domingo, 29 de maio de 2022

Militares querem bolsonarismo até 2035

Três institutos com forte presença militar lançaram na última semana o documento “Projeto de nação, o Brasil em 2035”, um plano de militares alinhados ao governo Bolsonaro para governar o Brasil por mais três mandatos presidenciais. O projeto foi coordenado pelo general Rocha Paiva, ex-presidente do grupo Terrorismo Nunca Mais, e contou com a revisão do general Mendes Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional no governo FH, do general Santa Rosa, ex-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos de Jair Bolsonaro, do embaixador aposentado Marcos Henrique Camillo Cortes e do professor Timothy Mulholland, ex-reitor da UnB. A cerimônia de lançamento oficial contou ainda com a presença do vice-presidente, o general Hamilton Mourão.

O projeto é uma espécie de plano de ação para os próximos mandatos presidenciais —esperando um governo Bolsonaro 2, seguido de outros dois de um sucessor, como fez Lula. O documento é um vislumbre da visão de mundo dos militares bolsonaristas.



Um dos aspectos mais preocupantes do projeto é que ele está tomado, do começo ao fim, pelo modo de pensar conspiratório, “antiglobalista” e “antiesquerdista”. “Globalismo” é definido no documento como o movimento internacionalista da elite financeira mundial para controlar nações e cidadãos por meio de intervenções autoritárias disfarçadas como socialmente corretas. O interesse dos “globalistas” seria transferir a soberania dos Estados a grandes potências, organismos internacionais e ONGs, para que esses atores possam decidir melhor sobre temas complexos como meio ambiente e direitos humanos. Por isso o projeto se propõe a conter o avanço do “globalismo”, com um grande esforço de conscientização nacional. A luta contra o “globalismo” é ideológica.

Também é ideológica a luta contra a esquerda, vista como a principal responsável pelas mazelas da educação brasileira, com a pregação facciosa e ideológica de professores radicais. Seria deles a culpa pelo subdesenvolvimento e pela baixa produtividade brasileira. Nada que não se resolva com civismo, disciplina e bons valores morais. Afinal, ideológicos são os outros.

A ideia paranoica de que uma elite financeira “globalista” quer controlar o Brasil por meio da ONU e das ONGs permite resolver a contradição entre duas filiações ideológicas contraditórias do documento, o nacionalismo e o liberalismo. Como em nenhum momento o projeto é propriamente nacionalista — defende a cultura, os empregos ou a indústria nacionais — e, ademais, em termos econômicos, enfatiza sempre uma abordagem bastante liberal, é com o combate ao “globalismo” que afirma seu nacionalismo, ainda que numa chave conspiratória.

O liberalismo aparece na defesa da flexibilização da entrada de capital estrangeiro no país para gerar emprego e renda, mas é aberta uma exceção para garantir o capital nacional na agricultura, dada sua “alta relevância estratégica”. Ficamos sem entender por que não seriam também estratégicos os setores de energia, infraestrutura ou comunicações —e fica a desconfiança de que o protecionismo ao agro é apenas para retribuir seu tradicional apoio ao conservadorismo.

No documento, chama a atenção também aquilo que pouco aparece ou fica de fora. Embora as principais tarefas do Estado brasileiro — pelo menos se medidas pelo gasto público —sejam o SUS, a Previdência e a educação, o projeto não tem nada de muito relevante a dizer sobre eles. O documento não pensa os inúmeros desafios para pôr fim à evasão no ensino médio ou ampliar a cobertura da rede de saúde. Apenas insiste na ideia boba de cobrar pelo atendimento no SUS e para cursar as universidades federais. Há um capítulo inteiro sobre defesa cibernética, mas não há palavra alguma sobre os programas de transferência de renda que são nosso principal instrumento de combate à pobreza extrema.

O documento mostra como os militares que se lançaram na política estão tomados de ideias paranoicas “antiglobalistas” e anticomunistas, mas, quando se trata de gerir o Estado brasileiro, não têm um plano de ação que pare de pé. Seu “Projeto de nação” é uma mistura de delírio ideológico com amadorismo na gestão das políticas públicas.

 Pablo Ortellado:

Cerrar fileiras para uma guerra longa

Galym Boranbayev
Antes da invasão da Ucrânia, Vladimir Putin expressou o seu desejo de remodelar a arquitetura de segurança europeia. O líder do Kremlin considerava que o equilíbrio então existente, criado na sequência da queda do Muro de Berlim e da desintegração da União Soviética, era contrário aos interesses da Rússia e reivindicava, por isso, uma maior área de influência para Moscovo. Nesses tempos, ainda recentes mas que agora nos parecem tão distantes, também a NATO era vista como uma estrutura obsoleta e a perder importância estratégica – de tal forma que Emmanuel Macron até a declarou em “morte cerebral”.

Em apenas três meses, tudo mudou radicalmente. Um novo mapa de segurança começa a ser formado no espaço europeu e é exatamente o contrário daquele que Putin pretendia, quando mandou as suas tropas avançar pela Ucrânia adentro, na madrugada de 24 de fevereiro. A NATO prepara-se para ser reforçada com a entrada da Suécia e da Finlândia, dois países com uma longa história de não alinhamento militar. A concretizar-se, a Aliança Atlântica irá duplicar a extensão das suas fronteiras terrestres com a Rússia, passando de 1 215 para 2 555 quilómetros.

Ao mesmo tempo, a União Europeia conseguiu, nestes meses críticos, dar provas de uma unidade que muitos consideravam impossível de alcançar, depois da crise do Brexit, das ameaças extremistas e da reeleição de Viktor Orbán, na Hungria. Perante a ameaça de um inimigo russo que se recusa a jogar o jogo do Direito Internacional, a União Europeia ganhou um novo alento e a atenção mundial: voltou a ser vista como o maior espaço de liberdade e de respeito dos direitos humanos, admirada pelas suas regras de livre comércio e circulação de pessoas, e até como lugar de acolhimento de refugiados.

Mesmo no dossier difícil da energia, com alguns países da Europa Central totalmente dependentes dos combustíveis russos, a Europa tem conseguido manter um mínimo básico de unidade, o que surpreendeu Putin – que terá sobrestimado o poder dos seus oleodutos e gasodutos. Afinal, apesar das posições mais radicais da Hungria e das cautelas da Alemanha, a Europa tem dado passos firmes para se libertar da dependência energética da Rússia, porventura mais cedo do que muitos esperariam – até porque não existe alternativa. A decisão de Putin de suspender o fornecimento de gás à Polónia e à Bulgária – por, alegadamente, os dois países se recusarem a pagar em rublos – acaba por ser um aviso, aos restantes “clientes”, de que não podem confiar no jogo de Moscovo e que, portanto, precisam de diversificar, com urgência, a origem do fornecimento de combustíveis e de procurar novas fontes de energia – de preferência, já agora, mais “limpas” e amigas do ambiente.

Não obstante todas estas manifestações de unidade no espaço europeu – algumas delas inéditas nos últimos séculos de História –, convém manter alguma prudência acerca do desfecho do conflito. Em termos militares, da mesma maneira que se sobrestimou, no início, a capacidade das Forças Armadas russas, convém agora também não as subestimar, nem a elas nem à sua capacidade de manterem a ocupação em certas partes do Donbass e na Crimeia, apesar das sanções ocidentais e do fornecimento de mais armamento à resistência ucraniana. Isto indica que o conflito poderá prolongar-se por muito tempo, já que a União Europeia, por exemplo, insiste em que nunca reconhecerá qualquer metro de terreno conquistado pelos russos, na Ucrânia, e daí a necessidade atual de cerrar fileiras.

No entanto, apesar das demonstrações de unidade europeia e do “renascimento” da NATO, não se pode afirmar que o mundo está todo unido contra a Rússia. Segundo a insuspeita Economist Intelligence Unit, cerca de dois terços da população mundial vive em países que, até ao momento, se mostram oficialmente neutros, recusando aplicar sanções a Moscovo – o que inclui Estados insuspeitos de serem autocracias, como a África do Sul, o Brasil ou a Índia, bem como um membro fundamental e importante da NATO, a Turquia. No contexto de uma ordem global, muitos países continuam a não querer escolher um lado. Preferem esperar para ver o que irá acontecer, qual o equilíbrio de forças que resultará do conflito, do que vai ser da posição da China e o que acontecerá na Rússia – que, como é evidente, não vai desaparecer do mapa. Também não são de excluir muitas convulsões, por todo o planeta, devido à escassez de alimentos, com efeitos perversos: já que a “culpa” irá ser dividida entre a “invasão de Putin” e as “sanções” impostas pelos países ocidentais. Os choques vão continuar.

sábado, 28 de maio de 2022

Pêsames presidencial

 


Esperanças e utopias

Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-lo a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.

José Saramago, "O caderno"

O eclipse visto pela ciência e pelos índios

Eclipse vem do grego e significa a ação de abandonar ou um desaparecimento.

Testemunhamos um eclipse lunar no dia 15 deste mês, com ápice na madrugada do dia 16. Ele me levou ao ano de 1961, quando, em 26 de agosto, meu companheiro Julio Cezar Melatti (hoje professor emérito da Universidade de Brasília) e eu — ambos na casa dos 20 anos — éramos iniciados no trabalho de pesquisa antropológica e sérios, mas inocentes, tentávamos compreender o estilo de vida de “índios” regionalmente chamados de gaviões, um grupo de língua jê timbira, na Amazônia paraense.




A Wikipédia informa que “o eclipse lunar de 26 de agosto de 1961 foi um eclipse parcial, o segundo e último de dois eclipses lunares do ano. Teve magnitude penumbral de 1,9330 e umbral de 0,9863. Duração total de 186 minutos. A Lua estava quase coberta pela sombra da Terra num eclipse parcial muito profundo, que durou três horas e seis minutos. Com 99% da Lua na sombra no eclipse máximo, foi um evento memorável. (...) Também coincidiu com o perigeu lunar, ponto mais próximo da Terra, deixando a Lua Cheia cerca de 14% maior e um pouco mais brilhante que no apogeu. Ou seja, o eclipse parcial se deu com uma superlua”.

Tal é a linguagem “científica” do fenômeno. Eis, entretanto, o que ouvi dos nativos e transcrevi no meu diário de campo:

— A outra grande experiência — escrevi — foi um eclipse da Lua. Já estávamos dormindo, quando fomos acordados por Pembkui, que, como toda a aldeia, dizia que Katire (Lua) havia morrido! Quando ela chegou na minha rede, falou em tom patético: “Lua morreu!”. Imediatamente me levantei e comentei com os homens que, ao que parece, esperavam minha opinião. Quando notaram que concordava, Apororenum e Kaututere saíram de casa e, ao lado dos outros, com achas de lenha cujas pontas estavam em brasa nas mãos, cantaram e oscilaram as achas incandescentes em direção à Lua. Eram canções que chamavam a Lua zangada Lua de volta — (hoje vou ver se tomo nota da letra); e, quando tudo acabou, Kaututere prometeu caçar para Katire muito porco, veado, anta e outros animais... Apororenum explicou que, se a Lua morrer, tudo morria, pois, no escuro, sem Sol e Lua, eles comeriam gravetos. O fogo não acenderia e não haveria caça, pois, sem luz, nós ficamos igual a Megaron (alma dos mortos). Hoje vou me aprofundar mais. O fato é que foi uma experiência fabulosa. Depois fomos dormir e de madrugada acordei novamente, desta vez com o maracá e a cantiga de Apororenum. Hoje vou caçar para Katire.

Eis, num texto telegráfico, duas visões de um eclipse e um exemplo de como o humano engloba tudo entre os “índios”.

Esse englobamento de Lua e Sol, bem como de estrelas, pelo cultural tem inspiração no trabalho de Viveiros de Castro, cuja obra tem posto no devido lugar a oposição entre natureza e cultura de modo antropológico — relativizando a dualidade que nós, ocidentais, exceto no plano religioso, tomamos como absoluta.

O notável na minha memória dessa extraordinária experiência foi descobrir que a Lua, como o Sol, tem dimensões humanas. A Lua zangada foi a causa do eclipse. E, conforme minhas pesquisas ulteriores entre os timbiras mostraram, Sol e Lua formam um par criativo do mundo.

Desde os anos 1930, quando um etnólogo alemão chamado Curt Nimuendajú viveu com os canelas do Maranhão e os apinayés do Tocantins, sabemos da polarização produtiva entre Sol e Lua, que, além de serem masculinos para eles, têm um elo parecido com o que temos com nossos doadores de mulheres, nossos afins: um elo que permite confiar e desconfiar.

Desse modo, Sol faz e Lua desfaz; mas, diferentemente das polarizações negativas, Lua também faz e Sol desfaz... Sol fez pessoas bonitas e saudáveis, Lua as fez feias e doentes. Quando Sol reclamou, Lua mostrou que um mundo sem diferenças seria um Universo vazio de sentido.

Sabemos que é impossível olhar para o Sol. Já a Lua tem fases. Com mais espaço, poderia facilmente ligar isso a nosso sistema político, cujo dualismo é ranzinza e traiçoeiro. Aqui, porém, temos um exemplo em que os opostos são necessários e positivos.
Roberto DaMatta

Chega de falar, é hora de agir

Guerra, recessão, fome, escassez de energia. Os temas das muitas rodadas de discussão no Fórum Econômico Mundial em Davos deram poucos motivos para otimismo. O mundo vive um momento crítico: politicamente, economicamente e socialmente.

As pessoas mais poderosas do planeta, reunidas nos Alpes suíços, concordam com isso. Mas não se resolve crises apenas com conversas. É claro que é necessário intercâmbio entre política, negócios e sociedade civil. É bom que haja diálogo. Mas o Fórum Econômico Mundial de 2022 deve ser o início da ação, e aqui estão os pontos mais urgentes:

Luc Vernimmen (Bélgica)
Os grãos da Ucrânia precisam voltar a ser exportados. Vinte milhões de toneladas de trigo estão apodrecendo em armazéns ucranianos. Os grãos são necessários para alimentar a população mundial. A Ucrânia fornece cerca de 28% do trigo comercializado no mundo, e a próxima colheita, apesar das difíceis circunstâncias atuais, já amadurece nos campos.

Trens e caminhões adicionais devem ser providenciados para transportá-lo. E o presidente russo, Vladimir Putin, precisa permitir essas exportações. Isso significa que uma pressão maior deve ser exercida sobre ele e seu regime. Se isso fracassar, milhões de pessoas em todo o mundo passarão fome ou até morrerão.

As sanções contra o agressor russo devem entrar em uma nova fase. As exportações da Rússia precisam ser massivamente dificultadas. Não deveria ser possível para o país continuar sua guerra de agressão enquanto se beneficia do aumento dos preços da energia.

O ministro da Economia alemão, Robert Habeck, quer limitar o preço do petróleo incentivando os países consumidores a formar um cartel global, o que atingiria duramente a Rússia. A ideia é boa. Afinal, não há problema de abastecimento, há simplesmente um problema de distribuição. Deve-se trabalhar imediatamente para definir como implementar isso. Sem mais longos debates, por favor.

A União Europeia precisa de um plano de contingência bem antes do início do inverno. A guerra na Ucrânia fez com que os preços da energia já extremamente altos em todo o mundo subissem ainda mais. Cada vez mais indivíduos não podem pagar suas contas de luz. As empresas estão tendo que reduzir a produção. A Europa pode sofrer apagões no próximo inverno. Cortes de energia longos e generalizados afetariam toda a infraestrutura crítica – saúde, telecomunicações, abastecimento de água, apenas para citar alguns.

Uma potencial recessão deve ser combatida com uma intervenção estatal inteligente. Em Davos, a chefe do FMI, Kristalina Georgieva, chocou os participantes ao relatar que as perspectivas de crescimento de 143 de seus países-membros haviam sido rebaixadas. Menos crescimento significa menos bem-estar. A guerra na Ucrânia, o dólar em alta e o encolhimento da economia da China devido à pandemia são as principais causas.

E agora, como seguir? O pior a se fazer é esperar a recessão chegar, é preciso combatê-la logo no início! Com cortes nos impostos, programas estaduais de apoio à proteção climática ou investimento em infraestrutura digital. Economizar agora é o caminho errado.

Um Plano Marshall para a Ucrânia deve ser elaborado e implementado rapidamente. Cidades estão destruídas, assim como infraestruturas importantes. Ninguém sabe quanto tempo a guerra vai durar. Mas o futuro do país deve ser garantido agora. Com investimentos em reconstrução, construção de novas casas e vias de transporte.

Não deve haver qualquer hesitação. Porque a Ucrânia precisa dessa ajuda agora, e a população precisa de perspectivas para o futuro. A luta deles contra o agressor russo é também uma luta a favor dos valores ocidentais, da democracia e do direito à autodeterminação dos Estados soberanos.

Que bom que alguns cenários de crise foram discutidos no Fórum Econômico Mundial. E que bom que políticos, empresários e todos os outros têm condições agora de agir rapidamente. Se não o fizerem, o mundo mergulhará em sua pior crise desde a Segunda Guerra Mundial.
Manuela Kasper-Claridge

Faltavam apenas as câmaras de gás

Ao longo da trajetória do Judeus pela Democracia, desde o fatídico e recorrentemente lembrado dia da palestra de Bolsonaro na Hebraica-RJ (quando estávamos do lado de fora protestando), sempre que nos manifestamos sobre a aproximação do presidente e do governo com ideologias nazifascistas, vemos reações diferentes.

Por um lado, os mais cautelosos e os apoiadores do governo nos acusam de assimetria, de estarmos fazendo comparações com o incomparável. Dizem que os horrores perpetrados por Bolsonaro não se aproximam do que os nazistas fizeram. Nos perguntam: “se Bolsonaro é nazista, onde estão as câmaras de gás?”

Por outro lado, os opositores do governo por vezes exageram nas comparações, dizendo que Bolsonaro é até pior do que Hitler. E muitas vezes arrematam: “faltam apenas as câmaras de gás”.

O que aconteceu esta semana em Sergipe, quando agentes da Polícia Rodoviária Federal mataram Genivaldo de Jesus Santos (negro, pobre e com transtornos mentais) sufocado responde, mais literalmente do que simbolicamente, as aspas acima: as câmaras de gás já se fazem presentes.

As câmaras de gás como ferramenta da indústria da morte foram implementadas pelo governo nazista alemão nos chamados Campos de Extermínio. Elas tinham o intuito de acelerar as execuções e, ao mesmo tempo, economizar recursos gastos com munição. As câmaras, que inicialmente funcionavam canalizando o escapamento de veículos para sufocar as vítimas com monóxido de carbono e depois passaram a usar um pesticida chamado “Zyklon B”, foram a causa da morte, apenas em Auschwitz, de cerca de 1 milhão de judeus, mais dezenas de milhares de ciganos e prisioneiros de guerra soviéticos. Belzec, Sobibor e Treblinka foram outros campos que também utilizaram câmaras de gás, nos quais estima-se que mais 2 milhões de judeus tenham sido mortos.


É por conta do uso de uma espécie de câmara de gás pela Polícia Rodoviária Federal, que o assassinato de Genivaldo nesta quarta-feira em Sergipe carrega um simbolismo tão forte. A tortura, o sufocamento e finalmente a execução, escancaram um discurso que o presidente incorporou desde antes de subir ao poder: a banalização da morte de alguns – daqueles que valem menos, que não se encaixam na mentalidade eugenista, seletiva e preconceituosa deste governo. Cabe lembrar que os primeiros mortos pelo regime nazista foram, precisamente, as pessoas com deficiência.

Pode-se argumentar sobre o caráter genocida intencional ou não do governo brasileiro. Mas o fato é que os nossos atuais mandatários têm simpatia pela morte, sobretudo daqueles que, na visão deles, não agregam – ou atrapalham – à sociedade.

A pandemia da Covid-19 acelerou a rotina de morte e evidenciou essa simpatia. Os membros do governo que manifestaram alguma solidariedade às vítimas foram escanteados e/ou perderam seus cargos. E, enquanto a doença matava 10, 100, 300, 600 mil brasileiros – indígenas e os mais pobres em uma proporção maior – Bolsonaro debochava da “gripezinha” e vociferava contra aqueles que tentavam de alguma forma proteger as suas populações.

Com o arrefecimento da letalidade da pandemia veio à tona uma outra ferramenta de massacre, já conhecida pelos mais pobres e mais frágeis e potencializada pelo sentimento bolsonarista: a truculência assassina da polícia.

A violência da polícia, sobretudo contra determinados grupos, não é novidade no Brasil. É comum lermos que “temos a polícia que mais mata e a que mais morre”. A prática de assassinatos injustificados e em situações mal explicadas e misteriosas sempre ocorreu. A diferença, perigosíssima, vem do discurso decorrente. E no discurso também reside o fascismo.

No último ano vimos a perpetração dos dois maiores massacres da história da polícia no Rio de Janeiro: a chacina do Jacarezinho, que matou 28 pessoas e o massacre do começo desta semana na Vila Cruzeiro, cuja contagem de corpos, até o momento, chega aos 26 (esta segunda com a participação, não apenas da Polícia Militar, mas também da Polícia Rodoviária Federal – a mesma que matou Genivaldo sufocado).

Independente do contexto, quando mais de 50 pessoas, cidadãos brasileiros, morrem pelas mãos da polícia, a utilização do termo “confronto” é inverossímil. Trata-se de massacres.

Quanto aos discursos decorrentes, eles mostram o incentivo assustador e o prazer sádico, por parte de Bolsonaro, seu governo e seus seguidores, ao que vem ocorrendo. Bolsonaro comemora, celebra a ação dos policiais, chama todos os mortos de bandidos e merecedores do destino que tiveram. Nas redes sociais os seguidores do presidente esbravejam, chamam de “defensores de bandido” aqueles que lamentam a ação policial, celebram os “CPFs cancelados”, vibram com o sangue derramado e dizem que Bolsonaro é um macho patriota limpando o país, defendendo a família e os valores de Deus. É esta a diferença. Este é o discurso que evidencia que estamos sob comando de fascistas.

O constante ufanismo, o nacionalismo falso e hipócrita, o desdém claro por direitos humanos, a idolatria aos militares – sobretudo quando eles matam – geralmente associada ao culto à masculinidade, são o fascismo. E, neste sentido, a polícia é alçada ao mesmo tempo a protagonista e a bode expiatório, sendo o músculo executor, o órgão que transforma as ideias do fascismo em ações fascistas.

A manipulação através dos grupos de Whatsapp, Telegram, Facebook convence os apoiadores, a proximidade bizarra entre o governo assassino e valores religiosos aproxima os crentes desiludidos e desavisados. Os ataques àqueles que tentam defender minorias esquecidas e o desprezo por nossos artistas e intelectuais (como fez o ex-Secretário da Cultura, Roberto Alvim, de forma explícita em sua alegoria de Goebbels com Wagner) traz regozijo, e o discurso demagógico anticorrupção, enquanto vemos evidências claras de corrupção eclodindo quase que diariamente, ilude. Isso é, na essência mais pura, o fascismo.

O intuito deste artigo não é chamar a polícia de fascista. Pelo contrário. As forças policiais e de segurança pública têm a missão de servir e proteger a população. No entanto, infelizmente, estas forças policiais são o reflexo de uma cultura que desumaniza, e hoje servem, sim, a um líder fascista. E precisam entender que estão sendo usadas por este líder para promover o genocídio do pobre, do negro, do indígena.

Temos a certeza de que tiraremos Bolsonaro do poder nas eleições de outubro. Mas, infelizmente, acabar com a ideologia fascista que ele ajudou a plantar será muito mais difícil.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

As Forças Armadas e o momento político nacional

Um ano após o ataque de apoiadores trumpistas ao Congresso dos EUA, contestando o resultado da eleição que, estimulados pelo então presidente, julgavam fraudada, um general norte-americano publicou artigo no Washington Post manifestando preocupação com o dia seguinte das eleições presidenciais em 2024 e a ameaça de divisão entre os militares, o que poderia pôr em risco a democracia no país.

Não afastando a possibilidade de contestação dos resultados da eleição e de um golpe de Estado, o militar apontou para o risco de confrontação no interior das Forças Armadas (FA) e a eventual quebra da hierarquia para respaldar essa diferente visão. Todos os militares juram respeitar a Constituição, mas numa eleição contestada, com lealdades divididas, alguns poderão seguir as ordens do comandante-em-chefe e outros, o comando trumpista. Como exemplo, mencionou a recusa da Guarda Nacional em acatar pedido do presidente Biden para que todos os seus membros se vacinassem. Com o país muito dividido, as FA e o Congresso deveriam tomar medidas para prevenir qualquer tentativa de insurreição e adotar providências cautelares, observou.

O alerta do militar norte-americano sobre a ameaça à quebra dos valores democráticos nos EUA, a partir de uma ação política das FA, não poderia ser mais atual para o cenário político brasileiro. A descrição feita pelo militar muito se assemelha a uma série de atitudes que colocam as FA brasileiras no centro do debate político nacional.


A gradual profissionalização das FA nos últimos 35 anos está sendo testada nos dias que correm. No atual governo, surgiu uma situação diferente dos governos anteriores desde 1985. Desde o período de governos militares, nos últimos 30 anos, podem ter surgido tensões esporádicas, mas atualmente elas se acentuaram a partir da participação de grande número de militares da ativa e da reserva em cargos públicos no governo federal. A crescente exposição dos militares no governo, com acusações de corrupção, de ameaça à democracia e de contestação das urnas eletrônicas e das ações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), está causando um forte desgaste à imagem pública das Forças Armadas. Os acontecimentos do 7 de setembro, com o silêncio eloquente dos comandantes militares, contudo, reafirmaram o papel profissional e constitucional das FA. A politização das Polícias Militares estaduais preocupa, em especial se apoiarem pessoas armadas, não militares, passíveis de reforçar um movimento de apoio ao presidente, porque poderão se chocar com as FA.

Nas últimas semanas, afirmações de que as Forças Armadas não assistirão passivamente ao pleito, de que as FA deverão fazer apuração paralela da votação, por questionar o sistema de urnas eletrônicas e a lisura das apurações (auditoria privada), e o pedido do ministro da Defesa para a divulgação das sugestões de aprimoramento da eleição apresentadas pelos militares, sobre a função das FA (“o permanente estado de prontidão das Forças Armadas para o cumprimento de suas missões constitucionais”) parecem reforçar a ideia de que as FA poderiam desempenhar um papel de poder moderador, à luz do artigo 142 da Constituição, quando, na realidade, não há uma nova missão para as Forças Armadas além daquela definida pela Carta Magna, como decidido pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Apesar da dubiedade de afirmações sobre a preservação da democracia, sobre eleições conturbadas, sobre ato de força que ponha em risco as instituições (“só Deus me tira daquela cadeira”) e parcialidade do TSE, não há sinais de que as FA, como instituição, poderão se engajar numa aventura que ameace as eleições e a democracia. A discrição da maioria das lideranças militares, em especial do Alto Comando, parece indicar que os militares deverão se manter dentro de seu papel de instituição de Estado, profissional, sem interferência política em apoio de partidos ou grupos políticos ou em decisões tomadas pelas instâncias civis competentes.

Assim, não me parece haver ameaça à realização das eleições nem ações violentas antes de 2 de outubro, mas o roteiro que está sendo traçado indica que, dependendo do resultado da eleição, é real o risco de, no dia 2, haver mobilização de grupos radicais, armados, para tentar atacar o STF ou o TSE, não o Congresso, como no caso dos EUA. De qualquer forma, a sociedade civil, o Congresso e as próprias Forças Armadas devem estar atentos e mobilizados para evitar qualquer tentativa de ameaça à democracia.

As eleições brasileiras estão despertando crescente atenção no exterior também pela presença dominante de dois políticos que, por razões diferentes, despertam fortes reações e apreensão sobre as perspectivas políticas e econômicas do País. A preocupação com a preservação da democracia e a condenação do autoritarismo estão muito presentes hoje num cenário de grande instabilidade global e de crescente confronto entre os dois regimes de governo representados pelos EUA e por China/Rússia.

Não tenho dúvida de que, se houver qualquer quebra das regras democráticas com o apoio das Forças Armadas, a reação vinda de fora será imediata e o Brasil poderá ser alvo de sanções econômicas e comerciais que, além de aumentar o isolamento internacional do País, afetarão ainda mais o crescimento e os setores mais dinâmicos da economia nacional.
Rubens Barbosapresidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (CEDESEN)

Chamem Josué de Castro, que a fome voltou

Minutos antes de receber uma das maiores premiações mundiais da época, Josué de Castro perdeu a voz. Teve um terrível acesso de tosse e não conseguia falar. Estava na cerimônia de entrega do Prêmio Internacional da Paz, que lhe fora concedido pelo Conselho Mundial da Paz, entidade sediada em Helsinque (Finlândia), onde se realizava o evento, em 1954. Após muito custo, ele insistiu em dizer algumas palavras. Foi o discurso mais curto que todas as autoridades presentes já tinham escutado. Josué de Castro conseguiu falar apenas uma frase:

- 'O primeiro direito do homem é o de não passar fome' -, ele disse, e sentou-se, exausto, sob palmas.

Pernambucano do Recife, onde nasceu em 1908, Josué foi a personalidade mais importante do século 20 no estudo da fome e na ação contra suas consequências. “Ele foi um gênio. Deveria ter um monumento em cada cidade do Brasil, porque é um dos maiores pensadores do século 20”, afirma o sociólogo suíço Jean Ziegler, relator da ONU para o direito à alimentação entre 2000 e 2008, professor da Universidade de Genebra e da Sorbonne e autor de vasta obra sobre a fome no mundo.

No momento em que o Brasil está sob ameaça de volta ao Mapa da Fome da ONU (da qual havia saído em 2014) e que o caso de uma criança que desmaiou de fome numa escola em Brasília ganha repercussão nacional, é momento de lembrar Josué de Castro. Na hora em que acaba de ser divulgado relatório da ONU mostrando que o flagelo voltou a aumentar no mundo após 10 anos, é hora de tornar a Josué de Castro.

Foi a partir de dois livros que o seu nome ganhou repercussão nacional e internacional. O primeiro, Geografia da Fome, de 1946, sobre o Brasil; o segundo, Geopolítica da Fome, de 1951, sobre a mesma questão, só que agora em escala mundial. “Este livro foi uma revelação para os europeus”, disse Jean Ziegler. O raciocínio que consolidara no Brasil, a partir da obra de 1946, ele expandia para o mundo: a causa da fome não se devia a caprichos da natureza, mas a -- vamos chamar assim -- caprichos da política.

“O autor brasileiro mais lido e comentado no mundo inteiro”, dizia matéria da Folha de S. Paulo (então chamada Folha da Manhã) na edição de 15 de setembro de 1951. “No pós-guerra, todas aquelas instituições criadas ao abrigo da ONU para melhorar o mundo tinham como guru máximo Josué de Castro”, atesta Ignacy Sachs, um dos principais pensadores da atualidade sobre o desenvolvimento sustentável.

Josué foi indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel: em 1953, 1963, 1964 e 1965 (em todas, para o da Paz, segundo os arquivos da premiação. Alguns autores mencionam uma indicação para o de Medicina, mas esta não consta nos arquivos). Ganhou o Prêmio Franklin Roosevelt, da Academia de Ciência Política dos Estados Unidos e recebeu a Grande Medalha de Paris, quando teve seu trabalho comparado (pelo pioneirismo) ao de Pasteur e Einstein, dois outros cientistas que também haviam recebido a premiação.

Uma das principais características dele era que combinava a reflexão com a ação. Elegeu-se deputado federal por Pernambuco em duas ocasiões (1958 e 1962). Foi presidente da FAO (Organismo das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), sendo o primeiro latino-americano a ocupar o cargo, no qual ficou por dois mandatos, de 1952 a 1956. Criou em 1957, junto com personalidades internacionais, a Associação Mundial de Luta contra a Fome (Ascofam), a primeira entidade internacional de combate ao problema, e presidiu a primeira Campanha de Defesa Contra a Fome, promovida pela ONU, em 1960.

O que Josué dizia já nos anos 1950/1960 permanece atual: o problema não é de falta de alimentos. Eles existem. O problema é o acesso das populações a esses alimentos. Voltemos ao sociólogo suíço, em entrevista a Leonardo Cazes, publicada na matéria cujo título tomei a liberdade de repetir neste meu artigo (“ ‘Uma criança que morre de fome hoje é assassinada’, diz Jean Ziegler”, O Globo, 13/07/13): “O relatório da FAO mostra que o número de vítimas cresce, mas que a agricultura mundial poderia alimentar normalmente, com uma dieta de 2,2 mil calorias por dia, 12 bilhões de pessoas. Então, uma criança que morre de fome hoje é assassinada. Fome não é mais morte natural. É massacre criminoso, organizado”.

Josué de Castro foi cassado pela ditadura na segunda semana do golpe civil-militar, em 9 de abril de 1964. Morreu em Paris, no exílio, de infarto, aos 65 anos, em 24 de setembro de 1973. Aquela frase que ele precisou arrancar da garganta, na solenidade em Helsinque, continua mais viva do que nunca: o primeiro direito do homem é o de não passar fome.

Brasil de Cristo

 


O futuro não é mais como era antigamente

Um dos livros que mais me impactaram nos últimos tempos, pela forma cirúrgica com que aponta como o contrato social firmado pelo mundo democrático depois das duas guerras mundiais não é mais válido para os desafios do presente e de um futuro que chega a galope todos os dias, foi escrito pela economista Minouche Shafik, diretora da London School of Economics. No Brasil, ganhou o título “Cuidar uns dos outros —Um novo contrato social”.

Tive a oportunidade de entrevistar a autora a respeito dos temas que ela reuniu para demonstrar como os arranjos institucionais, econômicos, educacionais, de proteção social e ambientais, entre outros, ficaram rapidamente obsoletos diante de uma realidade que já vinha em rápida mudança graças a fatores como tecnologia, avanço da emergência climática e novo perfil demográfico dos países, e como isso foi potencializado de forma dramática pela pandemia de Covid-19.

Ela mostra com dados por que é inadiável que o mundo democrático rediscuta o atual contrato social, sob pena de, muito rapidamente, mais nações se verem diante do apelo sedutor de líderes com discurso de radicalização populista e tendência autocrática, que seduzem crescentes contingentes de eleitores ao propor soluções falsamente simples para problemas complexos.

O que fez com que o livro continuasse martelando na minha cabeça, meses depois da leitura e da entrevista, é a inquietante constatação de que nem um único dos temas que Shafik aborda está sequer sendo esboçado na campanha presidencial brasileira.


Enquanto em sua obra ela constata, com dados e evidências, que a maior longevidade obrigará as pessoas a trabalharem por mais tempo, para que o custo de financiar sua velhice não recaia de forma injusta sobre as novas gerações, por aqui estamos discutindo se reabilitaremos ou não a CLT como norte para relações trabalhistas viradas de ponta-cabeça nos últimos anos, e ainda em transmutação.

No livro, a economista evidencia que a educação para o futuro, para ser efetiva, tem de privilegiar a primeira infância, pois é ela que determinará a possibilidade de indivíduos desenvolverem todo o seu potencial cognitivo e emocional. A partir daí, o aprendizado será um contínuo desenvolvimento de habilidades para muito além do conteudismo clássico.

Enquanto isso, no Brasil de Jair Bolsonaro estamos prestes a aprovar uma autorização de ensino doméstico de inspiração ideológica e religiosa, em tudo regressiva e oposta ao que fazem as nações que de fato adotaram a educação como eixo de projetos de desenvolvimento.

A autora mostra por “A + B” o caráter contraproducente de países, ricos ou pobres, manterem subsídios a combustíveis fósseis. Não só do ponto de vista da necessária mudança de matriz energética para evitar a catástrofe climática, mas da gestão de recursos cada vez mais escassos.

E o que faz o Brasil? Troca presidentes da Petrobras em série, na esperança de que algum dos nomeados determine um controle artificial de preços dos combustíveis, sem que haja qualquer política consistente de substituição do uso de petróleo e derivados ou da diminuição da dependência da nossa economia dessa fonte.

E mais: essa é uma das áreas em que a resistência à mudança de mentalidade e o atraso no discurso e na visão é comum aos postulantes de oposição, alheios, também eles, à urgência de retirar as medidas de mitigação dos efeitos do aquecimento global da prancheta.

Em vez de submeterem essas questões urgentes ao eleitor, os candidatos e o noticiário (nós, portanto) se ocupam de falsas polêmicas, como a inexistente possibilidade de fraude nas urnas eletrônicas e o “resta um” nada edificante de candidatos do centro.

Enquanto o futuro chega na velocidade da luz, estamos caminhando a passos de tartaruga, quando não andando em marcha à ré.

Os perigos da sordidez plutocrática

Os sultões do Vale do Silício passam por uma irritação política, em que alguns bilionários têm se voltado contra os democratas. Não apenas Elon Musk. Outros nomes proeminentes, incluindo Jeff Bezos, atacaram Joe Biden, e nós sabemos que Larry Ellison, da Oracle, participou de uma chamada com Sean Hannity e Lindsey Graham sobre reverter a eleição de 2020.

O momento dessa mudança para a direita linha-dura por parte de alguns aristocratas da tecnologia é marcante em face do que está ocorrendo na política. É difícil imaginar o tipo de bolha em que Musk vive para ele apontar o Partido Democrata como “o partido da divisão e do ódio”, no momento em que Tucker Carlson, que não é político, mas é uma das figuras mais influentes do Partido Republicano, dedica programa após programa à “teoria da substituição”, alegação de que a elite progressista traz imigrantes para os EUA para substituir eleitores brancos. Pesquisas mostram que metade dos republicanos concorda com essa teoria.

É verdade que alguns interesses econômicos reais estão em jogo. Os democratas propuseram novos impostos sobre os ricos, enquanto Biden nomeou para cargos pessoas conhecidas por defender políticas antitruste mais rígidas. Também é verdade que o valor das ações de empresas de tecnologia caiu substancialmente nos últimos meses, reduzindo a riqueza de magnatas como Musk e Bezos.

Mas, neste momento, essas políticas parecem apartadas. Mesmo se os democratas desafiarem as expectativas e mantiverem o controle do Congresso, em novembro, não há perspectiva realista de uma campanha do tipo New Deal contra a desigualdade. Além disso, qualquer política de redistribuição de renda ainda deixaria os bilionários incrivelmente ricos, capazes de comprar o que bem entendessem – exceto, possivelmente, o Twitter.

As redes sociais, antes vistas como força a serviço da liberdade, agora são vetores da desinformação

O que o dinheiro nem sempre consegue comprar, porém, é admiração. E esta é uma área em que os titãs da tecnologia sofreram grandes derrotas. Permita-me dar uma de intelectual. Desde Max Weber, os cientistas sociais perceberam que a desigualdade social possui múltiplas dimensões. Precisamos distinguir a hierarquia do dinheiro, na qual poucas pessoas detêm uma fatia desproporcional da riqueza, da hierarquia do prestígio, na qual poucas pessoas são respeitadas e admiradas.

Os indivíduos podem ocupar posições muito diferentes nessas hierarquias. Lendas do esporte, estrelas pop, influenciadores em redes sociais e laureados com o Nobel, em geral, são bem-sucedidos financeiramente, mas sua riqueza é miséria em comparação com as grandes fortunas.

Os bilionários, em contraste, impõem deferência, até servilismo, sobre quem depende de sua generosidade, mas poucos deles são figuras conhecidas do público, muito menos possuem fãs. A elite da tecnologia, porém, teve tudo.

Sheryl Sandberg, do Facebook, foi, por certo período, um ícone do feminismo. Musk tem milhões de seguidores no Twitter, muitos deles seres humanos de verdade, não bots, e esses seguidores com frequência se mostram defensores ardentes da Tesla.

Agora, o glamour acabou. As redes sociais, antes louvadas como força a serviço da liberdade, são denunciadas como vetores de desinformação. A popularidade da Tesla foi manchada por histórias sobre combustões espontâneas e acidentes com o piloto automático. Magnatas de tecnologia ainda possuem fortunas, mas o público – e o governo – não lhes está retribuindo com o nível de adulação anterior. E isso os deixa loucos da vida.

Já vimos este filme antes. Em 2010, grande parte da elite de Wall Street, em vez de se sentir agradecida por ter sido resgatada, foi consumida por um “ódio a Barack Obama”. Os engenhosos executivos ficaram furiosos por não receber o respeito que mereciam por arruinarem a economia mundial.

Infelizmente, a mesquinhez plutocrática importa. Dinheiro não compra admiração, mas compra poder político. É desalentador o fato de que parte desse poder será acionada em benefício de um Partido Republicano que descamba cada vez mais para o autoritarismo. BILIONÁRIOS. Já mencionei que a mais recente cúpula da direita – a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), que incluiu um discurso por vídeo de Trump – foi realizada na Hungria, sob os auspícios de Viktor Orbán, que de fato assassinou a democracia de seu país?

A guinada à direita de alguns bilionários da tecnologia também é, devo dizer, uma burrice extrema. É verdade que oligarcas conseguem enriquecer sob regimes de autocratas como Orbán ou Vladimir Putin, que grande parte da direita americana admirava antes de ele começar a perder sua guerra na Ucrânia.

Mas hoje os oligarcas russos estão apavorados. Pois nem suas vastas fortunas são capazes de protegê-los do comportamento errático e vingativo de líderes que não respondem ao estado de direito.

Mas não espero que tipos como Musk ou Ellison aprendam qualquer coisa dessa experiência. Os ricaços são diferentes de mim ou de você: normalmente, eles ficam cercados de pessoas que lhes dizem apenas o que eles querem escutar.

Putin, a nova ideia russa e os idiotas úteis

“A única política natural da Rússia em relação ao Ocidente tem de ser não procurar uma aliança com as potências ocidentais, mas a sua desunião e divisão. Só assim não serão hostis para connosco, não, claro, por convicção mas por impotência.” A frase – tão atual – é de Fyodor Tyutchev, o poeta, filósofo e diplomata russo do século XIX que também disse que “com a razão não se entende a Rússia”.

É um facto. Para se perceber a Rússia, Putin e a sua relação com o mundo é preciso perceber a sua geografia e a sua história. Este é um território enorme, que desde o século XVI é o maior país do planeta e ocupa uma zona estratégica entre dois continentes, a que se veio a chamar Eurásia, que se estende por 11 fusos horários e tem apenas uma delimitação natural que é o mar Ártico. Como bem explica Angela Stent no magnífico Putin’s World, um livro obrigatório para perceber a relação da Rússia com o Ocidente, a essência deste país está intimamente ligada à noção de resistência e de conquista, já que desde sempre teve de definir e proteger as suas fronteiras fluidas, avançando em território inimigo. A mentalidade imperialista faz parte da ideia de excecionalidade russa e é vista como uma questão de sobrevivência. Dominação ou morte. Tal como faz parte o autoritarismo: para governar num país tão vasto e vulnerável a ameaças externas e internas, era preciso mão de ferro.

“O que para de crescer começa a apodrecer. Tenho de expandir as minhas fronteiras para proteger o meu território”, percebeu cedo Catarina, a Grande, a princesa alemã que se transformou na toda-poderosa imperatriz russa do século XVIII, lutou contra os impérios otomano e persa e tomou os territórios da Crimeia e da Novorossiya.

Este autoritarismo, que apenas teve um breve interregno com Ieltsin e Gorbatchev, foi retomado em todo o seu esplendor com Putin. Ele nunca digeriu a dupla humilhação da perda do império e do estatuto pós-queda da União Soviética, com o desmembramento e a perda de 15 estados que se tornaram independentes e o facto de os Estados Unidos e os seus aliados criarem uma ordem global à qual a Rússia teria de se conformar e adaptar. Para recuperar a grandeza momentaneamente perdida com o fim da URSS, era preciso recuperar patriotismo, ambição e glória, valores que se traduzem em crescente esfera de influência e, sim, território, como ficou claro em 2014 com a anexação da Crimeia. Fatores que, a seu ver, foram a cola e o cimento que ao longo dos séculos uniram aquele país.

Esta nova “ideia russa” foi o que esteve subjacente à criação de organizações de propaganda e influência como a Russky Mir (que significa mundo russo), em 2007 – com ramificações até Portugal, como se viu no caso de Setúbal. Um mundo de orgulho numa civilização vista como única e num passado convenientemente mitificado e moldado, que enfatiza tradição e patriotismo, para parecer ainda mais grandioso.

Neste novo mundo russo, há um valor que sobressai: o conservadorismo. “A Rússia de Putin definiu o seu lugar no mundo como o líder dos ‘conservadores internacionais’, suportando Estados que defendem ‘valores tradicionais’, e como protetor de líderes que se debatam com levantamentos populares contra governos autoritários, que Putin acredita que são orquestrados pelo Ocidente”, diz Stent. É uma Rússia defensora do statu quo – contra o que é visto como um Ocidente revisionista e decadente.

Ao mesmo tempo que Putin quer manter o statu quo nos Estados autoritários que não lhe fazem frente, tenta minar por dentro as democracias que podem ser ameaças ou “maus exemplos”. As táticas de Putin nesta missão são claras: fazer interferências nas eleições ocidentais, apoiar movimentos separatistas e antiunião europeia, incentivar grupos nos dois extremos do espetro político – os populistas da extrema-direita e a extrema-esquerda, seja a nova ou a velha, parada no tempo, que ainda lê pelos manuais dos antigos comunistas e que não quer perceber que a Rússia agora é fascista. O objetivo é só um: lançar o caos, como propunha Fyodor Tyutchev há quase dois séculos.

Há anos que começou esta nova Guerra Fria, um conflito híbrido que opõe a Rússia não apenas aos velhos inimigos EUA e NATO, mas também à Europa e à própria ideia de democracia liberal. Ao seu lado, por esse mundo fora, ficam a papaguear os seus argumentos e a apoiar as suas razões três tipos de grupos políticos ou sociais: os conservadores, os autocratas e os autoritaristas. O maior problema é que não são apenas idiotas úteis ao serviço da estratégia de Putin – na verdade, também sonham em poder fazer o mesmo nos seus países.

terça-feira, 24 de maio de 2022

'Partido Militar' faz planos até 2035

Na Crusoé, há duas semanas, mostrei como uma certa geração de generais e coronéis chegou ao poder via eleição de Jair Bolsonaro. Uma vez na política, desfrutando de ganhos pessoais e corporativos expressivos, esses militares não pretendem recuar. Na verdade, eles têm um plano de governo com horizonte de 2035.

Um documento (leia aqui) intitulado Projeto de Nação, concluído em fevereiro, passou a circular hoje nos grupos de WhatsApp bolsonaristas. São 93 páginas organizadas em 37 capítulos, reunidos em torno de 7 eixos temáticos: geopolítica mundial; governança nacional; desenvolvimento nacional; ciência, tecnologia e educação; saúde, e segurança e defesa nacional.

O texto foi elaborado em parceria entre o Instituto General Villas Bôas, o Instituto Federalista e a Consultoria Sagres, Política e Grstão Estratégica Aplicadas


Alguns trechos repetem argumentos da campanha de Bolsonaro em 2018, defendendo o liberalismo econômico associado ao conservadorismo na pauta de costumes. Também há espaço para teorias conspiratórias e projeções ingênuas sobre a realidade brasileira daqui a uma década.

Um dos capítulos elege o “globalismo” como grande mal a ser enfrentado, por se caracterizar como um “movimento internacionalista, cujo objetivo é massificar a humanidade, progressivamente, para dominá-la”.

No centro desse movimento estaria “a Elite Financeira Mundial, ator não estatal constituído por megainvestidores, bancos transnacionais e outros entes megacapitalistas, com extraordinários recursos financeiros e econômicos”. Tal elite financiaria “lideranças nacionais, não importando as ideologias que professem”, sem dar exemplos.

Em outro capítulo, o documento fala em “evolução da coesão nacional, do civismo e do sentimento coletivo de Pátria até 2035, com reflexos para a estabilidade político-social e a projeção internacional do Brasil”.

Projeta uma realidade em que o “sucesso do modelo econômico liberal, com responsabilidade social, acrescido de estratégias exitosas nos setores de ensino, na formação de líderes e em movimentos sociais enfraqueceram o poder e a penetração das ideologias radicais na sociedade”.

Nesse cenário utópico, “prevaleceu o tradicional perfil psicossocial da Nação, conservador evolucionista e não imobilista”, com “revigoramento do patriotismo, do civismo e de valores morais tradicionais, em contraposição a valores sociais, muitos deles contaminados pelas ideologias radicais”.

Segundo o projeto, é preciso urgentemente “revitalizar os valores morais, éticos e cívicos na sociedade como um todo, particularmente no Sistema de Ensino”.

Em relação à economia, o Projeto de Nação fala sobre o atual cenário pós-covid, ressaltando a perda de milhares de vidas, empregos, queda do PIB e reflexos na matriz econômica brasileira. Não há um diagnóstico preciso sobre as causas dos problemas, nem projeção objetiva de suas soluções. Ou mesmo de medidas preventivas para o caso de novas pandemias.

Apenas repete platitudes sobre “ampliar a liberdade econômica e induzir a geração de emprego e renda, propiciando atração de investimentos, em especial para o setor industrial com foco em produtos manufaturados e semimanufaturados”. Também destaca a atuação do agronegócio, com a defesa da ampliação e diversificação da “participação do Brasil no mercado mundial de alimentos”.

Segundo o documento, é preciso “alcançar autonomia na produção de insumos, defensivos e sementes agrícolas, a fim de garantir segurança alimentar e protagonismo do Brasil na área do Agronegócio”. Não há nenhuma menção a como chegar lá. Também não há referência à agricultura familiar.

Novamente, numa projeção simplista, diz que, “em 2035”, observaremos uma “mudança da matriz do PIB de 2021, com predominância ainda em Comércio e Serviços, mas com maior participação também da Indústria de produtos semimanufaturados e manufaturados, com destaque para o crescimento exponencial da Agropecuária (em parte inserida na indústria)”.

O documento coloca como objetivo de longo prazo incluir o Brasil entre os 50 países mais competitivos do mundo, mas peca em não oferecer caminhos claros para isso.

Fala da necessidade de se elaborar uma “estratégia de ampliação do aproveitamento de energias renováveis”, mas não cita a atual problemática dos preços dos combustíveis e nem aborda de forma concreta os meios para garantir segurança energética. Por fim, preocupa-se com a necessidade de se reduzir “nomeações calcadas em interesses político-partidários para cargos de direção do Ministério de Minas e Energia e de suas Secretarias Finalísticas“.

Pelo visto, o único projeto concreto dos militares é permanecer no poder.

Pensamento do Dia

 


Mundo caminha para era de perigo

A humanidade se encontra numa "situação de emergência planetária": crises ambientais e de segurança se potencializam mutuamente, de modo perigoso. Desmatamento, derretimento de geleiras e poluição oceânica por plástico ocorrem simultaneamente ao aumento das mortes em conflitos, de gastos armamentistas e do número de seres humanos em risco de passar fome. A pandemia desencadeada pelo vírus Sars-Cov-2 gerou novos perigos.

Um exemplo é a Somália, país do Leste da África em que seca persistente, associada a pobreza, falta de assistência e um governo fraco, precipitaram a população nos braços do grupo extremista islâmico Al-Shabab. Também a América Central sofre: safras perdidas devido às mudanças climáticas, aliadas a violência e corrupção, provocaram êxodo em direção aos Estados Unidos.

Falta um plano transnacional, o mundo "vai tropeçando" para uma nova e complexa situação de perigo.

Guaico (Colômbia)

Em sua análise Meio ambiente da paz: Segurança numa nova era de risco, a organização de pesquisa da paz Stockholm International Peace Research Institute (Sipri) traça um quadro da situação mundial perante crises cada vez mais complexas e imprevisíveis. De início inquietante ao extremo, o estudo conclui acenando com esperanças.

"Natureza e paz estão tão estreitamente ligadas, que os danos a uma prejudicam a outra, enquanto o fomento a uma fortalece a outra. É preciso agir, e a hora é agora", observou à DW Dan Smith, diretor do instituto sueco reconhecido mundialmente por seus relatórios anuais sobre exportações internacionais de armamentos.

O Sipri divulgou seu novo estudo nesta segunda-feira (23/05), pouco antes da abertura no 9º Fórum de Estocolmo sobre Paz e Desenvolvimento como um toque de despertar para os políticos e outros tomadores de decisões. Pois alguns governos não reconheceram a gravidade da crise, olham para ou outro lado ou até mesmo acirraram a insegurança, aponta o instituto.

"Outros chefes de Estado e governo, por sua vez, gostariam de agir, mas têm outras prioridades que exigem urgentemente tempo e atenção, como a pandemia de covid-19 dos últimos dois anos, ou, atualmente, a guerra na Ucrânia", diz Smith.

Em suas 93 páginas, o estudo descreve as consequências globais que ocorrências regionais podem ter num mundo interconectado, quando catástrofes meteorológicas causadas pelas mudanças climáticas e pela pandemia de covid-19 ameaçam as cadeias de abastecimento mundiais.

Violência e destruição de safras tornam a vida insuportável para muitos agricultores, contribuindo para grandes ondas migratórias. Além disso, os conflitos armados entre nações dobraram em número entre 2010 e 2020, sendo atualmente 56.

Também dobrou o contingente de refugiados e desterrados, até 82,4 milhões. Além disso, em 2020 houve um incremento das ogivas nucleares, após anos de redução; e no ano seguinte pela primeira vez os gastos militares globais ultrapassaram a marca dos 2 trilhões de dólares.

Os principais atingidos, são "frequentemente países que já sofrem pela pobreza e má governança", advertem os 30 autores do instituto de pesquisa da paz e de outras instituições, acrescentando que "a sociedade humana pode estar mais rica do que antes, porém é inegavelmente mais insegura".

A análise também esboça uma situação ambiental catastrófica, com um terço das espécies vegetais e animais ameaçadas de extinção. A qualidade do solo decai, "enquanto a exploração de recursos naturais, como florestas e peixes, se mantém num nível insustentável", e a mudança climática global gera extremos meteorológicos cada vez mais frequentes e intensos.

Para a comissária da União Europeia do Meio Ambiente, Margot Wallström, a pandemia de covid-19 demonstrou "que risco corremos, se não nos prepararmos". Os governos "devem avaliar os riscos à frente, desenvolver a capacidade de lidar com eles e tornar mais resistentes as sociedades", apela a ex-ministra do Exterior da Suécia, que integra o grêmio internacional de especialistas que assessora a iniciativa "Meio ambiente da paz" do Sipri.

A Coreia do Sul deu um exemplo de como agir de forma preventiva, frisam os pesquisadores da paz: empregando as lições do surto do vírus Sars em 2002, ela conseguiu restringir sua taxa de mortalidade pela covid-19 a 10% da de outros Estados de população equivalente, evitando assim grande parte das sequelas econômicas e sociais sentidas em outros países "que não haviam se preparado devidamente para a pandemia".

Os autores do Sipri também indicam possíveis saídas para a crise global, como diretrizes para os tomadores de decisões políticas. Assim, são necessárias visões de longo prazo, mas também ações imediatas, a fim de enfrentar as ameaças comuns. E em todos os processos decisórios, desde os comunais até as Nações Unidas, deve-se sempre integrar os indivíduos mais atingidos.

Os chefes de Estado e governo precisam agir, até mesmo em interesse próprio: "Eles sabem que a destruição ambiental gera mais insegurança. Como necessitam segurança, precisão combater a destruição, e só podem fazer isso conjuntamente." Um exemplo positivo seria a declaração conjunta da China e EUA para cooperação na proteção climática, feita durante a Conferência do Clima da ONU (COP 26), em novembro último.

Dan Smith confere à Alemanha, enquanto grande potência econômica, um papel político importante na configuração das reformas necessárias. O país foi primeiro "que manifestou no Conselho de Segurança da ONU a conexão entre as mudanças climáticas e os riscos à segurança". Agora, ele pode liderar uma guinada energética "que se liberte não só dos combustíveis fósseis de origem russa, mas desses combustíveis em geral".

Alimentando o mal


O mal nunca prospera melhor do que quando lhe põem um ideal à frente
Karl Kraus

Estar na escola faz muita diferença

Em tempos de ataque à escola pública por defensores do ensino domiciliar, é importante olhar com atenção para novas evidências sobre o impacto positivo que ela tem no desenvolvimento infantil. Um dos mais recentes estudos a investigar essa questão foi realizado pelos pesquisadores Tiago Bartholo e Mariane Koslinski, do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da UFRJ, com apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Ao acompanhar diferentes gerações de alunos de pré-escolas em Sobral (CE), eles identificaram que todas as crianças – das mais ricas às mais pobres – foram prejudicadas com o fechamento das escolas na pandemia. O prejuízo, no entanto, foi muito maior entre os mais pobres.

Esta é uma conclusão importante, entre outras razões, pois por vezes deixamos de fazer uma pergunta óbvia e essencial: qual seria o impacto se a opção fosse deixar as crianças estudando em casa, em vez de irem presencialmente à escola? Para responder com precisão a esta questão, precisaríamos separar aleatoriamente dois grupos de alunos com características similares, e acompanhar a evolução daqueles que estão matriculados numa escola presencial com os que estão estudando em casa. Esse desenho de pesquisa, porém, seria antiético, por manter um grupo de crianças sem acesso a um equipamento que, hoje, é consagrado no mundo todo como um direito fundamental.

Por vias completamente tortas, a pandemia permitiu que um experimento similar a esse fosse realizado. Bartholo e Koslinski já estavam conduzindo avaliações com crianças em idade pré-escolar em Sobral, antes da pandemia levar ao fechamento repentino das escolas. Como eles continuaram acompanhando novas gerações que ingressaram em tempos pandêmicos, isso permitiu que a evolução dos matriculados no presencial fosse comparada com a dos que, na mesma rede de ensino, teve que fazer aulas remotamente.

Entre crianças de mais alto nível socioeconômico, a geração que estudou remotamente na pandemia aprendeu apenas 53% em linguagem e 62% em matemática na comparação com o grupo de mesmas características pré-pandemia. Entre alunos de menor nível socioeconômico, a perda foi ainda mais brutal, pois a geração afetada pela pandemia aprendeu somente 26% em linguagem e 35% em matemática na comparação com seus pares pré-Covid. A escola, portanto, faz muita diferença para todos, mas ainda mais para aqueles mais vulneráveis.

E as perdas não foram apenas de aprendizagem. O instrumento aplicado pelos pesquisadores permitiu também verificar o desenvolvimento infantil em variáveis como a autonomia, autoconfiança, qualidade das interações sociais com outras crianças e adultos, capacidade de concentração, de comunicação, saúde mental e aptidão física e motora. Em todas essas dimensões a geração que foi privada na maior parte do tempo do convívio com seus pares e professores durante o fechamento das escolas foi bastante prejudicada.

É frustrante constatar que a educação pública brasileira ainda está longe da garantia da qualidade para todos, e que dentro dela ainda há reprodução de desigualdades. Mas esse e tantos outros estudos que têm investigado os efeitos da pandemia no ensino corroboram uma conclusão simples e fundamental: sem escolas, estaríamos em situação muito pior.

Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, portanto, não há nada que justifique privar as crianças do convívio com seus pares e professores na escola. O homeschooling é uma pauta 100% ideológica e 0% pedagógica.

Bolsonaro quer privatizar Petrobras e explorar a Amazônia

Em busca da reeleição, o presidente Jair Bolsonaro acena para o mercado financeiro e aos investidores estrangeiros com uma radical agenda liberal, na qual a privatização da Eletrobras seria apenas um passo inicial. As joias da coroa são a venda da Petrobras, a empresa símbolo do nacionalismo brasileiro, e a entrega da exploração das reservas minerais e da biodiversidade da floresta ao bilionário Elon Musk — dono das empresas SpaceX, Tesla e Starlink.

Na sexta-feira, em São Paulo, na companhia de Bolsonaro e do ministro da Comunicação, Fábio Faria, o articulador de sua visita, Musk anunciou o lançamento de um programa de internet via satélite que pretende conectar 19 mil escolas em áreas rurais e promover o monitoramento ambiental “mais tecnológico” na Amazônia. O empresário sul-africano é aliado do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump e tem a intenção de comprar o Twitter, por US$ 44 bilhões (R$ 225 bilhões), seu mais importante negócio em andamento, “para garantir a liberdade de expressão nas redes sociais”.

Não se deve subestimar o apelo eleitoral dessa agenda para Bolsonaro. Divulgada na sexta-feira, pesquisa Ipespe contratada pela XP Investimentos revelou que 49% dos entrevistados são contra a privatização da Petrobras, 38% são favoráveis e 13% não souberam ou não responderam, porém, 67% apoiariam a privatização se resultasse na redução do preço dos combustíveis. Além disso, a cartada em relação à Amazônia pode matar dois coelhos: neutralizar as pressões internacionais contra o desmatamento da Amazônia e tornar irreversível a exploração econômica da floresta por grandes empresas de tecnologia e biotecnologia.


“Nós vamos mostrar que a Amazônia é preservada. Lógico que existem os nichos de exploração, de queimada e desmatamento irregular, mas a chegada dos satélites vai nos ajudar a preservar. Agora, precisamos, também, desenvolver aquela região, que é riquíssima em biodiversidade e em riquezas minerais”, disse Bolsonaro. Especialistas receberam com ressalvas a informação, porque o problema da Amazônia não é o monitoramento, é a falta de fiscalização e repressão ao garimpo ilegal, à grilagem de terra e à derrubada da floresta, estimulados pelo liberou geral do governo federal.

Fabricante de carros elétricos, a instalação de uma unidade da Tesla na Amazônia é um velho projeto de Musk, que já estava sendo negociado com o governo estadual. O Brasil tem potencial para se tornar um dos maiores produtores do lítio, essencial para as atuais baterias que movem carros elétricos e fazem os aparelhos portáteis funcionarem. A Tesla, de Musk, é a empresa que mais investe e fatura em carros elétricos. O Brasil tem a sétima maior reserva de lítio conhecida no mundo: 95 mil toneladas poderiam ser exploradas imediatamente. Com as reservas não disponíveis, sobretudo na Amazônia, somam 470 mil toneladas.

Somos o quinto maior produtor mundial de lítio, 1.900 toneladas/ano, Musk está interessado na exploração do minério por causa da valorização no mercado: alta de 1.753% no preço da tonelada, entre 2012 (US$ 4,45 mil) e os atuais US$ 78,03 mil, o equivalente a R$ 365,5 mil. Embora não tenha revelado interesse direto no nióbio, apesar das ofertas públicas do presidente Bolsonaro, esse mineral também é estratégico para as empresas de Musk.

As maiores reservas de nióbio estão localizadas na região denominada Cabeça de Cachorro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), na fronteira com a Venezuela e a Colômbia. Apesar da alta viabilidade comercial, não podem ser exploradas porque estão em território indígena e dentro das áreas de proteção ambiental do Parque Nacional do Pico da Neblina e da Reserva Biológica Estadual do Morro dos Seis Lagos. O total estimado na reserva é de cerca de 2,9 bilhões de toneladas.

O nióbio é utilizado na industrialização de produtos que suportem altas e baixas temperaturas, como aviões e foguetes aeroespaciais. Também é indispensável nas indústrias espacial e nuclear. Várias ligas de nióbio são desenvolvidas por sua leveza e supercondutividade. Seus derivados entram na composição de aços de alta resistência, nas tubulações para transmissão de gás sob alta pressão, petróleo e água. Também é agente anticorrosivo, resistente aos ácidos mais agressivos.

Cerca de 40% do território da Amazônia está na área do pré-cambriano, com depósitos minerais de ferro, manganês, cobre, alumínio, zinco, níquel, cromo, titânio, fosfato, ouro, prata, platina, paládio. A floresta em pé, porém, é estratégica para combater o aquecimento global, produzir alimentos e fármacos e sustentar milhares de famílias ribeirinhas e indígenas, com atividades produtivas locais. Além disso, pode atrair muitos investimentos destinados à sustentabilidade ambiental e à economia verde.

Vamos explodir o planeta?

Enquanto Putin é merecidamente criticado por iniciar uma guerra, os chefes de outros estados, EUA, Austrália, Canadá e Brasil incluídos, explodem bombas de destruição em massa e quase ninguém se opõe!!!

Destruir as (inventadas e inexistentes) armas de destruição em massa do Iraque foi a desculpa dada pelos senhores da guerra no Pentágono e na indústria para invadir o Iraque, matar milhares de inocentes e ganhar bilhões de dólares! Gente perigosíssima!!

Hoje, seus amigos financistas, políticos e outros constroem centenas de armas de destruição em massa – reais, não inventadas – e ninguém os impede; pelo contrário, ganham apoio.


Especialistas nos informam que caso sejam injetadas mais de 420 giga toneladas de CO2 (GtCO2) na atmosfera a temperatura do planeta será elevada em mais de 1,50C, provocando mais tragédias em todo o planeta! Pois bem, as bombas que esses senhores estão explodindo injetarão na fina camada que nos protege 890 GtCO2!!!!! Suficientes, provavelmente, para acabar com o gelo nos cumes das montanhas e nos polos! E, com o fim dessas geleiras, a morte para milhões de pessoas que dependem daquelas águas! Crime tão grave quanto o de Putin!

As bombas mencionadas foram identificadas em importante estudo recente, publicado na revista Energy Policy, que contabilizou a quantidade de CO2 a ser espalhado no ar decorrente de projetos, já operantes ou em construção, de extração de petróleo, carvão e gás natural. Os promotores desses projetos – cada um deles injetará mais de 1 GtCO2, – dirão que eles são essenciais, embora as energias limpas já sejam competitivas e o seriam ainda mais caso parassem os subsídios aos combustíveis fósseis. Acionadas, essas bombas matarão milhões de pessoas, lentamente algumas, subitamente outras, enquanto alguns acionistas já milionários ganham ainda mais dinheiro.

Uma das mais respeitadas instituições mundiais acerca da questão energética, a Agência Internacional de Energia, já afirmou, com todas as letras, que para evitar a catástrofe climática nenhum novo projeto de extração desses venenos deveria ser implantado; o Secretário Geral da ONU disse, em linguagem nada diplomática, que líderes empresariais e governamentais estão mentindo ao falarem que fazem algo para evitar o desastre climático. As empresas ExxonMobil, Shell, BP e Chevron, além de Petrobrás, Gazprom e outras, lucraram, nas últimas décadas, mais que o necessário para acabar com as mazelas sociais globais, mais de dois trilhões de dólares, e continuam nos conduzindo à morte para lucrar ainda mais!

Dizer que enriqueceremos com a extração desses produtos é um engodo, uma ilusão que tem que ser desfeita! Há mais de dois séculos esses fósseis são queimados “para garantir o progresso”, e no entanto 70% dos humanos vivem amargamente hoje, com menos de US$10,00 por dia! Permitir que essas bombas continuem explodindo é garantir que nossos filhos e netos viverão vidas ainda mais amargas!