segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Avançar para trás

Regras eleitorais perfeitas são raríssimas ou simplesmente utópicas. Isso vale para todas as partes do mundo. No Brasil, elas são perversas: parecem servir apenas para perpetuar oligarquias, inibir a participação popular e a renovação.

Cada vez que se mexe nas normas, consegue-se piorá-las.

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O exemplo mais recente disso é a fixação de limites para autofinanciamento de campanhas, generoso benefício dado pelo TSE aos candidatos mais ricos. A questão ainda deverá passar por um novo escrutínio na própria Corte, que tem até o dia 5 de março para publicar as regras de 2018, e no STF, em resposta às ações impetradas pelo PSB e Rede.

Juntam-se à essa estranheza o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, criação do Congresso que estreia este ano com R$ 1,7 bilhão, e o Fundo Partidário, já existente e agora autorizado pelo TSE para compor o caixa dos candidatos. Somados, os dois fundos vão propiciar uma farra de R$ 2,58 bilhões, dinheiro de todos os brasileiros que pagam impostos.

Com eles, o eleitor estará bancando, indiscriminadamente, campanhas de todos os candidatos, inclusive daqueles aos quais se opõe. Nos fundos, direitistas ferrenhos pagam por petistas ou pelo PSOL, a esquerda e o centro financiam Jair Bolsonaro.

Defensores do mecanismo chamam isso de democracia, embora fique anos-luz de distância dela.

Não há nada de democrático na decisão de distribuir recursos com critérios de proporcionalidade definidos pelos parlamentares durante seus mandatos, com usufruto direto do sistema que criaram. Mais: no modelo nacional, não há qualquer vinculo com o número de filiados da legenda.

Partidos políticos, organizações de direito privado e seus candidatos deveriam ser custeados de forma voluntária, por aqueles que comungam ideários.

No máximo, com participação pública vinculada não apenas ao tamanho da representação parlamentar, mas às contribuições individuais de seus militantes. É o que se vê, por exemplo, na Alemanha, que nos anos eleitorais coloca 30 centavos para cada euro doado permanentemente por filiados.

Há outros modelos. Na França, o financiamento público cobre gastos já realizados, após apresentação de notas e, ainda assim, em volumes muito inferiores aos que o Brasil adotou. No total, o estado francês gastou R$ 314 milhões no último pleito, oito vezes menos do que a previsão de financiamento brasileiro.

Por aqui, o eleitor, contribuinte compulsório dos fundos públicos, não teve a chance de aprovar ou reprovar as novas regras. A ele nada foi facultado, nem mesmo o voto, que, contra a sua vontade, continua obrigatório.

É vitima da inadimplência dos políticos, que se esmeram em avançar para trás.
Mary Zaidan

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Só o instinto nos salva

A ideia é aterradora e absurda, mas, no momento, tudo indica que o Brasil está perdendo a capacidade de equacionar seus problemas de maneira racional e civilizada, pela via da política. Nessa marcha, só o instinto de sobrevivência nos salvará.

No falatório sobre a intervenção, sobre as candidaturas presidenciais, sobre o funcionamento das instituições, o tom predominante é um desânimo furibundo, e até mais que isso, uma vontade meio doida de achar uma solução fácil, rápida e definitiva, ainda que o preço seja a quebra da ordem civil. No limite, é como se todos quisessem que metade (sua metade) da população matasse a outra, presumindo que a metade sobrante se dedicaria sinceramente à realização dos valores que elegeu como os mais altos. Isso vem por todos os lados, não é privilégio de nenhum partido ou grupo ideológico.

E o pior, infelizmente, é que por trás dessa fumaça realmente há muito fogo. Tal desorientação não chega a surpreender, pois estamos mal e mal saindo da pior recessão de nossa História e tomando consciência da metástase de corrupção que se difundiu por quase todo o sistema institucional do País. Dispenso-me de elaborar este ponto, limitando-me a observar que o cartel das empreiteiras botou no bolso praticamente toda a estrutura partidária de que dispúnhamos: quatro ou cinco organizações com algum potencial e umas trinta obviamente inúteis. Hoje vemos esvair-se até aquele elementar sentimento de lealdade sem o qual a vida interna de um partido se torna inviável. Na mais alta Corte de Justiça do País, salta aos olhos que alguns juízes trabalham sorrateiramente para livrar o sr. Luiz Inácio Lula da Silva, um corrupto notório, já sentenciado a 12 anos e um mês de prisão. No Senado e na Câmara, só quem mantém as estatísticas em dia sabe quantos parlamentares estão indiciados, acusados ou já na condição de réus.


A intervenção federal no sistema de segurança do Rio de Janeiro pôs em alto-relevo a questão da corrupção nos corpos militares e policiais, que inclui a entrega de armas potentes ao narcotráfico e à bandidagem em geral. Noves fora, então, a ressalva que se há de fazer diz respeito à competência e à seriedade da equipe econômica, da equipe liderada pelo juiz Sergio Moro e pela Polícia Federal, graças às quais o País não descarrilou por completo.

No culto da irracionalidade, a esquerda ganha por duas cabeças. Na questão da intervenção no Rio de Janeiro, por exemplo, ela aposta no fracasso com base em seus tradicionais cálculos eleitorais, ou num requintado cinismo, “esquecendo”, por exemplo, no tocante à concessão de mandados coletivos, as posições que a ex-presidente Dilma Rousseff defendeu em 2016. Não só a esquerda, mas ampla parcela do Congresso recusou-se a aprovar a reforma da Previdência, embora consciente da precariedade fiscal em que nos encontramos e de que o sistema brasileiro de seguridade é campeão mundial em transferir renda dos pobres para os ricos.

Não me sinto no direito de aborrecer os leitores me estendendo sobre a deterioração em que se encontra nossa capacidade de conduzir racional e civilizadamente as operações de governo, mas há uma questão mais ampla, que transcende todas as já mencionadas, para a qual me vejo obrigado a chamar a atenção. Refiro-me ao médio prazo, ou seja, ao futuro de nosso país dentro de uma ou duas décadas. Nessa referência de tempo, se não recuperarmos a capacidade de raciocinar e colaborar, realmente, só o instinto de sobrevivência nos salva.

O quadro que me esforcei por esboçar é em si mesmo sinistro, mas é brincadeira de criança se o colocarmos num horizonte de 20 anos. Já me referi outras vezes a esse ponto e temo ter de voltar a ele muitas vezes nos próximos meses, ainda mais em se tratando de um ano eleitoral. A incapacidade da política acarreta uma progressiva liquefação do próprio Estado. O País perde sua stateness, ou seja, a presença efetiva da máquina de governo. Ninguém ignora que diversas áreas do Rio de Janeiro já há muito tempo se tornaram inacessíveis à autoridade pública. O que muitos talvez não saibam é que os Correios já não entregam correspondência em quase metade dos endereços da Cidade Maravilhosa. Refiro-me a ela porque é lá que a perda da “estatalidade” se tornou mais perceptível, mas em maior ou menor grau o processo se manifesta no País inteiro. Com um fator agravante: temos agora um vizinho, a Venezuela, onde o Estado atingiu um estágio avançado de putrefação, forçando centenas de milhares de cidadãos a buscarem refúgio em Roraima.

Com a contração causada pela recessão engendrada pelo lulopetismo, nossa renda anual por habitante deve ser atualmente metade da correspondente à Grécia e bem inferior à de Portugal. Se, recuperando a economia, lograrmos crescer 3% ao ano, o que não é trivial, precisaremos de mais de 20 anos para alcançar os dois países citados, e lá chegaremos com uma distribuição de renda muito pior, com uma situação educacional claramente inferior, com as condições de saneamento que conhecemos e possivelmente com índices ainda muito mais altos de violência. Isso significa que o debate público dos últimos anos nem sequer arranhou a superfície dos verdadeiros problemas, que são a velocidade do crescimento e a profundidade das reformas de que necessitamos.

Escusado dizer que não me estou referindo à antiga ladainha do “governo forte”, pedra de toque da retórica fascista, que por aqui vicejou vigorosamente à época da ditadura getulista. Refiro-me ao óbvio: o imperativo de quebrar a resistência dos grupos corporativos e encetar um esforço reformista muito maior. As reformas virão, de um jeito ou de outro: pelo caminho mais ou menos civilizado da política ou por sucessivas ondas de anarquia e violência.

Palco do Paraíso

Supercoitados, não super-heróis

Encorajado pelas críticas negativas que o filme mais recente de Alexander Payne recebeu depois de sua apresentação no festival de Veneza, decidi vê-lo. Até então, Pequena Grande Vida já era um fracasso total. Tanto que, na Espanha, os distribuidores mudaram o título original, Downsizing, para Una Vida a lo Grande (“uma vida em grande estilo”), na vã tentativa de transmitir essa megalomania que agrada mais do que o reconhecimento de nossa pequenez. Por aí segue o mundo, pessoas que se sentem melhores quando sabem que o outro está pior, caolhos reinando entre cegos. Payne é um dos melhores diretores de nossa época, e o engrandece ter cometido o fracasso vocacional que é seu último filme.

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Cena do filme com Matt Damon

Nele, um casal de norte-americanos médios decide diminuir de tamanho para fazer parte dessas novas comunidades liliputianas que resolvem problemas econômicos e ambientais, com base nas descobertas científicas de alguns noruegueses. Mas, em vez de ilustrar os superpoderes usuais que o cinema concede a seus protagonistas, neste caso os submete ao reconhecimento de seus infrapoderes. Desta forma, trata-se de uma história em quadrinhos de supercoitados, e não de super-heróis.

O filme não só é protagonizado por atores feios e vulgares, como também aqueles que não o são precisam se esforçar para parecer feios. É surpreendente ver uma estrela de Hollywood como Matt Damon adotar as condições de um personagem flácido, calvo e tonto sem o afinco irônico habitual em tais casos, mas com naturalidade. Mas é ainda mais surpreendente vê-lo mostrar uma cena de amor clássica enquanto acaricia o coto de uma imigrante ilegal vietnamita, escandalosa, baixinha e orelhuda. Diante da beleza plastificada e do falso romance, tal dose de realismo sem álibi sujo conduz, inexoravelmente, ao fracasso comercial. O filme pode não conseguir encadear sua tese para uma visualização memorável, mas os fluidos de corrosão merecem algo mais que o desprezo em um panorama de nula capacidade de análise.

Encolher-se não resolve os problemas deste personagem central em crise de identidade, que retrata o cidadão médio de hoje, náufrago entre ideais de autoajuda, seduzido por líderes inúteis e vítima dos farsantes vendedores de tônicos capilares transformados em gestores, videntes e gurus. É triste descobrir que não precisamos de um processo de encolhimento, porque já estamos encolhidos. Talvez não sejamos tanto a espécie escolhida, como temos ouvido, mas a espécie encolhida, vulgar, covarde e grosseira que vê inimigos em cada vislumbre de liberdade alheia. Entende-se que um filme tão desconfortável não atraia o público e que ninguém cometa a ousadia de recomendá-lo. Nem pensem em vê-lo.

A 'sabedoria' política

É reduzido o número daqueles que vêem com os seus próprios olhos e sentem com o próprio coração. Mas da sua força dependerá que os homens tendam ou não a cair no estado amorfo para onde parece caminhar hoje uma multidão cega.
Eleições 2010. Turismo Sexual 
Quem dera que os povos vissem a tempo, quanto terão de sacrificar da sua liberdade para escapar à luta de todos contra todos! A força da consciência e do espírito internacional demonstrou ser demasiado fraca. Apresenta-se agora superficialmente enfraquecida para consentir a formação de pactos com os mais perigosos inimigos da civilização. Existe, assim, uma espécie de compromisso, criminoso para a Humanidade, embora o considerem como sabedoria política.
Albert Einstein, "Como Vejo o Mundo"

Virada de Temer: de tocador de reformas a 'Cabo Tenório'

Coragem. Vocação. Talento. Caráter. Sorte… É cada vez mais evidente, e a brusca guinada de rumo do governo do PMDB, – com a intervenção e a escolha de um general de quatro estrelas para mandar no Rio de Janeiro, seguida da mudança de direção do debate nacional –, só acrescenta novos sinais de que o habitante atual do Jaburu é carente até do cacoete de estadista. O parâmetro do jornalista para a avaliação é o dos cinco primeiros mandamentos do referencial Decálogo de Ulysses Guimarães.


Assim, não surpreende a virada de Michel Temer. Abriu mão de seu propalado projeto prioritário na política, gestão e marketing, de “audaz reformista” – ao ver-se ameaçado de sofrer fragorosa derrota na Câmara, em eventual votação de seu plano mais ambicioso, a Reforma da Previdência. O que causa espanto – em face do imponderável que está a caminho, depois da intervenção, aprovada docilmente pela Câmara e pelo Senado – é ele ter jogado tudo para o alto, para virar, no começo de ano eleitoral, uma espécie de “Cabo Tenório” – o maior inspetor de quarteirão, do famoso forró de Jackson do Pandeiro.

No baú da memória, a lembrança que mais dói está em anos loucos, no Uruguai, modelo de democracia na América do Sul, por onde andei, por quase duas décadas, quando trabalhei no Jornal do Brasil. Da primeira vez, com o advogado Pedro Milton de Brito, ex-presidente da seccional baiana da Ordem dos Advogados do Brasil, ex-conselheiro federal da OAB, inimigo temido e irreconciliável de corruptos e corruptores (encastelados no poder público ou no setor privado). Saudosa e exemplar figura de defensor das liberdades e dos direitos humanos na Bahia e no País.

Ninguém me contou, estive lá, eu vi. Repito, a exemplo de Sebastião Nery, na apresentação do livro que publica o Decálogo do Estadista. Em um desses períodos cruciais da vida do continente, quem governava o Uruguai era Juan Maria Bordaberry, descendente basco-francês , eleito democraticamente, em 1972. Mas, cúmplice e voluntariamente (a pretexto de enfrentar uma crise econômica e manter o mando político), negociou espaços para a “aliança de poder cívico-militar”, como se dizia então.

Não descerei a detalhes sobre o desastre. Só relembro que os militares mantiveram nas sombras o presidente, durante a mal camuflada instalação de um dos mais violentos e perversos regimes já vividos na bacia do Rio da Prata. Resumo do forró: depois de insucessos, desencontros e atropelos, – os militares decidiram destituir o “rancheiro” do governo de fachada e trocaram-no por outro civil, Alberto Demicheli, enquanto a “Suíça da América Latina” seguiu afundando. A democracia voltou ao Uruguai em 1985. Em 2006, Bordaberry foi condenado a 30 anos de prisão. Morreu pouco depois, em casa, em Montevidéu, aos 83 anos, cumprindo prisão domiciliar.

Isso nada tem a ver com a intervenção no Rio, nem com o mandatário brasileiro, dirão alguns. Mesmo que Temer já participe de reunião de comandos militares no Ministério da Defesa, em Brasília. E que Mauro Lopes, o segundo de Braga Neto na ocupação, já seja manchete de jornal, chamado de “um general com a faca nos dentes”. É preciso desenhar?

Vitor Hugo Soares

Imagem do Dia

Grand Canyon (EUA)

Intervenção parcial

A intervenção federal no Rio foi feita por um governo impopular. E feita apenas parcialmente. Deveria ser completa.

Não creio que seja o caso de defendê-la diante das teorias conspiratórias, de esquerda ou direita, que veem nela uma espécie de ataque ao seu projeto eleitoral. É inevitável que as pessoas fixadas na luta pelo poder interpretem tudo, mesmo um fato dessa dimensão social, como simples contador de votos.

A intervenção está aí. O governo é impopular, mas o instrumento é o Exército, com grande credibilidade. Se escolher atos espetaculares para tirar Temer do sufoco vai afundar com ele.

Logo, a primeira e modesta tese: o norte é a prática militar, com preparo e meios materiais necessários, e não o oportunismo político. Se prevalecer a superficialidade do governo, a batalha será perdida.

A intervenção tem de saber o que quer, para definir a hora de acabar. Isso não se define com uma data rígida no calendário, mas com a realização da tarefa: estabilizar a situação do Rio para que a polícia tome conta depois de reestruturada. É isso que fazem as intervenções, mesmo num país como o Haiti.

Para reestruturar a polícia é preciso contar com a parte ainda não corrompida e pagar todos os salários em dia.

A maioria parece apoiar a intervenção. É fundamental respeitar a população, conquistar corações e mentes. Nesse sentido, foi um grande passo civilizatório o vídeo de três jovens orientando os negros a evitar a violência policial e a se defender, legalmente, dela. Está na rede. É um texto que deveria ser levado em conta, pois revela como as pessoas de bem se comportam nessa emergência.

Circulou uma notícia de que as favelas ocupadas por traficantes armados seriam considerados territórios hostis. É um equívoco, creio eu. As favelas são territórios amigos, ocupados por forças hostis. Parece um jogo de palavras, mas é uma diferença que implica em táticas e estratégias diversas.

A quarta modesta tese: como não foi realizada a intervenção completa, a Lava-Jato poderia avançar nos processos contra os políticos. Seria a maneira de combinar um ataque ao crime organizado em seus diferentes universos. Creio que fortaleceria o trabalho da intervenção.

Finalmente, algo que me parece também decisivo. Quem acha que é a única saída do momento, apesar de sua fragilidade, precisa ajudar.

O que significa ajudar? A sociedade já se move de muitas formas, inclusive, na internet, colaborando com aplicativos como Onde Tem Tiroteio, Fogo Cruzado e dezenas de outras iniciativas.

Isso vai depender também da intervenção. Se a visão for de aglutinar o esforço social, o general Braga precisa apresentar as linhas gerais de seu plano. Delas podem surgir uma indicação de como ajudar.

Compreendo que a esquerda diga que a violência foi superestimada pela mídia. O próprio general Braga derrapou no primeiro momento, ao afirmar que é muita mídia.

Ele tem razão, de certa forma. Sou um velho jornalista. No século passado, as notícias eram produzidas apenas por profissionais. Hoje, não: a estrutura industrial ampliou seu alcance diante de milhares de colaboradores filmando tudo. Quem filma os tiroteios no morro? E os assaltantes que tentam enforcar uma velha? Não são repórteres. Nenhum dos atos violentos foi desmentido. Não houve fake news, uma vez que caindo no circuito industrial os dados foram checados.

Não se trata, portanto, apenas de muita mídia. São muitos fatos. De qualquer forma, ganhariam as redes sociais.

É com eles que vamos. Ou não vamos.

Não chore, denuncie!

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Há quem morra chorando pelos pobres. Morro denunciando a pobreza
Bernard Shaw

Sem um projeto de Nação

Ex-presidente do TSE, o ministro Dias Toffoli aproveitou ontem um debate na Escola de Direito de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas, para lembrar que os partidos hoje se escoram em nomes para a Presidência da República e não em um projeto para o País. “Hoje está uma tremenda dificuldade de entender quem é quem. Hoje, qual o projeto do PT, do DEM, do PSDB?”, indagou o ministro.

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De fato, a sete meses e poucos dias para a eleição, não se conhece um projeto de governo de nenhum dos nomes que se apresentaram até agora como pré-candidatos. Em alguns partidos, como o PT, o projeto parece ser o próprio candidato, o ex-presidente Lula. Uma proposta defeituosa do ponto de vista legal. Por enquanto, o que ele tem dito é que não acatará a decisão judicial que o condenou a 12 anos e 1 mês de prisão e o tornou inelegível, pois cadastrado na Lei da Ficha Limpa. E, quando em algum discurso se refere a um possível quase impossível governo, limita-se a prometer que fará mais do que já fez.

Do mesmo modo, não se vê no que diz o segundo colocado nas pesquisas, o deputado Jair Bolsonaro, algo que possa ser definido como um projeto para o Brasil, que englobe educação, saúde, transportes públicos, crescimento econômico, geração de empregos. O discurso fica limitado ao combate à criminalidade, sem dizer como será, a não ser insinuações de que bandido bom é bandido morto. Não há sinais de que as raízes do problema serão atacadas. Nada. É muito pouco para quem tem conseguido avançar sobre as ideias da juventude desiludida e sem emprego.

O governador Geraldo Alckmin é outro que também não apresentou ainda um projeto para o País. Diz ser a favor das privatizações, que é desenvolvimentista e que não ficará apenas grudado às questões fiscais. Mas cadê o projeto para a educação, para a assistência à saúde, que deveria, pela Constituição, ser universalizada, uma proposta da qual Alckmin participou como constituinte, para os transportes públicos, para a segurança?

Henrique Meirelles, do PSD, e Rodrigo Maia, do DEM, que também se apresentaram para o jogo político, por enquanto estão presos às questões fiscalistas. Marina Silva, da Rede, e Ciro Gomes, do PDT, que esperam herdar parte dos votos de Lula, também estão devendo o projeto para a Nação.

Quanto ao presidente Michel Temer, que numa entrevista à Rádio Bandeirantes, ontem, disse que não será candidato, será razoável que seu governo se encerre tendo por base a intervenção no Rio de Janeiro? É provável que ele ache que sim, porque enquanto a ação durar não se pode fazer nenhuma reforma constitucional. Portanto, a reforma da Previdência ficou para trás. E a chamada “Agenda 15”, que manteria a linha das reformas sem mexer na Constituição, talvez seja atropelada pela campanha eleitoral.

Além da falta de projetos para a Nação, o que torna DEM, PSDB e PT semelhantes, nas palavras do ministro Dias Toffoli, o País sente falta de lideranças novas. Os que se propõem a disputar a eleição presidencial são todos velhos conhecidos do eleitor. Uns, pelo número de disputas ao Planalto; outros, como Bolsonaro, por ocuparem cargos eletivos há duas décadas.

Alguns preveem que sem Lula o índice de abstenção nas eleições de outubro será muito elevado. Talvez um dos motivos para a abstenção, se houver, seja mesmo a ausência de Lula. Mas não é só ela. A falta do projeto de Nação, as velhas caras conhecidas, a desesperança quanto à situação do País, tudo isso pode fazer com que parte do eleitor fique longe das urnas.

Sem alternativas, a razão pode levar o cidadão a exercer o seu direito de dizer não. Mesmo que o protesto seja silencioso, baseado no absenteísmo.

Dose pra cavalo

Dia desses, por acaso, recordei a pitoresca notícia envolvendo a prisão de Faceiro (foto) – até onde entendi, por suspeita de crime de dano. Segundo consta, o dito cujo teria danificado um veículo… a coice! Sim, trata-se de um cavalo.

Seu dono explicou que, após uma vaquejada, algumas pessoas pediram para dar uma volta com o Faceiro. “Não vi problema em emprestar. Um rapaz saiu para dar uma volta e o cavalo se assustou e deu um coice”, que atingiu um veículo.

“Em seguida”, acrescentou, “um policial pegou o cavalo e o levou para a delegacia. Quando eu cheguei ele estava em uma cela, como se fosse um marginal. Estava sem comida, sem água e em um espaço onde não podia se mexer. A noite eu levei comida, mas na segunda de manhã não me deixaram alimentá-lo”. Concluiu declarando que irá ressarcir o dano causado.

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Pedi a opinião de um amigo, que trabalha com funilaria, sobre a quanto montaria o dano. Chegamos a um valor médio de R$ 500. Mas sejamos rigorosos, e dupliquemos este valor – que seja de R$ 1.000 o prejuízo. Foi por conta deste valor que Faceiro passou a noite preso em uma cela.

Li que o Brasil perde, a cada ano, nada menos que R$ 82 bilhões por conta da corrupção – ou 82 milhões de vezes o prejuízo causado pelo intrépido Faceiro. Por conta do que fez, este impetuoso equino acabou em uma prisão. Enquanto isso, o Secretário de Cooperação Internacional da Procuradoria-Geral da República declarou que “se você comparar os números de êxito em ações contra a corrupção nos últimos 30 anos, vai ver que elas resultaram em nada em termos de punição de qualquer tipo, por mais provas que houvesse. E também resultaram em nada em termos de recuperação de dinheiro desviado”.

Faceiro, pobre que é, não teve direito à preservação de sua imagem: foi filmado e fotografado à vontade dentro da delegacia – assim como milhões de criminosos pertencentes às camadas mais baixas da população, invariavelmente “apresentados ao público” em constrangedoras – e ilegais – “cerimônias”. Em contraste, não me recordo de vexame similar imposto aos refinados – e poucos – cavalheiros surpreendidos assaltando o erário. Estes tem todos os seus direitos religiosamente respeitados.

Console-se, Faceiro! Naquela cela que o acolheu não foi enterrada somente a sua dignidade – a do nosso país foi junto…

Pedro Valls Feu Rosa

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Começar é preciso

É fato testado, comprovado (e lamentado) que nenhum dos governos desde a reinstituição do poder civil no país enfrentou a questão da segurança pública. Por motivos variados: covardia, indiferença, cálculo político e, no caso das autoridades oriundas da esquerda, constrangimento para o exercício do uso da força do Estado contra o crime. Princípio equivocado de rejeição a qualquer tipo de repressão.

Uma visão herdada da ditadura. Obviamente torta, pois não leva em conta que a defesa da liberdade e dos direitos do cidadão implica a preservação da ordem como fator essencial da garantia de ir e vir sem o risco permanente e iminente de morrer. Tal inépcia nos levou ao descalabro atual.

O caos é nacional, mas o Rio de Janeiro viveu peculiaridades. Entre elas, a mais grave foi o acolhimento da bandidagem como parte do cenário de glamour e maravilha da cidade. Conto duas histórias que vi de perto: uma na década dos 90, a outra anos antes de consolidada a redemocratização no Brasil, em 1985. Nenhuma delas de violência pessoal, embora ambas conceitualmente violentas do ponto de vista geral.

Em 31 de dezembro de 1985, o traficante José Carlos dos Reis Encina (chamado “Escadinha”) foi resgatado do presídio da Ilha Grande por comparsas num helicóptero. Na hora, a fuga foi celebrada com aplausos e muito regozijo na redação do Jornal do Brasil, composta na quase totalidade do “pessoal Zona Sul”, os descolados, como um grande feito. A polícia, naquela concepção, era o inimigo a ser combatido e, como foi o caso, ludibriado.

A comemoração assustava a quem não concordava e, por isso, era classificado como “de direita”. Aos de “esquerda” parecia normal, tanto que “Chileno”, pai do bandido Escadinha, era, em 1986, festejado cabo eleitoral do então candidato ao governo do Rio Fernando Gabeira, hoje uma das cabeças mais lúcidas sobre o Brasil e suas novas circunstâncias; tanto que saiu do PT ainda no primeiro governo, quando Luiz Inácio da Silva estava no auge.

Mais de uma década depois, já no governo Fernando Henrique, numa conversa com o general Alberto Cardoso, ele, então chefe do Gabinete de Segurança da Presidência, alertou sobre a existência de “territórios dominados” pelo tráfico no Rio. Isso há quase vinte anos.

Publiquei a conversa com o general, e o mundo caiu. Marcello Alencar reagiu indignado, exigiu do presidente uma atitude, e o general me ligou constrangido: “Mantenho o que disse, mas vou precisar desmentir por exigência do governador”.

Forçado pela circunstância do cargo, o general desmentiu, e a vida prosseguiu. Levou-nos, rendidos, ao lugar de reféns da bandidagem em que hoje nos encontramos. Ambiente do qual qualquer candidato(a) a presidente na próxima eleição está obrigado(a) desde já a dizer como pretende nos livrar. De modo rápido e de maneira nada rasteira, a fim de nos assegurar uma necessária e indispensável consistência no ato coletivo de resistência.

Gente fora do mapa

Hoi An ~ Visiter en 1 jour

Entre sem bater

Passada uma semana da intervenção militar para combater “o crime organizado e as quadrilhas de drogas” no Rio, podemos ter ao menos uma certeza: o preço da “mercadoria”, por mais escassa, deve ter aumentado.

Aparentemente, para decisão tão urgente, o planejamento ainda está em planejamento, os mandatos de busca e apreensão estão entre coletivos e individuais, o interventor militar em função civil nomeará outro general para a secretaria de segurança e promete falar à imprensa oportunamente.

As razões da intervenção: combater a violência derivada do tráfico de drogas, em que, na disputa por “share” de mercado, traficantes matam traficantes e milicianos matam milicianos e impõem o terror nas comunidades? Ou combater o tráfico de drogas, policiando fronteiras, mapeando a rede de distribuição e implodindo os baronatos da contravenção?


Há tempos, dá-se destaque apenas à terrível guerra de traficantes por participação no mercado. Talvez a coisa se resolvesse aí, com todas as facções canibalizadas umas pelas outras até que não sobrasse um soldado do tráfico. Mas não é assim: derruba-se uma facção e logo vem outra tomar o atraente cartório.

E porque atraente? Pelo risco emocionante de morrer em confronto? Pela exibição orgulhosa do poderio de armas? Pela capacidade de aliciar poderosos, eleger uma “bancada” da bala e ainda impressionar umas “mina”? Por ser rendoso e rentável a ponto de compensar qualquer sacrifício?

Pouco se fala desse mercado tão atraente a ponto de ser disputado numa guerra sem tréguas, com comandos dados inclusive de dentro de presídios de segurança máxima. Um mercado tão rico a ponto de atrair até comandantes de quartel, policiais e políticos para a promiscuidade do crime organizado e desorganizado em que não se sabe quem é polícia e quem é bandido.

Uma pequena empresária carioca acaba de pôr a pontinha do dedo na ferida: “no Rio, polícia cheira, madame cheira, empresário cheira, jogador cheira, bandido cheira, bacana cheira” e, pelo visto, quer continuar a cheirar em paz. Nenhum deles sobe o mato ou o morro para comprar. O “mato ou morro” é a guerra das quadrilhas.

O problema talvez não esteja na favela e nos mandatos coletivos de busca e apreensão. Apreensiva, ela se arrisca a dizer que quem patrocina a violência no Rio é o “narizinho nervoso”, a ponta compradora do mercado. E indaga se a intervenção não será apenas “pra galerinha descoladex da zona Sul ficar na brisa, sentar as venta na branquinha”, que deve andar agora mais rara e mais cara...

A empresária apenas não faz a pergunta óbvia: quanto se economizaria em vidas, armamentos, batalhões, intervenções, inteligência, planejamento e novos Ministérios, se a droga fosse legalizada. Em vez de subsidiar o crime, cobrando altíssimo preço da sociedade que acaba pagando pela farra de alguns, o Estado ainda poderia faturar um troco como já faz com a bebida, o cigarro e o jogo. E ainda criar uma Brás para empregar gente, angariar voto e tirar um “por fora”.

O Governo suspeito de Michel Temer

Todo governante é suspeito — e deve ser. Mas Michel Temer é provavelmente o mais suspeito dos presidentes a comandar o Palácio do Planalto desde a redemocratização. E deve ser. Temer assumiu o comando do país em clima de “estancar a sangria” provocada pela revolucionária Operação Lava Jato e, desde então, as lâminas das guilhotinas morais do Ministério Público enferrujaram e descem fazendo mais barulho do que estrago. “É o golpe”, grita a parte da plateia que ignora que o Governo Dilma Rousseff acabou bem antes de terminar, pelas próprias trapalhadas — ou seria antes mesmo de começar, quando fraudou dados públicos para se eleger?

A golpes de mestre, o petismo vai conduzindo com a habitual competência, num último suspiro, sua orquestra de artistas amestrados. Como convencer a audiência de que um condenado é ainda mais inocente do que ele próprio se imagina? Talvez se ele fingir que quer concorrer à presidência… Nesse caso, a condenação não lhe tiraria apenas mais um de seus valorosos direitos constitucionais, mas furtaria ao povo a possibilidade de julgar seu benfeitor nas urnas. É como se o ex-presidente Lula perdesse o pênalti e o juiz mandasse voltar a cobrança para uma nova chance, como ocorreu, no fim do ano, na ópera do malandro com arranjos de Chico Buarque naquele latifúndio que era a lateral esquerda desprotegida do time de veteranos do MST — haja bola nas costas!

Enquanto isso, o Governo Temer seguia tropeçando nas próprias pernas a cada ato. Em qualquer outro governo, a escolha de uma mulher para comandar a Procuradoria Geral da República pela primeira vez seria cantada em prosa e verso pela intelectualidade nacional. Mas Raquel Dodge não era o primeiro nome da lista tríplice… Meses depois de escolhida, chegou a vez de a suspeita procuradora-geral suspeitar do presidente, que só poderia ter decretado seu benevolente indulto de Natal para livrar seus amigos da cadeia.

Pois, pasme, há quem enxergue nessa medida o grande ato progressista do Governo Temer — e, se é progressista, é bom, certo? O generoso indulto serviria para desafogar o abarrotado sistema carcerário nacional, causa aparente da expansão de facções criminosas pelo país. Ainda que essa interpretação fosse uma mentira, seria uma mentira bem agradável, daquelas capazes de eleger presidentes da República. Não adianta tentar explicar depois, porque o Supremo Tribunal Federal logo suspendeu os efeitos mais ousados do decreto, mas talvez tivesse adiantado explicar antes.

A falta de prática, no palco, de um político de bastidores parece ser responsável até pela escrita torta do presidente por linhas certas. A inflação caiu, assim como os juros, enquanto o PIB sobe aos poucos. Tudo graças a medidas como o teto de gastos, que expôs o limite do que o país tem para gastar, e a tímida reforma trabalhista, entre outros pequenos ajustes. Tudo feito para prejudicar o trabalhador brasileiro, claro, assim como a reforma da Previdência viria para exterminar os aposentados. O que mais esperar de um Governo que admite que cobra lealdade dos governadores após alardear que os beneficiou?

A sinceridade desengonçada do ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Marun (MDB-MS), gerou indignação dos “governadores do Nordeste”, que aparecem sempre que é preciso defender o Nordeste – ou atacar seus adversários políticos. Marun negou que estivesse chantageando os colegas em nome da reforma da Previdência, mas você ficaria com o ex-escudeiro do saudoso Eduardo Cunha ou preferiria se indignar, ainda que sem muita convicção, ao lado dos “governadores do Nordeste”? A narrativa, a fake news, a pós-verdade, como quiser, está do lado de quem?

Acuado e suspeito desde o início, Temer apostou na economia como plataforma política, e quase chegou lá. Conseguiu até quebrar a resistência geral em relação à reforma da Previdência, que se metamorfoseou de punição aos pobres para medida de combate à desigualdade — se é progressista, é bom, certo? Mas o esforço de meses parece não ter sido o bastante para levar a reforma a cabo. Que tal, então, resolver o problema da segurança no Brasil? Parece uma boa ideia. É pelo o que clama não apenas a população do Rio de Janeiro, que vai receber uma ajudinha do Governo federal.

Demorou, mas Temer parece ter encontrado uma pauta na qual mesmo os desconfiados querem confiar. Com relutância, claro, porque o Governo segue sendo suspeito. Todo mundo sabe que é um truque, mas bem que poderia dar certo… Só se fala na intervenção federal e, diante do caos que tumultua a capital fluminense, fazer qualquer coisa parece melhor do que não fazer nada. É uma ótima história, daquelas capazes de eleger um presidente… Agora, só falta resolver o problema da segurança no Brasil. Ou pelo menos convencer o público de que resolveu.

Dureza, general

Nos ombros do general Walter Souza Braga Netto repousa a mais espinhosa tarefa da presente quadra: dar um mínimo de consistência a uma megaoperação de marketing. Se havia alguma dúvida sobre a alma marqueteira da intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, foi dissolvida pelas descaradas declarações do próprio marqueteiro de Temer, Elsinho Mouco, ao colunista Bernardo Mello Franco, de O Globo: “Viramos a agenda. (…) Hoje a maior preocupação do brasileiro é com a segurança pública (…). O Temer jogou todas as fichas na intervenção (…). Ele já é candidato”. Pode parecer muita ousadia a candidatura de alguém com pouco mais de zero de aprovação popular e rodeado pela imagem de malas de dinheiro nas mãos ou no apartamento de alguns de seus mais próximos amigos. Mas por que não se as pesquisas apontam para um primeiro lugar vago, um segundo com proposta de voltar trinta anos no relógio da história e um terceiro disputado por um aglomerado de liliputianos ciscando em torno de migalhas?

O general Braga pouco falou na cerimônia em que foi anunciada a intervenção. Astro da festa foi o ministro da Defesa, Raul Jungmann, secundado pelo ministro da Segurança Institucional da Presidência, general Etchegoyen. O general Braga era antes uma vítima da situação. Acabara de lhe cair nas mãos uma operação para a qual as únicas preparações foram uma reunião do presidente com os ministros de sua cozinha e outra com os marqueteiros. O silêncio lhe mascarava a perplexidade. Nos dias seguintes o silêncio perdurou, e com isso abriu-­se um fio de esperança. O general Braga faz seu serviço calado. É o oposto do loquaz ministro Jungmann. Raiou a esperança de a intervenção marqueteira quem sabe transubstanciar-se em resultados substantivos.

A intervenção põe muita pedra no caminho de um oficial levado a um rumo com o qual não sonhou

Tanques e uniformes verde-oliva nas ruas não são novidade para os cariocas. Sem falar do recurso ao Exército na Olimpíada e em outros grandes eventos, está em curso desde julho uma operação que, segundo o ministro Jungmann, teria vindo para “golpear o crime”. (Decorridos sete meses, ainda não golpeou.) O que se espera de uma intervenção no governo estadual vai muito além. Ela não se completará sem: (1) uma devassa nas polícias do Rio, alguns de cujos comandos, segundo o ministro da Justiça, Torquato Jardim, são cúmplices do crime organizado; (2) igual devassa na administração dos presídios, onde os chefes do tráfico gozam de respaldo e conforto para expedir ordens; e (3) com a ajuda das unidades de fronteira do Exército e da Polícia Federal, conseguir controlar o abundante afluxo de armas e drogas ao estado.

Contra o bom êxito da intervenção tem-se a evidência de que transferir o problema para a esfera federal não é panaceia. Exército e Polícia Federal são os responsáveis pela vigilância das fronteiras, e elas seguem porosas como sempre. Na questão dos presídios, duvida-se de algum progresso quando se lembra que até hoje não se conseguiu nem mesmo barrar a entrada de celulares. Temos ainda a escassez de recursos, que não é só do Rio, mas também do governo federal, para sustentar a intervenção. Quem vai pagar o quê, e como, era uma questão em aberto desde o anúncio da medida. Leve-se em conta, por fim, que o estado segue entregue ao sistema Sérgio Cabral, o príncipe da ladroagem, ora representado pelo triste Pezão. Para ser exitosa, faltará ainda à missão do general Braga imunizar-se contra os efeitos perniciosos irradiados da vasta parte da administração fora de seu controle. É muita pedra no caminho do nosso general calado, desviado numa esquina da vida para um rumo com o qual não sonhou. Dura será sua vida.

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Com a legenda “Militares inspecionam mochilas de alunos em operação em favela na Zona Norte do Rio”, a foto na primeira página da Folha de S.Paulo da quarta-feira 21, publicada na página 54 desta edição de VEJA, exibia em primeiro plano o cano do fuzil pendente do ombro de um soldado, visto de costas, e, ao lado, de frente para a câmera, uma bonita garotinha, negra, gordinha, de uniforme azul e branco, expressão séria e grandes olhos entre indagadores e amedrontados voltados para o soldado. Imagine-se cena similar com uma menina branca, os mesmos olhos indagadores e amedrontados, o mesmo soldado, o mesmo fuzil, numa escola do Leblon. A menção a “mandado coletivo de busca e apreensão” teria chance de causar comoção. Imaginem-se o leitor e a leitora por um momento na pele dos pais da garotinha da foto. Pensemos na garotinha, que teria 5 ou 6 anos.
Pensemos nas mochilas sendo reviradas.

Imagem do Dia

Huanglong‎ (China) 

Prisões em massa, o moto das facções que afetam a vida de metade dos brasileiros

Chacinas nas ruas e massacres em presídios motivados por brigas entre facções criminosas rivais já se tornaram rotina no Brasil. Pelo segundo ano consecutivo o país vive um mês de janeiro sangrento com as tradicionais imagens de corpos mutilados, manchas de sangue no chão e parentes desesperados em busca de informações. Ano passado ocorreu no Amazonas, Roraima, Rio Grande do Norte e Acre. Este ano Goiás e Ceará foram palco da violência. Como é de praxe, nestas horas as autoridades anunciam pacotes de medidas emergenciais tais como envio de tropas federais, construção de presídios e endurecimento das penas e da repressão ao tráfico de drogas. Mas especialistas ouvidos pelo EL PAÍS apontam que algumas destas supostas soluções são, na verdade, parte do problema. Proibição das drogas, encarceramento em massa e o tratamento desumano dentro do cárcere são justamente alguns dos fatores que levaram ao crescimento exponencial e à nacionalização do crime organizado no país. Pior: traçam um cenário sombrio no qual só a reversão dessas medidas, algo que não parece estar no horizonte nem no médio prazo no país, poderiam mitigar o problema.

É uma má notícia para quase metade dos brasileiros que têm a percepção de viver em áreas sob influência das facções criminosas. Segundo levantamento nacional do Fórum Brasileiro de Segurança Pública feita pelo Instituto Datafolha em agosto passado, 23% dos entrevistados consideram que é alta a chance de que o crime organizado ou facção atue em sua vizinhança. Outros 26% responderam que a chance é média. Fenômeno antes restrito principalmente a São Paulo e Rio de Janeiro, hoje as facções estão presentes dentro e fora dos presídios de todos os Estados – com conexões internacionais nos principais países produtores de cocaína da América do Sul.

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“É preciso rever a política de guerra às drogas, que não deu certo em lugar nenhum do mundo”, diz Camila Dias, socióloga da Universidade Federal do ABC e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP. “É difícil, quando vemos estas cenas de violência, tentar lidar com isso dizendo que é preciso romper com a política de encarceramento em massa e combate às drogas. Mas se você olhar para as ultimas duas décadas, foram justamente estes dois fatores que provocaram esta crise”.

O fracasso da guerra às drogas no Brasil é constatado até mesmo por quem atua dentro do Estado: “A guerra às drogas é perdida, irracional”, afirmou o ex-secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro José Maria Beltrame em 2015. Enquanto muitos países começam a flexibilizar sua política de repressão e permitir o uso recreativo de algumas drogas leves, como é o caso da maconha nos Estados Unidos, o Brasil continua seguindo a mesma política de enfrentamento adotada nos anos de 1960. Aqui, a chamada guerra às drogas começou em 1961, antes mesmo do então presidente dos EUA Ronald Reagan ir à TV em 1986 com seu famoso discurso anti-drogas. “Houve uma convenção no Rio para discutir drogas e uso de tóxicos. E o que se seguiu foi um progressivo endurecimento das leis e ai o combate deslanchou. À partir daí tudo piorou”, afirma Michel Misse, professor titular de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e fundador do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana.

Mesmo no período democrático a legislação manteve o viés de enfrentamento. A lei de drogas sancionada pelo então presidente Lula em 2006 endureceu a pena para o pequeno traficante sob o verniz de fazer a distinção entre usuários e traficantes. Na prática, o local de residência da pessoa detida pela polícia continua sendo o parâmetro usado pela polícia e pelo Judiciário para distinguir o primeiro do segundo. “Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente”, diz o artigo 27 da lei. “Como a lei não especifica a partir de qual quantidade de posse você é traficante ou usuário acaba ficando a critério dos agentes públicos”, afirma Misse.

O professor defende a legalização das drogas como única solução possível para romper o ciclo de violência. “Ela [a legalização] é estratégica, não só para o funcionamento da Justiça e para a pacificação das relação sociais. Mas na América Latina é possível dizer que o Estado de Direito depende disso. Isso é ponto pacífico, é consenso na academia”, afirma Misse. Ele, no entanto, é pessimista quanto à possibilidade da legalização avançar no Brasil, seja via poder Legislativo seja via Supremo Tribunal Federal. “Somos um país conservador. Veja o tempo que demorou para aprovarmos uma lei do divórcio! [a lei do divórcio brasileira é de 1977]”. O STF chegou a discutir a descriminalização da maconha, mas a votação foi suspensa em agosto de 2017 após o falecido ministro Teori Zavascki pedir mais tempo para analisar o tema. O placar estava 3 a 0 para a descriminalização.

Inversão de valores e empobrecimento do país

Finalmente, o Carnaval 2018 foi encerrado no dia 18 de fevereiro, apresentando vantagens e desvantagens em relação ao lazer, ao turismo, à economia, à segurança pública, à imagem do país no exterior e ao fomento de celebridades do show business. Uma investigação sobre isso pode contribuir para explicar o Brasil quanto ao senso estético, à corpolatria, às relações de gênero, às artes plásticas, ao uso do espaço público, ao apoio do Estado aos eventos populares, ao sentido de celebrações profanas, a metas individuais e coletivas, permitindo decifrar nossa singularidade na comunidade internacional.

Identificamos muitas diferenças, ao longo do tempo, quanto às fantasias, à formação de blocos e à agregação dos foliões em universo anônimo permeado por prazer, crítica política e recursos inebriantes. Algumas têm sido lamentáveis pela queda da qualidade da música e adesão dos jovens a propostas grotescas para a linguagem, as atitudes, o futuro do país e o bem-estar social. A terra de figuras magníficas nas composições e no canto em muitas situações – Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Cartola, Nara Leão, Ângela Maria, Gonzaguinha, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, João Gilberto, Almir Sater e Ney Matogrosso – produz agora ritmos esdrúxulos com letras deploráveis pelo incentivo à violência, ao sexo irresponsável e sem poesia, à depreciação da mulher e à afronta às instituições. Estas são indispensáveis para garantir o compartilhamento de extenso território sem carnificina e com busca incessante de liberdade, conforto, diálogo e soberania nacional.

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Lideranças políticas e teóricos de diferentes matizes têm pregado, entretanto, o confronto que vem aflorando em diferentes pontos do país, sendo o mais visível o controle dos bandidos sobre a Cidade Maravilhosa. Isso seria pelo nivelamento por baixo, expropriando as classes privilegiadas de seu patrimônio, enquanto se fortalecem as camadas populares. Daí, o incentivo de péssima produção do lazer para os jovens, com financiamento público e cumplicidade da mídia que não preza a qualidade de sua programação. A indução ao consumo dos novos “artistas” fica muito fácil porque os estudantes têm frequentado uma escola sem compromisso com a instrução, que sustentou a formação de várias gerações de brasileiros, até alguns anos atrás.

A desigualdade social é nosso grande problema, desde a colonização, e precisa ser superada com ascensão de todos via educação plena e qualificação profissional; jamais no sentido inverso. Os brasileiros merecem inserção na sociedade moderna, porque o país não pode ficar em patamares tão ridículos de desenvolvimento socioeconômico, em que o cidadão não conquista sua autonomia, ficando à mercê de demagogos e de assistencialismo governamental. Para tanto, é indispensável que o Estado elabore um planejamento estratégico que reverta a depreciação por que passam as diferentes instituições, oferecendo oportunidades verdadeiras para o estudo, o trabalho e a soberania nas eleições.

A desonra do mérito

Desde criança me acostumei a ver sobre a mesa de professores, funcionários, juízes, advogados, uma plaquinha de madeira com “Honra ao Mérito” escrito em letras douradas, prateadas ou pintadas à mão. Bem na frente da mesa, era como uma legenda sobre quem estava atrás, um ícone de cafonice, equivalente ao pinguim de geladeira e ao quadro da Santa Ceia na sala.

Cafona, sim, mas 50 anos depois, verdadeiro e urgente. Honrar o mérito é do que mais precisamos, para enfrentar o empreguismo, o aparelhamento partidário, as indicações políticas e todas as formas de favorecimento que degradaram a administração pública, as estatais e quebraram seus fundos de pensão. Esquerda, direita e centro não podem negar: sem meritocracia, não há democracia plena.

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Mas como falar de uma competição equilibrada, por méritos, entre pessoas que tiveram oportunidade, dinheiro, tempo para estudar em boas escolas, e os pobres, pretos e malformados pela maioria das péssimas escolas públicas brasileiras? Assim, as Ferraris sempre chegarão antes das bicicletas e dos jegues, embora alguns deles se transformem em Ferraris. Só a educação equilibra a competição.

Enquanto isso, nada justifica que nas administrações públicas brasileiras e nas estatais os méritos do preparo profissional e desempenho sejam atropelados pelo apadrinhamento e as indicações políticas. Não foram poucos os funcionários concursados e eficientes que aderiram a um partido político como forma de crescer na carreira.

A cultura da boquinha, da sinecura, da troca de favores, é de esquerda, direita ou centro? Seria parte integrante do DNA do brasileiro, professor DaMatta? Ou algo que se exacerbou e transbordou nos últimos anos?

Os milhões de funcionários honestos, competentes e trabalhadores são os principais interessados na reinstituição da meritocracia no serviço público e, principalmente, nas 120 estatais que sofreram prejuízos colossais com essa cultura nefasta e corrosiva. Não tem que manter isso aí, não.

Nenhum candidato pode evitar esse debate. Como sanear o desperdício e o roubo do dinheiro público provocado pela desonra do mérito?