sábado, 8 de agosto de 2015

Os olhos do mundo estão voltados para o Brasil

Fazia tempo que o Brasil não era perscrutado com tanta atenção e preocupação fora de suas fronteiras, sobretudo porque a crise da Petrobras e a Operação Lava Jato já afeta vários países estrangeiros. Todos querem saber como a crise vai acabar. A mídia internacional está contatando os correspondentes de seus países em busca de notícias e comentários.

O jornal The New York Times cunhou uma frase que acendeu o alarme ao afirmar que o Brasil passou de nação “emergente” a nação “em emergência”. Este país preocupa, neste momento, não só ospaíses-irmãos do continente latino-americano, mas todas as chancelarias da Europa e Ásia.

“É que tudo foi muito rápido”, comentavam comigo, intrigados, os colegas de uma emissora de rádio chilena e de outra que transmite em espanhol nos Estados Unidos.

Perguntam o que Lula pensa da crise, se é verdade que a presidenta Dilma Rousseff pode cair, se o ministro da Fazenda, Joaquim Levy,tem ainda margem de manobra para frear os gastos e garantir um ajuste final digno de confiança.

Também me perguntam o que a oposição está fazendo e o que pensam as pessoas da rua e dos círculos empresariais. E o jornalista fica perplexo ao ver como a crise é vista e acompanhada até os últimos detalhes longe das fronteiras brasileiras.

Isso é bom ou ruim? É positivo esse interesse e preocupação pelo que até ontem era visto como o gigante econômico da região, capaz de começar a ter protagonismo mundial? Ou está mais para uma atenção mórbida?

Difícil saber. Há quem prefira pensar que seria melhor que esses países se preocupassem com seus problemas domésticos e deixassem o Brasil em paz, ao mesmo tempo que não poucos brasileiros desejam saber como o que se passa aqui dentro é visto e sentido fora do país.

Pessoalmente, acho que em um mundo globalizado nem é possível nem positivo que um país se isole, submerso em suas crises e problemas, sem que os demais se interessem por ele.

Não deixa de ser positivo que o mundo se preocupe e se surpreenda com o que um editorial deste jornal chamou de “tripla crise brasileira”, porque sabe que uma derrocada deste país, de posição-chave na América Latina e que começava a ser uma peça importante no xadrez mundial, pode afetar a todos.

Hoje, dificilmente existem crises econômicas e políticas isoladas no mundo. Umas se alimentam, enriquecem ou empobrecem com as outras. De algum modo todos estamos em um mesmo barco planetário.

Sempre se disse que, quando um país importante com o os Estados Unidos se resfriavam, os outros pegavam uma pneumonia. Hoje, estamos todos tão perto, tão conectados para o bem e para o mal que ninguém fica doente sozinho.

Existe o desejo de que se dissipem quanto antes os fantasmas que hoje, como em todas as crises do mundo, assustam e golpeiam as camadas mais fracas da cadeia social

Apesar da crise atual, o Brasil continua sendo visto como um país invejado por suas possibilidades, suas riquezas naturais e humanas e seu papel estratégico no tabuleiro mundial.

E há algo positivo que se observa na preocupação externa com a crise que o golpeia: não existe satisfação nem sequer dissimulada com os males que afligem o Brasil. Pelo contrário, nota-se uma mescla de simpatia por este país. Ninguém gosta de vê-lo caído no ringue, mas percebe-se, ao se constatar esse interesse pela crise, um desejo de vê-lo novamente vivo e erguido

E os brasileiros? O que pensam da crise?, perguntam no exterior. A resposta não é fácil nem é única porque a sensibilidade proverbial dos brasileiros está ferida e os sentimentos estão à flor da pele.

No entanto, não acho que me engano, escutando pessoas de diferentes estratos sociais, ao acreditar que há um denominador comum que atravessa todos os segmentos da crise e que poderia ser resumido assim: o Brasil é mais importante que seus políticos; os presidentes passam, e os brasileiros com suas virtudes e defeitos e seu desejo de ser felizes seguem seu caminho. Ninguém deseja o pior, nem como vingança. E embora custe às vezes confessar e até acreditar, existe a esperança, às vezes muda e às vezes verbalizada, de que a crise acabe o mais rápido possível para que o país volte a crescer.

Existe o desejo de que se dissipem quanto antes os fantasmas que hoje, como em todas as crises do mundo, assustam e golpeiam as camadas mais fracas da cadeia social.

A esses, por exemplo, que se viram forçados a lançar mão de suas pequenas economias. Haviam começado a fazê-las com orgulho, como os cidadãos dos países desenvolvidos, pensando que amanhã seus filhos poderiam usá-las, mas hoje se veem obrigados a gastá-las para enfrentar a crise.

O Brasil voltará a poder sorrir quando os pobres, que se haviam livrado da miséria, puderam voltar a poder economizar.

Máximas de Ulysses, reincidência de Dirceu, aviso das ruas

"Não há Direito nem Liberdade para o mal". Eis uma das mais sintéticas e verdadeiras máximas de Ulysses Guimarães. O pensamento do saudoso parlamentar e estadista ganha especial relevância e atualidade nesta semana da nova prisão de José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil do Governo Lula, já condenado por corrupção no processo do Mensalão (relatado no Supremo pelo ministro Joaquim Barbosa). Agora, reincidente, ele terá que responder pela agravante acusação de "enriquecimento pessoal ilícito”, perante o juiz Sérgio Moro.

Semana também do programa político do PT, apresentado em rede nacional na agitada noite de quinta-feira, 6, cheirando a fósforo e gasolina espalhada em pleno horário nobre da televisão brasileira. Ancorado pela presidente Dilma Rousseff e seus coadjuvantes petistas Rui Falcão, Lula e o ator José de Abreu (em desempenho mais caricato que do inverossímil e tresloucado mendigo que encarnou na novela "Avenida Brasil).

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Um espetáculo de incrível precariedade e insensatez sob qualquer ângulo de observação e análise. Medíocre, mambembe, quase chinfrim (tanto do ponto de vista do formato e do conteúdo geral - comparados com outros programas do gênero -, quanto sob o estrito ângulo de peça de marketing partidário ou de propaganda institucional).

Só superado, talvez, pelo inglório, grotesco e insano ato de provocação pública protagonizado, no plenário do Congresso, pelo senador e ex-presidente da República, Fernando Collor de Mello (banido do cargo supremo de governo por corrupção), ao chamar (entre os dentes raivosos) o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de "filho da puta".

A reação negativa foi simultânea e para jamais ser esquecida. Enquanto o programa transcorria, levantou-se um clamor de ensurdecer, na noite das capitais e de centenas de grandes e pequenas cidades do País. Onda avassaladora de indignação e protestos: Caçarolaços, buzinaços, apitaços, foguetaços e todos os aços possíveis de imaginar. Além de momentos de marcante originalidade, sentimento ético e de cidadania. Emoção à flor da pele e tudo na direção contrária das cenas do programa petista na TV.

O exemplo mais bonito e significativo, talvez: o saxofonista tocando um solo de arrepiar do Hino Nacional na sacada de um prédio na escuridão da noite em Salvador, durante os 10 minutos de duração do programa do PT. No fim, com as panelas ainda batendo contra o show de arrogância, insensibilidade e provocação de Dilma, Lula, Rui Falcão e José de Abreu, os aplausos e gritos de entusiasmo das ruas, dirigidos ao músico da Bahia em sua sacada. O vídeo gravado começou a correr as redes sociais logo em seguida e não há peça melhor que sua exibição, na convocação dos protestos nacionais de rua contra a corrupção e o governo Dilma, marcado para o dia 16. A conferir.

E estamos de volta à máxima de Ulysses na abertura deste artigo. Está na coletânea das 100 melhores frases do parlamentar brasileiro. Recolhidas e selecionadas por sua mulher, Mora Guimarães, lustram e ilustram a abertura de "Rompendo o Cerco", livro referencial sobre lutas e pronunciamentos de Ulysses ao longo dos anos de resistência e brilho parlamentar.

Merece e deve ser relembrada nesta primeira semana de agosto (o mês promete ser digno como nunca da sua tradição de desgostos e eclosões de fatos surpreendentes na vida política nacional). Marcada por nova etapa da Operação Lava Jato - cada dia mais firme e inclemente na ação de profilaxia nacional contra malfeitos e malfeitores - que levou de volta à cadeia José Dirceu. Um quase renegado, atualmente, na cela da carceragem da PF em Curitiba.

"Rompendo o Cerco", cujo título é inspirado – a Bahia jamais esquecerá - na participação épica de Ulysses em episódio histórico de resistência nas ruas de Salvador, na noite do 1º de Maio de 1978, é referencial. Foi publicado antes do político desaparecer na trágica queda do helicóptero que o conduzia, em tarde de tempestade, na volta de um feriadão na região dos lagos (RJ) para São Paulo.

O corpo de Ulysses jamais foi encontrado. "Segue encantado no fundo do mar", crê firmemente e proclama por escrito em verso e prosa o advogado e poeta de Marília (SP), Luiz Alfredo Motta Fontana. Repórter da sucursal baiana do Jornal do Brasil, nos idos de maio de 78, recebí um exemplar das mãos de Ulysses, com uma das dedicatórias mais honrosas da minha vida profissional.

Isso é para dizer: Senti o espírito e as palavras de Ulysses flutuando, mais cedo, na encrespada quinta-feira, sobre o Congresso, no Planalto Central. E à noite sobre os céus do Brasil, durante o programa do PT e dos caçarolaços em Salvador e em todo País. Acredite quem quiser. Só lembro, para terminar, que é também do sábio timoneiro da política brasileira, outra frase lapidar e atualíssima: "Que beleza o convite de Jean Cocteau: Fechamos com doçura os olhos dos mortos. Com a mesma doçura devíamos abrir os olhos dos vivos". Grande Ulysses! Na mosca!

Dilma e a entropia

Dilma psicanalista freud esta ouvindo aplausos crise e grave

Uma das características em casos terminais é a legítima recusa do paciente em aceitar o oblívio iminente. É isso o que PT e o governo Dilma estão a fazer, como o programa de TV deles demonstrou.

Parece ínfima a chance de qualquer plano ter efeito além do prolongamento da crise, ao estilo Collor e seu "ministério ético" de 1992. Por isso, o que há hoje é uma série de cenários excluindo Dilma do jogo.

Não é golpe: atingimos o ponto em que a entropia impera. Conceito da termodinâmica, ela designa forças destruidoras dentro de um sistema de trocas de energia. Invariavelmente, segundo a teoria, num dado momento tudo é implodido por ela.

O governo hoje é um cadáver insepulto na Esplanada, e ninguém sabe bem o que fazer com o corpo. A Câmara está perdida, e o Senado é inconfiável. A economia está de joelhos e todos só temem o que mais sairá da Operação Lava Jato.

Normalmente, uma oposição forte surgiria como alternativa de poder, de aglutinação. Isso inexiste, até porque cada um quer uma coisa: Aécio torce por uma improvável nova eleição, Alckmin reza pela manutenção do cadáver em praça pública e Serra, pelo impeachment e por Michel Temer o transformar no que FHC foi para Itamar Franco. Tudo frágil.

O PMDB, fiel da balança em qualquer cenário, também está dividido, ainda que seus atores trabalhem mais em conjunto do que a vã filosofia afere. Temer e Eduardo Paes podem sonhar com horizontes. O vice está no fio da navalha, fiador da democracia ao mesmo tempo em que não pode parecer traidor; Eduardo Cunha lidera uma Casa inflamada, e Renan Calheiros sorri para os apelos infrutíferos de Dilma.

O desfecho é uma incógnita, como mostram os boatos (renúncia pronta, Lula ministro, Temer fora etc.) da sexta (7). Certezas: todo mundo está à mercê da Lava Jato, e o governo acabou sem começar. O resto fica por conta da potência da entropia.

Guerreiro do povo brasileiro

Vão longe os tempos do braço erguido e do punho fechado. A novidade da prisão de José Dirceu encontra-se na esfera das narrativas. Mesmo para o PT, o "preso político" do mensalão reduziu-se a um político preso. A lacônica nota partidária assinada por Rui Falcão sequer menciona seu nome. Na declaração agourenta do ministro Ricardo Berzoini, um homem de Lula, "cabe aos investigados tomarem as providências que julgarem necessárias para se defenderem perante a Justiça". O celebrado "guerreiro do povo brasileiro" não perdeu apenas os andrajos de liberdade pendurados no mancebo da prisão domiciliar: foi condenado por seu partido ao degredo político. É uma forma de adiar a reflexão inevitável sobre as fontes ideológicas do apodrecimento ético do PT.

O PT traçou uma linha na areia separando a "corrupção pela causa", virtuosa, da "corrupção pelo vil metal", pecaminosa. Corrupção virtuosa: no mensalão, intelectuais petistas produziram doutos textos consagrados à defesa da apropriação partidária de recursos públicos, e a relativa pobreza de Genoino tornou-se símbolo e estandarte. Corrupção pecaminosa: Dirceu, indicam as provas oferecidas pelos delatores, usou sua influência no governo para constituir patrimônio pessoal. O guerreiro caído cruzou a linha proibida. Seu degredo é uma desesperada tentativa de perenizar a fronteira que se apaga sob ação do vento.

Não existe pecado do lado de cá do Equador. Se o país se divide entre Povo e Elite, e se o Partido é a ferramenta da emancipação popular de um jugo de 500 anos, então a "corrupção pela causa" não é corrupção, mas um expediente legítimo na jornada libertadora. A fórmula inflexível, refletida nos punhos cerrados do mensalão, tem suas próprias implicações. É em nome dela que Dirceu experimenta a condenação mais implacável. Numa ordem unida à qual só escapam cortesãos inúteis e vozes periféricas de aluguel, o Partido imprime-lhe na fronte o estigma do traidor. "Bode expiatório", disse seu advogado, numa referência aberta a interpretação.

Dirceu é Dirceu, a segunda face do PT, não um Duque qualquer, um Paulinho Land Rover ou um Vargas que só era André. Dobrando-se ao vil metal, o guerreiro traidor remexe a areia, desmarca um limite, desfaz uma certeza. Se até ele transitou de uma corrupção à outra, como separá-las nitidamente, sanitizando a primeira e satanizando a segunda? O degredo silencioso de Dirceu, que equivale a uma gritaria, destina-se a abafar a pergunta incômoda. Os juízes do Partido temem menos a hipótese improvável de uma delação premiada do guerreiro traidor que a exposição pública das conexões entre a corrupção virtuosa e a corrupção pecaminosa.

A linha divisória riscada pelo PT reflete uma lógica religiosa, típica dos partidos autoritários. A corrupção virtuosa é aquela que serve à finalidade transcendente de salvação do Povo; a pecaminosa, pelo contrário, serve ao objetivo terreno de acumulação individual de bens materiais. Na política democrática, contudo, a oposição relevante é entre o público e o privado, não entre a salvação coletiva e o enriquecimento pessoal. Segundo essa lógica, cujo critério são os meios, o guerreiro não caiu sozinho.

Revisito as fotografias do líder estudantil preso, com centenas de outros, no Congresso da UNE de Ibiúna, em 1968, e de sua partida para o exílio, na base aérea do Galeão, com 12 outros, em 1969. Vistas da torre de observação do presente, elas têm algo de profundamente melancólico: os sinais de um fracasso coletivo. Mas, na história que se encerra, há também a prova de um teorema: a "corrupção virtuosa" conduz, inelutavelmente, à "corrupção pecaminosa". O PT não deveria renegar seu guerreiro caído, nem defendê-lo, mas reavaliar a si mesmo no espelho de sua trajetória. Para nunca mais cerrar o punho contra as instituições da democracia
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Patrimônio nacional

Arrogância da TV. Coisa do PT!

Com o seu programa, para quem falou o PT? Para os 3 de cada 10 brasileiros que aprovam o governo? Então falou para os convertidos


• Que arrogância! O programa do PT na televisão pergunta se não é melhor errar por querer acertar do que o contrário... É um falso dilema.

• O programa do PT usa o medo para assustar. Fala em ditadura. Como se uma nos esperasse na esquina.

• Dilma no programa do PT!. Mais magra, mais bonita, mais rejeitada.

• Como o PT, no seu programa de televisão, fala em encher panelas de comida no momento em que a comida escasseia nas panelas por culpa dos erros dele?

• Do primeiro ao último minuto, a velha arrogância do PT orientou o programa.

• Uma amiga, petista, chama de "arrogância paralisante" o que se passa com o PT. Faz sentido.

• Arrogância, a essa altura do campeonato, foi o simples ato de exibir um programa de televisão desses.

• E o deboche com o panelaço no programa do PT? É um deboche com os que escolheram essa forma de se manifestar. A Constituição garante a livre manifestação.

• Com o seu programa, para quem falou o PT? Para os 3 de cada 10 brasileiros que aprovam o governo? Então falou para os convertidos.

• Dilma orientou seus ministros a distribuírem cargos com políticos e partidos. Parece ser a única coisa que lhe resta fazer.

• O programa do PT serviu para aquecer o clima às vésperas de novas manifestações de ruas, marcadas para o próximo dia 16.

• E o José de Abreu, o apresentador do programa do PT, hein? É um oportunista. Sabe escolher o melhor momento para aparecer. Ou não?

• No Jornal Nacional, pelo menos, Temer parece o presidente da República. Não por culpa do jornal. Mas porque Dilma sumiu.
Ricardo Noblat

Aos amigos petistas

Petistas inteligentes sabem que o sonho acabou, ‘game over’, zé fini, pelo baixo nível e alta voracidade dos seus quadros
Nunca perdi um amigo por causa de política. Tenho vários amigos petistas que merecem meu afeto e respeito, alguns até minha admiração, e convivemos bem porque quase nunca falamos de política, talvez por termos assuntos mais interessantes a conversar. Mas agora o assunto é inevitável. E eles estão mais decepcionados do que eu.

Também tenho amigos tucanos, comunistas, conservadores, não meço a qualidade das pessoas pelo seu time, religião ou suas crenças políticas, em que sonhos, idealismo e equívocos se misturam com ambição, desonestidade e incompetência para provocar monstruosas perdas de vidas, dignidade e dinheiro ao coitado do povo que todos eles dizem amar.

O PT está caindo aos pedaços, depois de 13 anos no poder, com grandes conquistas e imensos desastres, mas a perspectiva de ser governado pelo PMDB ou pelo PSDB não é animadora. Claro que há gente decente e competente nos dois partidos, mas a maioria de seus quadros e dirigentes não é melhor do que os piores petistas, e vice-versa.

Chegamos finalmente ao “nós contra eles” que Lula tanto queria ... quando era maioria ... e agora se volta contra ele, perseguido como os judeus pelos nazistas e os cristãos pelos romanos ... rsrs.

Se não fosse tão arrogante e autoritária, Dilma mereceria pena, porque não é desonesta, mas é mentirosa e sua incompetência nos dá mais prejuízos do que a corrupção. Suas falas tortuosas são a expressão da sua confusão mental.

E se Lula não fosse tão vaidoso e ambicioso, tão irresponsável e inescrupuloso, não teria jogado a sua história na lama por achar que está acima do bem e do mal e que nunca descobririam que ele sempre soube de tudo.

Petistas inteligentes e informados sabem que o sonho acabou, game over, zé fini, não por uma conspiração da CIA, dos coxinhas ou da imprensa golpista, mas pelos seus próprios erros, pelo baixo nível e alta voracidade dos seus quadros, pela ganância e incompetência que nos levaram ao lodaçal onde chafurdamos.

É triste, amigos petistas, o sonho virou pesadelo, mas não foi a direita que venceu, foi o partido que se perdeu. O medo está dando de 7 a 1 na esperança.
Nelson Motta 

Dilma pensa em renunciar?


Pela crendice popular, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Não é verdade. Agora, seria bom constatar, senão o fim do mundo, ao menos a iminência do fim do governo, quando quatro raios caíram no palácio do Planalto, todos pela chaminé. Foi o que aconteceu quarta-feira. Há quem diga que, de acordo com as leis da Física, os raios não vem do céu para a terra, mas, pelo contrário, são elaborados de baixo para cima, antes de despencarem das nuvens.

De repente, Aloísio Mercadante, chefe da Casa Civil, Michel Temer, vice-presidente da República, Joaquim Levy, ministro da Fazenda, e Renan Calheiros, presidente do Senado, falaram a mesma linguagem, anunciando a tempestade. O primeiro, numa entrevista improvisada nos corredores do Congresso, anunciou a iminência do caos, reconhecendo os múltiplos erros do governo e apelando para um acordo suprapartidário. O outro, reunindo os líderes dos partidos, falou da gravidade da situação e sugeriu que alguém tenha a capacidade de reunificar a todos antes de uma grave crise. O comandante da política econômica prenunciou “uma situação desagradável” por conta da alta dos juros e da cotação do dólar, apelando outra vez para a votação do ajuste fiscal. E o senador admitiu o impeachment de Dilma, que ele poderia dar andamento caso viesse da Câmara a abertura do respectivo processo. Foi a quarta-feira sangrenta.

Alguma coisa de muito grave aconteceu para tanta movimentação, cujo epicentro está na presidente da República. Chegou-se até à suposição de que Madame decidira entregar os pontos, ou seja, renunciar ao mandato. A possibilidade de não poder mais governar, a desagregação e a rebelião dos partidos da base, as sucessivas denÚncias e condenações promovidas pela Operação Lava Jato, a exigência de ampla reforma do ministério e a proximidade de monumental manifestação da sociedade, armada de panelas, no próximo dia 16, teriam levado a presidente à ameaça de saltar de banda.

Claro que diante da sombra de ações cirúrgicas do Tribunal de Contas da União e do Tribunal Superior Eleitoral, ambas capazes de mobilizar o Congresso para dar início à degola, com a óbvia participação do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, transformado em inimigo número um do governo.

Daí terem os quatro cavaleiros do Apocalipse vindo a público na tentativa de evitar, mas, ao mesmo tempo, de prever a catástrofe. Só a hipótese da renúncia de Dilma poderia mobilizar tamanho potencial de crise. Teria ela dado algum sinal? A hipótese fica em aberto, por mais que se conheça sua personalidade arrogante e inflexível. Algo de explosivo ronda os gabinetes do palácio do Planalto.

Atente-se para a mensagem de Michel Temer, que nas entrelinhas e nas linhas coloca-se como alternativa para o pior. Vem coisa por aí.

Que dizer agora?

É possível que, no futuro próximo, o PT fique sem discurso. As palavras, até elas, talvez se desfiliem da legenda. Não haverá o que dizer, não haverá como dizer e, mais triste ainda, não haverá para quem dizer – os que esperaram tanto por ouvir já não estarão por perto. Só ficarão os funcionários, os burocratas, as bancadas, os parlamentares e seus assessores, plantados como postes anônimos, não eleitorais, numa cidade fantasma.

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A máquina partidária, suas sedes e suas mesas de fórmica, seus armários cheios de impressos e brochinhos “old fashion”, com os carros de som alugados estacionados na porta, comporão um cenário de edificações físicas sem alma, sem povo, sem urbe, sem polis, sem enunciados. Ocasionalmente, o vento de uma ideologia antiga passará por ali, movendo a poeira do assoalho, mas, quando os vigias de plantão moverem os olhos para identificá-lo – que golpe de ar foi esse? –, só divisarão o vazio, aquilo que foi deixado para trás e para trás ficou. Não dirão nada uns aos outros, pois nada haverá para ser dito. Eles sempre souberam de tudo e terminarão seus dias precisando fingir, calados, que não sabiam de nada.

No começo da queda, o silêncio tinha sido uma escolha. Silenciar sobre pequeninas erupções de vergonha parecia uma saída política, parecia um ato voluntário racional. Os desvios eram tão menores – tão “pontuais”, eles diziam intramuros – que não mereciam declarações públicas. O silêncio, naqueles tempos, deveria ser “ouvido” pela Nação como se fosse uma pausa em meio à grande sinfonia triunfal da luta gloriosa contra a exploração do homem pelo homem. Mais do que isso, melhor do que isso, o silêncio ainda funcionaria bem como um índice superior de reprovação: não se diria nada contra os pequenos delitos, mas também nada se diria a favor deles. Eram coisas mínimas, quase desprezíveis, e o silêncio dos companheiros bastaria para condená-las à insignificância em que deveriam perecer.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Campeã de impopularidade

Presidência da República é destino

A arrogância que pontua a trajetória do PT desde a sua fundação e que agora, além de tudo, o paralisa, foi responsável pela ausência de qualquer admissão de erros no programa de televisão exibido ontem à noite. A não ser que se entenda como tal a pergunta feita pelo ator José de Abreu, o apresentador do programa:

- Não é melhor a gente não acertar em cheio tentando fazer o bem do que errar feio fazendo o mal?

Quer dizer: o PT acertou em tudo o que fez até aqui. Pode não ter acertado em cheio, mas acertou em tudo. Não foi melhor do que se errasse feio fazendo o mal? Se errou foi porque tentou fazer o bem.

Empulhação.

Outra ausência notada no programa: a palavra corrupção. Inacreditável que não se tenha dirigido uma única explicação aos brasileiros a respeito disso.

Seria pedir demais que condenassem os petistas que se envolveram com corrupção. Mas poderiam ter elogiado a Operação Lava Jatos. E reafirmado o compromisso do partido com a luta contra a corrupção.

As mentiras ditas por Dilma na última campanha eleitoral ficaram de fora do programa. Ela acusou, por exemplo, Marina Silva de preparar um ajuste que tiraria a comida do prato dos brasileiros.

Disse que Aécio, se eleito, cortaria programas sociais e causaria o desemprego de milhões de pessoas. O programa não poderia ter abordado essa questão mesm0 de passagem?

Não o fez. Repetiu supostas realizações do governo que as pessoas nem querem mais saber porque passaram a desconfiar de tudo. E ainda debochou dos paneleiros.

Debochar dos que batem em panelas para manifestar seu descontentamento equivale a provocar 7 entre 10 brasileiros que rejeitam Dilma e seu governo, de acordo com o Datafolha.

Há algo de inteligente nisso? Ou só de arrogante?

Sem discurso, sem aliados fieis, sem líderes, sem futuro promissor a curto ou médio prazo, o PT vê o governo que apoia, ou que mal apoia, desmanchar-se a cada dia.

O governo envelheceu sem sequer ter completado um ano. A presidente entregou ao seu vice o protagonismo que num regime presidencialista só a ela pertenceria.

De sua parte, Temer começa a se desgastar pelo desempenho de um papel para o qual não foi eleito. Não foi sequer votado. Arrisca-se a cair numa armadilha mortal.

Quer só socorrer a presidente a pedido dela. Mas pode parecer o ambicioso que aproveita o momento de fraqueza do titular do cargo para tentar passar-lhe a perna.

Na boca do palco desde janeiro último, Temer já deu o que poderia dar. Não domesticou o PMDB, seu partido. Nem o presidente da Câmara, seu companheiro.

O sucesso do ajuste fiscal foi para o espaço sem que Temer tivesse culpa alguma disso. A função de distribuir de cargos públicos esbarrou na sabotagem de ministros.

É tentador estar permanentemente sob os holofotes da mídia e ser bajulado pelos que desejam ou apostam em sua ascensão à presidência. Mas não é prudente. E muitos dirão que nem correto.

Aproveite o cansaço e se recolha à calmaria do Palácio do Jaburu, a poucos metros do Palácio da Alvorada. Se o destino for o de trocar de palácio, isso ocorrerá à sua revelia.

Estado de exceção

Por mais de uma vez chamei a atenção de uma prática utilizada por alguns políticos e governos que é a de VITIMIZAÇÃO.

Ao invés de assumirem seus erros e corrigirem o rumo, muitos políticos e governantes tentam transferir aos outros suas culpas e erros, quando não “furtam” (para não usar outro termo), frases, pensamentos e ideias vencedoras sem dar definitivamente o crédito a quem de direito.


Não é novidade nem tampouco surpreende a atitude que o PT, o Partido dos Trabalhadores, está tendo em relação às denúncias de corrupção que envolvem não só alguns de seus militantes como também o próprio partido.

Nessa terça-feira a Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores definiu nova resolução política da legenda, ignorando a nova prisão do ex-ministro José Dirceu (que é ex-presidente do partido).

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No documento, o PT convoca uma “Jornada em Defesa da Democracia, dos Direitos dos Trabalhadores e Trabalhadoras e das Conquistas do Nosso Povo”.

“O PT exorta todos os seus militantes a construírem uma trincheira de luta pela democracia, pelos direitos dos trabalhadores/as, pelos direitos humanos, em defesa da Petrobras e do povo brasileiro. Que ninguém se cale! Levantemo-nos juntos!”, diz o texto.

A certa altura a nota diz: “É um estado de exceção sendo gestado em afronta à Constituição e à democracia. Precisamos nos contrapor às ameaças de criminalizar o PT para destruí-lo”.

Mais uma vez o partido volta a criticar a escalada conservadora da oposição, da mídia monopolizada e de agentes públicos (PF, MPF, Justiça Federal, etc...).

No entendimento da cúpula partidária, essas ações têm o objetivo de enfraquecer o governo da presidente Dilma Rousseff, criminalizar o PT e atingir a popularidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Vale lembrar que um partido político não é ladrão ou corrupto por si só. São seus militantes, “as pessoas” que o são. O problema é a tolerância e até mesmo incentivo à essa prática nefasta que faz com que “as pessoas de bem” cada vez mais se enojem da classe política e dos partidos.

Assim, entendo que o PT não é corrupto por si só, como também não o são o PMDB, o PP e osdemais partidos.

Digo isso porque ainda acredito que a democracia, mesmo com muitas falhas, é 
o melhor regime (ou menos pior) que qualquer outro.

Fico estarrecido quando alguns membros do Partido dos Trabalhadores atribuem “a terceiros” o que acontece de ruim em nosso país, em especial à corrupção desenfreada, que alegam não ser de sua criação.

Aliás, sempre que alguém fala em corrupção, líderes petistas tentam “repassar” à FHC a conta, se isentando de maiores responsabilidades. Daqui a pouco vamos ter de investigar Dom Pedro II e, porque não, até mesmo Pedro Alvares Cabral.

Ora, como já comentei em outra oportunidade, a grande vilã é “A IMPUNIDADE, MÃE DA CORRUPÇÃO”.

Em qualquer país decente do mundo, caberia aos dirigentes partidários o incentivo a uma ampla e geral investigação para “depurar” e “livrar” o partido e a nação de tais práticas nefastas, inaceitáveis em um regime realmente democrático.

Mas isso é querer demais dos políticos brasileiros, em especial aos petistas que se usam de todos os “mecanismos de negação” para se livrarem de qualquer culpa.

Se no passado a PF e o Ministério Público “eram” instituições sérias ao investigar “outros governos e partidos”, hoje fazem parte de uma conspiração golpista para desacreditar o Partido dos Trabalhadores.

Minha decepção como brasileiro não se reduz aos dirigentes do PT, mas com grande parte da classe política também envolvida nesses escândalos sem fim.
Mas vamos em frente...

Nos anos 80 do século passado, Jô Soares criou um personagem chamado “o General”.

Ele, o General, era amigo do então presidente João Figueiredo. O General sofrera um acidente no dia da posse de Figueiredo e passara seis anos em coma. Ao despertar, ainda enfraquecido e ligado a tubos e sondas, descobria que o Brasil havia mudado e que seu amigo não ocupava mais a presidência; pior, quem ocupava o cargo agora era José Sarney, um civil.

O General quase ia à loucura, pedia: “Me tira o tubo! Me tira o tubo!”.

O último suspiro

O que poderá ser dito agora? Nada ou quase nada além de um suspiro.

Com essa constatação melancólica, o professor Eugenio Bucci, da ECA -USP, que nos tempos em que era possível dizer alguma coisa, foi diretor da EBC- Empresa Brasileira de Comunicação- durante o governo Lula, assinou esta semana em artigo no Estadão, um dolorido testamento ideológico, uma espécie de ofício fúnebre para sepultar de vez o que restou do PT e para lamentar “aquilo que ficou para trás e para trás ficou”.

Esse generalizado “adeus às ilusões” que hoje corrói algumas almas petistas que guardam como relíquia histórica alguns resquícios dos, vá lá, ideais sobre os quais o partido foi edificado, é uma espécie de atestado de óbito de uma saga política cuja narrativa caberá agora aos historiadores.

Um veterano e experiente jornalista como Clóvis Rossi, insuspeito de simpatias antidemocráticas, também constatou, com menos dor do que Eugenio Bucci, mas com mais espanto, que ainda há gente que trata José Dirceu, condenado pelo mensalão e preso sob suspeita de participação no petrólão, como o jovem herói da rua Maria Antônia-ícone da luta contra a ditadura.

Sobre os escritores e artistas que assinaram o manifesto em defesa de José Dirceu, Rossi diz: “essa gente não conseguiu sequer sair da rua Maria Antônia, cuja simbologia antecede de muito a queda do Muro”.

Do jovem de cabelos revoltos da Maria Antônia ao provecto e abatido senhor que chegou escoltado por policiais à carceragem da Polícia Federal em Curitiba, há toda a simbologia de uma espécie de retrato de Dorian Gray da história política recente do Brasil.

Já não havia aí sequer o orgulhoso “herói do povo brasileiro” que chegou com o braço erguido ao presídio da Papuda, nem o combativo deputado federal que parecia destinado a uma gloriosa carreira quando o então presidente Collor foi enxotado do poder, em 1992.

Neste prefácio do livro “Todos os Sócios do Presidente”, de Gustavo Krieger,Luiz Antonio Novaes e Tales Faria, onde se narra a saga corrupta de Collor, José Dirceu escreve um texto que parece profético.

Mudando nomes e detalhes, José Dirceu poderia ser hoje o protagonista do seu próprio prefácio. Ele e seu partido diriam hoje que quem escreveu esse texto era um golpista ?

Eis o texto:

“A Comissão Parlamentar de Inquérito do caso Paulo César Farias pertence ao país, particularmente à juventude. Não teria sido possível sem a democracia.
Pela primeira vez na história do Brasil esse sentimento de revolta contra a impunidade encontrou eco no parlamento e cresceu até tomar conta de todo o país. A CPI só saiu do papel graças à pressão da sociedade organizada e as denúncias da imprensa, que deram sustentação à luta quase quixotesca que parlamentares travavam contra a corrupção no governo federal.
A CPI revelou que o chefe da corrupção era o próprio Collor, envolvido em fatos incompatíveis com o cargo de presidente da República, recebendo vantagens econômicas ao longo do seu mandato, para si e seus familiares, através do esquema criminoso de PC. Mais grave ainda é que tudo isto foi possível porque recebeu o apoio de grande parte do empresariado brasileiro, o que revela o grau de decomposição ética das elites brasileiras, acostumadas à impunidade e ao assalto aos cofres públicos.
Por tudo isso, não basta a CPI, é preciso que seu espírito tome conta do país. A verdade é que o nosso povo novamente está caminhando. Está tecendo o fio da história, retomando a luta pela dignidade e justiça, pela cidadania.”
Sandro Vaia (*Agradeço a colaboração do jornalista Alexsandro Nogueira)

Panela tem outra utilidade

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Mandioquilma

PresidentA Dilma andou elogiando a mandioca, e teve gente que estranhou, gente chiou, outros acharam que a mandioca não merece elogio de quem anda tão desaprovada. Mas aqui estou eu, presidentA, acorrendo em teu socorro como Quixote sem Sancho nem Rocinonte, mas com um monte de alegações em teu favor.

Primeiro, é um alívio ver que a presidentA encontra, entre tantos ministros e políticos da base “aliada”, algo elogiável.


Segundo, é alvissareiro saber que alguém no poder consegue ver os méritos dessa raiz que está nas nossas origens nutricionais e culturais. Nunca tantos deveram tanto a tão poucos, disse Churchill sobre os pilotos que, surrando a aviação alemã, evitaram a invasão da Inglaterra, que seria seguida pela invasão da América do Sul e, daí, só Deus sabe como ficaria o mundo.

Aqui entre nós, nunca tantos deveram tanto à mandioca. A batata também nasceu entre os índios daqui mas, levada para a Europa, voltou com o nome de batata-inglesa e pode ser comida frita, assada e cozida. Já a mandioca, ah, a mandioca também e muito mais: como farinha, faz a base da merenda nordestina, transforma-se em coxinha, é indispensável na feijoada e convive com o arroz-feijão cotidiano dos brasileiros de Norte a Sul.

Quem nunca comeu vaca-atolada não sabe o que é combinação perfeita entre a mais dura das carnes, a costela, cozida ao ponto de quase desmanchar, e a mais cremosa das raízes.

Vó Tiana cozinhava mandioca no meio da tarde, botava fumegante no prato, despejava melaço por cima e ficava vento o neto se lambuzar. Depois ia para o quintal com uma faquinha, cortava pontas das ramas das aboboreiras, fazia sopa de mandioca com cambuquira e pescoço e sambiquira de galinha. Podem me prender, me bater e me torturar, PresidentA, mas continuarei a dizer que é a sopa mais gostosa do mundo.

Nonna Paulina fritava mandioca até ficar dourada e crocante, o neto comia com arroz-feijão dispensando tudo mais.

E purê de mandioca então? É só amassar com o garfo na panela, misturar leite e queijo ralado, pronto, o purê de batata perde feio.

E existe café da tarde mais brasileiro e gostoso que com bolo de mandioca?

PresidentA, se pouco haverá para imortalizar teu mandato, com certeza teu elogio à mandioca é digno de uma femina-sapiens (permita-me a correção, presidentA, mas “mulher-sapiens”, como a senhora falou, não é correto pois mistura Português com Latim, como tantas misturas do seu governo: economia com política, dinheiro público com privado, administração com desorganização, assistência social com eleição etceteretal).

Se vier a Londrina, venha comer bolo de mandioca aqui na chácara, com café de coador e passarinhos no quintal. E, se um dia criarem uma Comenda da Mandioca, que a senhora seja a primeira a ser homenageada. Como disso o poeta, de tudo fica um pouco e, se de teu governo ficar o elogio da mandioca, já será muito.

Domingos Pellegrini

Michel Temer lá

Profissionais da política não costumam improvisar. Não apostam no acaso. Dito isso e diante da sequência de acontecimentos desta semana, dá-se por óbvio observar: Michel Temer está a um passo da cadeira de Dilma Rousseff. Por impedimento ou renúncia da presidente.


Tudo parece fruto de uma combinação elaborada, prevista para ser colocada em prática se e quando uma bomba letal fosse colocada dentro da sala dos que realmente regem o poder. O estopim teria sido a prisão de José Dirceu, o ex-ministro e ex-amigo de Lula, o ex-todo-poderoso do PT, o ex-capitão do time, o guerreiro do povo brasileiro.

De lá para cá, movimentações antagônicas e ao mesmo tempo complementares desembocaram na solução Temer.

Lula reúne-se com petistas em São Paulo e traça cenário desolador para o PT, o ministro-chefe da Casa Civil de Dilma, Aloizio Mercadante, vai à Câmara dos Deputados, admite erros do governo e elogia a oposição, o vice-presidente da República conclama por união nacional.

Na contramão do ajuste, a Câmara espreme ainda mais Dilma. Na madrugada de quinta-feira aprova a PEC que vincula os salários da Advocacia-Geral da União e de delegados a 90,25% do salário dos ministros do Supremo, incluindo ainda procuradores de estado e de municípios com mais de 500 mil habitantes. Apenas três petistas votam com o governo.

PDT e PTB, que juntos somam 44 deputados, formalizam o abandono à base. E o plenário aprova – com celeridade nunca vista - as contas dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula. Com isso, a pauta para votar as contas de Dilma que podem vir do TCU com a indicação de rejeição está limpa. Daí para abertura do processo de impeachment é um pulo.

Ainda na quinta-feira, Temer volta a apelar pela união de todas as forças em nome do Brasil. As federações das indústrias de São Paulo e do Rio -- Fiesp e Firjan – assinam documento conjunto de apoio à união pregada pelo vice-presidente da República. Uma nota oficial de duas das maiores entidades empresariais do país, aprovada com rapidez sem igual, aponta como saída a “proposta de união apresentada pelo vice-presidente da República”. Nem por cortesia citam Dilma.

Difícil crer que tudo isso – convocação e união pelo Brasil, apoio empresarial, votação das contas de ex-presidentes para limpar a pauta abrindo-a para a possibilidade de impeachment – tenha ocorrido por capricho do destino, pelos ares de agosto ou conjunções astrais. Até porque são lances de quem entende o xadrez da política, sabe jogá-lo e dificilmente perde.

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Dilma pode até não ser o cerne da crise, gestada nos tempos de Lula. Mas afastá-la tornou-se crucial para resolver a crise. Ameaçá-la com o impedimento constitucional para que ela se convença de que a renúncia é o melhor caminho pode ser parte do script. Se vai dar certo ou não, impossível prever.

País algum consegue encarar (e superar) uma crise, quanto mais da gravidade da que está instalada por aqui, com uma presidente tão frágil e impopular. E que ainda tem mais de 40 meses de mandato, quase três anos e meio.

Profissional, o vice Temer sabe muito bem disso. Tem passado todos os seus dias construindo a tal da credibilidade de que Dilma não goza e não tem mais como recuperar. Se dará certo ou não, impossível prever.

Nada é tão absurdo quanto morrer na cadeia por Lula

Conforme as circunstâncias e as conveniências, o companheiro José Dirceu jura ter feito o que nunca fez ou nega ter sido o que comprovadamente foi. Despejado da Casa Civil em junho de 2005, por exemplo, o doutor em luta armada que só atirou com balas de festim caprichou na pose de guerrilheiro condecorado para proclamar-se “camarada de armas” de Dilma Rousseff. Em novembro de 2010, no trecho do Roda Viva reproduzido no vídeo acima, amputou um bom pedaço da biografia com a frase espantosa: “Eu não era deputado no governo Fernando Henrique”.

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“Eu fui eleito em 78"?, acrescentou sem ficar ruborizado. Só se foi eleito Comerciário do Ano de Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná, onde se entrincheirou na caixa registradora do Magazine do Homem entre 1975 e 1979, quando a decretação da anistia animou o falso Carlos Henrique Gouveia de Mello a restaurar o nome de batismo e retomar a militância política. Elegeu-se deputado federal em 1990. Derrotado na disputa pelo governo federal em 1994, assumiu no ano seguinte a presidência do PT.

Durante o primeiro mandato de FHC, o comandante do partido fez o diabo para impedir que o inimigo vitorioso governasse. De volta à Câmara em 1998, liderou a mais raivosa bancada oposicionista da história do Congresso: todos os projetos e propostas do presidente tucano foram rejeitadas pela tropa em permanente estado de beligerância. A menos que um gêmeo univitelino tenha assumido o papel do irmão durante esse largo período, as fotos que aparecem no fim do vídeo comprovam que o ex-deputado federal José Dirceu é capaz até de negar que José Dirceu foi deputado federal.

Coerentemente, o chefe da quadrilha do mensalão continua jurando que não chefiou a quadrilha do mensalão.

Revisivelmente, o reincidente sem cura alcançado pela Operação Lava Jato agora faz de conta que conhece só de vista os diretores da Petrobras que nomeou, que nunca ouviu falar nos empresários que extorquiu disfarçado de consultor e que soube do Petrolão pelos jornais. Muita gente anda recuperando a memória em Curitiba. E se o guerreiro abandonado por oficiais e soldados rasos revogasse a opção pela amnésia?

“É mais fácil matarem Dirceu do que ele fazer uma delação”, garantiu nesta terça-feira seu advogado Roberto Podval. Aos 69 anos, José Dirceu pode descobrir que nada é mais difícil e mais absurdo que morrer na cadeia por Lula.

1984 assim começa


Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam treze horas. Winston Smith, queixo enfado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele.


O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a velhos capachos de pano trançado. Numa das extremidades, um pôster colorido, grande demais para ambientes fechados, estava pregado na parede. Mostrava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis. Winston avançou para a escada. Não adiantava tentar o elevador. Mesmo quando tudo ia bem, era raro que funcionasse, e agora a eletricidade permanecia cortada enquanto houvesse luz natural. Era parte do esforço de economia durante os preparativos para a Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, com seus trinta e nove anos e sua úlcera varicosa acima do tornozelo direito, subiu devagar, parando para descansar várias vezes durante o trajeto. Em todos os patamares, diante da porta do elevador, o pôster com o rosto enorme fitava-o da parede. Era uma dessas pinturas realizadas de modo a que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, embaixo.

No interior do apartamento, uma voz agradável lia alto uma relação de cifras que de alguma forma dizia respeito à produção de ferro-gusa. A voz saía de uma placa oblonga de metal semelhante a um espelho fosco, integrada à superfície da parede da direita. Winston girou um interruptor e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras continuassem inteligíveis. O volume do instrumento (chamava-se teletela) podia ser regulado, mas não havia como desligá-lo completamente. Winston foi para junto da janela: o macacão azul usado como uniforme do Partido não fazia mais que enfatizar a magreza de seu corpo frágil, miúdo. Seu cabelo era muito claro, o rosto naturalmente sanguíneo, a pele áspera por causa do sabão ordinário, das navalhas cegas e do frio do inverno que pouco antes chegara ao fim.

Fora, mesmo visto através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Lá embaixo, na rua, pequenos rodamoinhos de vento formavam espirais de poeira e papel picado e, embora o sol brilhasse e o céu fosse de um azul áspero, a impressão que se tinha era de que não havia cor em coisa alguma a não ser nos pôsteres colados por toda parte. Não havia lugar de destaque que não ostentasse aquele rosto de bigode negro a olhar para baixo. Na fachada da casa logo do outro lado da rua, via-se um deles. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, enquanto os olhos escuros pareciam perfurar os de Winston. Embaixo, no nível da rua, outro pôster, esse com um dos cantos rasgado, adejava operosamente ao vento, ora encobrindo, ora expondo uma palavra solitária: Socing. Ao longe, um helicóptero, voando baixo sobre os telhados, pairou um instante como uma libélula e voltou a afastar-se a grande velocidade, fazendo uma curva. Era a patrulha policial, bisbilhotando pelas janelas das pessoas. As patrulhas, contudo, não eram um problema. O único problema era a Polícia das Ideias.
(George Orwell, 1984)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O governo Dilma está com jeito de que chegou ao fim

O governo balança, balança, e pode não chegar ao fim do ano. Só ganhará uma sobrevida com a ajuda da oposição.

Em síntese, foi isso o que disse, sem disfarçar a apreensão, o vice-presidente da República e coordenador político do governo Michel Temer (PMDB-SP).

Depois de um dia de reuniões com representantes de todos os partidos que supostamente apoiam o governo, e ministros chamados às pressas por ele,


Temer procurou os jornalistas e ditou:

- A declaração que eu quero fazer é aos vários setores da sociedade. Particularmente aos partidos políticos, aos companheiros do Congresso. (...) Nós

estamos pleiteando exata e precisamente que todos se dediquem a resolver o problema do país. Não vamos ignorar que a situação é razoavelmente grave.

Não tenho dúvida de que é grave. É grave porque há uma crise política se ensaiando, há uma crise econômica que precisa ser ajustada. Faço este apelo.

- Vocês sabem que ao longo do tempo tivemos sucesso na articulação política. Mas hoje, quando se inaugura o segundo semestre, agrava-se uma possível

crise. Precisamos evitar isso. Em nome do Brasil, do empresariado, dos trabalhadores, é preciso que alguém possa, tenha capacidade de reunificar a todos,

de unir a todos, de fazer esse apelo. Tomo a liberdade de fazer esse pedido porque, caso contrário, poderemos entrar numa crise desagradável. É preciso

pensar no país acima dos partidos, acima do governo.

O que deu em Temer? Em Temer, não, no governo? Porque ele falou pelo governo. Teve o cuidado, antes de falar, de trocar ideias a respeito com a

presidente Dilma. Ela o autorizou a falar.

Deu que Temer jogou a toalha como coordenador político do governo. Deu-se conta que não funcionará a política de distribuir cargos e sinecuras em troca

de votos no Congresso.

É a única política que o governo imaginou dispor para manter unida sua base de sustentação. Base tão ampla era uma miragem. Sempre foi desde a

reabertura do Congresso em fevereiro último.

Esfarelou-se. E por uma razão que costuma explicar o abandono de governos por aliados de ocasião: a impopularidade dos governos. Políticos e partidos

são sensíveis ao ronco das ruas.

A aprovação do governo só faz cair. Era de 7,7% na mais recente pesquisa CNI/MDA. Números frescos à disposição do governo mostram que o

percentual de aprovação caiu mais.

Pesquisa aplicada na semana passada apenas na capital paulista pelo Instituto Paraná de Pesquisas registrou que a desaprovação do governo Dilma bateu na

casa dos 90%.

Dito de outra maneira: 9 de cada 10 paulistanos rejeitam Dilma.

A declaração feita por Temer ganhou cores de desespero quando ele disse a certa altura:

- (...) é preciso que alguém possa, tenha capacidade de reunificar a todos, de unir a todos, de fazer esse apelo.

Que alguém é esse?

Num regime presidencialista, esse alguém só poderia ser o presidente da República. Mas porque a presidente deixou para Temer a tarefa de fazer o apelo?

Porque não tem mais condições de fazê-lo. Perdeu a credibilidade. Perdeu a confiança dos seus governados. Perdeu a autoridade política. Não se arrisca a

falar à Nação com medo de ser hostilizada.

Se seu apego ao poder não fosse demasiado, pediria as contas.

Talvez seja cruel afirmar que Temer, ao dizer o que disse e da maneira como disse, ofereceu-se para ocupar um espaço que está vago. Mas foi isso o que

aconteceu, mesmo contra sua vontade.

O vice-presidente no exercício improvisado e ocasional da presidência foi secundado no seu apelo pelos dois ministros mais importantes do governo –

Aloizio Mercadante, da Casa Civil, e Joaquim Levy, da Fazenda. Sintomático.

Pela primeira vez, Levy arquivou seu discurso geralmente cuidadoso para dizer que é grave a crise fiscal que o país atravessa. Alertou para o risco do ajuste

não dar certo.

Mercadante admitiu que o governo errou – sem apontar quando e como. Seria pedir demais a ele, convenhamos.

Para espanto da oposição, elogiou-a. E por fim disse que somente um acordo suprapartidário será capaz de salvar o país do pior.

Lula, Dilma e o PT sempre trataram a oposição com desprezo. Há 12 anos que a espezinham. Agora pedem arrego. De fato, é isso que pedem.

A resposta dos partidos a Temer, Levy e Mercadante começou a ser dada pouco antes da meia noite de ontem mesmo.

PDT e PTB, que juntos têm 44 deputados federais e dois ministros de Estado, anunciaram seu rompimento com o governo.

E a Câmara dos Deputados estava pronta para aprovar novos projetos que poderão comprometer de vez o ajuste fiscal.