sexta-feira, 20 de maio de 2016

Charge (Foto: Moisés)

Nós que nos amávamos tanto

Dois pontos de vista antagônicos separam, em linhas gerais, o país: “foi golpe” e “foi impeachment”. Quem acha que houve golpe, quem foi às ruas de vermelho protestar e quem abriu cartazinhos em Cannes acredita que estamos desgovernados, vivendo tempos de ilegalidade; quem acha que houve impeachment acredita que temos um governo interino, por pouco representativo que seja. Ainda que tenha sido contra o impeachment, eu me incluo nesse segundo grupo. Por ridículos que sejam os deputados e senadores que afastaram Dilma, seus votos são tão válidos quanto os dela, e o impeachment é uma ferramenta legal, à qual o PT não hesitou em recorrer inúmeras vezes.

Não há consenso em relação às pedaladas, mas para cada jurista que acha que elas não são suficientes para afastar ninguém, há pelo menos outro para garantir que sim, que elas foram crime fiscal. Tudo isso já foi dito e redito mil vezes, exaustivamente; mas não há hipótese de um lado convencer o outro, ou de o outro convencer o um.

Os dois estão separados por convicções, por formas muito diferentes de entender o que deve ser feito para tirar o Brasil do buraco e, lamentavelmente, por camadas cada vez mais profundas de ódio. Mas não há apenas crápulas de um lado, ou canalhas de outro. Nenhum deles detém o monopólio das virtudes, do esclarecimento ou da inteligência. O Brasil não está dividido entre manipulados pela mídia golpista, de um lado, e gente cega pela ideologia, do outro. Está dividido entre pessoas que pensam diferente umas das outras, e que não estão conseguindo ver acima dessa diferença.

Não sei quando vamos conseguir transpor essa muralha de rancor, se é que um dia vamos conseguir. Histórias cruéis de separação entre amigos e família, que tantas vezes ouvi contar a respeito de outros países, mas que nunca acreditei que pudessem acontecer no Brasil, viraram lugar-comum. Uma amiga está afastada da filha; outra não conversa com a sobrinha há mais de um ano, e nem tem vontade.

A internet, que eu tanto amo, piora as coisas. Pessoas escrevem desaforos que jamais diriam em voz alta, ainda que os pensassem; mas o que é pensado e não dito não magoa ninguém, e ainda pode ser remediado. A palavra escrita fica para sempre.

Há alguns dias li isso na página de um amigo:

“Sinal dos tempos: evitei dar like numa foto agora, indo contra o impulso automático, porque iria gerar mal-estar na pessoa simplesmente por ser eu”.

Por acaso, ele é um dos homens mais doces e sensíveis que conheço; a prova é, justamente, ter percebido o quanto a sua simples presença seria constrangedora. Seu crime é ser contra o governo Dilma.

Para mim, esse clima de ódio será, para sempre, a verdadeira herança maldita da política brasileira, a grande maldição que Lula lançou sobre o país ao dividi-lo oficialmente entre “nós” e “eles”, autorizando todo mundo a ofender o próximo, à esquerda e à direita, e levantando, espero que não para sempre, a tampa das nossas desavenças.
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É difícil julgar um governo que ainda não completou uma semana, mas Temer começou mal. Até pela polarização do país, ele não podia se dar ao luxo de errar, ainda mais onde não precisava. Já nem vou discutir a capacidade técnica do seu ministério, mas é inaceitável, no momento atual do país, nomear pessoas que estão às voltas com a Lava-Jato; e é inaceitável, no momento atual do mundo, constituir um ministério com grau zero de diversidade.

Não se trata de nomear “representantes do mundo feminino” (!) ou minorias apenas por nomear. Envolver vozes diversas, e eventualmente dissonantes, enriquece qualquer grupo, e melhora os seus resultados. Pessoas de gêneros, etnias e classes sociais diferentes fazem diferentes perguntas e têm diferentes níveis de sensibilidade; hoje não é mais possível abrir mão dessa quantidade de experiências e interesses.

Ao mesmo tempo, quando olha para o governo, a população precisa se sentir representada — e é muito difícil para a maioria da população se sentir representada pelo grupo bisonho e quase caricatural escolhido por Temer, que em pouco ou nada lembra um “ministério de notáveis”.

Para mim, tão preocupante quanto a homogeneidade do ministério é notar a falta de fio terra do presidente interino que, como político de larga experiência, devia saber melhor onde pisa. Não é possível que ele não tenha se dado conta da péssima mensagem que a falta de diversidade do seu ministério transmitia, assim como não é possível que não tenha percebido o tamanho do impacto da extinção do MinC, outro equívoco desnecessário.

A favor do presidento destaque-se que, tendo dito e feito besteiras (no que tem sido, aliás, acompanhado pelos seus ministros), está demonstrando saber ouvir e correr atrás do prejuízo. Flávia Piovesan e Maria Silvia Bastos Marques são dois grandes nomes. Se continuar assim, o segundo escalão vai dar um banho no primeiro.

Aliás, já está dando.

Cora Rónai

Fora com os rabos

Cada vez fica mais esfarrapado o cardápio de críticas dos petistas. Nem mesmo quem foi contra o impeachment está aguentando o discurso do "golpe" e de um governo de mãos limpas. Que dirão os que vão agora pagar o desmazelo com as contas públicas, em favor de uns e outros!

Com doutrinação de um primarismo inconsequente, mesmo os outros da intelliguêntsia se ajoelham reverentes a uma canalha como diante de deuses da libertação. Também as cabeças pensantes alemãs se prostraram diante de Hitler, Stalin, Mao. Não seria aqui que mostrariam isenção e pensamento político independente. Lá fora perderiam a cabeça, aqui, a mamata. Ainda mais com tanto coleguinha, ou o próprio, agarrado às tetas governamentais.


Uma semana de governo interino bastou para se conhecer o maior número de rabos presos com o PT em dinheiro ou ideologia vesga. E a lista dos mamadores das tetas públicas, em nome do povo, que é apenas jujuba para adoçar bocas desavisadas, vai aumentando.

O analfabetismo diante da política brasileira, demonstrado pelo defensores do petismo desenfreado, deixa o país estarrecido. Como chamar de velho ou com cheiro de naftalina um ministério que é composto na maior parte por ex-aliados do PT e ex-integrantes do governos Dilmas e Lula? Velhice e naftalina também assim compuseram aqueles ministérios e até mesmo a base aliada. Desconhecem aliados como José Sarney, Collor ou Paulo Maluf?

Essa 
intelliguêntsia de boteco e de bistrô renega o prejuízo, o mais desavergonhado roubo aos cofres públicos em favor próprio ou de terceiros perpetrado pelo PT em nome da pobreza e da liberdade, quando só favoreceu os ricos, os apaniguados, os banqueiros e os corruptos.

Em respeito a tantos milhões, que pagarão por anos o desatino petista, deviam se dedicar a colaborar com a recuperação para que aqueles a quem defendem tanto no blá-blá-blá não sofram ainda mais. Não precisam apoiar o governo temporário, mas deixarem de ser cretinos. Seria de uma grande ajuda para os menos favorecidos em vez de ficar de birrinha de vítimizados a peso de ouro.

Cruzando a tormenta

Aqui na Pauliceia desvairada de Mário de Andrade e dilacerada (apud Mário Chamie) – há mários que vêm para o bem, diria o segundo que foi primeiro, pequeno homem e imenso poeta -, o céu não está para brigadeiro nem pra condor, devido a um mar impróprio para a migração de cardumes, isso por culpa de ondas muito crispadas a produzirem frio na terra, nuvens molhando nossa cabeça e ventos moderados, mas ainda assim capazes de abater árvores podres. Com cabelos molhados, a cabeça põe-se a pensar e aí aparecem pensamentos aparentemente próprios pra compartilhar, pelo menos na visão deste autor imodesto. Ainda meio dormido, acabei de comentar na Rádio Estadão que o Parlamentério de Michel Miguel tem duas bandas. Uma, sã, é composta por duas pastas que o Parlamento não quis contaminar, por saber que o buraco é muito mais embaixo e que não tem engenho nem cacife popular para enfrentar e resolver. Refiro-me à Fazenda de Meirelles, cuja missão é deter a sangria de recursos com o garrote dos ajustes. E ao Itamaraty de Serra para garimpar dinheiro no lado de lá do Atlântico Sul. Independentes, ambos dão sinais de que podem mesmo se encarregar da reconstrução e da rearrumação geral da República destrambelhada, desmantelada e desmazelada, mas só depois de evitar que o País continue afundando e a Nação, coitada, empobrecendo. A crise é tal que o crime organizado do Congresso não ambicionou justamente os dois de que a retirada do pântano da crise aguda mais depende. Deo gratias, diria Padre Carlos, meu professor de Latim no seminário dos redentoristas de Bodocongó, em Campina Grande. A banda podre do governo provisório, de que, enfim, podemos dispor, é composta pelos ministros comprometidos na Lava Jato e pelo líder na Câmara, puxado direto do bolso da algibeira do Cara de Cunha. Sem falar no secretário da Cultura, importado da mais desastrada administração municipal do País, a do tal Paes do Rio de janeiro, fevereiro e maio, comandada pelo construtor de ciclovia suspensa sobre a ressaca surpreendente (mesmo ocorrendo há milênios) e sempre assessorado pelo inveterado demolidor de maxilares femininos. Deus inspire Meirelles a mostrar didaticamente à população, assolada por 14 anos de cretinice ideológica, a ter uma ideia exata e necessária das dimensões do rombo no cofre das viúvas, ai, meu Deus. E ao vampiro anêmico compete ao Senhor indicar-lhe o caminho das pedras preciosas de além do Atlântico Sul para podermos caminhar sobre as ondas até o outro lado do mar das tormentas. Deus ilumine dom Miguel e nos valha, sempre que necessário for. Assim seja! E se for mesmo, aleluia, carne no prato e farinha na cuia.
José Nêumanne

O mundo pop do golpe

O “exército do Stédile” estava perdendo a guerra da opinião pública e os que ainda insistem em falar em “golpe” trocaram os carimbados MST, CUT, UNE e MTST por uma tropa de elite: os artistas, que se misturam às mocinhas bonitas da classe média alta de Rio e São Paulo que ilustram as manifestações da Avenida Paulista e as capas dos jornais.
O Palácio Gustavo Capanema, do Minc, foi ocupado por artistas no início da tarde desta segunda-feira (16). A iniciativa foi contra o governo do presidente em exercício, Michel Temer, e o fim do Ministério da Cultura
Manifestante no Palácio Gustavo Capanema no Rio
 Como a turma do vermelho é a minoria da minoria, a estratégia petista é usar a transformação do Ministério da Cultura em Secretaria como pretexto para mobilizar os aliados do ambiente artístico, que acham chiquérrimo ser “de esquerda” e, a partir disso, defendem qualquer coisa. Os “movimentos sociais” dividem, mas o PT acha que esse “mundo pop” soma. É assim que artistas e assemelhados invadem prédios da área de Cultura, para ganhar espaço nas TVs e atrair simpatias entre os que não entenderam nada das pedaladas fiscais e caem na história do “golpe”.
Eliane Cantanhêde

Ser comandada por um secretário diminuirá nossa Cultura?

Será que estamos viciados em reclamar? Tenho a impressão que sim. O que realmente importa é deixado de lado. Já os penduricalhos, esses são levados a sério.

O que foi que o Ministério da Cultura dos governos Lula/Dilma fez de importante para a Cultura brasileira? Criou a TV Brasil, essa maravilha que não sai do traço? Beneficiou o Brasil, onde, como?

Aqui no Rio temos a Biblioteca Nacional que guarda o que D.João VI trouxe da Torre do Tombo, quando veio fugido de Napoleão para cá. Pois bem, a longa viagem pelo Atlântico não fez um centésimo do mal que o descuido de nossos governos faz com documentos que são relatos da história de Portugal e, portanto, da do Brasil.

Há quem diga que nos países mais civilizados não há ministério da Cultura. Isso não é bem assim. Podem não ter esse nome, podem ter sido batizados com outros nomes, mas não é isso o que importa.

Vamos começar pelo país que criou a instituição ministério da Cultura: foi a França, durante o governo De Gaulle e sob os auspícios de um dos maiores intelectuais de seu tempo, André Malraux, que a batizou de Ministério da Cultura e da Comunicação.

Devemos nos lembrar que a França, saída de uma guerra terrível, precisava, urgentemente, restaurar seu acervo cultural e foi essa a principal preocupação do ministro: que as municipalidades dos diversos departamentos da França recuperassem seus museus, teatros, bibliotecas e escolas dramáticas e de música. E assim foi feito.

Mas não ficou só nisso: com o tempo, as estações de rádio e os canais de TV estatais também vieram a receber subsídios do ministério da Cultura. A televisão, hoje em dia, é a maior diversão dos franceses. Os programas de suas estações não dão traço: sua audiência é fantástica.

O cinema francês, que tantas obras-primas deu ao mundo, não depende apenas de dinheiro público, como o nosso. Basta ter paciência e ao fim de um filme francês, prestar atenção à longa lista de créditos para compreender como por lá a história é bem diferente.

Na Inglaterra, não há um ministério da Cultura. O que lá existe é um Departamento de Cultura, Mídia e Esporte. Quem estiver interessado que leia tudo que o British Film Institute faz pelo cinema inglês: http://www.bfi.org.uk

Na Alemanha, são os Institutos Goethe que há mais de 60 anos estimulam o diálogo da cultura alemã com parceiros ao redor do mundo. Trabalhando em conjunto com institutos culturais dos países que hospedam um Goethe Institut, são os cursos de língua e cultura germânicas que acabam por financiar, em conjunto com o Ministério do Exterior Alemão, a possibilidade da exibição de filmes, festivais de música e de teatro, orquestras, óperas, museus e a conservação de monumentos que dão vida às cidades alemãs.

Nesses países do hemisfério norte, assim como nos EUA, além do governo, são instituições e investidores privados que promovem a cultura nacional. A bilheteria paga os impostos e retribui com lucro a aposta dos investidores. Perguntem ao Woody Allen ou ao Martin Scorsese quem os financia...

Aqui, a cantoria é outra. Aqui, o Ministério da Cultura arca com os custos e a bilheteria, bem, essa só Deus sabe de quem é. Como disse José Nêumanne em seu artigo de 18 de maio para o Estadão, “a pasta [da Cultura] foi sempre usada para uma ação entre amigos, à nossa custa. Lula e Dilma a aparelharam para servir ao PT e à indústria fonográfica. E a usaram para tungar direitos de nossos autores e aumentar os lucros das multinacionais da cultura e de artistas nativos que se beneficiam da “bolsa show”, sob as bênçãos de Xangô e do Senhor do Bonfim. Enquanto as traças devoram a Biblioteca Nacional e os museus sob sua égide se tornam inaptos para visitas públicas”.

Da minha parte, votos de muita força ao Secretário Nacional de Cultura, Marcelo Calero.

Controle da mídia? De novo?

A reunião de autocrítica do PT nessa terça, coordenada pelo presidente Rui Falcão, decidiu que o partido está “contaminado”. E que ficou “refém” dos aliados. A culpa é sempre dos outros. O partido, que um dia foi símbolo da ética, se considera inocente. De tudo. Melhor seria só pedir desculpas, amigo leitor. Mas não vou discutir isso. Me preocupa é que voltou a circular, nela, um tema velho, equivocado, autoritário, como o do controle de mídia. Talvez porque, na visão da companheirada, caso tivesse o governo tido a coragem (digamos assim) de ir mais longe, e o impeachment não teria sido sacramentado. É o fim.

Claro que a imprensa não é neutra. Nem se pretende isso. Algum tempo faz participei, em São Paulo, de seminário junto com o jornalista Clóvis Rossi. E chegamos à conclusão de que os meios de comunicação de então viviam momentos de normalidade como exceção e de equilíbrio como alienação. Ao mesmo tempo sendo razão e sentimento, utopia e realidade, Apolo e Dionísio, Florestan e Eusebius, Quixote, Sancho e todas as dualidades clássicas da alma humana. Hoje, não se mostra muito diferente. Em qualquer parte do vasto e insensato mundo.

Ocorre que, passado algum tempo, vemos que a imprensa também é, crescentemente, um ator importante na democracia. Especialmente a brasileira. Sobretudo quando temos distâncias grandes entre o futuro prometido a quem sobrevive, Deus sabe como, e as promessas vãs desse futuro imaginário. Entre a previsibilidade do discurso oficial do poder e as inconstâncias do mundo real.

Entre a ilusão e o desemprego, o sonho e a fome, a fé e a desesperança. Produzindo o que Karin Thomas denomina “ilusão da realidade ou realidade da ilusão”. Problema, para quem anda fora da linha, é que já não dá para enganar o povo por muito tempo. Apenas isso. Problema grande.

No mundo novo da informação com múltiplas fontes, não dá mais. Essa é a novidade. Confirmando o paradoxo de Toffler, hesitando sempre entre a universalização e a tribalização. A Suprema Corte americana, com a doutrina de free speech, já confirmou que “a maior disseminação de fontes diversas e antagônicas é essencial ao bem público”. Levando o justice Hugo Black a declarar em 1945, no case Associated Press vs. United States, que “a mais ampla disseminação de informação possível é condição para uma sociedade livre”. Para nosso bem, senhores, o futuro imaginado já chegou. É hoje.

Voltar a pretender controle da mídia é (quase) inacreditável. Sobretudo em tempos de corrupção endêmica. Na verdade, em qualquer tempo. Porque uma tese assim tem, como propósito, mais que tudo proteger os poderosos. Quem acha que roubar para partidos políticos não é roubar. Quem bota grana pública no bolso. Quem lhes passa essa grana. Quem não está dando a mínima para nossa indignação. Seriam eles os grandes beneficiários dessa trama, leitor amigo. Pelo menos isso deveria ter aprendido, a companheirada. Caso estivesse mesmo interessada em não repetir, no futuro, os erros do passado recente. Compreendendo, enfim, que controle de mídia é censura. Simples assim. E que uma imprensa verdadeiramente livre é o melhor instrumento da democracia.

José Paulo Cavalcanti Filho

Despreparo cultural

O Brasil teima em ser atrasado

Acho que foi em 2012 ou 2013, não lembro. Um sujeito (não nos conhecíamos) do Ministério da Cultura telefonou-me: queria conversar comigo. Eu disse que sim. Ele queria que eu participasse da equipe que iria escrever o Plano Nacional de Cultura. Eu não estava afim – por isso fiz uma pergunta que ele não esperava: “Quanto você vai me pagar?” O sujeito aparentemente levou um susto: “Como? Quanto eu vou pagar?” Expliquei: “Você não ganha pelo seu trabalho? Então é justo que eu seja pago pelo meu trabalho”. Ele disse que me telefonaria depois. Desliguei - certo que o sujeito não me ligaria mais. Engano. Dois dias depois ele retornou e me ofereceu uma remuneração, que achei pouco – e fiz uma contraproposta. Ele aceitou no ato.

Eles queriam que eu escrevesse um texto sobre a assim chamada “cultura popular”, coisa simples, que liquidei em alguns dias.

Palhaço
Mas o que eu quero lhes dizer é que participei de duas reuniões com a “turma” que dominava o Ministério da Cultura. Numa delas, vi uma cena típica dos tempos: ao meu lado direito, um sujeito pôs sobre a mesa ostensivamente um chaveiro com a efígie de Trotsky; a duas pessoas dele, outro sujeito em resposta tinha sobre a mesa um chaveiro que homenageava Stalin. Pensei comigo: “O que estou fazendo aqui?”

Ouvi mais que falei. O que ouvi não me agradou. O jargão era o óbvio: desenvolvimento desigual e combinado, forças produtivas, cultura das elites, cultura do povo, alguém comentou que tinha lido um artigo sobre Eros Velúsia, uma bailarina que marcou época no chamado teatro de revista. Outro citou Antônio Cândido, um terceiro falou em Alfredo Bosi, um sujeito fez a exegese do circo, mas ninguém se pronunciou a respeito de uma política de cultura.

Bem, para resumir: escrevi meu texto, recebi o pagamento e nunca mais estive no Ministério da Cultura.

Às vezes, chegavam-me ecos do acontecia por lá, os quais não me agradavam. O fato é que o MC foi, como tantos outros ministérios, aparelhado pelo PT e pelo PCdoB, que refletiram na estrutura burocrática as alas e grupos e subgrupos desses partidos, cada qual buscando a hegemonia e o domínio sobre os demais. O Ministério da Cultura - visto de fora - não seguia itinerários administrativos e políticos determinados, como qualquer unidade da estrutura governamental, mas parecia um arquipélago de tendências e intenções partidárias. Com um adicional: muitas decisões eram estapafúrdias.

A liberação de grana refletia isso. Certa vez, li, espantado, que um poeta de quinta categoria de Brasília (eu li esse poeta e, por isso, sei exatamente por que ele é de quinta) foi indicado pelo ministério para “representar os escritores de Brasília na Feira Internacional de Frankfurt”. Não sei quais os critérios da escolha, mas o sujeitinho recebeu passagens, diárias e um pagamento adicional, muitas mordomias. Noutra ocasião, um grupo de escritores recebeu grana para, cada qual, se instalar numa capital do mundo (sim do mundo!) – e lá, captando o espírito do lugar, escrever um livro. Não sei também os critérios de escolha, como não sei se os livros foram escritos. Mas isto talvez não fosse o mais importante. A intenção talvez fosse cooptá-los, fazer um agrado, sei lá.

Não vou falar a respeito da Lei Rouanet - tão generosa para com os “amigos” e “aliados”. Outro dia, recebi no Facebook uma mensagem que listava doze projetos estranhos e absurdos favorecidos pela Lei Rouanet. Não vou falar sobre eles, mas muitos que nos últimos dias gritavam contra o impeachment da Dilma constavam da listagem. Uma das propostas beneficiadas foi uma peça escatológica, onde uns sujeitos, em círculo, enfiavam o dedo ou o nariz no rabicó dos outros.

Nesses tantos anos petistas, a chamada intelectualidade brasileira calou-se diante dos descalabros. Alguns – claro – porque estavam comprometidos e eram beneficiários; outros, não beneficiários, fizeram boca de siri por razões ideológicas; terceiros, nada disseram por prudência, talvez receio do patrulhamento que inevitavelmente viria.

Houve um tempo em que educação e cultura eram entendidas como complementares e, não, como duas coisas estanques, uma lá, outra cá. Eram tempos de gente da maior qualidade na sua direção: Capanema, Carlos Drummond de Andrade (chefe de gabinete de Capanema), Josué Montello, Augusto Meyer, José Honório Rodrigues, Adonias Filho, Edmundo Moniz, Edson Nery da Fonseca, José Simeão Leal. Gente que o regime militar afastou. Gente que desapareceu. Os governos petistas não trouxeram gente equivalente, mas convocou os chamados “núcleos de cultura” dos partidos dominantes, muitos dos quais são incapazes de definir cultura.

Todos falam nos danos econômicos, políticos, na dívida, na inflação, no emburacamento dos Fundos de Pensão, na corrupção, mas poucos falam nos danos na cultura. Falo de cadeira, pois jamais recebi um tostão furado pelos livros que escrevi (a não ser meus direitos autorais), jamais recebi um agrado e, à exceção da minha participação na elaboração do Plano Nacional de Cultura, recusei todos os demais convites que me fizeram. Não transformei minha vida intelectual em nenhuma badalação: não gosto sequer de noites de autógrafos, não participo de rodas, mas duvido que muitos pseudoescritores que vagam por aí tenham vendido mais livros que eu. O tal poetastro de quem falei acima não vendeu 1% do que eu vendi.

Reitero não vejo nenhum problema na volta do velho MEC, desde haja uma faxina e organização da instituição. Eu seria mais radical: eu, por exemplo, extinguiria o Ministério da Ciência e Tecnologia, fundiria CNPq e Capes, levava a FINEP para o BNDES. A fusão CNPq e Capes evitaria que pesquisadores brasileiros, que acham que o Estado é deles, recebessem, à sorrelfa, bolsas e auxílios de um e outro para o mesmo projeto.

O Estado brasileiro precisa ser refeito – e drasticamente reduzido com o fito de ser eficiente e eficaz
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As aparências enganam

Engenho e arte na saída do atoleiro

Para sair de um atoleiro, é preciso calma, engenho e arte. Improvisar e tentar sair na marra costuma ser receita certa para afundar ainda mais na lama. Dilma Rousseff que o diga.

Conseguirá Michel Temer tirar a economia brasileira do enorme atoleiro em que Dilma a deixou? Tomara que sim. Mas é bom não ter ilusões sobre as proporções do desafio que tem pela frente, a exiguidade do tempo com que efetivamente conta, a precariedade dos recursos políticos a que terá de recorrer e as problemáticas fragilidades inerentes a seu governo.


Em meio a todas essas dificuldades, é animador constatar que o novo governo parece ter percebido, com muita clareza, que o âmago do gigantesco desafio que terá de enfrentar é a penosa reconstrução das finanças públicas. E ainda mais animador saber que o núcleo da nova equipe econômica, em Brasília, contará com profissionais tão qualificados como Ilan Goldfajn, Mansueto Almeida, Marcelo Caetano e Marcos Mendes.

Tendo em vista a devastação do quadro fiscal, ninguém espera, em sã consciência, que o reparo possa ser feito num par de anos. O que, sim, talvez se possa esperar é que o governo seja capaz de promover um choque de confiança decisivo, que desencadeie um círculo virtuoso que, aos poucos, na esteira de melhora persistente das contas públicas, permita vislumbrar a restauração da sustentabilidade fiscal em prazo um pouco mais longo.

Trata-se de viabilizar uma sequência de medidas que possam dar sinais críveis de que a deterioração das contas públicas pode ser revertida. E de que o novo presidente está efetivamente empenhado na mudança do regime fiscal. O ideal seria que o governo pudesse anunciar essa sequência de medidas tão logo quanto possível, mesmo tendo em conta que muitas delas não poderão ser implementadas de imediato. Um plano de jogo claramente explicitado, que eliminasse temores de surpresas e improvisações, seria um grande avanço.

É inevitável que boa parte dessas medidas requeira a aprovação de emendas constitucionais, que podem colocar à prova o apoio do novo governo no Congresso e exigir mais tempo do que Temer efetivamente tem.

Caso Dilma seja afastada de vez, como parece provável, Temer terá pouco mais de 31 meses de mandato. E, de agora até outubro, terá de lidar com um calendário atribulado, fadado a lhe dificultar as negociações com o Congresso, exatamente quando elas deveriam ser mais intensas: interinidade até pelo menos setembro, quando o Senado deverá se pronunciar sobre o impeachment, paralisação parcial do país com as Olimpíadas e mobilização dos parlamentares com as eleições municipais, a partir de agosto. O ano de 2017 poderá ser menos conturbado. Mas, já em meados do ano seguinte, o Congresso estará totalmente mobilizado com as eleições de 2018.

Temer pode ficar tentado a se animar com a lembrança de que Itamar Franco contava, de início, com um mandato ainda mais curto, de 27 meses. E de que ainda se deu ao luxo de dilapidar os primeiros sete, permitindo-se nomear nada menos que quatro ministros da Fazenda entre outubro de 1992 e maio de 1993. Foi nos 20 meses restantes que o Plano Real pôde ser concebido e implementado com grande sucesso. Mas é preciso ter em conta que as dificuldades de viabilização do Plano Real foram de natureza distinta. Não envolveram um esforço de reconstrução fiscal tão problemático como o que Temer agora tem pela frente.

Tampouco teve o governo Itamar de lidar com fatores de risco tão sérios como os que agora terão de ser enfrentados. Temer terá de governar sob o espectro da perda de mandato por decisão do Tribunal Superior Eleitoral. E terá de conviver com a probabilidade, nada desprezível, de que os desdobramentos da Lava-Jato e de operações similares acabem afetando as possibilidades da condução da política econômica, seja pelos efeitos diretos que poderão ter sobre o governo, seja pelos abalos que poderão provocar na bancada governista no Congresso.

Fácil não será. Mas não há dúvida de que o quadro se tornou bem mais promissor.

Rogério Furquim Werneck

O que significam os cortes anunciados no Bolsa Família

O anúncio da revisão do programa Bolsa Família, que poderia levar ao desligamento de pelo menos 10% dos beneficiários, divide a opinião de especialistas. Enquanto alguns veem na medida apenas uma prática corriqueira em qualquer programa social, outros apontam um cunho político nas alterações propostas.

O novo ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra, anunciou na última semana um pente-fino no Bolsa Família – menina dos olhos dos governos do PT. Atualmente, 14 milhões de famílias recebem o benefício. A proposta do governo interino é fazer um cruzamento de diferentes bases de dados disponíveis, com o objetivo de checar se todos os inscritos cumprem, de fato, as condições de baixa renda e as contrapartidas exigidas. Estudos indicam que 10% não se enquadrariam mais nos critérios; mas, segundo o ministro, esse percentual poderia chegar a 30%.

"Acho que o processo de aprimoramento dos programas sociais é sempre algo bem-vindo. Minha leitura é de que não vai haver corte, mas um pente-fino mesmo, um cruzamento com outros bancos de dados para refinar o perfil dos beneficiários, coisa que já foi feita em outros lugares, inclusive no Rio de Janeiro", explica o economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas.

O economista – que já foi ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) do governo e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – ressalta, no entanto, que o Bolsa Família é um dos melhores programas sociais já implementados, responsável por 20% da redução da desigualdade no país desde 2001. A vantagem do programa, segundo o economista, é que ele custa pouco (menos de 0,6% do PIB) e é muito eficiente.

Um estudo do Ipea mostra que o programa estimula a economia do país por meio do aumento do consumo na camada mais pobre da população. Para cada R$ 1 aplicado pelo governo no programa de transferência de renda há um aumento de R$ 1,78 do PIB.

"O dinheiro do Bolsa Família é fundamental ponto de vista econômico, porque ele é gasto na periferia, fazendo o comércio local girar", explica o presidente do Instituto Data Popular, Renato Meirelles. Os números mostram que o programa reduz a taxa de natalidade, a mortalidade infantil e a evasão escolar, pois condiciona o recebimento do benefício a uma série de fatores, como a vacinação das crianças e a frequência escolar.

quinta-feira, 19 de maio de 2016


Desaparelhando o governo

Aos poucos, o governo do presidente em exercício Michel Temer está tentando reverter o gigantesco aparelhamento da máquina do Estado realizado pelo PT ao longo de mais de uma década. As demissões já ultrapassam a casa das centenas, o que dá uma pálida ideia da abrangência do assalto petista ao poder.

Nem é preciso dizer que essas medidas saneadoras foram recebidas pelos simpatizantes do PT como uma afronta – e a máquina de propaganda petista, ainda muito afiada, está empenhada em transformar a faxina promovida por Temer em um atentado à “cultura” e aos “direitos sociais”, justamente as áreas cuja administração foi a mais aparelhada pelo partido – e assim, não à toa, se prestam à marquetagem fraudulenta que faz do PT o proprietário das classes pobres do País. O escândalo que alguns artistas estão fazendo para desqualificar Temer inclusive no exterior, para ficar somente neste exemplo embaraçoso, mostra bem a dificuldade que o presidente em exercício terá para retirar a administração pública de vez da órbita do PT e de seus simpatizantes e devolvê-la ao conjunto dos brasileiros.


A claque petista fez muito barulho com a decisão de Temer de fundir o Ministério da Cultura com o Ministério da Educação, rebaixando aquela pasta à categoria de Secretaria. Do ponto de vista da imagem política, foi um desastre que poderia ter sido evitado, pois alimenta a acusação de que Temer estaria interessado em retaliar a chamada “classe artística” porque esta se alinhou à presidente Dilma Rousseff e fez campanha contra o impeachment.

No entanto, noves fora o fato de que não existe essa tal “classe artística”, a não ser na cabeça de quem não consegue enxergar a sociedade como um conjunto de indivíduos, e sim como uma reunião de corporações com vocação estatal, a decisão de Temer foi essencialmente correta, porque a pasta da Cultura foi transformada pelo PT em um de seus principais feudos, espécie de ponta de lança da construção da imagem do partido como o único capaz de interpretar as aspirações nacionais.

A grande prova de que o Ministério da Cultura era apenas uma espécie de departamento de agitação e propaganda do PT foi dada quando funcionários da pasta receberam o novo ministro da Educação, Mendonça Filho, aos gritos de “golpista” e de “golpe não, cultura sim”. A limpeza promovida por Temer é portanto uma consequência natural da constatação de que a Cultura não estava a serviço do Brasil, mas de um partido político.

O mesmo se deu no caso da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Criada no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a EBC deveria servir como uma “instituição da democracia brasileira: pública, inclusiva, plural e cidadã”, como se lê em sua carta de intenções. Mas acabou se transformando em braço do lulopetismo. A necessidade do governo Temer de desaparelhar a EBC ficou evidente quando Dilma, às vésperas de ser afastada da Presidência, nomeou para presidir a empresa o jornalista Ricardo Melo, na certeza de que este seria aliado firme do PT na guerrilha comunicacional contra o governo interino. Temer exonerou Melo, que entrará na Justiça sob a alegação de que seu mandato não podia ser interrompido.

A luta contra a contaminação petista envolve muitas outras áreas do governo. Temer achou por bem, por exemplo, exonerar da presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) o sociólogo Jessé de Souza. Na chefia de um órgão responsável por pesquisas que ajudam a balizar importantes decisões de governo, Jessé havia dito que o impeachment era uma “mentira das elites” e que a crise econômica “foi produzida politicamente” por empresários.

Isso é só o começo. É muito provável que Temer tenha de ir ainda mais fundo se quiser extirpar o lulopetismo entranhado na administração federal. E ele tem de estar preparado para encarar o esperneio daqueles que, depois de apoiar de corpo e alma um projeto de poder que julgavam eterno, estão muito perto de perder a preciosa boquinha.

Petista resistem a abandonar a EBC

Não conheço o jornalista Ricardo Melo, o ex-presidente da EBC – Empresa Brasileira de Comunicação - que ameaça entrar na justiça para ser readmitido alegando que seu mandato é de quatro anos. Mas acho um desaforo a Diretoria Executiva da empresa se manifestar de público para garantir o emprego dele. A lei prevê que o mandato é de quatro anos. Mas ela não diz em momento algum que o cargo é irremovível, portanto, cabe à presidência da república revogar o ato quando bem quiser. Aliás, está na hora de desaparelhar a EBC que se transformou no maior cabide de emprego público do país.

A diretoria da EBC, formada por militantes petistas, exige a recondução de Melo à presidência como se a empresa fosse propriedade desse grupelho que não só se apoderou dos cargos como alguns de seus jornalistas viraram porta-vozes do PT. Esquecem, entretanto, que a petezada, quando assumiu o governo, desrespeitou diretores das agencias reguladoras pressionando-os a abandonar as funções mesmo protegidos pela imunidade já que seus nomes tinham sido aprovados pelo Congresso Nacional.

No governo petista a EBC foi parar no fundo do poço. Os profissionais mais antigos, que não rezavam na cartilha do partido, foram perseguidos, discriminados e muitos demitidos. Distribuiu--se cargos de chefias a profissionais desqualificados e incompetentes cujos currículos foram forjados nos comitês de propaganda petistas. Muitos de seus diretores eram notoriamente militantes que passavam o tempo ocioso pendurados na rede social fazendo campanha da Dilma e denunciando como golpe o impeachment assegurado pela Constituição.

A notícia de que o jornalista Laerte Rímoli foi escolhido pelo governo para assumir a presidência da EBC alvoroçou o mercado editorial. Poucos profissionais no Brasil têm o currículo dele. E poucos conhecem tão bem de jornalismo como Rímoli. A sua indicação para a EBC é sinal de que o governo pretende democratizar a informação e dar à notícia a imparcialidade universal, pondo fim as informações tendenciosas da empresa.

Laerte Rímoli tem uma carreira invejável. Trabalhou em todas as grandes redações do país. Por onde passou deixou bons amigos e marcou sua trajetória pela eficiência e capacidade de trabalho. Ao contrário de outros presidentes que passaram pela EBC apenas por indicações políticas, Rímoli chega à principal agência de notícia do governo pela experiência que acumulou no jornalismo ao longo das últimas décadas.

A EBC, é o que se espera do novo presidente, vai ser reestruturada. Rímoli saberá escolher entre os profissionais competentes e os militantes que ainda vivem lá dentro como se estivessem numa célula política agitando a bandeira vermelha do PT. Os cabeças brancas estão acertando nas indicações para o setor de comunicação. Outro bom exemplo foi a convocação do jornalista e diplomata Pedro Luiz Rodrigues para gerenciar a comunicação internacional do governo.

Pedro é outro profissional de currículo invejável. Começou na Rádio Jornal do Brasil no início da década de 1970, trabalhou nas redações dos grandes jornais do país e na carreira diplomática honrou o nome do Brasil lá fora. Com todo o imbróglio que ainda envolve a posse de Temer, o governo pelo menos começa a acertar na comunicação. Bom sinal.

Jorge Oliveira

O que o futuro reserva a Lula

A condenação do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu a 23 anos e três meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva, participação em organização criminosa e lavagem de dinheiro, não surpreendeu quem acompanha de perto os desdobramentos da Lava-Jato. Tampouco o rigor da pena que equivale a uma espécie de prisão perpétua, a levar-se em conta a idade avançada de Dirceu (70 anos).

Foi a maior pena aplicada a um réu em uma única ação desde o início das investigações Lava-Jato.

De fato, a sentença lavrada pelo juiz Sérgio Moro chamou a atenção pelo o que diz em dois momentos. O primeiro:

- Não entendo, como argumentou o Ministério Público Federal, que o condenado dirigia a ação dos demais políticos desonestos, não estando claro de quem era a liderança.

O segundo:

- [Não reconheço o ex-ministro] como comandante do grupo criminoso, pelo menos considerando-o em toda a sua integralidade (empresários, intermediários, agentes públicos e políticos).


Terá havido um poderoso chefão ou mais de um chefe da roubalheira praticada na Petrobras por malfeitores? É a caça dele - ou deles - que está Moro. E também o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot.

Na denúncia contra Lula apresentada ao Supremo Tribunal Federal no início de maio, Janot afirma que ele teve “papel central” na trama para tentar barrar a Lava Jato e a delação premiada do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró.

O procurador conclui que Lula “impediu e/ou embaraçou investigação criminal que envolve organização criminosa, ocupando papel central, determinando e dirigindo a atividade criminosa praticada por Delcídio do Amaral, André Santos Esteves, Edson de Siqueira Ribeiro, Diogo Ferreira Rodrigues e José Carlos Bumlai”.

O cerco a Lula só faz estreitar-se. Ele é alvo de quase uma dezena de investigações, incluindo-se as levadas a cabo pelo Ministério Público de São Paulo. Ou Lula acabará preso por um ou mais crimes, ou inocentado das suspeitas que, hoje, o perseguem.

Se preso, sua carreira política chegará ao fim. Se inocentado, será forte candidato a presidente da República daqui a dois anos. Sua idoneidade, afinal, terá sido atestada em todas as instâncias da Justiça.

Reincidência faz de Dirceu um mártir do cinismo

Ao condenar José Dirceu a 23 anos e 3 meses de cadeia, nesta quarta-feira, o doutor Sérgio Moro transformou em pó a análise de conjuntura que o diretório do PT aprovara horas antes. Na sentença do juiz da Lava Jato, Dirceu não é o “heroi do povo brasileiro” retratado no grito de guerra da militância, mas um criminoso reincidente. Ainda assim, o documento do PT refere-se à Lava Jato como uma operação “golpista”.

“A Operação Lava Jato desempenha papel crucial na escalada golpista”, anotou o PT na sua análise de conjuntura. “Alicerçada sobre justo sentimento anticorrupção do povo brasileiro, configurou-se paulatinamente em instrumento político para a guerra de desgaste contra dirigentes e governantes petistas, atuando de forma cada vez mais seletiva quanto a seus alvos, além de marcada por violações ao Estado Democrático de Direito.”


Preso em Curitiba desde agosto de 2015, Dirceu foi sentenciado por ter recebido pixulecos que somam R$ 15 milhões. Dinheiro roubado da Petrobras. O juiz espantou-se com a desfaçatez exibida pelo personagem em sua reincidência.

Para Moro, “o mais perturbador em relação a José Dirceu consiste no fato de que recebeu propina inclusive enquanto estava sendo julgada pelo plenário do Supremo Tribunal Federal a Ação Penal 470 [caso do mensalão], havendo registro de recebimentos pelo menos até 13 de novembro de 2013. Nem o julgamento condenatório pela mais Alta Corte do país representou fator inibidor da reiteração criminosa, embora em outro esquema ilícito.''

No seu documento, o PT se absteve de fazer uma defesa aberta de Dirceu. Preferiu nem mencionar os nomes dos seus mártires. Conforme já comentado aqui, o texto apenas lamentou que o partido tenha adquirido o hábito da corrupção por contágio, como quem pega uma gripe: “…Fomos contaminados pelo financiamento empresarial de campanhas, estrutura celular de como as classes dominantes se articulam com o Estado, formando suas próprias bancadas corporativas e controlando governos.”

No caso de Dirceu, a “contaminação” reforçou o patrimônio pessoal do condendo, não as arcas eleitorais da legenda. O companheiro conspurcou os fins e apropriou-se dos meios. Na juventude, sonhou ser uma espécie de Che Guevara brasileiro. Mas, que diabos, além do país Dirceu precisava reformar a mansão de Vinhedo.

Mas nem tudo está perdido. Apesar da sentença de Sérgio Moro, o documento do PT revela uma ótima notícia: não houve nenhum aumento no nível de cinismo do PT. Continua nos mesmos 100%. Com a vantagem de que Dirceu consolidou-se como mártir desse cinismo.

Com a dedetização da esgotosfera, reapareceu a espécie considera extinta desde 2003

A nova direção da Secretaria de Comunicação Social (Secom) já fechou as comportas das represas de publicidade oficial que nos últimos 13 matou com jorros de dinheiro a sede dos blogueiros estatizados. A vida mansa acabou. A esgotosfera vai ter de repartir as fontes que sobraram, como as prefeituras de São Paulo e de Maricá. As mesadas garantidas por Fernando Haddad e Washington Quaquá sustentam até fábricas de sabujices montadas no exterior.

A troca de comando na Empresa Brasileira de Comunicação avisa que chegou ao fim a farra na TV Brasil e em outros galhos administrativos transformados em imensos cabides de emprego. As duas medidas já provocaram estragos de bom tamanho no Programa Desemprego Zero para a Companheirada. Ainda falta muita coisa. Falta, por exemplo, um rigoroso pente fino nos contratos com sites e blogs arrendados que sangraram a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica.

Embora em seu começo, a drenagem desse pântano da sabujice vai produzindo produziu saudáveis mudanças na paisagem. Uma delas: já podem ser vistos por aí exemplares de uma espécie considerada extinta desde 2003. Depois de tanto tempo sumido, como a ararinha-azul e o mico-leão dourado, o petista desempregado reapareceu.

A hora do tratamento

Com a troca de posições — os governistas passando a oposicionistas e vice-versa —, as torcidas estão meio confusas. Por exemplo, diante do panelaço contra a entrevista de Michel Temer no “Fantástico”, ouvido em pelo menos sete cidades e em 14 bairros do Rio, o que dizem os que desclassificavam esse tipo de protesto como coisa dos “coxinhas”, da “elite branca”? Um desses atos chegou a tirar a paciência da discreta Dona Marisa, que, num áudio famoso, mandou enfiar as panelas onde definitivamente não cabiam. Ao mesmo tempo, por que abandonar um modelo de manifestação com tanta visibilidade só porque foi inventado pelos adversários? Às favas a coerência. Também está sendo difícil aos “temeristas” (ou “temerários”?) justificar as incertezas do novo governo na formação de seu Ministério, ora nomeando, ora desnomeando. Isso quando não há o recuo do recuo, como no caso da Cultura, que de ministério passou a anexo da Educação; depois, com a reação do setor, virou secretaria e, finalmente, uma secretaria a ser dirigida por uma mulher. Até o fim deste artigo, ainda se procurava uma secretária. Tomara que o nosso interino consiga uma Maria Silvia Bastos Marques para o cargo, como conseguiu para o comando do BNDES.

Aposentadoria Previdencia idade minima 65 anos se conseguir emprego e mantiver B

Este governo está tendo de fato muitos tropeços, mas é arriscada a aposta da nova oposição de que “não vai dar certo” e, por isso, o melhor é ficar bem longe do fracasso, pelo qual está torcendo. Mas, e se der certo, qual vai ser a “narrativa” (para usar o mais recente modismo da política), já que a do “golpe” vai estar desgastada e a de que “vão acabar com os programas sociais” pode ser desmentida? Ser do contra, por princípio, é uma forma estéril de radicalismo. Ao adotar essa posição incondicional, o PT ficou mal na foto em vários momentos importantes, como no caso da eleição de Tancredo Neves, em que chegou a expulsar os que desobedeceram à ordem de não votar. Ou quando foi contra o Plano Real, a privatização da telefonia, a Constituição de 1988, que não assinou, entre outras decisões equivocadas que acabaram obrigando o partido a ficar se explicando perante a História.

Nesse sentido, a posição mais pragmática talvez seja a do empresariado, que está otimista e oferece ao governo provisório apoio, mas também provisório, com prazo de validade. Ou seja, o discurso de boas intenções dos que estão chegando é bem-vindo, mas tem que se concretizar na prática. Questões como o ajuste das contas públicas e a reforma trabalhista e, principalmente, a previdenciária, precisam ser, senão resolvidas, pelo menos equacionadas. Chega de diagnóstico, é urgente o tratamento.

Zuenir Ventura

Inferno nacional

A historinha abaixo transcrita surgiu no folclore de Belo Horizonte e foi contada lá, numa versão política. Não é o nosso caso. Vai contada aqui no seu mais puro estilo folclórico, sem maiores rodeios.

Diz que uma vez um camarada que abotoou o paletó. Em vida o falecido foi muito dado à falcatrua, chegou a ser candidato a vereador pelo PTB, foi diretor de instituto de previdência, foi amigo do Tenório, enfim… ao morrer nem conversou: foi direto ao Inferno. Em chegando lá, pediu audiência a Satanás e perguntou:

– Qual é o lance aqui? Satanás explicou que o inferno estava dividido em diversos departamentos, cada um administrado por um país, mas o falecido não precisava ficar no departamento administrado pelo seu país de origem. Podia ficar no departamento do país quer escolhesse. Ele agradeceu muito e disse a Satanás que ia dar uma voltinha para escolher o seu departamento.

Está claro que saiu do gabinete do Diabo e foi logo para o departamento dos Estados Unidos, achando que lá devia ser mais organizado o inferninho que lhe caberia para toda a eternidade. Entrou no departamentodos Estados Unidos e perguntou como era o regime ali.

– Quinhentas chibatadas pela manhã, depois passar duas horas num forno de duzentos graus. Na parte da tarde: ficar numa geladeira de cem graus abaixo de zero até as três horas, e voltar ao forno de duzentos graus.

O falecido ficou besta e tratou de cair fora, em busca de um departamento menos rigoroso. Esteve no da Rússia, no do Japão, no da França, mas era tudo a mesma coisa. Foi aí que lhe informaram que tudo era igual: a divisão em departamento era apenas para facilitar o serviço no Inferno, mas em todo lugar o regime era o mesmo: quinhentas chibatadas pela manhã, forno de duzentos graus durante o dia e geladeira de cem graus abaixo de zero, pela tarde.

O falecido já caminhada desconsolado por uma rua infernal, quando viu um departamento escrito na porta: Brasil. E notou que a fila à entrada era maior do que a dos outros departamentos. Pensou com suas chaminhas: “Aqui tem peixe por debaixo do angu”. Entrou na fila e começou a chatear o camarada da frente, perguntando por que a fila era maior e os enfileirados menos tristes. O camarada da frente fingia que não ouvia, mas ele tanto insistiu que o outro, com medo de chamarem atenção, disse baixinho:

– Fica na moita, e não espalha não. O forno daqui está quebrado e a geladeira anda meio enguiçada. Não dá mais de trinta e cinco graus por dia.

– E as quinhentas chibatadas? – perguntou o falecido.

– Ah… O sujeito desse serviço vem aqui de manhã, assina o ponto e cai fora.
Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta)

O afastamento de Dilma causou alívio à maior parte do país

O afastamento por até 180 dias da presidente Dilma obedeceu à Constituição e já propiciou algum alívio ao país. Alívio maior somente acontecerá depois de seu esperado afastamento definitivo. O episódio lembra a figura bem-humorada de Plínio de Arruda Sampaio, morto em 2014, aos 84 anos. Advogado, promotor público, professor, ativista político e ex-deputado federal por três mandatos, Plínio, ao lado de gente boa, fez parte da Ação Popular, ligada à Ação Católica, que combateu a ditadura militar. Foi filiado ao PDC, ao MDB, ao PT e ao PSOL. Por este, foi candidato a presidente da República em 2010.

Em 1978, Plínio apoiou a candidatura de Fernando Henrique como suplente do Senado por São Paulo. Com outros, teriam acertado a criação do Partido Socialista Democrático Popular (PSDP), se FHC tivesse mais de 1.000.000 de votos. O ex-presidente conquistou 1.600.000, mas optou pelo fortalecimento do MDB. Arruda se considerou traído. Deixou o MDB, foi fundador do PT e, depois, filiou-se ao PSOL.


Está até hoje na internet, de viva voz, este comentário de Plínio sobre a despreparada candidata Dilma Rousseff: “Eu acho que é um absurdo ir para a Presidência da República uma senhora desconhecida. Você nunca a entrevistou antes. Ela surgiu sagrada como candidata. O país vai sofrer com isso, e é mais provável que dê errado. Primeiro: nessa história de ter um fantasma atrás dela mandando, acontece besteira sempre. ‘O presidente Lula fez mais inquérito que tudo’, ela diz. Quer dizer, então, que teve muita gente roubando… Não tem autoridade, esse é o problema dela. É uma pessoa fabricada pelo Lula. Essa moça é um blefe. Ela foi inventada, está defendendo uma política que superficialmente parece ser muito boa, mas ela não vem ao debate, pois não tem resposta para isso, e queremos trazer o Brasil real para esse debate, não o Brasil fabricado pelos marqueteiros. Ela é um produto de marketing político, uma invenção marqueteira, e é isso que precisamos rejeitar. Olha: a única coisa que peço aos que não votarem em mim é que, quando acontecer o que eu disse, lembrem-se, o Plínio disse. Quando não tiver dinheiro para nada… Ah, o homem lá falou…”.
Plínio não sobreviveu para constatar, com os próprios olhos, o que fez a “moça”, que, para ele, era um blefe. Felizmente, talvez.

Pois bem. Sem verter uma só lágrima, e circundada por ex-ministros, ex-auxiliares e alguns políticos, a presidente Dilma confirmou, em seu patético pronunciamento no Palácio do Planalto, além de seu temido perfil humano e de sua maneira errática ao falar em público, a mesma soberba que há mais de cinco anos exibe ao país. Comportou-se como vítima e não foi capaz de reconhecer o mal que fez aos pobres ao optar por uma política econômica, no mínimo, suicida. Em seguida, ao se dirigir ao pequeno “exército”, composto, em sua maioria, de gente humilde (explorada por ela e por seu partido), que a aguardava fora do Palácio, repetiu, exaustivamente, o mesmíssimo discurso.

Não há dúvida de que o presidente em exercício Michel Temer tem em mãos uma empreitada hercúlea (e histórica), que exige dele coragem, seriedade, competência, mas, sobretudo, urgência.

Há muito mais coisa para escrever sobre o mal que a presidente afastada fez ao país. Mas não se pode deixar de registrar o seguinte: aboletada no Palácio da Alvorada, e a nossas expensas, ela não poderá usá-lo para denegrir-lhe a imagem. Seria de todo intolerável!

Mas ela o fará, se formos lenientes.