segunda-feira, 14 de abril de 2025

O fim da globalização como a conhecemos

“A inveja do mundo”. Era assim que Simon Rabinovitch e Henry Curr, editores da publicação inglesa The Economist, descreveram o estado da economia dos Estados Unidos em outubro do ano passado. Na série de sete artigos, os jornalistas tecem loas à pujança econômica estadunidense. Afinal, a economia crescia quase 3% em 2024. No agregado, o PIB do país nunca tinha sido tão alto, deixando para trás a retração da pandemia. O trabalhador norte-americano seguia sendo o mais produtivo do mundo e a concentração crescente de riqueza, argumentavam, era apenas o preço a ser pago por uma economia vigorosa.

O crescimento foi possível tendo em vista a revolução energética do petróleo de xisto, cuja extração foi permitida por tecnologia nova, o fracking. Os combustíveis fósseis extraídos por fraturação hidráulica de rochas profundas trouxeram aos Estados Unidos a soberania energética que permitiu o deslanche econômico. A soberania do dólar e de Wall Street nas finanças internacionais permanecia inconteste frente ao yuan e ao mercado acionário chineses. Apenas obstáculos internos poderiam atravancar a situação econômica norte-americana. Apesar de encontrarem problemas no plano econômico de Kamala Harris, Rabinovitch e Curr viam mais defeitos no de Trump.


Para o dissabor dos editores do Economist, cujos textos foram tirados do ar, o resultado da eleição de novembro daquele ano implicou um cavalo de pau na política econômica de Washington. À frente de uma coalizão eleitoral que incluía amplas parcelas da população do Cinturão da Ferrugem, área cujo setor industrial foi dizimado com o processo de globalização e acirramento da competição comercial nos anos 1990, Donald J. Trump foi alçado pela segunda vez à presidência.

Os empresários e plutocratas que compareceram à posse de Trump na Rotunda do Capitólio em fevereiro deste ano não pareciam estar contentes com a situação econômica deixada por Biden. Talvez na esperança de serem poupados de medidas econômicas nefastas, puseram-se a bajular Trump com doações recordes ao fundo que financiara a cerimônia de posse. Custava US$ 1 milhão sentar-se à frente até mesmo dos membros do gabinete que seriam logo empossados, preço prontamente pago por figuras como Elon Musk, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg.

Se Musk já colhia os resultados negativos de imiscuir-se nos mais altos níveis da política do país com o boicote à Tesla, agora foi a vez não só de Bezos, Zuckerberg e diversos outros, mas de todo o mercado pagar o preço de alçar Trump a uma nova presidência. O anúncio de um tarifaço global sem precedentes nos últimos cem anos, a que o governo Trump batizou “Dia da Libertação”, levou o mercado financeiro ao colapso. O S&P500, índice composto de quinhentos ativos negociados nas bolsas de Nova York (NYSE e NASDAQ), perdeu US$ 2 trilhões em capitalização em 20 minutos, principalmente concentrados nos setores têxteis e de tecnologia, dependentes de cadeias de valor internacionais.

Michael Feroli, do JP Morgan, estima que as tarifas podem sobretaxar os consumidores norte-americanos em quase US$ 400 bilhões, acelerando significativamente a inflação e reduzindo a renda disponível, o que aumenta a chance de uma recessão. O Federal Reserve de Atlanta já projetava antes do anúncio das tarifas crescimento negativo da ordem de -3,7% no primeiro trimestre de 2025.

O que chama a atenção, no entanto, é a quase absoluta ausência de quesitos técnicos nas tarifas anunciadas. Os agentes econômicos levaram um tempo para processar qual teria sido o critério que a equipe econômica de Trump havia escolhido para atribuir as alíquotas a cada país.

Para começar, a lista de jurisdições tarifadas inclui peculiaridades geográficas dignas de jogos de curiosidade. O primeiro-ministro Anthony Albanese ficou surpreso porque territórios australianos como as ilhas Norfolk (população: 2188 habitantes), ilhas dos Cocos (ou Keeling) (população 630) e ilha do Natal (1692 habitantes) receberam alíquotas diferentes do território continental da Austrália, que se encontra na faixa tarifária mais baixa de 10%. Era como se Fernando de Noronha tivesse uma alíquota tarifária diferente do resto do Brasil.

Mais surpreendentemente ainda, as ilhas Heard e McDonald, também território australiano no inóspito Oceano Antártico e, portanto, não habitadas, receberam menção independente e tarifa de 10%. É desconhecida a reação dos pinguins que habitam a região e o impacto econômico da medida…

As tarifas também pareciam alheias a qualquer caráter geopolítico, até então aliados de Washington como Israel (17%), Japão (24%), Taiwan (24%) e Coreia do Sul (25%), receberam tarifas maiores que o Irã (10%) e Venezuela (15%), não só rivais, mas objetos de sanções da Casa Branca. Foi notada a ausência da Rússia e da Coreia do Norte da lista dos tarifados, enquanto a Ucrânia recebeu uma alíquota de 10%. Os únicos outros poupados dessa rodada de taxação foram os sócios do USMCA, acordo que sucedeu o Nafta, Canadá e México.

Ao desenrolar da noite confusa que sucedeu o anúncio, internautas curiosos conseguiram decifrar o enigma e revelaram o algoritmo por trás do plano de Trump. Os territórios economicamente irrelevantes na lista devem sua presença ali ao fato de que contam com um código de domínio na internet (como o .br que encerra sites brasileiros, ou o .uk dos britânicos). Descarta-se assim a possibilidade de que a lista foi previamente organizada por um departamento técnico, como o Tesouro ou Comércio, mas por assim dizer “agentes” mais afeitos ao mundo digital. A não soberania, status autônomo, ou até mesmo presença de população permanente não é requisito para ostentar as duas letrinhas. Mesmo a Antártida conta com o código (.aq) e é possível registrar um site com esse código apesar da ausência de governo organizado no território. Não se sabe porque o governo Trump decidiu não tributar o continente gelado.

O anúncio do governo associava as alíquotas atribuídas a cada país a uma proporcionalidade, atenuada pela magnanimidade de Trump, do nível de tarifas e outras barreiras não tarifárias impostas às importações de produtos Made in USA. Os números simplesmente não batiam. Singapura, campeã em abertura comercial, recebeu os mesmos 10% do que o Brasil, que tem mercado sabidamente mais fechado aos produtos estrangeiros.

Tuiteiros (usuários do X?) começaram a levantar a hipótese de que as tarifas não tinham nada a ver com a abertura ou fechamento dos mercados às importações norte-americanas, mas sim alguma relação rudimentar com o déficit que os Estados Unidos apresentavam com cada país. Para aqueles com o quais os norte-americanos apresentavam superávit, tarifa mínima de 10%. De hipótese esdrúxula, a possibilidade sustentada por engenharia reversa, a alegação foi posteriormente confirmada pelo escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), agência responsável pela negociação de acordos comerciais. Para dar ar científico à coisa foi publicada uma fórmula assim como citados alguns artigos. A única diferença para o que havia sido desvendado pelas redes eram dois fatores (representados pelas letras gregas ε e φ) cujos valores multiplicados anulam-se mutuamente (uma conta pueril de 4 × 0,25).

Um usuário do Twitter/X desenvolveu a fórmula utilizada pelo USTR para chegar às alíquotas de tarifas para cada país, demonstrando que as tarifas eram proporcionais ao déficit comercial sobre as importações. 

O rumor agora não era apenas que a abordagem do tarifaço era “crua” e que “carecia de lógica econômica abrangente”, focando apenas nos déficits comerciais de bens sem considerar o panorama econômico completo, como avaliou o economista George Saravelos, do Deutsche Bank. Todo o débâcle econômico parecia ter sido gerado por um plano criado de forma pouco sofisticada utilizando inteligência artificial. O ChatGPT e outras IAs retornam fórmulas muito parecidas quando perguntadas algo como “Qual seria uma maneira fácil de calcular as tarifas que deveriam ser impostas a outros países para que os Estados Unidos estejam em igualdade de condições quando se trata de déficit comercial? Defina o mínimo em 10%”. Caso não acredite, confira por si mesmo.

O tarifaço anunciado no “Dia da Libertação” não só surpreendeu pela forma improvisada, quase amadora, com que foi desenhado – mas também pelo grau de desconexão entre os seus objetivos declarados e os efeitos mais prováveis. A ideia de aumentar a produção industrial dos Estados Unidos e reduzir o déficit comercial em US$ 600 bilhões pode até funcionar no PowerPoint, mas na realidade das cadeias globais de valor, das interdependências logísticas e das estruturas produtivas transnacionais, ela parece deslocada no tempo.

Mais do que isso: ela ecoa uma estratégia que quase um século atrás teve consequências desastrosas. A Smoot–Hawley Tariff Act, sancionada em 1930 por Herbert Hoover, aumentou drasticamente as tarifas de importação norte-americanas em plena crise. O resultado foi um colapso do comércio internacional e a intensificação da Grande Depressão. A história, como se sabe, não se repete – mas às vezes rima. A diferença agora é o mundo em que se insere o novo protecionismo americano. Se nos anos 1930 os Estados Unidos ainda hesitavam em assumir o papel de hegemon global, hoje parecem, deliberadamente, abdicar dele. Desde 1945, os Estados Unidos foram os principais arquitetos – e garantidores – da ordem liberal internacional. Aceitaram os custos disso: abriram mercados, financiaram reconstruções, toleraram déficits bilaterais com aliados estratégicos, como Japão e Alemanha. Não por benevolência, mas porque entenderam que estabilidade global e liderança andavam juntas.

Essa lógica começou a ruir nos anos 2000. A OMC estagnou, a Rodada Doha fracassou, e os Estados Unidos passaram a mirar países como China, Índia e Brasil, exigindo que deixassem de ser tratados como “em desenvolvimento”. A crise de 2008 marcou um novo momento: do G7 ao G20, da unipolaridade à multipolaridade emergente. O comércio seguiu, mas com mais fricção. E agora, com Trump de volta, o que se vê é menos um ajuste e mais uma tentativa de desmontar as engrenagens do sistema.

A reação internacional à nova cruzada tarifária revela os limites da política de força bruta. Sem critério técnico, sem lógica estratégica clara, e com uma execução que parece ter saído de um prompt mal calibrado de IA, o plano gerou mais perplexidade do que temor.

A China, alvo preferencial da retórica trumpista, já não é mais a mesma de 2017. Aprendeu a jogar com as regras do sistema – e agora desenvolve ferramentas próprias para responder. Um novo kit de “coerção econômica”, nos moldes norte-americanos e europeus, foi anunciado por Pequim. Já no campo político, a China começa a costurar encontros com Coreia do Sul e Japão, dois parceiros estratégicos dos Estados Unidos, mas que se viram repentinamente tarifados com alíquotas de 24% e 25%, respectivamente. A simples imagem desses três países sentados à mesma mesa, como aconteceu recentemente em Seul, já é uma rachadura no bloco ocidental.

A Índia, que vinha se aproximando de Washington, também acusou o golpe. É um dos poucos países emergentes com crescimento sólido e ambições globais. Não aceitará ser tratada como ameaça econômica e, ao mesmo tempo, como aliada militar. Nova Délhi já iniciou conversas com a União Europeia e com os Brics sobre alternativas comerciais. E o Vietnã, outro país que Washington cortejava com afinco, se viu atingido em cheio. Sua indústria leve, centrada em manufaturas para exportação, é especialmente vulnerável a esse tipo de tarifação. Há sinais de reaproximação com a China, inclusive em temas sensíveis, como tecnologia e energia. Um realinhamento silencioso, mas significativo.

Entre os que escaparam do tarifaço com a alíquota mínima de 10%, o Brasil talvez tenha sido o maior beneficiado. A capitalização da bolsa disparou, o real se valorizou e as exportadoras brasileiras comemoraram. A primeira reação do governo foi de contenção: conseguiu a aprovação pelo Congresso o direito de retaliar nos setores em que se sentir vulnerabilizado. Ainda assim, dado o contexto geral, é provável que o governo busque estabelecer novas negociações com os norte-americanos e manter o objetivo de diversificar a pauta exportadora. A estratégia parece ser ocupar o espaço deixado por parceiros tradicionais dos Estados Unidos. A reabertura do diálogo com a União Europeia, inclusive no âmbito do acordo Mercosul-UE, provavelmente ganhará novo impulso.

No entanto, a bonança pode ser enganosa. Isso porque as tarifas desorganizam o comércio internacional, tornam as relações bilaterais mais imprevisíveis e expõem o Brasil a pressões por alinhamento político. Já se fala nos bastidores de Washington sobre condicionar a manutenção da alíquota reduzida à adoção de compromissos diplomáticos – o que colocaria Brasília em uma posição delicada, entre a neutralidade pragmática e a barganha geopolítica.

Nesse sentido, o Brasil se alinha à linha adotada pelo México de Claudia Sheinbaum: explorar oportunidades sem comprometer a estabilidade. Mas enquanto o México conta com a blindagem do USMCA, o Brasil precisa navegar com mais astúcia – e entender que sua posição vantajosa pode não durar. A questão é se o país conseguirá transformar esse momento em alavanca para maior protagonismo internacional ou se apenas assistirá à crise norte-americana como espectador privilegiado.

É tentador decretar o fim da globalização. Mas talvez o que esteja em curso não seja o seu colapso – e sim uma mutação. A crise deflagrada pelas tarifas de Trump não é exatamente um ponto fora da curva. Ela está mais para um ponto de inflexão dentro de um processo mais longo, iniciado há pelo menos uma década e meia. A verdade é que o ordenamento liberal construído no pós-1945 já vinha se esgarçando. Seu apogeu talvez tenha sido nos anos 1990, com a consolidação da OMC, a expansão dos tratados bilaterais e regionais, e a promessa de um mercado global cada vez mais integrado, onde normas, instituições e previsibilidade compensariam as assimetrias. Os Estados Unidos lideravam esse processo, com ganhos tangíveis: exportavam produtos, mas também regras, modelos de governança, contratos e valores.

A crise de 2008 abalou as fundações desse sistema. O colapso do Lehman Brothers, a quebra de bancos na Europa e a resposta coordenada do G20 expuseram tanto o poder de articulação dos Estados Unidos, quanto os limites da sua capacidade de manter a estabilidade por meios exclusivamente liberais. Foi ali, no epicentro de Wall Street, que a globalização revelou sua face mais assimétrica. Por isso, para muitos países emergentes, 2008 foi menos uma crise e mais uma revelação: o sistema era instável e enviesado, e mesmo os que o desenharam não conseguiam controlá-lo. Foi nesse contexto que começaram a germinar os primeiros sinais de multipolaridade sistêmica: a criação dos Brics, o fortalecimento do G20, a ascensão da China como investidora alternativa do mundo em desenvolvimento.

Desde então, o que se viu foi uma crescente dissonância entre os discursos em defesa da ordem e as práticas de seus principais fiadores. A OMC estagnou. A Rodada Doha fracassou. Os acordos plurilaterais perderam tração. E os Estados Unidos – que sempre alternaram protecionismo seletivo com retórica liberal – passaram a agir cada vez mais de forma unilateral, impondo sanções, abandonando tratados e esvaziando instituições.

A volta de Trump à Casa Branca apenas leva essa tendência ao extremo. O tarifaço não é só uma política econômica. É uma declaração de abandono das regras que sustentavam a hegemonia americana, não por falta de poder, mas por escolha. Em vez de liderar com instituições, os Estados Unidos ensaiam liderar pelo choque. E isso tem consequências. No mundo do pós-Guerra Fria, a hegemonia norte-americana não se baseava apenas em tanques e dólares. Ela dependia da percepção de legitimidade. As instituições – FMI, Banco Mundial, OMC, ONU – funcionavam como extensões do poder norte-americano, mas revestidas de uma capa de multilateralismo. Quando Washington desrespeita ou ignora essas mesmas regras, sinaliza que a ordem é apenas um instrumento, não um fim. E com isso, abre espaço para alternativas.

A China, hoje, não busca necessariamente destruir o sistema – mas moldá-lo à sua imagem. Lança bancos paralelos (como o AIIB e o Novo Banco de Desenvolvimento – do BRICS), consolida sua moeda como instrumento de trocas regionais, e oferece infraestrutura e crédito a países que já não veem no Ocidente sua única opção. A Índia, o Vietnã, a Indonésia e mesmo países africanos também emergem como polos de estabilidade relativa, com peso demográfico, crescimento econômico e capacidade de articulação regional. E para fechar a história, Japão e Coreia do Sul se encontram em Seul com representantes chineses para buscar alternativas para a abertura comercial conjunta.

O mundo pós-2025 pode não ter um hegemon claro. Mas terá centros de poder, interesses cruzados e coalizões flexíveis. A fragmentação da ordem liberal não significa o retorno ao caos — mas sim um novo tipo de ordenamento, mais contingente, mais regionalizado, menos hierárquico. A globalização não acabou. Mas deixou de ser dirigida por um só maestro.

O mundo em colapso

A imagem já foi usada em textos anteriores. Trata-se da imagem do relógio do Juízo Final. Que está se aproximando meia noite. Para quem desconhece a história. Em 1947, a artista norte-americana, Martyl Langsdorf, esposa do físico Alexander Goldsmith Jr, do projeto Manhattan (fabricação da bomba atômica), desenhou um relógio para a capa do Bulletin of the Atomic Scientists, da Universidade de Chicago.

O relógio faz uma analogia com a raça humana, mostrando que a Humanidade está a segundos da meia noite, hora em que o planeta será devastado por uma guerra nuclear. Todos os anos, a imagem é redesenhada no boletim dos cientistas atômicos, onde se anuncia o apocalipse. Pois bem, nesses primeiros meses de 2025, a meia noite da catástrofe chegará em 90 segundos.

E quem sugere essa proximidade são os dirigentes das grandes potências que têm se referido em suas falas sobre a possibilidade de usar armas de destruição do planeta para defender seus territórios.


Vejamos. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia ultrapassa os limites do bom senso. Fala-se em cessar fogo, mas o que se vê, a cada semana, é a expansão do poder destrutivo dos dois países. A Rússia promete agir contra o que chama de militarização da União Europeia, após os líderes do bloco concordarem em aumentar gastos com defesa.

Na Faixa de Gaza, a guerra entre Israel e os palestinos não dá sinais de arrefecer.

Guerras se multiplicam nos quadrantes do planeta. Além da guerra entre Rússia e Ucrânia e entre Israel e Palestinos, vivem situações de conflitos os seguintes países: Síria, Iêmen, Sudão, República Democrática do Congo, Etiópia, Afeganistão, Líbia e Mianmar.

Um estudo realizado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês) mostra que, no ano passado, houve um grande aumento no sofrimento humano e na intensidade das guerras e conflitos globais. Mais de 200 mil pessoas foram mortas em 134 guerras e outros conflitos armados, representando um aumento de 37% em relação ao número de vítimas registradas no período dos 12 meses imediatamente anteriores, quando o confronto na Ucrânia já estava em seu segundo ano.

O mundo vive um dos ciclos mais tensos de sua história, a ponto de se indagar se não estamos voltando aos tempos da Guerra Fria, período de tensão geopolítica entre a União Soviética e os Estados Unidos e seus respectivos aliados, o Bloco Oriental e o Bloco Ocidental, após a Segunda Guerra Mundial.

O Papa Francisco diz que o mundo está a viver um momento de “autodestruição” com conflitos por todos os lados. Na encíclica “Laudate Deum”, de 2023, afirmava: urge “desarmar as palavras, para desarmar as mentes e desarmar a Terra”. E fazia o alerta: o mundo está “entrando em colapso e talvez se aproximando de um ponto de ruptura“. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, também alerta: a “Guerra Fria voltou”.

As tensões se acirram. Nas últimas semanas, a “guerra comercial” deflagrada pelo senhor do topete laranja, paira como ameaça sobre as já combalidas economias do planeta. A trégua de 90 dias dada pelo presidente czar americano, ao suspender o tarifaço que impôs a mais de 60 países e blocos comerciais (com exceção da China), é um alívio passageiro. O mundo pós-tarifaço do mandachuva do Império Norte já não é o mesmo.

A paisagem é tão cheia conflitos que até a interpretação do professor Samuel Huntington em seu livro “Choque de Civilizações”, escrito há 40 anos, parece atual para descrever o caos que o mundo vivencia: “quebra da lei e da ordem, Estados fracassados e anarquia crescente, onda global de criminalidade, máfias transnacionais e cartéis de drogas, declínio na confiança e na solidariedade social, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver.”

A violência se expande em todas as áreas. No Irã, os aiatolás se voltam contra as mulheres. Que vão às ruas para protestar contra o Estado religioso. Em diversas regiões do planeta, o trabalho escravo aumenta seus espaços. Aqui, em nossas plagas, o trabalho infantil desafia as forças da lei. A floresta amazônica é usada como um grande corredor para exportação de drogas. A Nação yanomami continua sendo invadida por garimpeiros.

A sensação é a de que o País navega nas ondas da impunidade. Habitamos um território da desobediência explícita, o que justifica o chiste sobre nossa sociedade: Há quatro tipos de sociedade no planeta: 1. a inglesa, liberal, onde tudo é permitido, exceto o que é proibido; 2. a alemã, rígida, onde tudo é proibido, exceto o que for permitido; 3. a ditatorial (Coréia do Norte), fechada, onde tudo é proibido mesmo o que for permitido; e 4. a brasileira, onde tudo é permitido mesmo o que for proibido.

Nada mais surpreende. O PCC constrói seu cofre de Tio Patinhas, onde esconde cerca de R$ 10 bilhões. Seus negócios se espalham pelo mundo. E onde estão seus comandantes? Em celas de segurança máxima, onde estão trancafiados.

Resumo desse relato: guerras armadas, conflitos, disputas, mortandade, guerra comercial, carteis de droga, Estados fracassados, Nova Guerra Fria, trabalho escravo, trabalho infantil, destruição do meio ambiente, violência contra povos originários, violência contra a mulher – são sinais de que o mundo está em colapso. O relógio do Juízo Final marca, hoje, 90 segundos para Meia Noite, o final dos tempos.

domingo, 13 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Go home!

É estratégico. O governo (Barack) Obama tirou os olhos da bola e deixou a China tomar toda América do Sul e Central, com sua influência econômica e cultural, fazendo acordos com governos locais de infraestrutura ruim, vigilância e endividamento. O Presidente Trump disse ‘não mais’, vamos recuperar o nosso quintal.
Peter Hegseth, Secretário de defesa 

Os americanos que defendem a procriação seletiva

A cidade de Austin, capital do Texas, é um oásis liberal fincado num estado sulista majoritariamente conservador. Sua respeitada universidade também — dois terços dos 52 mil alunos que ali estudam se declaram liberais, e apenas 10% conservadores. Mesmo sem dados específicos sobre o corpo docente da bicentenária instituição, pode-se supor que os mais de 3,2 mil professores de suas 19 faculdades também espelham esse perfil arejado. Daí a estranheza com a realização, num dos 50 prédios do espaçoso campus, de um simpósio bastante exógeno ao saber acadêmico.

O evento anual que atende pelo nome de Natal Conference (ou NatalCon - "Estamos vivendo a maior crise populacional da história da humanidade.
O futuro pertence àqueles que se apresentam"
), agora em sua segunda edição, foi divulgado on-line até em português. Ao longo de dois dias da semana passada reuniu “pró-natalistas” dedicados, em princípio, a buscar soluções para estancar e inverter o declínio das taxas de natalidade no mundo. O tema não é novo, vem sendo debatido desde o pico dos anos 1960 por demógrafos, economistas e cientistas de várias vertentes. O “novo”, no caso da NatalCon, é a naturalidade com que organizadores e participantes convergem para promover, senão a eugenia, algo muito próximo dela.

Joseph Goebbels, ministro da propaganda hitlerista, e família

O preço do ingresso individual neste ano foi de US$ 10 mil (quase R$ 60 mil para um fim de semana ) e, mesmo assim, “sujeito à aprovação”, conforme constava da ficha de inscrição. O site da conferência também avisava que os “debates francos e profundos” seriam a portas fechadas, com celulares proibidos, e que haveria algum tipo de filtro dos participantes. Os solteiros receberam pulseiras amarelas indicativas de que procuravam futuras esposas para formar famílias de filhos múltiplos. Graças a uma reportagem da CNN americana, que obteve acesso parcial ao evento, foi fácil constatar o óbvio: a natalidade desejada é somente para brancos. Brancos americanos. Brancos americanos aptos. Brancos americanos aptos e extremistas.

Oradores martelaram mensagens subliminares:

— Isso é uma guerra da civilização, e vamos vencê-la passo a passo.

— Precisamos de mais crianças para nosso futuro.

— Pessoas marginais devem ser mantidas à margem.

— Enquanto a esquerda se preocupa em abrigar gatos, queremos multiplicar o nascimento de bebês.

O marido de uma palestrante em trajes coloniais e touca branca de algodão, com um dos cinco filhos amarrado às costas, queria saber “por que pessoas focadas em alta fertilidade são vistas como esquisitas?”.

Segundo o discurso oficial, a meta política ou ideológica da conferência era uma só: trabalhar para “um mundo em que nossos filhos podem ter a segurança de vir a ter netos”. Faltou explicitar “netos aptos”.

— Não é eugenia, não se trata de esterilizar pessoas inadequadas — garantiu a genitora da touca de algodão alvo.

Ah, bom.

— Poder escolher o melhor entre nossos próprios embriões não é fazer seleção — acrescentou, convicta.

Uma coisa deve ter ficado clara ao final da conferência com toques de cientificismo racial: o almejado aperfeiçoamento de futuras gerações não se destinava a contemplar bem-estar ou melhorias para a população em geral. Dane-se a humanidade.

Por que desperdiçar tempo com um evento de escopo tão limitado, quando comparado ao precipício global cavado por Trump na Casa Branca? Porque a conferência em Austin e o poder em Washington têm dois cordões umbilicais de peso: um é o vice-presidente J.D.Vance, herdeiro natural do movimento Maga (se algum dia Trump sair do poder). Vance é jovem (40 anos), além de celerado e oportunista. Já abraçou publicamente o “natalismo” e nele se embrenhará com afinco se e quando necessário.

O outro é ninguém menos do que Elon Musk, defensor radical do repovoamento seletivo do mundo. A maioria dos seus 13 filhos foi gerada por fertilização in vitro por quatro mulheres (o caçula tem 7 meses de idade), buscando, talvez, o DNA da genialidade. (A exceção é a filha trans Vivian Jenna, de 21 anos, que do pai não quer sequer o sobrenome.) Musk não apenas apoiou e recomendou a realização da conferência, como tem fundos e mundos para multiplicá-la exponencialmente, onde quiser.

Caso, alguma vez, ele tenha lido algo do biólogo e paleontólogo Stephen Jay Gould, deve ter sido com a ajuda da ferramenta Blinkist, a preferida de CEOs e big techs para economizar tempo. Assim, deve ter passado batido por um dos ensinamentos mais bonitos do cientista que amava as espécies:

— Estou menos interessado no peso e nas convoluções do cérebro de Einstein que na quase certeza de que pessoas com talento igual ao dele viveram e morreram em campos de algodão e oficinas exploradoras.

Quarenta anos de uma democracia fundada por ditadores

Planejaram febrilmente o Brasil ia mudar
Congelaram a pátria amada
Botaram as coisas no lugar
Todo mundo, o mundo inteiro
Essa farsa engoliu
O povo se fodeu e o Brasil faliu
Deu errado
Plano furado
Eles não fraquejaram
Prometeram que iam ver
Uma desculpa nova do plano refazer
Refizeram a Constituinte com um grande bacanal

Não rifaram o Brasil porque era ilegal.
“Plano furado”, Ratos de Porão






Era 2009, 24 anos depois da transição democrática, que os pesquisadores do CPDOC/FGV entrevistaram o ex-ministro das Relações Exteriores, Saraiva Guerreiro. O último chanceler do Regime, ou da “Revolução”, como muitos deles falavam em ambientes internos, mostrou seu depoimento e sua memória sobre a transição. Ele diz: “(…) eu não vejo na Nova República, como é chamada, uma quebra propriamente com o passado, mas sim uma busca de refazer tudo de acordo com o que eram ideais do passado que nunca conseguimos efetivar”.

O historiador Tiago Monteiro inicia seu artigo na saudosa Revista de História da Biblioteca Nacional, destacando um ponto central para entendermos o processo de redemocratização: “A eleição de janeiro de 1985, que muitos insistem em apresentar como uma derrota das Forças Armadas, constitui, na verdade, a própria vitória da Revolução de 1964, através da consolidação do processo político brasileiro”. O que nos faz pensar que a democracia inaugurada pela chamada “Nova República” foi fundada por ditadores. Um paradoxo curioso.

A ideia de que o povo nas ruas, que as manifestações pelas diretas já etc. levaram à redemocratização não é confirmada pelos fatos. Até porque, em 25 de abril de 1984, a emenda das Diretas foi derrotada por escassez de deputados. Deste modo, o professor Marcos Napolitano questiona: “Como milhões de pessoas nas ruas não conseguiram derrotar um regime isolado e desprestigiado, nem dobrar seus representantes no Congresso?”

Os militares queriam uma democracia controlada pelas Forças Armadas. O objetivo era manter o poder militar via Estado de direito. O que vemos aqui é o que Maria Celina D’Araújo, Gláucio Soares e Celso Castro chamaram, tendo como objeto a cultura política do período ditatorial brasileiro, de “utopia militar”. Essa utopia “estava claramente fundada na ideia de que os militares eram, naquele momento, superiores aos civis em questões como patriotismo, conhecimento da realidade brasileira e retidão moral”. Para Carlos Fico, a utopia militar trata-se da “crença de que seria possível eliminar quaisquer formas de dissenso (comunismo, ‘subversão, ‘corrupção’) tendo em vista a inserção do Brasil no campo da ‘democracia ociedental cristã’”. De acordo com essa ideologia, o sistema de valores ocidentais só seria “salvo” por meio de uma utópica “democracia militar ocidental”.

No início planejava-se “a constitucionalização do regime, mas não o retorno do país à democracia liberal”. No entanto, quatro fatores prejudicaram esse projeto: a vitória do MDB nas eleições parlamentares de 1974; a crise econômica; o fato do presidente Jimmy Carter iniciar uma política de direitos humanos que não tolerava mais ditaduras no continente; e os assassinatos em quartéis, com as mortes do jornalista Vladimir Herzog e de Manuel Fiel Filho.

Contudo, o projeto militar encontrou uma solução: Tancredo Neves. O candidato civil era “diplomado na ESG e frequentador das reuniões de ex-alunos da instituição”. Tancredo se comprometeu com o projeto de Distensão – então chamado de Abertura – e de não punir nenhum militar envolvido na repressão. Escolheu para ministro generais “esguianos” – formados pela ESG – como os generais Ivan Mendes e Leônidas Gonçalves.

O que ocorreu foi uma transição pelo alto. Talvez por isso, a morte de Tancredo ganhou uma cobertura ampla, que o transformou em um verdadeiro mito pela imprensa que apoiou a ditadura militar. O Fantástico da Rede Globo dedicou quatro horas transformando o presidente eleito em mártir; “claramente representado pelo mito cristão da redenção pela morte do messias”.

Tancredo faleceu em 21 de abril de 1985 e o primeiro presidente civil acabou sendo o seu vice, José Sarney, político vindo da Arena – partido ligado ao regime militar.

Sarney assumiu a posse antes de Tancredo morrer, que só autorizou a cirurgia (que não viria a ter sucesso) ao saber que Sarney seria empossado.

O historiador Jorge Ferreira mostra um episódio emblemático: “O general João Figueiredo, desafeto político de Sarney, negou-se a passar-lhe a faixa presidencial e saiu pela porta dos fundos do Palácio do Planalto. Ninguém parecia perceber e nem se preocupar com o episódio. Os militares, que entraram no Palácio arrombando a porta da frente, saíram sem serem percebidos pela porta dos fundos”.

Desse modo, o povo mais uma vez viu os militares mexerem os pauzinhos e determinarem os rumos da República enquanto assistiam tudo bestializados. Não houve ruptura, apenas a imposição liberal do projeto militar que tem como objetivo central a não participação popular na condução do país.

A frase de Bolsonaro, pronunciada em 2021, perante os militares no Rio de Janeiro descreve o plano militar: “Quem decide se um povo vai viver na democracia ou na ditadura são as suas Forças Armadas. Não tem ditadura onde as Forças Armadas não a apoiam”. Indiretamente, essa frase pode ser interpretada exatamente da maneira pela qual os militares do período pensavam a redemocratização. Uma espécie de tutela, no qual eles decidem o momento de fazer uma intervenção ou não.

Desde 1985, os militares se retiraram da cena política com a certeza de que não iriam ser punidos pelos crimes cometidos entre 1964 e 1985. De certa forma, eles negociaram a transição com civis que fossem próximos do entorno militar ou que pelo menos tivessem um sentido mais conservador. Como bem aponta o historiador Adriano de Freixo, os militares aceitaram perder o protagonismo político, mas não ser controlados pelas forças civis.

Durante o período em que não estiveram no centro do poder político, as diversas tentativas de controle dos civis causaram crises. Por exemplo, no segundo governo FHC (1998-2002), a criação do Ministério da Defesa (MD) foi uma tentativa de fazer um maior controle das forças, algo que sofreu críticas e acabou não sendo bem aceito pelos militares. Depois, durante uma parte da gestão Lula II (2006-2010) e Dilma (2011-2014), iniciou-se as discussões sobre as reformas no ensino militar, com a possibilidade de mudar o currículo e colocar temáticas que fossem mais próximas do debate democrático. A simples menção a mudanças no currículo gerou muitas dificuldades para as gestões petistas. A última tentativa de mudar o pensamento militar autoritário foi com a Comissão da Verdade, algo que não foi aceito pelos militares que se basearam na Lei da Anistia para não mexer naquele antigo passado.

Entretanto, os militares, após um longo período na caserna, aproveitaram a oportunidade que as jornadas de 2013 trouxeram. A crise econômica e política que gerou o golpe de 2016 abriu uma oportunidade para recuperar o protagonismo político. Apesar de não aceitarem e não respeitarem uma figura do “baixo clero” e indisciplinada como Bolsonaro, eles entenderam que era uma possibilidade de ter alguém comandando a Presidência da República que poderia favorecer as suas pautas. Entre as quais estavam um constante aumento de militares nos cargos da administração federal, valorização salarial e aumento do orçamento para as Forças Armadas.

Para além dessas demandas classistas, os militares da alta cúpula que cercaram Jair Bolsonaro, eram formados pela Escola dos Agulhas Negras (Aman) e com a mentalidade autoritária militar desde 1889. Isto é, ancorada nos três pilares que aponta Carlos Fico: o desprezo pela política, a convicção da superioridade dos militares em relação aos civis e a crença de que a sociedade não está preparada para se governar. Logo, entende-se porque o alto escalão das forças estava disposto a fomentar um golpe de Estado no país. Eles são formados para acreditarem que são superiores moralmente na governança do país, e se levarmos em conta que foram eles que negociaram a transição democrática em 1985, em suas cabeças eles estavam apenas fazendo o que era correto para a sociedade, como bons tutores da nação.

Contudo, nessa democracia forjada pelas Forças Armadas, não são elas que determinam as medidas que serão adotadas pelo governo. Dentro do sistema neoliberal brasileiro, quem dita as regras são o mercado financeiro e o agronegócio. E, como nesse sistema a principal responsabilidade do Estado é a segurança, já que a meta é privatizar tudo (educação, saúde etc.), os militares (principalmente no Brasil onde não houve um acerto de contas com os crimes cometidos por eles durante a ditadura) acabam adquirindo um grande protagonismo, ganhando reconhecimento e prestígio perante a população que vê nas Forças Armadas a solução final para combater a violência. O neoliberalismo tornou-se uma espécie de antessala de uma ditadura em nome da segurança.

Uma democracia fundada por ditadores e administrada pelas elites econômicas pode ser chamada de democracia?

Nesse sentido, é importante desconstruir essa noção de que os militares são superiores em relação aos civis. E para tanto, o julgamento sobre a tentativa de golpe de Estado e destruição das instituições democráticas, é um ponto fundamental, posto que, desde 1889, não houve, em nossa história, punições para os militares que fomentaram golpes militares.

Além disso, seria imprescindível, em termos econômicos, compreender que o capitalismo limita a democracia. A cientista política, Ellen M. Wood, é enfática sobre esta questão: “Não existe um capitalismo governado pelo poder popular no qual o desejo das pessoas seja privilegiado aos dos imperativos do ganho e da acumulação e no qual os requisitos da maximização do benefício não ditem as condições mais básicas de vida. O capitalismo é estruturalmente antiético em relação à democracia, em princípio, pela razão histórica mais óbvia: não existiu nunca uma sociedade capitalista na qual não tenha sido atribuído à riqueza um acesso privilegiado ao poder”.

Enquanto o povo morria de Covid-19, uma ditadura quase renascia

A denúncia do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e mais 36 pessoas envolvidas em um movimento articulado para a promoção de um golpe de Estado no país revela um plano sombrio que vai muito além da simples recusa em aceitar os resultados das eleições de 2022.

O que toda a sociedade brasileira não sabia é que em 2021, enquanto milhares de brasileiros morriam de Covid -19 sem atenção do governo, causando uma enorme dor coletiva, Bolsonaro, com a alta cúpula do governo, já traçava um plano para excluir a possibilidade de honrarmos a memória dos nossos entes queridos nas urnas no ano seguinte.

Enquanto o Brasil registrava números recordes de mortes por Covid-19, o então capitão-presidente e sua cúpula governamental articulavam um golpe para se manter no poder, independentemente da vontade popular. Era a implementação de um projeto sistemático de desestabilização da democracia para que os amantes da tortura e do autoritarismo permanecessem no poder.


Conspiravam enquanto milhares de brasileiros perdiam a vida por negligência do Estado. As famílias choravam seus mortos, Bolsonaro fazia chacotas das mortes e planejava como silenciar o povo e garantir poderes absolutos. Esses dois fatos explicitam o seu desprezo à vida e à democracia. Aliás, um dia ele disse, sem ficar ruborizado, que sua especialidade era a morte. Quanto a isso, não mentiu: mais de 700 mil pessoas morreram vítimas da doença, que se alastrou por conta do negacionismo do governo passado.

Quando Bolsonaro ridicularizou as vítimas imitando uma pessoa sufocada e muitos pensaram que se tratava de sua mera incapacidade mental e de empatia, fez isso porque, segundo a denúncia da PGR, ele e seus comparsas previam o “uso da força”, “dar soco” e “virar a mesa” antes mesmo das eleições. Isso mesmo: queriam calar a nossa voz a qualquer custo.

Enquanto o presidente Lula passou a viajar pelo país ouvindo o sofrimento da população e acreditava no caminho democrático, os golpistas bolsonaristas davam passos para a “execução do plano de permanência no poder, independente do resultado das urnas”. Eles nunca quiseram disputar as eleições constitucionalmente definidas e nem enfrentar a maior limitação para um autoritário na democracia: o poder do povo.

Ao contrário deles, nós acreditamos no poder do povo e na importância da Constituição. Pessoas como o meu pai, perseguido pela ditadura, e tantos outros que sequer tiveram a mesma sorte de estar vivos, enfrentaram o regime militar para termos uma democracia. E é essa democracia que garante aos golpistas, hoje, um devido processo legal e assistência de advogados para se defenderem perante o STF.

Em 2021, governo federal minimizava a gravidade da Covid-19, promovia tratamentos ineficazes e ridicularizava as vítimas. Bolsonaro performava cruelmente para ridicularizar as vítimas da doença. No entanto, a denúncia da PGR mostra que esse comportamento não era apenas fruto de ignorância, mas parte de uma estratégia para deslegitimar o sofrimento alheio e preparar o terreno para medidas autoritárias.

Os brasileiros que sobreviveram à pandemia – e aos anos de desgoverno – tiveram a chance de ir às urnas em 2022 para honrar a memória daqueles que foram vítimas da negligência estatal. Muitos perderam pais, filhos, companheiros e amigos. Essas mortes não foram apenas números; foram vidas interrompidas por um governo que escolheu a omissão e o negacionismo.

Agora, o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) não é apenas sobre Bolsonaro e seus aliados golpistas. É sobre o direito de milhares de brasileiros de serem lembrados. É sobre garantir que nenhum governante possa novamente conspirar contra a democracia enquanto o povo sofre.

A Constituição de 1988 garantiu a todos – negros, brancos, pobres, ricos, LGBTQIA+ – o direito de opinar sobre os rumos do país. Mas milhões de brasileiros foram privados desse direito não pela lei, mas pela morte precoce causada pela crueldade e incompetência do governo Bolsonaro.

Hoje, aqueles que sobreviveram têm a obrigação de lutar para que a justiça prevaleça. Não apenas pela condenação dos responsáveis pelo golpe frustrado, mas para que nenhum outro governo ouse novamente brincar com a vida do povo.

O julgamento dos golpistas pelo STF não diz respeito apenas a lados políticos e à defesa da democracia, mas também ao direito que os milhares de brasileiros mortos têm de ser lembrados. É na memória dos pais, mães, filhos, parentes. companheiros, amigos ou vizinhos que hoje dizemos: nós temos amor ao próximo e não deixaremos que ninguém nos cale. Temos a força da memória e da resistência. Ainda estamos aqui.

Perto do ponto de não retorno

O Pantanal, vasta planície inundável do Brasil e a maior do mundo, é, atualmente, um dramático epicentro das adversidades climáticas exacerbadas pela ação humana. A região enfrenta secas severas e incêndios descontrolados, fenômenos que espelham não apenas uma crise ambiental local, mas, também, uma perturbação climática de escala global.

Os eventos no Pantanal não são um fenômeno isolado. O planeta testemunha um crescimento alarmante na frequência e na gravidade de eventos climáticos extremos. Tempestades devastadoras e ondas de calor sem precedentes são observadas das Américas à Europa, evidenciando uma crise que desafia fronteiras geográficas e exige atenção internacional.


Essa intensificação dos eventos extremos deve-se à interação das atividades humanas com os delicados sistemas naturais do planeta. A queima de combustíveis fósseis, práticas agrícolas insustentáveis e, crucialmente, o desmatamento e a degradação acelerada, especialmente nas regiões tropicais, contribuem significativamente para este cenário.

As florestas e savanas da Amazônia e do Cerrado são vitais para a regulação hídrica e climática. Ao serem degradadas, comprometem o regime de chuvas e afetam regiões dependentes, como o Pantanal. O desmatamento nesses biomas contribui de forma decisiva para a redução drástica na humidade, que precipita secas e incêndios.

É alarmante constatar que, nas últimas três décadas, o Pantanal sofreu uma redução de 60% da sua superfície de água, segundo os dados do MapBiomas, iniciativa que, desde 2015, analisa o uso do solo nos diversos biomas brasileiros. É um indicativo claro do impacto que as alterações climáticas e a destruição dos ecossistemas têm sobre os ambientes aquáticos e a biodiversidade.

A interligação entre o desmatamento nos biomas vizinhos e a alteração no ciclo de água do Pantanal é um exemplo palpável de como os impactos ambientais são interconectados e amplificados pelas atividades humanas. Secas prolongadas no Pantanal não apenas reduzem a humidade do solo e da vegetação, tornando a área mais propensa a incêndios; também afetam a biodiversidade e a vida das comunidades locais.

Diante deste quadro desafiador, a mitigação emerge como uma necessidade urgente. Reduzir emissões de gases de efeito estufa, promover práticas agrícolas sustentáveis e preservar áreas florestais são medidas essenciais. A colaboração global entre sociedades, governos e organizações é fundamental para desenvolver estratégias de adaptação e mitigação que possam enfrentar uma crise tão iminente quanto escalável.

Compreender a magnitude da crise climática e o papel vital que cada um pode desempenhar na promoção de um futuro mais sustentável é crucial.

Podemos estar muito próximos de “pontos de ruptura” climáticos que, uma vez ultrapassados, podem desencadear mudanças irreversíveis e autoperpetuantes nos sistemas terrestres, tornando a vida significativamente mais difícil e imprevisível para as gerações futuras. Evitar esses pontos críticos significa manter a integridade de ecossistemas vitais, como as florestas tropicais e o gelo polar, cuja destruição poderia desestabilizar o clima global de maneiras que ainda lutamos para compreender completamente.

A adoção de medidas rigorosas de proteção ambiental e a rápida transição para uma economia de baixo carbono são essenciais para mitigar os riscos de ultrapassar esses pontos de não retorno. Agir agora não é apenas uma responsabilidade ética; é uma necessidade pragmática para garantir um futuro sustentável e habitável. A nossa geração tem o dever de reconhecer e responder a estas ameaças com a urgência e seriedade que elas exigem, para assegurar que não comprometemos a capacidade de o nosso planeta sustentar a nossa e as futuras gerações.

sábado, 12 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Coragem dos ignorantes

Donald Trump não é um político tradicional. Ele frequenta a categoria dos homens corajosos porque desconhecem os problemas que o cercam. São os destemidos ignorantes. Ele avançou e chegou a preocupar o mundo das finanças quando as letras do Tesouro dos Estados Unidos começaram a ser vendidas em grandes quantidades e os compradores começaram a exigir juros mais elevados. Isso significa, na linguagem de quem lida com o assunto, que a confiança tinha acabado. Ao mesmo tempo, verificou-se grande quantidade de ordens de compra de títulos do governo alemão. As bolsas despencaram, e o previsível caos se anunciava no final da jornada. Diante da catástrofe iminente, Trump recuou. Limitou sua guerra a um alvo: a China.


Seu recuo de 90 dias, três meses, concede um prazo razoável para o mundo entender melhor aonde o presidente dos Estados Unidos quer chegar. A sua proposta de substituição de importações, velha política latino-americana sugerida pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), parece fora do tempo. As indústrias norte-americanas que migraram para a China também se modernizaram no país que as recebeu. Os trabalhadores foram substituídos por robôs. Se a política de Trump tiver algum resultado positivo, nos próximos anos será representada por nova geração de robôs que vão trabalhar em fábricas norte-americanas. Mas nada disso acontecerá no curto prazo, nem dentro de um mandato presidencial de quatro anos.

O mundo conseguiu um prazo para respirar. Os europeus, que já tinham decidido retaliar na mesma proporção do agravo, resolveram aguardar 90 dias. A maioria dos países se contentou com esse novo prazo e passou a assistir de arquibancada à luta entre os dois gigantes do comércio mundial. Os chineses jogam xadrez. Responderam vendendo 50 bilhões de dólares em títulos do Tesouro norte-americano, o que provocou a desvalorização do papel e quebrou a confiança internacional naquele investimento. Os americanos acusaram o golpe e recuaram imediatamente. Mas taxaram os produtos chineses em absurdos 145%.

Guerras tarifárias não costumam consagrar vencedores ou vencidos. Costumam dar motivos para guerras de verdade, tiros e bombas para todos os lados. As últimas duas guerras mundiais estão repletas de exemplos de tributação excessiva que degenerou em conflito bélico. A condenação da Alemanha a pagar vultosas multas após a primeira guerra resultou na indignação do país, na consequente preparação bélica que desaguou no conflito que produziu mais de 50 milhões de mortos.

A irracionalidade dos dirigentes políticos não é recente, nem original. As pessoas suspeitavam que os novos e mais eficientes meios de comunicação produziriam melhores líderes, mais bem informados. Não é verdade. Trump é um legítimo representante do pensamento dos anos 30 do século passado. Além disso, ele é contra a educação nos Estados Unidos — persegue estudantes que façam crítica ao governo norte-americano e a Israel —, expulsa migrantes sem qualquer critério, nem julgamento. Coloca gente de outro país em prisão em El Salvador, a troco de um generoso pagamento. Ataca o Judiciário, não respeita as leis, além de ter traído a confiança de grandes eleitores, que contribuíram com milhões de dólares para sua campanha. Destruiu a aliança ocidental e quebrou o cristal da confiança que o governo de Washington inspirava no mundo. Demitiu milhares de funcionários públicos.

Um espanto. Trump é uma espécie de Nero moderno, com sua pinta de galã dos anos 30, sem qualquer verniz intelectual. O Brasil, com exceção de umas poucas empresas grandes estabelecidas em várias partes do mundo, está protegido das loucuras do homem forte do Norte por ser pequeno e não pertencer a nenhum bloco que possa ser severamente penalizado. Talvez haja algum embaraço na reunião do Brics, quando deverá ser realizado algum tipo de desagravo em relação à China. Mas, o histórico subdesenvolvimento nos protege, porque não há muito o que discutir com o Brasil, que mantém a balança comercial deficitária com os Estados Unidos. Recebeu uma taxa recíproca básica de 10%, mas poderá se beneficiar no eventual aumento de comércio com a China e outros países asiáticos. Até os europeus já admitem a possibilidade de ratificar o acordo Mercosul-União Europeia.

Mas ninguém duvida de que Trump é um personagem da mídia. Ele adora frequentar as manchetes de jornal, estar diante dos holofotes de televisão. Faz qualquer negócio para aparecer sempre. Ele prometeu acabar com a guerra da Ucrânia e com o conflito entre Israel e palestinos. Tudo em uma semana. Não acabou nem com uma nem com outra guerra. Mas apareceu nos jornais do mundo inteiro.

Balas de Prata

Anda tudo doido com a série. Dizem que é boa. Que é a chave de todos os mistérios e angústias da juventude contemporânea. A razão que explica o inexplicável. A bala de prata.

Eu não vi “Adolescência”. Não verei. Tenho horror a unanimidades. E, reparem: é preciso uma série de televisão para diagnosticar o óbvio? O problema não é subtil, esfíngico. Está à nossa frente, a berrar como um palhaço embriagado num coreto. Está nas mãos, nos bolsos, nos nossos olhos mortos: o telemóvel, esse milagre estúpido que há-de dar cabo de nós.

Outro dia, o João Miguel Tavares — homem inteligente — apresentou uma tese elegante no Público — mas errada. Segundo ele, depois da BD nos anos 50, da televisão nos anos 60, dos jogos de vídeo nos anos 80, os telemóveis são apenas o novo capítulo de um velho pânico. Mudam-se os tempos, mudam-se os brinquedos. A histeria é sempre a mesma. Talvez. Talvez à superfície.


Mas o próprio João Miguel, que desconfia de balas de prata, acaba por disparar a sua. Em cheio na testa. A tese de que tudo se repete é uma dessas soluções milagrosas que ele próprio condena. Mas não é assim. Há uma diferença gritante e melancólica: o telemóvel não é um brinquedo. É arma. É um amplificador de misérias. Especializámo-nos em descobrir o pior uso possível para seja o que for — e praticá-lo com esmero. Há paralelos? Há. Mas sempre piores. Neste caso, o telemóvel é uma nova categoria de alienação.

Somos todos crianças com um telefone na mão. É um mal muito democrático. Passamos uma hora a olhar para o vazio e juramos que é importante. Falar disto como se fosse problema exclusivo dos mais novos é um erro. Não é. Se um pai está a olhar para o telefone em vez de estar a fazer um desenho, o filho não vai querer desenhar.

O telemóvel esburaca-nos a existência. E por esses orifícios entram demónios que nem o mais degenerado de 1950 imaginaria. E nós, com um sorriso aparvalhado, partilhamos essa janela com os filhos. Como quem dá bagaço a um recém-nascido. Para depois escrevermos textos resignados, suspirando que é a vida, mais do mesmo, etc.

“Têm de aprender”, dizem. “O mundo é feito de computadores”, insistem. Mas basta um dedo gorduroso para deslizar pela infâmia rectangular. Qualquer avozinho semeia milho no Facebook. Qualquer analfabeto tem a perícia de uma lagartixa iluminada. Não é preciso licenciatura para isto. Há um abismo entre ciência computacional e ser capaz de mexer nas tábuas brilhantes que veneramos como sacrários.

Perdeu-se o instinto de defesa; perdeu-se a vergonha. O mal espalha-se e tratamo-lo com regulamentos de piscina municipal. Quantas escolas proibiram verdadeiramente o telemóvel? Uma? Duas? “Não se usa o telemóvel durante as aulas”, dizem — como se fosse aceitável trazer veneno no bolso, desde que não se beba à frente do professor.

Sei de colégios onde, durante o recreio, os campos estão sem ninguém. As árvores não têm crianças. As calças não se esfolam. Tempo bizarro: miúdos a rebentar foguetes ou a pôr sapos a fumar cigarros parecem agora uma esperança.

O buraco, o verdadeiro, é o vazio. O homem precisa de enchê-lo e tem horror ao silêncio, à vida sem estímulo. E o telemóvel é a máquina portátil de fabricar distracções — infinita, irrelevante, irredimível.

O velho Godard dizia que no cinema elevava-se a cabeça e com a televisão passámos a baixá-la. Pois agora só vemos a barriga. A queda não é figurada. A queda é física, mesmo.

O mais simples é dizer que os tempos agora são outros, que tem de ser e pronto. Mas cada acto de resignação é um acto colaborativo. Com um disparo. De uma bala de prata. Contra nós.

Explicar por que razão o telemóvel é mau não resolve nada. É como explicar porque é que a fome dói: quem tem fome já sabe.

Mas nem sempre sabe isto: ao contrário do que achamos, não escolhemos. Perante vinte impulsos, achamos que decidimos, — mas é o impulso que nos decide a nós. É o par de sapatos da montra que nos compra. A imagem que nos empurra. A pornografia que nos devora.

A única saída — e nisto a bala de prata do João Miguel aponta na direcção certa — é a de sempre.

O verdadeiro caminho da liberdade é desconfiar de si mesmo. Conter-se. Fechar os olhos.

Fechar os olhos. Só isso.

Feminismos contra o fascismo: de que lado você está?

Por que tão poucas mulheres participam dos cargos políticos? Por que as que ousam entrar nessa arena são violentadas, agredidas moralmente, têm suas vidas ameaçadas? O que e quem impede as mulheres de exercerem a plena cidadania consagrada na Constituição de 1988?

Para analisar essas questões, fui convidada a participar da 1ª Audiência Pública Mulheres e Cidadania, organizada pela Escola Judiciária Eleitoral do Tribunal Eleitoral da Bahia, cujo corajoso objetivo era diagnosticar a violência política de gênero e ampliar a participação política das mulheres. Foi a primeira vez que se propôs uma audiência publica por iniciativa de importantes autoridades da Escola Judiciária: os desembargadores Abelardo Paulo da Matta Neto e Moacyr Pitta Lima Filho, além de uma ativa equipe de profissionais – homens e mulheres. Destaco que, pela primeira vez ao longo de minha longa participação pública, presenciei um evento cujos proponentes – homens e desembargadores – permanecerem do começo ao fim, até a leitura da Carta de Salvador, apontando os problemas e soluções propostos pela audiência.

Mas façamos algumas reflexões sobre a presença/ausência das mulheres na formação sociopolítica brasileira recente.

Desde os primeiros dias do século 21 enfrentamos crises, golpes, notícias falsas, governos de tom liberal e outros que flertam com o fascismo. Esse cenário sintetiza a herança do passado recente, as consequências de duas guerras mundiais, o esfacelamento do comunismo e a diversificação do capitalismo. Herdamos mudanças nas relações sociais de gênero, pois as guerras forçaram as mulheres a ocupar atividades econômicas antes desempenhadas pelos homens deslocados para atividades bélicas, das quais, aliás, nunca se livraram. Findos os conflitos, independentemente de quem tivesse sido o vencedor, as mulheres foram obrigadas (mesmo que à revelia) a voltar para as atividades domésticas.


O retorno não foi pacífico, provocou mudanças estruturais e econômicas, estimulando a abertura de alternativas profissionais, educacionais e econômicas para as mulheres. Ampliou-se o trabalho extradomiciliar, elevou-se o nível educacional das mulheres, reduziu-se o número de filhos. Concomitantemente, as cidades cresceram de maneira desorganizada, elevou-se parcamente a profissionalização masculina e feminina, o mercado de trabalho não acompanhou o crescimento populacional.

As novas tecnologias, como a internet e a inteligência artificial, foram ocupadas por poucos, embora a criatividade da população tenha superado a carência educacional. Romperam-se as fronteiras nacionais. Se na linguagem dos economistas passamos da polarização para a globalização, do ponto de vista sociológico e empírico os papéis sociais – as relações sociais de gênero – perderam tradicionais padrões.

Confrontando a ditadura de 1964-1985, os movimentos feministas ocuparam as ruas (antecedendo o Occupy), denunciavam o feminicídio e a carência de instrumentos para enfrentar a violência contra a mulher e a menina. Na redemocratização, propostas da população resultaram em algumas soluções adotadas pelo Estado: os Conselhos da Condição Feminina, as Delegacias da Mulher, a Casa da Mulher Brasileira e o importantíssimo SOS telefônico. Essas medidas foram aprimoradas com treinamento de professoras nas escolas, na universidade, entre os funcionários da polícia (delegados, atendentes etc.), com médicos nos postos de saúde e uma clara atuação sobre os direitos reprodutivos para evitar mortes por abortos inadequados.

Foram muitos anos para desenvolver e implantar essas políticas. Mas bastou um governo obscurantista e retrógrado, desumano, autoritário, para destruir essas políticas. Ataques a gênero, aos grupos LGBT+, retorno a um essencialismo identitário (homem veste azul, mulheres rosa), retorno de uma divisão radical dos papéis sociais, diabolização dos transgênero, estimularam contradições nos valores e comportamentos alterando as relações entre os membros das famílias.

A herança patriarcal fragilizou-se, mas não se extingue: o patriarcado enraizado na sociedade brasileira resiste, embora mais de 50% das famílias sejam hoje sustentadas por mulheres. O poder continua com homens socializados em padrões conservadores e que circulam absurdamente armados. Em São Paulo, por exemplo, diminuíram os roubos nos últimos 10 anos, mas aumentaram estupros e assassinatos de mulheres. Entramos no século 21 com o aumento dos feminicídios.

O governador de São Paulo, estado economicamente mais avançado do País, adota uma política educacional profundamente autoritária: implanta escolas militarizadas, exclui do currículo escolar matérias que estimulem o senso crítico, substituindo-as pela ordem e obediência. Jovens crescem sem nenhum conhecimento sobre sexualidade, são induzidos a um tipo de patriarcado em que prospera a antiga noção de que a mulher é propriedade do homem, com quem ele pode fazer o que quiser: bater, estuprar e matar.


Simultaneamente exalta-se a vida doméstica, a mulher dona de casa, submissa e obediente. E mesmo aquelas que se voltam para atividades políticas (houve ligeiro aumento de deputadas federais) adotam uma ideologia de direita. Justificam-se como Mães da Pátria, no Congresso. As parlamentares que entram para o campo político das propostas progressistas, para o bem coletivo, são agredidas. Exatamente como no nazismo: exaltam-se as mães da pátria, mulheres que reproduzem via maternidade mais mão de obra, caladas, submissas, defensoras de um líder supremo! Essa vertente congrega os antifeministas.

Os movimentos feministas são revolucionários. Comportam variações mas, em geral, buscam a igualdade de gênero. Igualdade entre as mulheres, igualdade entre mulheres e homens, igualdade entre todas as pessoas incluindo cor, etnia, aptidões, e demais variações. Mas sempre a igualdade. Igualdade também significa dividir o poder. Em oposição avança o antifeminismo, doutrina do autoritarismo. O antifeminismo significa retornar ao fascismo, garantir a submissão das mulheres e demais minorias a um líder brutal.

Essa história é nossa conhecida. Este é o momento de decidir de que lado estamos.

Há 80 anos campo de concentração Buchenwald era libertado

As construções na colina de Ettersberg parecem destoar da paisagem ao redor. Elas estão cercadas por uma floresta que se avista de longe, a noroeste da área urbana da metrópole cultural Weimar, na Turíngia.

Mas o que de longe parece um lugar idílico guarda, na verdade, uma história terrível: a do campo de concentração nazista Buchenwald, um dos maiores em solo alemão. Ali, de 1937 a 1945, nazistas prenderam cerca de 280 mil: judeus, dissidentes, comunistas, homossexuais, detentos estrangeiros, "ciganos" (sinti e roma), testemunhas de jeová e líderes religiosos malquistos.

Buchenwald era o próprio inferno – um dos vários infernos da máquina nazista de perseguição e assassinato. Além das instalações em Ettersberg, o complexo incluía mais de 50 pequenos subcampos, a maioria em locais de produção de bens importantes para a guerra.

Em Buchenwald foram mortas até abril de 1945 cerca de 56 mil pessoas, a maioria judeus. A libertação só veio nas semanas finais da Segunda Guerra Mundial, com a aproximação dos primeiros tanques americanos. Ao perceber a movimentação, prisioneiros deflagraram uma rebelião no dia 11 de abril de 1945, evitando a fuga de diversos soldados da SS (Schutzstaffel ou esquadra de proteção), o braço armado do partido nazista

Após o fim da guerra, a Turíngia passou a fazer parte do território alemão sob ocupação soviética. Logo os soviéticos passaram a usar suas instalações para um "campo especial", prendendo ali principalmente líderes locais do partido nazista, policiais ou empresários que mantiveram linhas de produção com trabalho forçado. Até 1950, outras 7 mil pessoas morreram ali.


Passado tanto tempo, restam poucas testemunhas e sobreviventes dos horrores daquele período. Essas lembranças dolorosas têm importância histórica. Para mantê-las vivas, ferramentas digitais são cada vez mais importantes.

"Ainda há 15 sobreviventes, 15 no máximo, que foram convidados", afirma o historiador Jens-Christian Wagner sobre a solenidade que ocorreu no 6 de abril. Ele dirige a fundação que administra os memoriais dos campos de concentração Buchenwald e Mittelbau-Dora.

Wagner lembra a cerimônia de 60 anos, em 2005. Naquela época, cerca de 500 sobreviventes compareceram ao evento. Em 2015, nos 70 anos da libertação de Buchenwald, pouco mais de 80 – a maioria já bem idosa – viajaram até Weimar.

A DW conheceu um deles à época, o ex-piloto da Força Aérea do Canadá, Ed Carter-Edwards, então com 92 anos. O avião dele foi abatido no verão de 1944 próximo a Paris, e ele foi levado para Buchenwald, onde passou três meses e meio. "Eles tratavam as pessoas como animais", disse, citando, aos soluços, os nomes dos amigos que não sobreviveram ao campo de concentração. Carter-Edwards morreu em 2017.

"Todos nós somos responsáveis por lembrar – cada cidadão, cada cidadã", diz Wagner. Trata-se, frisa ele, de marcar posição e de se opor ao racismo, ao extremismo de direita e ao antissemitismo.

Para o historiador, os "partidos democráticos" cometeram um "erro enorme" ao adotar a retórica da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD) para falar sobre migração. Ele diz que esse debate acabou "normalizando" narrativas xenófobas.

O estado da Turíngia, onde fica Weimar, é um dos bastiões da AfD. Ali, o partido teve seu melhor desempenho em todo o país, conquistando 38,6% dos votos na eleição geral em fevereiro deste ano – quase o dobro do resultado nacional, de 20,8%. No Parlamento da Turíngia, a AfD também ampliou seu espaço, assumindo 32 dos 88 assentos após as eleições regionais em setembro de 2024. A bancada estadual é liderada por Björn Höcke, político notório por flertar com o extremismo.

"Estamos no olho do furacão", diz Wagner, referindo-se à Turíngia, ao citar a ascensão mundial de movimentos extremistas e autoritários de direita, inclusive na Alemanha. A situação é "extremamente preocupante", frisa. "Por muito tempo, achamos que as pessoas tinham aprendido a lição da época do nazismo." Mas ele diz já não ter mais tanta certeza disso.

Wagner afirma que o nazismo e seus crimes foram "notoriamente minimizados", posições que glorificam o nazismo teriam sido até mesmo defendidas. Ele alerta que é de fundamental importância para as estruturas que sustentam a democracia do país refletir sobre o passado nazista da Alemanha, mas que essa consciência estaria diminuindo.

Os memoriais na colina de Ettersberg que Wagner administra já foram alvos diversas vezes de vandalismo. Em 2024, ele mesmo sofreu ameaças diretas. E hoje, diz o historiador, funcionários do local também temem pela própria segurança de vez em quando. "Não devemos nos deixar intimidar, mas precisamos ser cautelosos", explica.

Em Buchenwald, há um crematório, um campo de cinzas e uma "praça de chamada", espaço onde os prisioneiros tinham que se apresentar todos os dias e todas as noites para contagem. Há também um "bloco das crianças" e o "Instituto de Higiene", onde médicos da SS conduziam experimentos em prisioneiros em cooperação com a indústria farmacêutica e pesquisadores, em busca de vacinas.

O portão de entrada do campo de concentração, que ostenta a frase "Jedem das Seine" (a cada um o que é seu), foi muito retratado na imprensa. O relógio na pequena torre acima dele marca sempre 15h15 – a hora em que o inferno dos prisioneiros acabou.

Hoje, o local onde ficava o campo de concentração tem poucas construções, muita área livre e muitos pedregulhos, faias e carvalhos nos fundos do terreno, e a vista sobre as terras turíngias.

Perguntado sobre qual lugar ali tem um significado especial para ele, Jens-Christian Wagner reflete por um momento antes de citar o "pequeno campo". Ali, em estábulos que formavam um "campo dentro do campo", prisioneiros eram selecionados antes de serem enviados para o trabalho forçado. No início de 1945, doentes foram aglomerados nos barracos e deixados à própria sorte; mais de 6 mil morreram em menos de cem dias.

"A partir de fevereiro de 1945, o local se transformou em um campo de sofrimento e morte para os prisioneiros levados de Auschwitz para Buchenwald", diz Wagner.

O local foi destruído logo depois da libertação do campo de concentração.

Wagner diz que, na época da Alemanha Oriental, o local do "pequeno campo" estava tomado pelo mato e não era muito lembrado. Agora, uma clareira ali exibe as fundações arqueológicas do confinamento. "Continua sendo um lugar de sofrimento e luto."

Pesquisa eleitoral extemporânea

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Passado pouco mais de metade do mandato do atual presidente da República, políticos e partidos já se lançaram na disputa por sua sucessão como se a eleição fosse na semana que vem. E como se aqui, costumeiramente, mesmo nos poucos dias anteriores ao de uma eleição, a decisão do eleitor já estivesse tomada.

Todos nós sabemos que um número grande de brasileiros só se preocupa com o ato de votar quase em cima da hora. É inútil e imprudente, portanto, num cenário de incerteza, indecisão e improvisação, considerar entre nós as pesquisas eleitorais fora de época como expressões objetivas e prováveis de quais serão os resultados da votação bem lá adiante.

Essas considerações resultam da observação confirmada de que o bolsonarismo introduziu na cultura política brasileira o uso da incerteza como forma de desordenar a lógica própria do processo político. E desse modo reduzi-lo àquilo que não é: expressão da opinião superficial e manipulável, antipolítica, mais resultado do acaso e do “chute” do que de uma consciência crítica fundamentada e propriamente política.


Essas pesquisas de opinião eleitoral revelam vagas tendências a dois anos do pleito. Tendências de um agora de incertezas, até sobre gente que nem sabe se Bolsonaro vai para as urnas ou se vai para a cadeia, já que é réu em processo no STF que tem como probabilidade a prisão. E mesmo que não seja condenado agora, já está impedido, pela Justiça Eleitoral, de concorrer em 2026.

O caráter manipulativo de uma eventual candidatura de Bolsonaro tem por objetivo, tudo indica, manter-lhe a imagem de que sem ele a eleição não é legítima e de que, como já assinalei em artigo anterior, sua não reeleição em 2022 e a falha do golpe tentado para negar o mandato ao presidente legitimamente eleito significa que a cadeira presidencial está vaga. Ou seja, o golpe continua.

O que mais, afinal de contas, está em jogo na realização e divulgação de pesquisas que, objetivamente, pouco ou nada dizem? Alguém tem interesse em adivinhar quem está sendo cuspido da vaga lista de candidatos e de ex-futuros candidatos. Não são pesquisas para indicar quem poderá ganhar a eleição de 2026, mas a de quem poderá perdê-la. Ou quem são os piores da lista para que os mais piores possam entrar na disputa de modo a parecer melhores do que são.

O que, portanto, nos dizem as pesquisas de opinião eleitoral? E mesmo as pesquisas de boca de urna? Sobretudo, quais Brasis falam através dessas pesquisas na distância que nos separa do dia de votar?

Em primeiro lugar, Brasil ainda é mais um território do que um país, apesar de juridicamente sê-lo. Quem conhece o Brasil sabe que há muitos Brasis disseminados pelo interior do país oficial.

No Rio de Janeiro há vários e diferentes Brasis, tão vários que estão em guerra de morte uns com os outros porque a territorialidade dos poderes, legais e/ou ilegais, é insuficiente para o tipo de mando que entre nós domina.

Aqui, à autoridade e ao poder legítimos, sobrepõe-se o mandonismo dos régulos de província e de município, desprovidos do respaldo da lei e da legalidade.

O bolsonarismo e o pendularismo que nele se expressa deixou o país tão mal que qualquer decorador de uns versículos bíblicos pode alugar uma biboca, que até à véspera fora um botequim, comprar umas cadeiras de plástico, transformar um caixote em púlpito e reabri-la como templo no dia seguinte. Arrecadar o dízimo dos fregueses e empoderar-se como guia político.

Esse sistema transformou um sujeito desses, que só conhece um versículo bíblico - “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32) - em presidente da República. Um que durante os quatro anos do seu mandato praticou cotidianamente a renúncia tácita, tutelou e anulou consciências, negou-lhes a verdade, no lugar ofereceu-lhes a mentira, disseminou a alienação da consciência como negação da libertação prometida. Milhões de cativos ideológicos estão submetidos a um falso profeta e privados de liberdade de consciência política.

Há até mesmo um Brasil que se diz patriota, não fala português nem tem sotaque nheengatu, não conhece o dialeto caipira e sertanejo, não sabe a diferença entre o rio Mississipi e o rio Tietê. E faz de Washington o quartel-general da traição à pátria.

A larga antecipação do embate eleitoral não é eleitoral. Não se está discutindo as alternativas doutrinárias nem quem tem condições de personificá-las num projeto de nação. A polarização está pondo em debate o fechamento das alternativas que legitimem o que deveria ser, propriamente, o debate político, o projeto do primado dos interesses nacionais e democráticos contra o que foi convertido em privatização da pátria.

A prova do algodão

Segundo a Carta do Direitos Humanos, no seu artigo 12 “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida, na sua família ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação”. E mais: “Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito à proteção da lei”. Assim está escrito. O papel exibe, entre outras, a assinatura do representante dos Estados Unidos, a qual assumiria, por via de consequência, o compromisso dos Estados Unidos no que toca ao cumprimento efetivo das disposições contidas na mesma Carta, porém, para vergonha sua e nossa, essas disposições nada valem, sobretudo quando a mesma lei que deveria proteger, não só não o faz, como homologa com a sua autoridade as maiores arbitrariedades, incluindo aquelas que o dito artigo 12 enumera para condenar. Para os Estados Unidos qualquer pessoa, seja emigrante ou simples turista, indiferentemente da sua atividade profissional, é um delinquente potencial que está obrigado, como em Kafka, a provar a sua inocência sem saber de que o acusam. Honra, dignidade, reputação, são palavras hilariantes para os cães cerberos que guardam as entradas do país. Já conhecíamos isto, já o havíamos experimentado em interrogatórios conduzidos intencionalmente de forma humilhante, já tínhamos sido olhados pelo agente de turno como se fôssemos o mais repugnante dos vermes. Enfim, já estávamos habituados a ser maltratados.

Mas agora surge algo novo, uma volta mais ao parafuso opressor. A Casa Branca, onde se hospeda o homem mais poderoso do planeta, como dizem os jornalistas em crise de inspiração, a Casa Branca, insistimos, autorizou os agentes de polícia das fronteiras a analisar e revisar documentos de qualquer cidadão estrangeiro ou norte-americano, ainda que não existam suspeitas de que essa pessoa tenha intenção de participar num atentado. Tais documentos serão conservados “por um razoável espaço de tempo” numa imensa biblioteca onde se guarda todo o tipo de dados pessoais, desde simples agendas de contatos a correios eletrônicos supostamente confidenciais. Ali se irá guardando também uma quantidade incalculável de cópias de discos duros dos nossos computadores de cada vez que nos apresentarmos para entrar nos Estados Unidos por qualquer das suas fronteiras. Com todos os seus conteúdos: trabalhos de investigação científica, tecnológica, criativa, teses acadêmicas, ou um simples poema de amor. “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada”, diz o pobre do artigo 12. E nós dizemos: veja-se o pouco que vale a assinatura de um presidente da maior democracia do mundo.

Aqui está. Praticamos sobre os Estados Unidos a infalível prova do algodão, e eis o que verificamos: não se limitam a estar sujos, estão sujíssimos.

José Saramago, "O caderno"

Extrema direita leva o mundo ao abismo

Os piores pesadelos estão se realizando neste início do governo Trump. Antes de sua posse, boa parcela do mercado financeiro, empresários de toda parte e políticos brasileiros que se dizem moderados sem conseguirem ter autonomia em relação a Bolsonaro acreditaram que o pragmatismo venceria. Naturalizaram o extremismo, e o mundo vai passar pela tempestade política mais terrível desde o nazismo. Para sairmos dessa desgraça, é preciso entender a perversidade e o desastre contidos no modelo político e de políticas públicas da extrema direita.

A extrema direita hoje abarca grupos de várias partes do mundo, crescendo na Europa, mas não tendo ainda vencido as eleições por lá, e está no poder na Hungria, na Argentina e nos EUA, como já esteve no Brasil. Há diferenças entre partidos e lideranças extremistas por conta de características locais - os imigrantes não são um tema no caso brasileiro, por exemplo. De todo modo, em todas essas experiências há uma característica central: uma liderança populista, carismática, iliberal e com um projeto autocrático. Seus seguidores e asseclas obedecem caninamente ao chefe.
Não há espaço para dissenso entre os extremistas e os que têm a petulância de expressar uma pequena discordância são tratados como inimigos e abandonados pelo chefe maior. Movimentos políticos que não aceitam qualquer divergência são, por natureza, antidemocráticos, sejam de direita ou de esquerda. Pior do que isso: se um grupo dominado por uma liderança inconteste elimina o debate e a diferença entre seus membros, é bem provável que cometa muitos erros e nunca aprenda com eles, aceitando como autômatos todas as decisões e falas do líder extremista. Foi assim com Bolsonaro no Brasil, e esse comportamento tem se repetido com Trump, pois os republicanos e assessores presidenciais foram transformados em sujeitos sem voz ou capacidade de reação.

A primeira característica do modo de fazer política da extrema direita é uma liderança inconteste com seguidores completamente fiéis e praticamente sem individualidade. Cabe ressaltar: são milhares de apoiadores de primeira linha e milhões de votantes que seguem esse rumo. Como angariam tamanho apoio? A explicação está na criação de inimigos internos e externos que assustem o “homem comum”, alimentando ressentimentos e ódios numa parcela grande da população que se vê derrotada frente à modernização econômica e de costumes.

A criação desses “monstros” internos e externos tem sido um dos grandes instrumentos da ascensão da extrema direita. Imigrantes, China, diversidade, comunistas, intelectuais, feministas, conhecimento científico e globalização são, para citar um conjunto relevante de fantasmas, colocados no altar daquilo que deve ser cotidianamente combatido. Cria-se um sentimento de luta diária e ininterrupta, um modelo bélico de se fazer política, fortemente impulsionado por uma linguagem polarizadora nas redes sociais. A cada dia, Trump ou Bolsonaro precisam derrotar e exterminar um desses inimigos, usando algum tipo de “motosserra” contra eles.

O modelo beligerante está no coração de cada um dos seguidores e é utilizado pela liderança extremista para enfraquecer a democracia e criar uma “geopolítica dos escolhidos” - um novo “eixo do bem” entre as nações. É exatamente isso que Trump está fazendo: enfraquecendo as instituições e a sociedade civil americanas e só aceitando como parceiros na ordem internacional os países que disserem amém às suas propostas.

É interessante notar como a extrema direita funciona ao estilo de uma máfia, com um poderoso chefão, auxiliares que fazem o trabalho sujo (um Musk ou um Pazuello) e utilizando a ameaça constante como método de se fazer política. De forma milimétrica o cientista político Cláudio Couto chamou esse modelo chantagista e mafioso de “extorsocracia”, a política como extorsão dos outros, geralmente dos inimigos ou grupos que se quer subjugar, mas por vezes também dos aliados, como Bolsonaro tem feito com os governadores de direita que querem o seu apoio para uma futura disputa presidencial - ou apoiam a anistia do chefe ou serão massacrados pelos bolsonaristas.

O resultado desse modo de se fazer política da extrema direita é, na melhor das hipóteses, o enfraquecimento da democracia, ou, na pior das possibilidades, a construção de uma autocracia iliberal. Esse é o sonho de todo líder extremista contemporâneo, e talvez por isso todos eles venerem o governante húngaro, Viktor Orbán, que chegou ao nirvana que almejam. No íntimo, num raciocínio impensável para quem viu o Muro de Berlim cair, essas lideranças ocidentais extremistas gostariam mesmo de ser Vladimir Putin, este sim um chefe sem freios e poderoso.

O que deve ser dito em alto e bom som é que a naturalização da extrema direita gera líderes autoritários e narcisistas, que comandam uma parcela grande da população que os obedece caninamente, por meio de um modelo bélico e mafioso (a “extorsocracia”) de governar países e destruir os laços de confiança da ordem internacional, e cujo objetivo final é acabar com a democracia liberal, numa espécie de revolução profunda e distópica contra a ordem internacional criada pelo mundo ocidental no pós-guerra.

Passar o pano para tais lideranças e ideias extremistas é uma forma de suicídio coletivo que parcela importante de empresários, de gente do mercado financeiro, da mídia e até intelectuais têm cometido nos últimos anos. Sempre lembro que é preferível ser Churchill, que enfrentou com “sangue, suor e lágrimas” o nazismo, a Chamberlain, o primeiro-ministro britânico que evitou o confronto com Hitler porque o mundo se consertaria sozinho. Transportando esse raciocínio para o Brasil, ninguém sai incólume do apoio ao ideário iliberal e autoritário de Bolsonaro, com sua anistia que pretende apagar a tentativa de golpe de Estado. Como estão faltando Churchills na política brasileira!

Se o modo de fazer política da extrema direita é uma perversidade contra a democracia e o modelo ocidental do pós-guerra, seu desastre deriva da forma como lida com as políticas públicas. É preciso ressaltar que os extremistas atuais não são apenas autoritários, como também são fortemente incompetentes, como estamos vendo na absurda guerra das tarifas proposta por Trump, que vai desorganizar a ordem econômica internacional e a própria economia americana.

A incompetência nas políticas públicas dos extremistas inicia-se por sua visão negativa da ciência e dos especialistas. Nos últimos anos e cotidianamente, os missionários da extrema direita espalham fake news e ideias absurdas sobre o funcionamento do mundo e de suas principais instituições. Quando chegam ao governo, precisam reproduzir esse modo de pensar para manter a legitimidade de sua visão de mundo. O problema é que o negacionismo em políticas públicas cobra um preço muito alto em termos de desempenho governamental. Foi assim na pandemia de covid-19, tem sido do mesmo modo na forma como Trump fracassa na economia. Isso para não falar do legado trágico que vão deixar ao meio ambiente, com consequências futuras terríveis.

A extrema direita não só ignora a ciência como ataca suas bases, especialmente a universidade e a burocracia formada por especialistas. O ataque trumpista às principais instituições universitárias americanas pode causar uma fuga de cérebros e a perda da principal vantagem dos Estados Unidos no pós-guerra: sua superioridade no conhecimento científico e tecnológico. Na mesma toada, a quase extinção do Departamento de Educação revela um país que não conseguirá ter um projeto alvissareiro de futuro para seus filhos e netos. Criar uma área para pretensamente melhorar a eficiência governamental foi a maneira pela qual o trumpismo pretendeu evitar que a técnica fosse uma barreira ao seu projeto megalomaníaco e autocrático.

Políticas públicas bem-sucedidas baseiam-se em evidências, em gestão bem-organizada e em mecanismos de governança colaborativa, a partir da qual o governo articula os diversos atores que participam das questões coletivas. Tudo isso é o oposto do que o trumpismo e o bolsonarismo seguem, o que leva seus governos a estratégias estéreis de confronto político-social e à negação da ciência, redundando em desastres governamentais. Os americanos terão mais inflação e/ou recessão, do mesmo modo que as políticas bolsonaristas aumentaram a pobreza, pioraram a educação e destruíram a máquina pública e o meio ambiente.

O padrão de política e políticas públicas da extrema direita pode levar o mundo para o abismo, especialmente quando adotado pela maior potência do mundo, com efeitos incalculáveis para cada parte do planeta Terra. Trump é a combinação de autoritarismo com incompetência, e o bolsonarismo é a reprodução disso na escala brasileira. Tentar retornar à trilha bolsonarista ou apoiar-se nela para se chegar ao poder é colocar o Brasil à beira do precipício. Se muitos estão cegos para os impactos do extremismo, os dois últimos meses da loucura americana mostraram como é perigoso ignorar seu real significado. Espero que nos lembremos disso nas eleições de 2026.