Há cerca de 65 milhões de anos aconteceu a última extinção em massa e que marcou o fim dos dinossauros. Os cientistas advertem que estamos agora nos estágios iniciais de um desaparecimento semelhante. Só que, diferentemente das outras, esta sexta extinção em massa − ou extinção antropocênica − é causada pelo homem, através de mudanças climáticas, destruição do habitat, poluição e agricultura industrial.
Nas extinções em massa, pelo menos três quartos de todas as espécies desaparecem em cerca de três milhões de anos. Ao nosso ritmo atual, estamos no caminho para que isso aconteça dentro de alguns séculos. Somente nas próximas décadas, pelo menos um milhão de espécies correm risco de desaparecer para sempre, de acordo com uma estimativa de um relatório da ONU publicado em 2019.
Tentar prever o resultado de um colapso completo da biodiversidade é difícil, pois os ecossistemas são incrivelmente complexos. No entanto, os cientistas concordam que as previsões são claras se as extinções continuarem neste ritmo. E todos os efeitos estão ligados uns aos outros.
"A primeira coisa que veremos é que nossas reservas de comida começarão a diminuir bastante porque grande parte de nossos alimentos depende da polinização", disse Corey Bradshaw, professor de Ecologia Global da Universidade de Flinders, na Austrália, que usa modelos matemáticos para mostrar a interação entre os seres humanos e os ecossistemas.
Cerca de um terço da oferta mundial de alimentos depende de polinizadores como as abelhas. Se elas se extinguirem, o rendimento agrícola pode cair, acrescentou. Por outro lado, pragas agrícolas podem ficar mais fortes à medida que diminuem seus predadores, impactando ainda mais nossas monoculturas.

Milhões de pessoas também dependem de animais selvagens para a alimentação, especialmente da pesca nas regiões costeiras. Mas as reservas pesqueiras estão ameaçadas e, com elas, uma importante fonte de nutrição. Esta falta de segurança alimentar, também associada ao aumento de estiagens e inundações, atingirá mais duramente as regiões mais pobres, particularmente a África Subsaariana e partes do Sudeste Asiático, de acordo com Bradshaw.
Solos menos férteis
Espera-se também que a qualidade do solo se deteriore à medida que certos microrganismos morrerem. Embora sub-representados nos dados, alguns pesquisadores acreditam que os microrganismos possam desaparecer mais rapidamente do que outras espécies. Seu desaparecimento poderia levar a um agravamento da erosão do solo. Isto, por sua vez, levaria a mais inundações, bem como a uma menor fertilidade do solo, o que afetaria o crescimento das plantas.
Colman O'Criodain, da organização de conservação WWF International, considera a morte de microrganismos particularmente perigosa. "De certa forma, a matéria orgânica é como a cola que mantém tudo junto. Se você comparar com um pudim de Natal, tem alguns ingredientes secos como migalhas de pão, farinha e frutas secas, mas são os ovos e o amido que o mantêm unido, tornam o pudim macio e mole, e lhe dão sua forma", explicou O'Criodain.
Grande parte da água doce vem de zonas úmidas, onde a água é purificada e distribuída. Um exemplo é a água do Himalaia, que é alimentada por zonas úmidas e fornece água para cerca de dois bilhões de pessoas. Se estas áreas colapsarem devido ao declínio da vegetação ou pelo florescimento de algas, por exemplo, a humanidade poderá perder muita água para beber e para uso agrícola.
É também provável que o desmatamento altere os padrões de precipitação, já que menos umidade é evaporada devido à perda de árvores. Assim, paisagens inteiras poderiam secar, um processo atualmente observado na Amazônia.
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que cerca de 10 milhões de hectares de floresta foram cortados anualmente desde 2015. Isto é equivalente à área da França e da Espanha juntas. E com a perda de árvores e vegetação – reguladores fundamentais do CO2 na atmosfera − a mudança climática vai se agravar e haverá eventos climáticos mais extremos. As secas e florestas insalubres também aumentam o risco de incêndios florestais.
Enquanto isso, as falhas nas colheitas e outras ameaças ecológicas provavelmente desencadearão migrações em massa à medida que as pessoas tentarão escapar de fome e conflitos causados pela diminuição dos recursos.morcegos pandemia
"O que temos feito como humanos é simplificar todo o planeta, especialmente os ecossistemas de produção, a tal ponto que eles se tornaram vulneráveis", disse o cientista ambiental sueco Carl Folke. "A resiliência é frequentemente chamada a ciência da surpresa. Se você vive em condições muito estáveis e tudo é previsível, você não precisa desta proteção da biodiversidade.
Mas se você vive em tempos mais turbulentos, com situações mais imprevisíveis, esse tipo de portfólio de opções é extremamente importante", disse Folke, fundador do Centro de Resiliência de Estocolmo para pesquisa em ciência da sustentabilidade.
Os pesquisadores também alertam que a perda da biodiversidade pode levar a um risco maior de pandemias à medida que a vida selvagem e os seres humanos entram em contato mais próximo uns com os outros através da fragmentação do habitat e da ruptura dos sistemas naturais. O exemplo mais citado é o surto de ébola em 2014 na África Ocidental, que se acredita ter sido causado porque crianças brincaram em uma árvore oca cheia de morcegos. Embora a origem da covid-19 ainda não esteja clara, alguns estudos também ligam este patógeno a morcegos selvagens.
Muitos conservacionistas e cientistas comparam permitir irresponsavelmente a extinção de espécies ao vandalismo. Mesmo que sobrevivamos e evitemos consequências catastróficas, a extinção em massa deixaria o mundo severa e irrevogavelmente mais pobre. As perdas mais trágicas podem ser aquelas que não podemos sequer ver.
"Imagine as consequências da extinção como se fosse a queima de uma galeria de arte". Portanto, você não está nem pensando em um valor potencial direto, mas está pensando na perda intangível do patrimônio mundial", diz Thomas Brooks, cientista chefe Unidade de Ciência e Conhecimento da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, do inglês). "Lembre-se de que cada espécie é o produto de milhões de anos de evolução. Você está olhando para a perda do que torna a humanidade parte do planeta. É tudo o que nos torna uma unidade", disse Brooks.
Apesar destas previsões catastróficas: há razões para otimismo se a humanidade fizer algo. "Há dificuldades aparentemente intransponíveis para preservar a vida na Terra. Mas, por outro lado, há também muitas histórias de sucesso inspiradoras e exemplos em que as pessoas conseguiram inverter a maré. Aja para que a curva vá na direção certa, as tendências estão apontando na direção certa", diz Brooks.
Brooks está bem familiarizado com os desafios. A IUCN compila a lista sobre a perda global de espécies, a chamada Lista Vermelha, e as pesquisas mostraram que os esforços de conservação funcionam. Um estudo recente constatou que as perdas desde 1993 teriam sido três a quatro vezes maiores sem ações de conservação.
Espalhar histórias de sucesso de conservação − como a reintrodução de castores na Europa − parece importante na luta contra a perda da biodiversidade. Elizabeth L. Bennett, vice-presidente da Wildlife Conservation Society (WCS), destaca a importância das grandes reservas naturais para a conservação da biodiversidade. "Se estiverem nos lugares certos, forem muito bem planejadas e gerenciadas, certamente serão muito úteis".
Como um primeiro passo em direção a este objetivo, a WCS está pressionando para a adoção do acordo "30 por 30" na Convenção de Kunming sobre Diversidade Biológica (COP15). O acordo exige que 30% da área global terrestre e oceânica seja protegida até 2030, aproximadamente o dobro do nível atual.
Conseguir isto seria um bom começo, mas qualquer acordo alcançado na COP15 seria apenas o início de uma longa jornada, adverte O'Criodain da WWF.
O que personagens como Humboldt, Lebreton, Bocage e mesmo Napoleão têm em comum com o Rio de Janeiro e o Brasil?
De um jeito ou de outro, contribuíram para deixar o país menos mané, mais ilustrado e não tão sujeito às superstições trazidas pela ignorância e vocalizadas sob o manto religioso.
Só que poucas andorinhas não fazem uma nação.
Neste ano do Bicentenário da Independência, o Brasil talvez pudesse se encontrar com seu destino ao buscar onde ocorreram os descarrilhamentos e por que sempre voltamos tantas casinhas.
As datas por vezes ajudam a repensar os fatos, mas mesmo a História precisa contar com a sorte.

No Cinquentenário da Independência, embora Machado de Assis escrevesse sobre o “Instinto de Nacionalidade”, no jornal dirigido por Souzândrade em Nova York, o Império brasileiro incensava a figura de Dom Pedro II e sua miopia diante da Revolução Industrial.
Em 1922, ainda que houvesse a importante Exposição do Centenário, com mais de 3 milhões de visitantes, o governo de Epitácio Pessoa representava uma elite atrasada e avessa às ideias de caráter social. Aquele tipo de República cairia oito anos depois.
No sesquicentenário, em 1972, o Brasil vivia sob a ditadura militar, com o general Médici à frente da tentativa de eliminar à bala os adversários do regime.
Em 2022, Silas Malafaia… bem, ele é visto como autoridade, porta-voz de Cristo.
Antes de chegar a esse Estado de alma penada, espécie de miasma político, a História brasileira registra uma sucessão de oportunidades abandonadas à margem.
Eis algumas.
O naturalista alemão Alexander von Humboldt, integrante do Institut de France, indicou ao marquês de Marialva, embaixador português na França, o nome de Joachim Lebreton para reunir equipe de artesãos e montar um projeto educacional e artístico no Reino do Brasil. Era em torno de 1815, e a iniciativa ganharia o nome de Missão Francesa em razão da História oficial imperial.
Humboldt, à época o homem mais famoso do mundo, bajulado por Goethe e Thomas Jefferson, jamais estivera no Brasil, mas conhecia parte expressiva da América Latina. Suas viagens pela região o ajudaram a construir o conceito pioneiro da natureza como um único corpo, interligado; portanto, um desastre na Amazônia terá efeito no restante do planeta — tal constatação surge ao redor de 1802, 1803!
Lebreton, indicado por Humboldt, era secretário do Institut de France, organismo que juntava sob o mesmo teto diversas áreas do conhecimento. Por iniciativa de Napoleão, o instituto nascera sob o conceito da importância da interação das disciplinas. O corso enxergava longe.
A equipe montada por Joachim Lebreton trouxe ao Brasil desenhistas, arquitetos, artesãos de ofícios diversos, montados em conhecimentos atualizados. Em 1816, no Rio de Janeiro, nascia a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. Quatro anos depois, seria aberta a Academia Real de Desenho, Pintura, Escultura e Arquitetura Civil, depois batizada como Academia Imperial de Belas Artes.
Lebreton, em sintonia com Humboldt, trazia ventos de uma época que acreditava no conhecimento, na ciência, em ruptura com as amarras da religião, para forjar uma sociedade mais igualitária, socialmente justa, inspirada pelas ideias libertárias das revoluções nos Estados Unidos e na França.
Era uma tentativa válida de atualizar o Brasil, então à beira de uma Independência de figurino, em oposição frontal às ideias da Monarquia portuguesa. Lebreton, com seus artistas e artesãos, simbolizava o progresso rejeitado pela Coroa.
“O império em construção: Primeiro Reinado e Regências”, da professora Maria de Lourdes Viana Lyra, reconstrói a vinda da Família Real ao Brasil, em 1808, não apenas para fugir das tropas de Napoleão, mas na busca de perpetuação de seu poder absolutista. Vieram para o Brasil com o intuito de escapar das ideias revolucionárias sopradas com a Queda da Bastilha, em 1789.
Dom João VI estava aqui em fuga para se opor ao ideário iluminista que começava a varrer as monarquias absolutistas no Velho Continente. Veio com a incumbência de manter em terras tupiniquins um alfabeto de poder guilhotinado nas ruas parisienses.
Assim, não é de estranhar, veja bem, quanto tempo o Brasil demorou para abolir a escravatura, derrubar a Monarquia (pela mão dos militares!) e abrir sua primeira universidade.
Ah, Bocage: em 1786, o poeta português amou o Rio de Janeiro, quis ficar por aqui, segundo a lenda, mas foi expulso pelo vice-rei, Luís de Vasconcelos. O proto-Malafaia não gostou de versos tais:
Pavorosa ilusão da eternidade / Terror dos vivos, cárcere dos mortos / D’almas vãs sonho vão, chamado inferno / Sistema da política opressora / Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos / Forjou para a boçal credulidade.
Onde você leu “bonzo”, por favor, não leia bozo.
É o título da magnífica obra de Minouche Shafik (Intrínseca, Dez.2021), economista anglo-egípcia, dona de invejável currículo: vice-presidente do Banco Mundial, aos 36 anos (mais jovem dirigente da Instituição) e primeira mulher a dirigir a London School of Economics. Agrega a experiência acadêmica à gestão de políticas públicas no governo inglês e, como Baronesa da Coroa Britânica, integra a Câmara dos Lordes.
A tradução literal do título seria “O que devemos uns aos outros”. Porém a expressão “cuidar” reflete o conteúdo ético a que se propõe a autora na defesa de um novo contrato social. E o simbolismo da figura mitológica “Cuidado” reforça o compromisso de solidariedade entre pessoas e gerações.

O mundo atual expôs, a despeito dos avanços científicos e tecnológicos, graves fraturas sociais e ambientais capazes de pôr em risco o futuro da humanidade. Basta atentar para a configuração das mudanças ocorridas com sérios abalos sobre a democracia liberal e a ascensão do populismo; prestar atenção para a silenciosa e profunda transformação do papel da mulher no mundo moderno ainda que vítimas da violência e padrões culturais inaceitáveis; perceber a ameaça da emergência climática associada à devastação do capital natural; reconhecer as vulnerabilidades escancaradas pela pandemia, entre elas, a mais desafiadora: a desigualdade entre a riqueza extravagante e a miséria faminta (em 2021, a fortuna das 500 pessoas mais ricas do Planeta aumentaram 1 trilhão de dólares).
Ao defender um novo contrato social, Minouche não usa a metáfora iluminista dos contratualistas para a criação da “sociedade política”. Refere-se à falta de educação para as crianças, de assistência médica para os pobres e de proteção para a velhice. Sua concepção assemelha-se a uma organização social em círculos concêntricos entremeados de empatia e responsabilidade.
Assim, reflete sobre a política: “Acho que a política não vai ser a mesma daqui a alguns anos, pode piorar, mas temos de fazer o possível para isso não acontecer. Meu livro é um manifesto antipopulista”
Com razão, complementa: “Muitos políticos direcionam as energias das pessoas para assumir discursos de ódio, violência política, divisões e hostilidade entre as pessoas”. Um novo contrato social se constrói a partir das aspirações concretas com a proteção institucional dos instrumentos de limitação e controle do poder: imprensa livre, movimentos sociais ativos e a força do pensamento crítico.
A eleição deste ano bate na porta da história. E se os candidatos almejam vitória, respeitem o cidadão e invistam no bem-estar das pessoas.
A defesa da não obrigatoriedade de vacinação das crianças para a matrícula escolar reúne todos os ingredientes para virar a nova polêmica a ser insuflada pelo presidente Jair Bolsonaro, cujo estoque de conflitos anda repetitivo, insuficiente para mobilizar até o seu público mais fiel.

Embora tenha se empenhado em entrevistas diárias no pós-férias, Bolsonaro não conseguiu obter êxito com a cantilena contra ministros do STF e os ataques à credibilidade das urnas eletrônicas. Nem mesmo a infâmia do “tarados por vacinas”, dirigida aos defensores da imunização contra a Covid, incluindo os técnicos da Anvisa, obteve o sucesso pretendido entre a sua turma.
Safos, os ministros do Supremo Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes não deram bola para a nova sessão de desacatos, e a tentativa de ressuscitar o conto de fraude na eleição de 2018, que Bolsonaro diz, sem provas ou mesmo indícios, que teria vencido no primeiro turno, naufragou no vazio. Não se viu qualquer hashtag nas redes sobre o tema.
A baixa interação talvez possa ser explicada pela mágoa de seguidores que mergulharam de corpo e alma nas ameaças golpistas de setembro do ano passado. Que apostaram em “ação” e viram o “mito” sucumbir ao Centrão de sempre, ao qual ele, confessamente, disse sempre pertencer. O resto era papo de eleição e encantamento de torcida.
Quanto às vacinas, Bolsonaro desde sempre marchou na contramão. Sabotou-as, não se dando conta de que os brasileiros arduamente ansiavam por elas. Isso se materializou na mais aguda esquizofrenia: um governo que distribui vacinas enquanto o presidente as combate.
À despeito da cólera presidencial, a vacinação contra Covid andou célere no país, com quase 70% da população totalmente imunizada e, consequentemente, um impacto infinitamente menor na gravidade da variante Ômicron, cujo contágio é comprovadamente mais acelerado.
Mas Bolsonaro não se deu por vencido na sua birra antivacina. Quando a Anvisa aprovou a imunização de crianças de 5 a 11 anos, o capitão viu a chance de novamente ativar os seus. Mais uma vez aproveitou-se da cegueira e da ignorância para inocular o vírus da mentira, que, no Brasil da impunidade, não é letal para o governante.
Mesmo com as dificuldades impostas – de receita médica à consulta popular –, a vacinação infantil acabou aprovada. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que protelou o quanto pôde e até mesmo lançou dúvidas sobre a conveniência de aplicá-la, correu à frente das câmeras para receber o primeiro lote da Pfizer, como se a imunização de crianças fosse desejada pelo governo.
No mesmo dia, bolsonaristas de carteirinha começaram a espalhar nas redes o falso dilema da obrigatoriedade da vacina para acesso às escolas. Pior: não se limitaram à Covid-19.
Desde 1990, as vacinas são exigidas para o ingresso escolar. Hoje, o cardápio inclui 18 imunizantes, entre eles os contra tuberculose, hepatites, pólio, meningite, sarampo, rubéola, caxumba, entre outros. A obrigação está coberta pela lei – com multas para os pais –, expressa no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), demonizado pelo bolsonarismo. Gostariam mesmo é de acabar com o ECA, tido ainda como “complacente com jovens delinquentes”, que estariam “protegidos” pela maioridade penal.
Para Bolsonaro, com espaço de ação praticamente limitado à reincidência em polêmicas inventadas nos primeiros anos de mandato, contestar a vacinação infantil e o ECA pode subsidiar a beligerância que usa para alimentar seu gado. Nada além de 20%, mas alinhado à sua missão primeira de destruir o Estado brasileiro e os avanços civilizatórios do país.
A analogia com o Titanic é correta, porque nossa embarcação, beirando os 150 milhões de eleitores, é de fato enorme e porque nada faz crer que os nossos sensores políticos sejam eficientes na função de detectar possíveis icebergs à nossa frente.
A verdade é que nosso Titanic já partiu meio avariado quando largou em Portsmouth para a viagem aos Estados Unidos. Os reparos a que foi submetido no estaleiro da sra. Dilma Rousseff não lhe foram nada saudáveis. Seus sensores são um emaranhado institucional estapafúrdio, que funciona mais pela graça de Deus que por uma intrínseca racionalidade política. As três décadas decorridas desde a promulgação da Constituição de 1988 não deixam dúvida quanto a nos termos metido numa lamentável entressafra de lideranças, causa e consequência da atual inexistência de partidos políticos. Escrevo “inexistência de partidos” porque as agremiações que vêm se registrando no Tribunal Superior Eleitoral distam muito de merecer tal denominação. Os chefes da tripulação, quero dizer, os candidatos que se irão engalfinhar em outubro, carecem da mais simples visão de conjunto, sendo, portanto, incapazes de perceber os riscos a que nosso País está sujeito no médio prazo. Por último, mas não menos importante, fomos atingidos pela pandemia, fenômeno um bilhão de vezes pior que um reles ataque de gafanhotos.

Mas, como diria o doutor Ulysses Guimarães, analisar é preciso. Comecemos, pois, por uma rápida espiada na chamada Terceira Via. Já dá para perceber que daí pode sair qualquer coisa, inclusive nada. Por mais que me esforce, a não ser por Roberto Freire, presidente do Cidadania, não vejo qual seria o líder capaz de agregar o grupo que se abrigou sob esse guarda-chuva e levá-lo, trabalhando em conjunto, a acender nem que fosse uma bruxuleante luzinha entre nossos desencantados eleitores.
Por seus méritos pessoais e pela dimensão do eleitorado paulista, o nome do governador João Doria não pode ser descartado. Fato é, entretanto, que ele, ocupado de manhã à noite com o combate à covid, não parece capaz de sustentar a popularidade que parecia bafejá-lo no início do mandato. Considerando a distância, a julgar pelas pesquisas, que hoje o separa de Lula e Bolsonaro, ele se depara com uma autêntica escolha de Sofia. Terá de escolher entre a reeleição para o governo de São Paulo e a candidatura à Presidência; nesta segunda hipótese, deve estar ciente da possibilidade de um nocaute precoce. Pior ainda, tal opção pode entregar o governo de São Paulo de mão beijada ao PT. Nessa hipótese, o iceberg nem ficará esperando pelo Titanic: virá ao encontro dele.
Sérgio Moro ainda ostenta índices modestos nas pesquisas de intenção de voto, até porque carece de uma base robusta nos maiores colégios eleitorais, São Paulo e Minas Gerais, mas descartá-lo pode ser um equívoco, uma vez que ele pode se apresentar como um outsider, atributo que soe ganhar importância em tempos de desencanto. Acrescente-se que ele vem reunindo uma equipe digna de respeito.
E assim chegamos ao trio percebido como realmente competitivo. Ciro Gomes é, com certeza, o que vai se deparar com mais dificuldades, de um lado por também carecer de base nos principais colégios eleitorais, de outro por ser percebido como um caráter demasiado impetuoso e, em economia, como remanescente de um intervencionismo cediço.
Claro está, pois, que as duas bigas dianteiras serão dirigidas por Jair Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva. Até onde a vista alcança, Jair Bolsonaro embicou numa trajetória descendente. Os porquês desta afirmação vão desde muitos prováveis crimes de responsabilidade cometidos ao solapar o combate à pandemia até seu caráter agressivo e sua manifesta intenção de manter no País uma polarização política que atinge as raias do absurdo. O fato novo a frisar é que sua biga é puxada por cavalos ariscos. Mesmo no Centrão, sinais de desconforto em relação à sua candidatura surgem dia sim e outro também. Sem esquecer que o principal financiador de sua candidatura em 2018 já pulou para a canoa de Sérgio Moro.
Noves fora, o leitor haverá de convir comigo que, visto a partir de hoje, o cenário lógico é a vitória de Lula, provavelmente no primeiro turno. Lula por oito anos, porque, chegando outra vez ao Planalto, ele não fará por menos. Ele adora aquilo lá. Certo é que muitos cidadãos se perguntarão: qual Lula? Sim, porque Lula não é um, são pelo menos dois. O problema é qual dos dois papéis ele vai afivelar ao rosto, o de Dr. Jekil ou o de Mr. Hide. Num caso, terá de assumir a postura do argentino Menem, tentando levar o PT para o neoliberalismo. No outro, fincará pé no que me parece ser de fato seu eu profundo, o intervencionismo populista, muito mais do agrado de suas hostes arraigadamente intervencionistas. Num caso ou noutro, continuaremos a crer no salvador da pátria, ou cairemos na real de que se trata de fato de um desastre anunciado? Só espíritos muito embotados não percebem que a ponta do iceberg está à vista.
No Exército é assim: não quer se vacinar? Taokey. Sem problemas. Passe no Recursos Humanos. Está demitido. Você tem o direito de não se vacinar, mas não o de pôr em risco a vida dos outros.
O sérvio Novak Djokovic, o maior tenista da atualidade, amanheceu hoje sem saber se participará do Aberto da Austrália a começar amanhã naquele país, ou ainda esta noite no Brasil.
Foi detido há uma semana pela imigração australiana por não estar vacinado nem dispor de documentação adequada de exceção. A Justiça dará a palavra final no seu caso.
Deu, pouco depois das 4h, horário do Brasil: manteve o cancelamento do visto Djokovic com base no fato de que ele poderia representar um risco à saúde e à ordem pública.
Em breve, o parlamento alemão começará a debater a proposta do primeiro-ministro, o social-democrata Olaf Scholz, de tornar obrigatória a vacinação de todos os adultos
Por uma questão técnica, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou portaria do presidente Biden que obrigava empresas com mais de 100 empregados a exigir deles certificado de vacinação.
Os que não apresentassem deveriam ser testados semanalmente. A Suprema Corte, de maioria conservadora, entendeu que a portaria deveria ter sido aprovada no Congresso.
Em Québec, no Canadá, o primeiro-ministro François Legault avalia cobrar um imposto dos não vacinados porque eles adoecem, transmitem o vírus, e com isso aumentam os gastos públicos.

Há limites para tudo, até mesmo para a liberdade de opinião e os direitos. Se os direitos de que quero desfrutar prejudicam os seus ou os da sociedade, eles devem ser restringidos.
Na China, e em outros países de regime autoritário, essa é uma questão pacificada – o Estado manda, e ai de quem não obedecer. Em países democráticos, o Parlamento e a Justiça decidem.
No Parlamento estão os representantes do povo. Na Justiça, os juízes que interpretam as leis promulgadas pelo Parlamento e que depois são escritas na Constituição.
Nada impede, porém, em momentos em que o destino da humanidade esteja em risco, que instituições como as Forças Armadas e entidades privadas estabeleçam suas próprias regras.
Posso como dono de um boteco, por exemplo, determinar: aqui só entra quem provar que se vacinou. Não preciso de autorização do Estado para proceder dessa maneira.
O governo negacionista do presidente Jair Bolsonaro está pouco preocupado com isso. Para ele só importa sobreviver e, se possível, ganhar mais 4 anos. Vidas não importam tanto, ou muito pouco.
Deu passe livre à circulação da Covid-19, sabotou a vacinação, escondeu o número de mortos e de infectados, e impulsionou uma tragédia que poderia ter sido menor.
Um em cada quatro brasileiros com 16 ou mais anos de idade diz ter recebido diagnóstico de Covid desde o início da pandemia, segundo pesquisa Datafolha divulgada ontem.
Significa que cerca de 42 milhões de pessoas foram infectadas, quase o dobro do total de casos registrados oficialmente. Bolsonaro dirá que a pesquisa é fajuta, como todas que ele nega.
A História, por sua vez, dirá um dia qual vírus foi o mais letal para os brasileiros neste início de século: a Covid-19 ou o Bolsonaro.
Abram os olhos. Somos umas bestas. No mau sentido. Somos primitivos. Somos primários. Por nossa causa corre um oceano de sangue todos os dias. Não é auscultando todos os nossos instintos ou encorajando a nossa natureza biológica a manifestar-se que conseguiremos afastar-nos da crueza da nossa condição. É lendo Platão. E construindo pontes suspensas. É tendo insónias. É desenvolvendo paranóias, conceitos filosóficos, poemas, desequilíbrios neuroquímicos insanáveis, frisos de portas, birras de amor, grafismos, sistemas políticos, receitas de bacalhau, pormenores.
É engraçado como cada época se foi considerando «de charneira» ao longo da história. A pretensão de se ser definitivo, a arrogância de ser «o último», a vaidade de se ser futuro é, há milénios, a mesmíssima cantiga.
Temos de ser mais humanos. Reconhecer que somos as bestas que somos e arrependermo-nos disso. Temos de nos reduzir à nossa miserável insensibilidade, à pobreza dos nossos meios de entendimento e explicação, à brutalidade imperdoável dos nossos actos. O nosso pé foge-nos para o chinelo porque ainda não se acostumou a prender-se aos troncos das árvores, quanto mais habituar-se a usar sapato.
A única atitude verdadeiramente civilizada é a fraqueza, a curiosidade, o desespero, a experiência, o amor desinteressado, a ansiedade artística, a sensação de vazio, a fé em Deus, o sentimento de impotência, o sentir-mo-nos pequeninos, a confissão da ignorância, o susto da solidão, a esperança nos outros, o respeito pelo tempo e a bênção que é uma pessoa sentir-se perdida e poder andar às aranhas, à procura daquela ideia, daquela casa, daquela pessoa que já sabe de antemão que nunca há-de encontrar.
O progresso é uma parvoíce. Pelo menos enquanto continuarmos a ser os animais que somos.Miguel Esteves Cardoso
E havendo Jair Bolsonaro, o Messias, iniciado o último ano do seu desgoverno, deu-se conta de que a obra estava incompleta.
Recolheu-se para meditar e indagou, aflito: “Onde mais deixar a marca do meu inesgotável poder de destruição?”
Lembrou-se das cavernas, ainda intactas. Então, assinou um decreto que para sempre será louvado por uma parte dos homens.
Doravante será permitida a construção de empreendimentos considerados de utilidade pública em áreas de cavernas.
Caberá ao órgão ambiental autorizar, se necessário, até mesmo a destruição de cavernas em nome do supremo bem comum.

Tudo em consonância com o desejo de Bolsonaro de, em troca, ser reeleito, e, uma vez que seja, possa eleger seu sucessor.
Na mesma linha, quando a pandemia da Covid-19 já matara mais de 150 mil brasileiros, ele ensinou a um dos seus amados filhos:
“A pressa para a compra da vacina não se justifica, porque você mexe com a vida das pessoas.”
Ao que aduziu apressado o ministro da Saúde da época, Eduardo Pazuello, motoqueiro nas horas vagas e sujeito a acidentes:
“Para que essa ansiedade, essa angústia?”
Que morressem, pois, os que tivessem de morrer, desde que a economia fosse salva. Os mortos, afinal, serão acolhidos por Deus.
Que se cobre tudo, menos coerência, do presidente que veio ao mundo para exterminar o sistema sem ter algo a pôr no lugar.
Bolsonaro deu sobejas provas até aqui de sua coerência. Se lá atrás foi contra a vacinação de adultos, agora é contra a das crianças.
Em sua falsa ingenuidade, ele diz não entender por que são bem-aventurados os governantes que adotam medidas de isolamento.
Vamos desenhar para que entenda de uma vez por todas: porque fizeram o que ele recusou-se a fazer.
Valorizaram a vida e combateram a morte. E que assim seja!
A eleição do jovem Gabriel Boric para a presidência traz a esperança de que o Chile talvez consiga escapar dos ciclos de populismo, autoritarismo, estagnação econômica e decadência institucional que estão assolando a maioria dos países da América Latina.
Desde o fim da ditadura de Pinochet, entre 1990 e 2010, o Chile foi governado pela Concertación, coalizão de partidos de centro-esquerda que conseguiram combinar a abertura da economia com políticas sociais inteligentes, reduzindo a pobreza e a desigualdade, melhorando a qualidade da educação e desenvolvendo a economia como nenhum outro país da região. Isto não foi suficiente, no entanto, para evitar que o sentimento de frustração crescesse, fazendo com que o país alternasse entre governos de esquerda e direita – Michelle Bachelet e Sebastián Piñera – que culminou com as grandes manifestações de rua de 2019, a convocação de uma assembleia constituinte e a última eleição presidencial, em que candidatos independentes tomaram o lugar dos antigos partidos políticos.

Boric promete canalizar de forma produtiva a insatisfação popular, em um governo de alianças que permitam a retomada da trajetória de desenvolvimento, corrigindo distorções e reconhecendo as limitações econômicas e financeiras das quais não se pode escapar. Tomara.
A distância entre o que é possível e o que é desejável explica as explosões de insatisfação que alimentam os populismos de esquerda e direita que tornam as crises sociais e econômicas cada vez mais profundas, como estamos vendo também no Brasil. Podemos ver esta distância com toda clareza em dois livros recentes sobre famílias de imigrantes que vieram para a América Latina buscando o renascer de uma nova civilização, tendo depois que reconhecer as limitações de suas utopias.
Nuestra America, de Claudio Lomnitz, conta a história da família a partir do avô, Misha Adler, judeu que partiu da antiga Bessarábia para o Peru há um século, da mesma região e na mesma época em que meu avô veio para o Brasil. É uma história análoga à da família de Fausto Cabrera, espanhol que veio para Santo Domingo e depois Colômbia, escapando da guerra civil e do franquismo, tal como narrada por Juan Gabriel Vásquez (C. Lomnitz, Nuestra América: Utopía y persistencia de una familia judía: Fondo de Cultura Economica, 2019; J. G. Vásquez, Volver la vista atrás. Madrid:
Penguin Random House Grupo Editorial, 2021). Adler colaborou com o peruano José Carlos Mariátegui na tentativa de desenvolver na América Latina um socialismo de raízes indígenas e valor universal, foi expulso do Peru, refugiou-se na Colômbia e terminou indo para um kibutz em Israel depois da guerra na esperança de, finalmente, viver a pureza da vida simples e comunitária.
Cabrera depositou suas esperanças no poder purificador que a revolução armada poderia trazer para o novo mundo, colocando seus filhos para se preparar, na China de Mao, para ingressar nas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Esgotada a experiência do kibutz, os Adlers foram para o Chile e, depois de abandonar a guerrilha, o filho de Fausto Cabrera, Sérgio, se transformou em um importante cineasta colombiano.
Ainda que de forma muito diferente, e mais trágica, o escritor judeu austríaco Stefan Zweig, que veio para o Brasil fugindo da guerra em 1940, escreveu Brasil, país do futuro, uma terra paradisíaca em que uma nova civilização estava surgindo, mais simples do que a europeia, mas livre do trauma macabro do racismo e das guerras (S, Zweig, Brasil, um país do futuro: L&PM, 2006, 1941). Não para ele, que se suicidou logo depois.
São histórias extraordinárias, escritas por autores de talento que tiveram acesso às fotografias, cartas, diários e testemunhos recolhidos por seus antepassados. Mas representativas dos milhões de anônimos que fizeram o mesmo percurso, da Europa para a América, e do interior para as cidades, em busca das promessas de uma nova vida livre da miséria, dos conflitos e da falta de perspectiva das terras onde nasceram. A grande maioria permaneceu anônima, trabalhando, organizando suas vidas e, sobretudo, investindo e acreditando no futuro de seus filhos. A vida era dura e, mesmo para os que conseguiam se educar e conseguir um trabalho razoável, a distância entre o que obtinham e o que haviam sonhado era crescente. Outros se envolveram ou buscaram apoio em movimentos sociais, organizações comunitárias, partidos políticos, igrejas, e, quando havia eleições, davam seus votos aos políticos que apareciam e melhor expressavam suas esperanças ou ressentimentos.
Cem anos depois, o Brasil e nossa América Latina não são mais o País ou a região do futuro, mas de uma promessa que não se cumpriu. A crença, no passado, era que Deus estava de nosso lado e o clima, a índole do povo e as promessas das grandes utopias garantiriam um futuro risonho. Hoje sabemos que, se houver um caminho, temos de construí-lo nós mesmos, superando as confrontações fratricidas, com governos realistas que trabalhem para o bem comum, e não vendam ilusões. Não é impossível, mas não há nenhuma garantia de que dê certo.
Como sei pouco, e sou pouco,faço o pouco que me cabeme dando inteiro.Sabendo que não vou vero homem que quero ser.Já sofri o suficientepara não enganar a ninguém:principalmente aos que sofremna própria vida, a garrada opressão, e nem sabem.Não tenho o sol escondidono meu bolso de palavras.Sou simplesmente um homempara quem já a primeirae desolada pessoado singular - foi deixando,devagar, sofridamentede ser, para transformar-se- muito mais sofridamente -na primeira e profunda pessoado plural.Não importa que doa: é tempode avançar de mão dadacom quem vai no mesmo rumo,mesmo que longe ainda estejade aprender a conjugaro verbo amar.É tempo sobretudode deixar de ser apenasa solitária vanguardade nós mesmos.Se trata de ir ao encontro.(Dura no peito, arde a límpidaverdade dos nossos erros.)Se trata de abrir o rumo.Os que virão, serão povo,e saber serão, lutando.Thiago de Mello (1926-2022)
O Brasil dá aflição. Falta dinheiro para muita coisa importante, mas às vezes há dinheiro, que os governos não sabem gastar. Foi isso que aconteceu em Ouro Preto, onde o deslizamento de uma encosta destruiu um edifício tombado pelo patrimônio histórico (foto).
Dez anos atrás, o governo de Minas Gerais captou nada menos que 35 milhões de reais para um programa de contenção de encostas em Ouro Preto. Mas o programa ficou empacado, por requerer técnicas especiais de sondagem do terreno, até que um desastre aconteceu.

Em 2019, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mediu a eficiência dos gastos públicos na América Latina. Descobriu que o Brasil desperdiça quase 4% do PIB ao ano em projetos mal concebidos e mal executados, que ficam pela metade, atrasam ou não entregam o que se esperava. São os célebres “problemas de gestão”.
Gestores ineptos, que não sabem nem por onde começar o emprego dos recursos disponíveis, têm um papel de destaque nessa história. Segundo o BID, o Brasil deixa de gastar, em média, nos diversos níveis de governo, metade do dinheiro aprovado para investimentos.
Em 2020, o governo Bolsonaro deixou no cofre 80,7 bilhões de reais reservados para o combate à Covid. No mesmo ano, o Ministério da Educação devolveu 1 bilhão de reais aos cofres públicos, porque não soube o que fazer com eles. Como se não houvesse carências na educação brasileira.
O padre Vieira já sabia que esse tipo de omissão produz desastres, como os de Ouro Preto ou da pandemia. Diz o seu Sermão da Primeira Dominga do Advento: “Está o príncipe, está o ministro divertido, sem fazer má obra, sem dizer má palavra, sem ter mau nem bom pensamento. E talvez naquela mesma hora, por culpa de uma omissão, está cometendo maiores danos, maiores estragos, maiores destruições, que todos os malfeitores do mundo em muitos anos.” O texto é de 1650.
Bahia, Minas Gerais e Goiás estão debaixo d’água. Para milhões de pessoas, a vida agora se resume ao que sobrou da lama, dos escombros de suas casas e dos cacos de seus sonhos. Nenhuma delas recebeu de Jair Bolsonaro uma palavra de solidariedade e conforto, muito menos promessa de ajuda. Suas tragédias não dizem respeito ao homem em quem muitas devem ter votado. Importante é o jet ski, as provocações e o voo em primeira classe para seus ministros.
A tragédia desses estados não se limitará às enormes perdas individuais, mas envolverá a saúde, a agricultura, a produção industrial, os serviços e a economia em geral, deles e de seus vizinhos. Bahia, Minas Gerais e Goiás são rotas de passagem e, por suas estradas, destruídas ou interditadas, milhares de caminhões deixarão de rodar pelos próximos meses. Esperam-se desemprego, revoltas de caminhoneiros e desabastecimento. Mas nada disso compete a Bolsonaro. Para ele, o problema é dos governadores e prefeitos —muitos dos quais igualmente trabalharam por sua eleição em 2018.

O país voltou à casa dos milhares de contaminados diariamente pela Covid e, não importa quantos já tenham morrido, Bolsonaro acha pouco. Quanto a isso, ele pode ficar tranquilo —estamos na iminência de uma avalanche de casos, superlotação dos hospitais, falta de insumo para testes, profissionais da saúde desesperados pelas condições de trabalho e alto risco para as crianças, a quem ele sonega vacina, e para os pascácios que ele estimula a não se vacinarem.
Para Bolsonaro, não foi para cuidar disso que o elegeram. Elegeram-no para ele se reeleger. Desde que tomou posse, não passou um dia sem ter a reeleição como prioridade. Por reeleição entenda-se continuar na cadeira por quaisquer meios.
As desgraças acima lhe roubam votos em massa, mas Bolsonaro não se altera. Está confiante de que, se lhe faltar urna, as vacas fardadas que ele engorda e ordenha irão garanti-lo.
O Brasil não tem sorte com seus centenários. O primeiro, em 1922, teve de conviver com os restos da devastação causada pela gripe espanhola, chegada ao País em 1918. Calculam-se em cerca de 35 mil as mortes causadas no País, concentradas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Entre elas não estava, como se costuma afirmar, o presidente eleito, Rodrigues Alves, embora tenha morrido antes de assumir. O ano de 1922 foi ainda marcado pela primeira revolta tenentista e pela decretação do estado de sítio pelo presidente Epitácio Pessoa, destinada a garantir a posse do presidente eleito, Artur Bernardes.
Nas celebrações, destacou-se a Exposição Internacional de que participaram 14 países. O segundo centenário, a ocorrer neste ano, virá na cauda de outra pandemia, a da covid-19, chegada ao País em 2020 e que já matou cerca de 620 mil brasileiros, embora também sem matar presidente. Junto com a pandemia, temos hoje um país às voltas com um tumultuado mandato presidencial que gerou dúvidas sobre a solidez de nossa jovem democracia e, mais ainda, com o imenso drama social do desemprego, da desigualdade, da exclusão, da fome. Até agora, não há indicação de que haverá alguma importante celebração oficial, ficando os registros da efeméride a cargo da mídia, das instituições e do meio acadêmico.
Nesses registros, naturalmente, haverá retomadas de temas estritamente históricos, mas é importante que sejam também usados como oportunidade para uma avaliação dos 200 anos de nossa vida independente. Quero dizer, com isto, examinar a natureza do percurso feito, verificar onde acertamos, onde erramos e como chegamos à situação atual. Baseados neste exame podemos também perguntar sobre o que nos pode esperar no futuro próximo. Mao Tsé-tung dizia ser ainda cedo para avaliar adequadamente o impacto da Revolução Francesa. Para nós, no entanto, que sofremos de Alzheimer coletivo, dois séculos já são tempo suficiente para fazermos um balanço do que fizemos e perscrutarmos nosso futuro próximo.

As mudanças nesses 200 anos foram enormes. Passamos de um país de cerca de 5 milhões de habitantes, dos quais um milhão de escravos e 800 mil indígenas, para outro de 214 milhões; de um país com cerca de 10% de população urbana em 1822 para outro de 85% hoje; de um país de economia totalmente agrícola em 1822 para outro com larga participação industrial hoje; de uma população formada exclusivamente por indígenas, africanos e lusos para outra muito mais diversificada pela entrada de italianos, espanhóis, alemães, sírios, libaneses, japoneses; de uma população concentrada na região costeira para outra que cobre todo o território nacional.
No entanto, todos os analistas que se encarregaram do tema de nossa trajetória, como Sérgio Buarque de Holanda, Oliveira Viana, Nestor Duarte, Raimundo Faoro, Gilberto Freyre, Roberto DaMatta, entre outros, reconhecem que há mais continuidades do que rupturas. Somos um país sem revoluções. O que chamamos de revolução, como a de 1930, não passou de ajustes entre grupos dirigentes. O povo só entrou no sistema político a partir da segunda metade do século 20, tendo sido logo contido por uma ditadura. Quando falo do drama social que desautoriza celebrações me refiro, naturalmente, ao problema da desigualdade, que é de todos conhecido, mas sobre o qual, a meu ver, mais se fala do que se faz. Lembro alguns dados de amplo conhecimento.
Segundo dados do IBGE, o auxílio emergencial criado para atender os mais necessitados, adicionado aos recursos do agora extinto Bolsa Família, abrangeu cerca de cem milhões de pessoas, quase a metade da população. Somos o oitavo país mais desigual do mundo e ocupamos a 84. º posição no Índice de Desenvolvimento Humano. Em 2010, o 1% mais rico da população detinha 44% da riqueza nacional. Ao mesmo tempo, há três décadas, estamos crescendo a taxas medíocres incapazes de gerar os empregos necessários e viabilizar políticas sociais mais substanciais.
No entanto, apesar de termos uma das mais altas franquias eleitorais do mundo ocidental (16 anos), temos sido incapazes de aprovar no Congresso medidas redistributivas de renda, como o aumento do imposto sobre heranças, a taxação de dividendos, a alteração nas faixas do Imposto de Renda. Distribuímos, mas não redistribuímos.
Nossa faixa mais alta de Imposto de Renda é de 27, 5%. Nos Estados Unidos, ela é de 37%; no Chile, é de 40%; em Portugal, de 48%; no Japão, de 56%. Estamos acumulando uma enorme massa de desempregados, subempregados e não empregáveis sem perspectiva realista de solucionar o problema. Olhando agora para a frente, mesmo que em prazos mais curtos do que os dos chineses, digamos uns30 anos, podemos nos perguntar se ainda somos um país viável no sentido de sermos capazes de formarmos uma sociedade includente, sem a enorme marginalização que hoje a caracteriza.
A hipótese pode soar apocalíptica, mas talvez estejamos a brincar, ou a brigar, na praia, alheios ao tsunami que se delineia no horizonte.
Talvez estejamos a brincar, ou a brigar, na praia, alheios ao tsunami que se delineia no horizonte.
Visitantes observam tela de Pedro Américo no Museu Paulista, hoje fechado para obras: no ano do bicentenário da Independência, Brasil enfrentará dramas e desafios.
Quando vi as imagens da catástrofe em Capitólio, com dez mortos, meu primeiro pensamento foi que se tratava de uma montagem bem-feita, de tão inacreditável que me pareceu que, justamente nesse lugar tão espetacular e popular entre turistas, acontecesse uma cena dessas. E me perguntei se não havia indícios de que o paredão de pedra estava instável.Pouco depois, a Defesa Civil de Minas Gerais confirmou que tinha emitido horas antes do acidente um alerta de chuvas intensas para o município de Capitólio, com possibilidade de ocorrências graves. Mas aparentemente ninguém havia levado o alerta a sério. Além disso, imagens da catástrofe que circulam nas redes revelam que os ocupantes das embarcações foram alertados por pessoas ao redor sobre o risco de desabamento da estrutura. Ainda assim, demoraram a se afastar. Parece que as pessoas queriam aproveitar ao máximo a oportunidade de ficar perto da parede de rocha e tirar fotos.De certa forma, pode-se falar de uma catástrofe que poderia ter sido evitada. Uma catástrofe anunciada. Algo que tenho a impressão de que acontece o tempo todo no Brasil, infelizmente. O desastre de Brumadinho foi um acontecimento do tipo. Os responsáveis sabiam há tempos que a barragem estava instável, mas deixaram que sua segurança fosse certificada, sob circunstâncias duvidosas, pela empresa TÜV Süd. Quando a barragem se rompeu, a avalanche de lama soterrou 270 pessoas e dois bebês ainda não nascidos. Assim como os responsáveis em Capitólio, em Brumadinho também não se quis intervir porque isso custaria dinheiro e atrapalharia as operações normais. Tudo deveria continuar como antes e parecer normal. E, de fora, tudo de fato parecia normal até o último segundo, tanto em Capitólio quanto em Brumadinho.
É a aparência de normalidade pela qual gostamos de nos deixar enganar e iludir. A crença de que tudo continuará como antes. Embora se saiba que a catástrofe é iminente, se é acomodado e covarde demais para fazer alguma coisa, preferindo a cegueira. É mais fácil. Acho que isso, de certa maneira, também é humano. Algo que pode ser observado até mesmo em relacionamentos amorosos. A pessoa sente que algo não anda bem, mas, por comodismo e hábito, evita o conflito e não muda nada, deixa tudo continuar como está – até que o parceiro em algum momento se vai, e o mundo se desmorona sobre quem ficou.É claro que é completamente diferente quando se trata de vidas humanas e responsabilidades políticas. Nesse quesito, observo que o Brasil se destaca por sua negligência. De certa forma, é o país das catástrofes anunciadas.Dei-me conta disso pela primeira vez quando aconteceu o acidente com o bonde no bairro turístico carioca de Santa Teresa em 2011. O bonde amarelo e pitoresco descia uma rua, saiu dos trilhos, tombou e derrubou um poste. Seis pessoas morreram, e 57 ficaram feridas. A causa: os freios não estavam funcionando, faltava manutenção. Mas até hoje, ninguém foi preso ou nem sequer responsabilizado. A impunidade fomenta a irresponsabilidade.Quando andei no bonde pela primeira vez, em 2006, percebi como tudo era velho, torto, improvisado, mal mantido, desde os trilhos até o próprio veículo. O bonde fazia um barulho enorme, como se estivesse gritando que algo não estava bem.E quem se lembra de quando o Museu Nacional pegou fogo? Por causa de um aparelho de ar-condicionado velho e malcuidado, o Brasil perdeu alguns dos artefatos mais valiosos de toda a sua história. Faltou até mesmo água para os bombeiros nos hidrantes ao redor.Para quem trabalhava no museu, provavelmente não era nenhum segredo que os ares-condicionados eram velhos e estavam com defeito. Talvez até se tenha tentado alertar os responsáveis. Mas nada aconteceu, deixou-se as coisas seguirem adiante.Assim como toda chuva forte no centro do Rio leva ao transbordamento da canalização repleta de lixo. Há anos o problema é conhecido, mas nada acontece. A cada tempestade, a luz acaba no meu bairro, mas nada é feito para solucionar o problema no longo prazo. Os eletricistas da Light sempre têm que vir de novo, depois de os alimentos na geladeira já terem esquentado e várias horas de trabalho no computador perdidas.O problema mais grave do Brasil – e que recebe muito pouca atenção –, porém, é o contínuo desmatamento da Floresta Amazônica. É a megacatástrofe anunciada. O desmatamento já está levando não só a uma enorme, irrecuperável e custosa perda de espécies, mas, sobretudo, a períodos de seca em outras regiões do Brasil. O estado de São Paulo, que fica na mesma latitude da Namíbia, seria um deserto sem as nuvens que vêm do norte e fazem chover.Cientistas alertam que o ecossistema amazônico já pode estar à beira do colapso. O que aconteceria então, é difícil de imaginar. Capitólio, Brumadinho e o Museu Nacional são sintomas de uma doença bastante disseminada no Brasil, que provavelmente ainda não mostrou toda a sua força.Philipp Lichterbeck
No dia 3 de janeiro, a Apple se tornou a primeira empresa da história a alcançar o preço de US$ 3 trilhões. A cifra equivale, em números aproximados, ao dobro do PIB brasileiro. É dinheiro – e é dinheiro que não para de crescer. Em um intervalo de 16 meses, o valor da Apple subiu 50%, passando de US$ 2 trilhões para US$ 3 trilhões. A escalada não deixa mais dúvidas sobre o fato de que o centro do capitalismo está nas chamadas big techs, as gigantes de alta tecnologia que têm uma incomparável capacidade de inovação.
Em julho do ano passado, as cinco maiores big techs (Apple, Google, Amazon, Microsoft e Facebook, que foi renomeada recentemente como Meta) bateram, juntas, o preço de US$ 9,3 trilhões. Agora, valem mais.
Durante a pandemia, com as medidas sanitárias de isolamento, as cinco foram às alturas. Eram as companhias mais preparadas para lucrar com o que se começou a chamar de “trabalho remoto”, e também com o e-commerce, com o e-governe com o home office. Suas ferramentas se tornaram imprescindíveis.

Em abril de 2020, havia 4,5 bilhões de habitantes do planeta, em 110 países, vivendo (ou tentando sobreviver) em regime de lockdown. Entrávamos numa era de virtualidades que não conhecíamos: escolas, mesmo as recalcitrantes, tiveram de se render ao expediente das aulas a distância; escritórios de advocacia de qualquer lugarejo adotaram o home office; serviços públicos começaram a ser oferecidos online e os movimentos da sociedade civil se canalizaram para as plataformas digitais – e tome abaixo-assinados eletrônicos.
Começava ali um período estranho, com trabalhadores trabalhando sem comparecer ao local de trabalho, cidadãos exercendo seus direitos sem estar lá, missas pelo Youtube e namoros pelo Whatsapp. A economia se adaptou muito bem, obrigado. Não veio catástrofe nenhuma nos ditos “mercados”. O que veio, isto sim, foi mais acumulação, mais concentração e mais crescimento do valor e do poder das big techs, que se firmaram como estrelas no capitalismo da ausência.
Estamos vivendo uma mutação social das mais intrigantes. Na Revolução Industrial do século XIX, falava-se em “força de trabalho”. Era essa “força” que o operariado vendia nas linhas de montagem. A “força de trabalho” era uma energia física que tinha como combustível o sangue humano. Com ela, os proletários moviam engrenagens, enroscavam parafusos, empurravam carcaças, pacotes e carrinhos abarrotados de carvão. Hoje, a velha “força de trabalho” parece ter ficado de escanteio. O capital não liga mais para ela, ou, ao menos, não liga tanto. Máquinas robotizadas fazem o serviço, colhem a cana, soldam peças na fuselagem dos automóveis, operam os telemarketings da vida e da morte.
Agora, o interesse do capital tem foco em outros atributos da gente. Não requisita mais a força física, mas o olhar, a imaginação, a atenção, o desejo. Esses atributos já não têm tanto a ver com o corpo, com os músculos e com o esqueleto que nos sustenta, mas com a máquina psíquica. O capitalismo da ausência – com as big techs na vanguarda – desenvolveu fórmulas para explorar as nossas mais recônditas fantasias. Eis porque, com as multidões confinadas, a economia não parou.
O modo de produção em que estamos embarcados consegue extrair valor – a distância – de corpos em estado semivegetativo, prostrados atrás de uma tela eletrônica. Só o que é convocado a entrar em atividade, nos corpos dormentes, é o olhar e as pontas dos dedos. O capitalismo se higienizou. Nunca a ausência física do explorado foi uma solução tão lucrativa.
Mas o grande trunfo das big techs não está no home office, que, aliás, já virou carne de vaca (ou, no caso brasileiro, virou osso de vaca). Hoje, todo mundo diz que trabalha remotamente, inclusive quem não trabalha. O maior diferencial dos grandes conglomerados, como Apple e suas assemelhadas, todas monopolistas globais em seus ramos (ou troncos) de atuação, foi a transformação do consumo em trabalho. No modelo de negócio das gigantes da tecnologia, consumir é trabalhar.
O tal do “usuário”, enquanto pensa usufruir de funcionalidades gratuitas, enquanto imagina se divertir, está trabalhando de graça. É o “usuário” quem “posta” os “conteúdos”, é o “usuário” que, sem saber, fornece de graça todos os seus dados pessoais (que depois serão vendidos a peso de ouro para os anunciantes), é o “usuário” que, com seu olhar, também gratuito, costura as significações e assimila os conteúdos das marcas e das mercadorias. O pobre “usuário” é ao mesmo tempo a mão de obra e a matéria-prima que saem de graça. Depois, no fim da linha, é ele, o “usuário”, que vai ser comercializado. A isso se resume o melhor negócio de toda a história da humanidade.
Se você quiser, pode tentar ser otimista. Pode falar dos prodígios curativos da telemedicina e do conforto de jogar na Mega-sena sem sair de casa. Nada contra. Apenas leve em conta que a sua ausência vem preenchendo grandes lacunas, quer dizer, vem abarrotando de dinheiro virtual muitas burras digitais.
Espumar insinuações sem provas pelo canto da boca e, ao levar uma resposta, recuar, fingir-se de ofendido e se desmentir é uma tática de covarde. Desfilar tanques do Exército para ameaçar as instituições e, diante do fiasco que lhe poderia custar o mandato, pedir a alguém que lhe escreva uma carta de retratação também denuncia o covarde. Fazer-se de macho para meia dúzia de beócios no cercadinho, insultar mulheres repórteres e cercar-se de esbirros, gente dada a violências físicas, igualmente é de covarde.
Jair Bolsonaro não é só o pior presidente da história do Brasil democrático. É também o mais covarde. Sua tática de falar que "ficou sabendo", "ouviu dizer" e "estão dizendo que tem coisa", sem se assumir como quem acredita naquela informação, é de covarde. E sua campanha contra a vacina nunca é feita com afirmativas tipo "A vacina faz mal!" ou "Não se vacinem!". Esconde-se em perguntas que induzem à dúvida e ao medo, como "Quem garante que não vai fazer mal?" ou "Quem se responsabiliza?". Coisa de covarde.
Bolsonaro desfila sem máscara entre multidões, jactando-se de não ter se vacinado. Será? Quem garante? Pode muito bem ter sido vacinado em segredo por seu cúmplice, o ex-médico Marcelo Queiroga, que, pelo menos, ainda deve saber aplicar injeção. Talvez já tenha tomado até a terceira dose. Se seus próprios ministros se vacinaram pelas suas costas, por que Bolsonaro não se vacinaria pelas costas da nação?
Aliás, não sou eu, mas estão dizendo por aí que tem coisa em tudo que Bolsonaro faz pelas costas da nação.
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Cara Catarina Rochamonte. Sobre sua coluna "Os esbirros de Lula" (10/1), em que me atribui o poder de "usar régua de cálculo eleitoral para prejudicar a pré-candidatura Sergio Moro" —e precisa?—, você ficaria surpresa se soubesse por quantos segundos por ano me ocupo de Sergio Moro.
A futilidade de tudo o que nos vem da mídia é comandada pela impossibilidade de este palco se manter vazio. Música, spots, flashes, publicidade, informação, filme, loucura – sem alternativa para o preenchimento da tela – senão um vazio sem apelo
Jean Baudrillard, “Cool memories”
Ela está no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para caminhar.
O uruguaio Eduardo Galeano ouviu esse comentário sobre utopia numa conversa com o cineasta argentino Fernando Birri e o relatou no livro “As palavras andantes”. Utopia, como você lembra,é o clássico do inglês Thomas Morus que descreve uma sociedade fictícia onde não acontece nada de ruim. Utopia é felicidade. Nestes dias de renovação da esperança, o horizonte parece mais perto e a gente volta a crer que é só mais um passo e pronto, aí está a utopia!
Utopia é sonho e sonho cada um tem o seu e caminha com ele. O da moça, desesperada com o desemprego e portando um cartaz no sinal fechado na pista do Lago Sul, em Brasília, é arrumar dinheiro pro aluguel atrasado… A utopia da família protegida da chuva só pela copa da mangueira, como o arremedo miserável de um presépio vivo, ali bem pertinho do Palácio do Planalto, é que algum mago jogue uma coberta qualquer, um brinquedinho pras crianças pela janela do carro (oficial?)…O sonho de felicidade do homem que gritava “é a fome, é a fome” numa quadra residencial da Asa Sul da capital federal era que lhe caísse na cabeça um resto do filé mignon de algum almoço abastado (verba de gabinete?), o dos milhões na fila do auxílio desemprego é ter a carteira profissional assinada de novo, ou pela primeira vez (nem precisa ser um DAS…).
O horizonte de cada um estava bem ali, mas se afastava na velocidade do sinal que abria, da janela que se fechava, do carro que passava, na dureza da frase “não há vagas” e levava a utopia de cada um…
Todo dia, toda hora, somos obrigados a dar mais um passo no caminho dessa vida melhor. A busca da Utopia é trabalho pra todos nós. Se andarmos juntos, ela, um dia, não nos escapa. Me atrevo, aqui, a uma receita:
Primeiro, misture suas aspirações com as de seus amigos, parentes, colegas de trabalho e de toda a sua comunidade. Tempere com a suavidade da liberdade, com o gosto forte da verdade, elimine o ardor da intolerância, o amargo da corrupção e leve tudo ao calor das ruas. Vá adicionando o melhor de cada sonho encontrado…Mas, importante: não desista, nunca, desse caminhar no rumo da Utopia. 2022 chegou. Hora de dar mais um passo na busca do Brasil mais livre, mais solidário, mais igual. Feliz Ano Novo. Vote bem em 2022!
A entrevista que o presidente Jair Bolsonaro concedeu à Rádio Jovem Pan na terçafeira passada serviu para, mais uma vez, evidenciar o seu despudor em afrontar os princípios republicanos mais comezinhos e indicar uma das razões, talvez a principal, pelas quais alguém tão despreparado como ele – administrativa, intelectual e moralmente – siga inabalável no exercício da Presidência da República, a despeito de todos os crimes de responsabilidade que cometeu, descritos em mais de uma centena de pedidos de impeachment, e de todos os males que vem infligindo ao País desde que tomou posse.
Sob seu governo, avaliou Bolsonaro, o Congresso está “muito bem atendido”. Primeiro, é preciso reconhecer que o presidente não mentiu. Aí está o volume recorde de liberação de emendas parlamentares ao longo desses três anos de mandato a comprovar a afirmação, especialmente as emendas do relator-geral do Orçamento, tecnicamente conhecidas como RP-9. No entanto, é preciso deixar claro o que Bolsonaro entende por “muito bem atendido” e, principalmente, em que bases se dá esse “atendimento”.
“Hoje em dia, todos estão ganhando”, afirmou o presidente à rádio, em referência aos deputados e senadores. “Além das emendas impositivas, por volta de R$ 15 bilhões por ano, tem uma outra forma de conseguir recurso, que é a RP-9. E só em RP-9”, prosseguiu Bolsonaro, sem manifestar qualquer sinal de constrangimento, “os parlamentares têm quase o triplo de recursos do Ministério da Infraestrutura, do (ministro) Tarcísio (Gomes de Freitas). Então, o Parlamento está muito bem atendido conosco.”
É muito dinheiro, mas não é verdade que “todos estão ganhando”. A liberação de emendas RP-9 contempla primordialmente os parlamentares que compõem a base de apoio ao presidente no Congresso, como revelou o Estado em uma série de reportagens que, desde maio do ano passado, tornaram público o chamado “orçamento secreto”. A distribuição dessa bilionária soma de recursos públicos por meio de emendas RP-9 é feita sem levar em consideração critérios técnicos, sem transparência e, sobretudo, sem equidade entre os congressistas. Na prática, o governo dividiu os parlamentares em dois grupos: os de “primeira classe”, que apoiam o governo, e o resto.
Em português cristalino, “orçamento secreto” é compra de votos no Congresso. Não sem razão, a prática espúria “estarreceu” ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) e levou a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), a suspender, em um primeiro momento, o pagamento das emendas RP-9, classificadas por ela como um instrumento que “se distancia dos ideais republicanos” e que é operado “sob o signo do mistério”. Contudo, pouco tempo após manifestar “perplexidade” diante do pagamento das emendas RP-9, a ministra liberou a execução dos repasses a pedido dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Ambos prometeram à ministra dar transparência aos acordos que viabilizam o pagamento das emendas, como se não estivessem obrigados pela Constituição a fazê-lo. Mas, até agora, não honraram a palavra empenhada.
A entrevista de Bolsonaro foi uma aula de desfaçatez. Mas ele não está sozinho na subversão dos “ideais republicanos” mencionados pela ministra Rosa Weber. Há neste Congresso “muito bem atendido” quem se disponha a se apropriar de recursos do Orçamento para satisfazer interesses eleitorais ou financeiros muito particulares. Não se sabe quais exatamente por não haver transparência em relação às transações. Se são legais e republicanas, por que o sigilo? A dúvida singela, não respondida até hoje, abre espaço para dúvidas muito razoáveis sobre a higidez de todo o processo que cerca as emendas de relator-geral.
Malgrado ser o presidente que mais liberou emendas parlamentares desde 2003, Bolsonaro foi o que menos conseguiu aprovar projetos de sua iniciativa no Congresso. É evidente que o “atendimento” prestado por Bolsonaro a um grupo de parlamentares – e não ao Congresso – se presta, fundamentalmente, a garantir sua sustentação política no cargo para que ele siga fingindo que governa o Brasil sem ser incomodado.