sexta-feira, 9 de março de 2018

Não há plano, faz-se um plano

Planejava escrever mais um artigo sobre política de segurança nacional, tal como espero que seja discutida em 2018. Celso Rocha de Barros, em sua coluna na Folha, me fez uma pergunta pertinente: afinal, qual a intervenção que apoio? Já tratei parcialmente do tema em artigos anteriores. Mas não gostaria de parecer vago a respeito do lugar onde vivo, sobretudo diante de um interlocutor qualificado.

Resultado de imagem para plano de intervenção charge

Defendo uma intervenção completa num governo em ruínas. Mas já que se deu apenas no campo da segurança e tem como instrumento o Exército, ela deve deixar bem claro o momento de terminar. Esse marco final não é definido pela rigidez do calendário, mas pela execução da tarefa: reduzir, ainda que modestamente, os índices de criminalidade e reestruturar a polícia para que possa cumprir sua tarefa. Nesse campo, dois pontos são essenciais: o combate à corrupção, pois ela enfraquece as chances de reduzir a criminalidade; e dotá-la de equipamentos, treino e meios técnico-científicos de investigação.

Desde repórter policial, ainda garoto, percebia que a polícia estava atrás de seu tempo. Foi uma opção da sociedade brasileira, que subestimou sua importância. Essa escolha é uma fonte de violência, pois sem inteligência e métodos de investigação a busca de alguma eficácia induz à tortura e à intimidação. No caso da polícia do Rio de Janeiro, existe ainda uma questão elementar: pagar os salários em dia.

Quanto aos métodos, defendo uma intervenção que não veja as favelas como território hostil, mas como território amigo controlado por forças hostis. Isso implica o compromisso de respeitar as pessoas, algo que alguns já percebem também como o desejo dos militares.

E quais são as forças hostis? Os grupos armados ocupando territórios: traficantes de drogas, que se desdobram em ladrões de cargas, e as milícias, que vendem segurança, gás e transporte alternativo.

Sou contra a ocupação militar das comunidades. Há anos afirmo que nem o Exército chinês exerceria folgadamente essa tarefa. São mais de 800 só na capital, sem contar a Baixada Fluminense e cidades médias, como Campos e Macaé.

Como combater esses grupos sem ocupar? Essa é uma questão que inteligência e meios técnicos podem responder ao menos parcialmente. A tática de ocupar as comunidades leva os grupos armados a utilizar, instintivamente, um princípio da guerrilha: dispersar quando o inimigo se concentra, concentrar-se quando ele se dispersa.

Em 2010, no contexto da campanha política, traçamos um mapa da ocupação armada no território do Rio, indicando quem a dominava. Esta semana recebi um esboço que mostra como a mancha de território ocupado se expandiu.

Defendo também uma intervenção que estimule, por sua presença, o avanço da Lava Jato sobre o mundo político do Rio. Há muita coisa a fazer, até porque o atual governo era parte do esquema criminoso de Sérgio Cabral.

Finalmente, afirmei que a sociedade, que já se movimenta, via aplicativos como Onde Tem Tiroteio e Fogo Cruzado, poderia ajudar as forças de intervenção. Mas precisaria conhecer seu plano.

Os militares foram convocados de surpresa e precisam estudar melhor o quadro. E de mais treino no contato com a imprensa, que não é de seu cotidiano

Tenho consciência de que o governo Temer é impopular e terá grandes problemas com a Justiça quando perder o foro privilegiado. Mas sinto que vivemos no Rio uma situação emergencial. Outros Estados também sofrem com a violência. Constatei isso no Amazonas, no Maranhão, em Alagoas e pretendo mostrar os casos do Ceará e do Rio Grande do Norte.

Mas em nenhum ponto do País perdemos tanto território para grupos armados.

Os números sobre mortes no Brasil, superando os de muitos países em guerra, já eram um argumento para o tema subir ao topo da agenda nacional. Temer é o presidente que existe, o único capaz de convocar as Forças Armadas. Se alguém acha isso um golpe de mestre político, é porque tem visão curta.

O próprio Exército, com alta credibilidade, não se lançaria numa tarefa dessas para salvar um governo com alguns já na cadeia e outros arrumando a mala. Se Temer não cumprir as condições mínimas para a execução da tarefa, espero que isso fique claro no balanço dos interventores e o desgaste caia nas mãos de quem merece.

Em linhas gerais, essa é a intervenção que defendo. Posso alterar minha visão diante de argumentos contrários.

O mais difícil, entretanto, é convencer as pessoas que, como todos nós, acreditam que a segurança é limitada, que é preciso melhorar as condições sociais, a educação. Não percebem a emergência. Como chegar com serviços sociais a uma favela ocupada? Como ter eleições livres em áreas onde só podem entrar alguns candidatos?

Arruinado, o Rio não consegue sozinho ocupar seu território. Mesmo com ajuda federal e a presença do Exército é uma tarefa de longo prazo. Quem vê os militares se preparando para combater os grupos armados vê também um horizonte para a libertação territorial da cidade.

Defendi apenas alguns princípios da intervenção. Não explicitei planos porque isso é tarefa dos militares. Admito até que não tinham nenhum. O que fazer? Foram convocados para uma emergência. Não temos plano? Faz-se um. Visto com seriedade, para quem foi convocado de surpresa isso leva tempo.

O atraso na aceitação da segurança pública na agenda nacional atravessou a redemocratização. Entre nossos presidentes, havia um desprezo aristocrático pelo tema.

Com todas as críticas que faço ao governo Temer, procuro ter uma visão política; não reclamar quando o outro chega atrasado às evidências, mas simplesmente afirmar: é bom que, finalmente, tenha chegado.

Não vejo alternativa melhor para o Rio. Prefiro ajudá-la, contra os ventos e marés da esquerda. Não é a primeira vez que discordamos. Já estamos acostumados.

Gente fora do mapa

Resultado de imagem para crianças mineram cobalto no congo
Criança do Congo mineram minérios utilizados em eletrônicos como celulares e laptops

Improvisações seculares

Ainda no século XIX, um dos maiores brasileiros da história, Joaquim Nabuco, disse que a Abolição ficaria incompleta se os escravos não recebessem terra para trabalhar e seus filhos não recebessem escolas para estudar. Não lhe deram atenção. Cem anos depois, outro dos maiores brasileiros da história, Darcy Ribeiro, disse que, se o Brasil não construísse escolas naquele momento, teria de construir cadeias no futuro.

Junto com o então governador Leonel Brizola, Darcy iniciou a construção de um sistema estadual de escolas públicas com máxima qualidade: os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). Os outros governadores não deram continuidade à escola em horário integral. Em 1990, o ex-presidente Collor tentou levar a ideia para o resto do Brasil com os Centros Integrados de Atenção à Criança e ao Adolescente (CIACs), mas, com o impeachment, a federalização foi abortada.

Resultado de imagem para jeitinho para o pobre charge

A sociedade brasileira continuou a marcha na pobreza, violência e desigualdade, improvisando soluções parciais para cada problema. Eleitos e eleitores não percebem que o berço dos problemas está na falta de um sistema nacional de educação com máxima qualidade; que o futuro de um povo tem a cara de sua escola no presente (83% dos jovens infratores abandonaram a escola ainda na educação de base). A população vê a ameaça de uma pessoa portando fuzil, mas não vê a esperança em um professor segurando um lápis, um livro, um computador dentro de uma escola.

No momento, quase todo carioca apoia e os demais brasileiros invejam a decisão de federalizar a segurança do Rio de Janeiro, mas nem imaginam que a maior parte se opõe a uma federalização da educação de base. Preferimos continuar nas improvisações seculares: “abolição”, “república”, “desenvolvimento”, “democracia” e “segurança” sem educação. A urgência de cuidar do fuzil nos faz desprezar a importância do lápis, mas guiar-se apenas pelo desespero com a violência não leva à construção da paz.

Em sete meses, teremos eleições, mas nenhum candidato a presidente parece consciente da dimensão do problema, nem interessado em oferecer resposta que não seja a improvisação pontual. Ainda menos enfrentar problemas imediatos, considerando que a solução de longo prazo está na construção do sistema nacional de educação com máxima qualidade.

Querendo apenas agradar ao eleitor assustado com o presente, ficam presos às improvisadas trapalhadas seculares dos discursos demagógicos. Partidos boicotam seus candidatos que defendem a educação como solução porque isso não dá voto. Por mais consistência lógica que tenham, a urgência destrói sólidos argumentos. Quem está com sede não aceita o aviso de que a água do poço em frente está contaminada e devemos cavar novo poço em outro lugar. Poucos votam em quem propõe enfrentar o fuzil também com o lápis.

Por isso, não há ouvidos para a fala de Nabuco, nem de Darcy, nem da ex-senadora Heloísa Helena quando, mais recentemente, disse: “Se adotássemos uma geração de brasileiros, ela depois adotaria o Brasil”.

Cristovam Buarque

Lula, um homem comum, nada mais

Não resistem a um sopro os argumentos usados pelos que defendem Lula, quase os mesmos que há dois anos defenderam Dilma às vésperas do colapso do governo dela. Senão vejamos.

“Lula é um perseguido da Justiça”


Somente Lula? E Michel Temer, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves, Delcídio Amaral, Gleisi Hoffmann, Renan Calheiros, Romero Jucá, Marcelo Odebrecht e todos os condenados ou apenas processados pela Lava Jato e demais operações de limpeza em curso? O que são? São centenas de pessoas. E só Lula é um perseguido?

“Lula é inocente. Não encontraram um só tostão nas contas dele”

Quatro juízes, por duas vezes até aqui, já condenaram Lula por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Corrupto não é só aquele que acumula dinheiro sujo em suas contas. Ocultação de patrimônio, por exemplo, é crime que não deixa rastros em contas bancárias. Em breve, mais três juízes, dos quatro, confirmarão a sentença que condenou Lula a 12 anos e 1 mês de prisão. Ele responde a mais cinco ou seis processos.


“Lula foi condenado sem provas”

Numa democracia, cabe à Justiça julgar, goste-se disso ou não. É ela quem diz se existem provas de que alguém cometeu determinado crime. Ela disse que há provas suficientes de que Lula é um criminoso. Ponto.

“Querem impedir Lula de ser candidato porque ele lidera todas as pesquisas de intenção de voto”


O que impedirá Lula de ser candidato é uma lei aprovada por unanimidade pelo Congresso durante o seu governo, festejada à época pelo PT e sancionada sem vetos por Lula. Ela barra candidaturas de políticos ficha suja. Lula é um político ficha suja. Fazer o quê? Revogar a lei? Dizer que a lei para ele não vale por que se trata de um “homem incomum”? Onde a Constituição distingue entre homem comum e homem incomum? Foi Lula, uma vez, que classificou José Sarney como “homem incomum”.

“Lula é vítima de um golpe, assim como Dilma foi vítima de outro”

Lula é vítima dele mesmo, do que fez e do que deixou que fosse feito antes, durante e depois do seu período de oito anos de governo. Mensalão foi coisa do primeiro governo dele. Petrolão, do segundo governo. Triplex no Guarujá e sítio em Atibaia foram obras do final do segundo governo dele para usufruto dele e de sua família.

Dilma foi vítima dos erros que cometeu e que lhe custaram mais da metade do segundo mandato. Caiu porque perdeu as mínimas condições para continuar governando. Antes de o Congresso a derrubar, foi derrubada pelas multidões que ocuparam as ruas e rejeitada pela maioria esmagadora dos brasileiros. Será lembrada como a maior responsável pela mais perversa recessão econômica da história recente do país.

“Eleição sem Lula é fraude”

Não, não é. Eleição sem Lula será uma fatalidade, uma vez que ele foi condenado e tornou-se ficha suja. Se eleição sem ele fosse uma fraude, o PT não deveria participar dela para não legitimá-la, mas participará. Como participou de todas as fases do processo de impeachment de Dilma que agora chama de “golpe”.

“Se Lula for preso, será o primeiro preso político depois da ditadura de 64”

Não, não será. Será apenas mais um político preso desde o início da Lava Jato. Simples assim.

Paisagem brasileira

Paisagem de Campos do Jordão, Camargo Freire

A solução é andar para trás?

Os caminhos humanos são quase invariavelmente polêmicos, controversos, despertam discussões intermináveis, formação de grupos e correntes, tal a variedade de posições e interesses que lhes dão origem e/ou suporte. Por isso mesmo eles se perpetuam, na mesma escala de suas origens ou nascedouros. Descoberto um novo caminho, logo surgirá a alternativa – ou mais de uma, até que a realidade se incumba de demonstrar a melhor possibilidade. E, ainda assim, nem sempre prevalecerá a mais verdadeira ou viável.

Agora, por exemplo, Bruxelas, na Bélgica, decidiu oferecer transporte gratuito como forma de reduzir a circulação de veículos particulares, diminuir as emissões de carbono poluente e cumprir as regras da União Europeia sobre a qualidade do ar (Mobilize, 1.º/3). As regras parecem claras: depois de dois dias consecutivos de níveis altos de material particulado no ar (acima de 51 a 70 microgramas por metro cúbico), ônibus, metrô, VLTs terão de abrir suas portas e deixá-las completamente livres, acessíveis a qualquer pessoa, sem que nada pague, seguindo lei agora adotada pelo conselho da cidade.

Mas os carros particulares também sofrerão restrições, seus limites de velocidade serão igualmente reduzidos em cerca de um terço. Outra fonte de poluição atingida é a queima de madeira em fornos, proibida por lei (mas ainda passará por revisão judicial). Espera-se que a nova legislação passe a vigorar já no próximo verão europeu. A nova lei seria uma espécie de correção de rota de políticas anteriores, que beneficiaram os automóveis particulares durante décadas, diz Pascoal Smet, secretário de Mobilidade de Bruxelas.

“Precisamos criar espaços públicos de qualidade”, pondera o secretário. “A pesquisa mostra que, quanto mais espaço você oferece aos carros, mais carros você atrai”. E as cidades mais atraentes para os carros são também as mais congestionadas. “Já os novos fundamentos da política também partem da convicção de quem, ao dar espaço aos pedestres e ciclistas, as cidades podem criar lugares onde as pessoas se encontram e se conectam”.

Resultado de imagem para ciddes mais limpas ilustração

O propósito central dos planejadores é tentar criar “uma cidade familiar”, boa para crianças, idosos e jovens. A ideia básica, dizem eles, não é proibir carros para as cidades, “mas encontrar um novo equilíbrio”, segundo Smet. No mês passado, Bruxelas passou a delimitar as zonas de baixas emissões, com o objetivo de delas excluir progressivamente os carros mais poluidores. Esperam também os legisladores que 2030 todos os ônibus da cidade sejam eletrificados.

Um ponto de comparação poderia ser Londres, que nos primeiros meses de 2018 já atingiu o limite de poluição previsto para todo o ano – o que já faz desde 2010. Outro exemplo é Paris, que bane temporariamente metade dos seus carros para conter a poluição. A Alemanha também está propondo o transporte gratuito como forma de combater a poluição. Em São Paulo, estudos mostram que sem o metrô a poluição do ar seria 30% maior.

A convicção entre nossos governantes é de que os veículos, principalmente automóveis, são o ponto central dos problemas e dificuldades nas áreas urbanas. Pela legislação, os municípios têm prazos para apresentar seus planos de mobilidade urbana. Terão prioridade para recursos financeiros aqueles com mais de 100 mil habitantes. O cadastramento é feito pelo Ministério das Cidades.

As estatísticas sobre viagens em carros na cidade de São Paulo são impressionantes. A capital paulista é a quarta capital brasileira em número de automóveis por habitante. A pesquisa urbana já de 2012, feita pelo metrô, mostra que a “taxa de motorização da Região Metropolitana, estagnada entre 1997 e 2007, cresceu 15% entre 2007 e 2012. Dos 43,7 milhões de deslocamentos diários na Região Metropolitana de São Paulo, 28,25% são feitos com automóvel próprio, seja dirigindo ou de carona. As viagens a bordo de automóvel particular têm, em média, distância de 6,06 quilômetros na Região Metropolitana e 5,49 quilômetros na cidade. A média de tempo para cada uma é de 31 minutos.

Em 42,1% dos deslocamentos em carro próprio na cidade de São Paulo a distância entre origem e destino não ultrapassa 2,5 quilômetros; os deslocamentos entre 2,5 e 5 quilômetros representam 20,8% do total. A conclusão é de que dois terços dos deslocamentos ficam num raio de 5 quilômetros do ponto de origem.

Outros estudos mostram a área brutal necessária para estacionamento de veículos particulares durante a noite (e a ociosidade no mesmo período, incorrendo sobre números gigantescos de investimentos). Na cidade de Goiânia, por exemplo, as áreas destinadas a veículos “ocupam quase 20% das áreas totais da capital”. São quase 4,7 milhões de metros quadrados na área construída da capital de Goiás, incluindo boxes de garagens nos prédios residenciais e comerciais – ou 11,87% da área construída com estacionamentos (O Popular, 11/2).

Na capital goiana, hoje há apenas 94 quilômetros de rotas “cicláveis”, perante 6 mil quilômetros de ruas. O Plano Diretor, que está sendo atualizado, vai propor a ampliação dos corredores de transporte coletivo e a valorização de “rotas caminháveis”.

E assim se vai: o que era problema, andar a pé, com o tempo se transformou em solução, com a adoção do automóvel; o que era solução, o automóvel, virou problema, sob a forma de custos – estacionamento, combustíveis. O exercício físico – andar a pé – colide com a motorização das ruas, o risco de atropelamento, a ingestão de poluentes.

Talvez se chegue a um novo axioma: a única possibilidade é o retorno aos tempos antigos, em que o caminho seja proibir que só se implantem cidades com 5 mil pessoas, ou 10 mil ou 20 mil. E aí já não faltarão os que proponham cidades com 50 mil, ou 100 mil, ou 1 milhão, ou...

As pessoas sensíveis

Resultado de imagem para exploradores da pobreza charge
As pessoas sensíveis não são capazes 
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa

Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fantasmas

Minha tia Amália via fantasmas. Suas visões eram tão rotineiras que eu me perguntava como ela suportava a nossa vidinha materialista do arroz-com-feijão tendo aquele dom de conjugar este mundo esmagado pela concretude com um astral ilimitado.

Titia morreu solteira, embora tivesse sido alvo do amor de um careca que puxava de uma perna, usava bengala e tinha um pecado mortal: era desquitado. Quando meus tios machistas e ciumentos a surpreenderam num banco de jardim de mãos dadas com o Agenor, foi um drama. Duvidaram de sua inocência certamente abusada pelas óbvias más intenções do namorado e até mesmo sua virgindade guardada, aliás, por mais de meio século e com a qual penso que faleceu, foi motivo de preocupação.

Foi nessa ocasião freudiana que ela viu o espectro de sua mãe Jesuína (que havia morrido quando era menina e substituída por uma madrasta dominadora) e muitas almas de homens simpáticos, parecidos com o Clark Gable, seu astro de cinema favorito, que a ela suplicavam ave-marias e padre-nossos que não custam nada a ninguém.

Uma noite, quando displicentemente eu joguei minha calça curta e uma camisa em cima da cadeira no nosso quarto de dormir, ela advertiu: foi no meio de roupas assim largadas que minha mãe apareceu...Viraram a nuvem que desenhou o fantasma. Ele se aproximou de mim, deu-me um beijo na testa e sussurrou: “Eu te amo muito, minha filhinha”.

Pela primeira vez na minha vida, me dei conta da imperiosa necessidade do amor que minha tia Amália jamais vivenciou. Nem do seu namorado banido, nem de nós que dela apreendemos a lição que hoje afeta o desconcertado universo político-social brasileiro: o retorno do reprimido, a volta dos fantasmas, o retorno de atores que saíram do palco.
*

Resultado de imagem para Sanha dos governos charge

Tia Amália foi interditada. Disciplinar impulsos, restabelecer a ordem é tão arriscado quanto operar o coração. Reformas fazem parte da democracia. Intervenções são um tabu para uma elite neofascista que se pensa – haja paciência! – “aberta” e “socialista”. Intervenções podem fracassar ou serem comédias como foram as que sofreram a cidade do Rio de Janeiro de Sérgio Cabral Filho e no desonesto regime lulopetista. 

*

A cidade do Rio de Janeiro tem um fantasma: o Estado do Rio que assombra a “cidade maravilhosa”. Nenhuma coletividade urbana foi tão denegrida como esse Rio que, em 1960, deixou de ser capital do império e da República para virar cidade-Estado. E, em 1975, num gesto de vingança eleitoral, foi sem consulta pública e em pleno regime militar “fundida” ao Estado do Rio como mais uma capital, tendo a glória de desbancar uma modesta Niterói.
*

Esse é o pano de fundo da cidade que rumou para o descontrole e a intervenção. O ideal seria reformar. Mas como seguir a receita quando a cidade se descobre governada por bandidos que, ao longo de confrontos com a polícia, demonstram mais poder, inteligência (planejam absurdamente de dentro dos presídios!) e mais eficácia do que as forças da lei?

A latitude conquistada pelo crime foi tamanha que assaltos são televisionados, ultrapassando os limiares jamais discutidos, da esperteza e da malandragem tão admirados e atribuídos à identidade “carioca” conforme assinalo na minha obra.

O desequilíbrio entre ordem e desordem tem também outras causas. Como ordenar um país e uma cidade quando um ex-presidente é condenado, o governador do Rio está na cadeia para cumprir uma pena de 100 anos, o presidente em exercício e vários ministros são indiciados? Se os “de cima” roubaram e alguns só agora estão sendo presos, por que diabos eu vou seguir a dura senda da honestidade?

*

É dentro desse oceano de ausências morais que se coloca a questão não somente de restabelecer a ordem, mas de descobrir os atores que – além de alguns juízes e promotores – vão assumir a tarefa de estabelecer limites já que todos têm, como dizíamos sorrindo, “todos têm o rabo preso!”.

Como encontrar os ilibados nesse rotineiro teatro de atores que são mocinhos em público, mas com seus amigos e companheiros de partido e revolução assaltam a República em particular? E, indo além, sequestram a ética por meio de um partido que prometia “não roubar e não deixar roubar”, mas que foi a agremiação capaz do maior assalto jamais registrada à economia do Brasil?

*

É nessas circunstâncias que devemos considerar o retorno dos militares. Pois se a democracia exige tanto civilizar o capitalismo quanto as desmedidas ambições e abusos ideológicos ela não pode dispensar um segmento tão importante para a manutenção da ordem como o militar. Na difícil dinâmica democrática, cujo centro é a constante revisão de si mesma, ninguém pode ser antecipadamente demonizado. Nem todo militar é fascista, nem todo comunista é um comedor de criancinhas e nem todo esquerdista é imune a maracutaias. Sabemos como eles adoram prometer tudo para todos, fazer compadrios preferenciais com os ricos e colecionar terrenos e relógios de luxo.

PS: Essa crônica é dedicada a Fernando Gabeira, a Rubem César Fernandes e a todos os exorcistas.

quinta-feira, 8 de março de 2018

O drama é maior do que 2018

O Brasil vive um momento dramático. Os brasileiros vão às urnas em outubro esperando que o País encontre saídas reais para a crise e um novo sentido de futuro. As últimas escolhas e a composição dos últimos governos deixaram sequelas profundas que comprometeram a credibilidade da política. Hoje a crise ética é uma fratura aberta; a segurança pública, um descalabro, acossada pelo crime organizado. Parcas melhoras na economia e no emprego não alteraram esse cenário de desesperança.

Diante da confirmação da condenação de Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), que deve ceifar sua candidatura presidencial, o País tem diante de si o desafio de superar o lulismo. A corrupção sistemática que arrasou o País nos anos do lulismo abalou todo o edifício político que havia sido montado nos anos de democratização. O cenário pós-Lula deverá requisitar o concurso do conjunto da sociedade, da opinião pública, dos intelectuais, dos partidos políticos e de todos os que se possam mobilizar pela reconstrução do País.


Lula e o PT nasceram no outono do autoritarismo como peças do “sindicalismo de resultados”, com roupagem e retórica de esquerda. No governo, o lulopetismo foi uma “esquerda de resultados”, nefasta para a sociedade brasileira, em especial para os mais pobres pois os subalternizou, fixando-os em seus interesses individuais e impedindo qualquer perspectiva de elevação cultural e política que os convocasse a formular e compartilhar um projeto nacional e civilizatório. O lulopetismo foi tóxico para a democracia e a esquerda. Como escreveu Demétrio Magnoli em artigo recente, “a ‘esquerda’ lulista escolheu o capitalismo selvagem do consumo privado, do crédito popular, do cartão magnético, das Casas Bahia e do Magazine Luiza” como horizonte de satisfação hedonista das massas. A pragmática petista contou, das origens até agora, com a anuência da “esquerda maximalista” que soldava apoios ao “grande líder” quando julgava necessário e conveniente. Papel desempenhado também pelos intelectuais das universidades públicas. Foi assim que o lulopetismo condenou o Brasil a não ver realizada a social-democracia ou o reformismo que poderiam instaurar um novo cenário histórico no País. Em nome do mito e servindo-se dele, o PT bloqueou a afirmação de uma esquerda democrática, defensora das reformas e aberta ao novo.

No Brasil de hoje, as ruas, que foram essenciais em 2013 e no impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, esmoreceram, mas não se despreocuparam. Como se sabia, seria ilusão esperar delas uma saída clara para a crise em que o País mergulhou. Sem conseguir estancar a crise ética, o governo Temer não produziu a expectativa positiva que se esperava, mesmo com uma oposição fraca e prisioneira do lulismo. A política, que havia revivescido, acabou por não se consolidar. Resultado: o drama se instalou, com uma sociedade órfã sem poder confiar no governo ou na oposição.

A expectativa voltou-se para as dimensões externas à política, notadamente para a Operação Lava Jato, que cumpria exemplarmente seu papel republicano e constitucional. Desorientada, a opinião pública passou a admitir saídas ilusórias e despropositadas. Alguns continuaram a ver nas ruas, via democracia direta, a alternativa a esse estado de desorientação. Outros concluíram que decisivo seria “dar o poder” aos “homens de toga”, como substitutos da má política. Embalados pela ânsia de poder, outros ainda viram nas eleições presidenciais de 2018 a salvação mediante apoio a algum outsider, uma sedução pelo transformismo que não faria mais que prolongar nossa agonia; por sorte, parece que essa febre está cedendo.

Mesmo nesse cenário parece haver alguma oxigenação no protagonismo dos chamados “movimentos cívicos” que clamam por renovação da política. Indiscutivelmente positivos, seu exclusivismo e seu finalismo eleitoral merecem, contudo, preocupação, bem como requerem uma checagem do seu real tamanho e sua incidência. Se é preciso evitar o “populismo” como alternativa, também é justo preocupar-se com o que os italianos chamam de qualunquismo, isto é, uma política sem organicidade, que se esgota na identidade do homem comum e das coisas simples, pois sabemos que a política é complexa e exige muito mais do que isso.

Fará bem ao País uma coalizão de forças que se expresse em ideias claras, equipando a sociedade e o Estado para enfrentarem os problemas que derivam da grande transformação advinda da revolução tecnológica em curso. O Brasil tem todas as credenciais para proporcionar a seus cidadãos uma vida digna no momento em que vai completar 200 anos de existência como país independente.

É, certamente, uma batalha dramática e exigente, considerando todos os desafios que temos pela frente, cujo inimigo maior são as promessas, imprudentes e perigosas, que comprometem os horizontes fiscais da República, além de escamotearem, com políticas econômicas dignas de desenhos autárquicos do passado, os equívocos trágicos que a História, mesmo a mais recente, nos tem ensinado.

Não há razão para desejar partir do zero e tampouco há razão para descrer dos brasileiros de bem que construíram, mesmo contraditoriamente, um País cheio de vitalidade e que, transformado, será um excelente lugar para viver. É preciso extrair do esforço democrático de luta dos brasileiros um amplo programa de reformas que deverá, sem as falsas promessas e ilusões da demagogia e da antipolítica, pôr o País para andar. Não surgirá nada de novo nesta quadra se nossos propósitos não visarem uma atualização verdadeira e realista. As ideias-chave para tanto são a valorização do trabalho, da ética e da República, estímulo à inovação e ao crescimento econômico, visão social consonante com o mundo em transformação, democracia e novo reformismo. Com as pessoas no centro das nossas preocupações e dos nossos horizontes

Alberto Aggio

Imagem do Dia

amazing treehouse in base of tree

A jogada de marketing de Temer

Há três semanas, a imprensa brasileira não conhece outra pauta que não seja a intervenção no Rio de Janeiro. E conforme dito pelo próprio presidente Michel Temer, a ofensiva na segurança pública acabou sendo uma "jogada de mestre". Já são três semanas nas quais não imperam mais as notícias sobre os escândalos de corrupção do governo de Temer e do seu partido, o MDB.

Resultado de imagem para intervenção no rio e temer charge
E prontamente brotou no até então impopular presidente a esperança de conseguir alcançar um resultado respeitável nas eleições de outubro. Seu plano de deixar de impor reformas impopulares como a da Previdência em detrimento de temas mais populares, como a segurança pública, parece trazer resultados. De acordo com pesquisas, mais de 80% da população são favoráveis à intervenção.

Temer não pode ser acusado por sua guinada de 180 graus. Afinal, faz parte do repertório da política se abster de reformas impopulares nos meses que antecedem as eleições e mudar para temas populares. No caso de Temer é intrigante, pois até então pouco lhe importavam seus índices de popularidade. E sim, ele até mesmo gostava dos baixos índices – pois, segundo declaração própria, lhe davam carta branca para promover reformas impopulares, mas necessárias.

Mas este não é mais o caso. Já seriam 149 as iniciativas suspensas, incluindo a tão necessária reforma da Previdência. Porque, enquanto uma intervenção federal estiver ativa em um estado, a Constituição brasileira não pode sofrer alterações. A intervenção no Rio de Janeiro deve ocorrer até final de dezembro e, desta forma, não serão mais adotadas reformas pelo governo Temer. Ele deve ter um apreço muito especial pela segurança no Rio de Janeiro, para condenar o Brasil inteiro à paralisação reformista.

No entanto, mesmo três semanas após o início da intervenção, ainda parece não haver um plano claro. O que exatamente devem fazer as unidades estacionadas desde julho no Rio de Janeiro? Onde e quando elas devem ser usadas, e como serão integrados a elas os moradores das favelas? Pode-se ter a impressão de que a intervenção foi anunciada às pressas, sem que houvesse conceito algum. Política profissional parece ser algo bem diferente.

Mas o Rio de Janeiro já vivenciou muitas vezes tais situações em sua história. A reportagem da DW Brasil "Exército no Rio: 25 anos de fracassos" enumera os momentos em que os militares foram convocados para ajudar em meio à crescente violência. E sempre com resultados decepcionantes.

O que não é de se estranhar. Basta abrir livros de história para notar que as questões sociais, incluindo a violência, sempre foram respondidas somente com a mão pesada da repressão. Quase não houve melhorias sociais. E é por isso que, mesmo 130 anos após o fim da escravidão no Brasil, muitos descendentes dos outrora libertados escravos ainda precisam viver nas mesmas circunstâncias precárias. Como uma sociedade pode querer resolver problemas sociais sem uma política social sustentável?

A corrupção dentro da polícia também precisaria finalmente ser abordada. Algo que não ocorrerá no curto prazo, ou seja, até 31 de dezembro, a data do fim da intervenção federal. O tema segurança pública dominará as eleições em outubro, e se Temer conseguir controlar a violência no Rio de Janeiro com a ajuda dos militares, será recompensado nas urnas.

Mas será que a intervenção trará melhorias duradouras, que irão além de 31 de dezembro? A experiência diz que tudo deve ficar na mesmice. A operação do Exército no último fim de semana, na Vila Kennedy, foi emblemática. Depois que centenas de soldados retiraram os bloqueios erguidos pelos narcotraficantes nas vias de acesso à favela no sábado, os militares se retiraram satisfeitos no domingo. Na segunda-feira, os criminosos já haviam reerguido todas as barreiras.

Thomas Milz

Apenas uma máscara

Alguns homens anseiam pela revolução, mas quando você se revolta e constitui seu novo governo você descobre que o seu novo governo é ainda o velho papai de sempre, tendo colocado apenas uma nova máscara de papelão
Charles Bukowski

Como a qualquer cidadão

Num teatro de sombras e interesses, Lula reconheceu as habilidades Michel Temer. Para o ex-presidente, o atual soube se proteger de um golpe — como se estivesse acima de qualquer suspeita (entrevista que concedeu à Mônica Bergamo está aqui). Talvez, Lula meça Temer com sua régua, mas o fato é que ninguém está isento de ser investigado, se houver indícios para isto.

Nos últimos dias, porém, dois fatos sincronizados complicaram a situação do presidente, retirando-lhe a aura de exímio equilibrista que lhe é atribuída. Primeiro, frustrou-se a operação em que o ex-diretor-geral da PF, Fernando Segovia, insinuava arquivar os processos contra o presidente. Depois, os efeitos da intervenção barra forçada no RJ parecem, até aqui, pouco significativos para a diminuição de sua rejeição. Temer voltou a estar vulnerável.

Sem manobras e sem perspectiva de continuidade no poder, haverá inevitavelmente um amanhã; o dia seguinte, que, sem blindagem, sem mandato e sem foro especial, Michel Temer terá mesmo que se submeter à Justiça de primeira instância, muito menos tolerante do que têm sido alguns dos ministros dos Tribunais Superiores. Sua cama, ao que parece, está sendo preparada.


No interior do processo de frustração aos planos de Temer, encontra-se Luís Roberto Barroso. O ministro do STF tem sido implacável nos embates com seus colegas refratários a investigar autoridades com foro privilegiado. Mas, também na condução, como juiz, de processos que envolvam essas autoridades.

Foi nessa condição que, ao puxar as orelhas de Segovia, impediu a trama carnavalesca do arquivamento. É assim, agora, ao definir a quebra de sigilo bancário do presidente e indicar que não haverá condescendência na instrução de um processo que deve seguir para além do mandato.

Não entro em e nem cabem a mim questões jurídicas que não domino. Não sei se Barroso age nos limites da lei e do direito. Deixo aos especialistas verdadeiros ou aos pretensos que façam essa discussão. O fato é que Barroso é hoje, o maior antagonista de Temer e dos ''com foro''. É ainda pedra no sapato que mais incomoda e não permite a grande pizza ''com Supremo, com tudo'', que Romero Jucá proclamou certa feita.

É da lavra Barroso uma das frases que, politicamente, melhor cabem à crônica destes dias: “eu via as malas, eu vi os dinheiros, eu vi a corridinha”, disse no plenário do STF. Ficará para a história, citada ao longo do tempo. E todo viram: são imagens que refutam argumentos que buscam impedir, pelo menos, a investigação dos maleiros e de suas conexões políticas e pessoais.

Imagens que aconselham apurar indícios, dúvidas e suspeitas. Claro, sem prejulgar. Como qualquer cidadão, Michel Temer merece investigação criteriosa, julgamento justo — se a ele for levado. Se é fato que não se pode afirmar que o presidente está envolvido com lambanças atribuídas a pessoas de seu grupo e confiança, tampouco se pode afirmar que não esteja.

Qualquer sujeito intelectualmente honesto sabe disto: ao presidente, não cabem privilégios que desmoralizem a política e a democracia. Como a qualquer cidadão. Até por questão de Justiça e igualdade — uniformidade de critérios, pelo menos —, considerações a respeito da governabilidade não cabem agora, como não couberam para o caso de Dilma Rousseff.

Ao embrenhar-se na defesa de Temer, talvez em causa própria, Lula se precipita como seu advogado político. Elevando-o à condição de vítima de um golpe, vislumbra o quê, um pacto? Ora, também viu ''as malas, os dinheiros, a corridinha”, embora pareça ter-se esquecido, por conveniência.

Analistas políticos dominam umas poucas ferramentas de análise: compreensão lógica de fatos e personagens; uns conceitos. Contudo, a coerência é matéria que vem do caráter: o que se exigiu em relação a Dilma, o que se defende em relação a Lula, deve servir, do mesmo modo, a Michel Temer. Como a qualquer cidadão, mesmo para quem não seja um cidadão qualquer.

Carlos Melo 

País rico

Brasil ganhou mais de cinco mil milionários em 2017 Número de clientes com mais de R$ 1 milhão investidos chega a 117.421, alta de 4,8% (Chamada de capa de O GLOBO)

Resultado de imagem para brasil rico charge 

 Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba.

Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico...

Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.

Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:

- Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?

O governo responde:

- Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.

E o Brasil é um país rico, muito rico...

As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não têm cavalos, etc., etc.

- Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?

O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:

- Não há verba; o governo não tem dinheiro.

- E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.

O Brasil é um país rico...

Lima Barreto

Gente fora do mapa

BURMA-10564_0
Burma, Steve McCurry

Quem foi que disse que o Haiti é aqui?

Não resta dúvida nenhuma de que a adoção do tema da segurança pública como prioridade absoluta do governo federal tem o objetivo de resgatar Temer do fundo do fosso da impopularidade e alçá-lo, se não à eventualidade de uma muito improvável reeleição, pelo menos à de cabo eleitoral com um mínimo de dignidade. Toda polêmica a respeito começou a ser dissolvida quando seu marqueteiro pessoal, Elsinho Mouco, e o especialista em pesquisas Antonio Lavareda contaram à repórter Andrea Sadi, da GloboNews, que a ofensiva contra a violência no Rio serviria para “capitalizá-lo politicamente”.

Logo depois, entrevista do primeiro ao articulista Bernardo Mello Franco, do Globo, não apenas confirmou, como cercou o objetivo de base e premissas indiscutíveis. Os desmentidos posteriores apenas confirmaram que o eco do óbvio ululante (apud Nelson Rodrigues) reverbera até tornar o truísmo ilusório uma verdade indiscutível. A leitura da nota oficial do chefe, feita pelo porta-voz, oportunamente chamado de Parola (palavra em italiano), vai além da confirmação de que palavras têm poder, no caso dos sobrenomes de Mouco e Lavareda, a surdez que queima e não ilumina. Todos os pronunciamentos oficiais e oficiosos a respeito da pendenga deixam claro que o chefe dos oráculos não ficou satisfeito com a revelação de seu segredo de Polichinelo, mas a autoria assumida pelo inconfidente só compromete ainda mais seu “sincericídio”. Afinal, a loquacidade inoportuna dos paus-mandados não foi punida com afastamento nem com alerta de desconfiança. A questão que resta a decidir é se o plano revelado vai, ou não, ser confirmado em pesquisas e urnas.

Resultado de imagem para intervenção no rio e temer charge
Para que esse objetivo seja ao menos avaliado convém, antes, passar pela confirmação dos fatos. Os índices de criminalidade deixarão de tornar insuportável a vida das vítimas pacíficas e honestas da insegurança pública vigente a tempo de produzir efeitos no apoio e na preferência eleitoral da cidadania? Tempo não faltará, previu Mouco a Mello Franco.

O problema do prazo agora é mais crucial do que nas experiências anteriores. Na Eco-92, nos Jogos Pan-Americanos de 2013, no Mundial da Fifa de 2014 e na Olimpíada de 2016, o pacto de convivência pacífica entre a autoridade e chefões das quadrilhas teve duração determinada e curta. A expressão “férias para bandidos” não foi criada pela imprensa insubmissa nem pela oposição acuada, mas pelo desde então comandante das forças de ocupação do Rio, o comuno-democrata Raul Jungmann. O prazo atual de dez meses é longo demais para um negócio arriscado e disputado como o é o mercado de entorpecentes sustentado pelo contrabando de armas. Como uma indústria dessas resistiria a folga tão dilatada?

O compromisso de agora não admite pausa para ir ali e voltar já. Agora é pra valer. É entrar na área e ocupá-la sem pensar em deixar os guerreiros dos dois lados tirarem a sesta. A intervenção na Segurança do Rio, com a conveniência de deixar o companheiro Pezão, do MDB, agindo na continuação do desmanche da gestão estadual e das finanças públicas, não pode ser comparada à “ajuda humanitária” no distante e ínfimo Haiti, ministrada longe da vigilância da imprensa, da impertinência do Ministério Público e da atenção do juizado federal de primeira instância. Nenhuma dessas instituições cruzará os braços para o arbítrio ou para a mortandade.

Os invasores do espaço urbano carioca, egressos de quartéis, onde são mantidos longe da realidade e protegidos da lei dos civis por sua Justiça peculiar, começaram a pressentir os efeitos dessa diferença. Os comandantes do Exército pediram à Justiça civil mandados coletivos de busca e apreensão, depois que seu batedor no campo minado das notícias percebeu que exigir capturas seria demais. O presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio, Milton Fernandes de Souza, negou-as. Outras idas e vindas do gênero ocorrerão.

O sucesso da iniciativa dependerá de fatos alheios ao decreto assinado por Temer. A farda de camuflagem e as regrinhas primárias de convívio com os meios de comunicação com que o general Braga Netto tentou emular o comunicador da ditadura Rubem Ludwig não bastarão para convencer as pessoas submetidas às normas de identificação nas comunidades pobres de que seu desconforto será compensado com segurança. O vício do cachimbo entorta a boca e elas sabem que, quando o poder público as relega à desgraça, são socorridas pelos traficantes.

Cada um sabe onde lhe dói o calo e o desprezo do ministro da Segurança, gerado numa costela da Justiça, pela classe média contrasta com a discriminação escravocrata de quem não submeteu a elite branca da zona sul a métodos para restringir o ir e vir de pobres, pretos e pardos, ninguém sabe se inimigos ou protegidos. Como na Kasbah de Argel, de onde rebeldes saíram para expulsar os franceses, que torturaram quem os derrotaria.

O interventor tenta impor moral de piadas de caserna para domesticar os repórteres escalados para sua primeira entrevista. Mas não conseguiu transformar suas prédicas de ordem unida em notícias de interesse geral. Os R$ 42 bilhões em cinco anos, a perder de vista, bastarão para reequipar as polícias de todos os Estados brasileiros? O que o Exército fará para pôr fim à corrupção policial, sem mudar comandantes e delegados? Como enfrentar as relações íntimas entre crime e corrupção, se o capataz do chefão do “quadrilhão” do MDB do Rio continua no comando, prestigiando o encarregado dos presídios onde o poderoso Cabral vivia em conforto de fazer inveja a don Pablo Escobar? Quem o interventor escolherá para dar à família enlutada a notícia da morte do primeiro combatente inocente baleado por algum criminoso para quem a vida nada vale?

Segundo Samuel Johnson, o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Quando se perceberá que a ilusão é o primeiro pretexto dos oportunistas?

Para além do dinheiro

Os juízes federais anunciam uma greve no dia 15 de março. De um modo geral, apoio os magistrados e os procuradores na sua luta contra a corrupção.

Conseguiram avançar muito nesse campo. Muito mais do que nós, que tentamos a mesma tarefa na política e acabamos neutralizados pela aliança transpartidária dos bandidos.

Conseguiram avançar muito nesse campo. Muito mais do que nós, que tentamos a mesma tarefa na política e acabamos neutralizados pela aliança transpartidária dos bandidos.

Essa história do auxílio-moradia, no entanto, não é facilmente defensável. O auxílio-moradia é definido para os que não têm casa nos lugares para onde são deslocados.


Conheci juízes em Rondônia que viajam quilômetros, fazem audiências em igrejas e dormem em redes. Um dos meus projetos de programa é viajar com eles e mostrar o que acontece num lugar remoto, quando a Justiça chega e começa a funcionar.

Esta menção é apenas para ressaltar o nível de desprendimento e idealismo que encontro em muitos deles, alguns ameaçados de morte.

Compreendo que o salário não satisfaz, não foi aumentado como se prometeu. No entanto, o caminho de supri-lo com o artifício de uma gambiarra é um equívoco.

A sociedade não aceita a insistência que pode colocar em risco a própria luta contra a corrupção, pois abre uma brecha na valiosa qualidade que é a coerência.

O Brasil vive momentos típicos de nossa cultura avessa à precaução. Discutia-se até aqui a reforma da Previdência, até que a segurança pública caiu na nossa cabeça.

Não tenho dúvidas de que, adiante, a Previdência Social cairá também na nossa cabeça. Nesse momento, certamente não só a Justiça e as próprias Forças Armadas como parte do funcionalismo público serão chamadas a colaborar, adaptando-se ao inevitável esforço nacional.

Não há dúvida que existem riscos nesse processo. Um deles é o deslocamento de bons profissionais para a iniciativa privada. Mas o que fazer? O Estado não pode competir com ela, exceto com um salário digno e a recompensa simbólica de estar servindo ao povo brasileiro.

Não acredito na eficácia de uma greve de juízes, embora seja, indiscutivelmente, legal. Na verdade, creio que abre um flanco para os adversários entrarem em cena, pois vivemos num país em que existe um grande esforço mental para justificar a corrupção, seja desqualificando juízes e procuradores, seja através da acrobacia mental dos que tudo perdoam a quem está do mesmo lado.

Não somente Lula, mas muitos intelectuais afirmam que Sergio Moro é um agente dos Estados Unidos incumbido de entregar o nosso petróleo.

Não comento frases de Lula, pois há muito defendi um habeas língua para ele. No entanto, este é um movimento tradicional da esquerda brasileira, o de fugir de seus erros e apontar para um inimigo externo.

Costumo citar um jornal comunista na Bahia que escreveu isso depois de um choque entre manifestantes e polícia, durante a II Guerra: “Zeca Patriota espancado a mando de Truman”.

Um tríplex no Guarujá pode ser tedioso. Mas ganha uma nova dimensão quando banhado à luz da política internacional, como um instrumento de agressão do império.

Infelizmente, a maioria dos políticos teme ou detesta os juízes. Não há uma boa interlocução. No entanto, um desfecho razoável para esse episódio é essencial, não só como problema salarial de uma categoria. Ele tem o potencial de estremecer a forte aliança renovadora inaugurada com a Lava-Jato.

Troco extratos do Temer pelos do coronel Lima

Na noite de segunda-feira, ao saber que o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, mandara quebrar o sigilo de suas contas bancárias, Michel Temer reagiu com destemor. Mandou dizer que ele próprio entregaria os extratos à imprensa. Antes que os jornalistas pudessem apalpar os dados de Temer, auxiliares do presidente já o aconselham a moderar sua coragem. Ah, a coragem! Estranha qualidade que costuma fugir justamente nos momentos de maior apavoramento.

Informou-se que Temer requisitaria as informações de suas contas correntes ao Banco Central. O BC, obviamente, não armazena dados de correntistas. Em casos de quebra judicial de sigilo, o órgão é acionado apenas para avisar aos bancos que devem providenciar as informações. Temer dispõe de dois caminhos mais simples: pode copiar os extratos na internet ou pedir aos gerentes de suas agências.

Nas palavras do advogado de Temer, Antonio Mariz, “está havendo uma verdadeira devassa na vida do presidente da República.” Ele pergunta: “Por que está se fazendo isso com Michel Temer?'' Cabe mesmo perguntar: Por quê? De minha parte, aguardo com alguma ansiedade os dados bancários de Temer. Mas receio que eles sejam menos elucidativos do que os extratos dos amigos do presidente. Gente como o coronel aposentado João Baptista Lima.

Conhecido como um faz-tudo de Temer, o coronel Lima não se dispôs a abrir os seus extratos à imprensa. Seu sigilo também foi quebrado judicialmente. Diz-se que Temer está irritado. Estranho! Deveria estar felicíssimo com a perspectiva de receber um atestado de honestidade com o carimbo do Supremo Tribunal Federal.

Paisagem brasileira

Fotografia ganhadora na categoria: Long Exposition. Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, Brasil.
Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO),  Márcio Cabral - Prêmio  International Landscape Photographer of the Year 017.

Os escravos do tempo

A palavra “propaganda” tem mau nome. Difícil discordar. O século 20 não foi um passeio no parque. E o totalitarismo provocou milhões de cadáveres tendo na propaganda um aliado mortal. Verdade: se entendermos por propaganda o uso da arte para veicular ideias religiosas, políticas ou sociais, grande parte da história da arte é um exercício contínuo de propaganda. Mesmo a máxima “a arte pela arte” é uma posição política, ou então apolítica, que não atraiçoa o proselitismo original.

Mas a “propaganda” que conta é outra: o uso da arte, sim, para disseminar ideologias de dominação. E, nesse quesito, como esquecer a Alemanha nazista ou a União Soviética comunista?

Na Alemanha, a propaganda do Reich fez-se a dois tempos: por um lado, destruindo a “decadência” modernista e a sua mensagem de “degeneração” e “negritude”; por outro, promovendo uma arte capaz de exortar o valor da raça ariana –forte, sadia, superior– como se vê nas pinturas de Adolf Ziegler.

Na União Soviética, não foi diferente: o “realismo socialista” passou a dogma em 1934. A “função” da arte era indistinta da mensagem do Partido: o líder passou a figurar em público na sua monumentalidade esmagadora — e o povo, agente revolucionário por definição, era retratado como a força vital da nação rumo a um progresso glorioso.

Ilustração João Pereira Coutinho

O nazismo jaz no caixote do lixo da história. O comunismo, tirando dois ou três estados-zombies, também. Mas a propaganda está de volta: se o tribalismo político regressou ao mundo dos vivos, a sua estética preferida não poderia ser deixada de lado.

Semanas atrás, o historiador português Rui Ramos escreveu no site Observador que, nos prêmios das diferentes indústrias, ninguém discutia a “qualidade” dos produtos. O que interessava era saber se os filmes ou as músicas obedeciam a critérios de “representatividade”.

Por outras palavras: mais importante do que saber se o filme X valia como obra cinematográfica era saber qual o sexo do diretor Y ou a etnia do ator Z. Concordo com o meu ilustre compatriota. Basta olhar em volta para perceber que as preocupações estéticas deram lugar à retórica repugnante da ideologia.

No New York Times, Lindy West é apenas um exemplo da corrupção em curso: em texto que faria as delícias de um tirano, a sra. West proclamava que a queda dos “homens maus” na indústria de cinema já não era suficiente.

Agora, era preciso enterrar de vez os “filmes maus”. E o que são os “filmes maus”? Precisamente: obras que não se ajustam a ideias preconcebidas de raça, sexualidade ou justiça social. Joseph Goebbels não diria melhor. Mas Lindy West não é caso único. A revista The New Yorker, que está francamente insuportável, perguntava nas vésperas do Oscar quantos filmes seriam aprovados pelo “Teste Bechdel”.

Segundo esse teste, existem três questões fundamentais que devem ser formuladas sobre qualquer filme: a) existem duas (ou mais) personagens femininas com direito a nome próprio?; b) essas personagens falam uma com a outra?; c) em caso afirmativo, será que as personagens femininas falam sobre assuntos que não incluam “o homem”?

Para a revista, “Lady Bird”, “The Post” e “Corra!” passam no teste. “A Forma da Água”, “Dunkirk” e “O Destino de uma Nação” fracassam miseravelmente.

Grande parte da cultura popular é uma forma tosca de propaganda. O livro, o filme ou a peça de teatro já não obedecem a critérios estéticos ou intelectuais do criador. As obras ajustam-se a uma cartilha tão autoritária, atrasada e brega como as propagandas do passado.

Sim, não temos denúncias de “negritude”, “bolchevismo cultural” ou “decadência burguesa”. Mas, no seu lugar, surgem os pecados do “machismo”, da “heteronormatividade” ou da “misoginia”. O fim é o mesmo: a abolição da liberdade individual pelo fanatismo da tribo. Perante isto, a pergunta leninista: o que fazer?

Pessoalmente, tentar remar contra os novos bárbaros –ou, inversamente, pensar e criar como se eles não existissem. É a única forma de proteger a integridade da arte.

Até porque há uma lição consoladora na história da propaganda: os bárbaros acreditam que têm o “espírito do tempo” do seu lado. Fatalmente, quando lemos os seus nomes em livros esquecidos, nenhum deles legou uma obra que mereça dois segundos de atenção.

Faz sentido: quem é escravo do tempo morre com o tempo.