quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Partidos, direitos e urnas

Na última semana, o desembargador aposentado Laércio Laurelli, e o colega Luís Carlos Crema uniram esforços comigo e reunimos provas coletadas de condenações oriundas principalmente da Operação Lava Jato.

Resultado de imagem para partidos políticos charge

Decidimos entrar com mais uma ação em defesa do povo brasileiro. Desta vez, para pedir o cancelamento do registro civil e a extinção de nove partidos: o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), o Partido Progressista (PP), o Partido Republicano da Ordem Social (PROS), o Partido Republicano Brasileiro (PRB), o Partido Comunista do Brasil (PC do B), o Partido Democrático Trabalhista (PDT), o Partido da República (PR) e o Partido Social Democrático (PSD).

O farto material coletado deixa claro que alguns partidos políticos se tornaram agremiações criminosas.

A Carta Magna garante: ”todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. O Poder e o Direito são nossos, o Povo. O dever e a obrigação são deles, os políticos. Mas, até mesmo essa ordem constitucional os políticos e suas organizações criminosas conseguiram inverter, subverter, distorcer, modificar e, por fim, eliminar. Não respeitam nada e nem ninguém. Colocaram-se acima da Lei e do Poder Judiciário.

Neste exato momento, deputados já se movimentam pra discutir o projeto que altera a lei do abuso de autoridade. Na avaliação do Ministério Público, alguns artigos da proposta ameaçam a independência de promotores e procuradores, e podem dificultar investigações como as da Operação Lava Jato.

A comissão especial que vai analisar o projeto foi criada exatamente um dia depois que os deputados derrubaram o prosseguimento da segunda denúncia contra Temer pelos crimes de obstrução de justiça e organização criminosa. Nunca o legislativo teve tanta celeridade, não é mesmo? Quando é para legislar em causa própria, deputados trabalham segunda-feira e até fim de semana.

Dois outros projetos em análise na Câmara querem:

1 - proibir que pessoas que estejam presas façam acordo de delação premiada.

2 – questionar o alcance da lei da Ficha Limpa.

Nem com as investigações e condenações, os eleitos fora-da-lei cessam com suas ações político-criminosas. A moral, a eficiência e o trabalho sério de agentes públicos (integrantes da Polícia Federal, Ministério Público Federal e da Justiça Federal) que, em defesa da República e do Povo, provam os crimes e prendem os criminosos, estão sendo, sorrateira e asquerosamente, aniquilados por ocupantes dos mais altos cargos da República.

As notícias apenas revelam a insanidade moral, o despudor ético e a falta de humanidade dos políticos criminosos. Elas tiram o véu há muito colocado sob nossos olhos para turvar nossa visão e enganar nossos sentidos, disfarçando a verdade em prol dessa corja criminosa que se autodenomina representante do Povo. É hora da busca da Verdade! Chegado o momento de se fazer Justiça! Cumpra-se a lei, revelem-se os crimes e punam-se os bandidos!

PS: E partidos que não fazem parte desta ação e que cometeram atos ilícitos não ficarão impunes. Estamos reunindo provas para ingressar com novas ações. A sociedade civil, diferente deles, trabalha em harmonia. E não vai se calar. As eleições de 2018 serão um momento histórico. Corruptos correm contra o tempo porque sabem do movimento em curso. Eles não passarão.

Imagem do Dia

Conheça a Ilha Zakynthos, na Grécia:  http://guiame.com.br/vida-estilo/turismo/melhores-praias-desconhecidas-do-mundo.html
Zakynthos (Grécia) 

Modernidade ou retrocesso?

Nos anos 60 do século passado, a televisão brasileira passou a ser inundada por séries de ficção científica, produzidas nos melhores estúdios dos Estados Unidos: “Perdidos no Espaço”, “Jornada nas Estrelas”, “Terra de Gigantes”. Uma das mais famosas era “Túnel do Tempo”. Tratava das agruras vividas por dois cientistas que haviam sido tragados por uma máquina, ainda em estágio experimental, que os transportava para diferentes contextos históricos. Nunca conseguiam voltar à contemporaneidade, o que alimentava o suspense e a própria continuidade da série. Ou eram lançados no futuro, ou atirados no passado. Na maioria das vezes, viajavam rumo a acontecimentos pretéritos.


Desde o último dia 11, o Brasil mergulhou no redemoinho do tempo e ressurgiu na data em que Napoleão Bonaparte editou o Código Civil francês. Agora, tal como em 1804, legalmente não se admite mais a existência de escravos. A prestação de serviços de uma pessoa a outra passa a ser regida por um contrato de locação de mão de obra. O tomador de serviços aluga a força de trabalho de outrem e paga-lhe, em dinheiro, o bastante para assegurar a reprodução dessa força produtiva. Trabalho feito, trabalho pago. Simples assim. Não há remuneração, pelo empreendedor, do tempo em que seu servidor esteja a sua disposição, ou que descansa, porque isso deveria ser considerado importante para a qualidade do serviço ou para a dignidade do trabalhador. Repouso semanal remunerado, férias remuneradas, afastamento remunerado por motivo de doença passam a ser ficções de um passado recente que deixou de existir, ao bel-prazer do patrão. O que refletiu a luta de construtores do futuro, desde meados do século XIX até a derrota do fascismo e o advento da ameaça soviética, virou pó. Ademais, pouco se deve importar, doravante, com aportes a um fundo previdenciário em benefício de quem trabalha. Cada um que se vire para se precaver dos infortúnios que o futuro reserva a todos nós.

Ainda que o presidente do Tribunal Superior do Trabalho insista em dizer que o Brasil, com a reforma trabalhista, chega à modernidade, é preciso lembrar que, como no “Túnel do Tempo”, a fuga de uma adversidade pode nos levar a um retrocesso ainda maior e mais remoto. No caso do tal “contrato de trabalho intermitente”, não há como deixar de ver nisso um passo atrás em relação ao liberalismo econômico da legislação napoleônica. Nesse caso, a espiral de recuo temporal nos lança à era do feudalismo: o trabalhador se compromete, tal como um vassalo, a ficar, a priori, à disposição, a qualquer hora, de um tomador de serviços, mas só receberá quando efetivamente trabalhar. Estudos, convívio familiar ou lazer e até mesmo um “bico” não passam de bobagens de um tempo romântico que não existe mais.

O objetivo é extrair o máximo do trabalhador, quer pela extensão de sua jornada de trabalho, quer por incremento do ritmo de produção. Nenhum segundo pode ser desperdiçado. E assim, nada impedirá que, transformados em robôs, os trabalhadores sejam lançados a tempos ainda mais deploráveis: os tempos da escravidão.

E aqui então...

Resultado de imagem para for privilegiado charge
As leis da maior parte dos países foram ditadas para oprimir o miserável e proteger o poderoso
Napoleão Bonaparte

Aos poucos , escracho vira outro nome de normal

O Brasil vive uma espantosa época. Nela, o absurdo adquiriu uma doce e admirável naturalidade. É como se a anormalidade fosse o normal. Dois episódios ocorridos no final de semana desafiam a paciência do brasileiro. Num, o multicondenado José Dirceu foi filmado numa festa sacudindo o corpo e a tornozeleira eletrônica. Noutro, o magistrado Gilmar Mendes encontrou-se com o denunciado Michel Temer.

Resultado de imagem para gilmar charge

No mês passado, Gilmar foi acusado pelo colega Luís Roberto Barroso, em plena sessão do Supremo Tribunal Federal, de ser parceiro da “leniência em relação à criminalidade do colarinho branco”. Não parece preocupado. Dirceu coleciona duas condenações na Lava Jato. Deveria estar preso. Mas também não exibe sinais de preopação.

Juntas, as penas de Dirceu no petrolão somam 41 anos de cana. Ele estava atrás das grades. Mas a Segunda Turma do Supremo, com o voto favorável de Gilmar, autorizou-o a aguardar o julgamento de recursos em liberdade. Por isso ele dança.

Além de Temer, participou da reunião com Gilmar o ministro Eliseu Padilha. Denunciados por corrupção, Temer e Padilha deveriam ser investigados. Mas a Câmara congelou os processos. E Gilmar acha natural encontrá-los. Algo de absolutamente anormal precisa acontecer em Brasília. Do contrário, o escracho será o outro nome de normal.

Que República é essa?

Uma jovem senhora completa 128 anos: a República Federativa do Brasil. A via mais recente de sua certidão de nascimento é a Carta Magna de 1988. Ali está dito que nossa República, Estado democrático de direito, está fundamentada na soberania, na cidadania, na dignidade da pessoa humana, nos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e no pluralismo político (CF, Art. 1º).

Um sinal especial, congênito, está no Parágrafo único desse artigo: todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.

As aparências enganam. Dona República anda muito maltratada. Persistem, a envelhecê-la precocemente, a profunda desigualdade social, o patrimonialismo, o clientelismo, a ausência de espírito público, a corrupção sistêmica, o arranjo partidário de fantasia. Dona República mora na casa mal assombrada do capitalismo de máfias ou de compadrio.
Nenhum texto alternativo automático disponível.

Que soberania é essa em que são vendidas a grandes consórcios internacionais, na bacia das almas, as reservas do pré-sal?

Que cidadania é essa que aceita a implementação de políticas de impacto – como privatização de tudo e cortes orçamentários brutais na área social – reagindo mais pelo desencanto do que pela indignação?

Que dignidade da pessoa humana é essa quando há 45,5 milhões de patrícios na pobreza aguda?

Onde há dignidade numa sociedade em que crescem as manifestações de truculência autoritária, de ódio ao que é diferente, de agressão aos direitos das mulheres, dos negros, dos índios, dos LGBT?

Para onde foram os valores sociais do trabalho numa ordem econômica em que 83% dos trabalhadores formais ganham até três salários mínimos, em que cresce o “precariado”, quando entra em vigor vulnerabilização jamais vista dos direitos dos que trabalham, fulminando uma CLT que já incorporara 75% de atualizações (várias delas, aí sim, necessárias)?

Onde está a livre iniciativa, se 90% dos que aqui vivem não podem ter iniciativa empreendedora alguma, por falta de condições e oportunidades?

Livre iniciativa só para os “de cima”, como os do grande capital financeiro, para quem não há crise? (Os quatro maiores bancos do país tiveram mais de 10% de lucros no último trimestre).

Que pluralismo político é esse das grandes quadrilhas partidárias, do condomínio do poder?

Da casta que trama, com êxito, modos e meios de se proteger e se reproduzir, de “estancar a sangria” que as investigações do corrupto conluio público-privado começaram a revelar?

Onde o pluralismo no sistema em que as maiorias sociais são desestimuladas a se organizar, para que jamais possam se tornar maiorias políticas?

Por fim, que poder é esse que emana do povo, mantido à margem das decisões sobre sua vida – tarifa do ônibus ou trem, preço da cesta básica e dos aluguéis, por exemplo? Massa “domesticada” pela tele-ilusão criadora de falsos consensos, estimulada ao cuidar apenas de si, sob a égide do individualismo?

Oswald de Andrade (1890-1954) disse que “o Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus”. No país da rica biodiversidade acossada por tremenda devastação ambiental, não é hora de dizer adeus, de desistir, de renunciar. Ao contrário, vamos reproclamar a República, e praticar seus valores!

Chico Alencar

Gente fora do mapa

In Syria, sleeping between his parents. Be thankful you don't live in a violent country like that.

Uma crise sem fim

O impasse político continua. Nada indica que estamos próximos da solução da mais grave crise da história republicana. E, pior, caso se mantenha este quadro sucessório, as eleições de outubro de 2018 vão se transformar em enorme frustração.

A permanência no poder — tanto no Congresso como na Presidência da República — dos mesmos interesses, vocalizados por uma elite corrupta, deve agravar a tensão política.

Poderemos chegar ao esgarçamento máximo das instituições criadas pela Constituição de 1988, justamente quando se completará 30 anos de vigência da Carta cidadã, o que para o Brasil não é pouco, pois, em termos de longevidade, ficará somente atrás das constituições de 1824 e 1891.



Para a elite dirigente — elite no sentido mais amplo, passando pelos Três Poderes e pelo capital financeiro e empresarial —, tudo está sob controle. De há muito perdeu a capacidade de representar os interesses brasileiros.

Despreza a soberania nacional, acha irrelevante. Está — a elite — de tal forma descolada do Brasil real que imagina que basta criar uma ONG que tudo estará solucionado no campo da educação, da saúde ou da segurança pública. Em momento algum se compromete com a erradicação das desigualdades. Não. Prefere mantê-las até para realçar seu compromisso com os despossuídos. É pura hipocrisia.

Sabe que a vigência plena do caput do artigo 5º da Constituição (“Todos são iguais perante à lei, sem distinção de qualquer natureza.”) prejudica seus interesses de classe. Não deseja a igualdade jurídica republicana, não consegue conviver numa sociedade democrática com direitos e deveres iguais entre os cidadãos. Necessita de privilégios para manter seu padrão econômico e social de vida. Ao invés de uma sociedade de classes, imagina como ideal uma sociedade estamental. Vive em eterno descompasso com o Brasil.

A elite financeira, em especial, pouca atenção dá ao combate à corrupção. Entende que pode conviver com os ilícitos contra a coisa pública. O que vale é a estabilidade política, independentemente do preço ético. Emite sinais de que está mais preocupada com a crise fiscal do que com as mazelas produzidos pelos políticos.

Vale lembrar que, em momento algum, na luta pelo impeachment — que livrou o país de uma radicalização ao estilo venezuelano — alguma liderança expressiva do mundo financeiro se pronunciou em defesa da democracia. Pelo contrário. O presidente de um dos maiores bancos concedeu uma longa entrevista a um periódico de circulação nacional. Insinuou uma defesa envergonhada do governo Dilma, isto apenas a três meses da votação da Câmara dos Deputados autorizando a abertura do processo de impeachment.

Nunca o grande capital especulativo — mais do que o financeiro — obteve tantos lucros como durante os 13 anos do petismo. E logo tomaremos conhecimento da relação incestuosa entre os banqueiros e os mandarins da política econômica petista com a divulgação da delação premiada de Antonio Palocci — que, por sinal, está demorando muito, o que causa profunda estranheza: estará havendo algum tipo de manipulação antirrepublicana?

Frente ao aprofundamento da crise política, a elite não sabe o que fazer. Seus líderes externam discursos de uma pobreza ideológica franciscana. Buscam a todo custo candidatos à Presidência da República. Querem nomes, e não ideias. O que vale é a grife. Gostariam de encontrar um Emmanuel Macron, mas até agora só acharam um insípido animador de auditório.

E como não tem qualquer compromisso com os interesses nacionais, não é descabido imaginar que, após o pleito de outubro do ano que vem, dependendo do resultado, resolvam fixar residência no exterior. Para eles, o melhor do Brasil é vê-lo à distância.

Se da elite nada podemos esperar, como poderemos achar um caminho para romper este impasse, o mais longo da história republicana?

Aí mora a questão central, o âmago do problema. É fundamental sair da superfície dos acontecimentos e buscar as raízes estruturais da crise. As instituições criadas através da Constituição de 1988 estão em frangalhos. Se, em tese, tinham qualidades, acabaram tomadas pelos estamentos que controlam a estrutura estatal na União e nas 27 unidades da Federação. E nada indica que haverá condições de transformá-las. Estão petrificadas.

Os movimentos que lideraram o impeachment deram a entender, em certo momento, que poderiam ser uma novidade no cenário tão pobre da política brasileira. Porém, muito rapidamente, se adaptaram ao velho ramerrão do toma lá dá cá. Buscaram filiação nos partidos tradicionais e adaptaram seus discursos à nova conjuntura. Alguns escorregaram para o extremismo. Seria como se, na Espanha, o “Cidadãos” aderisse ao franquismo. Aqui simpatizam com um líder sindical militar.

Outros apostam na reforma a médio prazo. Sonham que um dia — presumidamente, bem distante — o regime vai se autorreformar.

Os mais ideologizados passaram a utilizar velhos clichês do ultraliberalismo como a última moda. Pior, criaram uma oposição (Mises X Marx) como se a solução dos problemas nacionais passasse necessariamente por visões de mundo radicalmente distintas, arcaicas, fora do contexto nacional e que ignoram a complexidade do mundo globalizado.

Em meio à mediocridade intelectual, política e ideológica, o Brasil vai resistindo. Até quando? É impossível responder. Mas não parece exequível estender ad infinitum a solução da crise. Isto só tende a agravar os grandes problemas nacionais. E com reflexos na ordem político-institucional imprevisíveis.

Grandes poderes tecnológicos que preocupam

Mergulhada na investigação sobre intoxicações russas nas redes sociais, a vice-presidenta do Partido Popular Europeu, deputada Sandra Kalniete, disse na semana passada a este jornal: “Estamos indefesos contra essas novas tecnologias”. “Supunha-se que ajudariam a humanidade, mas se estiverem nas mãos de forças negativas, podem fazer mal”. Tanto a ponto de favorecer um determinado candidato à Casa Branca, de desacreditar a democracia espanhola devido à crise catalã ou conseguir que a extrema-direita entre no Bundestag? Os dados apontam nessa direção e o Parlamento Europeu e os congressistas e senadores dos Estados Unidos já abriram uma investigação. Foi nesse contexto que o senador da Louisiana, John Kennedy, confessou aos representantes das empresas de tecnologia: “O poder que vocês têm me deixa com medo”.

Illustrations by Peter Ryan
Esse poder é duplo. Por um lado, existe seu poder econômico. As chamadas Gafam (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft), valem até 3 trilhões de dólares (cerca de 10 trilhões de reais) na Bolsa, ou seja, pouco mais do que o PIB do Reino Unido. O Facebook e o Google capturam praticamente 100% do crescimento do mercado publicitário e todas essas empresas utilizam toda a estratégia fiscal possível para ser cotadas em paraísos fiscais ou, pelo menos, fugir dos impostos onde operam. Por outro lado, existe sua posição dominante no mercado e sua gigantesca penetração. Entre 2015 e 2017, até 126 milhões de usuários do Facebook acessaram mensagens propagadas por interesses russos. Uma penetração perigosa se considerarmos que essas redes servem de via para contas falsas tratadas com bots, hoaxes, mentiras, manipulações e meias-verdades que se espalham e se multiplicam em segundos e aos milhões.

A linha de defesa das empresas de tecnologia é que não são responsáveis pelo conteúdo, apesar de censurarem as mensagens de acordo com seus critérios ou destacá-las segundo algoritmos secretos. Estamos longe, muito longe, da política dos meios de comunicação, capazes de demitir um jornalista por publicar uma reportagem falsa ou abrir uma profunda investigação interna, divulgar todos os dados e pedir desculpas aos leitores por publicar uma foto falsa de Hugo Chávez agonizante. Não há filtros ou desculpas nas redes, nas quais as crônicas mais diferentes e fotos falsas de tanques nas ruas de Barcelona circulam em pé de igualdade.

As empresas rejeitam qualquer regulamentação que as assimile aos meios de comunicação, mas a pressão política está obrigando-as a modificar seus modos. O Facebook prometeu aos congressistas norte-americanos contratar mil “moderadores” adicionais neste mês para detectar notícias falsas ou mensagens impróprias. Mas, por enquanto, essas empresas de tecnologia continuam sendo o cavalo de Tróia da informação manipulada que ameaça as democracias de todo o mundo e é urgente que tomem medidas antes que outros as tomem por elas e acabem com o sonho da ágora global de livre acesso.

Em busca da impunidade perdida

De hoje, aniversário do golpe militar que “proclamou” a República, em diante, a camarilha dirigente dos negócios públicos prosseguirá em seu ingente esforço para ter de volta a impunidade que, na prática, tem gozado, mercê de foro e de outros privilégios acumulados em 118 anos legislando prioritariamente em proveito próprio.

Com a chancela de uma Constituição promulgada pelo Congresso abusado e abusivo, nossa privilegiada casta dirigente se viu imprensada na parede pelo povo, que em 2013 foi às ruas reclamar de seus maus-tratos à sociedade explorada, humilhada e espoliada. No ano seguinte, graças à renovação dos quadros de agentes concursados da Polícia Federal (PF) e de procuradores da República e juízes federais treinados para combater crimes de colarinho-branco, como lavagem de dinheiro, teve início a Operação Lava Jato,

Resultado de imagem para temer e a impunidade charge

A união de esforços de corporações divididas internamente e rivais entre si – PF e Ministério Público Federal – levou aos juízes de primeiro grau e, em consequência, às celas do inferno prisional tupiniquim, até então exclusivas de pretos, pobres e prostitutas, uma clientela, branca, poderosa econômica e politicamente e abonada (em alguns casos, bilionária). Como nunca antes na História deste país, no dizer do ex-presidente em cuja gestão a total perda de proporções e do mínimo de sensatez produziu o maior escândalo de corrupção da História, ora nos é dado ver os príncipes de grandes firmas corruptoras tomando banho de sol nos pátios das prisões.

O foro privilegiado, que reserva o julgamento de 22 mil (ou 55 mil?) otoridades (em mais um desses absurdos colapsos de estatística a serviço de meliantes de luxo) à leniência do Supremo Tribunal Federal (STF), mantém um placar absurdo de 118 condenados em primeira instância pela Lava Jato contra zero (isso mesmo, zero) apenado no último e mais distante tribunal do Judiciário. Em caso extremo e inédito, o presidente da República só pode ser acusado por delitos cometidos no exercício do cargo.

Com pânico de perder com o mandato os privilégios, a borra política nacional permitiu-se abrir mão de anéis para manter os longos dedos das mãos que afanam. Mas nestes três anos e oito meses de Lava Jato alguns fatos permitiram a seus maganões investir contra essa progressiva redução da impunidade. A chapa vencedora em 2014, Dilma-Temer, foi absolvida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por excesso de provas. E quando o leniente STF sai um milímetro da curva que interessa aos congressistas, estes logo o reduzem à posição de última defesa de suas prerrogativas de delinquir sem ser perturbados. Até Aécio, derrotado na eleição e guindado ao governo Temer, mantém-se “impávido colosso” no ninho.

Na negociação pelo impeachment da desastrada Dilma, Jucá, o Caju do propinoduto da Odebrecht, definiu “estancar a sangria” como meta de seu grupo, alcunhado pelo ex-procurador-geral Janot de “quadrilhão do PMDB”, para o comparsa Sérgio Machado, cuja delação tem sido contestada. Embora isso esteja sendo confirmado pelas Operações Cadeia Velha e Papiro de Lama, no Rio e em Mato Grosso do Sul, desmascarando os dignitários peemedebistas Picciani e Puccinelli.

Faltam provas, alegam. Mas sobram fatos. Com alguns votos tucanos e todos do Centrão, que defendeu tenazmente Eduardo Cunha, a maioria da Câmara mandou para o lixo investigações contra Temer pedidas por Janot ao STF. O presidente até agora não citou um fato concreto para se defender das acusações de corrupção passiva, obstrução de Justiça e organização criminosa, meio ano após ter sido divulgada a gravação de sua conversa com um delinquente que usou identidade falsa para adentrar o palácio. E agora se sente à vontade para trocar na Procuradoria-Geral da República, em causa própria, o desafeto Janot por Raquel Dodge, indicada pelo parceiro de convescotes em palácio Gilmar Mendes, do STF.

Caso similar é o de Fernando Segóvia, cujo currículo fala por si. No Maranhão, tornou-se comensal e afilhado do clã Sarney. E não deve ter sido a atuação de adido na África do Sul que inspirou Padilha a lutar por sua nomeação. Ao assumir, sem o aval do chefe direto, o ministro Jardim, ele prometeu mudanças “paulatinas” na Lava Jato e reconheceu que terá atuação política. Atuação política na chefia da polícia que investiga os políticos? Hã, hã! O velho Esopo diria que se trata do caso da raposa disposta a assumir a segurança do galinheiro. Mas a fábula é antiga!

Enquanto Segóvia, o “tranquilo”, assume o paulatino como pauladas em subordinados e pagantes, o chefe do governo tenta obter a própria superimpunidade por meios sibilinos. Seu advogado Carnelós pediu toda a vênia possível a Fachin para convencê-lo a desistir de encaminhar Cunha, Geddel, Henriquinho, Rodrigo da mochila e Joesley, entre outros, para a primeira instância de Moro e Vallisney. E assim evitar que surjam delitos desconhecidos em seus depoimentos ou delações dos quais o chefe não tomaria conhecimento no gozo de sua indulgência plena com data marcada para terminar: janeiro de 2019.

Na manchete do Estado anteontem, Pauta-bomba no Congresso põe em risco ajuste fiscal, a reportagem de Fernando Nakagawa e Adriana Fernandes, de Brasília, relata o perdão das dívidas dos ruralistas, depois da dispensa de multas e pagamentos de parlamentares empresários, seus sócios e compadres em outro Refis amigo. E, segundo o texto, a Lei Kandir será alterada. Sem despesas, mas com graves danos ao combate à corrupção, vêm, depois deste feriado, a lei do abuso de autoridade e a redução das punições da Ficha Limpa, só para quem a tiver violado após sua vigência. Rogai por nós!

Na adaptação da obra-prima de Proust, Em Busca do Tempo Perdido, a memória não tem o olor das madeleines, mas dos miasmas de uma República apodrecida, convenientemente distante do Brasil real, que não a suporta mais.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Sangue por nada

O que esmaga é a consciência do desperdício que essa tragédia é. Não há dúvidas transcendentais em debate, ninguém que precise ser convencido do que quer que seja. Não fazer é morte certa. Todas as contas estão feitas. Todas as respostas estão dadas, todos os remédios são conhecidos. Nós não os tomamos por deliberação soberana de quem manda no Brasil. Nada está oculto. Tudo é sexo explícito. Tudo é imposição e força. Ver quem faz barulho mais alto.

O mundo que domesticou seus políticos, que lhes tira os mandatos com mais facilidade que os põe, que premia o esforço para exorcizar o privilégio despede-se da pré-história da humanidade com carências materiais na velocidade da inteligência artificial. Nós damos marcha-a-ré na necessidade para que a casta que nos dita as leis que criminalizam como “desacato” qualquer cobrança que ousemos dirigir-lhe não se tenha de abalançar da eterna imunidade às crises que fabrica.


Em um século a partir de 1950 a população global terá crescido 3,7 xs. A de 60 anos para cima, 10 xs. A de 80 anos e mais 27 xs. Mas nós nos deparamos com esse salto da humanidade ainda cavalgados pelo modelo de opressão que a democracia pós fora da lei pelo mundo afora. O mais acabado retrato dele aparece nas contas da previdência. Um milhão de funcionários da União, todos eles na faixa dos 1% mais ricos do país, e entre esses os juízes e os promotores, campeões dos campeões, na faixa dos 0,1% mais ricos do país (Ipea), geraram um deficit nas contas da previdência (R$ 90,7 bi) maior que o da soma dos 33 milhões de plebeus aposentados do setor privado (R$ 85 bi) em 2016. Quase 60% da metade do PIB de que o estado se apropria vai para os funcionários aposentados e não basta. Outros 12% pagam os que ainda nos “prestam serviços”. Um cálculo baseado no mesmo critério do Indice Gini, que mede as desigualdades de renda e qualidade de vida de um determinado grupo (quanto mais próximo de 1 mais desigual) é terminativo. O indice geral de desigualdade do Brasil é de 0,563 pontos e o do universo inteiro de aposentados privados de 0,474 (na aposentadoria somos igualados na pobreza). Mas o do universo dos funcionários públicos aposentados é de 0,822.

Isto quer dizer matemática e resumidamente o seguinte: dentro daquela minoria do milhão de aposentados do setor público que pesam mais que os 33 milhões de aposentados do setor privado somados, uma minoria ainda mais ínfima distancia-se dos demais numa proporção que, se ja é obscena comparada à de seus pares, é abissal quando posta ao lado da dos miseráveis cá de fora. Automatizando a multiplicação de despesas pelos expedientes de “petrificar” novos “direitos aquiridos” auto-atribuídos numa sequência sem fim, de desdobrar salários tributaveis numa infinidade de “auxílios” não tributáveis anualmente “corrigidos” por índices maiores que a inflação, de estender tudo isso para funcionários ativos e inativos mas deixando sempre aberta a cova rasa que nos cabe no latifundio do orçamento público aos “ajustes” que cada golpe desses matematicamente implica; foi assim que o Brasil foi sendo empurrado para o presente quadro de desastre nacional. Entre 2014 e 2016, os dois anos mais sufocantes da história da miséria brasileira, essa corte confiscou ao favelão nacional mais R$ 8,8 bilhões em “cortes de despesas dos estados” com educação, saúde e segurança publica enquanto embolsava R$ 8,6 bilhões em aumentos automáticos “imexíveis” de proventos variados. Uma coisa pela outra. Na União e nos municípios foi ainda pior.

Agora é rever essa divisão ou morrer. E como não existe argumento capaz de deixar a menor dúvida sobre quem tem o que entregar e quem tem o que receber, a saida dos devedores foi reduzir o debate político a essa gritaria que ele virou. Literalmente na véspera de ser aprovada no Congresso a primeira reforma a tocar de leve os “direitos adquiridos” da privilegiatura emerge do Ministério Publico do dr. Janot a gravação que, hoje está provado, apagou a ultima fronteira entre “mocinhos” e “bandidos” do faroeste brasileiro, para enterrar, junto com a reforma da previdência, o mais eletrizante capitulo da Lava Jato que acabara de ser aberto – o da Operação Greenfield que revelaria ao país, daqui até à eleição do tudo ou nada de 2018, como foi que, muito além dos “pequenos furtos” dos tempos em que ainda era preciso fazer uma obra publica ou comprar uma plataforma de petróleo para roubar o Brasil, o lulismo fez da familia Batista e mais meia duzia de genocidas e párias do mundo civilizado sócios dos Fundos de Pensão das estatais, primeiro, e do BNDES, do Banco do Brasil e do Tesouro Nacional, depois, para montar uma lavanderia já devidamente abarrotada para lavar dinheiro sujo espalhada por 30 países do mundo.

Por maiores que sejam as culpas no passado do presidente provisório, trocar a Operação Greenfield e o futuro do Brasil por elas não é só um péssimo negócio, é um negócio leonino. O jogo que corre, de ocultar ou expor pedaços do banco de grampos do rei dos bandidos é a descrição do fulcro da doença e não o caminho da cura. O último sinal de saúde no ar é, aliás, o pouco que tal expediente engana a esta altura. Mas a impotência do brasileiro como cidadão faz dessa clareza prostração … ou esse mergulho no nada que são os nossos 62 mil trucidados a bala por ano e subindo.

Toda essa carnificina é um trágico desperdício. É inadmissivelmente anacrônico fazer-se pobre desse tanto e absurdamente estúpido morrer pelo nada por que se mata aqui. Quem tem vivido do sistema de exploração que custa esse preço é o que é, não tem remissão. Mas é sobre a cabeça de todos quantos sabem que é disso que se trata e não o dizem; é sobre a cabeça de todos quantos fingem que esse é um problema “do governo Temer” e não um problema do Brasil; é sobre a cabeça de quem tem o poder de fazer isso cessar e não faz que recairá o sangue todo que vai custar darmos mais uma volta nesse circulo infernal, mesmo sabendo todos qual é a única saída que existe.

Onde está todo mundo?

No vestiário da piscina, cumprimento um amigo.

— Tudo bem — responde.

— Família?

—Tudo bem conosco, família, amigos. Mas o país…

Mesmo entre as pessoas que passam bem e tocam seu barco cotidiano, as conversas tendem a terminar assim, com um lamento sobre o Brasil. Isso acontece também em diálogos na rede social. Mas é diferente. Com a presença física do outro, sentimos mais fortemente o desencanto com o país.

Não sei se por nostalgia dos tempos de manifestações, passeatas, assembleias, às vezes sinto um vazio que a internet não preenche. Era como se estivesse numa sala e perguntasse: onde estão todos nesse momento? Sei que posso encontrá-los num simples clique. Mas não é a mesma coisa. A respiração ofegante, olhares, o suor escorrendo, gritos — tudo isso faz parte do mundo que convencionamos chamar de presencial.

Resultado de imagem para cadeira vazia no espaço

Creio que 2018 será diferente. Eu mesmo já me desloco para ouvir amigos, conversar com eles sobre o buraco em que nos metemos. Não tenho grandes certezas, nem um discurso acabado. Ambos não ajudam numa boa conversa. De que adianta falar com quem acha que sabe tudo?

Suspeito, no entanto, que um período se fechou com os 13 anos do governo de esquerda. Suas políticas, no campo econômico, mostraram-se insustentáveis no sentido mais elementar do termo: o Brasil praticamente quebrou. Na dimensão ética, a passagem da esquerda pelo governo foi uma catástrofe maior que os desastres do passado. Um período fora do governo fará bem a ela. Os conservadores ingleses tendem a considerar bem-vindos os momentos de oposição. Podem descansar do poder e refletir sobre o período em que estiveram lá. A esquerda continuará lutando para voltar ao governo, como ponto central de sua agenda. Não é dada a longos períodos de reflexão e tem uma dependência física do poder, seus cargos e benesses. No quadro brasileiro, suponho que haverá uma alternância e deve se seguir uma etapa em que forças liberais e conservadoras ocupem o espaço na direção do país. Ignoro ainda como vão combinar essas duas tendências, que tipo de arranjo surgirá daí. Constato apenas que existe uma contradição bastante nítida entre preservar os valores da família e comunitários e apoiar a revolução do mercado global.

Tenho ouvido falar de Margaret Thatcher como um exemplo luminoso. Se analisarmos a experiência da Dama de Ferro, veremos que as profundas mudanças que provocou na Inglaterra enfraqueceu os conservadores. Sua tese de que o importante era impedir que os trabalhistas voltassem um dia ao governo tinha um tom de arrogância que acabou resultando em Tony Blair, com propostas liberais e um rótulo de terceira via, inventado pelo marketing politico. Em ambos os casos, as forças de mercado cresceram e se espraiaram por serviços públicos. As organizações quase governamentais tornaram-se um forte setor da economia.

No Brasil, existe uma simpatia maior pelo papel do Estado. O processo será mais difícil. Thatcher, ao assumir, revelou que gostaria de um retorno aos rígidos valores vitorianos. Mas isso parece ter escapado de suas mãos, pois a Inglaterra tornou-se mais tolerante, inclusive com uma maior aceitação do homossexualismo. O que quero dizer com isso é que assim como a realidade mostra-se um pouco irredutível, sempre colocando armadilhas na trajetória da esquerda, ela o fará também com o sonhos das forças que tendem a substituí-la.

Todas essas interrogações que tenho sobre o futuro, respeitando os que têm certezas acabadas, tornam o quadro mais complexo com a septicemia nos órgãos públicos. Nesta semana ficou mais clara ainda como o processo se espalhou pelas milhares de prefeituras brasileiras. Em Porto Seguro, Cabrália e Eunápolis, os prefeitos foram afastados por corrupção. Circulou um vídeo em que a prefeita de Porto Seguro confessa, alegremente, sua propensão a roubar 50% dos investimentos numa obra pública. Em Teresópolis, o prefeito Mario Tricano, ele mesmo já afastado, denunciou um esquema de corrupção que envolve todos os 12 vereadores.

No Rio, a Polícia Federal revela que Cabral comprou dossiês para atacar o juiz Marcelo Bretas. Até aí nada de surpreendente. O que surpreende é a Justiça, na pessoa de Gilmar Mendes, recusar-se tão ostensivamente a aceitar as evidências das ameaças de Cabral. O que importa mais alguns casos de corrupção e gangsterismo num país que já viveu tantos deles, ao longo dos anos?

A tese central é que o povo espera as eleições para corrigir os erros. Recentemente, surgiu uma notícia de que os militares duvidam desse roteiro. Temem que a crise econômica se aprofunde, o Estado quebre mais completamente e traga com sua ruína grandes inquietações sociais. A reforma da Previdência foi para o espaço, ao que tudo indica. O chamado Centrão vai controlar os ministérios. As hienas prosseguem seu banquete devorando o que resta dos recursos públicos.

É hora de conversar, trocar ideias, criar vínculos. Candidatos fazem caravanas; amigos fazem visitas. Com todo respeito pelo intenso debate na internet, suspeito que é hora de levantar da cadeira.

Imagem do Dia

Ronda, Malaga, Spain
Ponte Ronda, em Málaga (Espanha)

Inimigo do povo

A maior parte dos meios de comunicação do Brasil, com a Rede Globo disparada na frente, está se transformando num serviço de polícia do pensamento livre. É repressão pura e simples. Ou você pensa, fala e age de acordo com a atual planilha de ideias em vigor na mídia ou, se não for assim, você está fora. Os chefes da repressão não podem mandar as pessoas para a cadeia, como o DOPS fazia antigamente com os subversivos, mas podem lhes tirar o emprego. É isso, precisamente, que o comando da Globo acaba de fazer com o jornalista William Waack, estrela dos noticiários da noite, afastado das suas funções por suspeita de racismo. Por suspeita , apenas – já que a própria emissora não garante que ele tenha mesmo feito as ofensas racistas de que é acusado, numa conversa particular ocorrida um ano atrás nos Estados Unidos. Mas, da mesma forma como se agia no Comitê de Salvação Pública da velha França, que mandava o sujeito para a guilhotina quando achava que ele era um inimigo do povo, uma acusação anônima vale tanto quanto a melhor das provas.

Resultado de imagem para william waack charge
William não foi demitido do seu cargo por ser racista, pois ele não é racista. Em seus 21 anos de trabalho na Globo nunca disse uma palavra que pudesse ser ofensiva a qualquer raça. Também nunca escreveu nada parecido em nenhum dos veículos de imprensa em que trabalha há mais de 40 anos. Nunca fez um comentário racista em suas numerosas palestras. O público, em suma, jamais foi influenciado por absolutamente nada do que ele disse ou escreveu durante toda a sua carreira profissional. O que William pensa ou não pensa, na sua vida pessoal, não é da conta dos seus empregadores, ou dos colegas, ou dos artistas que assinam manifestos. O princípio é esse. Não há outro. Ponto final.

William Waack foi demitido por duas razões. A primeira é por ser competente – entre ele, de um lado, e seus chefes e colegas, de outro, há simplesmente um abismo. Isso, no bioma que prevalece hoje na Globo e na mídia em geral, é infração gravíssima. A segunda razão é que William nunca ficou de quatro diante da esquerda brasileira em geral e do PT em particular – é um cidadão que exerce o direito de pensar por conta própria e não obedece à atitude de manada que está na alma do pensamento “politicamente correto”, se é que se pode chamar a isso de “pensamento”. Somadas, essas duas razões formam um oceano de raiva, ressentimento e neurastenia.

A punição a William Waack tem tudo para se tornar um clássico em matéria de hipocrisia, oportunismo e conduta histérica. A Rede Globo,como se sabe, renunciou à sua história tempos atrás, apresentando – sem que ninguém lhe tivesse solicitado nada – um pedido público de desculpas por ter apoiado “a ditadura militar”. Esse manifesto, naturalmente, foi feito com o máximo de segurança. Só saiu vários anos depois da “ditadura militar” ter acabado e, sobretudo, depois da morte do seu fundador, que não estava mais presente para dizer se concordava ou não em pedir desculpas pelo que fez. A emissora, agora, acredita estar na vanguarda das lutas populares – não falta gente para garantir isso aos seus donos, dia e noite. William Waack, com certeza, só estava atrapalhando.

Para entender 2018 convém olhar a luta entre os dois cansaços: com os políticos e com a confusão

É cômodo caracterizar a disputa interna do PSDB como uma luta de éticos contra fisiológicos, puros contra impuros, tucanos originais contra tucanos perdidos. Uma guerra em que todos sairão mais fracos. Nesta era de ditadura das narrativas e de opressão sobre os fatos, é uma narrativa confortável. Como toda narrativa confortável, convém desconfiar, ao menos para testar.

Também teria sido razoável desconfiar da ideia de que o governo Michel Temer tinha desistido da reforma da previdência. Pela simples razão de que a única razão de o governo Temer existir é tentar fazer as reformas assepticamente chamadas de pró-mercado. Sem apontar para elas, ele não teria ultrapassado as duas votações na Câmara.


O contra-ataque do establishment tucano e o apego do governo Temer às reformas são os dois movimentos fundamentais na dança-tentativa de construir uma candidatura antipetista capaz de ganhar a eleição e também governar. Diferentemente de outras ocasiões em que se buscou um “novo”, é provável que desta vez o segundo vetor tenha um protagonismo relevante.

A sucessão presidencial será decidida num combate entre candidatos, partidos e blocos, sim. Mas também num braço de ferro entre dois cansaços: o cansaço com os políticos e o cansaço com a confusão. Seria um erro subestimar tanto um como outro. O Brasil parece querer livrar-se de ambos num único movimento, num único voto. Mas, e se não for possível?

Se, na eleição, o cansaço com os políticos estiver maior que o cansaço com a confusão, é provável que o eleitor decida por mais confusão para finalmente tentar dar cabo da atual elite política. Mas, se o cansaço com a confusão prevalecer, é possível que ele se incline para um dito político, na esperança de acabar com a confusão, ou impedir sua volta.

O apelo pelo “novo” é periodicamente sexy, mas enfrentará agora pelo menos dois problemas. 1) Os dois últimos presidentes, cada um à sua moda, “novos” foram derrubados e 2) a economia parece ter saído do estado de depressão profunda. Se o medo sempre tem um papel a desempenhar em campanhas eleitorais, não é tão difícil projetar que ele terá aqui uma oportunidade. Inflação baixa e algum crescimento não são de se jogar fora.

Eis por que há espaço para a movimentação de Lula e de Alckmin. Ambos buscam o perfil ideal, cada um em seu campo. Tentam consolidar a ideia de que conseguirão governar, sem entretanto deixar de se colocar como força de renovação. O tucano cultiva suas conexões com os cabeças-pretas, enquanto o petista lança sinais de que governará com menos compromissos.

Claro que a vida real é mais complicada. Nem Alckmin pode simplesmente lançar o velho PSDB ao mar, nem Lula pode se dar ao luxo de desprezar possíveis alianças. Sendo ele próprio candidato ou com outro nome, Lula sabe que uma coisa é ir ao segundo turno numa onda vermelha, outra coisa é fechar a eleição com metade mais um do voto válido. A lembrança de 1989 está disponível.

Observemos os fatos. Já disse algumas vezes: eles costumam ser teimosos.

*

A reforma da previdência será aprovada. Agora. Ou em 2018. Ou em 2019. Nenhum futuro governo escapará de fazê-la, ou continuá-la, pela simples razão de que se alguma reforma da previdência não for feita o teto de gastos garroteará o orçamento e não será possível governar. O teatro da política talvez imponha ao eleitor um novo estelionato. Com os riscos nele embutidos.

*

É da política que se tente aproveitar a fragilidade jurídica de Lula para recolher parte do capital político dele, eventualmente desgarrado. Vêm desse fato tanto ensaios como Luciano Huck, com sua suposta penetração entre os pobres, como as candidaturas de esquerda supostamente críticas ao PT.

É da política, mas tanto num como noutro caso será preciso avaliar se foi a tática mais inteligente. Dispersar forças não costuma ser inteligente.

Temer vira miniatura às voltas com minirreformas


Transformado pelas circunstâncias numa autoridade com poderes diminutos, Michel Temer virou a miniatura de um presidente. Seu bloco de apoio congressual reduzir-se dramaticamente. E o pedaço do Legislativo que supostamente lhe seria fiel o chantageia. No momento, o minipresidente negocia uma minirreforma ministerial que lhe permita aprovar a metade das mexidas que planejara fazer na Previdência. E talvez não consiga aprovar nem isso.

Antes de ser abalroado por denúncias criminais, Michel Temer enxergava horizontes promissores até na própria impopularidade. O presidente planejava aproveitar o desapreço que a sociedade sente por ele para aprovar reformas impopulares que recolocariam o país nos trilhos. O trabalho ficará inconcluso. A ideia de que Temer dirige os rumos do país nesta ou naquela direção tornou-se ilusória.

Estreitaram-se as margens de manobra do presidente. A política vive um daqueles momentos em que os agentes políticos começam a dar as costas para o poder hipotético de quem está no Planalto para se concentrar na perspectiva de poder que surgirá na próxima disputa presidencial.

Michel Temer alterou a prioridade de sua presidência. A prioridade anterior era não cair. A nova prioridade é passar a impressão de que ainda governa. Pode obter um ou outro remendo. Mas as reformas foram foram transferidas para o próximo inquilino do Planalto.

Gente fora do mapa

mysleepykisser-with-feelings-hid:
“ Children of War | Steve McCurry
”
Steve McCurry    

Vamos discutir ideias e não pessoas

Estamos ainda a 11 meses das eleições presidenciais mas, com um presidente com baixíssima popularidade, com inúmeros políticos envolvidos em denúncias de corrupção, com as contas públicas desequilibradas e com a alta taxa de desemprego, é natural que o debate sobre as próximas eleições tenha sido antecipado. O enorme aparelhamento do Estado brasileiro – em benefício de projetos partidários – e a maior recessão da história do país são fatos que trouxeram importantes lições que devem nortear as escolhas que faremos em 2018.

Apesar de alguns sinais de leve recuperação da economia, o modelo de Estado que temos hoje está falido e precisa ser revisto. Essa revisão começa com o diagnóstico, passa pela definição de valores e princípios, pelo debate de propostas e termina no perfil das pessoas que queremos no comando, com uma análise das suas competências.

Temos questões práticas a serem resolvidas: quais princípios irão nortear as nossas decisões? Qual a forma mais eficaz de combate à pobreza? Qual o modelo de previdência sustentável? Como termos uma representatividade política adequada? Como manter e aprimorar a independência entre os Poderes?

As respostas passam, necessariamente, pela definição de conceitos. O principal deles é saber qual caminho escolheremos: acreditar que as pessoas são capazes e responsáveis pelo seu destino ou apostar em uma classe política superior que, por meio de um Estado intervencionista, determinará o que devemos, podemos e estamos aptos a fazer.

Resultado de imagem para eleições 2018 charge
Sou totalmente convicto de que o caminho para a construção de um país admirado e com qualidade de vida para todos é o primeiro, a definição de conceitos.

Infelizmente a discussão antecipada sobre 2018 está deixando esse debate de fora. Ela está muito concentrada na avaliação de nomes, quando deveria estar – neste momento e nos próximos meses – direcionada ao debate de ideias.

Ao discutirmos, prioritariamente, a viabilidade eleitoral de candidatos e não as suas competências para a reforma do Estado brasileiro, corremos o risco de – mais uma vez – adotarmos uma solução medíocre.

É lamentável que boa parte dos formadores de opinião e da elite brasileira se mantenha omissa do debate de ideias e continue a adotar o velho roteiro de procurar alguém que possa assumir o papel de salvador da pátria.

Nesse cenário, a consequência é que vários candidatos passam a se utilizar das pesquisas, e não mais de suas convicções, para definirem os seus discursos. Porém, não podemos nos enganar, as suas práticas serão definidas pelas suas crenças.

A antecipação da discussão sobre o processo eleitoral deveria ser uma ótima ocasião para refletirmos sobre os valores e princípios necessários para a construção de um país desenvolvido, seguro e próspero. Não faltam exemplos pelo mundo.

Não podemos abrir mão dessa oportunidade, cabe a cada um de nós defender e adotar essa agenda para o Brasil.

Inspirações golpistas

“Tanto os velhos partidos como os novos, em que os velhos se transformaram sob novos rótulos, nada exprimem ideologicamente, mantendo-se à sombra de ambições pessoais ou de predomínios localistas, a serviço de grupos empenhados na partilha dos despojos e nas combinações oportunistas em torno de objetivos subalternos”.
Dita há exatos 80 anos, a frase cabe como luva aos dias de hoje. Com um agravante de arrepiar: com ela, o então presidente Getúlio Vargas justificava o fechamento do Congresso Nacional, ato primeiro do Estado Novo, golpe de 10 de novembro de 1937.

Com o poder de cassar mandatos, suspender eleições, vigiar e censurar a imprensa, prender comunistas – entre eles o jovem escritor Jorge Amado --, a ditadura Vargas prosperou com a conjunção demoníaca de economia em frangalhos e ausência de lideranças capazes de dialogar com a população pobre e descrente.

Resultado de imagem para vargas charge


Ambiente similar ao que vemos hoje, ainda que as condições objetivas de agora, na economia, e, especialmente, da maturidade institucional do país, estabeleçam e evidenciem a distância histórica.

Líder inconteste da extrema direita nacionalista, Getúlio misturou seu imenso carisma a modelagens fascistas que tanto sucesso faziam na Itália de Benito Mussolini, na Espanha franquista e na Alemanha nazista.

Mas, ao contrário da ojeriza que esses ditadores provocam em seus países de origem e em todo o mundo democrático, Getúlio virou ícone de partidos ditos da esquerda nacional, que deram a ele o status de divindade – o pai dos pobres. Até os neocomunistas tupiniquins o vangloriam.

Por ignorância, má-fé, ou ambos, esse segmento apagou da história o golpismo getulista e pesou as tintas no criador da Petrobras e da Consolidação das Leis do Trabalho, editada por decreto, em 1943, com inspiração na Carta del Lavoro (1927), da lavra de Mussolini.

Pode ser coincidência – aquela que dizem não existir – ou traquinagem da história o fato de as novas leis trabalhistas, desta vez aprovadas pelo Congresso Nacional, terem entrado em vigor no sábado, um dia depois do golpe octogenário.

Presidente do país de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954, único período para o qual foi eleito, Getúlio orientava-se pela premissa de que os fins justificam os meios, parâmetro usual entre populistas, extremistas e fundamentalistas. Não tinha limites. E demonstrou isso até na dramaticidade de sua morte.

Ainda hoje sua herança é disputada a tapa. Já foi pendenga entre o PDT e o PTB no período da redemocratização, está no discurso de todos os matizes, antagoniza e une extremos.

Sem tirar nem pôr, Getúlio cabe em qualquer manequim.

Lula, outrora reencarnação, e que já teria superado Getúlio segundo a sua tropa, usa e abusa das “conquistas” dos anos 1940 nos palanques e da popularidade do golpista que ele diz admirar. Na outra ponta, Jair Bolsonaro arrebata os getulistas saudosos dos vínculos do ditador com os militares, com a extrema direita e os anticomunistas.

Ambos partilham outra adoração: o modelo Ernesto Geisel.

Bolsonaro exibe a foto do general em sua sala e Lula elogia, com vigor, o modelo nacional-desenvolvimentista do penúltimo presidente militar, aplicado ao pé-da-letra por sua pupila Dilma Rousseff, com consequências nefastas para o país: recessão e desemprego recordes.

Os dois – Lula e Bolsonaro – também disputam aconselhamentos de Delfim Neto, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento do regime militar.

Ainda que pareça estranho ao paladar e irrite aos fundamentalistas de um lado e de outro, Lula e Bolsonaro tentam cozinhar o público com os mesmos ingredientes: a unção divina de ser o salvador da pátria, o falso moralismo e o apelo por nacionalismo de ocasião. Usam e abusam do falseamento da História, dos exemplos de Getúlio, Geisel e até JK. Tudo temperado por populismo barato.

Resta saber se o eleitor vai engolir ou não essa gororoba.