubert Alquéres
A prisão de Lula – e a possibilidade de ela se estender por um prazo longo – recomenda a revisão da estratégia petista. Mas o próprio caudilho tomou medidas acautelatórias para que isto não aconteça. Da cela, escalou sua dama de ferro, Gleisi Hoffman, como porta-voz e responsável pela articulação com outras forças políticas. O recado foi claro: qualquer negociação, interna e externa, tem de se dar em torno da candidatura de Lula. Fora disso, não há conversa.
O próprio Lula passou atestado do isolamento quando no circo de São Bernardo bradou que ali não estavam os engravatadinhos. De fato, de aliados apenas dois puxadinhos do PT: o PC do B de Manuela D’Avila e o Psol de Guilherme Boulos.
Se Lula não é mais senhor do próprio destino, por que então está conduzindo o PT para o matadouro mesmo sabendo que o registro de sua candidatura será negado de ofício pela Justiça Eleitoral?
Possivelmente está mais interessado na sobrevivência da narrativa que construiu para a história do que no destino do partido. Não necessariamente, os interesses de Lula e do PT são coincidentes.
A recusa em adotar o plano B é uma espada de Dâmocles na cabeça dos parlamentares petistas que vão disputar a eleição. E um obstáculo para a costura de alianças eleitorais.
Até quando será possível interditar um debate que está na cabeça de muitos petistas?
Outro fator contribui para a ampliação do isolamento petista: o “Lulinha paz e amor” deu lugar ao Lula carbonário, como se viu em seu discurso em São Bernardo.
É voltar ao PT do macacão. Só que este PT não pode ser reinventado, e a radicalização de seu líder acontece no momento em que se esvaiu o seu dom de mobilização. O palanque do ABC de agora ilustra bem que pouco ou quase nada restou do líder que encantava multidões.
Hubert Alquéres
A política com cifrão
Na sua maioria, os políticos são muito anti-contemporâneos e defasados do quadro socialWashington Olivetto, publicitário
As autoridades têm liberdade de expressão?
A cultura política brasileira lida mal com a liberdade de expressão. A imensa maioria das lideranças – sejam de esquerda, sejam de direita, bem como as lideranças que se declaram “nem de esquerda nem de direita” – não se pauta pelo apreço ao direito que homens e mulheres têm de dizer o que pensam. Podemos generalizar, sem medo de errar: no Brasil, com pouquíssimas exceções, os políticos não compreendem – isso quando não hostilizam abertamente – o que a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, em 1789, na França, classificou como “um dos direitos mais preciosos do homem”: a livre comunicação das ideias e das opiniões.
Quase diariamente chefes partidários, dos mais medíocres aos mais ilustres, bradam agressões contra a instituição da imprensa. Semana sim, semana não, um jornalista é vítima de ofensas morais ou intimidações físicas. Deputados que jamais alcançaram o sentido da palavra news (em inglês ou português) querem legislar contra as fake news. Quiseram proibir as notícias “prejudicialmente incompletas”, como se houvesse na face da Terra alguma notícia que não prejudicasse nenhum interesse – ou alguma notícia que não fosse, de algum modo, incompleta.
Atenção! Sob pretexto de conter as notícias fraudulentas, existem autoridades que planejam banir do território nacional não as reportagens falsificadas, mas o noticiário crítico e verdadeiro. Não fazem ideia de que a liberdade de expressão é parte necessária do direito que tem a sociedade de fiscalizar e contestar as ações dos governantes; acham que a crítica só atrapalha e que a comunicação social deveria cumprir a função precípua de adestrar os governados.
Esse déficit da cultura política nacional costuma manifestar-se em episódios tristes, opressivos, que asfixiam os espaços democráticos. Mas de vez em quando há lances cômicos, lances de pastelão, como se a cena política no Brasil fosse uma paródia que faz troça dos ideais iluministas. Vez por outra aparece uma autoridade que, depois de praticar abusos verbais incompatíveis com sua função de Estado, vai buscar abrigo na desculpa de que disparou seus disparates exercendo sua “liberdade de expressão”. Aí, o legado iluminista é virado de pernas para o ar: a liberdade de expressão deixa de ser um direito do cidadão para questionar o Estado e se rebaixa a uma prerrogativa do Estado para intimidar a sociedade.
Há poucos dias tivemos um exemplo dessa desviante cômica, quando o general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, resolveu “tuitar” barbaridades. No dia 3 de abril, às vésperas do julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que negaria o habeas corpus ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele postou nas redes sociais a seguinte declaração: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”.
Muita gente se assustou, é óbvio, e no dia seguinte não se falava de outra coisa. Até mesmo no plenário do STF as admoestações do militar repercutiram. De modo elegante, mas vigoroso, o ministro Celso de Mello, decano da Corte, advertiu: “O respeito indeclinável à Constituição e às leis da República representa o limite intransponível a que se devem submeter os agentes do Estado, quaisquer que sejam os estamentos a que eles pertencem”.
Mais claro, impossível. Um agente de Estado tem a sua liberdade de expressão, por certo, mas isso não significa que ele tenha o direito de sair por aí falando (ou “postando”) o que lhe dá na veneta. As leis da República o limitam. Sem essas leis não teríamos ordem pública, muito menos ordem democrática.
Como já era de esperar (infelizmente), o presidente Michel Temer não esboçou nenhum movimento para enquadrar o comandante, que é seu subordinado. Em lugar disso, no mesmo dia do julgamento do Supremo fez um pronunciamento público, sempre pontuado por seu estilo mordomial de dedos lívidos, trêmulo-esvoaçantes, em que deu de desfiar generalidades sobre... liberdade de expressão: “É da ordem jurídica que nasce a liberdade de expressão e de imprensa”.
Escondendo-se atrás de ambiguidades melífluas, o chefe de Estado sugeriu, com quasetodas as letras, que o general não tinha extrapolado suas atribuições, apenas exercia a sua... “liberdade de expressão”.
Errou. Omitiu-se. Nos termos da Constituição e da lei, a livre manifestação de militares fica subordinada às funções institucionais que cabem a eles. O Regulamento Disciplinar do Exército (um decreto de 2002) dispõe que um militar da ativa não deve “tomar parte em discussão a respeito de assuntos de natureza político-partidária ou religiosa”. Apenas com autorização do chefe um militar poderia “discutir ou provocar discussão, por qualquer veículo de comunicação, sobre assuntos políticos ou militares”.
Para Temer, entretanto, o direito fundamental da liberdade de expressão parece permitir que o general que comanda o Exército lance ameaças mais ou menos veladas contra os ministros do Supremo Tribunal e contra a sociedade.
Em sua convicção obtusa, o presidente não está só. A maioria dos políticos brasileiros acredita que a liberdade de expressão não é uma garantia do cidadão contra o poder, mas uma prerrogativa do poder, mesmo quando o poder investe contra o cidadão. Nada surpreendente. Afinal de contas, estamos no país em que agentes públicos desviam malas de dinheiro público para dentro de apartamentos particulares e depois, quando a polícia vai lá buscar o produto do roubo, reclamam de “invasão de privacidade”.
Não, a liberdade de expressão não pode abrigar a autoridade que comete abusos, assim como o direito à privacidade não protege esconderijos da corrupção. Quando vamos aprender uma lição tão elementar?
Atenção! Sob pretexto de conter as notícias fraudulentas, existem autoridades que planejam banir do território nacional não as reportagens falsificadas, mas o noticiário crítico e verdadeiro. Não fazem ideia de que a liberdade de expressão é parte necessária do direito que tem a sociedade de fiscalizar e contestar as ações dos governantes; acham que a crítica só atrapalha e que a comunicação social deveria cumprir a função precípua de adestrar os governados.
Esse déficit da cultura política nacional costuma manifestar-se em episódios tristes, opressivos, que asfixiam os espaços democráticos. Mas de vez em quando há lances cômicos, lances de pastelão, como se a cena política no Brasil fosse uma paródia que faz troça dos ideais iluministas. Vez por outra aparece uma autoridade que, depois de praticar abusos verbais incompatíveis com sua função de Estado, vai buscar abrigo na desculpa de que disparou seus disparates exercendo sua “liberdade de expressão”. Aí, o legado iluminista é virado de pernas para o ar: a liberdade de expressão deixa de ser um direito do cidadão para questionar o Estado e se rebaixa a uma prerrogativa do Estado para intimidar a sociedade.
Há poucos dias tivemos um exemplo dessa desviante cômica, quando o general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, resolveu “tuitar” barbaridades. No dia 3 de abril, às vésperas do julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que negaria o habeas corpus ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele postou nas redes sociais a seguinte declaração: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”.
Muita gente se assustou, é óbvio, e no dia seguinte não se falava de outra coisa. Até mesmo no plenário do STF as admoestações do militar repercutiram. De modo elegante, mas vigoroso, o ministro Celso de Mello, decano da Corte, advertiu: “O respeito indeclinável à Constituição e às leis da República representa o limite intransponível a que se devem submeter os agentes do Estado, quaisquer que sejam os estamentos a que eles pertencem”.
Mais claro, impossível. Um agente de Estado tem a sua liberdade de expressão, por certo, mas isso não significa que ele tenha o direito de sair por aí falando (ou “postando”) o que lhe dá na veneta. As leis da República o limitam. Sem essas leis não teríamos ordem pública, muito menos ordem democrática.
Como já era de esperar (infelizmente), o presidente Michel Temer não esboçou nenhum movimento para enquadrar o comandante, que é seu subordinado. Em lugar disso, no mesmo dia do julgamento do Supremo fez um pronunciamento público, sempre pontuado por seu estilo mordomial de dedos lívidos, trêmulo-esvoaçantes, em que deu de desfiar generalidades sobre... liberdade de expressão: “É da ordem jurídica que nasce a liberdade de expressão e de imprensa”.
Escondendo-se atrás de ambiguidades melífluas, o chefe de Estado sugeriu, com quasetodas as letras, que o general não tinha extrapolado suas atribuições, apenas exercia a sua... “liberdade de expressão”.
Errou. Omitiu-se. Nos termos da Constituição e da lei, a livre manifestação de militares fica subordinada às funções institucionais que cabem a eles. O Regulamento Disciplinar do Exército (um decreto de 2002) dispõe que um militar da ativa não deve “tomar parte em discussão a respeito de assuntos de natureza político-partidária ou religiosa”. Apenas com autorização do chefe um militar poderia “discutir ou provocar discussão, por qualquer veículo de comunicação, sobre assuntos políticos ou militares”.
Para Temer, entretanto, o direito fundamental da liberdade de expressão parece permitir que o general que comanda o Exército lance ameaças mais ou menos veladas contra os ministros do Supremo Tribunal e contra a sociedade.
Em sua convicção obtusa, o presidente não está só. A maioria dos políticos brasileiros acredita que a liberdade de expressão não é uma garantia do cidadão contra o poder, mas uma prerrogativa do poder, mesmo quando o poder investe contra o cidadão. Nada surpreendente. Afinal de contas, estamos no país em que agentes públicos desviam malas de dinheiro público para dentro de apartamentos particulares e depois, quando a polícia vai lá buscar o produto do roubo, reclamam de “invasão de privacidade”.
Não, a liberdade de expressão não pode abrigar a autoridade que comete abusos, assim como o direito à privacidade não protege esconderijos da corrupção. Quando vamos aprender uma lição tão elementar?
O menino
O menino passou lá adiante, na rua de paralelepípedos escaldantes. Pequenino, magrinho. Não sei se faminto ou sucinto pela aridez eterna daquela vida ainda breve, que parece correr num fio de navalha. Ele me olhou quase como um desvio indesejado, evitando mirar meus olhos por vergonha, timidez ou medo. Ou qualquer outro mistério da sua alminha. E se foi quase sumido, do jeito que se apresentou no tempo curto daquele passar.
Penso nos meninos e meninas que sofrem em qualquer quadrante do mundo. Por que crianças sofrem, meu bom Deus? Para quê? ─ na verdade, a pergunta é esta! Fico submerso nesta dúvida que não tem resposta.
Penso nos meninos e meninas que, menino também, conheci desfigurados pela fome das migrações da seca ─ aquela gente esquálida, famílias inteiras que os adultos da cidade chamavam de retirantes. Eu enxergava apenas as crianças ─ deixava os adultos para os adultos. Que riam um pouco depois da comida dada com compaixão, que até arriscavam brincar depois do prato. Um ato paliativo de pisar o terreno dos prazeres da infância, que duraria pouco porque havia a estrada por onde seguiriam na marcha em busca de algum milagre.
Penso nas meninas que apressavam meu coração infantil, ansioso por encontrar traços da beleza das princesinhas das histórias infantis. Penso na tristeza que me dominava por perceber que a fantasia das páginas coloridas não se desenhava ali naquele papel enrugado, amarelado, repleto de marcas incontornáveis, praticamente imprestável para rabiscar qualquer coisa feliz.
Penso nos meninos e meninas que, hoje sei, não escapavam de toda sorte de abusos nas trocas cruéis impostas pelo mundo de verdade, impiedoso, capaz de tirar vantagem da miséria que esgota alternativas.
Penso nos meninos e meninas que dependiam de caridade. Que seguiam de pés machucados, com alpercatas remendadas a pregos e grampos, enroladas em molambos para aliviar a precariedade do pisar.
Penso nos meninos e meninas que seguiam naquele cortejo quase fúnebre e ainda se encantavam por alguns segundos diante do grupo escolar, mesmo sabendo que sequer passariam pelo portão. Penso por que eu estava lá dentro, em farda impecável, orgulhoso, por certo causando inveja, labirinto que nunca desvendei.
Penso nos meninos e meninas que ficaram pelo caminho porque não houve tempo para alcançarem o milagre de escapar. Penso que vi tudo isso impotente, sem saber por que valeu a pena escapar sem milagre, por que nunca passei nem perto daquele sofrer, morte em vida.
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Cálice (Chico Buarque-Gilberto Gil)
Pergunto que danada de sorte foi essa que me escolheu para nascer, crescer e viver sem flagelos. Sem trilhar descalço o pó amarelo das estradas do incerto sem fim. Sem machucar tanto os pés, sem molambos imundos, ensanguentados. Que danada de sorte foi essa que me protegeu, que me levou somente até os calos e leves inchaços, no máximo aos passos em falso indignos de nota?
Ah, o destino! As linhas tortas do mistério, longas ou fatais, sublinhadas pelos acasos e predestinações. Decifradas sem nenhuma certeza pela lábia das videntes e cartomantes, com seus truques, ênfases e incensos penetrantes. Pelo verbo torto das ciganas, que traçavam as cidades com seus dentes de ouro, afiados, reluzentes. Com seus batons extravagantes e roupas incandescentes.
As mesmas esquinas e encruzilhadas, rotas de fuga ou armadilhas tramadas. As forças ocultas indomáveis. O medo das bruxarias. As atrizes que metiam medo na molecada. As eternas simonias, o dinheiro colhido no roçado da boa-fé.
Alguns dias, eu já nem lembrava mais daquele menino sucinto andado sobre os paralelepípedos escaldantes, que me trouxe de volta a dor de tantos meninos e meninas, e suas sinas que eu mal conseguia esboçar.
Madrugada alta, quase amanhecendo. A matriz silenciosa, casa da minha santinha. Dobrei a esquina, susto danado: aquele menino sucinto na ruela. Tive medo dos olhos que me encaravam sem desvio. Dele. Raquítico. Vindo rápido em minha direção, mesmo eu um brutamontes, ele mal alcançando minha cintura.
Era ruela, encontro inevitável, ninguém por perto, pouco espaço para desvencilhar ou recuar. Ele parou, me encarou com a força de quem domina a arte de escapar dos apertos e disse com um fiapo de voz firme:
– O senhor é um moço bonito. Gostei de lhe conhecer porque também gosto de música!
Esbocei um sorriso, pronto para desabar. Ele me estendeu um saco de papel:
– Pode pegar um, está quentinho. Meu pai faz pão, eu vendo. Mas o senhor não precisa pagar. É minha cortesia.
Nem sei se tive tempo de agradecer, o pão nu aquecendo a ponta dos dedos. Caiu sobre mim, como sereno de madrugada, uma música que gostaria de ter ouvido junto com ele:
Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, propícia estação
E fecundar o chão
Cio da Terra (Milton Nascimento-Chico Buarque)
Ouvi tudo misturado, Milton, Pena Branca, Chico, Xavantinho. O fraseado potente do contrabaixo urbano, a simplicidade das violas do interior. O sobressalto do sino, parceiro do relógio da matriz anunciando juntos que a escuridão da noite estava por um fio diante da manhã iminente. O desenho de um sonho esmaecendo na paisagem, o encanto do conto infantil prestes a ser quebrado pela luz do sol. Hora última para sossegar tantos personagens.
E foi embora ligeiro e me deixou paralisado, com vergonha de chorar por ele, por mim, por todos os meninos e meninas que ressuscitaram naquele nosso encontro breve. Segui sem olhar para trás. Chorei por todos nós. Sem qualquer vergonha. Era tudo que me restava fazer. O milagre do pão!
Entrei na casa semi-adormecida no silêncio que eu tanto precisava para adormecer antes que tudo acordasse a tempo de seguir no fio da navalha cotidiano. Acaso? Predestinação? Sorte?
Perguntas para depois do acordar, pois a sonolência é negligente. E a bola de cristal não costuma rodar. E as cartas são marcadas. E os dados viciados estão lançados, prestes a mostrar de um a seis nas contas do crupiê. As apostas estão abertas.
Heraldo Palmeira
Penso nos meninos e meninas que sofrem em qualquer quadrante do mundo. Por que crianças sofrem, meu bom Deus? Para quê? ─ na verdade, a pergunta é esta! Fico submerso nesta dúvida que não tem resposta.
Penso nas meninas que apressavam meu coração infantil, ansioso por encontrar traços da beleza das princesinhas das histórias infantis. Penso na tristeza que me dominava por perceber que a fantasia das páginas coloridas não se desenhava ali naquele papel enrugado, amarelado, repleto de marcas incontornáveis, praticamente imprestável para rabiscar qualquer coisa feliz.
Penso nos meninos e meninas que, hoje sei, não escapavam de toda sorte de abusos nas trocas cruéis impostas pelo mundo de verdade, impiedoso, capaz de tirar vantagem da miséria que esgota alternativas.
Penso nos meninos e meninas que dependiam de caridade. Que seguiam de pés machucados, com alpercatas remendadas a pregos e grampos, enroladas em molambos para aliviar a precariedade do pisar.
Penso nos meninos e meninas que seguiam naquele cortejo quase fúnebre e ainda se encantavam por alguns segundos diante do grupo escolar, mesmo sabendo que sequer passariam pelo portão. Penso por que eu estava lá dentro, em farda impecável, orgulhoso, por certo causando inveja, labirinto que nunca desvendei.
Penso nos meninos e meninas que ficaram pelo caminho porque não houve tempo para alcançarem o milagre de escapar. Penso que vi tudo isso impotente, sem saber por que valeu a pena escapar sem milagre, por que nunca passei nem perto daquele sofrer, morte em vida.
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Cálice (Chico Buarque-Gilberto Gil)
Pergunto que danada de sorte foi essa que me escolheu para nascer, crescer e viver sem flagelos. Sem trilhar descalço o pó amarelo das estradas do incerto sem fim. Sem machucar tanto os pés, sem molambos imundos, ensanguentados. Que danada de sorte foi essa que me protegeu, que me levou somente até os calos e leves inchaços, no máximo aos passos em falso indignos de nota?
Ah, o destino! As linhas tortas do mistério, longas ou fatais, sublinhadas pelos acasos e predestinações. Decifradas sem nenhuma certeza pela lábia das videntes e cartomantes, com seus truques, ênfases e incensos penetrantes. Pelo verbo torto das ciganas, que traçavam as cidades com seus dentes de ouro, afiados, reluzentes. Com seus batons extravagantes e roupas incandescentes.
As mesmas esquinas e encruzilhadas, rotas de fuga ou armadilhas tramadas. As forças ocultas indomáveis. O medo das bruxarias. As atrizes que metiam medo na molecada. As eternas simonias, o dinheiro colhido no roçado da boa-fé.
Alguns dias, eu já nem lembrava mais daquele menino sucinto andado sobre os paralelepípedos escaldantes, que me trouxe de volta a dor de tantos meninos e meninas, e suas sinas que eu mal conseguia esboçar.
Madrugada alta, quase amanhecendo. A matriz silenciosa, casa da minha santinha. Dobrei a esquina, susto danado: aquele menino sucinto na ruela. Tive medo dos olhos que me encaravam sem desvio. Dele. Raquítico. Vindo rápido em minha direção, mesmo eu um brutamontes, ele mal alcançando minha cintura.
Era ruela, encontro inevitável, ninguém por perto, pouco espaço para desvencilhar ou recuar. Ele parou, me encarou com a força de quem domina a arte de escapar dos apertos e disse com um fiapo de voz firme:
– O senhor é um moço bonito. Gostei de lhe conhecer porque também gosto de música!
Esbocei um sorriso, pronto para desabar. Ele me estendeu um saco de papel:
– Pode pegar um, está quentinho. Meu pai faz pão, eu vendo. Mas o senhor não precisa pagar. É minha cortesia.
Nem sei se tive tempo de agradecer, o pão nu aquecendo a ponta dos dedos. Caiu sobre mim, como sereno de madrugada, uma música que gostaria de ter ouvido junto com ele:
Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, propícia estação
E fecundar o chão
Cio da Terra (Milton Nascimento-Chico Buarque)
Ouvi tudo misturado, Milton, Pena Branca, Chico, Xavantinho. O fraseado potente do contrabaixo urbano, a simplicidade das violas do interior. O sobressalto do sino, parceiro do relógio da matriz anunciando juntos que a escuridão da noite estava por um fio diante da manhã iminente. O desenho de um sonho esmaecendo na paisagem, o encanto do conto infantil prestes a ser quebrado pela luz do sol. Hora última para sossegar tantos personagens.
E foi embora ligeiro e me deixou paralisado, com vergonha de chorar por ele, por mim, por todos os meninos e meninas que ressuscitaram naquele nosso encontro breve. Segui sem olhar para trás. Chorei por todos nós. Sem qualquer vergonha. Era tudo que me restava fazer. O milagre do pão!
Entrei na casa semi-adormecida no silêncio que eu tanto precisava para adormecer antes que tudo acordasse a tempo de seguir no fio da navalha cotidiano. Acaso? Predestinação? Sorte?
Perguntas para depois do acordar, pois a sonolência é negligente. E a bola de cristal não costuma rodar. E as cartas são marcadas. E os dados viciados estão lançados, prestes a mostrar de um a seis nas contas do crupiê. As apostas estão abertas.
Heraldo Palmeira
Partido do nariz grande
A propaganda do PT, amplamente reverberada, dá de barato que Lula estaria eleito se concorresse. Falso. Ele estaria no segundo turno, favorito sim para perder (menos, provavelmente, contra Jair Bolsonaro). Apenas pessoas emocionalmente envolvidas, intelectualmente desonestas ou ambas as coisas menosprezam a rejeição antipetistaIgor Gielow
PT nunca mais?
Caros brasileiros,
Alguém ainda se lembra de Miriam Cordeiro? A ex-namorada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou famosa nas primeiras eleições livres depois da ditadura militar em novembro 1989. Poucos dias antes do segundo turno ela fez uma acusação bombástica contra Lula: depois de um relacionamento extraconjugal, ele a teria forçado a fazer um aborto.
A denúncia, que foi ao ar no programa eleitoral do então candidato Fernando Collor de Mello, surtiu efeito: Collor, que disputava ponto a ponto nas pesquisas de opinião com Lula, ganhou as eleições.
O aborto que não foi feito foi a minha primeira lição na política brasileira. Aprendi: a briga pelo poder é feia e não tem limites.
Naquele tempo, parecia que eu estava num filme errado. Na Alemanha, depois de 40 anos de ditadura socialista na antiga “República Democrática Alemã”, o Muro tinha acabado de cair. No Brasil, no entanto, depois de 25 anos de ditadura militar, o medo do socialismo dominava a campanha eleitoral.
Essa lição me marcou e revelou um mecanismo da política brasileira para mim: o acesso e a permanência ao poder tem limite. Se o povo vota “errado”, ele tem que ser “corrigido”. Parece que esse mecanismo funciona ainda hoje.
A campanha do ex-presidente Collor em 1989, apoiada pela Rede Globo, é um exemplo disso. O impeachment de Dilma, reeleita em outubro 2014, é outro. Sem crime comprovado contra ela, o julgamento no Congresso brasileiro no dia 31 de agosto de 2016 virou um tribunal político que “corrigiu” o resultado das urnas.
O mesmo Congresso brasileiro que votou a favor do impeachment de Dilma rejeitou a denúncia contra o presidente Michel Temer. O vice de Dilma havia sido denunciado por corrupção pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
Com essa votação, ficou evidente que o Congresso brasileiro combate o combate a corrupção. Os deputados que nos tempos do mensalão aceitaram dinheiro do governo do PT para votar a favor de programas sociais do governo desta vez aceitaram favores do presidente Temer para livrar ele da investigação.
Vale ressaltar também que esse mesmo Congresso até hoje barra a tão pedida reforma eleitoral que mudaria as regras de votação de deputados e senadores. Essa reforma impediria a entrada no Congresso de representantes que não foram escolhidos pelo povo, mas pegaram carona nos candidatos mais votados.
Observo que o combate à corrupção perde força política quando ela não serve mais para combater o PT. Parece que a raiva contra o PT virou programa nacional. Lula na prisão, PT nunca mais?
Reconheço: a raiva é uma poderosa arma política. Como vemos na Europa, na Alemanha com ascensão da nova direita, ou nos Estados Unidos, ela consegue mobilizar milhões de pessoas. Mas cuidado: ela leva diretamente ao abismo.
Na Inglaterra, ela colocou o país no caminho do Brexit, uma decisão da qual cada vez mais britânicos se arrependem. Nos Estados Unidos, a raiva do Trump e seus seguidores faz o país lutar contra todos e todo mundo: “o establishment”, “os chineses”, “os mexicanos”, “os muçulmanos”, e cada dia aparecem mais inimigos.
No Brasil, a raiva levou o país a uma crise política e econômica que nem Dilma Rousseff teria sido capaz de produzir se tivesse ficado no Planalto. A raiva revela atitudes desumanas e perigosas, como a gravação transcrita de um operador de voo ao piloto que conduzia o Lula para a prisão em Curitiba: “Manda este lixo janela abaixo aí”.
Caros brasileiros, por favor, derrubem esse muro de ódio e raiva! O antipetismo não serve como programa político nacional. Lula na prisão não vai fazer o Brasil um país melhor. Melhor seria renovar nas próximas eleições o Congresso com candidatos que trabalhem pelo bem comum e não pelo bem próprio. Os brasileiros merecem representantes melhores e os seus votos não precisam de “correções” posteriores.
Astrid Prange de Oliveira
Alguém ainda se lembra de Miriam Cordeiro? A ex-namorada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou famosa nas primeiras eleições livres depois da ditadura militar em novembro 1989. Poucos dias antes do segundo turno ela fez uma acusação bombástica contra Lula: depois de um relacionamento extraconjugal, ele a teria forçado a fazer um aborto.
A denúncia, que foi ao ar no programa eleitoral do então candidato Fernando Collor de Mello, surtiu efeito: Collor, que disputava ponto a ponto nas pesquisas de opinião com Lula, ganhou as eleições.
O aborto que não foi feito foi a minha primeira lição na política brasileira. Aprendi: a briga pelo poder é feia e não tem limites.
Naquele tempo, parecia que eu estava num filme errado. Na Alemanha, depois de 40 anos de ditadura socialista na antiga “República Democrática Alemã”, o Muro tinha acabado de cair. No Brasil, no entanto, depois de 25 anos de ditadura militar, o medo do socialismo dominava a campanha eleitoral.
Essa lição me marcou e revelou um mecanismo da política brasileira para mim: o acesso e a permanência ao poder tem limite. Se o povo vota “errado”, ele tem que ser “corrigido”. Parece que esse mecanismo funciona ainda hoje.
O mesmo Congresso brasileiro que votou a favor do impeachment de Dilma rejeitou a denúncia contra o presidente Michel Temer. O vice de Dilma havia sido denunciado por corrupção pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
Com essa votação, ficou evidente que o Congresso brasileiro combate o combate a corrupção. Os deputados que nos tempos do mensalão aceitaram dinheiro do governo do PT para votar a favor de programas sociais do governo desta vez aceitaram favores do presidente Temer para livrar ele da investigação.
Vale ressaltar também que esse mesmo Congresso até hoje barra a tão pedida reforma eleitoral que mudaria as regras de votação de deputados e senadores. Essa reforma impediria a entrada no Congresso de representantes que não foram escolhidos pelo povo, mas pegaram carona nos candidatos mais votados.
Observo que o combate à corrupção perde força política quando ela não serve mais para combater o PT. Parece que a raiva contra o PT virou programa nacional. Lula na prisão, PT nunca mais?
Reconheço: a raiva é uma poderosa arma política. Como vemos na Europa, na Alemanha com ascensão da nova direita, ou nos Estados Unidos, ela consegue mobilizar milhões de pessoas. Mas cuidado: ela leva diretamente ao abismo.
Na Inglaterra, ela colocou o país no caminho do Brexit, uma decisão da qual cada vez mais britânicos se arrependem. Nos Estados Unidos, a raiva do Trump e seus seguidores faz o país lutar contra todos e todo mundo: “o establishment”, “os chineses”, “os mexicanos”, “os muçulmanos”, e cada dia aparecem mais inimigos.
No Brasil, a raiva levou o país a uma crise política e econômica que nem Dilma Rousseff teria sido capaz de produzir se tivesse ficado no Planalto. A raiva revela atitudes desumanas e perigosas, como a gravação transcrita de um operador de voo ao piloto que conduzia o Lula para a prisão em Curitiba: “Manda este lixo janela abaixo aí”.
Caros brasileiros, por favor, derrubem esse muro de ódio e raiva! O antipetismo não serve como programa político nacional. Lula na prisão não vai fazer o Brasil um país melhor. Melhor seria renovar nas próximas eleições o Congresso com candidatos que trabalhem pelo bem comum e não pelo bem próprio. Os brasileiros merecem representantes melhores e os seus votos não precisam de “correções” posteriores.
Astrid Prange de Oliveira
quarta-feira, 11 de abril de 2018
A profecia abortada de Gleisi
Uma sociedade muda é uma sociedade morta. O poder sempre preferiu o silêncio das ruas ao ruído dos protestos. Existem, no entanto, momentos históricos em que os gritos e as ameaças podem se tornar armas. Dias antes de o juiz Sérgio Moro decretar a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a atual presidenta do seu partido, o PT, senadora Gleisi Hoffman, ré por corrupção no Supremo Tribunal Federal, lançou uma profecia terrível: “Para prender Lula, vai ter que prender muita gente, mas, mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar”. Hoje Lula já está na prisão e ninguém teve de morrer para que a decisão do tribunal fosse cumprida. Felizmente, a profecia de Gleisi foi abortada.
Dias atrás cheguei a perguntar, nesta coluna, se o Brasil não estaria sofrendo “um ataque de loucura”, dada a situação política e social que o aflige e na qual parece que todos enlouqueceram de repente, das altas instituições do Estado às forças judiciais, políticas e até militares. Hoje, em vista da capacidade que a sociedade demonstrou para metabolizar o trauma da prisão de Lula sem que as ruas fossem tomadas para evitá-lo, cabe perguntar se não estamos desvalorizando a maturidade de uma sociedade que começa a encarar como normal, por exemplo, que a justiça seja igual para todos. Uma sociedade que deixou de ser muda para gritar seu protesto. Uma sociedade que está, por exemplo, vigiando um Supremo Tribunal Federal que flerta com impedir a prisão dos condenados por um tribunal de segunda instância. Até os menos cultos entenderam que essa decisão permitiria que os condenados importantes, que podem se dar ao luxo de pagar advogados de ouro, adiassem sua prisão recorrendo a instâncias superiores. A sociedade entendeu que, dessa maneira, os pobres continuariam igualmente presos e até mesmo sem serem julgados, como sempre o foram. Viu que o que os magistrados querem, sob o pretexto de defender a presunção de inocência, é parar a Lava Jato e salvar os mais de cem políticos acusados ou já condenados por corrupção.
Uma sociedade capaz de ver Lula, o primeiro ex-presidente deste país preso por corrupção sem que isso tenha sido uma convulsão social, como enfatizou o jornal Folha de S. Paulo, talvez seja uma sociedade mais equilibrada e moderna do que aparece na superfície das águas agitadas pelos ódios dos radicais das duas frentes. Enquanto muitos jornais e televisões de todo o mundo deram a prisão de Lula como uma tragédia nacional, mais de 200 milhões de brasileiros continuaram trabalhando, produzindo, se divertindo e até felizes de que aos três “pês” que, segundo a sabedoria popular, eram os únicos a ir para a cadeia e apodreciam nelas –pobres, putas e pretos– agora tenha sido acrescentado um quarto “p”: o dos políticos.
O Brasil talvez seja maior e mais sólido do que parece, com vontade acima de tudo de melhorar sua vida. Um país consciente do que lhe falta, que exige melhorias sociais e serviços públicos dignos e que quer se parecer mais com as nações desenvolvidas nas quais, às vezes, os cidadãos nem lembram o nome do presidente, do que com as repúblicas de bananas, onde políticos e messiânicos poderosos vivem não para criar uma sociedade melhor e mais justa, mas de costas a ela, preocupados em enriquecer e se perpetuar no poder à sua custa. É possível que a força dos que preferem a paz à guerra, o diálogo à intransigência, a convivência ao ódio, seja maior do que a dos destemperados ruidosos e, felizmente, maus profetas, como a aguerrida senadora Gleisi, que já via a prisão de Lula semeada de cadáveres.
O Brasil não se desarticulou vendo Lula na cadeia e tenho certeza de que tampouco o fará quando recuperar sua liberdade. Aqueles que o endeusam e aqueles que o odeiam são menos do que aqueles que veem com naturalidade que a política é feita por pessoas de carne e osso, e não por divindades, como na Grécia Antiga. A história é feita por homens e mulheres normais, com seu cansaço e sua esperança em um futuro melhor para seus filhos. Somente as Igrejas têm a prerrogativa de proclamar santos. O realismo –não o mágico das sociedades ainda imaturas, mas aquele misturado com a terra– é o melhor condimento para fortalecer uma sociedade capaz de viver em liberdade e ser governada com justiça. Todo o resto é areia ideológica jogada nos olhos das pessoas para evitar que elas vejam uma realidade que sempre estará inevitavelmente misturada com tragédias e esperanças, porque a vida é assim. O ruído dos protestos dos vivos é sempre melhor, no final, do que o silêncio dos mortos.
Dias atrás cheguei a perguntar, nesta coluna, se o Brasil não estaria sofrendo “um ataque de loucura”, dada a situação política e social que o aflige e na qual parece que todos enlouqueceram de repente, das altas instituições do Estado às forças judiciais, políticas e até militares. Hoje, em vista da capacidade que a sociedade demonstrou para metabolizar o trauma da prisão de Lula sem que as ruas fossem tomadas para evitá-lo, cabe perguntar se não estamos desvalorizando a maturidade de uma sociedade que começa a encarar como normal, por exemplo, que a justiça seja igual para todos. Uma sociedade que deixou de ser muda para gritar seu protesto. Uma sociedade que está, por exemplo, vigiando um Supremo Tribunal Federal que flerta com impedir a prisão dos condenados por um tribunal de segunda instância. Até os menos cultos entenderam que essa decisão permitiria que os condenados importantes, que podem se dar ao luxo de pagar advogados de ouro, adiassem sua prisão recorrendo a instâncias superiores. A sociedade entendeu que, dessa maneira, os pobres continuariam igualmente presos e até mesmo sem serem julgados, como sempre o foram. Viu que o que os magistrados querem, sob o pretexto de defender a presunção de inocência, é parar a Lava Jato e salvar os mais de cem políticos acusados ou já condenados por corrupção.
Uma sociedade capaz de ver Lula, o primeiro ex-presidente deste país preso por corrupção sem que isso tenha sido uma convulsão social, como enfatizou o jornal Folha de S. Paulo, talvez seja uma sociedade mais equilibrada e moderna do que aparece na superfície das águas agitadas pelos ódios dos radicais das duas frentes. Enquanto muitos jornais e televisões de todo o mundo deram a prisão de Lula como uma tragédia nacional, mais de 200 milhões de brasileiros continuaram trabalhando, produzindo, se divertindo e até felizes de que aos três “pês” que, segundo a sabedoria popular, eram os únicos a ir para a cadeia e apodreciam nelas –pobres, putas e pretos– agora tenha sido acrescentado um quarto “p”: o dos políticos.
O Brasil talvez seja maior e mais sólido do que parece, com vontade acima de tudo de melhorar sua vida. Um país consciente do que lhe falta, que exige melhorias sociais e serviços públicos dignos e que quer se parecer mais com as nações desenvolvidas nas quais, às vezes, os cidadãos nem lembram o nome do presidente, do que com as repúblicas de bananas, onde políticos e messiânicos poderosos vivem não para criar uma sociedade melhor e mais justa, mas de costas a ela, preocupados em enriquecer e se perpetuar no poder à sua custa. É possível que a força dos que preferem a paz à guerra, o diálogo à intransigência, a convivência ao ódio, seja maior do que a dos destemperados ruidosos e, felizmente, maus profetas, como a aguerrida senadora Gleisi, que já via a prisão de Lula semeada de cadáveres.
O Brasil não se desarticulou vendo Lula na cadeia e tenho certeza de que tampouco o fará quando recuperar sua liberdade. Aqueles que o endeusam e aqueles que o odeiam são menos do que aqueles que veem com naturalidade que a política é feita por pessoas de carne e osso, e não por divindades, como na Grécia Antiga. A história é feita por homens e mulheres normais, com seu cansaço e sua esperança em um futuro melhor para seus filhos. Somente as Igrejas têm a prerrogativa de proclamar santos. O realismo –não o mágico das sociedades ainda imaturas, mas aquele misturado com a terra– é o melhor condimento para fortalecer uma sociedade capaz de viver em liberdade e ser governada com justiça. Todo o resto é areia ideológica jogada nos olhos das pessoas para evitar que elas vejam uma realidade que sempre estará inevitavelmente misturada com tragédias e esperanças, porque a vida é assim. O ruído dos protestos dos vivos é sempre melhor, no final, do que o silêncio dos mortos.
Ocultar roubo é crime
Ficha n° 70000553820
Desde que foi recolhido à carceragem da Polícia Federal em Curitiba, na noite do sábado passado, o sr. Luiz Inácio Lula da Silva passou a ser mais um entre as centenas de milhares de presos sob custódia do Estado brasileiro.
No ofício de abertura de seu processo de execução provisória da pena de 12 anos e 1 mês de prisão a que foi condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro – encaminhado pelo juiz Sérgio Moro à juíza Caroline Moura Lebbos, da 12.ª Vara Federal de Curitiba, responsável pela área de execuções penais daquele foro –, o apenado foi devidamente qualificado e recebeu o número de identificação que titula este editorial.
A despeito do que possa parecer a uma parte do distinto público – e das piruetas narrativas de seu séquito de adoradores –, uma vez encarcerado após ter sido condenado em um processo no qual, diga-se, lhe foram asseguradas todas as garantias ao exercício da ampla defesa, o sr. Lula da Silva não é um reeducando diferente dos demais por sua condição de ex-presidente. A partir de agora, Lula é mais um número no Cadastro Nacional de Presos (CNP).
Tal fato inescapável não se presta a desumanizá-lo entre as paredes da sala improvisada na qual está preso; a propósito, em condições muito mais dignas do que as da esmagadora maioria da população carcerária. Ao sr. Lula da Silva, como a qualquer outro que esteja sob a guarda do Estado, devem ser dadas as condições básicas para o tranquilo cumprimento de sua pena, visando à harmônica integração social do interno, exatamente como determina a Lei n.º 7.210/1984. Nem mais, nem menos. No cumprimento da pena, há que se observar com desvelo o princípio da dignidade humana.
A realidade objetiva imposta pela atual condição de reeducando do sr. Lula da Silva deve pautar não só o comportamento dos agentes do Estado a cargo de sua custódia, mas também deve – ou pelo menos deveria – orientar as ações dos grupos simpáticos ao ex-presidente, dentro do espírito que inspira um regime republicano como o nosso. Mas talvez este seja um pedido muito além da capacidade de entendimento de seus destinatários, pois o que se viu até agora foi exatamente o contrário.
Insuflados pela irresponsável cúpula petista, um grupo de militantes se entrincheirou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em uma espécie de círculo de “proteção” ao réu condenado, enquanto outro grupo, este composto por membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), realizava o já habitual bloqueio de alguns trechos de rodovias.
Fora os graves ataques perpetrados por grupelhos nada afeitos à democracia contra jornalistas em pleno exercício da profissão, tudo ocorreu dentro do script esperado das ações dos baderneiros, gente que compreende “democracia” tão somente como mais uma palavra de uma embolorada retórica de enfrentamento político carente de sentido.
Mais disparatadas foram a anunciada “caravana” de 11 governadores até Curitiba – incluindo os de todos os Estados do Nordeste – para visitar o sr. Lula da Silva na cadeia; e a intenção manifestada pela presidente do PT, a senadora Gleisi Hoffmann, de “transferir” para a capital paranaense a sede do partido.
O pedido de visita especial dos governadores, feito pelo senador Roberto Requião (MDB-PR), foi negado pela juíza Caroline Lebbos, responsável pela execução penal. Ela afirmou inexistir “fundamento para a flexibilização do regime geral de visitas próprio à carceragem da Polícia Federal”. Portanto, valerá para o sr. Lula da Silva a mesma regra que vale para todos os detentos: visita familiar semanal, franqueada somente a presença dos advogados a qualquer dia e hora.
A ocupação de Curitiba por um grupo de militantes do PT deve receber a devida atenção dos órgãos de segurança pública do Paraná. O prefeito Rafael Greca (PMN) relatou uma série de reclamações de moradores contra o mau comportamento dos invasores. Para o bem da população e para a própria tranquilidade da execução da pena do sr. Lula da Silva, é bom que as autoridades locais estejam atentas aos excessos.
No ofício de abertura de seu processo de execução provisória da pena de 12 anos e 1 mês de prisão a que foi condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro – encaminhado pelo juiz Sérgio Moro à juíza Caroline Moura Lebbos, da 12.ª Vara Federal de Curitiba, responsável pela área de execuções penais daquele foro –, o apenado foi devidamente qualificado e recebeu o número de identificação que titula este editorial.
A despeito do que possa parecer a uma parte do distinto público – e das piruetas narrativas de seu séquito de adoradores –, uma vez encarcerado após ter sido condenado em um processo no qual, diga-se, lhe foram asseguradas todas as garantias ao exercício da ampla defesa, o sr. Lula da Silva não é um reeducando diferente dos demais por sua condição de ex-presidente. A partir de agora, Lula é mais um número no Cadastro Nacional de Presos (CNP).

A realidade objetiva imposta pela atual condição de reeducando do sr. Lula da Silva deve pautar não só o comportamento dos agentes do Estado a cargo de sua custódia, mas também deve – ou pelo menos deveria – orientar as ações dos grupos simpáticos ao ex-presidente, dentro do espírito que inspira um regime republicano como o nosso. Mas talvez este seja um pedido muito além da capacidade de entendimento de seus destinatários, pois o que se viu até agora foi exatamente o contrário.
Insuflados pela irresponsável cúpula petista, um grupo de militantes se entrincheirou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em uma espécie de círculo de “proteção” ao réu condenado, enquanto outro grupo, este composto por membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), realizava o já habitual bloqueio de alguns trechos de rodovias.
Fora os graves ataques perpetrados por grupelhos nada afeitos à democracia contra jornalistas em pleno exercício da profissão, tudo ocorreu dentro do script esperado das ações dos baderneiros, gente que compreende “democracia” tão somente como mais uma palavra de uma embolorada retórica de enfrentamento político carente de sentido.
Mais disparatadas foram a anunciada “caravana” de 11 governadores até Curitiba – incluindo os de todos os Estados do Nordeste – para visitar o sr. Lula da Silva na cadeia; e a intenção manifestada pela presidente do PT, a senadora Gleisi Hoffmann, de “transferir” para a capital paranaense a sede do partido.
O pedido de visita especial dos governadores, feito pelo senador Roberto Requião (MDB-PR), foi negado pela juíza Caroline Lebbos, responsável pela execução penal. Ela afirmou inexistir “fundamento para a flexibilização do regime geral de visitas próprio à carceragem da Polícia Federal”. Portanto, valerá para o sr. Lula da Silva a mesma regra que vale para todos os detentos: visita familiar semanal, franqueada somente a presença dos advogados a qualquer dia e hora.
A ocupação de Curitiba por um grupo de militantes do PT deve receber a devida atenção dos órgãos de segurança pública do Paraná. O prefeito Rafael Greca (PMN) relatou uma série de reclamações de moradores contra o mau comportamento dos invasores. Para o bem da população e para a própria tranquilidade da execução da pena do sr. Lula da Silva, é bom que as autoridades locais estejam atentas aos excessos.
Milhões de Lula
No circo mambembe que montou defronte ao edifício do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, no qual contou com a cumplicidade de uma pastora (como é mesmo o nome dela?) e do bispo dom Angélico Sândalo Bernardino, que não é um anjo nem cheira a madeira perfumada, Lula disse que não é “mais uma pessoa, mas uma ideia”. Ou seja: se estivesse jogando cartas com Jesus Cristo, tê-las-ia atirado à mesa e berrado com o que lhe restasse de voz e bafo: truco! Pois o filho de Deus feito homem teria multiplicado peixes para saciar a fome dos prosélitos que ouviram seu sermão da montanha, enquanto Lula teria obrado o milagre de multiplicar-se em almas de milhões de brasileiros.
Levado ao extremo, tal delírio blasfemo pretende encarcerar na “sala de estado-maior” da Polícia Federal (PF) em Curitiba, e só por sua pretensão embriagada – não a população brasileira, cuja maioria festejou com foguetório a reafirmação do Estado de Direito no País – pelo menos um terço dela, que continua fazendo autos de fé genuflexos ao bezerro de ouro. Ao produzir material de propaganda eleitoral na sede do lugar do qual emergiu para um sucesso político sem igual na História, o líder das greves da virada dos anos 70 para os 80 e levantador de postes no século 21 mira exclusivamente a cruzada para evitar que os votos da esquerda mingúem. E que o PT seja soterrado por uma onda oponente nas eleições federal e estaduais, aprofundando o fosso escavado nos últimos pleitos municipais.
Como deixou claro, em entrevista ao Globo, Enilson Simões de Moura, o Alemão, militante do MR8 que tinha o encargo de medir a opinião da massa nas assembleias de grevistas no Estádio de Vila Euclides, Lula nunca foi, não é nem será de esquerda. Sua ideologia política, segundo o antigo lugar-tenente, é a de torneiro mecânico, que, aliás, professou durante muito pouco tempo. Na verdade, pelo menos depois que foi eleito duas vezes e elegeu em conluio com o PMDB de Michel Temer a tatibitate profissional Dilma Rousseff, Lula reza no altar das cédulas verdes do dólar. Ou seja, do bezerro de ouro dos apóstatas que negaram Moisés no Sinai. Mas nunca deixou de recorrer à esquerda armada e a prelados da Teologia da Libertação para se dar bem na vida. A esquerda brasileira sempre foi esfacelada e se dizia que só se unia na cadeia. Lula uniu-a em torno do furto generalizado com o qual seus militantes, aliados às velhas raposas da política tradicional, esvaziaram todos os cofres públicos no País. Quando, juntos, fundaram o Partido dos Trabalhadores, ex-guerrilheiros, prelados marxistas e sindicalistas sob a égide do retirante de Caetés diziam que lutavam “contra tudo o que está aí”, o que incluía a corrupção sistêmica.
Hoje todos brigam pela manutenção da velha impunidade contra federais, procuradores e juízes que a combatem em primeira e segunda instâncias e nas operações como a Lava Jato e outras, que conseguiram o feito espetacular de acabar com o paradigma de que só são presos pobres, pretos e prostitutas. O maior empreiteiro do Brasil, Marcelo Odebrecht, está em prisão domiciliar na mansão no Morumbi. Ícone da roubalheira na ditadura militar, Maluf também fica entre os Jardins e o hospital, destino inexorável depois do tempo que se perdeu até prendê-lo. E o criminoso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro na segunda instância, na qual se encerra o trânsito em julgado em matéria fática, Luiz Inácio Lula da Silva, foi preso, um “sonho de consumo” não do juiz que expediu seu mandado de cadeia, mas da maioria dos brasileiros, cuja vida ele desgraçou. O que resta do PT e da esquerda em geral está ao lado dos chefões das quadrilhas partidárias protegidos pelo foro privilegiado, que os mantém a salvo de processos e até inquéritos (caso do presidente Michel Temer), que fatalmente lhes reservariam destino similar. A prioridade zero dessa patota é garantir a vigência do acordão tácito. Mas ela foi surpreendida pelo voto coerente de Rosa Weber no Supremo, negando habeas corpus ao chefão por seis a cinco, e, antes disso, por decisão unânime de turmas do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), em Porto Alegre, e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília. Nove a zero.
Os sermões depois do serão à frente da sede do sindicato revelam – de parte do bispo dissidente, que falou ao arrepio dos colegas e da instituição, que não respeita – a cristalina demonstração de que a nostalgia da ditadura militar não é exclusiva da direita chucra. A esquerda de vocação ditatorial tem dois motivos fortes para sabotar e solapar a democracia, pela qual a sociedade brasileira tem lutado e à qual tem sido fiel em sua vigência. A primeira delas é que seus inspiradores – Marx, Engels, Lênin, Stalin e Trotsky – sempre desprezaram o que chamavam de liberalismo. A esquerda agora demoniza o “neoliberalismo” burguês. Os grupos que pegaram em armas contra a ditadura fascistoide no Brasil não o fizeram para democratizar o País, mas para aqui instalar uma ditadura comunista. Foram massacrados em porões de quartéis e delegacias, mas sempre mantiveram a fé nos dogmas marxistas da ditadura do proletariado. Por isso mesmo, continuaram venerando tiranos como os irmãos Castro e seus vassalos bolivarianos Chávez, Maduro, Correa, Morales e Kirshner.
O outro motivo advém das torturas e execuções que atingiram alguns desses jovens tidos como idealistas. As barbaridades cometidas pelo regime do arbítrio serviram de pretexto para o oblívio pelo martírio. As vítimas da ditadura militar, fossem democratas ou vassalos das elites dirigentes dos partidos comunistas, passaram a gozar do perdão generalizado simbolizado pela expressão “guerreiros do povo”. E a lengalenga de São Bernardo no sábado 7 de abril reflete essa nostalgia da ditadura do algoz.
A saudade do passado de tirania em que os inimigos ferozes eram usados como avalistas da santidade de quem se propunha a lutar contra eles já se havia manifestado na peroração do advogado de Lula no Supremo, José Roberto Batochio, que apelou para Malesherbes (em francês macarrônico, no qual trocou o verbo prendre por ‘prener’), advogado de Luís XVI, guilhotinado. Não citou os girondinos, revolucionários liberais, como Danton, adversário do jacobino Robespierre, lembrado como réprobo pelo advogado do principal líder populista (“do povo”) no Brasil. E se cristalizou no discurso em que o criminoso. esperneando contra a prisão, incitou a massa à desordem e à rebelião e atacou aparelhos e pilares do Estado de Direito: polícia, Ministério Público, Justiça, direito de ir e vir da cidadania e liberdade de informação, expressão e opinião, entre outros.
No entanto, felizmente, esses ataques à democracia não serviram sequer para reagrupar as forças políticas com as quais o condenado imagina retomar o lugar que já foi seu no proscênio do teatro político nacional. A seu palanque armado para o sermão após o serão no sindicato não compareceram importantes militantes do PT. Tarso Genro, Olívio Dutra, Jaques Wagner, ex-chefe da Casa Civil de Dilma, Rui Costa e outros petistas do núcleo baiano do partido não foram apoiá-lo: a bem da verdade, o politico mais importante presente à “vigília” sindical foi o ator de novelas Osmar Prado, que só deu um recado à militância: “As mulheres também traem”. No que foi entusiasticamente aprovado pelo mais popular presidiário do País. Ciro Gomes, presidenciável esquerdista mais bem colocado nas pesquisas, faltou e foi excomungado com uma negativa de apoio a suas pretensões eleitorais – promessa que só pode ser respondida com uma gargalhada. Marina Silva, antigamente a voz ecológica de Lula e do PT, não poderia se solidarizar, pois no lançamento de sua candidatura a presidente pelo Rede Sustentabilidade disse que “a lei é para todos”.
A maioria da população brasileira, que recusa a duvidosa honra de se tornar um Lula a mais, confia que neste ano eleitoral a discussão política não se limite à fantasia paranoica de um criminoso tentando fugir da Justiça e se fingindo de perseguido por uma conspiração impossível. E mártir de uma causa pela qual nunca lutou, seja como sindicalista de resultados, seja como dirigente de um Estado que agiu como um Robin Hood com amnésia alcoólica: roubou dos ricos e se esqueceu de distribuir aos pobres, como circula no implacável Twitter. Deste panorama visto da ponte se conclui que o melhor que Lula teria a fazer seria distribuir os milhões de dólares que furtou dos 13 milhões de desempregados pela politica errática dos três mandatos e meio do partido que fundou.
José Nêumanne
Levado ao extremo, tal delírio blasfemo pretende encarcerar na “sala de estado-maior” da Polícia Federal (PF) em Curitiba, e só por sua pretensão embriagada – não a população brasileira, cuja maioria festejou com foguetório a reafirmação do Estado de Direito no País – pelo menos um terço dela, que continua fazendo autos de fé genuflexos ao bezerro de ouro. Ao produzir material de propaganda eleitoral na sede do lugar do qual emergiu para um sucesso político sem igual na História, o líder das greves da virada dos anos 70 para os 80 e levantador de postes no século 21 mira exclusivamente a cruzada para evitar que os votos da esquerda mingúem. E que o PT seja soterrado por uma onda oponente nas eleições federal e estaduais, aprofundando o fosso escavado nos últimos pleitos municipais.
Hoje todos brigam pela manutenção da velha impunidade contra federais, procuradores e juízes que a combatem em primeira e segunda instâncias e nas operações como a Lava Jato e outras, que conseguiram o feito espetacular de acabar com o paradigma de que só são presos pobres, pretos e prostitutas. O maior empreiteiro do Brasil, Marcelo Odebrecht, está em prisão domiciliar na mansão no Morumbi. Ícone da roubalheira na ditadura militar, Maluf também fica entre os Jardins e o hospital, destino inexorável depois do tempo que se perdeu até prendê-lo. E o criminoso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro na segunda instância, na qual se encerra o trânsito em julgado em matéria fática, Luiz Inácio Lula da Silva, foi preso, um “sonho de consumo” não do juiz que expediu seu mandado de cadeia, mas da maioria dos brasileiros, cuja vida ele desgraçou. O que resta do PT e da esquerda em geral está ao lado dos chefões das quadrilhas partidárias protegidos pelo foro privilegiado, que os mantém a salvo de processos e até inquéritos (caso do presidente Michel Temer), que fatalmente lhes reservariam destino similar. A prioridade zero dessa patota é garantir a vigência do acordão tácito. Mas ela foi surpreendida pelo voto coerente de Rosa Weber no Supremo, negando habeas corpus ao chefão por seis a cinco, e, antes disso, por decisão unânime de turmas do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), em Porto Alegre, e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília. Nove a zero.
Os sermões depois do serão à frente da sede do sindicato revelam – de parte do bispo dissidente, que falou ao arrepio dos colegas e da instituição, que não respeita – a cristalina demonstração de que a nostalgia da ditadura militar não é exclusiva da direita chucra. A esquerda de vocação ditatorial tem dois motivos fortes para sabotar e solapar a democracia, pela qual a sociedade brasileira tem lutado e à qual tem sido fiel em sua vigência. A primeira delas é que seus inspiradores – Marx, Engels, Lênin, Stalin e Trotsky – sempre desprezaram o que chamavam de liberalismo. A esquerda agora demoniza o “neoliberalismo” burguês. Os grupos que pegaram em armas contra a ditadura fascistoide no Brasil não o fizeram para democratizar o País, mas para aqui instalar uma ditadura comunista. Foram massacrados em porões de quartéis e delegacias, mas sempre mantiveram a fé nos dogmas marxistas da ditadura do proletariado. Por isso mesmo, continuaram venerando tiranos como os irmãos Castro e seus vassalos bolivarianos Chávez, Maduro, Correa, Morales e Kirshner.
O outro motivo advém das torturas e execuções que atingiram alguns desses jovens tidos como idealistas. As barbaridades cometidas pelo regime do arbítrio serviram de pretexto para o oblívio pelo martírio. As vítimas da ditadura militar, fossem democratas ou vassalos das elites dirigentes dos partidos comunistas, passaram a gozar do perdão generalizado simbolizado pela expressão “guerreiros do povo”. E a lengalenga de São Bernardo no sábado 7 de abril reflete essa nostalgia da ditadura do algoz.
A saudade do passado de tirania em que os inimigos ferozes eram usados como avalistas da santidade de quem se propunha a lutar contra eles já se havia manifestado na peroração do advogado de Lula no Supremo, José Roberto Batochio, que apelou para Malesherbes (em francês macarrônico, no qual trocou o verbo prendre por ‘prener’), advogado de Luís XVI, guilhotinado. Não citou os girondinos, revolucionários liberais, como Danton, adversário do jacobino Robespierre, lembrado como réprobo pelo advogado do principal líder populista (“do povo”) no Brasil. E se cristalizou no discurso em que o criminoso. esperneando contra a prisão, incitou a massa à desordem e à rebelião e atacou aparelhos e pilares do Estado de Direito: polícia, Ministério Público, Justiça, direito de ir e vir da cidadania e liberdade de informação, expressão e opinião, entre outros.
No entanto, felizmente, esses ataques à democracia não serviram sequer para reagrupar as forças políticas com as quais o condenado imagina retomar o lugar que já foi seu no proscênio do teatro político nacional. A seu palanque armado para o sermão após o serão no sindicato não compareceram importantes militantes do PT. Tarso Genro, Olívio Dutra, Jaques Wagner, ex-chefe da Casa Civil de Dilma, Rui Costa e outros petistas do núcleo baiano do partido não foram apoiá-lo: a bem da verdade, o politico mais importante presente à “vigília” sindical foi o ator de novelas Osmar Prado, que só deu um recado à militância: “As mulheres também traem”. No que foi entusiasticamente aprovado pelo mais popular presidiário do País. Ciro Gomes, presidenciável esquerdista mais bem colocado nas pesquisas, faltou e foi excomungado com uma negativa de apoio a suas pretensões eleitorais – promessa que só pode ser respondida com uma gargalhada. Marina Silva, antigamente a voz ecológica de Lula e do PT, não poderia se solidarizar, pois no lançamento de sua candidatura a presidente pelo Rede Sustentabilidade disse que “a lei é para todos”.
A maioria da população brasileira, que recusa a duvidosa honra de se tornar um Lula a mais, confia que neste ano eleitoral a discussão política não se limite à fantasia paranoica de um criminoso tentando fugir da Justiça e se fingindo de perseguido por uma conspiração impossível. E mártir de uma causa pela qual nunca lutou, seja como sindicalista de resultados, seja como dirigente de um Estado que agiu como um Robin Hood com amnésia alcoólica: roubou dos ricos e se esqueceu de distribuir aos pobres, como circula no implacável Twitter. Deste panorama visto da ponte se conclui que o melhor que Lula teria a fazer seria distribuir os milhões de dólares que furtou dos 13 milhões de desempregados pela politica errática dos três mandatos e meio do partido que fundou.
José Nêumanne
Para a frente é que se anda
Nada contra militantes e/ou as respectivas motivações. Por óbvio, tampouco me passa pela cabeça a imposição de qualquer reparo a manifestações. Ao contrário: o protesto e a desavença ruidosos são inerentes a regimes em que vigora a liberdade. Melhor o alvoroço explícito que o silêncio da concordância implícita na força terrorista do autoritarismo. A controvérsia é do jogo democrático, que inclui o respeito ao valor do contraditório e a submissão à decisão da maioria quando tomada sob a égide de regras claras.
Alegou ter constatado a ocorrência de inúmeras injustiças em relação a réus que haviam sido absolvidos em tribunais superiores. Uma hipótese possível. Desde sempre, e não uma novidade instituída no período de sete meses em que se deu a mudança de opinião dele.
Em outubro de 2016 o ministro votou a favor da prisão após a segunda instância (com defesa veemente da tese) e em maio de 2017 sinalizou que começaria a conceder habeas-corpus contrariando a decisão do colegiado. Pelo tom colérico com que se referiu à atuação da “mídia opressiva”, Gilmar Mendes pareceu votar mais como um vingador em relação aos críticos do que movido pela alegada correção de injustiças. O ministro fala o que quer, mas detesta ouvir o que não quer. Normal. Desde que não se tenha nas mãos e nos nervos a prerrogativa da última palavra em termos legais.
A despeito dos bolsões de ânimos exaltados, ninguém matará nem morrerá em torno do destino de Lula. Valeria o mesmo caso a decisão do Supremo tivesse sido em favor da concessão do habeas-corpus, porque o clima de confronto é artificial; a maioria toca a vida independentemente dos arreganhos das torcidas.
Isso não significa um elogio à indiferença. Participar é imprescindível, mas é preciso distinguir o essencial do acessório. Na escala de importância da vida nacional o destino de Lula é irrelevante. Determinante é a eleição de outubro próximo, quando o eleitorado deverá ficar de olho vivo e usar de faro fino para começar a depurar o ambiente do poder no voto.
Do cosmo à água, uma data sedenta
O ato de rememorar datas compõe uma lição cheia de surpresas, paradoxos ou, até, pequenas traições e imensas decepções. Por exemplo: o dia 12 de abril é marcante e ad aeternitatem todas as gerações o festejarão por algo que – literalmente – abriu caminho a um mundo novo. Hoje, no entanto, tem também um rosto oposto trágico ou perverso, até.
Naquele 12 de abril de 1961, o russo Yuri Gagarin tornou-se o primeiro ser humano a viajar pela imensidão do cosmo. Deu inusitadas voltas ao planeta e (entre o frenesi e o espanto) parecia, até, nos aproximar da imensidão do céu de Deus e de seu oposto, o inferno.
Eram tempos da União Soviética e, em plena guerra fria, a conquista foi sacudida também por perplexidade e temor. A corrida espacial com os Estados Unidos tomava um novo rumo, que tanto podia significar um fantástico passo adiante da ciência e da tecnologia quanto um catastrófico confronto militar entre as duas superpotências da época. Se um foguete levava um homem ao cosmo e com ele se comunicava, já pensaram o que seria substituí-lo por uma bomba nuclear e soltá-la do espaço sobre um alvo terrestre?
A conquista tecnológica sobrepôs-se, porém, à patologia bélica das superpotências. Abriu-se nova era, presente e visível hoje nas comunicações e na engenharia médica. O mundo e o universo tornaram-se mais amplos e, paradoxalmente, também mais próximos desde o primeiro Sputnik soviético, de 1957. Hoje, a sonda norte-americana da Nasa dá voltas contínuas a Marte e há, até, prognósticos de futuros voos tripulados ao planeta distante. Tudo no universo passou a estar a um palmo do nariz. O absurdo inalcançável de hoje pode – em anos – concretizar-se como mais um passo da humanidade.
Há, porém, outro 12 de abril, mais perto de todos nós no calendário e na geografia. Agora, nesse dia do nosso atual ano de 2018, a Cidade do Cabo, na África do Sul, ficará totalmente sem água, em secura absoluta. Nem sequer uma gota perpassará as torneiras, num alerta geral e profundo sobre a tragédia que se avizinha a cada dia: a falta d’água no planeta.
De que adiantou explorar o cosmo, atopetá-lo de satélites, criar “estações espaciais” – e demonstrar que nós, humanos, podemos subsistir no espaço num desafio à gravidade – se fomos incapazes de preservar e entender o bem primordial, a água, que dá vida ao que existe no planeta?
Na sociedade de consumo, em que desperdiçamos tudo – a começar pelo voto, o tempo e os compromissos –, a Cidade do Cabo faz uma advertência ao planeta inteiro.
A falta d’água castiga a África, mas é um fenômeno global, que, aqui, nos martela há anos, mas simulamos não existir. Nosso Nordeste vive situação semelhante à dos africanos. Mas, ensinou-nos Euclides da Cunha, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte” e festeja com abnegação os caminhões-pipa que os políticos enviam como esmola, num disfarce das somas desviadas pela corrupção. São Paulo sofreu o problema nas entranhas, dramaticamente, há pouco. Conseguiu maquiá-lo, sem resolver o essencial – educar a população, que continua a tratar a água como traste incômodo que jogamos fora para não nos molestar.
A crise hídrica (nome pomposo que encobre a visão burocrática dada ao tema) é visível até nas enxurradas e chuvas intensas, como as do final de março sobre São Paulo. A alternância de calor seco e chuva intensa é “marca da natureza”, diz o povo, mas se agrava e se transforma em ameaça com a súbita aceleração das mudanças climáticas.
O recente Fórum Mundial da Água, realizado em Brasília, insistiu na gravidade do problema, mas não estabeleceu normas concretas para mudar o comportamentos humano em relação à água. Nem sequer serviu de alerta o detalhe tragicômico de que Brasília (com o lago poluído) vive, de fato, sob racionamento, há meses.
Quem acelera as mudanças climáticas, em maior ou menor grau, senão a incompreensão de todos nós, em nome de uma visão falsa e artificiosa de progresso e conforto? As ruas de São Paulo e das demais cidades, cheias de automóveis e ruídos, retratam um caos que não se restringe ao trânsito nem provoca apenas a lentidão das longas e neuróticas esperas. A fuligem de nossos carros é o detalhe cotidiano de um horror maior, que todos conhecemos e sobre o qual é desnecessário insistir.
Nos últimos 90 anos, poluímos e contaminamos terra, mar e ar muito mais do que na soma de todos os séculos passados, após vencer o caos inicial da Criação. Agora, aceleradamente criamos outro caos ainda mais terrível. Sob a falsa alegação de desenvolver a “vida moderna”, estamos fazendo retornar ao nada tudo aquilo que a natureza criou em milhões de anos.
Mudar depende de cada um de nós. Só nós podemos alterar o caminho que criamos ao longo de séculos. Nenhum bicho, nem sequer o mais feroz, nenhuma árvore, nem mesmo a mais despida de folhas, jamais causou qualquer dano ao meio ambiente nem contaminou o solo, as águas e o ar. Mas não entendemos a obviedade.
Só um perseverante, tenaz e urgente trabalho de reeducação de um a um e que chegue a todos pode evitar esse suicídio que o hedonismo da sociedade de consumo acelerou nas últimas décadas. A tarefa deve abranger todos os setores, do poder público ao privado – empresariado, sindicatos, confissões religiosas e meios de comunicação. Rádio e televisão, que são serviços concedidos pelo Estado, podem desempenhar o papel mais significativo para formar a consciência de que a água é vida.
A opção é simples. O planeta está sedento e o 12 de abril da Cidade do Cabo é um alerta dramático cuja dimensão supera a imensidão do cosmo, que fomos conhecer em 1961, 57 anos atrás.
Naquele 12 de abril de 1961, o russo Yuri Gagarin tornou-se o primeiro ser humano a viajar pela imensidão do cosmo. Deu inusitadas voltas ao planeta e (entre o frenesi e o espanto) parecia, até, nos aproximar da imensidão do céu de Deus e de seu oposto, o inferno.
Eram tempos da União Soviética e, em plena guerra fria, a conquista foi sacudida também por perplexidade e temor. A corrida espacial com os Estados Unidos tomava um novo rumo, que tanto podia significar um fantástico passo adiante da ciência e da tecnologia quanto um catastrófico confronto militar entre as duas superpotências da época. Se um foguete levava um homem ao cosmo e com ele se comunicava, já pensaram o que seria substituí-lo por uma bomba nuclear e soltá-la do espaço sobre um alvo terrestre?
A conquista tecnológica sobrepôs-se, porém, à patologia bélica das superpotências. Abriu-se nova era, presente e visível hoje nas comunicações e na engenharia médica. O mundo e o universo tornaram-se mais amplos e, paradoxalmente, também mais próximos desde o primeiro Sputnik soviético, de 1957. Hoje, a sonda norte-americana da Nasa dá voltas contínuas a Marte e há, até, prognósticos de futuros voos tripulados ao planeta distante. Tudo no universo passou a estar a um palmo do nariz. O absurdo inalcançável de hoje pode – em anos – concretizar-se como mais um passo da humanidade.
Há, porém, outro 12 de abril, mais perto de todos nós no calendário e na geografia. Agora, nesse dia do nosso atual ano de 2018, a Cidade do Cabo, na África do Sul, ficará totalmente sem água, em secura absoluta. Nem sequer uma gota perpassará as torneiras, num alerta geral e profundo sobre a tragédia que se avizinha a cada dia: a falta d’água no planeta.
De que adiantou explorar o cosmo, atopetá-lo de satélites, criar “estações espaciais” – e demonstrar que nós, humanos, podemos subsistir no espaço num desafio à gravidade – se fomos incapazes de preservar e entender o bem primordial, a água, que dá vida ao que existe no planeta?
Na sociedade de consumo, em que desperdiçamos tudo – a começar pelo voto, o tempo e os compromissos –, a Cidade do Cabo faz uma advertência ao planeta inteiro.
A falta d’água castiga a África, mas é um fenômeno global, que, aqui, nos martela há anos, mas simulamos não existir. Nosso Nordeste vive situação semelhante à dos africanos. Mas, ensinou-nos Euclides da Cunha, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte” e festeja com abnegação os caminhões-pipa que os políticos enviam como esmola, num disfarce das somas desviadas pela corrupção. São Paulo sofreu o problema nas entranhas, dramaticamente, há pouco. Conseguiu maquiá-lo, sem resolver o essencial – educar a população, que continua a tratar a água como traste incômodo que jogamos fora para não nos molestar.
A crise hídrica (nome pomposo que encobre a visão burocrática dada ao tema) é visível até nas enxurradas e chuvas intensas, como as do final de março sobre São Paulo. A alternância de calor seco e chuva intensa é “marca da natureza”, diz o povo, mas se agrava e se transforma em ameaça com a súbita aceleração das mudanças climáticas.
O recente Fórum Mundial da Água, realizado em Brasília, insistiu na gravidade do problema, mas não estabeleceu normas concretas para mudar o comportamentos humano em relação à água. Nem sequer serviu de alerta o detalhe tragicômico de que Brasília (com o lago poluído) vive, de fato, sob racionamento, há meses.
Quem acelera as mudanças climáticas, em maior ou menor grau, senão a incompreensão de todos nós, em nome de uma visão falsa e artificiosa de progresso e conforto? As ruas de São Paulo e das demais cidades, cheias de automóveis e ruídos, retratam um caos que não se restringe ao trânsito nem provoca apenas a lentidão das longas e neuróticas esperas. A fuligem de nossos carros é o detalhe cotidiano de um horror maior, que todos conhecemos e sobre o qual é desnecessário insistir.
Nos últimos 90 anos, poluímos e contaminamos terra, mar e ar muito mais do que na soma de todos os séculos passados, após vencer o caos inicial da Criação. Agora, aceleradamente criamos outro caos ainda mais terrível. Sob a falsa alegação de desenvolver a “vida moderna”, estamos fazendo retornar ao nada tudo aquilo que a natureza criou em milhões de anos.
Mudar depende de cada um de nós. Só nós podemos alterar o caminho que criamos ao longo de séculos. Nenhum bicho, nem sequer o mais feroz, nenhuma árvore, nem mesmo a mais despida de folhas, jamais causou qualquer dano ao meio ambiente nem contaminou o solo, as águas e o ar. Mas não entendemos a obviedade.
Só um perseverante, tenaz e urgente trabalho de reeducação de um a um e que chegue a todos pode evitar esse suicídio que o hedonismo da sociedade de consumo acelerou nas últimas décadas. A tarefa deve abranger todos os setores, do poder público ao privado – empresariado, sindicatos, confissões religiosas e meios de comunicação. Rádio e televisão, que são serviços concedidos pelo Estado, podem desempenhar o papel mais significativo para formar a consciência de que a água é vida.
A opção é simples. O planeta está sedento e o 12 de abril da Cidade do Cabo é um alerta dramático cuja dimensão supera a imensidão do cosmo, que fomos conhecer em 1961, 57 anos atrás.
Prisão de Lula pode ser um marco ou um fiasco
A prisão de Lula espalhou entre os poderosos da política um sentimento muito parecido com o que inquieta os ambulantes que comercializam produtos pirateados nas esquinas das grandes cidades. Os encrencados graúdos, ainda protegidos dentro da bola do foro privilegiado, passaram a enxergar a Lava Jato como uma espécie de rapa. Não importa o cargo ou o partido. De Michel Temer a Aécio Neves, todos passaram a cultivar o receio de que, depois do que aconteceu com Lula, o rapa pode recolher qualquer um na primeira esquina.
Intensifica-se em Brasília a pregação segundo a qual a Lava Jato está criminalizando a política. Pensando bem, faz todo sentido. A maior operação anticorrupção já deflagrada no país está colocando atrás das grades criminosos que utilizaram seu poder político para armar com empresários desonestos emboscadas contra o erário. Quem criminalizou a política foram os criminosos, não os investigadores ou os magistrados.
Nesse contexto, a prisão de Lula pode representar um marco ou um fiasco. Seria um marco se o rapa migrasse da periferia onde estão os 'sem foro' para os salões dos afortunados 'com foro'. Seria um fiasco se o Supremo Tribunal Federal modificasse a regra que permite a prisão de condenados em segunda instância e retardasse eternamente a conclusão do julgamento que restringirá a abrangência do foro privilegiado. A combinação dessas duas novidades nefastas inibiria o único sentimento capaz de reduzir o índice de corrupção no Brasil: o medo do rapa.
Nesse contexto, a prisão de Lula pode representar um marco ou um fiasco. Seria um marco se o rapa migrasse da periferia onde estão os 'sem foro' para os salões dos afortunados 'com foro'. Seria um fiasco se o Supremo Tribunal Federal modificasse a regra que permite a prisão de condenados em segunda instância e retardasse eternamente a conclusão do julgamento que restringirá a abrangência do foro privilegiado. A combinação dessas duas novidades nefastas inibiria o único sentimento capaz de reduzir o índice de corrupção no Brasil: o medo do rapa.
Assinar:
Postagens (Atom)









