sexta-feira, 3 de junho de 2022
Fanatismo
Em cada comunidade há um certo número de fanáticos por temperamento. Alguns desses fanáticos são essencialmente inofensivos e os outros não fazem mal enquanto os seus partidários forem pouco numerosos ou estiverem afastados do poder. Os “amish” na Pensilvânia pensam que é mau usar botões; isto é completamente inofensivo, salvo na medida em que revela um estado de espírito absurdo. Alguns protestantes extremistas gostariam de ressuscitar a perseguição aos católicos; essas pessoas só serão inofensivas enquanto forem em pequeno número. Para que o fanatismo se torne uma ameaça séria é preciso que possua bastantes partidários para pôr a paz em perigo, internamente por meio de uma guerra civil ou externamente por uma cruzada; ou quando, sem guerra civil, estabeleça uma Lei dos Santos que implique a perseguição e a estagnação mental. No passado, o melhor exemplo da história é o reinado da Igreja desde o século IV ao século XVI.
(...) Para curar o fanatismo - salvo nas aberrações raras dos indivíduos excêntricos - são necessárias três condições: segurança, prosperidade e educação liberal.
Bertrand Russell, "A Última Oportunidade do Homem"
Volkswagen: pois eles sabiam o que estavam fazendo
Segundo o Ministério Público responsável, a empresa empregava na fazenda funcionários terceirizados que eram "tratados como animais". Estima-se que entre 600 e 1.200 trabalhadores tinham que pagar pela própria acomodação, alimentação e transporte. Como desde o início estavam altamente endividados, eram impedidos de deixar a fazenda. Serviços de segurança privados os impediam, além de manter um regimento brutal. Havia tortura, punições e tiros. Doentes não recebiam tratamento, e, principalmente, a malária grassava.
Nos últimos três anos, o Ministério Público recolheu provas e depoimentos. O estopim foi um dossiê no qual o padre e professor Ricardo Rezende Figueira trabalhou por mais de 40 anos. Ele era o vigário de uma paróquia perto da fazenda e testemunhou em primeira mão as condições desumanas, quando alguns trabalhadores conseguiram deixar o local. Posteriormente, conseguiu que parlamentares de São Paulo visitassem a fazenda e confirmassem, pelo menos em parte, essas denúncias.
No entanto nada aconteceu. A maior frustração de Figueira, segundo ele, é jamais ter conseguido responsabilizar a Volkswagen pelas violações de direitos humanos. Ao mesmo tempo, a empresa mandou investigar seu passado nazista na Alemanha e pagou 4,4 bilhões de euros em indenizações a quase 1,7 milhão de ex-trabalhadores forçados. No Brasil, entretanto, nada aconteceu.
A imprensa, o Judiciário, a Polícia, os governos e até mesmo sindicatos de São Paulo não se interessaram pelo assunto, afirma Figueira que coordena o Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Uma nova oportunidade para processar a Volkswagen surgiu para Figueira em 2020, quando a montadora admitiu indiretamente violações de direitos humanos durante a ditadura militar: a empresa pagou indenizações a ex-funcionários, grupos de direitos humanos e sindicatos que foram vítimas da repressão do pessoal de segurança da fábrica, aliado a forças de segurança da ditadura na década de 1970. A Volkswagen pagou R$ 36 milhões, tornando-se a primeira empresa no Brasil a assumir responsabilidade histórica pela colaboração com a ditadura.
Agora, o Ministério Público convocou a empresa para uma audiência em 14 de junho na tentativa de chegar a um acordo extrajudicial entre as vítimas da Amazônia e a Volkswagen. Isso é urgentemente necessário: só assim empresas como a Volkswagen, mas sobretudo outras multinacionais e nacionais no Brasil, vão assumir sua responsabilidade.
Porque é importante que os argumentos utilizados por empresas como Volkswagen para se eximirem de qualquer culpa nas cadeias de produção sejam vistos pelo que são: desculpas esfarrapadas.
As justificativas são sempre algo assim: "a Volks não teria conhecimento da situação"; "a responsabilidade pelas violações de direitos humanos seria dos terceirizados"; "essas eram as condições normais de trabalho em fazendas da Amazônia na época"; "mas isso tudo ocorreu há 50 anos!"
Esses argumentos são pérfidos, pois a Volkswagen apostou conscientemente em trabalhadores baratos e desprovidos de direitos, e num Estado que fazia vista grossa. Ela tolerou violações de direitos humanos em sua cadeia de produção – e a sede em Wolfsburg deveria, quase com certeza, também ter conhecimento disso. Qualquer membro da diretoria que visitasse a fazenda poderia, se quisesse, ver as medidas de segurança aplicadas contra seus próprios funcionários.
É extremamente importante a empresa ser responsabilidade agora, mesmo após 50 anos. Isso será um exemplo, tanto no Brasil quanto para montadoras em todo o mundo. Como na China, onde a Volkswagen mantém uma fábrica na região de Xinjiang, apesar das revelações de violência contra os uigures.
quarta-feira, 1 de junho de 2022
A verdade também apanha
E bem Nonô não havia arregaçado as mangas apareceu um retinto dizendo ter dado morte por esquartejamento a um tal de Chico Cabeção. Pelo que confessou estar arrependido e pronto a purgar, nas malhas da lei, o crime de sua lavra:
— Matei e enterrei Chico Cabeção no quintal de minha casa.
De fato, o esquartejado lá estava mortinho da silva de nunca mais voltar a ser Chico Cabeção. Foi quando o delegado, dentro dos seus princípios justiceiros, passou o confessante por uma palmatória braba e esperta. E o sujeitinho tanto apanhou que acabou desconfessando tudo. Jurou de mãos postas que era mentiroso e inventeiro. Que outro tinha esquartejado Chico Cabeção. E Nonô orgulhoso:
— É o que eu digo e provo. Não tem como uma palmatória para o suspeito contar a verdade. Se não ministro esse corretivo, o delegado Nonô Pestana, que sou eu, mandava para um cadeia de trinta anos um pobre inocente.
E soltou o homem.
No Brasil, Fascismo é Racismo e Genocídio!
Assistimos, em vídeo gravado por populares que poderiam ter tido o mesmo fim, uma cena macrabra de tortura e assassinato, típica dos DOI-CODI que o Presidente da República reivindica e sempre estimulou em sua carreira parlamentar. No registro, dois agentes do Estado não se intimidaram em tornar público suas técnicas diante de muitas pessoas. O trabalho autorizado pelas instituições brasileiras foi comprovado, por meio da nota da PRF, que alega que os policiais envolvidos “utilizaram de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo” na BR-101, em Umbaúba-SE, quando trancaram um homem neuroatípico de 38 anos num porta malas cheio de gás.
A reação, diante de cenas bárbaras como essa, é uma rápida assimilação ao fascismo, um movimento político que surgiu na Itália sob a liderança de Benito Mussolini e seguiu para Europa, com o nazismo de Hitler. Esses regimes mataram centenas de milhares de seres humanos, baseado no racismo "científico" que tem por ideologia a eliminação das diferenças étnicas. Genivaldo morreu numa câmara de gás, no estilo hitlerista. Mas a verdade é que, no Brasil, todo camburão descende de um navio negreiro.
Sua morte ocorreu em maio, mês da abolição inconclusa, que faz referência ao período da escravidão negra, que durou mais de três séculos e também torturou, matou e desumanizou, deixando como principal legado o Racismo. Inconclusa porque persistem no país a discriminação e desigualdade racial, sem nenhum tipo de reparação histórica ao povo negro. A morte de Genivaldo também ocorreu no mês da luta antimanicomial, que combate a tortura imposta aos neurodivergentes. E se a Itália viveu o fascismo, a Alemanha o nazismo. No Brasil, vivemos o Racismo há 520 anos. Tortura e morte não fazem parte apenas dos regismos nazistas e fascistas, mas da história branca e capitalista de dominação.
Certamente muitas pessoas acham exagero essa comparação. Mas eu ouso repetir que são séculos e séculos de tortura, morte e um plano de Estado que busca a eliminação do povo negro e indígena no Brasil. Um plano que tem a segurança pública como pilar de concretização.
Tal projeto atravessa inclusive as nossas fronteiras e nos conecta a todas e todos de pele não branca no mundo. Desgraçadamente, Genivaldo morreu no dia exato quando há dois anos vimos a morte George Floyd, afro-americano assassinado em Minneapolis, sufocado pela polícia. Separados por frações do tempo e território, esses dois homens são pele alvo do genocídio em curso no mundo e, infelizmente, a comunidade negra tem histórias para lembrar para cada mês do ano, sempre dos nossos mortos.
Da mesma forma, Genivaldo também morreu dois anos após uma bala rasgar o pequeno corpo de João Pedro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, estado onde a mesma PRF, junto com o BOPE, nos fez contar mais corpos essa semana, que já chegam a 25, após uma chacina na Vila Cruzeiro. O Estado genocida mata crianças, adultos e idosos.
Essa mesma eugenia racista que matou Genivaldo também segue em curso em São Paulo. A operação Caronte, na Cracolândia, move usuários de drogas, com repressão, pelas ruas da capital, prendendo ou internando compulsoriamente.
É verdade, é crescente a escalada de ódio com o atual governo, seja nacional ou estaduais, mas as polícias têm cumprido seu verdadeiro papel no genocídio nos últimos séculos, desde o Brasil colônia, em que ao passo que as cidades se tornavam “incontroláveis”, com a presença da população negra nos centros urbanos e no campo, foi imposto o controle e sufocamento da liberdade de corpos específicos, para avançar com repressão e morte.
Não há lugar para fugirmos, e longe de serem histórias coincidentes, convivemos assim com a insegurança de que nós ou os nossos sejamos os próximos.
No Brasil, fascismo é racismo e entender as causas dessas mortes é parte do caminho para construirmos saídas. Precisamos seguir mobilizados, organizando a luta em nossos territórios e nas ruas, contra o racismo e pelo bem viver. Precisamos cobrar Justiça por Genivaldo e os 25 que perdemos no Rio de Janeiro.
Em maio, duas importantes iniciativas de resistência negra aconteceram. Recentemente, o Movimento Negro Unificado (MNU) organizou seu 19º Congresso Nacional e tirou como um dos nossos objetivos a derrota do governo Bolsonaro em 2022. Isso porque sua presidência e gerência do país cria um ambiente ainda mais favorável para o Racismo e as violações de direitos humanos.
O MNU é uma importante entidade para aqueles e aquelas que tem como objetivo se organizar em coletivo para reagir a violência racial e construir avanços para derrotar o Estado Racista. Uma organização para aqueles que querem derrotar Bolsonaro, mas não só, para aqueles e aquelas que querem construir um Brasil sem Racismo. Dar fim a esse projeto de poder bolsonarista que intensifica nossa morte é um passo importante para seguir o avanço do projeto político do povo negro para o Brasil, que deve ter em suas bases a desmilitarização das polícias e a construção de um modelo de segurança pública coletivo, que preze o bem estar comunitário do povo brasileiro.
Além das mobilizações permanentes, o movimento social negro também tem atuado na esfera jurídica e institucional para culpabilizar o Estado brasileiro de genocídio. Recentemente, junto a Coalizão Negra Por Direitos, protocolamos a ADPF Pelas Vidas Negras, denunciando o genocídio à população negra brasileira no Superior Tribunal Federal.
Agora é hora de tomarmos as ruas por Justiça por Genivaldo e exigir um projeto de futuro onde vidas negras importem e possam florescer em suas máximas potencialidades e dignidades.
Desde a travessia, de muitos antes do Atlântico, nossos ancestrais nos ensinaram a confrontar o racismo e o colonialismo e mais uma vez aqui estamos até derrotá-lo.
Cretinos unidos
Nosso egoísmo descrê de qualquer interesse público. Nosso amor ao abstrato e horror ao concreto também não colaboram. A nossa burrice congênita não ajuda, já que desconfia da razão com tintas visíveis de um protofascismo rancorosoArnaldo Jabor
Promessas fake assombram Bolsonaro
Tirado das cordas em que se enfiou com sua gestão temerária da pandemia, graças à vacina que tanto tentou boicotar e à ajuda do Centrão, Bolsonaro mirou alguns outros truques para voltar a crescer nas pesquisas: de um lado aprofundar o ataque ao sistema eleitoral e estimular o antipetismo irracional, e de outro fazer “mandrakarias” fiscais para turbinar o Auxílio Brasil, tentar segurar o preço dos combustíveis e fazer média com o funcionalismo, sobretudo com as categorias de policiais federais, por meio de reajustes.
O segundo braço da estratégia naufragou por completo até aqui. O Auxílio Brasil se mostrou, como já apontavam os economistas e especialistas em políticas públicas, um programa mal desenhado, sujeito a desvios, com logística capenga e, pior, cujo acréscimo de valor em relação ao Bolsa Família foi rapidamente corroído pela inflação.
O resultado é que, segundo o mais recente Datafolha, 69% dos beneficiários o consideram insuficiente, a rejeição a Bolsonaro (45%) entre os que recebem o pagamento é maior que no conjunto da população, e 66% dos cadastrados afirmam que o programa não terá influência sobre seu voto.
No caso dos combustíveis, o capitão troca presidentes da Petrobras e ministros em série, sem perspectiva de provocar alguma redução consistente nas bombas de postos e no botijão de gás. Pior: o Banco Central sinaliza que a inflação está fora de controle e disseminada por amplos setores da economia e que o choque de juros deverá continuar.
Por fim, há o papelão do presidente nos acenos aos servidores federais. Impossibilitado de conceder reajuste expressivo aos policiais, que gostaria de levar para seu palanque, sob pena de paralisar setores vitais da administração pública, Bolsonaro está feito barata tonta: não sabe mais se adianta conceder um reajuste linear de 5% que não lhe trará um eleitor e só ampliará a antipatia geral, mas também corre o risco de, diante de tantas idas e vindas, passar a sofrer boicote da máquina pública (o que os bolsonaristas amam chamar de deep state, de que se pelam de medo).
Para alguém que todos os dias planta teorias da conspiração contra as urnas eletrônicas e adora incitar insubordinação nas polícias militares contra os governadores, não deixa de ser irônico que Bolsonaro possa ter a si mesmo, aos filhos e aos aliados do Centrão como reféns de policiais e auditores fiscais, transformados em inimigos pela sua completa inaptidão para a governança e pela mania de mentir e prometer coisas sem ter condições de cumpri-las.
O quadro acima é uma evidência de quanto a agenda eleitoral atabalhoada de um presidente incidental tem potencial para bagunçar o ambiente da vida nacional em múltiplas e importantes camadas.
A sangria provocada pela sanha eleitoreira de Bolsonaro na Petrobras ainda demorará a ser calculada — da perda de valor da companhia aos gastos com indenizações de executivos demitidos sem nenhum respeito nem liturgia.
Que ele experimente doses cada vez maiores do próprio veneno e fique exposto como está ao menos é didático para que aqueles que espantosamente ainda aprovam este governo inepto — de parlamentares beneficiados pelo sequestro do Orçamento a empresários alheios à realidade do resto da população — entendam o custo alto a que sujeitam o Brasil.
O eleitor é um detalhe
Nunca antes na história o cidadão pagador de impostos foi tão desrespeitado pelos líderes das pesquisas.
O atual presidente é incapaz de oferecer saídas razoáveis para uma das piores crises econômicas da história. E o ex-presidente, que ameaça voltar, debocha da audiência ao dizer que só explicará sua política econômica depois de eleito.
É inaceitável que candidatos a dirigir a nação não prestem contas aos cidadãos que os sustentam, literalmente. A campanha virou briga de torcida, discursos são recheados de platitudes e postagens na internet buscam apenas ‘lacrar’.
Quem oferece algum plano de discussão é ridicularizado por ambos os lados.
A imprensa, sequestrada pela dinâmica do não debate das redes sociais, também é responsável por não cobrar accountability dos candidatos. Na defensiva, o TSE se perdeu no ativismo antibolsonarista e ajuda a aprofundar a polarização.
Para piorar, assistimos brotar por todo lado pesquisas com resultados tão díspares que é impossível concluir que todos estão certos. No mínimo, estão todos errados. Talvez seja o caso também de cobrarmos um debate entre os donos desses institutos.
Nada do que está acontecendo chega mesmo a surpreender, considerando que a política partidária virou uma corrida do ouro pelo botim do fundão eleitoral, até hoje sem regulamentação que garanta financiamento democrático e acesso de novos quadros.
As legendas se tornaram fábricas que consomem bilhões e nada produzem, sejam propostas de políticas públicas, lideranças ou gestores eficientes. Seus dirigentes enriquecem à luz do dia, vendem candidaturas no mercado negro eleitoral e escolhem quais candidatos receberão fundos públicos.
Precisam ser puxadores de votos para garantir a maior bancada e ter acesso a ainda mais recursos. Em 2018, esse sistema proporcional elegeu apenas 5% da Câmara pelo voto direto, distanciando ainda mais Brasília do resto do Brasil.
terça-feira, 31 de maio de 2022
¿Por qué no te callas?
Sociólogos e cientistas políticos, tremei! Os cantores sertanejos agora estão opinando. Mais recentemente, um parou o show para alertar os fãs contra a ameaça do fantasma do comunismo. Sabe quando a pessoa fala sem saber o que está dizendo? Igual ao colega, também centrou fogo nas leis de incentivo. A música sertaneja hoje ocupa status de potência no Brasil, mas os seus cantores deveriam fechar a boca.
Deixo bem entendido: não estou sugerindo que eles fechem a boca e parem de cantar. Mas, de certa forma, repito o conselho que o rei João Carlos I, da Espanha, deu ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em 2007: “¿Por qué no te callas?”. Com todo respeito aos fãs dos sertanejos, esses cantores, calados, são ótimos. Bem entendido número 2: quando digo fechar a boca é em termos políticos e de elaboração de crítica social.
Maturidade é se calar quando não se tem o que dizer. No começo dessa reflexão, falei que talvez o mês de maio tenha a ver com tudo isso. Força de expressão, apenas porque este é o mês que tem, entre os seus dias, um em que se homenageia o gênero musical. Para ser mais exato, dia 3, do Sertanejo. Por causa da data, o site do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) publicou um texto em que diz que o “sertanejo urbano” é a preferência nacional. Bacana. Gosto não se discute.
Só porque é homenageado, o representante pode tudo? Não. Mas há quem ouça o que os cantores dizem? Sim. Essa estética musical já atinge todas as classes sociais deste país. O site do Ecad assegura que 48% dos brasileiros gostam da melodia; 27% gostam das letras; 47% se identificam com o ritmo sertanejo (se acham “a cara”); e 40% amam os artistas do gênero. O que os caras falam, influencia.
O texto do Ecad diz ainda que o gênero é quase unânime: “Se em 2011 o sertanejo era uma estrela em ascensão, o top 20 das músicas mais tocadas em rádios em 2020 mostra a sua consolidação”: são 14 entre as 20 mais tocadas em todo o País. Do brega ao romântico, do forró ao arrocha.
Por aí se tire a capacidade de influência dos cantores sertanejos. Na minha singela opinião, eles não vendem somente música. Com suas roupas grifadas, calças coladíssimas às pernas, passam o estereótipo do corpo perfeito e da beleza. O heterossexual, branco, viril, antenado com a moda, cheio de energia, sedutor, como padrão, é quase uma busca política.
Eles fazem a linha “sertanejos urbanos e chiquérrimos”. São personagens para o consumo artístico, como a maioria dos fãs jamais conseguirá ser. Mas, o simples fato de imitá-los já garante o sentido da estética. Eles influenciam no gosto musical, mas também repassam filosofia de vida através de um padrão de beleza e de um modelo de comportamento.
Por isso o agronegócio investe pesado e a televisão diz que agro é pop. Os “influencers musicais”, agora, avançaram o estágio. Em ano eleitoral, resolveram se expressar com palavras faladas, expondo a estética política que representam. Cá para nós, cantando, já estariam em bom tamanho.
Ociosidade criminosa
Oxalá nossos políticos, ao invés de ficar discutindo ideologia, discutam verdadeiramente o bem do nosso amado povo. Olhem para os problemas reais da vida do nosso amado povoDom Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília, nomeado cardeal pelo Papa Francisco
A glória da bala perdida
Que triste destino o meu, suspirava a Bala Perdida. E tinha razão: entre as Balas Certeiras, a sua reputação era lamentável, para dizer o mínimo. À diferença delas, a Bala Perdida não tinha rumo certo, não tinha alvo definido. Disparada a esmo, ela ia cravar-se numa parede, ou no tronco de uma árvore, ou simplesmente perdia-se. Poderia até cair na água suja de um charco qualquer, onde ficaria por muito tempo, até que misericordiosa ferrugem viesse corroer o metal de que era feita, terminando assim com o seu sofrimento.
O pior não era tanto o fracasso, que afinal é parte da existência. O pior era a inveja. As Balas Certeiras se gabavam, e com razão, do estrago que faziam. Hoje vou estourar um crânio, dizia uma, e outra acrescentava: hoje vou varar um pulmão. Havia aquelas que sonhavam em destruir múltiplos órgãos, ou atingir mais de uma pessoa de cada vez.
A Bala Perdida não podia permitir-se esses sonhos. As outras sabiam disso. Mal eram colocadas no tambor do revólver, começavam a debochar: então, o que vai ser hoje? Um muro caindo aos pedaços? A parede de um barraco imundo? A Bala Perdida nada respondia.
Aguardava somente o doloroso instante da percussão, aquele instante em que, depois da explosão, seria projetada no espaço infinito, rumo a um alvo infamante.
E de repente isso mudou.
Um dia o revólver disparou várias vezes. As Balas Certeiras partiam, alegres. Quando chegou a vez da Bala Perdida ela foi, resignada, esperando sofrer o impacto humilhante em tijolo de barro ou em madeira apodrecida. Mas não; para sua surpresa foi em carne que ela mergulhou, a carne macia da perna de um homem. Ele gritou, e seu grito foi música para a Bala Perdida. Seguiu-se uma jornada excitante: o homem foi levado para o hospital e uma operação foi necessária e o cirurgião comentou com os assistentes: Puxa vida, foi difícil extrair essa bala perdida. Mandou recolhê-la num saco plástico. E ali, examinada por muitos, a Bala Perdida viveu seu instante de glória maior. Queriam saber de seu calibre, queriam saber de onde tinha sido disparada, queriam até examiná-la sob lentes.
A hora das Balas Perdidas tinha chegado. Daí em diante elas passariam a fazer parte do noticiário, ganhando até manchetes. Havia, sim, um deus das Balas Perdidas. E ele tinha por fim manifestado a sua vontade poderosa.
Graciliano Ramos analisa o bolsonarismo
O Brasil que Graciliano encontrou ao deixar o presídio da Ilha Grande às vésperas da instauração do Estado Novo, o de Silviano enquanto escrevia o livro ainda no período da ditadura militar e o de agora, com Bolsonaro e seus generais conspirando para dar um golpe durante as eleições, revelam quão frágil é a nossa realidade democrática.
"Em Liberdade" é um falso diário íntimo, que cobre dois meses da nova vida fora das grades. O leitor acompanha o romancista alagoano na casa do amigo José Lins do Rego, jantando bife à milanesa no Lamas, morando numa pensão do Catete, ganhando o sustento com frilas, seguindo uma garota na praia de Botafogo e tendo de esconder a ereção.
Silviano escreve como se psicografasse, Chico Xavier recebendo Graciliano. Para conseguir o efeito mediúnico, antes de iniciar o livro tirou seis meses para imitar o estilo seco, castiço e límpido do mestre. Eis o resultado:
"Todos e cada um acreditam-se idênticos na miséria, na dor e no sofrimento, isto é: desgraçados todos, mas quem narra é sempre o mais desgraçado dos mortais. Por isso as pessoas são pouco tolerantes diante da miséria alheia. (...) Já a linguagem do prazer é original. Putaria, política e futebol –isso as pessoas escutam. Com o gozo nos olhos e nos lábios, acrescentam: é um brasileiro da gema".
Talvez o desabafo de Graciliano (ou de Gracilviano) explique por que Bolsonaro, segundo o Datafolha, tenha apenas 54% de rejeição entre os eleitores —fora o grupo de fanáticos que aprova a putaria.
segunda-feira, 30 de maio de 2022
Violência das chacinas é inexplicável
Coincidência ou não, apesar da beleza dos dias de maio, preparava um texto sobre violência, das chacinas às agressões verbais de nossos tempos.
É mais fácil explicar por que o velho Santiago do livro de Ernest Hemingway pesca um imenso peixe e o perde no caminho da praia do que entender as razões do jovem Salvador Ramos, que matou 19 crianças e duas professoras em Uvalde, no Texas.
Também é muito difícil entender por que uma operação de inteligência resulta na morte de 23 pessoas, na Vila Cruzeiro, no Rio.
Será que estamos falando da mesma palavra quando dizemos inteligência?
No fundo, é possível dizer que políticas públicas estão por trás dessas mortes: a que coloca nas mãos do jovem Salvador dois fuzis; ou a que antevê no fuzilamento em grande escala um trunfo eleitoral.
O que estava preparando para explicar não trata diretamente de massacres, mas sim das condições que tornaram nossas vidas tão expostas à violência.
Meus temas eram a polarização e a violência verbal. Baseado numa análise de Milan Kundera do romance “A montanha mágica”, de Thomas Mann, achei que havia ali algo para compartilhar.
É um momento em que muitos se perguntam quando tudo começou. Foi com a internet, foram certas mudanças na própria estrutura da internet ou as revoltas ao longo do planeta, inclusive a de 2013 no Brasil?
Segundo Kundera, o romance de Thomas Mann, passado na véspera da Primeira Guerra Mundial, foi um terrível questionamento das ideias, um grande adeus à época que acreditou nas ideias e na sua faculdade de dirigir o mundo.
Dois importantes personagens do romance, um democrata e um autocrata, Settembrini e Naphta, são muito inteligentes, discutem intensamente suas ideias e, diante de seu pequeno auditório, extremam os argumentos, a tal ponto de não se saber mais quem reclama do progresso; quem, da tradição; quem, da razão; quem, do irracional.
Algumas páginas depois, já próximo à eclosão da guerra, os personagens sucumbem a irritações irracionais. Settembrini ofende Naphta, batem-se num duelo que acabará pelo suicídio de um deles.
Kundera afirma que o romance não mostra o irreconciliável antagonismo ideológico, mas uma agressividade extrarracional, “uma força obscura e inexplicada que impele os homens uns contra os outros, para a qual as ideias não passam de um guarda-chuva, de uma máscara e de um pretexto”.
Assim, o grande romance de ideias de Thomas Mann é uma espécie de despedida da esperança de que a discussão racional das ideias possa nos levar a bom termo. Havia certo pessimismo naquele momento em que a guerra se aproximava. Mas o que Thomas Mann queria dizer no princípio do século passado seria tão estranho assim aos nossos dias?
É possível dizer que a ampla discussão nas redes sociais passa ao largo dessas forças irracionais, é possível dizer que o confronto ideológico não é mais que um disfarce para o exercício do ódio?
Toda essa digressão não nos exime de criticar as políticas públicas que potencializam a violência: a liberação geral de armas, o estímulo ao fuzilamento de suspeitos. Talvez seja necessário ir mais longe em nossa reflexão. Se é verdade que o choque de ideias já revelava um fracasso na véspera da Primeira Guerra Mundial, aquelas forças destrutivas de qualquer consenso tornaram-se mais ativas.
Não é outro o objetivo das técnicas desenvolvidas na campanha de Trump e exportadas para a extrema direita do mundo, o uso do troll, descrito também como a quantidade de tempo usada para intervir numa conversa e dinamitar as possibilidades de diálogo.
Os tempos em que as ideias dirigiam o mundo já estavam em declínio. Imaginem agora, em que forças políticas se dedicam à lacração ou atuam apenas para impedir qualquer consenso: sobre a forma da Terra, o perigo de um vírus, a importância da vacina. O processo de autodestruição, tão nítido no meio ambiente, é também assustador na trajetória democrática.
Escola para Todos
Ficamos na defesa correta, mas insuficiente, das cotas para os poucos que terminam o ensino médio, sem olhar para a imensa perda dos que ficam para trás, sem educação de base com qualidade suficiente para se aventurar no vestibular, mesmo com a possibilidade de cotas. Defendemos corretamente que as cotas existam para reduzir o impacto da educação de base desigual, mas não nos mobilizamos para que ela seja a mesma para ricos e pobres, nem acreditamos que isto seja possível antes de 50 anos.
Acertamos ao nos opor ao retrocesso de limitar acesso às universidades federais apenas aos que podem pagar, mas não nos preocupamos com aqueles que nem perto chegarão dela, por serem analfabetos para as exigências do vestibular. Tampouco adotamos a honestidade intelectual de dizer que a universidade já é paga pela sociedade, não existe gratuidade plena, a pergunta devia ser “quem paga” e “quem se beneficia”, e como fazer a universidade servir aos interesses públicos e da nação. Estamos certos em não querer que a universidade seja apenas para quem possa pagar, mas estamos errados ao aceitar a manutenção de um sistema escolar com escolas de qualidade apenas para quem pode pagar caro.
Não lutamos pela gratuidade das escolas de educação de base com qualidade. Defendemos que as universidades sejam grátis, sem defender a gratuidade das escolas de ensino médio com qualidade. Defendemos que alguns poucos pobres possam entrar na universidade, mas não que todos eles concluam o ensino médio em escola com a mesma qualidade dos filhos dos ricos. Possivelmente, nem se acredita que isto seja necessário e possível.
Corretamente defendemos o direito das crianças de famílias ricas e de classe média frequentarem escola para aprenderem com outras crianças, mas pouco fazemos para que as crianças pobres tenham escola com a qualidade que os filhos destas famílias terão em casa. Nem nos preocupamos em saber onde estamos errando ao ponto dos pais desejarem tirar os filhos da escola.
Reagimos ao absurdo de ocupar as escolas com militares, mas não reconhecemos os erros que cometemos ao tolerar a indisciplina, devido a erros pedagógicos, dominação sindical, desprezo à educação por parte de governos e educadores. Não apresentamos, não lutamos nem praticamos métodos que deixem a escola funcionar ordeira e respeitosamente, sem necessidade de ocupação militar.
Ao observar este debate, percebemos que no Brasil o progressista é conservador: defende conceitos arraigados, interesses sindicais e eleitorais, e direitos adquiridos pelos que já têm acesso à educação, ignorando os excluídos que vão ficando abandonados.
Racismo no Brasil: tragédia pouca é bobagem
Minha ideia era dedicar a coluna deste mês à insistência do nosso país em silenciar tudo o que diga respeito aos indígenas – homens, mulheres e crianças que são descendentes dos povos originários desta terra que hoje se chama Brasil. A ideia era tratar de duas situações distintas, mas que comprovam como as violências contra as populações indígenas são múltiplas e se sobrepõem.
A primeira diz respeito à denúncia de um crime feita em 25 de abril: uma jovem yanomami de 12 anos teria sido estuprada até a morte por garimpeiros que invadiram ilegalmente a região de Waikás, em Roraima. Na realidade, o estupro seguido de morte não teria sido o único crime cometido pelos garimpeiros naquele dia, que também teriam lançado no rio uma criança de 3 anos.
Ainda que o grau de violência desses atos seja indivisível, ou justamente por causa disso, era de se esperar que a grande mídia parasse o quer que estivesse fazendo para não só denunciar, como exigir as medidas cabíveis dos órgãos responsáveis pela Justiça brasileira. Mas, o que tivemos, foram algumas matérias, de veículos mais progressistas, que denunciaram o ocorrido, sem que houvesse qualquer repercussão mais forte. Afinal, tratava-se apenas uma jovem yanomami supostamente estuprada até a morte e de uma criança da mesma etnia jogada num rio em Roraima… Se a situação tivesse acontecido em algum bairro da zona Sul do Rio de Janeiro ou da zona oeste de São Paulo com jovens e crianças brancos e de classe média, talvez a dor fosse maior.
Menos de um mês depois, no dia 17 de maio, a antropóloga Sandra Benites enviou uma carta de demissão ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) – um dos mais importantes museus brasileiros. Ela era curadora adjunta do museu e estava assinando sua primeira exposição autoral na instituição. E mais: Benites foi a primeira curadora indígena do país, o que fazia do projeto que estava organizando algo muito maior do que ela e o próprio Masp.
No entanto, as instâncias superiores do museu decidiram excluir um conjunto fotográfico que comporia a exposição. De acordo com o Masp, a solicitação das fotografias havia ocorrido fora do prazo estipulado – prazo este que nunca foi devidamente comunicado justamente à curadora da exposição. Poderia até se tratar de um problema de comunicação, não fosse o pequeno detalhe de que as fotografias excluídas eram sobre pessoas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e fariam parte de um núcleo expositivo intitulado "Retomadas".
O recado estava dado: exposição assinada por indígena até pode (inclusive pega bem), mas indígena trazendo integrantes do MST para o centro da mostra "Histórias Brasileiras", aí já é demais!
Sandra Benites não se curvou aos limites que lhe impuseram e fez o que uma mulher indígena comprometida com uma agenda realmente transformadora poderia fazer: se desligou da instituição.
Mas, como eu disse, falar sobre os silenciamentos e assassinatos de indígenas brasileiros era a ideia original desta coluna. No meio do caminho, alguns policiais do Rio de Janeiro atacaram o memorial construído na favela do Jacarezinho em homenagem às pessoas mortas na mais letal chacina da história da cidade – um memorial que, vale dizer, também homenageava um dos policiais mortos. Uma ação covarde, sem nenhuma validação legal, e que nos lembra de como o controle da memória também é uma forma de exercício de poder. E que, muitas e muitas vezes, esse exercício se dá de forma violenta.
Só que no Brasil, tragédia pouca é bobagem. Não basta destruir memoriais e tentar controlar o que se lembra e o que se busca esquecer. A violência não tem limites.
Na terça-feira, a polícia do Rio de Janeiro protagonizou mais uma chacina numa favela, agora na Vila Cruzeiro, deixando 23 mortos. Uma ação que vem sendo retratada pela grande mídia como uma operação planejada pelo estado do Rio de Janeiro, na qual algumas baixas já eram esperadas. A mesma mídia que, vale dizer, não deu à mínima para a denúncia do assassinato da jovem yanomami.
Na quarta-feira, exatamente dois anos depois que George Floyd foi assassinado por policiais nos EUA, Genivaldo de Jesus Santos foi morto por asfixia pela polícia rodoviária em Sergipe
Pode parecer que não, mas todos os casos aqui descritos fazem parte de um mesmo sistema de poder, que historicamente organiza o Brasil. E o nome dele é RACISMO. A vida de pessoas não brancas, a memória de pessoas não brancas, a autoria de pessoas não brancas continua tendo pouco ou nenhum valor. Enquanto não tomarmos o racismo pelo tamanho que ele tem, o antirracismo continuará podendo ser tomado como uma ação piedosa e arbitrária – sujeita aos modismos de época – de quem goza os privilégios gerados pelo próprio racismo.
O bicho invisível
Surpreso? Claro. Sempre fui classificado como um sujeito frouxo e, por isso, exagerado na luta contra a COVID. Tomei as quatro doses das vacinas; álcool gel do bolso para as mãos; máscara no rosto até para caminhar na Jaqueira, contrariando a função do ar livre que dispersa, segundo os cientistas, a formação da quadrilha virótica.
Medo? Sim, todos os medos, e uma questão de princípio: a paz, detesto brigar, imagine, brigar com quem não vejo, o bicho invisível chamado vírus. Fui confortado pela voz carinhosa de médicos, parentes e amigos. “Tranquilo, vacinado, sintomas leves – diziam os mais afoitos, fortes ou corajosos – já tive”. Tradução: amigo, disso você não morre. Mas seguirei “exagerado”.
Na melhor intenção, repasso a experiência: sintomas leves? Comparado a quê? Na média, uma garganta em chamas com saliva/sabor de gasolina e três noites em claro, acrescidas de severo congestionamento nasal, não é absolutamente nada, se comparado a problemas respiratórios, febre, e outros agravamentos dos quais os vacinados estão protegidos. Vivam as vacinas!
Nenhuma reclamação. Tenho consciência da minha situação privilegiada. Aí dói na alma a dura constatação de que a maior das pandemias – a pobreza extrema – é de natureza política. O corona dói e mata mais os que estão em situação de vulnerabilidade social. A ciência avança, a riqueza cresce mas seus benefícios são desigualmente distribuídos.
Quando olho para Davos, fica a impressão de que, nos últimos dois anos, nada mudou, senão desigualdades: 263 milhões de pessoas em extrema pobreza em contraste com 573 novos bilionários cujos patrimônios tiveram alta de 42% – aumento real de US$ 3,78 trilhões.
No famoso cantão suíço de Davos, a saúde dos ilustres participantes foi objeto dos cuidados preventivos em relação aos riscos da contaminação pandêmica. Todos foram submetidos a um esquema diário de testes e exames. O bicho invisível ataca, também, os poderosos.
Fica a lição. A dinâmica devastadora dos desastres globais exige profunda reflexão sobre destino da humanidade. Enfrentar o incerto e o desconhecido requer virtuosa convergência tal como se coloca o médico diante de uma doença misteriosa: com a ciência, sabendo que não sabe; com a consciência de que o humano é, por natureza, frágil; com a virtude da paciência que enxerga, dia após dia, a melhor maneira de superar desafios e solucionar problemas.
domingo, 29 de maio de 2022
Sufocados estamos
— Aprendi que as pessoas esquecem o que você disse, esquecem o que você fez, mas jamais haverão de esquecer o que você as fez sentir.
Wallison de Jesus é sobrinho de Genivaldo de Jesus Santos, o sergipano de 38 anos abordado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) numa estrada enlameada de Umbaúba. À luz do meio-dia, Wallison viu o tio levantar a camisa e erguer os braços, mostrando aos agentes não estar armado. Trazia consigo apenas os medicamentos para esquizofrenia que lhe permitiam viver em paz. Viu o tio ser derrubado à força, debater-se, ser imobilizado, amarrado e socado no camburão. Com a cabeça, o tronco e parte das pernas do tio enfiados na viatura, o sobrinho ainda viu que os pés e as canelas finas de Genivaldo impediam o fechamento da porta. Por fim, viu os agentes jogarem spray de pimenta e gás lacrimogêneo no interior do camburão. Lufadas de nuvens tóxicas puderam escapar pelas frestas do porta-malas. Genivaldo, não. Morreu de asfixia ali dentro.
O Brasil inteiro tornou-se testemunha desse crime hediondo graças aos vídeos feitos por moradores de Umbaúba, que a tudo assistiram em agonia, desespero, horror. E resignação diante de um poder sem freios. Como exigir que interviessem, que impedissem? Um dia antes, uma operação deflagrada pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da Polícia Militar do Rio, em conjunto com a PRF, havia deixado um rastro de pelo menos 23 cadáveres na Vila Cruzeiro, favela da Zona Norte da capital fluminense. Os relatos de execuções, torturas, tiros de fuzil no rosto dessa chacina cega por parte do Estado do Rio talvez já tivessem chegado a Umbaúba quando o tio de Wallison foi abordado. Como então não ter medo sendo apenas um cidadão civil e negro?
Vale lembrar que Genivaldo foi abordado e morto por dirigir moto sem capacete perto de sua casa. Alguma vez algum agente da PRF ou de outra unidade policial cogitou abordar o presidente da República pelas infrações que gosta de cometer país afora, em terra ou mar? Ou um único integrante de suas motociatas? A pergunta é simplória. Mas a brutalidade policial brasileira também é.
A jornalista Jeniffer Mendonça, do site Ponte Jornalismo, teve acesso ao primeiríssimo boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil de Umbaúba sobre a morte do sergipano. O documento é aterrador pelo que deixou de dizer e fazer. Os quatro policiais envolvidos nem precisaram prestar depoimento ao delegado Gustavo Mendes Ribeiro — foram ouvidos “informalmente” e, portanto, não estão citados nominalmente. A ocorrência, registrada como “morte a esclarecer, sem indício de crime”, fala em “crime de resistência” por parte de Genivaldo, “desobediência às ordens” e necessidade de “algemação para resguardar a integridade física dos policiais envolvidos”. Outro documento, um boletim interno da PRF divulgado pelo Intercept Brasil, com o depoimento e a identidade dos quatro agentes, atribui a morte do abordado a “uma fatalidade desvinculada da ação policial legítima” e “mal súbito”.
O Brasil está reduzido a picos de indignação, em intervalos cada vez menores. Está difícil respirar diante da sucessão de barbáries nacionais. Mas proclamar indignação a peito aberto, mesmo com sinceridade e arrojo, é fácil, quase uma desculpa. Difícil e trabalhoso é o caminho do combate diário por algum sentido coletivo de humanidade no Brasil bolsonarizado. Sem jamais esquecer o que este governo e seus acólitos nos fazem sentir.
Campos de detenção: Técnica utilizada após a Segunda Guerra Mundial ressurgiu, agora na Ucrânia
E foi a partir dessa mesma conta que Todorashko explicou como a mãe terá sido capturada por russos quando estava em sua casa. “Tiraram-na de casa com um saco de plástico na cabeça, amarraram as suas mãos nas costas e levaram-na para a Rússia”, contou, referindo que a mãe foi transportada para um centro de detenção, onde foi espancada e torturada, inclusive com choques elétricos. “Posso matar-te aqui mesmo e sair impune”, disse-lhe um oficial russo, de acordo com Todorashko.
A mãe de Anzhelika já conseguiu escapar do “inferno”, como descreve a jovem, após ter sido feita uma troca com russos sequestrados, mas agora é a sua irmã gémea que está desaparecida, tendo sido, segundo Anzhelika, levada para cativeiro russo no fim do mês passado da mesma forma que a mãe.
Tal como as familiares Todorashko, milhares de ucranianos têm sido levados para território russo, um número que, a 21 de abril, Volodymyr Zelensky dizia já ter chegado aos 420 mil, apesar de ainda não ter sido oficialmente confirmado. Já Sergei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, garantiu, a 30 de abril, que mais de um milhão de civis ucranianos teriam sido, até esse momento, deportados para a Rússia.
Muitos deles têm passado por centros de detenção, ou filtragem, tal como foi utilizado pelo Exército Soviético após a II Guerra Mundial, assim escreve o The Economist, criados no final da Segunda Guerra Mundial após a libertação de milhões de sobreviventes soviéticos dos campos de concentração nazi. Com medo de que os mais recentes libertos pudessem ter sido sujeitos a influências exteriores liberais, os militares soviéticos forçaram cerca de 5 milhões de pessoas ao repatriamento na União Soviética e, pelo caminho, a maioria passou por esses campos de detenção criados pelos serviços secretos russos.
Nesses locais, as pessoas foram submetidas a um processo muito rigoroso de filtragem, com interrogatórios que pretendiam perceber se os ex-prisioneiros estavam, de alguma forma, a seguir uma ideologia anti-soviética. De acordo com o jornal, quase 300 mil foram para os gulags, campos de trabalhos forçados criados nos anos 30 que seriam o destino de qualquer pessoa que se opusesse ao regime na União Soviética.
Mais tarde, nos anos 90, durante os conflitos armados entre russos e chechenos, primeiro de 1994 a 1996 e depois em 1999, milhares de chechenos também foram levados para estes campos de detenção, tendo sido torturados. Muitos desapareceram e não se descobriu mais o seu paradeiro. O mesmo cenário assustador verifica-se agora, em 2022, com a Ucrânia a acusar a Rússia de levar milhares de cidadãos ucranianos de cidades destruídas pela guerra para centros deste género, para depois os levarem para a Rússia.
A Rússia afirma que as deportações são voluntárias e positivas e o meio de comunicação pro-Kremlin Rossiyskaya Gazeta refere-se a estas pessoas como refugiados, acrescentando que o objetivo é “prevenir que ucranianos nacionalistas se infiltrem na Rússia” – em referência a cerca de 5 mil cidadãos ucranianos que terão sido levados para Bezimenne, uma vila perto de Mariupol controlada pelos russos. Testemunhas disseram, segundo o The Economist, que estes civis foram fotografados e forçados a entregar os seus documentos e telemóveis, antes de serem interrogados e deportados para a Rússia. Também há testemunhos de torturas e assassinatos levados a cabo pelas forças russas, diz o mesmo jornal.
Antes de a guerra ter começado, no final de fevereiro, foi enviada uma carta à ONU pelas autoridades norte-americanas, em que era referido que a Rússia tinha preparado uma lista com nomes de ucranianos que deviam ser capturados ou assassinados caso houvesse uma uma invasão à Ucrânia. Nesse documento, os EUA falavam de uma potencial “catástrofe de direitos humanos”. “Também temos informação confiável de que as forças russas usariam medidas letais para dispersar protestos pacíficos ou de alguma forma contra-atacar o exercício pacífico da resistência de populações civis”, dizia também a mensagem enviada à Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet.
Em março, a deputada ucraniana Inna Sovsun já tinha afirmado que “o Gulag” tinha sido “restaurado” e várias fontes oficiais ucranianas denunciavam que “milhares de residentes” estavam a ser capturados e levados à força para lugares remotos na Rússia. Ainda segundo a comissária para os Direitos Humanos do Parlamento ucraniano, Lyudmyla Denisova, existem pelo menos quatro campos de detenção em atividade nos arredores de Mariuopl e a Organização de Segurança e Coordenação Europeia (OSCE) afirma que há provas de que estão a ser detidos civis no sul e leste da Ucrânia, sendo depois sujeitos a “interrogatórios brutais à procura de supostas ligações ao Governo ucraniano ou meios de comunicação independentes”.
Militares querem bolsonarismo até 2035
Três institutos com forte presença militar lançaram na última semana o documento “Projeto de nação, o Brasil em 2035”, um plano de militares alinhados ao governo Bolsonaro para governar o Brasil por mais três mandatos presidenciais. O projeto foi coordenado pelo general Rocha Paiva, ex-presidente do grupo Terrorismo Nunca Mais, e contou com a revisão do general Mendes Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional no governo FH, do general Santa Rosa, ex-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos de Jair Bolsonaro, do embaixador aposentado Marcos Henrique Camillo Cortes e do professor Timothy Mulholland, ex-reitor da UnB. A cerimônia de lançamento oficial contou ainda com a presença do vice-presidente, o general Hamilton Mourão.
O projeto é uma espécie de plano de ação para os próximos mandatos presidenciais —esperando um governo Bolsonaro 2, seguido de outros dois de um sucessor, como fez Lula. O documento é um vislumbre da visão de mundo dos militares bolsonaristas.
Um dos aspectos mais preocupantes do projeto é que ele está tomado, do começo ao fim, pelo modo de pensar conspiratório, “antiglobalista” e “antiesquerdista”. “Globalismo” é definido no documento como o movimento internacionalista da elite financeira mundial para controlar nações e cidadãos por meio de intervenções autoritárias disfarçadas como socialmente corretas. O interesse dos “globalistas” seria transferir a soberania dos Estados a grandes potências, organismos internacionais e ONGs, para que esses atores possam decidir melhor sobre temas complexos como meio ambiente e direitos humanos. Por isso o projeto se propõe a conter o avanço do “globalismo”, com um grande esforço de conscientização nacional. A luta contra o “globalismo” é ideológica.
Também é ideológica a luta contra a esquerda, vista como a principal responsável pelas mazelas da educação brasileira, com a pregação facciosa e ideológica de professores radicais. Seria deles a culpa pelo subdesenvolvimento e pela baixa produtividade brasileira. Nada que não se resolva com civismo, disciplina e bons valores morais. Afinal, ideológicos são os outros.
A ideia paranoica de que uma elite financeira “globalista” quer controlar o Brasil por meio da ONU e das ONGs permite resolver a contradição entre duas filiações ideológicas contraditórias do documento, o nacionalismo e o liberalismo. Como em nenhum momento o projeto é propriamente nacionalista — defende a cultura, os empregos ou a indústria nacionais — e, ademais, em termos econômicos, enfatiza sempre uma abordagem bastante liberal, é com o combate ao “globalismo” que afirma seu nacionalismo, ainda que numa chave conspiratória.
O liberalismo aparece na defesa da flexibilização da entrada de capital estrangeiro no país para gerar emprego e renda, mas é aberta uma exceção para garantir o capital nacional na agricultura, dada sua “alta relevância estratégica”. Ficamos sem entender por que não seriam também estratégicos os setores de energia, infraestrutura ou comunicações —e fica a desconfiança de que o protecionismo ao agro é apenas para retribuir seu tradicional apoio ao conservadorismo.
No documento, chama a atenção também aquilo que pouco aparece ou fica de fora. Embora as principais tarefas do Estado brasileiro — pelo menos se medidas pelo gasto público —sejam o SUS, a Previdência e a educação, o projeto não tem nada de muito relevante a dizer sobre eles. O documento não pensa os inúmeros desafios para pôr fim à evasão no ensino médio ou ampliar a cobertura da rede de saúde. Apenas insiste na ideia boba de cobrar pelo atendimento no SUS e para cursar as universidades federais. Há um capítulo inteiro sobre defesa cibernética, mas não há palavra alguma sobre os programas de transferência de renda que são nosso principal instrumento de combate à pobreza extrema.
O documento mostra como os militares que se lançaram na política estão tomados de ideias paranoicas “antiglobalistas” e anticomunistas, mas, quando se trata de gerir o Estado brasileiro, não têm um plano de ação que pare de pé. Seu “Projeto de nação” é uma mistura de delírio ideológico com amadorismo na gestão das políticas públicas.
Cerrar fileiras para uma guerra longa
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| Galym Boranbayev |
Em apenas três meses, tudo mudou radicalmente. Um novo mapa de segurança começa a ser formado no espaço europeu e é exatamente o contrário daquele que Putin pretendia, quando mandou as suas tropas avançar pela Ucrânia adentro, na madrugada de 24 de fevereiro. A NATO prepara-se para ser reforçada com a entrada da Suécia e da Finlândia, dois países com uma longa história de não alinhamento militar. A concretizar-se, a Aliança Atlântica irá duplicar a extensão das suas fronteiras terrestres com a Rússia, passando de 1 215 para 2 555 quilómetros.
Ao mesmo tempo, a União Europeia conseguiu, nestes meses críticos, dar provas de uma unidade que muitos consideravam impossível de alcançar, depois da crise do Brexit, das ameaças extremistas e da reeleição de Viktor Orbán, na Hungria. Perante a ameaça de um inimigo russo que se recusa a jogar o jogo do Direito Internacional, a União Europeia ganhou um novo alento e a atenção mundial: voltou a ser vista como o maior espaço de liberdade e de respeito dos direitos humanos, admirada pelas suas regras de livre comércio e circulação de pessoas, e até como lugar de acolhimento de refugiados.
Mesmo no dossier difícil da energia, com alguns países da Europa Central totalmente dependentes dos combustíveis russos, a Europa tem conseguido manter um mínimo básico de unidade, o que surpreendeu Putin – que terá sobrestimado o poder dos seus oleodutos e gasodutos. Afinal, apesar das posições mais radicais da Hungria e das cautelas da Alemanha, a Europa tem dado passos firmes para se libertar da dependência energética da Rússia, porventura mais cedo do que muitos esperariam – até porque não existe alternativa. A decisão de Putin de suspender o fornecimento de gás à Polónia e à Bulgária – por, alegadamente, os dois países se recusarem a pagar em rublos – acaba por ser um aviso, aos restantes “clientes”, de que não podem confiar no jogo de Moscovo e que, portanto, precisam de diversificar, com urgência, a origem do fornecimento de combustíveis e de procurar novas fontes de energia – de preferência, já agora, mais “limpas” e amigas do ambiente.
Não obstante todas estas manifestações de unidade no espaço europeu – algumas delas inéditas nos últimos séculos de História –, convém manter alguma prudência acerca do desfecho do conflito. Em termos militares, da mesma maneira que se sobrestimou, no início, a capacidade das Forças Armadas russas, convém agora também não as subestimar, nem a elas nem à sua capacidade de manterem a ocupação em certas partes do Donbass e na Crimeia, apesar das sanções ocidentais e do fornecimento de mais armamento à resistência ucraniana. Isto indica que o conflito poderá prolongar-se por muito tempo, já que a União Europeia, por exemplo, insiste em que nunca reconhecerá qualquer metro de terreno conquistado pelos russos, na Ucrânia, e daí a necessidade atual de cerrar fileiras.
No entanto, apesar das demonstrações de unidade europeia e do “renascimento” da NATO, não se pode afirmar que o mundo está todo unido contra a Rússia. Segundo a insuspeita Economist Intelligence Unit, cerca de dois terços da população mundial vive em países que, até ao momento, se mostram oficialmente neutros, recusando aplicar sanções a Moscovo – o que inclui Estados insuspeitos de serem autocracias, como a África do Sul, o Brasil ou a Índia, bem como um membro fundamental e importante da NATO, a Turquia. No contexto de uma ordem global, muitos países continuam a não querer escolher um lado. Preferem esperar para ver o que irá acontecer, qual o equilíbrio de forças que resultará do conflito, do que vai ser da posição da China e o que acontecerá na Rússia – que, como é evidente, não vai desaparecer do mapa. Também não são de excluir muitas convulsões, por todo o planeta, devido à escassez de alimentos, com efeitos perversos: já que a “culpa” irá ser dividida entre a “invasão de Putin” e as “sanções” impostas pelos países ocidentais. Os choques vão continuar.























