segunda-feira, 27 de abril de 2015

Vai acabar dando bode

Sem solução, a presença ostensiva do bode proverbial no dia a dia nunca acaba bem. Traz confusão, gera complicação, atrai encrenca, perturba a ordem

Capra aegagrus ou capra hircus. Segundo a Wikipédia, estes são os nomes oficiais do animal que, recentemente, parece estar na moda. Para os mais íntimos se referem a ele como bode.


O proverbial bode tem habitado assiduamente salas de todo tipo. E tem funcionado. Uma vez no recinto, o bode trata de criar artificialmente problemas que desviam a atenção sobre o problema mais difícil e para o qual não se quer dar solução. E funciona.

O fato é que, reduzir as expectativas a simples expulsão do caprino torna a solução simples, rápida e errada. Mas o fato de a solução ser mais simples, não implica que os efeitos de longo prazo sejam desprezíveis.

Talvez o pior efeito do bode na sala seja a redução das expectativas e ambições. Com o bode na sala, os objetivos são modestos, medíocres ou simplesmente desimportantes. O que seria normal, enfim, é comemorado como grande vitória. É desta maneira que o povo que vaia até minuto de silencio agora comemora até publicação de balanço.

Mas embora o bode não tenha causado o problema, é natural que os poderosos de plantão queiram sempre eliminar as próprias culpas. E, para isso, o nosso proverbial caprino é sempre o candidato de plantão. Fabricar bodes expiratórios não requer sacrifício ou esforço. Basta flexionar o dedo indicador. O bode expiatório preferido nos últimos anos, não parece ter nome definido. São apenas “eles”. E, dizem, faz parte da elite.

Nestes dias em que, parece, o piloto sumiu, tudo parece se resumir ao aperto do cinto. Ficar zangado, de cara amarrada, mal-humorado é normal. Amarrar o bode é esperado, mas não resolve. O bode, coitado, não tem nada a ver com isso.

Mesmo sabendo que para quem gosta, catinga de bode é perfume, convém não abusar. Existe um limite parar bodes na sala e bodes expiratórios. Paciência tem limite. E enganação tem preço.

Sem solução, a presença ostensiva do bode proverbial no dia a dia nunca acaba bem. Traz confusão, gera complicação, atrai encrenca, perturba a ordem. Dá bode, enfim.

Mensagem dos 'ratos'

A gente não quer ser rato, que foge do porão do navio quando entra a primeira água, mas também não queremos ser o comandante do Titanic que ficou no barco até ele afundar
Carlos Lupi, ex-ministro de Lula e Dilma, presidente nacional do PDT, faxinado por suspeitas de irregularidades no último mandado

Balanço, mas não caio



O panorama em torno do fosso moral e financeiro da Petrobras não é alentador
O balanço da Petrobras, a “joia” das estatais brasileiras, é uma confissão pública da abissal incompetência da presidente Dilma Rousseff. Bastaram dois anos, 2013 e 2014, para que 23 anos de lucros e distribuição de dividendos da Petrobras fossem abortados pela mãe do PAE (Programa de Aceleração do Endividamento). O lucro de R$ 23,6 bilhões virou prejuízo de R$ 21,6 bilhões. Os desvios das propinas foram de R$ 6,2 bilhões. A desvalorização de ativos da Petrobras chegou a R$ 44,6 bilhões. Perdão pelo enfileiramento de bilhões que nenhum de nós consegue sequer visualizar. Mas a divulgação do balanço foi tão elogiada como início de um novo ciclo de transparência e profissionalização da Petrobras que os números precisam ser trombeteados.

Dilma Vana Rousseff não concluiu os cursos de mestrado e doutorado em ciências econômicas na Unicamp, apesar de constarem em seu currículo (ela já admitiu o erro). Mas sua vida foi pautada por números. Seu primeiro cargo executivo foi como secretária municipal da Fazenda em Porto Alegre, em 1985, há 30 anos. Ao deixar a Secretaria, em 1988, tentou convencer seu substituto a não assumir o cargo: “Não assume não, que isso pode manchar tua biografia. Eu não consigo controlar esses loucos e estou saindo antes que manche a minha”.

Dilma começou a escalar o setor de Minas e Energia. Foi dona da Pasta no ministério de Lula. E presidiu o Conselho de Administração da Petrobras até 2010, quando se elegeu presidente. Seu fiador era Lula. Ela foi a escolhida com base nos seguintes quesitos: era especialista em energia, eficiente como “gerentona” (gerente durona), mulher e mãe. Sua escolha não contou com o apoio do Partido. Dilma foi imposta por Lula. Era considerada um poste. E um poste sem luz própria, sem flexibilidade, sem gosto pela conversa e sem dom de oratória. Por tudo isso, Dilma é hoje presa fácil dos políticos profissionais, que fazem dela gato e sapato.

O balanço da Petrobras revela o imenso desastre de uma presidente perdida em seu primeiro mandato e, mais ainda, no segundo. Percebam que não dá para aceitar sem ressalvas o balanço divulgado. Quem diz que a propina foi de “apenas” R$ 6,2 bilhões? Ah, os delatores, que confessaram uma percentagem tal sobre os contratos. Quem diz que o prejuízo foi de “apenas” R$ 21,6 bilhões em 2014? Ah sim, o balanço foi auditado.

O balanço não foi aprovado por unanimidade. Dois dos cinco conselheiros fiscais não assinaram o documento. Eles representam acionistas minoritários e trabalhadores. Só para refrescar a memória, a ex-presidente da Petrobras, Graça Foster, caiu porque havia calculado a perda total da Petrobras em R$ 88,6 bilhões, o dobro do que foi admitido agora, de R$ 44,6 bilhões. Graça – ou “Graciosa”, o apelido dado pela chefe – era, segundo o staff do Palácio da Alvorada, a única assessora que podia dormir na residência oficial de Dilma quando ia a Brasília. Caiu em desgraça por querer divulgar números mais catastróficos que os revelados agora. Por que, então, eu ou você devemos crer no balanço?

Devemos crer porque queremos que o Brasil passe a dar certo. O brasileiro não quer perder o otimismo, quer ver uma luz no fim do túnel. Mesmo que a reconstrução leve anos. Essa é uma boa razão. Mas não é alentador o panorama em torno do fosso moral e financeiro da Petrobras. O novo presidente, Aldemir Bendine, pede desculpas e se diz envergonhado pelo que encontrou na estatal. Desmandos, corrupção, roubalheira, péssimas decisões de investimento, interferência política. Só que Bendine acabou de entrar. Ele não tem nada a ver com isso. E Dilma? E Lula? Nada, nada mesmo?

Precisamos crer na boa intenção de Dilma. Ela não quer ficar na História como a pior presidente do Brasil. Suas ações são, no entanto, claudicantes. Típicas de alguém que não sabe mais o que fazer. Dilma insiste em manter 38 ministérios. Isso não tem desculpa, não tem perdão. Ela está paralisada. Com receio de retaliação do Congresso, Dilma triplicou o Fundo Partidário para R$ 868 milhões neste ano, a pedido do senador Romero Jucá, do PMDB. As raposas esfomeadas do Congresso querem compensar a perda de doações empresariais. O presidente do Senado, Renan Calheiros, tirou proveito para alfinetar sua ex-amiga Dilma. Criticou-a por esbanjar em momento de ajuste. Ela tentou se defender. Disse ter cedido a um apelo do Legislativo. Tá ruço, Dilma. Não é mais “ou dá ou desce”. É “dá e desce”. Por tudo isso, pela carestia da vida e pelas mentiras desmascaradas, as panelas fazem estardalhaço nas janelas. Não é só pela Petrobras.

A cultura e a corrupção


Qualquer um pode ser bom no campo. Lá não há tentações. É por isso que as pessoas que não vivem na cidade são tão terrivelmente bárbaras. A civilização não é de modo nenhum uma coisa fácil de atingir. Há duas maneiras de um homem a alcançar. Uma é pela cultura e outra é pela corrupção. As pessoas do campo não têm qualquer oportunidade de praticar nenhuma delas e, por conseguinte, estagnam
Oscar Wilde (1854 - 1900) , "O Retrato de Dorian Gray"

Venderam a esperança


A gente era feliz e não sabia. O clichê velho serve ainda, e muito, para pensarmos o quanto perdemos de nossa felicidade, de nossa confiança, de nossa esperança pelo caminho. Ou mais precisamente nos últimos 13 anos, de número aziago.

No tempo em que nenhuma vovó mentia – hoje mente descarada e publicamente em rede – também se era mais pobre, nunca pobre de faixa eleitoral. Tudo pão-pão, queijo-queijo.

Mas o melhor naqueles tempos era sonhar com o milhão da loteria. O país parava para acompanhar o sorteio das bolinhas. As acumuladas levavam multidões às filas. Quem seria o próximo milionário? Como eram esperados os jogos do fim de semana e o sorteio dos números em cadeia nacional!

Bons tempos em que se pagava para ver, quando agora se paga e não se vê. O dinheirinho era suado e sempre dava para uma fezinha. Tudo pouco para um país que vivia de sonhos e de esperança. Disse-nos adeus.

Espera-se hoje, ao acordar, o próximo escândalo, o número bilionário do roubo, a falcatrua político-governamental mais inovadora, o mais recente nome no extenso prontuário de corruptos e o novo vigarista no rolo higiênico.

Se antes um roubo de milhão era de assustar, ninguém mais se espanta. Vacinados, assistimos às cifras bilionárias dos assaltos públicos, à dilapidação do patrimônio de todos.

Em nome de um projeto político canalha, se rouba, se faz maracutaia, se empanzinam os bolsos da pilantragem generalizada.

Venderam a esperança e a confiança e ainda posam de bons moços e moças que mais poderiam bem servir a um lupanar, porque depois do que fizeram não merecem respeito. Querem agora sair com o bolso cheio e um atestado de vítimas, impecavelmente puras. São mais dignos de achincalhe, enquanto não lhes chega a hora da condenação.

Se vivemos, injustamente, um período de presos políticos, que cometeram o “crime” de lutar contra a ditadura, vivermos agora legalmente sob um regime de políticos presos, que roubam na cara de pau e ainda agraciados com pompas e medalhas de heróis.

Eu só troco a nossa história por uma melhor

Eu só troco a nossa história por uma melhor.
Por um bando de pássaros que nunca abandone o voo,
Por um jardim onde não morram flores,
Por uma lua que nunca mude de tamanho.
Eu já disse que não troco a nossa história por mais nenhuma?
Talvez a troque por um bonsai no lugar do coração.
Para cuidar com arte. Distraidamente.

Marta Vaz

Jornais, papel insubstituível

Perdemos a capacidade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo


A Operação Lava Jato avança. A prisão preventiva de João Vaccari Neto, o segundo tesoureiro do PT a parar atrás das grades, aproxima o lodaçal do padrinho de Dilma Rousseff e do núcleo duro do partido. Não é um preso qualquer. Ele sabe das coisas. Conhece o PT e o ex-presidente Lula por dentro.

A Operação Lava Jato é o resultado direto da solidez institucional da nossa democracia. É o lado bom da história. É consequência do insubstituível trabalho da imprensa independente e de qualidade. Todos são capazes de intuir que a informação tem sido a pedra de toque do processo de moralização dos nossos costumes políticos.

A mídia, festejada pela unanimidade nacional, necessita fazer um balanço honesto, precisa ter a coragem de também promover a sua CPI interna. De algum tempo para cá, setores da grande imprensa manifestam preocupante ambiguidade ética. O que é sensacionalismo barato numa publicação popular é informação de comportamento nas respeitáveis páginas de alguns veículos da chamada grande imprensa. O que interessa não é a informação. O que importa é chocar. Ao tentar disputar espaço com o mundo do entretenimento, alguns setores da imprensa estão entrando num perigoso processo de autofagia. Esquecem que a frivolidade não é a melhor companheira para a viagem da qualidade.

Ao atribuírem à televisão e à internet a responsabilidade pela perda de audiência, partiram, num erro estratégico, para um perigoso empenho de imitação. A força da imagem, indiscutível e evidente, gerou um perverso complexo de inferioridade em algumas redações. Perdemos a capacidade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo.

Na outra ponta do problema, estão as recaídas no anacronismo do engajamento informativo. A neutralidade não é sinal de bom jornalismo. É, frequentemente, sintoma de covardia editorial. Mas a isenção, árdua e difícil, é uma meta que deve ser perseguida. A batalha da imparcialidade enfrenta a sabotagem da manipulação, da preguiça profissional e da incompetência arrogante. A apuração aparente é uma das maiores agressões à imprensa de qualidade. Matérias previamente decididas em guetos engajados buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não se apóia na busca da verdade, mas num artifício para transmitir um simulacro de imparcialidade. Busca-se, no fundo, a confirmação de uma tese. Isso não é jornalismo.

O Brasil depende, e muito, da qualidade técnica e ética da sua imprensa. O bom jornalismo é insubstituível.

Piada, não. Tem outro nome

A Cedae, empresa estadual de saneamento e água, anuncia que vai aumentar em maio a tarifa em 4,5%, abaixo do índice de 7% liberado pela Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico. É mais um escárnio com a população tanto da Cedae quanto da federal Agenersa.

A grande piada é que não há água em grande parte dos municípios atendidos e assim o usuário vai pagar mais pelo “vento” que entra em seus canos e faz marcar o hidrômetro, quando “abrem” a água para servir a alguns poucos. E de centavo em centavo, míseros reais arrecadados, a espertíssima empresa governamental enche a burra de dinheiro.

Sem contar que os usuários se cadastram e agendam entregas de carro-pipa agora para agosto. Mas ainda há populações, e muitas, que sequer sabem o que é saneamento básico.

Uma extorque, no estadual, e a outra vira a cara, no federal. E assim cresce o Brasil Bandido.

Corrupção


O regime político da pós-democracia latino-americana
O termo está nas manchetes dos jornais. Descreve a vasta maioria dos governos latino-americanos. Sem dúvida, o vírus em questão não é exclusivo desta parte do mundo, mas a variedade endêmica pareceria ser resistente e estar em fase de propagação. É matéria de epidemiologia, e também acontece na saúde pública: os governos que negam a existência do mal, ao mesmo tempo, se apresentam como os campeões da luta contra ele; neste caso, a tão maldita corrupção.

O problema não são apenas as atividades criminosas, que não são escassas, mas também a reprodução de condutas que nem sequer são consideradas ilegítimas, muito menos delitos. É que, além de afetar o uso dos recursos públicos, esta epidemia modificou o marco cognitivo da elite política latino-americana. Não entendem, por exemplo, a noção de conflito de interesse, tanto quanto a de tráfico de influências. A corrupção se naturalizou, e a linha que separa a legalidade da ilegalidade tornou-se flexível e porosa. Aqueles que ocupam as alturas do poder se eximiram da terrenal obrigação de render contas, de responder pelos atos de seu governo. Com o contágio se generalizou a impunidade.

Na Venezuela, as contas de funcionários em bancos da Suíça e de Andorra, e as cifras delas, são lendárias. Representam vários pontos do produto interno bruto. Qualquer denúncia a respeito é traduzida pelo aparato oficial de propaganda como uma conspiração desestabilizadora. Nesse sentido, têm razão: a informação pública sobre corrupção às vezes pode gerar instabilidade política.


Os governos que negam a existência do mal, ao mesmo tempo, se apresentam como os campeões da luta contra ele; neste caso, a tão maldita corrupção

Na Argentina, o oficialismo e seus testa-de-ferros acumulam dezenas de denúncias por contas sem justificativas, lavagem de dinheiro e negócios ilegais diversos. O rechaço do governo a essas acusações é sistemático, como também, todos os anos, ao aumento patrimonial que é visto nas próprias declarações de impostos de seus mais altos funcionários. A dissonância legal é produto da dissonância cognitiva, precisamente, a derivada do fato de que todos eles se enriqueceram sendo funcionários públicos. Difícil explicar, mas nenhum deles fica envergonhado.

No México, o governo castigou por corrupção a mais de cem funcionários nos últimos dois anos com multas de mais de 22 milhões de dólares. Apesar de benigna a pena, multa em vez de prisão, ninguém pagou um dólar. Isso sublinha um problema mais de fundo. É difícil que um governo corrupto imponha sanções por corrupção e que as mesmas sejam cumpridas. O presidente combate a corrupção em seu discurso enquanto sua esposa e seu Secretário de Fazenda tentam explicar a compra de suas casas de um empreiteiro favorecido pelo governo, que também lhes concedeu a hipoteca.

No Brasil, o caso Petrobras revela a profundidade da corrupção dentro do aparato do Estado e do partido do governo. A informação fala de perda de 2 bilhões de dólares só por corrupção e descreve um sistema institucionalizado de dinheiro ilícito, criado para terminar nas arcas do PT. O círculo completo, esse dinheiro era usado para financiar campanhas eleitorais e comprar votos de deputados no Congresso, o caso Mensalão. Assim se construiu uma organizada máquina financeira para a perpetuação no poder.

Até o Chile, cuja elite política achava que estava imune da corrupção e outras doenças tropicais da região, parece ter sido contagiada. Ao financiamento irregular dos partidos e seus dirigentes, deve-se agregar o escândalo que envolveu a nora da própria presidenta. Sua relação com a então presidenta eleita permitiu que tivesse acesso a informações privilegiadas sobre iminentes mudanças na regulamentação do uso do solo e a um crédito bancário para uma empresa sem trajetória nem garantias. O negócio especulativo de compra-venda de terras teve um lucro de mais de 3 milhões de dólares. Em sua primeira reação, Bachelet cometeu o erro de considerar um negócio entre privados, o que afetou severamente seu índice de aprovação.

Curiosamente, na academia, uma primeira geração de estudos minimizava o problema da corrupção, considerando-a um mecanismo benigno que servia para modernizar a burocracia, uma tarefa essencial de construção estatal sempre inconclusa no mundo em desenvolvimento. Uma segunda geração, no entanto, destacou as perdas de eficiência em sociedades com alta corrupção, postergando o desenvolvimento econômico e social, e criando, além disso, no longo prazo, uma dinâmica especialmente tóxica para o capital social e a credibilidade das instituições democráticas.

A América Latina se encontra neste último cenário, mas também precisa de uma terceira geração de estudos. Ela deverá dar conta da constituição de um novo tipo de regime político, no qual a corrupção é, justamente, o componente central da dominação. Em países onde os partidos políticos se debilitaram e se fragmentaram, além de ter perdido a confiança da sociedade, estão sendo substituídos pela corrupção. A corrupção cumpre as funções básicas da política: selecionar dirigentes, organizar a concorrência eleitoral e exercer a representação – e o controle essencial – territorial. Esta é a nova forma da política na pós-democracia.

Claro que este novo regime é de partido único, já que se baseia na perpetuação. Isso não é por ideologia, mas por sobrevivência. Fora do poder, os riscos são muito altos para os líderes do partido da corrupção. Até agora, os recursos e a retórica funcionaram e continuam no poder, mas isso não será eterno. Então, o grande desafio da América Latina será tirar a corrupção da política para poder reconstruir a democracia.

Héctor E. Schamis

domingo, 26 de abril de 2015

A implacável lógica da mentira


Maioria dos que contestam o PT não é ‘direitista’. São brasileiros que querem que instituições funcionem, em particular a Justiça

A mentira tem uma lógica implacável. Só é possível mantê-la graças a mais mentiras. Essas mentiras a mais vão exigir, para que não sejam descobertas, uma cadeia de novas mentiras. A mentira é um poço sem fundo. Com o tempo, ela invade tudo e passa a alimentar-se a si mesma.

Para o mentiroso, o hábito da mentira acaba por transformá-la na sua verdade. Ele se sente injustiçado quando o acusam de mentir. O impostor que se apresenta como herói sofre quando lhe dizem que ele não é senão um impostor.

Foi essa logica diabólica que enredou o Partido dos Trabalhadores desde que suas lideranças começaram a mentir.

Seus militantes negam as acusações de corrupção sabendo que elas são verdadeiras. Confrontados a provas irrefutáveis, alegam estar a serviço de uma causa nobre — são os únicos que estão verdadeiramente do lado dos pobres — o que, na linha dos fins que justificam os meios, os absolveria. Argumento tragicômico. A causa dos pobres é a primeira vítima dos desvios de dinheiro público.

Protegem-se das críticas repetindo a arenga da “esquerda” contra a “direita”. E a “direita” amalgamaria todos que não compram a versão dos heróis ofendidos.

Que esquerda é essa que o PT estaria encarnando? O que o partido fundado por grandes brasileiros, como Mario Pedrosa e Paulo Freire, fez de si mesmo, seu colapso ético que desrespeitou um passado honroso e o comprometeu com uma corrupção sistêmica, não lhe autoriza a invocar o monopólio da preocupação com os mais pobres e do projeto de assegurar a todos os meios de sua dignidade.

Somos muitos no Brasil os herdeiros de um princípio de solidariedade e de igualdade, que um dia definiu a esquerda. Somos muitos, ancorados em uma consciência democrática, a honrar essa herança sem renunciar à inegociável liberdade.

À esquerda de quem estão os tesoureiros presidiários? O dossiê judiciário que se acumula contra seus dirigentes coloca o partido não à esquerda, porem à margem. Na marginalidade.

Que direita é essa com que nos assombram? A estratégia petista para manter seu poder tem sido promover a radicalização ideológica. Ameaçando as ruas com supostos exércitos do MST, pela provocação acordam fantasmas adormecidos, dando-lhes um protagonismo que já não têm. Esses fantasmas de uma volta ao passado servem então de espantalho e fica mais fácil dizer “quem não está conosco está com eles”. O amálgama desqualifica, por contágio, todos que se opõem aos seus desígnios.

A esmagadora maioria dos que hoje contestam o PT não é “direitista”. São brasileiros que querem que as instituições funcionem bem, em particular a Justiça. São pessoas que ganham a vida com o seu trabalho e a quem, por isso mesmo, a corrupção repugna. Que se preocupam, sim, com políticas que combatem a pobreza e pedem serviços públicos decentes que seus impostos pagam, bem sabendo que a corrupção é o buraco negro que suga os recursos do país.

Não se referem a doutrinas, nem à esquerda nem à direita, referem-se à vida real, querem um governo competente, querem liberdade de expressão para formar livremente sua opinião, querem respeito.

Cansaram da coleção de bonés contraditórios do ex-presidente Lula, da metamorfose ambulante, da farsa dos punhos fechados desses “prisioneiros políticos” de si mesmos, de seu próprio governo. Cansaram das promessas de campanha viradas pelo avesso, dos atos esquizofrênicos em defesa da Petrobras convocados pelos que quase a destruíram. Cansaram da mentira.

Os que se comportaram como donos do Estado quiseram também arvorar-se em donos da sociedade, tentando encapsulá-la nas fronteiras estreitas de movimentos sociais e organizações populares hoje a seu serviço mais do que da expressão autônoma de direitos e identidades. Inútil; a sociedade em sua diversidade é muito mais complexa e insubmissa do que organizações que se tornaram paragovernamentais.

A população brasileira não está dividida pela oposição esquerda e direita. Na nossa democracia cabem todos os atores políticos que se exprimam no marco da legalidade constitucional. O que não cabe mais é a corrupção se intitulando política. E, pior, mais cinicamente, revolucionária. O que não cabe mais é a impostura.

O dicionário “Aurélio” oferece várias definições da impostura, todas em torno da mentira, do embuste, da falsa superioridade. A última a define como o “farrapo que se prende ao anzol para engodar os peixes”. Engodar é seduzir com falsas promessas. O ex-presidente Lula está programando uma viagem pelo Brasil para falar às “bases”. E se os peixes não vierem?

Rosiska Darcy de Oliveira

Quem paga

FIES dilma aponta p diretor e culpa estudantes pelos aumentos nas faculdades

Sísifo chegará ao topo da montanha?

O Brasil vive a maior crise de sua contemporaneidade. Não se trata apenas de uma soma de crises que se imbricam nas teias da economia, da política, da água e da energia, entre outras. Trata-se, sobretudo, de uma crise moral que solapa as bases da credibilidade nas instituições e em seus atores. Daí a dúvida: quando abriremos o ciclo de moralização da vida política no país? Há um fio de esperança? A resposta é sim.


Vejamos as hipóteses. Três vertentes se apresentam como as mais prováveis na esfera das ocorrências futuras: a primeira é de que a atual crise será ultrapassada pela próxima; a segunda, ancorada na banalização, mostra o brasileiro cada vez mais descrente da política; e a terceira, regada a esperança, é capaz de acreditar ser possível uma flor nascer no pântano.

As duas primeiras vertentes são maléficas para o caráter nacional. Comparam-se à maldição de Sísifo. Expliquemos. Condenado a carregar uma pedra sobre os ombros e depositá-la no cume da monta­nha, o matreiro rei de Corinto nunca irá a conseguir o feito. O castigo que os deuses lhe deram no Hades, o mundo dos mortos, era definiti­vo: recomeçar a tarefa todos os dias por toda a eternidade.

Ora, o brasileiro sente que Sísifo está à nossa espreita. Há menos de um ano, as pessoas achavam que a situação começava a melhorar. A pedra poderia chegar ao topo da montanha; hoje, sentem que a coisa está prestes a degringolar. Sísifo, mais uma vez, fracassa. Pois esse é o Brasil do eterno retorno, a repetir o maçante exercício de ver frustradas suas expectativas.

O desalento se instala, sob a banalização de escândalos que abala a confiança social. Daí a indignação, a revolta, a mobilização das ruas, na esteira de uma reação aos desmandos e ilícitos. Críticas ácidas jorram de esquadrões da classe média, cuja repulsa aos eventos da Operação Lava Jato emerge de forma contundente na mídia.

O fio de luz no fim do túnel é a racionalidade fincando suas raízes. Expande-se a locução social com a tuba de resso­nância midiática fazendo eco. As camadas – com acesso à TV e ao rádio – vêem a lama escorrer da arquitetura política e aplaudem as prisões de figuras de alto calibre.

A flor nascerá no lamaçal. A crise que assola o Parlamento deixa os atores atordoados. A mobilização das ruas propaga um sentimento pátrio e uma reação em cadeia. Cristaliza-se a convicção de que a corrupção e a infração a valores morais hão de ser contidos pelas barreiras que a sociedade começa a construir.

Do sentimento de que está sempre vendo as mesmas coisas, o brasileiro extrai a argamassa para construir o edifício do amanhã. Nessa construção, serão plantadas as sementes de reformas fundamentais, a partir da reforma política e de um novo pacto federativo. Já não dá mais para conviver com um modelo político incompatível com uma estrutura racional de Estado e uma gestão moderna de democracia. A continuar a velha modelagem, cairemos fatalmente na ingovernabilidade, com o agravamento das tensões entre insti­tuições e insegurança social.

É possível, até, que não façamos, de imediato, uma reforma política completa. O importante, nesse momento, é tentar reformar o sistema político-eleitoral; modernizar a es­trutura do Estado, a partir de limites sobre competências entre Poderes (pacto federativo) com redefinição de atribuições entre entes; completar a legislação infraconstitucional, que mantém buracos desde 1988; melhorar a qualidade dos serviços públicos; e estancar a escalada tributária.

Acabamos de atualizar os eixos das relações do trabalho com a aprovação na Camara do PL 4330 sobre Terceirização. O Senado não pode e não deve deter esse projeto, sob pena de ser contrário à modernização do país. Precisamos seguir adiante.

Não dá mais para esticar o cordão das crises. O xeque-mate no jogo é a moldura da economia. Diques pontuais para atenuar a onda da recessão, que já dá sinais de vida, só serão eficazes se acompanhados de ajustes em outras frentes. Nunca esteve tão próxima a possibilidade de colhermos uma flor do pântano. A partir das sementes que os centros sociais espalham pelo seu terreno e que deverão chegar até os habitantes da base da pirâmide.

Há um preceito da ciência política pelo qual as grandes mudanças da História são produzidas quando os favorecidos e apa­niguados do poder não têm a capacidade para transformá-lo em for­ça, enquanto os que dispõem de pequeno poderio aproveitam essa capacidade ao máximo para convertê-la em força crescente. Esse é um fenômeno que se instala entre nós. É o que estamos presenciando. Se faltar vontade no andar de cima, sobrará revolta no andar debaixo. No jogo de xadrez, existe a possibilidade de o peão adquirir tanta força quanto o bispo.

De panelas prontas para o 1° de Maio

Diante da corrupção deslavada e de um governo que se comprovou débil, Dilma até deveria ir à telinha no 1º de Maio. Para pedir desculpas. Ainda que tardias
Temerosos de um novo panelaço, os conselheiros de plantão da presidente Dilma Rousseff não querem vê-la em rede de rádio e TV na próxima sexta-feira, 1º de Maio. A inédita ausência seria menos grave do que o desgaste da tradicional presença.

Partido gerado no útero do sindicalismo, o PT preferia não ter de comemorar a data nobre em um ano em que as lambanças de mais de uma década têm de ser corrigidas por um inevitável ajuste fiscal, com peso no bolso do trabalhador. Avalia, então, que é melhor Dilma ficar quietinha.


Foram 9m23s de oba-oba. As obras empacadas do PAC e o Pronatec, com atrasos nos pagamentos e sucessivos adiamentos no início dos cursos – de 7 de maio para 17 de junho e, em seguida, para 27 de julho –, que o digam. O crescimento também não veio.

No ano seguinte, Dilma dedicou boa parte dos 11m12s para escorraçar o lucro abusivo dos bancos privados. Anunciou a redução de taxas nos empréstimos do Banco do Brasil e da Caixa. Hoje, além da alta sucessiva dos juros, agora em 12,65%, não só os bancos estatais pararam de brincar com subsídios como reduziram o volume de crédito. No dia a dia, o cidadão comum, incluindo a tão alardeada nova classe média, está pagando 220% de juros no cheque especial e 345% no cartão de crédito. As taxas mais altas desde 1995.

No 1º de Maio de 2013, com a popularidade batendo em inacreditáveis 79% e apenas dois meses antes das jornadas de junho que a jogou nas cordas, Dilma garantiu que não haveria inflação.

Sempre cheia de si, ela se meteu onde não devia: proibiu aumento dos combustíveis e reduziu em 20% as tarifas de energia. As intervenções desastrosas resultam hoje em aumentos superiores a 40% nas contas de luz, percentual ainda insuficiente para cobrir o rombo que ela provocou, e em gasolina mais cara aqui dentro do que lá fora. Tudo isso para nada. Nos últimos 12 meses a inflação superou os 8%.

Em campanha pela reeleição, o Dia do Trabalho de 2014 serviu para Dilma defender a Petrobras, que já aparecia corroída pelo seu partido desde as primeiras investigações, e para o anúncio de aumento de 10% no benefício do Bolsa Família.

A torrente de dinheiro que jorraria do pré-sal sempre brilhou nos pronunciamentos do Dia do Trabalho. A educação e a saúde seriam salvas pelos royalties do ouro negro que a Petrobras, em modelo de produção partilhada, que substituiu o das concessões e ainda embutiu maior nacionalização no negócio, extrairia do fundo do mar.

O mesmo pré-sal que agora, admite a Petrobras, terá de ter parceiros de risco para sair das profundezas e – se tudo der certo – cobrir parte do prejuízo oficial de R$ 21,5 bilhões por má gestão, R$ 6,2 bilhões surrupiados em prol do PT e dos demais partidos da aliança governista.

Diante da corrupção deslavada e de um governo que se comprovou débil, Dilma até deveria ir à telinha no 1º de Maio. Para pedir desculpas. Ainda que tardias, poderiam reduzir o eco das panelas.

Falou. Não se desculpou


Dilma, como se espera de um poste, não fez nenhum gesto de pedir desculpas ao país. Com a cara de pau de sempre e a imaculada inocência dos culpados, acredita que o balanço da Petrobras jogou para debaixo do tapete a sujeira, o roubo, a falta de administração e principalmente o descaso com a população. Coisa de faxineira, contratada por temporada, não de presidente.

Dizer que a empresa "superou os problemas de gestão ligados à questão da Lava Jato, que ainda estivesse pesando" e agora vai lutar pela "recuperação". Aproveitou para enfiar no saco de cretinice a "reconstrução" como compromisso próprio e do seu governo. Falta de vergonha na cara explícita de quem esquenta o assento.

Logo ela que foi a toda-poderosa na empresa durante mais de uma década, a responsável pelos lucros e prejuízos, corrupção e roubos, vem agora falar em reconstrução por estar em jogo a "soberania nacional" e a "educação brasileira"? Tá de brincadeira ou menospreza a inteligência dos brasileiros para quem diz governar.

Dilma garante não apenas o título de primeira mulher a ocupar a presidência no país, mas exemplo da pior, mais desastrosa, incapaz e corrupta administração da história brasileira. Se sua imagem foi vendida como guerreira logo passou a faxineira, o que nunca no governo deixou de ser.

Tratar com falas de encomenda o desastre que foi a roubalheira na Petrobras – sem falar no que pode explodir, por exemplo, no BNDES – é se lixar para quem trabalha e paga seus impostos, acreditando em governança honesta e séria, no mínimo.

Dilma não pediu desculpas, nem pedirá, porque se acha a tal, cúmplice impune e imune, de um prejuízo que levará anos a ser pago. Sem contar os desastres sociais decorrentes de uma Petrobras quase no fundo do poço: obras paradas sem perspectiva de reinício, cidades abandonadas à própria sorte, desemprego, estagnação.

A história não negará à presidente, como a seu antecessor e criador, o verdadeiro epílogo de suas biografias: desastrados morais sob a faixa governamental.

Cuidado!


Incapazes de decidir mudar o nosso destino como nação, nos entregamos aos mosquitos e aos ratos

O fantasma no Planalto



"Dilma Rousseff está no gabinete, mas não está mais no poder". Está é a nova matéria do The Economist, que pouca repercussão na semana teve. "Menos de quatro meses depois de seu segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff permanece no cargo, mas para muitos efeitos práticos não está mais no poder. E o esquerdista Partido dos Trabalhadores nominalmente governista (PT) já não dá as ordens em Brasília".

Aponta o jornal: "É um revés extraordinário. Durante 12 anos o PT dominou a política do Brasil, graças às políticas sociais e de relacionamento com as pessoas comuns de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente em 2003-10, bem como para o crescimento inesperados de um boom de commodities que agora terminou. Dilma carece de habilidade política de Lula, e suas relações são agora mal cordial. Mas, ainda assim, a elevação dos padrões de vida eram apenas o suficiente para conquistá-la um segundo mandato em outubro passado".

A guerra do PT

O PT julga que está em guerra. É o que está escrito, com todas as letras, nas “teses” apresentadas pelas diversas facções que compõem o partido e que serão debatidas no 5.º Congresso Nacional petista, em junho.

De que guerra falam os petistas? Contra quem eles acreditam travar batalhas de vida ou morte, em plena democracia? Qual seria o terrível casus belli a invocar, posto que todos os direitos políticos estão em vigor e as instituições funcionam perfeitamente?

As respostas a essas perguntas vêm sendo dadas quase todos os dias por dirigentes do PT interessados, antes de tudo, em confundir uma opinião pública crescentemente hostil ao “jeito petista” de administrar o País. O que as “teses” belicosas do partido fazem é revelar, em termos cristalinos, o tamanho da disposição petista em não largar o osso.

“Precisamos de um partido para os tempos de guerra”, conclama a Articulação de Esquerda em sua contribuição para o congresso do partido. Pode-se argumentar que essa facção está entre as mais radicais do PT, mas o mesmo tom, inclusive com terminologia própria dos campos de batalha, é usado em todas as outras “teses”. Tida como “moderada”, a chapa majoritária O Partido que Muda o Brasil avisa que “é chegado o momento de desencadear uma contraofensiva política e ideológica que nos permita retomar a iniciativa”.

A tendência Diálogo e Ação Petista conclama os petistas a fazer a “defesa dos trabalhadores e da nação”, como se o Brasil estivesse sob ameaça de invasão, e diz que as “trincheiras” estão definidas: de um lado, a “direita reacionária”; de outro, os “oprimidos”. A chapa Mensagem ao Partido quer nada menos que “refundar o Estado brasileiro”, por meio de uma “revolução democrática” – pois o “modelo formal de democracia”, este que vigora hoje no Brasil, com plena liberdade política e de organização, “não enfrenta radicalmente as desigualdades de renda e de poder”.

Da leitura das “teses” conclui-se que o principal inimigo dos petistas é o Congresso, pois é lá que, segundo eles dizem, se aglutinam as tais forças reacionárias. O problema – convenhamos – é que o Congresso representa a Nação, o povo. Se o Congresso resiste a aceitar a agenda do PT, então a solução é uma “Constituinte soberana e exclusiva”, cuja tarefa é atropelar a vontade popular manifestada pelo voto e mudar as regras do jogo para consolidar o poder das “forças progressistas” – isto é, o próprio PT.

Uma vez tendo decidido que vivem um estado de guerra e estabelecidos quem são os inimigos, os petistas criam a justificativa para apelar a recursos de exceção – o chamado “vale-tudo”. O principal armamento do arsenal petista, como já ficou claro, é o embuste. O partido que apenas nos últimos dez anos teve dois tesoureiros presos sob acusação de corrupção, que teve importantes dirigentes condenados em razão do escândalo da compra de apoio político no Congresso e que é apontado como um dos principais beneficiários da pilhagem da Petrobrás é o mesmo que diz ter dado ao País “instrumentos inéditos” para punir corruptos. Há alguns dias, o ex-presidente Lula chegou ao cúmulo de afirmar que os brasileiros deveriam “agradecer” ao PT por “ter tirado o tapete que escondia a corrupção”.

É essa impostura que transforma criminosos em “guerreiros do povo brasileiro”, como foram tratados os mensaleiros encarcerados. Foi essa inversão moral que levou o governador petista de Minas, Fernando Pimentel, a condecorar o líder do MST, João Pedro Stédile, um notório fora da lei, com a Medalha da Inconfidência, que celebra a saga libertária de Tiradentes. A ofensiva dos petistas é também contra a memória nacional.

Ao explorar a imagem da guerra para impor sua vontade aos adversários – inclusive o povo –, o PT reafirma seu espírito totalitário. A democracia, segundo essa visão, só é válida enquanto o partido não vê seu poder ameaçado. No momento em que forças de oposição conseguem um mínimo de organização e em que a maioria dos eleitores condena seu modo de governar, então é hora de “aperfeiçoar” a democracia – senha para a substituição do regime representativo, com alternância no poder, por um sistema de governo que possa ser totalmente controlado pelo PT, agora e sempre.

sábado, 25 de abril de 2015

O PT como ele é

Definitivamente, o PT disse adeus à sanidade. Ao que tudo indica, o partido comandado por Lula concluiu de forma irrevogável que recorrer à publicações de resoluções delirantes é o bastante para justificar as falcatruas perpetradas por seus líderes desonestos e purificar o caráter tíbio de seus tesoureiros corruptos. Arrogantes por natureza, suas lideranças menosprezam as consequências de suas decisões e, através de seus lacaios, usam desse expediente para buscar impor a pauta de sua ensandecida jornada contra o regime democrático, elegendo prioridades digamos, pouco republicanas, como:
a) construção de uma frente político-social unindo o partido, os sindicatos e o MST;
b) a convocação da bolivariana constituinte exclusiva destinada a efetuar a reforma política;
c) do alto dos quase 120 milhões de reais que deverão sair dos cofres públicos para abarrotar seus cofres através de recursos repassados pelo fundo partidário, estratégica e pornograficamente triplicado recentemente por decisão da presidente Dilma Rousseff, posa de virgem purificada reforçando a pregação do desgastado discurso defendendo o financiamento público de campanha. Como afirmou o ex-ministro Joaquim Barbosa “com um repasse desses, quem precisa ser financiado por empresas?”.
d) esperto, defende o voto em lista, que na prática cassa dos brasileiros o direito de escolher seus deputados. Populista, aposta na desmoralizada arenga da luta de classes apresentando medidas penalizando aqueles que julgarem ricos. Menos seus líderes e os amigos dos seus líderes, é óbvio;
e) mobilização contra o PL 4330, das terceirizações, o que só é bom para os sindicalistas, e
f) mobilização contra as PECs 371, que trata da redução da maioridade penal e é do interesse, antes de tudo, da bandidagem e 215, que dá ao Legislativo uma participação mais efetiva na demarcação de terras indígenas, que é do agrado dos picaretas.

O desvario petista, salvo engano, retomou, com mais vigor, a temporada de ódio à democracia. Uma leitura mais minuciosa do conjunto da obra do partido estrelado ao longo desses mais de doze anos à frente da política brasileira e do tom sempre belicoso adotado por suas lideranças nos comunicados oficiais, permitem vislumbrar nas entrelinhas uma advertência sombria caso seja apeado do poder, chamando atenção para a possibilidade de uma ruptura marcada por dias de tensão, cujo desenlace poderá desembocar em grave retrocesso democrático. Estampa, ainda, nuances da fragmentação de um partido político que não suportou a grandeza democrática que jamais teve e sobrevive da ética diminuta que sempre o acompanhou. Sua trajetória conturbada fala por si.

Cansada da mesmice política que predominava no período pós-ditadura, e guardando a esperança de que algo inovador se apresentasse, a sociedade brasileira se pegou encantada com a mensagem muito bem articulada de um partido que, comandado por um ex-trabalhador, se intitulava o emissário do Brasil renovado, senhor de todas as virtudes, arauto da magnificência administrativa e cidadela indevassável da retidão. Para convencer os eleitores que a salvação do Brasil passaria inexoravelmente pelo virtuosismo petista, seus dirigentes não desperdiçaram uma única oportunidade de ocuparem os espaços generosos que a mídia lhes proporcionava. Astutos, foram preenchendo o vácuo político que se formou depois da morte do presidente Tancredo Neves entrincheirando-se na mais selvagem oposição que o Congresso já abrigou. A desestabilização a qualquer preço era o mote. E a tática mostrou-se eficaz: em janeiro de 2003, o PT chegou ao poder.

Forjada na têmpera podre da falsidade, a decantada probidade dos petistas não resistiu a mais do que dois anos à frente do governo. Os rastros deixados pelo dinheiro sujo derrubou a máscara que escondia a verdadeira face dos democratas de araque e deu visibilidade a ação devastadora da mais sórdida canalha instalada nos porões da politicalha. Visando perpetuar-se no poder, os companheiros atuaram com a desenvoltura dos cafajestes e arquitetaram um dos mais atrevidos esquemas de corrupção da história republicana cujo sucesso passava necessariamente pela compra do apoio de partidos que porventura estivessem à venda. Talvez até mesmo os próprios petistas tenham se surpreendido com disponibilidade tamanha. Estava inaugurado o mensalão.

A partir desse episódio que manchará sua história para sempre, o partido estrelado experimentou um processo célere de degeneração e o desgaste evidente serviu de justificativa para que seus dirigentes intensificassem uma campanha avassaladora que tinha como objetivo a dominação absoluta. Para atingir tal fim, os meios, liberados, encontraram na receita da promiscuidade o fermento mais indicado para fazer crescer aquela massa indigesta. Sem o menor trauma de consciência, cercaram-se de inimigos viscerais para inaugurar a forma mais abjeta de amizade, trouxeram para debaixo de suas asas parte significativa da imprensa e fizeram da miséria seu maior trunfo eleitoral. Dispostos a percorrer as últimas instâncias da inconsequência, desbravaram os caminhos da corrupção como ninguém jamais ousara.

Num repente, encantaram-se com a biografia de José Sarney e o consagraram como político respeitável. Este, por sua vez, fez do Maranhão uma extensão do palanque petista e da presidência do Senado reduto dos interesses do governo federal. Uma mão suja emporcalha a outra. Defensores intransigentes da liberdade de imprensa a favor, se dispuseram a patrocinar jornais televisivos, principalmente os de alcance nacional, e blogs na internet abrindo os cofres das estatais e dos ministérios.

Embora viesse a ser reconhecido alguns anos depois como projeto embrionário que abriria o caminho para o bilionário esquema de corrupção batizado como Petrolão, evento que feriu com gravidade e enlameou um dos principais símbolos do orgulho nacional, ainda assim o episódio do mensalão serviu para desencadear um vendaval de denúncias envolvendo o partido comandado pelo ex-presidente Lula e aqueles que formavam a base de apoio ao seu governo em um rosário interminável de falcatruas, cujo acúmulo de malfeitos resultou na queda de quase duas dezenas de ministros de Estado em menos de dez anos. Muitos deles exonerados por envolvimento em casos de corrupção. Pelo menos um, condenado e preso.

Em pouco mais de doze anos, o Partido dos Trabalhadores conseguiu transformar o propalado conjunto de políticos notáveis acima de qualquer suspeita que o mantinha em mero ajuntamento de notórios trambiqueiros, abaixo de qualquer moral, que o sustenta. O PT como ele é.

'Errando se aprende'. Aprende?

Estará o Brasil aprendendo com os próprios erros? Aprendem algo os homens públicos observando a história e os fatos do presente? Parece pouco provável. O erro costuma ser a mais perigosa e a menos produtiva forma de aprendizagem. A expressão que dá título a este artigo surge com freqüência, em forma de argumento, por exemplo, nas altercações entre pais e filhos quando estes desejam fazer algo que aqueles afirmam ser errado. A frase se esgotaria na própria insensatez, se a sensatez não fosse qualidade cada vez mais rara na vida social. Por isso, a pedagogia do erro, o "errando também se aprende" ganha dimensão de sabedoria conquistada a duras penas e justifica muita conduta imprópria.

Entendamos bem a questão. Há uma diferença fundamental entre o erro cometido por quem quer acertar e o erro praticado por quem deliberadamente busca o mal. É provável que o primeiro cumpra, sim, uma função didática, não tanto por causa do erro em si mesmo, mas devido ao anterior e posterior desejo de agir bem. Pela razão inversa, aquele que erra sabendo que vai fazer algo incorreto, dificilmente aprenderá qualquer coisa que lhe venha a ser útil porque, tendo buscado intencionalmente o mal, não está animado para uma aprendizagem adequada.


Na maior parte dos casos em que essa expressão costuma ser empregada é importante verificar se não se trata de uma artimanha, coisa de quem, na verdade, já aprendeu, mas está seduzido por algum erro tentador. “Deixem-me errar porque errando se aprende”, pedia a mocinha de certa novela. Ora, “deixem-me errar” implica o prévio reconhecimento de que se vai em direção a um erro e, portanto, quem diz isso já sabe o que é errado e o que é certo. Já aprendeu. E o mais provável é que acabe desaprendendo.

Ademais, o erro não pode ser usado indiscriminadamente como forma de aprendizado pois, como regra, existem outros métodos mais vantajosos, tais como os proporcionados pela observação, pela sadia orientação e pelos bons livros. Em outras palavras: dentre todas as formas de aprender, a pior - a que devemos relegar à posição mais remota - é aquela que o erro pode facultar, principalmente quando dele podem advir graves problemas a quem erra e/ou aos demais. Viu, dona Dilma?

No caso brasileiro, a situação se agrava. Estabeleceu-se, aqui, ativa e até agora dominante, uma pedagogia que dissemina o erro, serve o mal como bem e a mentira como verdade. Interpreta ardilosamente os fatos, muda a história e, por isso, nada aprende sequer das grandes catástrofes políticas e econômicas vividas por outros povos. É uma pedagogia maligna por excelência. Quando se depara com as consequências dos erros a que conduz, jamais faz o mea culpa. Com o ar indignado, gira o dedo indicador para qualquer direção, exceto à do próprio peito.

O Brasil dorme


A presidente Dilma Rousseff, com todo respeito que se deve ao cargo que ela ocupa, é surda, ou teimosa, ou preguiçosa, ou despolitizada, ou amarrada, ou insensível, ou tudo isso junto, porque não é possível que alguém, com as suas responsabilidades, insista nas atitudes que tem ou em não tê-las. Isso é óbvio? É e, lamentavelmente, é a realidade.

Na semana passada foi preso o tesoureiro do PT, partido do qual Dilma é (ou deveria ser) sua maior liderança. Pelo menos protocolarmente, é Dilma quem tem a maior expressão política dentro do partido, embora se saiba que o ex-presidente Lula lá dê as cartas. Mas nem por isso, nunca se soube de ambos, Dilma e Lula, o empenho em retirar de cena o tesoureiro João Vaccari Neto, que todos esperavam que fosse enjaulado a qualquer momento.

Deixaram que se chegasse a essa vergonhosa e tardia exposição, muito embora a própria Dilma já o tivesse impedido de ser o tesoureiro de sua campanha. Não à toa, mas talvez por já reconhecer em Vaccari as habilidades que a Polícia Federal e o Ministério Público, com toda certeza, identificaram e buscarão condenar.

Desde a aposentadoria do ex-ministro Joaquim Barbosa, há oito meses, que está vaga sua cadeira no STF, com flagrante prejuízo às decisões que demandam o escrutínio do pleno, isso é, que todos os ministros examinem e votem as matérias de competência do Supremo Tribunal.

Falou-se insistentemente na perspectiva de indicação pelo Planalto do nome do atual presidente nacional da OAB, Marcos Vinicius Furtado. Senadores avisaram que não passaria na aprovação da Casa nenhum nome com nítidas vinculações partidárias. Dilma, ao contrário de todas as expectativas, indicou para a vaga o jurista Luiz Edson Fachin, respeitado advogado, de inquestionável currículo, reconhecido profissional e estudioso do Direito Civil e de Direito de Família. Dependendo dos fatos políticos da semana, o Senado Federal, varejista e fisiológico como é, vai reprová-lo. Porque esse é o jogo que Dilma deixou que ganhasse corpo e força.

A operação Lava-Jato, que a inteligência do Palácio do Planalto sabia que andava a passos de ganso, não tinha como não ter sido antecedida por uma medida da Presidência, afastando da Petrobras toda a sua diretoria e os conselhos, para que se apurasse com rigor e isenção a real responsabilidade dessa corja hoje presa em Curitiba. Esse pessoal que está em cana no Paraná não é jovem aprendiz. Vários já saíram com tornozeleira eletrônica da maternidade. Não há bandido de primeiro emprego.

A própria relação com as lideranças dos partidos da base aliada, ou mesmo da oposição, os chamados “vacas sagradas” do Congresso, é de uma postura ginasial. Com o poder que tem a Presidência da República, é inaceitável que se tivesse deixado encorpar os tipos a quem o poder político hoje no país está terceirizado.

E nesse diapasão cantam todas as vozes de poder, contagiadas por essa mesma inércia. O Brasil ressente-se da falta de controle, de comando, de um projeto de autoridade. Somos um país com demandas sérias e inadiáveis. Não podemos viver do que será a operação Lava-Jato, das inúmeras CPIs que fazem de conta que investigam alguma coisa, do humor de Sarneys, Aécios, Renans Calheiros e Eduardos Cunha, dessa inércia congelante que nos impõe uma classe política que não sabe onde está parada. Não crescemos econômica e socialmente, o povo está com fome, há desemprego, inflação, favelamento, falta de políticas sérias e atualizadas de educação, segurança, saúde, habitação, financiamento da produção industrial e agrícola. A nação está perdida, sem saber para onde ir.