
terça-feira, 10 de abril de 2018
Apelo (talvez inútil) à razão
O domingo foi um dia de muita dor para quem acreditou no filho de dona Lindu e na sua capacidade de encarnar os sonhos de toda uma geração. Um dia de luto, portanto, a cobrar respeito pelos que sofrem.
Que as ideias briguem, ensinou o deputado Ulysses Guimarães, o líder da oposição ao regime militar de 64, presidente do MDB e, depois, da Câmara e da Constituinte de 88. Os que as defendem não precisam brigar.
A economista Maria da Conceição Tavares também ensinou a mesma coisa depois da redemocratização do país. Cito de memória: “De que adianta conversarmos nós com nós? Adianta conversarmos nós com eles”.
Só há dois meios de se promover mudanças: pela ruptura ou pelo diálogo. Poucas vezes na história da Humanidade, a ruptura deu lugar a um estágio mais avançado do processo civilizatório.
Deu, por exemplo, com a Revolução Francesa de 1789 e seus ideais de legalidade, fraternidade e liberdade que ganharam parte do mundo. Ou com a Revolução Americana de 1776 que pariu os Estados Unidos.
A ruptura fracassou na Rússia de 1917. Ali houve um golpe ao qual chamaram de revolução. E dele emergiu um Estado Autoritário que ruiu em menos de 100 anos. Fracassou também em Cuba de 1959.
A prisão de Lula significa por estas bandas a derrota da esquerda, mas não significa uma vitória da direita. Os dois lados foram postos em xeque pela falência dos seus métodos de conquista e de manutenção do poder.
O que poderá advir está por ser construído. E não se construirá algo melhor à base da imposição ou da indiferença.
Ricardo Noblat
Que as ideias briguem, ensinou o deputado Ulysses Guimarães, o líder da oposição ao regime militar de 64, presidente do MDB e, depois, da Câmara e da Constituinte de 88. Os que as defendem não precisam brigar.
A economista Maria da Conceição Tavares também ensinou a mesma coisa depois da redemocratização do país. Cito de memória: “De que adianta conversarmos nós com nós? Adianta conversarmos nós com eles”.

Só há dois meios de se promover mudanças: pela ruptura ou pelo diálogo. Poucas vezes na história da Humanidade, a ruptura deu lugar a um estágio mais avançado do processo civilizatório.
Deu, por exemplo, com a Revolução Francesa de 1789 e seus ideais de legalidade, fraternidade e liberdade que ganharam parte do mundo. Ou com a Revolução Americana de 1776 que pariu os Estados Unidos.
A ruptura fracassou na Rússia de 1917. Ali houve um golpe ao qual chamaram de revolução. E dele emergiu um Estado Autoritário que ruiu em menos de 100 anos. Fracassou também em Cuba de 1959.
A prisão de Lula significa por estas bandas a derrota da esquerda, mas não significa uma vitória da direita. Os dois lados foram postos em xeque pela falência dos seus métodos de conquista e de manutenção do poder.
O que poderá advir está por ser construído. E não se construirá algo melhor à base da imposição ou da indiferença.
Ricardo Noblat
A incapacidade de ser verdadeiro
Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.
Carlos Drummond de Andrade
Nasceu o Brasil novo
O parto foi doloroso e cheio de complicações mas aqui estamos. É o fim do nosso longo e penoso exílio no século 17.
O ato fundador de toda república, desde a primeira da era moderna, é declarar o rei “under god” e “under the law” como fez Edward Coke, juiz supremo da Inglaterra a James I dos Stuart em 1605. São mais de 400 anos de atraso e temos tido avanços e recuos exasperantes no ensaio dessa decisão, mas é esse o jeito de andar da História. Esta última foi uma briga ostensivamente comprada pelo passado e vencida pelo futuro em batalhas sucessivas de que toda a Nação participou malgrado os sacrifícios exigidos. Trata-se de uma inequívoca escolha. O marco, agora, está solidamente plantado pela mão da maioria.
Resolvida a questão da definição do regime o país pode, finalmente, olhar só para a frente. A obra monumental do PT foi a montagem do sistema de exploração colonialista do estado para sustentar um projeto de poder. A reconstituição da moral nacional que essa construção exigiu engata já a segunda marcha, marcado que está o caminho aberto pelo desbravador de Curitiba. A operação física da desocupação do estado num país reduzido à miséria e empurrado para além do limiar da conflagração ainda exigirá, é verdade, um esforço tremendo. Mas se dermos aos demais arranjos do passado que, por todo lado, impõem-se ainda ao país pela força do costume ou pela força da intimidação para bloquear o caminho das reformas, o mesmo remédio da lei feita soberana e igual para todos com que cortamos a cabeça mais alta da hidra, o resto acontece naturalmente.
Teremos de aprender democracia mas felizmente não será necessário inventá-la do zero. O caminho está consolidado. Havendo um mínimo de humildade e vontade de aprender é uma estrada batida que pode ser percorrida com razoável velocidade e baixíssimo risco de acidentes. Será mais pela vontade que pelo tempo de fato requerido que seremos capazes de consertar nossas leis defeituosas, de definir os limites de cada instância de governo, de ajustar a estrutura e o alcance de cada instância da justiça mais adequados a uma republica de extensão continental. Não ha aí nenhum segredo. Todos os caminhos já foram experimentados; todos os atalhos já foram percorridos e mostraram onde vão dar. Os erros em que insistimos não são consequência do desconhecimento de opções melhores nem de enganos bem intencionados. Persevera-se neles porque foram deliberadamente produzidos para criar os privilégios aos quais os privilegiados agora aferram-se desesperadamente.
A chave do sucesso será, não propriamente o reconhecimento da natureza da doença que não há brasileiro que não saiba exatamente qual é, mas a superação do tabu de pronunciar o nome dela em voz alta. Não é o enfrentamento do grande privilégio, é a socialização do pequeno feito moeda para comprar silêncios e poder que ainda nos amarra as pernas. As relações de parentesco que tornam pouco nítidas as fronteiras entre a classe média meritocrática regida pelas exigências da modernidade e a outra gestada na toca do “concursismo”. Nessas instâncias “vocais” da sociedade que dispõem das reservas mínimas de gordura que a iniciativa política requer, a mentira prevalece não mais porque convença quem quer que seja mas porque ainda interessa a muitos abrir-lhe alas. O Brasil não tem conseguido reformar-se não exatamente porque não saiba como fazê-lo mas porque essas duas classes médias que se interpenetram hesitam em propor-se a tanto. Disputam o controle do “sistema”, mais que o condenam.
Para reformar “o sistema” é preciso antes de mais nada denunciá-lo formalmente como irremediavelmente defeituoso e pactuar a suspensão do aparato de autopreservação montado em torno dele para barrar e reverter reformas. É preciso, em resumo, inverter o sentido do vetor primário das forças que atuam sobre o sistema. Entregá-lo de fato a quem detém a função constitucional de legitimá-lo.
A força da necessidade joga a favor do melhor desta vez. O Brasil da “retórica vazia”, assim como o da “narrativa” prevalecendo sobre o fato, está morto e sabe disso. Não cabe mais na conta. Esgotou-se no seu próprio paroxismo. A “guerra” prometida pelo PT já está nas ruas mas não sob o comando dele. O que resta de melhor no partido vai integrar-se à nova ordem e o resto, como em toda a parte, vai embeber-se oficialmente no crime. Tambem nós, já está claro, teremos de conviver com a nossa cêpa do “narco-socialismo” crônico.
A reforma sindical e a prisão na 2a instância serão lembradas no futuro como os marcos da virada do Brasil da conta negativa em direção ao Zero. O marco do ingresso na conta positiva será a reforma da previdência das corporações estatais que vem montada na igualdade perante a lei, ante-sala da meritocracia no serviço público. Esta última será a mãe de todas as batalhas que custará, como já tem custado, o peso exato dos sacrifícios de que a situação atual dispensa a privilegiatura. Mas vai ser imposta pela força irresistível da necessidade, o que vai nos transportar para o limiar do século 20.
Eventualmente saltaremos de lá para a tomada do poder pelos eleitores com a instituição do recall, do referendo, da iniciativa e das eleições de retenção de juízes num contexto de real representação da sociedade proporcionada pelo voto distrital puro, no qual os funcionários, os representantes eleitos e os servidores públicos passam a ser apenas isso, ou seja, brasileiros especiais por não terem, para além da escolha da sua função de representação, o mesmo direito dos aqui de fora a uma vontade e a uma existência próprias totalmente privadas e indevassáveis para que possam, mesmo montados nos poderes do estado, estar permanentemente sujeitos à avaliação e ao encurtamento de mandatos e proventos como todos os outros trabalhadores.
Democracia, enfim!
A partir daí, finalmente embarcados no 3º Milênio, tudo se tornará possível. Será a vez do Brasil candidatar-se a dono do mundo.
O ato fundador de toda república, desde a primeira da era moderna, é declarar o rei “under god” e “under the law” como fez Edward Coke, juiz supremo da Inglaterra a James I dos Stuart em 1605. São mais de 400 anos de atraso e temos tido avanços e recuos exasperantes no ensaio dessa decisão, mas é esse o jeito de andar da História. Esta última foi uma briga ostensivamente comprada pelo passado e vencida pelo futuro em batalhas sucessivas de que toda a Nação participou malgrado os sacrifícios exigidos. Trata-se de uma inequívoca escolha. O marco, agora, está solidamente plantado pela mão da maioria.
Resolvida a questão da definição do regime o país pode, finalmente, olhar só para a frente. A obra monumental do PT foi a montagem do sistema de exploração colonialista do estado para sustentar um projeto de poder. A reconstituição da moral nacional que essa construção exigiu engata já a segunda marcha, marcado que está o caminho aberto pelo desbravador de Curitiba. A operação física da desocupação do estado num país reduzido à miséria e empurrado para além do limiar da conflagração ainda exigirá, é verdade, um esforço tremendo. Mas se dermos aos demais arranjos do passado que, por todo lado, impõem-se ainda ao país pela força do costume ou pela força da intimidação para bloquear o caminho das reformas, o mesmo remédio da lei feita soberana e igual para todos com que cortamos a cabeça mais alta da hidra, o resto acontece naturalmente.
Teremos de aprender democracia mas felizmente não será necessário inventá-la do zero. O caminho está consolidado. Havendo um mínimo de humildade e vontade de aprender é uma estrada batida que pode ser percorrida com razoável velocidade e baixíssimo risco de acidentes. Será mais pela vontade que pelo tempo de fato requerido que seremos capazes de consertar nossas leis defeituosas, de definir os limites de cada instância de governo, de ajustar a estrutura e o alcance de cada instância da justiça mais adequados a uma republica de extensão continental. Não ha aí nenhum segredo. Todos os caminhos já foram experimentados; todos os atalhos já foram percorridos e mostraram onde vão dar. Os erros em que insistimos não são consequência do desconhecimento de opções melhores nem de enganos bem intencionados. Persevera-se neles porque foram deliberadamente produzidos para criar os privilégios aos quais os privilegiados agora aferram-se desesperadamente.
A chave do sucesso será, não propriamente o reconhecimento da natureza da doença que não há brasileiro que não saiba exatamente qual é, mas a superação do tabu de pronunciar o nome dela em voz alta. Não é o enfrentamento do grande privilégio, é a socialização do pequeno feito moeda para comprar silêncios e poder que ainda nos amarra as pernas. As relações de parentesco que tornam pouco nítidas as fronteiras entre a classe média meritocrática regida pelas exigências da modernidade e a outra gestada na toca do “concursismo”. Nessas instâncias “vocais” da sociedade que dispõem das reservas mínimas de gordura que a iniciativa política requer, a mentira prevalece não mais porque convença quem quer que seja mas porque ainda interessa a muitos abrir-lhe alas. O Brasil não tem conseguido reformar-se não exatamente porque não saiba como fazê-lo mas porque essas duas classes médias que se interpenetram hesitam em propor-se a tanto. Disputam o controle do “sistema”, mais que o condenam.
Para reformar “o sistema” é preciso antes de mais nada denunciá-lo formalmente como irremediavelmente defeituoso e pactuar a suspensão do aparato de autopreservação montado em torno dele para barrar e reverter reformas. É preciso, em resumo, inverter o sentido do vetor primário das forças que atuam sobre o sistema. Entregá-lo de fato a quem detém a função constitucional de legitimá-lo.
A força da necessidade joga a favor do melhor desta vez. O Brasil da “retórica vazia”, assim como o da “narrativa” prevalecendo sobre o fato, está morto e sabe disso. Não cabe mais na conta. Esgotou-se no seu próprio paroxismo. A “guerra” prometida pelo PT já está nas ruas mas não sob o comando dele. O que resta de melhor no partido vai integrar-se à nova ordem e o resto, como em toda a parte, vai embeber-se oficialmente no crime. Tambem nós, já está claro, teremos de conviver com a nossa cêpa do “narco-socialismo” crônico.
A reforma sindical e a prisão na 2a instância serão lembradas no futuro como os marcos da virada do Brasil da conta negativa em direção ao Zero. O marco do ingresso na conta positiva será a reforma da previdência das corporações estatais que vem montada na igualdade perante a lei, ante-sala da meritocracia no serviço público. Esta última será a mãe de todas as batalhas que custará, como já tem custado, o peso exato dos sacrifícios de que a situação atual dispensa a privilegiatura. Mas vai ser imposta pela força irresistível da necessidade, o que vai nos transportar para o limiar do século 20.
Eventualmente saltaremos de lá para a tomada do poder pelos eleitores com a instituição do recall, do referendo, da iniciativa e das eleições de retenção de juízes num contexto de real representação da sociedade proporcionada pelo voto distrital puro, no qual os funcionários, os representantes eleitos e os servidores públicos passam a ser apenas isso, ou seja, brasileiros especiais por não terem, para além da escolha da sua função de representação, o mesmo direito dos aqui de fora a uma vontade e a uma existência próprias totalmente privadas e indevassáveis para que possam, mesmo montados nos poderes do estado, estar permanentemente sujeitos à avaliação e ao encurtamento de mandatos e proventos como todos os outros trabalhadores.
Democracia, enfim!
A partir daí, finalmente embarcados no 3º Milênio, tudo se tornará possível. Será a vez do Brasil candidatar-se a dono do mundo.
PT encolhe e aprisiona o futuro na cela de Lula
A prisão de Lula impôs ao PT o desafio de um recém-nascido: às voltas com um processo de encolhimento, o partido retornou às suas origens sindicais da década de 80. Teria de aprender a andar com suas próprias pernas. Mas como não consegue se mover sem Lula, a legenda aprisionou o seu futuro na mesma sala que serve de cela para o seu grande líder, em Curitiba. A única pessoa com poderes para conceder um habeas corpus ao PT é o próprio Lula. Mas ele não exibe a mais remota intenção de libertar a legenda.
No comício de São Bernardo, que antecedeu a rendição no sábado, Lula disse aos devotos que se aglomeraram na porta do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC: “Quando eu percebi que o povo desconfiava que só tinha valor no PT quem era deputado, sabe o que eu fiz? Eu deixei de ser deputado. Queria provar ao PT que eu ia continuar sendo a figura mais importante do PT sem ter mandato.”
Na sequência, como que decidido a demarcar seu terreno antes de ser recolhido pela Polícia Federal, Lula declarou: “Se alguém quiser ganhar de mim no PT, só tem um jeito: é trabalhar mais do que eu e gostar do povo mais do que eu, porque se não gostar, não vai ganhar”. Foi como se Lula farejasse o risco de crescimento da banda minoritária do PT que prega internamente a necessidade de construção de uma alternativa à hipotética candidatura presidencial de um líder preso e ficha-suja.
Ao anunciar à multidão que cumpriria o mandado de prisão de Sergio Moro, entregando-se à polícia, Lula radicalizou o discurso. Disse que o encarceramento não iria silenciá-lo, porque seus apoiadores fariam barulho no seu lugar: “Eles têm que saber que vocês são até mais inteligentes do que eu. E poderão queimar os pneus que vocês tanto queimam, fazer as passeatas que tanto vocês queiram, fazer ocupações no campo e na cidade…”
Esse palavreado ácido tem efeitos negativos no campo jurídico e na seara política. Juridicamente, o timbre de Lula reforça uma linha de confronto que o transformou num colecionador de derrotas nos tribunais. Politicamente, o veneno de Lula condena o PT a reviver uma realidade da época em que fazia campanhas com o objetivo de converter os convertidos. O problema é que a multiplicação do amor dos devotos petistas por Lula não trará de volta os votos da classe média. Uma gente conservadora que acreditou na Carta aos Brasileiros, o documento em que Lula renegou o receituário radical que o impedia de chegar à Presidência da República.
Na sequência, como que decidido a demarcar seu terreno antes de ser recolhido pela Polícia Federal, Lula declarou: “Se alguém quiser ganhar de mim no PT, só tem um jeito: é trabalhar mais do que eu e gostar do povo mais do que eu, porque se não gostar, não vai ganhar”. Foi como se Lula farejasse o risco de crescimento da banda minoritária do PT que prega internamente a necessidade de construção de uma alternativa à hipotética candidatura presidencial de um líder preso e ficha-suja.
Ao anunciar à multidão que cumpriria o mandado de prisão de Sergio Moro, entregando-se à polícia, Lula radicalizou o discurso. Disse que o encarceramento não iria silenciá-lo, porque seus apoiadores fariam barulho no seu lugar: “Eles têm que saber que vocês são até mais inteligentes do que eu. E poderão queimar os pneus que vocês tanto queimam, fazer as passeatas que tanto vocês queiram, fazer ocupações no campo e na cidade…”
Esse palavreado ácido tem efeitos negativos no campo jurídico e na seara política. Juridicamente, o timbre de Lula reforça uma linha de confronto que o transformou num colecionador de derrotas nos tribunais. Politicamente, o veneno de Lula condena o PT a reviver uma realidade da época em que fazia campanhas com o objetivo de converter os convertidos. O problema é que a multiplicação do amor dos devotos petistas por Lula não trará de volta os votos da classe média. Uma gente conservadora que acreditou na Carta aos Brasileiros, o documento em que Lula renegou o receituário radical que o impedia de chegar à Presidência da República.
Especialistas em Brasil

Em Portugal, quem acompanha a triste realidade da vida política brasileira tem encontrado dificuldades para compreender as denúncias, processos e, finalmente, a prisão de Lula diante de determinadas opiniões divulgadas pela imprensa. Colabora para aumentar a perplexidade dessas pessoas a versão sustentada por muitos colunistas, a maioria militantes ou simpatizantes de partidos de esquerda, segundo a qual o ex-Presidente é inocente e politicamente perseguido pela direita e elites que não aceitam seu retorno à Chefia do Governo. São os especialistas no Brasil.
Enquanto isso, jornalistas portugueses correspondentes no Brasil vem transmitindo com isenção as informações sobre os processos que comprometem Luis Inácio da Silva. A maioria relata os acontecimentos com fidelidade. Algumas vezes, o que é compreensível, diante dos juridiquês de juízes e advogados, percebe-se falta de conhecimento para aprofundar determinadas questões jurídicas, como o alcance dos embargos declaratórios e a presunção de inocência, matéria sobre as quais mesmo alguns dos os maiores especialistas do Brasil divergem.
O jornal Público divulga hoje, sob o título “Lula da Silva: os tribunais o condenam, a história o absolverá”, inflamado artigo do sociólogo e Diretor do Centro de Estudos Sociais, Boaventura Sousa Santos, afirmando que “o Processo de Lula da Silva põe a nu de forma gritante que algo está podre no sistema judicial brasileiro. “Ele assegurou haver disjunção “entre o activismo judiciário contra Lula da Silva- célere, eficaz e implacável na acção (Sérgio Moro decretou a prisão de Lula escassos minuto após ser notificado da decisão de indeferimento do habeas corpus, do qual ainda era possível recorrer, e desde a denúncia à execução da pena decorreram menos de dois anos - e a lentidão da acção judicial contra Michel Temer e outros políticos da direita brasileira.”
Não explicou, e penso não haver interesse nisso, que Lula foi julgado por juízes de primeira instância, Sérgio Moro, e da segunda Instância, porque não possui foro privilegiado. Enquanto protegido por esse esse manto e sem autorização dos seus aliados na Camara dos Deputados, que já negaram duas vezes solicitação nesse sentido da Procuradoria Geral da República, Temer só pode ser processado quando deixar a Presidência das República. Nem se deu ao trabalho de esclarecer ser esta a mesma situação dos parlamentares e ministros, pelos quais a Justiça espera pacientemente. E que, sem foro privilegiado, a partir de janeiro, poderão ter mesmo destino de Lula.
Na mesma linha foi o normalmente ponderado Rui Tavares, do partido Livre, para quem é difícil” entender que haja gente tão obcecada com Lula que não tenha tempo para reconhecer que a forma como Sérgio Moro investiga, sentencia e vem para as redes sociais lançar foguetes é tudo menos típico de um juiz sério num estado de direito. “Lá pelo meio indagou: “Alguém imagina que os inimigos de Lula se vão deixar derrotar por um candidato do PT? “
O jornalismo português é basicamente opinativo. Personalidades da vida nacional e política, entre numerosos parlamentares, da Assembleia da República e do Parlamento Europeu, são comentaristas de plantão e com cadeira cativa nos estúdios de televisão. Dessa forma, é possível compreender como as pessoas ficam confusas diante de tanta opinião partidária. E ainda há a colaboração não premiada do Ministro Gilmar Mendes, que já virou figura carimbada em Lisboa, onde causa alvoroço com declarações que até ofendem seu pares no Supremo Tribunal Federal.
Mudança do mais e do menos
Vejo uma grande contradição entre as palavras e os fatos. Vejo uma sociedade dividida entre as boas intenções, favorável à diversidade e à igualdade, e uma série de estratos muito antigos, mas plenamente vigentes: a hierarquia social, a luta de classes, a condição das mulheres
Leila Slimani, escritora marroquina
Heinrich, o anão de jardim instagrammer de Berlim
Passeios nos Alpes, férias em Portugal e na Itália, churrasco no jardim, visita a exposições de arte, fantasiado para o Halloween, construindo a casa, arrumando a árvore de Natal, fazendo bonecos de neve em seu quintal, recebendo a visita do Flash, dando entrevistas e apoiando a Marcha das Mulheres: essas são algumas das fotografias postados por Heinrich, o instagrammer mais criativo de Berlim.
Com fotos banais de sua rotina, Heinrich conseguiu o que muitos almejam: fama e fãs. No futuro, pode chegar a se tornar um influencer digital. Cenas do cotidiano de meros mortais não costumam chamar a atenção nas redes sociais, o que contou a favor do instagrammer berlinense foi o fato de ele ser um anão de jardim. Mas ele não é apenas um anão de jardim, Heinrich aparentemente não pertence a ninguém – ele "vive" num canteiro público de uma rua no bairro berlinense de Prenzlauer Berg.
Neste pequeno espaço embaixo de uma árvore, Heinrich construiu sua casa. A pequena construção de madeira possui móveis e decoração no seu anterior. Um gato e um cachorro de plástico fazem companhia ao anão de jardim, que costuma decorar seu terreno para datas importantes como o Natal.
Alguns pedestres passam batido por Heinrich. Muitos devem estar acostumados com sua presença. Sua primeira foto no canteiro da rua Heinrich-Roller é datada de maio de 2016. Outros na pressa não percebem a curiosidade. Há aqueles que costumam ir até o local apenas para conhecer o anão de jardim berlinense do Instagram.
O mais intrigante na história do Henrich é quem é a mente criativa por trás da ideia, que, apesar de não ser muito original (o filme O fabuloso destino de Amélie Poulain já tratou desta temática), não deixa de ser curiosa.
Até agora, o idealizador ou idealizadora conseguiu manter sua identidade em segredo. Esse mistério torna o anão de jardim e suas aventuras pela internet ainda mais interessantes.
Clarissa Neher
Neste pequeno espaço embaixo de uma árvore, Heinrich construiu sua casa. A pequena construção de madeira possui móveis e decoração no seu anterior. Um gato e um cachorro de plástico fazem companhia ao anão de jardim, que costuma decorar seu terreno para datas importantes como o Natal.
Alguns pedestres passam batido por Heinrich. Muitos devem estar acostumados com sua presença. Sua primeira foto no canteiro da rua Heinrich-Roller é datada de maio de 2016. Outros na pressa não percebem a curiosidade. Há aqueles que costumam ir até o local apenas para conhecer o anão de jardim berlinense do Instagram.
O mais intrigante na história do Henrich é quem é a mente criativa por trás da ideia, que, apesar de não ser muito original (o filme O fabuloso destino de Amélie Poulain já tratou desta temática), não deixa de ser curiosa.
Até agora, o idealizador ou idealizadora conseguiu manter sua identidade em segredo. Esse mistério torna o anão de jardim e suas aventuras pela internet ainda mais interessantes.
Clarissa Neher
Sábado
Um dia disseram que a história sempre esse repete. Primeiro com tragédia. Depois como farsa. Quem pensou não conhecia o Brasil. Aqui a história não precisa de mais tragédia. Ela não se repete. E tem sempre jeitão de farsa.
O país tropical é onde a farsa prospera. Acostumados que estamos com a fraude, permanecemos incapazes de dedicar a ela o tratamento devido. A gente fica mesmo mesmerizado com a encenação com cheiro de farsa, jeito de farsa e voz de farsa. Talvez porque seja farsa mesmo.
Precisamos ainda subir muitos degraus civilizatório para entender as noções básicas de cidadania e estado de direito. Ou pelo menos uns poucos que nos permita entender que a prisão após a condenação é não somente esperada, mas natural. Seria assim em lugares que fazem sentido.
Não no país tropical. Talvez embriagados pelo suco da jabuticaba discutimos a concessão de privilégios usando como argumento a igualdade perante a lei. A gente faz muito se auto dispensou de fazer sentido. Por isso somos o paraíso dos juristas. Gente que, por acreditar em nada, diz qualquer coisa.
Com um pouco mais de noção de cidadania, não perderíamos 2 dias dando importância a eventos de outra maneira corriqueiros. E que, francamente, não fazem ou farão a menor diferença. Não escrevemos história. Preferimos dedicar nosso talento literário as notas de rodapé. Com quase certeza, vai ser lá que estarão eventos recentes. Se tanto.
Enquanto o tempo e a atenção do distinto público eram devidamente desperdiçados em todas as formas de mídia, a vida seguia. Fora daquele quarteirão onde se concentravam as lentes, tudo correu normalmente.
Talvez por isso, a farsa tenha se autoconsumido tão rapidamente. Notaram que os bondes permaneciam em cima dos trilhos. E que o tempo passava. E que não há nada como o tempo para passar.
E perceberam que já era sábado. O dia do presente. E nada mudava. O povo não veio. E vida seguiu. Indiferente a farsa já cansativa. Impossível fugir a essa dura realidade. Todos os bares estavam repletos de homens vazios. Todos os namorados de mãos entrelaçadas. Todos os maridos funcionando regularmente. Todas as mulheres atentas. Porque era sábado.
E ali, já com a audiência cansada da farsa, ao vivo dava para ver os tatos abandonando o navio. E, afinal, virar a chave. E dedicar o episódio ao rodapé da história. De onde nunca deveria ter saído.
Elton Simões
O país tropical é onde a farsa prospera. Acostumados que estamos com a fraude, permanecemos incapazes de dedicar a ela o tratamento devido. A gente fica mesmo mesmerizado com a encenação com cheiro de farsa, jeito de farsa e voz de farsa. Talvez porque seja farsa mesmo.
Precisamos ainda subir muitos degraus civilizatório para entender as noções básicas de cidadania e estado de direito. Ou pelo menos uns poucos que nos permita entender que a prisão após a condenação é não somente esperada, mas natural. Seria assim em lugares que fazem sentido.
Não no país tropical. Talvez embriagados pelo suco da jabuticaba discutimos a concessão de privilégios usando como argumento a igualdade perante a lei. A gente faz muito se auto dispensou de fazer sentido. Por isso somos o paraíso dos juristas. Gente que, por acreditar em nada, diz qualquer coisa.

Com um pouco mais de noção de cidadania, não perderíamos 2 dias dando importância a eventos de outra maneira corriqueiros. E que, francamente, não fazem ou farão a menor diferença. Não escrevemos história. Preferimos dedicar nosso talento literário as notas de rodapé. Com quase certeza, vai ser lá que estarão eventos recentes. Se tanto.
Enquanto o tempo e a atenção do distinto público eram devidamente desperdiçados em todas as formas de mídia, a vida seguia. Fora daquele quarteirão onde se concentravam as lentes, tudo correu normalmente.
Talvez por isso, a farsa tenha se autoconsumido tão rapidamente. Notaram que os bondes permaneciam em cima dos trilhos. E que o tempo passava. E que não há nada como o tempo para passar.
E perceberam que já era sábado. O dia do presente. E nada mudava. O povo não veio. E vida seguiu. Indiferente a farsa já cansativa. Impossível fugir a essa dura realidade. Todos os bares estavam repletos de homens vazios. Todos os namorados de mãos entrelaçadas. Todos os maridos funcionando regularmente. Todas as mulheres atentas. Porque era sábado.
E ali, já com a audiência cansada da farsa, ao vivo dava para ver os tatos abandonando o navio. E, afinal, virar a chave. E dedicar o episódio ao rodapé da história. De onde nunca deveria ter saído.
Elton Simões
Voto de Rosa Weber pode produzir mais efeitos que a prisão de Lula
O evento de efeitos mais duradouros destes dias tumultuados pode não ter sido a prisão do ex-presidente Lula, mas sim o voto da ministra Rosa Weber no julgamento de 4 de abril, no Supremo. O teor da manifestação da juíza foi coerente com seu modo de portar-se. Não dá entrevistas nem antecipa opiniões, não patrocina lobbies nem se mete em assuntos que conotem conflito de interesse. Não desafia a jurisprudência.
Uma corte suprema não deveria ser fator de insegurança, com mudanças bruscas de rumo. Os mapas que norteiam os juízos não se alteram só porque a maioria passou a pensar diversamente.
É preciso algo mais para mudar a jurisprudência, como vários anos de acúmulo de precedentes no sentido contrário ou um choque da realidade fática, para alterar a jurisprudência do STF. Eis os pressupostos do voto da ministra Weber.
Reflexos dos insultos subterrâneos à magistrada, plenos de machismo, vieram à tona tão logo a direção de seu voto ficou clara. Tal lógica condenaria o Judiciário ao imobilismo eterno, argumentam seus críticos mais civilizados.
Decerto ela fez opção entre dois valores jurídicos —a necessidade de evoluir e a de assegurar previsibilidade à expectativa dos agentes sociais. Preza mais o segundo, o que não significa anulação nem estrangulamento do primeiro.
O cumprimento de pena após a segunda instância tende a tornar-se regra sujeita a conjunto não desprezível de exceções. Prisões mal fundamentadas, alta probabilidade de sucesso nos recursos e falhas processuais graves têm justificado conceder liberdade ou relaxar o regime de detenção.
Se as instâncias inferiores se lambuzarem de punitivismo, os casos de revisão vão crescer ao longo dos próximos anos e isso poderá justificar mudança na jurisprudência. Esse é o voto da ministra Rosa, que não é Luxemburgo, mas cujo conservadorismo é quase revolucionário no Brasil.
Uma corte suprema não deveria ser fator de insegurança, com mudanças bruscas de rumo. Os mapas que norteiam os juízos não se alteram só porque a maioria passou a pensar diversamente.

Reflexos dos insultos subterrâneos à magistrada, plenos de machismo, vieram à tona tão logo a direção de seu voto ficou clara. Tal lógica condenaria o Judiciário ao imobilismo eterno, argumentam seus críticos mais civilizados.
Decerto ela fez opção entre dois valores jurídicos —a necessidade de evoluir e a de assegurar previsibilidade à expectativa dos agentes sociais. Preza mais o segundo, o que não significa anulação nem estrangulamento do primeiro.
O cumprimento de pena após a segunda instância tende a tornar-se regra sujeita a conjunto não desprezível de exceções. Prisões mal fundamentadas, alta probabilidade de sucesso nos recursos e falhas processuais graves têm justificado conceder liberdade ou relaxar o regime de detenção.
Se as instâncias inferiores se lambuzarem de punitivismo, os casos de revisão vão crescer ao longo dos próximos anos e isso poderá justificar mudança na jurisprudência. Esse é o voto da ministra Rosa, que não é Luxemburgo, mas cujo conservadorismo é quase revolucionário no Brasil.
segunda-feira, 9 de abril de 2018
Lula, virar a página
Depois de várias semanas de tensão, discussões pouco edificantes transmitidas ao vivo e declarações impróprias de alguns dos seus integrantes, o Supremo Tribunal Federal (STF) fez o que se esperava: confirmou que ninguém está acima da lei e que o combate à corrupção não admite acordões. A decisão do plenário não poderia ter sido outra. Caso contrário, a corte assinaria um atestado de leniência com o crime e estaria na contramão dos valores éticos de uma sociedade cansada e decepcionada. Geraria instabilidade, acirraria o clima de radicalização, abriria de par em par as portas da impunidade para os criminosos do colarinho branco e pavimentaria uma avenida para os aventureiros que transitam nas sombras da desesperança. Além disso, o STF confrontaria o próprio Judiciário.
Lula foi condenado a nove anos e meio, num primeiro julgamento, pelo juiz Sergio Moro. Foi uma sentença de 218 páginas. Foram ouvidas 91 testemunhas, das quais 73 apresentadas pela defesa. Tudo dentro da lei e das garantias devidas ao réu. A defesa de Lula apelou da sentença para o TRF-4, de Porto Alegre. Ali, foi julgado em 24 de janeiro deste ano por três desembargadores, condenado por 3 a zero, e sua pena foi aumentada para 12 anos. Recorreu, em seguida, para a instância superior, o STJ, em Brasília, onde seu pedido foi julgado por cinco ministros. Outra derrota, agora por 5 a zero. Voltou, enfim, ao mesmo TRF-4. Perdeu mais uma. Três instâncias e nove juízes se manifestaram num mesmo sentido em relação a Lula (escrevo este artigo antes da prisão do ex-presidente decreta pelo juiz Sergio Moro).
Dizer que seria preciso respeitar a “presunção de inocência” até “prova em contrário”, como frisaram alguns ministros, é fazer piada com a inteligência dos brasileiros. Feita a prova, o réu deixa de ser inocente. Passa a ser culpado. No caso de Lula, a prova foi feita quando a segunda instância decidiu que sua condenação estava fundamentada em fatos.
O tribunal que tem como missão uniformizar os entendimentos judiciais não poderia ignorar suas próprias decisões e as das demais instâncias. A corte, felizmente, não permitiu que vingasse um casuísmo: a mudança de jurisprudência em relação à possibilidade de prisão após condenação em segunda instância tendo por base um pedido que não poderia ir além da pessoa do condenado Lula da Silva.
Venceu o bom senso. O momento, no entanto, é preocupante. Políticos, à esquerda e à direita, estão unidos num denominador comum: salvar a própria pele. O infortúnio do cárcere e a perspectiva do ostracismo uniram adversários históricos para combater o inimigo comum: a Operação Lava Jato e o aparato da Justiça. Tentaram ganhar na vigésima quinta hora. Queriam que o STF arrombasse a porteira. Conhecedores da morosidade do Judiciário, que é a causa essencial da perpetuação da injustiça, apostam na loteria viciada dos crimes prescritos.
Precisamos virar a página e olhar estrategicamente para o futuro. Podemos e devemos mudar o quadro. Como? Votando bem, com voto comprometido. Teremos eleições gerais. Executivo e Legislativo serão renovados. Você, leitor e eleitor, não pode encarar a próxima eleição como ordinária administração. Não é. Pode ser decisiva. Transformadora. É uma grande oportunidade. O seu candidato, ao Executivo e ao Legislativo, deve estar claramente comprometido com reformas constitucionais que sejam capazes de devolver o Brasil aos brasileiros. Prisão após condenação em segunda instância é medida indispensável na luta contra a impunidade. Seu candidato deve estar comprometido com projeto de reforma constitucional que faça da medida saneadora princípio intocável. Reforma da Previdência. Reforma tributária. Revisão do tamanho do Estado e do seu papel.
Chegou a hora de a sociedade civil mostrar a sua cara e a sua força. É preciso, finalmente, cobrar a reforma política. Todos sabem disso. Há décadas. O atual modelo de governança, a perversa fórmula da coalizão, é a principal causa da corrupção. O Brasil pode sair deste pântano para um patamar civilizado. Mas, para que isso aconteça, com a urgência que se impõe, é preciso votar bem.
Carlos Alberto Di Franco
Dizer que seria preciso respeitar a “presunção de inocência” até “prova em contrário”, como frisaram alguns ministros, é fazer piada com a inteligência dos brasileiros. Feita a prova, o réu deixa de ser inocente. Passa a ser culpado. No caso de Lula, a prova foi feita quando a segunda instância decidiu que sua condenação estava fundamentada em fatos.
O tribunal que tem como missão uniformizar os entendimentos judiciais não poderia ignorar suas próprias decisões e as das demais instâncias. A corte, felizmente, não permitiu que vingasse um casuísmo: a mudança de jurisprudência em relação à possibilidade de prisão após condenação em segunda instância tendo por base um pedido que não poderia ir além da pessoa do condenado Lula da Silva.
Venceu o bom senso. O momento, no entanto, é preocupante. Políticos, à esquerda e à direita, estão unidos num denominador comum: salvar a própria pele. O infortúnio do cárcere e a perspectiva do ostracismo uniram adversários históricos para combater o inimigo comum: a Operação Lava Jato e o aparato da Justiça. Tentaram ganhar na vigésima quinta hora. Queriam que o STF arrombasse a porteira. Conhecedores da morosidade do Judiciário, que é a causa essencial da perpetuação da injustiça, apostam na loteria viciada dos crimes prescritos.
Precisamos virar a página e olhar estrategicamente para o futuro. Podemos e devemos mudar o quadro. Como? Votando bem, com voto comprometido. Teremos eleições gerais. Executivo e Legislativo serão renovados. Você, leitor e eleitor, não pode encarar a próxima eleição como ordinária administração. Não é. Pode ser decisiva. Transformadora. É uma grande oportunidade. O seu candidato, ao Executivo e ao Legislativo, deve estar claramente comprometido com reformas constitucionais que sejam capazes de devolver o Brasil aos brasileiros. Prisão após condenação em segunda instância é medida indispensável na luta contra a impunidade. Seu candidato deve estar comprometido com projeto de reforma constitucional que faça da medida saneadora princípio intocável. Reforma da Previdência. Reforma tributária. Revisão do tamanho do Estado e do seu papel.
Chegou a hora de a sociedade civil mostrar a sua cara e a sua força. É preciso, finalmente, cobrar a reforma política. Todos sabem disso. Há décadas. O atual modelo de governança, a perversa fórmula da coalizão, é a principal causa da corrupção. O Brasil pode sair deste pântano para um patamar civilizado. Mas, para que isso aconteça, com a urgência que se impõe, é preciso votar bem.
Carlos Alberto Di Franco
A realidade não sensibiliza
Podemos ler uma notícia sobre um país no qual há 9 milhões de crianças que passam fome. Somos capazes de ler isso e incorporar, e mudar de assunto.
Mas quando lemos "Os Miseráveis", de Victor Hugo (1802-1885), sentimos uma empatia por esse personagem que rouba um pedaço de pão que, aí sim, nos faz ter a sensibilidade para entender algo do drama que significa 9 milhões de crianças passando fome.
A realidade física das informações não basta para o entendimento completo de algo
Alberto Manguel
Al Capone, Lula e o preço dos menores pecados
Como Al Capone, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado pelo menor de seus crimes. Alphonse Gabriel Capone, uma das figuras mais sanguinárias e mais célebres da história criminal, foi para a cadeia por sonegação de impostos. Lula foi sentenciado por um caso de corrupção vinculado a um apartamento triplex no Guarujá. Seu segundo processo envolve um sítio em Atibaia. As histórias de ambos, muito diferentes em vários outros aspectos, têm uma curiosa semelhança: a enorme desproporção entre os males causados e os delitos imputados formalmente a seus autores.
Alguns poderão julgar um despropósito a comparação entre o bandido americano e o político brasileiro. Podem ter razão, se estiverem considerando as leis violadas em cada caso. Não há homicídio na história de Lula, nem uso da violência, nem prática rotineira da maior parte dos chamados crimes comuns. Mas as façanhas do líder petista são imensamente maiores que as do chefe mafioso, quando se levam em conta o alcance e os efeitos econômicos e sociais de suas ações. As barbaridades de Al Capone, suficientes para uma porção de filmes sensacionais, sempre tiveram caráter microeconômico, mesmo quando envolveram corrupção de autoridades.
Lula assumiu a Presidência em 2003 com um projeto de poder e um plano de governo subordinado a suas enormes ambições políticas. Foi capaz de perceber, ao contrário de muitos outros petistas, a importância política de promover ajustes e de controlar a inflação. Era preciso desarmar a desconfiança do setor privado.
Não havia, de fato, a herança maldita proclamada por petistas. As dificuldades eram explicáveis principalmente pela reação dos mercados a ameaças do PT. Figuras importantes do partido haviam prometido, entre outras bobagens, uma “renegociação” – de fato, um calote – da dívida pública.
Aconselhado por Antônio Palocci, futuro ministro da Fazenda, Lula convidou o presidente do BankBoston, Henrique Meirelles, para dirigir o Banco Central (BC). Seria mais um avalista do governo. Durante o primeiro mandato a promessa de bom comportamento foi em parte cumprida. O BC combateu a inflação com aparente liberdade e a política fiscal foi conduzida com algum cuidado, apesar da expansão da folha de pagamentos. Nos oito anos de Lula, a despesa com pessoal e encargos do Executivo cresceu 135,6%, enquanto a inflação ficou em 56,6%.
Os crimes do mensalão só se tornariam assunto público a partir de 2005, mas sem atrapalhar a reeleição do presidente. Na política econômica nada foi feito para ampliar e consolidar a pauta de reformas nem se implantou uma estratégia efetiva de desenvolvimento.
Completada a primeira etapa, tudo começou a desandar, com o abandono da responsabilidade fiscal, as enormes transferências do Tesouro para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a política dos campeões nacionais, o aumento do protecionismo e a devastação das estatais. Com incompetência e irresponsabilidade incomuns, a presidente Dilma Rousseff completou o desastre, quase quebrando o Tesouro e levando o País à recessão.
O primeiro mandato de Lula, enfim, foi orientado inteiramente para consolidar, sem resistência nos mercados, o projeto de dominação. O aparelho federal foi submetido às ambições de poder do presidente. As condições para pilhagem das estatais foram um desdobramento dessa política. Petistas e aliados tomaram a administração federal como se fossem forças de ocupação. A devastação da Petrobrás e de outras estatais foi parcialmente descrita nos informes da Operação Lava Jato e de outras investigações.
A conversão da Petrobrás em instrumento da política industrial petista forçou a empresa a comprar insumos e equipamentos nacionais, mesmo quando muito mais caros que os importados. Comprometeu sua rentabilidade, reduziu seu potencial de investimento e, além disso, abriu espaço para troca de favores e corrupção.
A política de investimentos, subordinada às ambições, aos critérios políticos e à fantasia de liderança regional de Lula, jamais concretizada, favoreceu projetos como o da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Deveria ter sido um empreendimento brasileiro e venezuelano. Nenhum centavo da Venezuela foi aplicado nas obras. Além disso, os custos, multiplicados por oito, chegaram à casa de US$ 20 bilhões.
Lula ostensivamente mandou na Petrobrás, indicando diretores, influenciando seus planos, orientando seus investimentos e seus objetivos. Não há como disfarçar sua responsabilidade pelos desmandos na gestão da empresa, assim como é impossível desvincular seu nome da política de compadrio do BNDES. Basta examinar a lista de empresas beneficiadas e os nomes mais vistosos nos processos de corrupção.
Nunca se levaram a sério, nessa fase, os princípios constitucionais definidos para a administração pública no artigo 37: “legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”. A exigência de produtividade no serviço público foi sempre desqualificada como preconceito neoliberal.
Na versão mais complacente, os casos de corrupção ocorridos no Brasil durante a fase petista podem ser mais numerosos que os observados em outros países, mas são da mesma natureza. Esse é o grande engano. A corrupção brasileira, nesse período, foi vinculada essencialmente a um estilo de governo e, mais que isso, a uma forma de ocupação do aparelho estatal. Pode-se trocar a palavra ocupação, nesse caso, por apropriação ou mesmo por privatização da máquina.
Esse projeto de poder foi comprometido pelo fracasso da presidente Dilma Rousseff. Nesse caso, ele cometeu um desastroso erro de pessoa, ou, mais propriamente, de poste. Vitorioso o projeto, Lula nunca precisaria de escrituras ou de recibos para realizar sonhos de consumo ou de riqueza. Tudo viria, como veio por um tempo, como produto do poder.
Alguns poderão julgar um despropósito a comparação entre o bandido americano e o político brasileiro. Podem ter razão, se estiverem considerando as leis violadas em cada caso. Não há homicídio na história de Lula, nem uso da violência, nem prática rotineira da maior parte dos chamados crimes comuns. Mas as façanhas do líder petista são imensamente maiores que as do chefe mafioso, quando se levam em conta o alcance e os efeitos econômicos e sociais de suas ações. As barbaridades de Al Capone, suficientes para uma porção de filmes sensacionais, sempre tiveram caráter microeconômico, mesmo quando envolveram corrupção de autoridades.

Lula assumiu a Presidência em 2003 com um projeto de poder e um plano de governo subordinado a suas enormes ambições políticas. Foi capaz de perceber, ao contrário de muitos outros petistas, a importância política de promover ajustes e de controlar a inflação. Era preciso desarmar a desconfiança do setor privado.
Não havia, de fato, a herança maldita proclamada por petistas. As dificuldades eram explicáveis principalmente pela reação dos mercados a ameaças do PT. Figuras importantes do partido haviam prometido, entre outras bobagens, uma “renegociação” – de fato, um calote – da dívida pública.
Aconselhado por Antônio Palocci, futuro ministro da Fazenda, Lula convidou o presidente do BankBoston, Henrique Meirelles, para dirigir o Banco Central (BC). Seria mais um avalista do governo. Durante o primeiro mandato a promessa de bom comportamento foi em parte cumprida. O BC combateu a inflação com aparente liberdade e a política fiscal foi conduzida com algum cuidado, apesar da expansão da folha de pagamentos. Nos oito anos de Lula, a despesa com pessoal e encargos do Executivo cresceu 135,6%, enquanto a inflação ficou em 56,6%.
Os crimes do mensalão só se tornariam assunto público a partir de 2005, mas sem atrapalhar a reeleição do presidente. Na política econômica nada foi feito para ampliar e consolidar a pauta de reformas nem se implantou uma estratégia efetiva de desenvolvimento.
Completada a primeira etapa, tudo começou a desandar, com o abandono da responsabilidade fiscal, as enormes transferências do Tesouro para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a política dos campeões nacionais, o aumento do protecionismo e a devastação das estatais. Com incompetência e irresponsabilidade incomuns, a presidente Dilma Rousseff completou o desastre, quase quebrando o Tesouro e levando o País à recessão.
O primeiro mandato de Lula, enfim, foi orientado inteiramente para consolidar, sem resistência nos mercados, o projeto de dominação. O aparelho federal foi submetido às ambições de poder do presidente. As condições para pilhagem das estatais foram um desdobramento dessa política. Petistas e aliados tomaram a administração federal como se fossem forças de ocupação. A devastação da Petrobrás e de outras estatais foi parcialmente descrita nos informes da Operação Lava Jato e de outras investigações.
A conversão da Petrobrás em instrumento da política industrial petista forçou a empresa a comprar insumos e equipamentos nacionais, mesmo quando muito mais caros que os importados. Comprometeu sua rentabilidade, reduziu seu potencial de investimento e, além disso, abriu espaço para troca de favores e corrupção.
A política de investimentos, subordinada às ambições, aos critérios políticos e à fantasia de liderança regional de Lula, jamais concretizada, favoreceu projetos como o da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Deveria ter sido um empreendimento brasileiro e venezuelano. Nenhum centavo da Venezuela foi aplicado nas obras. Além disso, os custos, multiplicados por oito, chegaram à casa de US$ 20 bilhões.
Lula ostensivamente mandou na Petrobrás, indicando diretores, influenciando seus planos, orientando seus investimentos e seus objetivos. Não há como disfarçar sua responsabilidade pelos desmandos na gestão da empresa, assim como é impossível desvincular seu nome da política de compadrio do BNDES. Basta examinar a lista de empresas beneficiadas e os nomes mais vistosos nos processos de corrupção.
Nunca se levaram a sério, nessa fase, os princípios constitucionais definidos para a administração pública no artigo 37: “legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”. A exigência de produtividade no serviço público foi sempre desqualificada como preconceito neoliberal.
Na versão mais complacente, os casos de corrupção ocorridos no Brasil durante a fase petista podem ser mais numerosos que os observados em outros países, mas são da mesma natureza. Esse é o grande engano. A corrupção brasileira, nesse período, foi vinculada essencialmente a um estilo de governo e, mais que isso, a uma forma de ocupação do aparelho estatal. Pode-se trocar a palavra ocupação, nesse caso, por apropriação ou mesmo por privatização da máquina.
Esse projeto de poder foi comprometido pelo fracasso da presidente Dilma Rousseff. Nesse caso, ele cometeu um desastroso erro de pessoa, ou, mais propriamente, de poste. Vitorioso o projeto, Lula nunca precisaria de escrituras ou de recibos para realizar sonhos de consumo ou de riqueza. Tudo viria, como veio por um tempo, como produto do poder.
O último grande circo
Com o circo armado em torno da “resistência” à prisão, Luiz Inácio Lula da Silva e o PT até conseguiram cenas impactantes para a campanha eleitoral, mas a um preço alto demais para falar só com crentes confessos. Não arregimentaram um único apoiador a mais, mas animaram fundamentalistas na outra ponta, para delírio de gente como o deputado Jair Bolsonaro.
O condenado Lula, que é réu em outros cinco processos, debochou da Justiça, fez troça dela. Algo inadmissível para qualquer cidadão, quanto mais para quem já foi presidente e desejaria disputar novamente o cargo. Travestiu de coragem seu ato de covardia, escondendo-se atrás da militância para adiar a prisão. E, sem qualquer escrúpulo, mais uma vez usou sua mulher morta, que serviu de mote a uma missa-comício. Um escárnio.
Ainda que aguerrido, o rebanho ficou muito aquém do que os líderes petistas e dos ditos movimentos sociais previam. Nem as mais de 48 horas de transmissão ao vivo e os apelos incessantes nas redes sociais foram capazes de mobilizar multidões.
À exceção do Rio de Janeiro e do Recife, na sexta-feira, e da porta do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde Lula se exilou desde a expedição do mandado de prisão, o que se viu no resto do país foram manifestações de pouca monta.
Muitos pneus queimando em rodovias, com fogo e fumaça a esconder os poucos militantes. Atos que só conseguem repúdio da população.
Em Belo Horizonte, no sábado, depois de gente de verde-amarelo lavar o passeio e a fachada, flores e mais flores foram colocadas na porta do prédio da presidente do STF, Cármen Lúcia, vandalizado na noite anterior.
O PT perdeu também com o incentivo à violência contra jornalistas – carros de imprensa depredados, fotógrafos e repórteres agredidos; TV Globo e revista Veja xingadas por Lula, em um discurso surreal. Não pelo conteúdo – a conhecida cantilena de que é um perseguido porque defende os pobres -, mas pelo ultraje à Justiça.
Por 55 minutos, alguém que já deveria estar preso escorraçou em público, com transmissão ao vivo da imprensa que ele repudia, o MPF que o investigou, o juiz que o sentenciou, as cortes superiores que confirmaram a sentença e negaram habeas corpus e liminares.
Solto, Lula cada vez dialoga menos com o país. E, embora tenha tentado, o mandado de prisão não teve o condão de mudar isso. Só os fiéis lhe dão ouvidos. Sua negação à Justiça acirra a belicosidade entre os extremos e escancara o seu já sabido desapreço pelas instituições e pela democracia.
Bate no peito e diz que não é mais um ser humano, e sim uma ideia. Mas há tempos deixou de ser uma boa ideia.
Mary Zaidan
Ainda que aguerrido, o rebanho ficou muito aquém do que os líderes petistas e dos ditos movimentos sociais previam. Nem as mais de 48 horas de transmissão ao vivo e os apelos incessantes nas redes sociais foram capazes de mobilizar multidões.
À exceção do Rio de Janeiro e do Recife, na sexta-feira, e da porta do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde Lula se exilou desde a expedição do mandado de prisão, o que se viu no resto do país foram manifestações de pouca monta.
Muitos pneus queimando em rodovias, com fogo e fumaça a esconder os poucos militantes. Atos que só conseguem repúdio da população.
Em Belo Horizonte, no sábado, depois de gente de verde-amarelo lavar o passeio e a fachada, flores e mais flores foram colocadas na porta do prédio da presidente do STF, Cármen Lúcia, vandalizado na noite anterior.
O PT perdeu também com o incentivo à violência contra jornalistas – carros de imprensa depredados, fotógrafos e repórteres agredidos; TV Globo e revista Veja xingadas por Lula, em um discurso surreal. Não pelo conteúdo – a conhecida cantilena de que é um perseguido porque defende os pobres -, mas pelo ultraje à Justiça.
Por 55 minutos, alguém que já deveria estar preso escorraçou em público, com transmissão ao vivo da imprensa que ele repudia, o MPF que o investigou, o juiz que o sentenciou, as cortes superiores que confirmaram a sentença e negaram habeas corpus e liminares.
Solto, Lula cada vez dialoga menos com o país. E, embora tenha tentado, o mandado de prisão não teve o condão de mudar isso. Só os fiéis lhe dão ouvidos. Sua negação à Justiça acirra a belicosidade entre os extremos e escancara o seu já sabido desapreço pelas instituições e pela democracia.
Bate no peito e diz que não é mais um ser humano, e sim uma ideia. Mas há tempos deixou de ser uma boa ideia.
Mary Zaidan
Mecanização
A tragédia é a cristalização da massa humana, tão perigosa como a estagnação do espírito do homem que se torna acadêmico ou fenece por falta de entusiasmo. Gostava de saber quantas pessoas pensam em macacos durante o correr de um dia? Quantas? O homem-massa, num futuro próximo - em relações antropológicas o próximo leva geralmente centenas de anos - transformar-se-á num novo espetáculo de jardim zoológico. Em vez de jaula e aldeias de símios, ele terá balneários públicos e campos para habilidades desportivas, com ocasionais jogos noturnos. Dará palmas em delírio ouvindo ainda o som distante da sineta tocada pelo elefante num ato máximo de inteligência paquidérmica. Terá circuitos fechados, com pistas perfeitamente cimentadas, para passear o tédio da família aos domingos, circulará repetidamente em metropolitanos convencido de que cada nova paragem é diferente da anterior.
E estou absolutamente crente que do naufrágio calamitoso apenas se hão-de salvar os que pela porta do cavalo fugirem ao triturar das grandes coletividades humanas, ou os que por força invencível e instintiva se libertarem para uma nova categoria de homem, ou, melhor dizendo, para a sua verdadeira categoria de homem, de homem-pensamento, na linha direta de um Platão, de um Homero, de um Aristófanes, de um Plutarco.
A humanidade dá-nos, assim, um triste espetáculo de andar para trás, melhora em lepra social, coletiviza-se e baixa logo na escala humana, retrocedendo para uma classe entre os antropopitecos e o erectus, a que chamarei Màchomem.
E todos os dias o mundo assiste ao melancólico desfile de milhares de seres que passam a Màchomens, na satisfação plena da sua jaula colectiva sem grades. E como os macacos, os elefantes, os cães e mais bicharia, os Màchomens passam imediatamente a falar a sua língua universal, sem necessidade de tradução, estendendo atividades físicas e associativas desde a Polinésia ao sul de Itália, trocando saudações, mensagens, hinos, desfiles, comícios, e tantas outras indigestões apaixonadas dos grupos de seres que deixaram de ter fronteiras e vocábulos regionais. O cão que ladra nas margens do Danúbio assemelha-se aos poderosos Serra da Estrela, sem distinção de maior que nos faça ter preferências por qualquer um destes ladrares. O Màchomem da Amadora em muito pouco se virá a distinguir do Màchomem de Detroit, Chicago, Manchester, Dusseldorf.
Ruben A., "O Mundo À Minha Procura I"

A humanidade dá-nos, assim, um triste espetáculo de andar para trás, melhora em lepra social, coletiviza-se e baixa logo na escala humana, retrocedendo para uma classe entre os antropopitecos e o erectus, a que chamarei Màchomem.
E todos os dias o mundo assiste ao melancólico desfile de milhares de seres que passam a Màchomens, na satisfação plena da sua jaula colectiva sem grades. E como os macacos, os elefantes, os cães e mais bicharia, os Màchomens passam imediatamente a falar a sua língua universal, sem necessidade de tradução, estendendo atividades físicas e associativas desde a Polinésia ao sul de Itália, trocando saudações, mensagens, hinos, desfiles, comícios, e tantas outras indigestões apaixonadas dos grupos de seres que deixaram de ter fronteiras e vocábulos regionais. O cão que ladra nas margens do Danúbio assemelha-se aos poderosos Serra da Estrela, sem distinção de maior que nos faça ter preferências por qualquer um destes ladrares. O Màchomem da Amadora em muito pouco se virá a distinguir do Màchomem de Detroit, Chicago, Manchester, Dusseldorf.
Ruben A., "O Mundo À Minha Procura I"
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