sábado, 13 de dezembro de 2014

É a lama, é a lama


Brasil precisa dar resposta rápida para escândalos

Para Transparência Internacional, economia do país sofrerá impactos negativos caso não haja uma reação adequada. "Sob suspeita", empresas brasileiras podem ter dificuldades para fazer negócios.
 O Brasil vive um momento histórico na luta contra a corrupção, considera o diretor da organização Transparência Internacional, Cobus de Swardt. Mas o país pode ter sua economia gravemente afetada caso não dê uma resposta rápida para os recentes escândalos na Petrobras, aponta.

"Os empresários e o governo devem mudar a forma como se fazem negócios no Brasil. Se não agarrarem a oportunidade de fazer essa limpeza, a economia brasileira vai sofrer muito nos próximos anos", disse o diretor nesta quinta-feira (11/12), numa coletiva de imprensa da ONG em São Paulo.
Segundo De Swardt, as empresas brasileiras terão dificuldades para fazer negócios no exterior, caso permaneçam "sob suspeita".

Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), lançado em dezembro, indica que os casos de corrupção levam em média sete anos para serem concluídos. Em 1999, demoravam apenas dois anos.

De Swardt afirma que agora a rapidez será crucial no Brasil. "Se o caso da Petrobras se alongar por sete anos, será um desastre para a economia. Além disso, há um risco real de que a impaciência da população brasileira chegue a um limite. O que seria muito difícil de reverter."

Estrela no paredão


O PT, hoje, é um quadro velho pendurado na parede, uma estrelinha guardada no fundo de uma gaveta, uma camiseta descolorida pela ação do tempo, uma bandeira vermelha coberta de vergonha. Foi Lula que o afundou. Não será Lula que irá refundá-lo estrela

Chororô da presidente tem que ser para todos



A Justiça brasileira não é apenas cega. É surda às apelações dos pobres, e muda para as elites e os políticos.
 “Sobretudo merecem a verdade aqueles que perderam familiares e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia”

Correto, presidente. Respeita-se o choro na entrega do relatório da Comissão Nacional da Verdade.

Mas cá entre nós, presidente, em 12 anos do petismo no Planalto, o que se fez de concreto para se respeitar os direitos humanos com mão forte do governo em casos como a mortandade em Pedrinhas, no Maranhão, os assassinatos diários e bárbaros em todo o país, a violência tomando todos os rincões, o crack invadindo famílias minando inclusive crianças, a droga entrando livremente no país, os jovens caindo na mão dos traficantes e patati-patatá?

Se o pau bateu ontem em Francisco, bate hoje nos Chicos, nos Zés, nos Joões, nas Marias, nas Zefas. E aí ninguém rola uma lágrima; o governo deixa rolar o sarrafo. Eles também perdem diariamente "familiares e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia”. Como de costume, é gente que morre na guerrilha urbana que tomou as cidades brasileiras pelo seu desgoverno.

No entanto, não há uma manifestação do governo. O ministro da Justiça, que em outros tempos era o segundo mais importante cargo do país, agora não passa de advogado do petismo e guarda-costas presidencial para garantir a toga no STF. Sai na defesa das elites e silencia com o destino da população entregue às prisões desumanas, à violência policial e marginal, às drogas, aos desaparecimentos, às balas perdidas. Para o povo, é uma nulidade em justiça.

Não é à toa que o país se tornou o mais violento, do mundo entre 133 nações avaliadas, e quando o número de homicídios está em queda no mundo. Em números absolutos, é o país com o maior índice de assassinatos no mundo: 64.357, o que equivale a 32,4 mortes para cada 100 mil pessoas, revela relatório global para prevenção de violência preparado pelas agências das Nações Unidas. O Brasil ultrapassa até a Índia (52 mil), o segundo país mais populoso do planeta!


Se há tanto empenho em revelar e condenar os crimes da ditadura, o que dá ibope e entra na agenda positiva presidencial, com alta promoção da presidente, também deveria haver mais empenho contra a criminalidade de hoje. Isso, sim, poria a presidência nas alturas. Mostraria, enfim, que não só governa para mensaleiros, corruptos, políticos e elites, mas como reza a Constituição todos os brasileiros, inclusive aqueles sem voz e representantes, “que perderam familiares e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia”.  

E põe organizado


"Nada é mais organizado do que o crime no Brasil"
Nelson Motta

Corrupções comparadas

Muitos argentinos grafam korrupção. E nos jornais brasileiros fala-se de corruPTos. Como se o kirchnerismo e o Partido dos Trabalhadores não fossem organizações partidárias, mas um modus operandi.
 Em “O Enigma Belgrano”, o livro que publicou antes de morrer, o historiador Tulio Halperin Donghi transcreveu uma carta de Manuel Belgrano datada de 10 de fevereiro de 1790 em Madri. Aquele que 20 anos depois seria um dos líderes da independência argentina, informava seu pai que nessa capital “a prata pode muito se bem dirigida, tendo algum conhecimento das coisas da Corte”. A observação de Belgrano foi feita durante o reinado de Carlos IV. Na América Latina, a corrupção parece crônica.

Às voltas com a tragédia de Iguala, Peña Nieto teve que arranjar tempo para explicar a mansão comprada por sua esposa de uma empreiteira que teria sido beneficiada pelo Estado. O juiz da Suprema Corte paraguaia, Víctor Núñez, renunciou acusado de dar cobertura ao tráfico de drogas. No entanto, os Governos mais afetados pela contaminação entre política e negócios são os do Brasil e da Argentina. Os subornos de milhares de dólares pagos à Petrobras envolvem Dilma Rousseff em um pesadelo. Cristina Kirchner tampouco dorme bem. No ano passado, dois consultores financeiros detalharam como negociavam com os bolsos repletos de dólares que saíam da Austral Construcciones, a empresa de Lázaro Báez, uma empreiteira de obras públicas. Batizaram sua financeira de La Rosadita, uma sarcástica homenagem à Casa Rosada, o palácio de Governo.

Báez alugou durante anos os 935 quartos do hotel Alto Calafate, que pertence aos Kirchner. A estatal Aerolíneas Argentinas também aluga quartos nos hotéis da chefa de Estado. A crise foi agravada há duas semanas quando o juiz Claudio Bonadio ordenou uma operação de busca na empresa da presidenta.

Os corruptos brasileiros e argentinos foram clássicos no modo de se apropriar do orçamento nacional: contratos de obras públicas. Na Petrobras, um clube de construtoras fazia acordos para as licitações. Até escreveram um manual de estilo. Na Argentina, a distribuição dos ganhos foi menos sofisticada. Báez ficou com 90% das obras públicas de Santa Cruz, a província dos Kirchner. E só alugava quartos nos hotéis dos Kichner. Os estereótipos nacionais se reforçam: o espírito de equipe brasileiro contra o pobre individualismo argentino.


Há outra diferença relevante. Os recursos da Petrobras eram distribuídos entre o PT, o PMDB e o PP, as forças que sustentam Dilma no poder. Um financiamento multipartidário que repete o mensalão e lembra a Tangentopoli italiana. Segundo o arrependido Paulo Roberto Costa, o método também é usado em ferrovias, portos e aeroportos. É o lado B do presidencialismo de coalizão explicado pela ciência política.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sempre longe


Inocente!


Agora a bola da vez somos nós. O PT não pode continuar crescendo, tem que ser atacado de todos os lados, em todas as frentes, com artilharia leve e pesada. Vamos fazer guerra eletrônica contra o PT, não importa se é verdade ou mentira. Vamos tentar difamar, destruir esse partido. No processo do mensalão, os companheiros que foram julgados já estavam condenados. Esse processo da Petrobras, o que a gente está vendo é que quando chegar na Suprema Corte, quando o Teori (Zavascki) for analisar a delação premiada, instrumento criado por nós, a imprensa já vai ter condenado. Todo o vazamento é contra o PT 



Uma presidente pela metade

A presença do Lula em Brasília, esta semana, para demorados encontros com a presidente Dilma e com as bancadas do PT, indica terem sido restabelecidas as relações entre o antecessor e a sucessora. Claro que o ex-presidente deu mais do que palpites na formação do novo ministério. Indicou nomes e partidos, insistindo na preservação do modelo que impôs a Dilma nos últimos quatro anos: divisão do governo em condomínio com os partidos de sua base parlamentar, permitindo que à sombra do loteamento de cargos possa ser formada maioria no Congresso, capaz de garantir a aprovação de projetos de interesse do palácio do Planalto.

Em suma, nada de novo no limiar do segundo mandato, muito pelo contrário. Fica tudo como estava, com uma presidente da República prisioneira do fisiologismo de sua base.

Indaga-se da hipótese de, dispondo de vontade política, Dilma poderia virar o jogo. A resposta é não, mesmo se desejasse. Com todo o respeito, ela exerceu e mais exercerá a função de presidente pela metade. Despojada de ideologia própria, chorou ao lembrar episódios de sua vida pregressa, ao receber o relatório final da Comissão da Verdade. Demonstrou, com isso, seu despreparo em aplicar a promessa de “governo novo, pensamento novo”. A velha fórmula de contemporizar com a chantagem defendida pelo Lula vedou esperanças e promessas feitas nos palanques, em outubro.

Fica óbvia a estratégia adotada para o futuro: repetir o passado, até mesmo com concessões à direita, tendo como propósito a permanência do mesmo grupo no poder depois de 2018.

Apenas um obstáculo poderá atrapalhar o plano diretor dos companheiros: sua desmoralização diante dos sucessivos escândalos praticados à sombra dos poderes público e privado. As denúncias não param, iniciativas adotadas e por adotar no Poder Judiciário serão capazes de erodir a estrutura plena de corrupção no Executivo e no Legislativo.

Nessa hora, tudo poderá acontecer, até mesmo o rompimento entre Lula e Dilma, já ensaiado no período seguinte às passadas eleições. Quem sabe a presidente conquiste a outra metade de suas atribuições e de seus ideais? Pode não dar tempo, caso continuem ignoradas as lições do passado, aquele que geralmente não diz o que fazer, mas deixa claro o que evitar.

Noite


 O mundo está morto. Das montanhas restaram
alguns sonhos e lugares quase apagados;
mortos os povos com as guerras,
a inflação e as doenças novas,
com o ódio de classe,
a guerra fria.
muitas as orações, a fé,
razão e civilização.

O manto negro da morte.

De uma janela no céu a lua calva
olha esquálida com olhos fixos
o cadáver...

As dores se seguem pelas ruas como espectros!

Anton Buttigieg (1912-1983)

Petrolão respinga em obras na América Latina

Porto de Mariel, em Cuba, inaugurado por Dilma, é um dos escândalos da lista
As listas de Yousseff trazem detalhes sobre 747 obras realizadas na região e que poderiam ser a ponta do iceberg de outro escândalo enorme
Quando o primeiro ex-diretor da Petrobras detido na Operação Lava Jato, Paulo Roberto Costa, afirmou que a corrupção investigada “acontece em todo o Brasil”, pode não ter dito tudo o que sabia. O documento que a Polícia Federal encontrou na residência do cambista “arrependido” Alberto Youssef, com registros de mais de 700 contratos, ameaça ampliar ainda mais, se possível, o âmbito do maior caso de corrupção da história brasileira.

O já célebre juiz do Paraná, Sergio Moro, reconheceu em uma diligência que as revelações são “perturbadoras” e sugeriu que “o esquema criminoso de fraude, licitação, superfaturamento e subornos poderia ir muito além” da petroleira estatal. Não se refere somente ao restante do país. O citado documento inclui obras públicas realizadas em vários outros países latino-americanos, como Argentina e Uruguai (parceiros do Brasil no Mercosul), Equador e Colômbia.

As listas apreendidas com Alberto Youssef, preso desde março e acusado de lavagem de dinheiro, trazem (segundo informou a TV Globo no fim de semana) detalhes sobre 747 obras realizadas por 170 empresas, na maioria construtoras, em uma relação que apresenta grande semelhança com a das empresas investigadas na enorme operação desencadeada pela polícia federal há 18 meses. A soma total desses projetos é de 11,5 bilhões de reais; talvez uma quantia modesta em comparação com a gigantesca rede de subornos, lavagem de dinheiro e financiamento ilegal de partidos políticos descoberta no entorno da Petrobras, “mas que poderia ser apenas a ponta do iceberg de outro escândalo enorme”, dizem a esse canal de televisão fontes ligadas ao caso.

Um total de 59% das obras que aparecem na lista apreendida com Youssef tinha a Petrobras como cliente final. Os principais projetos eram obras de infraestrutura de transporte (portos, aeroportos, metrôs), bem como refinarias e obras de mineração e saneamento. O juiz Moro pediu explicitamente uma “profunda investigação” para confirmar as suspeitas sobre as novas irregularidades. Rodrigo Janot, procurador-geral da República, confirmou que as novas revelações já estão sendo analisadas pelo Ministério Público.

Entre as obras incluídas na relação se destaca a ampliação do porto de Mariel, a 50 quilômetros de Havana (Cuba), ambicioso projeto da nova zona franca comercial realizado com financiamento brasileiro, cuja primeira parte foi inaugurada em janeiro com a presença da presidenta Dilma Rousseff, e que foi criticado durante a recente campanha eleitoral pelo oposicionista Aécio Neves. Construído pela “gigante” Odebrecht (investigada na Lava Jato, embora seja uma das poucas empresas do suposto “clube” de empreiteiras corruptoras que não teve nenhum diretor preso), seu valor alcança o equivalente a 22,5 bilhões de reais. No documento aparece citado com um valor de 3,6 milhões de reais, sem maior explicação. A construtora nega ter pago qualquer suborno.

Nas listas explosivas de Yousseff aparece também um gasoduto argentino da província de Córdoba que tinha recebido em 2008 ajuda no valor de 60 milhões de reais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o principal banco de fomento latino-americano, que na última década concedeu empréstimos de bilhões de dólares a seu vizinho austral para a expansão da rede de gás. Porta-vozes do BNDES se apressaram a negar qualquer participação no esquema.

Um discurso ou o dinheiro de volta?


A retórica da indignação pode fazer bem à alma dos partidários do governo e aos admiradores da presidente, mas não resolve os problemas práticos da empresa.
 Entre dezenas de debates inúteis que enchem de som e fúria as redes sociais, onde hoje se localizam as trincheiras da guerra ideológica, está aquele que pretende determinar, afinal de contas, se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha da corrupção.

No tsunami provocado pela Operação Lava Jato, que vem esquartejando aos poucos as entranhas da maior empresa do país, a mítica Petrobrás, ao lado de cifras estratosféricas desfilam nomes inimagináveis e esquemas indecifráveis de propinodutos ligados a siglas partidárias, o que insinua um loteamento político de larga escala das diretorias da empresa.

A militância política infanto-juvenil (uma qualificação que não é cronológica mas de amadurecimento intelectual) atribui a descoberta e investigação do escândalo à suposta coragem do governo petista, já que nunca antes na história deste pais a corrupção foi tão investigada como agora.

A presidente, como ela mesma não se cansa de repetir, repudia a corrupção mais do que qualquer outra pessoa no mundo. Aliás, o verbo repudiar nunca esteve em tanta evidência como nestes últimos tempos. Nunca a corrupção foi tão repudiada-e , paradoxalmente, tão praticada- como agora.

O discurso indignado do procurador geral da República Rodrigo Janot no Dia Internacional de Combate à Corrupção, no qual defendeu a troca da diretoria da Petrobrás, provocou mais impacto do que as declarações do Controlador da União, Jorge Hage, depois de apresentar seu pedido de demissão do cargo que exerceu durante 8 anos.

Janot foi mais emocional (“Envergonha-nos estar onde estamos”) e Hage mais técnico ( criticou o frouxo sistema de controle do governo sobre  estatais e a falta de investimentos na CGU, que segundo ele perdeu 300 auditores desde 2008), mas ambos miravam o mesmo alvo: a falta de profissionalismo na relação do governo com as empresas que ele controla.

A reação da presidente à fala de Janot foi a de considerá-la um “escândalo" e determinar ao ministro da Justiça José Eduardo Cardozo que a respondesse, o que ele fez naquele habitual tom de falsete, que consegue transformar questões de Estado em arenga partidária; esse tom deve parecer adequado a alguém que cobiça uma vaga no Supremo e sabe a quem deve agradar para consegui-lo.

O fato é que a presidente está “indignada”, o fato é que ela “repudia" a corrupção, o fato é que ela não tolera “malfeitos”, e ainda assim considera um escândalo que o procurador-geral sugira o afastamento de uma diretoria sobre a qual pesa a suspeita de uma gestão descuidada, para dizer o mínimo.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

E no temporal dos bilhões...


Hoje estamos num tempo transtornado, quando reina o arbítrio e o absurdo, quando honestidade, sobretudo de parte dos grandes, tornou-se letra morta, quando os vícios são aceitos e a virtude depreciada
Erasmo de Roterdã
Seca? Que seca? Com os propinodutos jorrando bilhões, as bicas governamentais abertas, dinheiro saindo pelo ladrão, chovendo dólares nas obras governamentais, cada parlamentar aliado em Brasília custando a bagatela de R$ 749 mil, o Brasil está mais afogado pela inundação generalizada de números monetários. A tempestade desta Primavera não é de água, mas de corrupção. Estão afogando – não de hoje é claro - as instituições num lameiro.

A cada dia cai mais uma tempestade de roubalheira. Chovem escândalos novos. É preciso diariamente rezar a Santa Bárbara para evitar os raios do governo caindo sobre a população. Raios de raiva da própria incompetência, gerados na petulância, alimentado pela ganância sobre os cofres públicos.

Não há dia em que os empregadinhos governamentais não surjam com distorcidas visões colorizadas de um governo corrupto com mãos limpas. Escárnio a quem é cidadão e trabalha para pagar uma corja de sanguessugas, embriagadas de poder. Tem que aguentar governo se achando dono não apenas da terra, mas dos corpos e do dinheiro do cidadão.

Deuses do pau oco, onde guardam as fortunas surripiadas, se assentam confortavelmente no Olimpo da corrupção, blindados por seus semideuses, comprados a preço de ouro tirado do sangue dos pobres. A escória ainda é incensada como libertadora, redentora, por sacerdotes certos de que esse é o caminho, a luz e a vida. Enfim, um inferno de cretinice. Aos das elites, que são muitas, do bom e do melhor; ao resto, as sobras do pior. 

Pedido de presidente, cumpre-se?


Nunca antes neste país se viu nada igual...

Venho observando as notícias sobre as investigações da operação “Lava Jato”. Como a maioria dos brasileiros, permaneço cética em relação aos resultados concretos, sempre adiados e depois esquecidos por todos, inclusive pelos mais revoltados cidadãos brasileiros. Procuramos o culpado (ou culpados), pelo frustrante resultado e infelizmente, não sabemos a quem debitar a conta.

Como magistrada, participei de diversas operações policiais grandiosas envolvendo autoridades. Fui juíza rigorosa e atenta, mas pouco pude ver de concreto nos processos que consumiram grande parte do meu tempo como julgadora. O que vi foram resultados muito aquém dos esforços e gastos na condução do processo. Portanto, falo com a propriedade de quem conhece o sistema nas suas entranhas.

Os únicos processos grandes, envolvendo corrupção da cúpula do poder com resultados visíveis foram: o determinante do impeachment de Collor, quando ficou provado ele ter recebido propina – representada por um Fiat; o Mensalão, quando as provas evidentes do processo deixaram o STF, sem alternativa senão a condenação.
GRANDES ESCÂNDALOS

Para não parecer pessimista, basta lembrar dentre os maiores escândalos financeiros envolvendo altos figurões da República e desvios de recursos públicos, cujo destino já se sabia de antemão – iriam para as campanhas eleitorais e engordariam as contas pessoais dos candidatos e seus parceiros: Anões do Orçamento (1989 a 1992, 800 milhões dentro do Congresso Nacional); Vampiros (1990 a 2004, 2,4 bilhões, fraude a licitações dentro do Ministério da Saúde); TRT de São Paulo (1992 a 1999, 923 milhões, envolvendo o Senador Luiz Estevão e o Juiz conhecido como Lalau); Banestado (1996 a 2000, 42 milhões, no Estado do Paraná); Banco Marka (1999, 1,8 bilhões, dentro do Banco Central; Pobre Amazônia (1998 e 1999, Sudam, 214 milhões); Máfia dos Fiscais (1998 a 2008, 18 milhões, Câmara dos Vereadores de São Paulo); Mensalão (2005, 55 milhões, Câmara Federal, envolvendo o PT); Sanguessugas (2006, 140 milhões, envolvendo 3 senadores e 70 deputados); Operação Navalha (2007, 610 milhões, envolvendo o Ministério das Minas e Energia, nove Estados, o DF e a empresa Gautama).

Todos esses escândalos foram investigados pela Polícia Federal, monitorados pelo Ministério Público Federal e processados pela Justiça. Mas, houve punição adequada?

Como vemos, a descoberta das falcatruas na Petrobras, conhecidas por todos desde as eleições de 2010, foram repetidas com maior perfeição nas eleições de 2014 e antes do segundo turno o governo se mobilizou politicamente para abafar as investigações: esvaziou a CPI da Câmara, tentou desconsiderar o magistrado Sérgio Moro, disse que se tratava de investigações de cunho politico-partidário patrocinadas pela oposição e conseguiu retardar o que só agora vem a tona, com força total, pouco menos de um mês após a apuração de todas as urnas e a reeleição da Presidente.

JÁ EXISTE UMA CERTEZA

Hoje comprova-se que não é especulação ou invenção eleitoral e sim uma certeza – pelo que já está apurado por documentos e declarações – trata-se do maior escândalo de corrupção do Brasil, alcançando a cifra de 60 bilhões retirados de uma única empresa, a Petrobras. Os mandantes e beneficiários estão ligados diretamente ao governo federal, pertencem ao PT e aos partidos que dão sustentação política a Dilma, via as maiores empreiteiras do país. Os empreiteiros, presos provisoriamente, já com a experiência do Mensalão, de que os figurões políticos conseguem a liberdade, estão aderindo maciçamente ao instituto da delação premiada.


Diante do quadro que se tem no momento, quando tudo parece levar ao caso do – sem saída para o governo que promoveu, ou ao menos chancelou o absurdo desfalque, somos surpreendidos com a fala presidencial, que se apossou da corrupção perpetrada para dizer em alto e bom som: “Nunca antes neste país o governo promoveu tão séria e severa investigação pela MINHA Polícia Federal, pelo MEU Ministério Público e pela MINHA Justiça Federal”. Tudo virou governo (e do governo), porque não mais se tem a noção do que seja Estado e do que seja governo. Tudo é uma coisa só.

Paisagens Brasileiras

José Pancetti, "Bairro da Ponta da Areia em Niterói" 

Onde mora o perigo


O PT nunca conseguiu se dissociar politicamente da corrupção mensaleira, um cascalho se comparado ao que está na mesa. A presidente da República cultiva um distanciamento em relação a esse fenômeno. É aí que mora o perigo. Não se pode saber como ela será capaz de mostrar que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
Elio Gaspari, "FHC e a legalidade ilegítima" 

Fora Estado, de tudo que for possível


O interminável romance de investigação do escândalo da Petrobras, com denúncias que projetam a nação no mais desconfortável estado de comprometimento de nossas referências morais, legais e políticas, ao que parece, está longe de chegar aos seus capítulos finais. De tudo que veio à tona nos últimos meses, muito já se sabia. Documentos comprovam isso, no cipoal que agora elevou para cifras bilionárias o ritual de manobras organizado para emagrecer as reservas da maior empresa brasileira e engordar contas na Suíça, pagar campanhas eleitorais, financiar a compra de apartamentos, carros e amantes de luxo. Qualquer saca-trapo que esteve envolvido na ladroagem surge do nada com a oferta de devolver milhões na Justiça e seguir livre para usufruir do que não devolveu.

Não há um dia, há décadas na vida do Brasil, sem que se tome consciência de uma fraude, um ajuste espúrio, uma transgressão. Essa situação, está mais do que provado, decorre primeiramente do gigantismo do Estado brasileiro, presente em todas as esquinas e recantos onde estejam poder político e dinheiro, independentemente do grau de influência, espaço e volume que se possa operar.

Há interessados para todo tipo de ardil, de má-fé, de mutreta. Frauda-se da merenda escolar à compra de jatos. Depois, contribui decisivamente para que esse quadro se torne uma realidade permanente a certeza da impunidade, porque se dificulta, atrasa, entorpece a ação de quem no próprio Estado está na outra ponta da linha e desejoso de mudar as coisas.


Há funcionários e agentes públicos no Executivo, no Legislativo e no Judiciário que têm formação e compromissos de caráter, com vontade e disposição para combaterem no terreno cada vez mais fértil da corrupção e da criminosa irresponsabilidade que acomete a sociedade brasileira. Com tudo que se perceba na dimensão endêmica da fraude, há cidadãos atingidos na alma por se sentirem incapazes para encabeçar a reação necessária a esse quadro de flagelo moral de nossas instituições públicas.

Fim da desigualdade não tem fim

Aposentados e pensionistas: R$ 926 reais por mês
Parlamentares aliados: R$ 749 mil de cachê para votar um único projeto do governo

Riqueza inclusiva cresceu só 2% em duas décadas




Crescimento do PIB no período de 1992 a 2010 foi de 40%. Além da produção de riqueza, cálculo alternativo considera também os capitais natural e humano de um país.
 O Brasil cresceu apenas 2% entre 1992 e 2010, segundo o Índice de Riqueza Inclusiva (Inclusive Wealth Index ou IWR), medido pelo Instituto Mahatma Gandhi de Educação para Paz e Desenvolvimento Sustentável, ligado à Unesco. Na medição do Produto Interno Bruto (PIB), a alta foi de 40%.

O relatório divulgado nessa quarta-feira, na Índia, leva em conta não apenas o crescimento da economia, como faz a medição do PIB, mas também o que chama de capital humano (nível de educação e formação da mão de obra) e capital natural (florestas e recursos naturais, por exemplo).
O índice foi criado em 2012 como uma alternativa ao Produto Interno Bruto e é calculado para 140 países. No cálculo final, o capital humano representa 23% do total, e o capital natural, 57%.

Segundo Lígia Costa, professora do Departamento de Fundamentos Sociais e Jurídicos da Escola de Administração de Empresas da FGV-SP, o índice mede de uma forma muito mais eficiente a qualidade de vida da população dos países analisados. "O PIB não mostra nenhum tipo de melhoria na qualidade de vida e é muito limitado", avalia.

No período analisado, a riqueza global inclusiva cresceu apenas 6%, considerando alterações no capital humano, no capital natural e no capital produzido, os três pilares da avaliação do IWR. A alta do PIB, que leva em conta apenas o desempenho econômico, foi de 50% em uma escala global.
Costa, que é uma das colaboradoras do estudo, considera que o desenvolvimento econômico e sustentável não pode se basear só no PIB. "Apenas considerando o PIB, o Brasil chegou a ser a sexta economia do mundo, passando a Inglaterra, mesmo sem os investimentos necessários em educação e saúde", pontua.