domingo, 16 de janeiro de 2022

Bolsonaro ou a Covid, qual o vírus é mais letal para os brasileiros

No Exército é assim: não quer se vacinar? Taokey. Sem problemas. Passe no Recursos Humanos. Está demitido. Você tem o direito de não se vacinar, mas não o de pôr em risco a vida dos outros.

O sérvio Novak Djokovic, o maior tenista da atualidade, amanheceu hoje sem saber se participará do Aberto da Austrália a começar amanhã naquele país, ou ainda esta noite no Brasil.

Foi detido há uma semana pela imigração australiana por não estar vacinado nem dispor de documentação adequada de exceção. A Justiça dará a palavra final no seu caso.

Deu, pouco depois das 4h, horário do Brasil: manteve o cancelamento do visto Djokovic com base no fato de que ele poderia representar um risco à saúde e à ordem pública.

Em breve, o parlamento alemão começará a debater a proposta do primeiro-ministro, o social-democrata Olaf Scholz, de tornar obrigatória a vacinação de todos os adultos

Por uma questão técnica, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou portaria do presidente Biden que obrigava empresas com mais de 100 empregados a exigir deles certificado de vacinação.

Os que não apresentassem deveriam ser testados semanalmente. A Suprema Corte, de maioria conservadora, entendeu que a portaria deveria ter sido aprovada no Congresso.

Em Québec, no Canadá, o primeiro-ministro François Legault avalia cobrar um imposto dos não vacinados porque eles adoecem, transmitem o vírus, e com isso aumentam os gastos públicos.


Há limites para tudo, até mesmo para a liberdade de opinião e os direitos. Se os direitos de que quero desfrutar prejudicam os seus ou os da sociedade, eles devem ser restringidos.

Na China, e em outros países de regime autoritário, essa é uma questão pacificada – o Estado manda, e ai de quem não obedecer. Em países democráticos, o Parlamento e a Justiça decidem.

No Parlamento estão os representantes do povo. Na Justiça, os juízes que interpretam as leis promulgadas pelo Parlamento e que depois são escritas na Constituição.

Nada impede, porém, em momentos em que o destino da humanidade esteja em risco, que instituições como as Forças Armadas e entidades privadas estabeleçam suas próprias regras.

Posso como dono de um boteco, por exemplo, determinar: aqui só entra quem provar que se vacinou. Não preciso de autorização do Estado para proceder dessa maneira.

O governo negacionista do presidente Jair Bolsonaro está pouco preocupado com isso. Para ele só importa sobreviver e, se possível, ganhar mais 4 anos. Vidas não importam tanto, ou muito pouco.

Deu passe livre à circulação da Covid-19, sabotou a vacinação, escondeu o número de mortos e de infectados, e impulsionou uma tragédia que poderia ter sido menor.

Um em cada quatro brasileiros com 16 ou mais anos de idade diz ter recebido diagnóstico de Covid desde o início da pandemia, segundo pesquisa Datafolha divulgada ontem.

Significa que cerca de 42 milhões de pessoas foram infectadas, quase o dobro do total de casos registrados oficialmente. Bolsonaro dirá que a pesquisa é fajuta, como todas que ele nega.

A História, por sua vez, dirá um dia qual vírus foi o mais letal para os brasileiros neste início de século: a Covid-19 ou o Bolsonaro.

Temos de ser mais humanos







Abram os olhos. Somos umas bestas. No mau sentido. Somos primitivos. Somos primários. Por nossa causa corre um oceano de sangue todos os dias. Não é auscultando todos os nossos instintos ou encorajando a nossa natureza biológica a manifestar-se que conseguiremos afastar-nos da crueza da nossa condição. É lendo Platão. E construindo pontes suspensas. É tendo insónias. É desenvolvendo paranóias, conceitos filosóficos, poemas, desequilíbrios neuroquímicos insanáveis, frisos de portas, birras de amor, grafismos, sistemas políticos, receitas de bacalhau, pormenores.

É engraçado como cada época se foi considerando «de charneira» ao longo da história. A pretensão de se ser definitivo, a arrogância de ser «o último», a vaidade de se ser futuro é, há milénios, a mesmíssima cantiga.

Temos de ser mais humanos. Reconhecer que somos as bestas que somos e arrependermo-nos disso. Temos de nos reduzir à nossa miserável insensibilidade, à pobreza dos nossos meios de entendimento e explicação, à brutalidade imperdoável dos nossos actos. O nosso pé foge-nos para o chinelo porque ainda não se acostumou a prender-se aos troncos das árvores, quanto mais habituar-se a usar sapato.

A única atitude verdadeiramente civilizada é a fraqueza, a curiosidade, o desespero, a experiência, o amor desinteressado, a ansiedade artística, a sensação de vazio, a fé em Deus, o sentimento de impotência, o sentir-mo-nos pequeninos, a confissão da ignorância, o susto da solidão, a esperança nos outros, o respeito pelo tempo e a bênção que é uma pessoa sentir-se perdida e poder andar às aranhas, à procura daquela ideia, daquela casa, daquela pessoa que já sabe de antemão que nunca há-de encontrar.

O progresso é uma parvoíce. Pelo menos enquanto continuarmos a ser os animais que somos.

Miguel Esteves Cardoso

sábado, 15 de janeiro de 2022

Na criação do seu mundo, Bolsonaro viu que a obra não era perfeita

E havendo Jair Bolsonaro, o Messias, iniciado o último ano do seu desgoverno, deu-se conta de que a obra estava incompleta.

Recolheu-se para meditar e indagou, aflito: “Onde mais deixar a marca do meu inesgotável poder de destruição?”

Lembrou-se das cavernas, ainda intactas. Então, assinou um decreto que para sempre será louvado por uma parte dos homens.

Doravante será permitida a construção de empreendimentos considerados de utilidade pública em áreas de cavernas.

Caberá ao órgão ambiental autorizar, se necessário, até mesmo a destruição de cavernas em nome do supremo bem comum.


Tudo em consonância com o desejo de Bolsonaro de, em troca, ser reeleito, e, uma vez que seja, possa eleger seu sucessor.

Na mesma linha, quando a pandemia da Covid-19 já matara mais de 150 mil brasileiros, ele ensinou a um dos seus amados filhos:

“A pressa para a compra da vacina não se justifica, porque você mexe com a vida das pessoas.”

Ao que aduziu apressado o ministro da Saúde da época, Eduardo Pazuello, motoqueiro nas horas vagas e sujeito a acidentes:

“Para que essa ansiedade, essa angústia?”

Que morressem, pois, os que tivessem de morrer, desde que a economia fosse salva. Os mortos, afinal, serão acolhidos por Deus.

Que se cobre tudo, menos coerência, do presidente que veio ao mundo para exterminar o sistema sem ter algo a pôr no lugar.

Bolsonaro deu sobejas provas até aqui de sua coerência. Se lá atrás foi contra a vacinação de adultos, agora é contra a das crianças.

Em sua falsa ingenuidade, ele diz não entender por que são bem-aventurados os governantes que adotam medidas de isolamento.

Vamos desenhar para que entenda de uma vez por todas: porque fizeram o que ele recusou-se a fazer.

Valorizaram a vida e combateram a morte. E que assim seja!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Nuestra América

A eleição do jovem Gabriel Boric para a presidência traz a esperança de que o Chile talvez consiga escapar dos ciclos de populismo, autoritarismo, estagnação econômica e decadência institucional que estão assolando a maioria dos países da América Latina.

Desde o fim da ditadura de Pinochet, entre 1990 e 2010, o Chile foi governado pela Concertación, coalizão de partidos de centro-esquerda que conseguiram combinar a abertura da economia com políticas sociais inteligentes, reduzindo a pobreza e a desigualdade, melhorando a qualidade da educação e desenvolvendo a economia como nenhum outro país da região. Isto não foi suficiente, no entanto, para evitar que o sentimento de frustração crescesse, fazendo com que o país alternasse entre governos de esquerda e direita – Michelle Bachelet e Sebastián Piñera – que culminou com as grandes manifestações de rua de 2019, a convocação de uma assembleia constituinte e a última eleição presidencial, em que candidatos independentes tomaram o lugar dos antigos partidos políticos.


Boric promete canalizar de forma produtiva a insatisfação popular, em um governo de alianças que permitam a retomada da trajetória de desenvolvimento, corrigindo distorções e reconhecendo as limitações econômicas e financeiras das quais não se pode escapar. Tomara.

A distância entre o que é possível e o que é desejável explica as explosões de insatisfação que alimentam os populismos de esquerda e direita que tornam as crises sociais e econômicas cada vez mais profundas, como estamos vendo também no Brasil. Podemos ver esta distância com toda clareza em dois livros recentes sobre famílias de imigrantes que vieram para a América Latina buscando o renascer de uma nova civilização, tendo depois que reconhecer as limitações de suas utopias.

Nuestra America, de Claudio Lomnitz, conta a história da família a partir do avô, Misha Adler, judeu que partiu da antiga Bessarábia para o Peru há um século, da mesma região e na mesma época em que meu avô veio para o Brasil. É uma história análoga à da família de Fausto Cabrera, espanhol que veio para Santo Domingo e depois Colômbia, escapando da guerra civil e do franquismo, tal como narrada por Juan Gabriel Vásquez (C. Lomnitz, Nuestra América: Utopía y persistencia de una familia judía: Fondo de Cultura Economica, 2019; J. G. Vásquez, Volver la vista atrás. Madrid:

Penguin Random House Grupo Editorial, 2021). Adler colaborou com o peruano José Carlos Mariátegui na tentativa de desenvolver na América Latina um socialismo de raízes indígenas e valor universal, foi expulso do Peru, refugiou-se na Colômbia e terminou indo para um kibutz em Israel depois da guerra na esperança de, finalmente, viver a pureza da vida simples e comunitária.

Cabrera depositou suas esperanças no poder purificador que a revolução armada poderia trazer para o novo mundo, colocando seus filhos para se preparar, na China de Mao, para ingressar nas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Esgotada a experiência do kibutz, os Adlers foram para o Chile e, depois de abandonar a guerrilha, o filho de Fausto Cabrera, Sérgio, se transformou em um importante cineasta colombiano.

Ainda que de forma muito diferente, e mais trágica, o escritor judeu austríaco Stefan Zweig, que veio para o Brasil fugindo da guerra em 1940, escreveu Brasil, país do futuro, uma terra paradisíaca em que uma nova civilização estava surgindo, mais simples do que a europeia, mas livre do trauma macabro do racismo e das guerras (S, Zweig, Brasil, um país do futuro: L&PM, 2006, 1941). Não para ele, que se suicidou logo depois.

São histórias extraordinárias, escritas por autores de talento que tiveram acesso às fotografias, cartas, diários e testemunhos recolhidos por seus antepassados. Mas representativas dos milhões de anônimos que fizeram o mesmo percurso, da Europa para a América, e do interior para as cidades, em busca das promessas de uma nova vida livre da miséria, dos conflitos e da falta de perspectiva das terras onde nasceram. A grande maioria permaneceu anônima, trabalhando, organizando suas vidas e, sobretudo, investindo e acreditando no futuro de seus filhos. A vida era dura e, mesmo para os que conseguiam se educar e conseguir um trabalho razoável, a distância entre o que obtinham e o que haviam sonhado era crescente. Outros se envolveram ou buscaram apoio em movimentos sociais, organizações comunitárias, partidos políticos, igrejas, e, quando havia eleições, davam seus votos aos políticos que apareciam e melhor expressavam suas esperanças ou ressentimentos.

Cem anos depois, o Brasil e nossa América Latina não são mais o País ou a região do futuro, mas de uma promessa que não se cumpriu. A crença, no passado, era que Deus estava de nosso lado e o clima, a índole do povo e as promessas das grandes utopias garantiriam um futuro risonho. Hoje sabemos que, se houver um caminho, temos de construí-lo nós mesmos, superando as confrontações fratricidas, com governos realistas que trabalhem para o bem comum, e não vendam ilusões. Não é impossível, mas não há nenhuma garantia de que dê certo.

Para os que virão

Como sei pouco, e sou pouco,

faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.
Thiago de Mello (1926-2022)

O Brasil dá aflição

O Brasil dá aflição. Falta dinheiro para muita coisa importante, mas às vezes há dinheiro, que os governos não sabem gastar. Foi isso que aconteceu em Ouro Preto, onde o deslizamento de uma encosta destruiu um edifício tombado pelo patrimônio histórico (foto).

Dez anos atrás, o governo de Minas Gerais captou nada menos que 35 milhões de reais para um programa de contenção de encostas em Ouro Preto. Mas o programa ficou empacado, por requerer técnicas especiais de sondagem do terreno, até que um desastre aconteceu.


Em 2019, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mediu a eficiência dos gastos públicos na América Latina. Descobriu que o Brasil desperdiça quase 4% do PIB ao ano em projetos mal concebidos e mal executados, que ficam pela metade, atrasam ou não entregam o que se esperava. São os célebres “problemas de gestão”.

Gestores ineptos, que não sabem nem por onde começar o emprego dos recursos disponíveis, têm um papel de destaque nessa história. Segundo o BID, o Brasil deixa de gastar, em média, nos diversos níveis de governo, metade do dinheiro aprovado para investimentos.

Em 2020, o governo Bolsonaro deixou no cofre 80,7 bilhões de reais reservados para o combate à Covid. No mesmo ano, o Ministério da Educação devolveu 1 bilhão de reais aos cofres públicos, porque não soube o que fazer com eles. Como se não houvesse carências na educação brasileira.

O padre Vieira já sabia que esse tipo de omissão produz desastres, como os de Ouro Preto ou da pandemia. Diz o seu Sermão da Primeira Dominga do Advento: “Está o príncipe, está o ministro divertido, sem fazer má obra, sem dizer má palavra, sem ter mau nem bom pensamento. E talvez naquela mesma hora, por culpa de uma omissão, está cometendo maiores danos, maiores estragos, maiores destruições, que todos os malfeitores do mundo em muitos anos.” O texto é de 1650.

Brasil queimou

 


O país que não lhe diz respeito

Bahia, Minas Gerais e Goiás estão debaixo d’água. Para milhões de pessoas, a vida agora se resume ao que sobrou da lama, dos escombros de suas casas e dos cacos de seus sonhos. Nenhuma delas recebeu de Jair Bolsonaro uma palavra de solidariedade e conforto, muito menos promessa de ajuda. Suas tragédias não dizem respeito ao homem em quem muitas devem ter votado. Importante é o jet ski, as provocações e o voo em primeira classe para seus ministros.

A tragédia desses estados não se limitará às enormes perdas individuais, mas envolverá a saúde, a agricultura, a produção industrial, os serviços e a economia em geral, deles e de seus vizinhos. Bahia, Minas Gerais e Goiás são rotas de passagem e, por suas estradas, destruídas ou interditadas, milhares de caminhões deixarão de rodar pelos próximos meses. Esperam-se desemprego, revoltas de caminhoneiros e desabastecimento. Mas nada disso compete a Bolsonaro. Para ele, o problema é dos governadores e prefeitos —muitos dos quais igualmente trabalharam por sua eleição em 2018.


O país voltou à casa dos milhares de contaminados diariamente pela Covid e, não importa quantos já tenham morrido, Bolsonaro acha pouco. Quanto a isso, ele pode ficar tranquilo —estamos na iminência de uma avalanche de casos, superlotação dos hospitais, falta de insumo para testes, profissionais da saúde desesperados pelas condições de trabalho e alto risco para as crianças, a quem ele sonega vacina, e para os pascácios que ele estimula a não se vacinarem.

Para Bolsonaro, não foi para cuidar disso que o elegeram. Elegeram-no para ele se reeleger. Desde que tomou posse, não passou um dia sem ter a reeleição como prioridade. Por reeleição entenda-se continuar na cadeira por quaisquer meios.

As desgraças acima lhe roubam votos em massa, mas Bolsonaro não se altera. Está confiante de que, se lhe faltar urna, as vacas fardadas que ele engorda e ordenha irão garanti-lo.

200 anos de Brasil: pouco a celebrar, tudo a questionar

O Brasil não tem sorte com seus centenários. O primeiro, em 1922, teve de conviver com os restos da devastação causada pela gripe espanhola, chegada ao País em 1918. Calculam-se em cerca de 35 mil as mortes causadas no País, concentradas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Entre elas não estava, como se costuma afirmar, o presidente eleito, Rodrigues Alves, embora tenha morrido antes de assumir. O ano de 1922 foi ainda marcado pela primeira revolta tenentista e pela decretação do estado de sítio pelo presidente Epitácio Pessoa, destinada a garantir a posse do presidente eleito, Artur Bernardes.

Nas celebrações, destacou-se a Exposição Internacional de que participaram 14 países. O segundo centenário, a ocorrer neste ano, virá na cauda de outra pandemia, a da covid-19, chegada ao País em 2020 e que já matou cerca de 620 mil brasileiros, embora também sem matar presidente. Junto com a pandemia, temos hoje um país às voltas com um tumultuado mandato presidencial que gerou dúvidas sobre a solidez de nossa jovem democracia e, mais ainda, com o imenso drama social do desemprego, da desigualdade, da exclusão, da fome. Até agora, não há indicação de que haverá alguma importante celebração oficial, ficando os registros da efeméride a cargo da mídia, das instituições e do meio acadêmico.

Nesses registros, naturalmente, haverá retomadas de temas estritamente históricos, mas é importante que sejam também usados como oportunidade para uma avaliação dos 200 anos de nossa vida independente. Quero dizer, com isto, examinar a natureza do percurso feito, verificar onde acertamos, onde erramos e como chegamos à situação atual. Baseados neste exame podemos também perguntar sobre o que nos pode esperar no futuro próximo. Mao Tsé-tung dizia ser ainda cedo para avaliar adequadamente o impacto da Revolução Francesa. Para nós, no entanto, que sofremos de Alzheimer coletivo, dois séculos já são tempo suficiente para fazermos um balanço do que fizemos e perscrutarmos nosso futuro próximo.


As mudanças nesses 200 anos foram enormes. Passamos de um país de cerca de 5 milhões de habitantes, dos quais um milhão de escravos e 800 mil indígenas, para outro de 214 milhões; de um país com cerca de 10% de população urbana em 1822 para outro de 85% hoje; de um país de economia totalmente agrícola em 1822 para outro com larga participação industrial hoje; de uma população formada exclusivamente por indígenas, africanos e lusos para outra muito mais diversificada pela entrada de italianos, espanhóis, alemães, sírios, libaneses, japoneses; de uma população concentrada na região costeira para outra que cobre todo o território nacional.

No entanto, todos os analistas que se encarregaram do tema de nossa trajetória, como Sérgio Buarque de Holanda, Oliveira Viana, Nestor Duarte, Raimundo Faoro, Gilberto Freyre, Roberto DaMatta, entre outros, reconhecem que há mais continuidades do que rupturas. Somos um país sem revoluções. O que chamamos de revolução, como a de 1930, não passou de ajustes entre grupos dirigentes. O povo só entrou no sistema político a partir da segunda metade do século 20, tendo sido logo contido por uma ditadura. Quando falo do drama social que desautoriza celebrações me refiro, naturalmente, ao problema da desigualdade, que é de todos conhecido, mas sobre o qual, a meu ver, mais se fala do que se faz. Lembro alguns dados de amplo conhecimento.

Segundo dados do IBGE, o auxílio emergencial criado para atender os mais necessitados, adicionado aos recursos do agora extinto Bolsa Família, abrangeu cerca de cem milhões de pessoas, quase a metade da população. Somos o oitavo país mais desigual do mundo e ocupamos a 84. º posição no Índice de Desenvolvimento Humano. Em 2010, o 1% mais rico da população detinha 44% da riqueza nacional. Ao mesmo tempo, há três décadas, estamos crescendo a taxas medíocres incapazes de gerar os empregos necessários e viabilizar políticas sociais mais substanciais.

No entanto, apesar de termos uma das mais altas franquias eleitorais do mundo ocidental (16 anos), temos sido incapazes de aprovar no Congresso medidas redistributivas de renda, como o aumento do imposto sobre heranças, a taxação de dividendos, a alteração nas faixas do Imposto de Renda. Distribuímos, mas não redistribuímos.

Nossa faixa mais alta de Imposto de Renda é de 27, 5%. Nos Estados Unidos, ela é de 37%; no Chile, é de 40%; em Portugal, de 48%; no Japão, de 56%. Estamos acumulando uma enorme massa de desempregados, subempregados e não empregáveis sem perspectiva realista de solucionar o problema. Olhando agora para a frente, mesmo que em prazos mais curtos do que os dos chineses, digamos uns30 anos, podemos nos perguntar se ainda somos um país viável no sentido de sermos capazes de formarmos uma sociedade includente, sem a enorme marginalização que hoje a caracteriza.

A hipótese pode soar apocalíptica, mas talvez estejamos a brincar, ou a brigar, na praia, alheios ao tsunami que se delineia no horizonte.

Talvez estejamos a brincar, ou a brigar, na praia, alheios ao tsunami que se delineia no horizonte.

Visitantes observam tela de Pedro Américo no Museu Paulista, hoje fechado para obras: no ano do bicentenário da Independência, Brasil enfrentará dramas e desafios.

Brasil, o país das catástrofes anunciadas

Quando vi as imagens da catástrofe em Capitólio, com dez mortos, meu primeiro pensamento foi que se tratava de uma montagem bem-feita, de tão inacreditável que me pareceu que, justamente nesse lugar tão espetacular e popular entre turistas, acontecesse uma cena dessas. E me perguntei se não havia indícios de que o paredão de pedra estava instável.

Pouco depois, a Defesa Civil de Minas Gerais confirmou que tinha emitido horas antes do acidente um alerta de chuvas intensas para o município de Capitólio, com possibilidade de ocorrências graves. Mas aparentemente ninguém havia levado o alerta a sério. Além disso, imagens da catástrofe que circulam nas redes revelam que os ocupantes das embarcações foram alertados por pessoas ao redor sobre o risco de desabamento da estrutura. Ainda assim, demoraram a se afastar. Parece que as pessoas queriam aproveitar ao máximo a oportunidade de ficar perto da parede de rocha e tirar fotos.

De certa forma, pode-se falar de uma catástrofe que poderia ter sido evitada. Uma catástrofe anunciada. Algo que tenho a impressão de que acontece o tempo todo no Brasil, infelizmente.

O desastre de Brumadinho foi um acontecimento do tipo. Os responsáveis sabiam há tempos que a barragem estava instável, mas deixaram que sua segurança fosse certificada, sob circunstâncias duvidosas, pela empresa TÜV Süd. Quando a barragem se rompeu, a avalanche de lama soterrou 270 pessoas e dois bebês ainda não nascidos. Assim como os responsáveis em Capitólio, em Brumadinho também não se quis intervir porque isso custaria dinheiro e atrapalharia as operações normais. Tudo deveria continuar como antes e parecer normal. E, de fora, tudo de fato parecia normal até o último segundo, tanto em Capitólio quanto em Brumadinho.


É a aparência de normalidade pela qual gostamos de nos deixar enganar e iludir. A crença de que tudo continuará como antes. Embora se saiba que a catástrofe é iminente, se é acomodado e covarde demais para fazer alguma coisa, preferindo a cegueira. É mais fácil. Acho que isso, de certa maneira, também é humano. Algo que pode ser observado até mesmo em relacionamentos amorosos. A pessoa sente que algo não anda bem, mas, por comodismo e hábito, evita o conflito e não muda nada, deixa tudo continuar como está – até que o parceiro em algum momento se vai, e o mundo se desmorona sobre quem ficou.

É claro que é completamente diferente quando se trata de vidas humanas e responsabilidades políticas. Nesse quesito, observo que o Brasil se destaca por sua negligência. De certa forma, é o país das catástrofes anunciadas.

Dei-me conta disso pela primeira vez quando aconteceu o acidente com o bonde no bairro turístico carioca de Santa Teresa em 2011. O bonde amarelo e pitoresco descia uma rua, saiu dos trilhos, tombou e derrubou um poste. Seis pessoas morreram, e 57 ficaram feridas. A causa: os freios não estavam funcionando, faltava manutenção. Mas até hoje, ninguém foi preso ou nem sequer responsabilizado. A impunidade fomenta a irresponsabilidade.

Quando andei no bonde pela primeira vez, em 2006, percebi como tudo era velho, torto, improvisado, mal mantido, desde os trilhos até o próprio veículo. O bonde fazia um barulho enorme, como se estivesse gritando que algo não estava bem.

E quem se lembra de quando o Museu Nacional pegou fogo? Por causa de um aparelho de ar-condicionado velho e malcuidado, o Brasil perdeu alguns dos artefatos mais valiosos de toda a sua história. Faltou até mesmo água para os bombeiros nos hidrantes ao redor.

Para quem trabalhava no museu, provavelmente não era nenhum segredo que os ares-condicionados eram velhos e estavam com defeito. Talvez até se tenha tentado alertar os responsáveis. Mas nada aconteceu, deixou-se as coisas seguirem adiante.

Assim como toda chuva forte no centro do Rio leva ao transbordamento da canalização repleta de lixo. Há anos o problema é conhecido, mas nada acontece. A cada tempestade, a luz acaba no meu bairro, mas nada é feito para solucionar o problema no longo prazo. Os eletricistas da Light sempre têm que vir de novo, depois de os alimentos na geladeira já terem esquentado e várias horas de trabalho no computador perdidas.

O problema mais grave do Brasil – e que recebe muito pouca atenção –, porém, é o contínuo desmatamento da Floresta Amazônica. É a megacatástrofe anunciada. O desmatamento já está levando não só a uma enorme, irrecuperável e custosa perda de espécies, mas, sobretudo, a períodos de seca em outras regiões do Brasil. O estado de São Paulo, que fica na mesma latitude da Namíbia, seria um deserto sem as nuvens que vêm do norte e fazem chover.

Cientistas alertam que o ecossistema amazônico já pode estar à beira do colapso. O que aconteceria então, é difícil de imaginar. Capitólio, Brumadinho e o Museu Nacional são sintomas de uma doença bastante disseminada no Brasil, que provavelmente ainda não mostrou toda a sua força.
Philipp Lichterbeck

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Tratoraço no Brasil

 


O capitalismo da ausência

No dia 3 de janeiro, a Apple se tornou a primeira empresa da história a alcançar o preço de US$ 3 trilhões. A cifra equivale, em números aproximados, ao dobro do PIB brasileiro. É dinheiro – e é dinheiro que não para de crescer. Em um intervalo de 16 meses, o valor da Apple subiu 50%, passando de US$ 2 trilhões para US$ 3 trilhões. A escalada não deixa mais dúvidas sobre o fato de que o centro do capitalismo está nas chamadas big techs, as gigantes de alta tecnologia que têm uma incomparável capacidade de inovação.

Em julho do ano passado, as cinco maiores big techs (Apple, Google, Amazon, Microsoft e Facebook, que foi renomeada recentemente como Meta) bateram, juntas, o preço de US$ 9,3 trilhões. Agora, valem mais.

Durante a pandemia, com as medidas sanitárias de isolamento, as cinco foram às alturas. Eram as companhias mais preparadas para lucrar com o que se começou a chamar de “trabalho remoto”, e também com o e-commerce, com o e-governe com o home office. Suas ferramentas se tornaram imprescindíveis.


Em abril de 2020, havia 4,5 bilhões de habitantes do planeta, em 110 países, vivendo (ou tentando sobreviver) em regime de lockdown. Entrávamos numa era de virtualidades que não conhecíamos: escolas, mesmo as recalcitrantes, tiveram de se render ao expediente das aulas a distância; escritórios de advocacia de qualquer lugarejo adotaram o home office; serviços públicos começaram a ser oferecidos online e os movimentos da sociedade civil se canalizaram para as plataformas digitais – e tome abaixo-assinados eletrônicos.

Começava ali um período estranho, com trabalhadores trabalhando sem comparecer ao local de trabalho, cidadãos exercendo seus direitos sem estar lá, missas pelo Youtube e namoros pelo Whatsapp. A economia se adaptou muito bem, obrigado. Não veio catástrofe nenhuma nos ditos “mercados”. O que veio, isto sim, foi mais acumulação, mais concentração e mais crescimento do valor e do poder das big techs, que se firmaram como estrelas no capitalismo da ausência.

Estamos vivendo uma mutação social das mais intrigantes. Na Revolução Industrial do século XIX, falava-se em “força de trabalho”. Era essa “força” que o operariado vendia nas linhas de montagem. A “força de trabalho” era uma energia física que tinha como combustível o sangue humano. Com ela, os proletários moviam engrenagens, enroscavam parafusos, empurravam carcaças, pacotes e carrinhos abarrotados de carvão. Hoje, a velha “força de trabalho” parece ter ficado de escanteio. O capital não liga mais para ela, ou, ao menos, não liga tanto. Máquinas robotizadas fazem o serviço, colhem a cana, soldam peças na fuselagem dos automóveis, operam os telemarketings da vida e da morte.

Agora, o interesse do capital tem foco em outros atributos da gente. Não requisita mais a força física, mas o olhar, a imaginação, a atenção, o desejo. Esses atributos já não têm tanto a ver com o corpo, com os músculos e com o esqueleto que nos sustenta, mas com a máquina psíquica. O capitalismo da ausência – com as big techs na vanguarda – desenvolveu fórmulas para explorar as nossas mais recônditas fantasias. Eis porque, com as multidões confinadas, a economia não parou.

O modo de produção em que estamos embarcados consegue extrair valor – a distância – de corpos em estado semivegetativo, prostrados atrás de uma tela eletrônica. Só o que é convocado a entrar em atividade, nos corpos dormentes, é o olhar e as pontas dos dedos. O capitalismo se higienizou. Nunca a ausência física do explorado foi uma solução tão lucrativa.

Mas o grande trunfo das big techs não está no home office, que, aliás, já virou carne de vaca (ou, no caso brasileiro, virou osso de vaca). Hoje, todo mundo diz que trabalha remotamente, inclusive quem não trabalha. O maior diferencial dos grandes conglomerados, como Apple e suas assemelhadas, todas monopolistas globais em seus ramos (ou troncos) de atuação, foi a transformação do consumo em trabalho. No modelo de negócio das gigantes da tecnologia, consumir é trabalhar.

O tal do “usuário”, enquanto pensa usufruir de funcionalidades gratuitas, enquanto imagina se divertir, está trabalhando de graça. É o “usuário” quem “posta” os “conteúdos”, é o “usuário” que, sem saber, fornece de graça todos os seus dados pessoais (que depois serão vendidos a peso de ouro para os anunciantes), é o “usuário” que, com seu olhar, também gratuito, costura as significações e assimila os conteúdos das marcas e das mercadorias. O pobre “usuário” é ao mesmo tempo a mão de obra e a matéria-prima que saem de graça. Depois, no fim da linha, é ele, o “usuário”, que vai ser comercializado. A isso se resume o melhor negócio de toda a história da humanidade.

Se você quiser, pode tentar ser otimista. Pode falar dos prodígios curativos da telemedicina e do conforto de jogar na Mega-sena sem sair de casa. Nada contra. Apenas leve em conta que a sua ausência vem preenchendo grandes lacunas, quer dizer, vem abarrotando de dinheiro virtual muitas burras digitais.

O covarde Bolsonaro

Espumar insinuações sem provas pelo canto da boca e, ao levar uma resposta, recuar, fingir-se de ofendido e se desmentir é uma tática de covarde. Desfilar tanques do Exército para ameaçar as instituições e, diante do fiasco que lhe poderia custar o mandato, pedir a alguém que lhe escreva uma carta de retratação também denuncia o covarde. Fazer-se de macho para meia dúzia de beócios no cercadinho, insultar mulheres repórteres e cercar-se de esbirros, gente dada a violências físicas, igualmente é de covarde.

Jair Bolsonaro não é só o pior presidente da história do Brasil democrático. É também o mais covarde. Sua tática de falar que "ficou sabendo", "ouviu dizer" e "estão dizendo que tem coisa", sem se assumir como quem acredita naquela informação, é de covarde. E sua campanha contra a vacina nunca é feita com afirmativas tipo "A vacina faz mal!" ou "Não se vacinem!". Esconde-se em perguntas que induzem à dúvida e ao medo, como "Quem garante que não vai fazer mal?" ou "Quem se responsabiliza?". Coisa de covarde.

Bolsonaro desfila sem máscara entre multidões, jactando-se de não ter se vacinado. Será? Quem garante? Pode muito bem ter sido vacinado em segredo por seu cúmplice, o ex-médico Marcelo Queiroga, que, pelo menos, ainda deve saber aplicar injeção. Talvez já tenha tomado até a terceira dose. Se seus próprios ministros se vacinaram pelas suas costas, por que Bolsonaro não se vacinaria pelas costas da nação?

Aliás, não sou eu, mas estão dizendo por aí que tem coisa em tudo que Bolsonaro faz pelas costas da nação.

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Cara Catarina Rochamonte. Sobre sua coluna "Os esbirros de Lula" (10/1), em que me atribui o poder de "usar régua de cálculo eleitoral para prejudicar a pré-candidatura Sergio Moro" —e precisa?—, você ficaria surpresa se soubesse por quantos segundos por ano me ocupo de Sergio Moro.

Era da futilidade

A futilidade de tudo o que nos vem da mídia é comandada pela impossibilidade de este palco se manter vazio. Música, spots, flashes, publicidade, informação, filme, loucura – sem alternativa para o preenchimento da tela – senão um vazio sem apelo
Jean Baudrillard, “Cool memories”

Utopia, um dia a gente chega lá


Ela está no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para caminhar.

O uruguaio Eduardo Galeano ouviu esse comentário sobre utopia numa conversa com o cineasta argentino Fernando Birri e o relatou no livro “As palavras andantes”. Utopia, como você lembra,é o clássico do inglês Thomas Morus que descreve uma sociedade fictícia onde não acontece nada de ruim. Utopia é felicidade. Nestes dias de renovação da esperança, o horizonte parece mais perto e a gente volta a crer que é só mais um passo e pronto, aí está a utopia!

Utopia é sonho e sonho cada um tem o seu e caminha com ele. O da moça, desesperada com o desemprego e portando um cartaz no sinal fechado na pista do Lago Sul, em Brasília, é arrumar dinheiro pro aluguel atrasado… A utopia da família protegida da chuva só pela copa da mangueira, como o arremedo miserável de um presépio vivo, ali bem pertinho do Palácio do Planalto, é que algum mago jogue uma coberta qualquer, um brinquedinho pras crianças pela janela do carro (oficial?)…O sonho de felicidade do homem que gritava “é a fome, é a fome” numa quadra residencial da Asa Sul da capital federal era que lhe caísse na cabeça um resto do filé mignon de algum almoço abastado (verba de gabinete?), o dos milhões na fila do auxílio desemprego é ter a carteira profissional assinada de novo, ou pela primeira vez (nem precisa ser um DAS…).

O horizonte de cada um estava bem ali, mas se afastava na velocidade do sinal que abria, da janela que se fechava, do carro que passava, na dureza da frase “não há vagas” e levava a utopia de cada um…

Todo dia, toda hora, somos obrigados a dar mais um passo no caminho dessa vida melhor. A busca da Utopia é trabalho pra todos nós. Se andarmos juntos, ela, um dia, não nos escapa. Me atrevo, aqui, a uma receita:

Primeiro, misture suas aspirações com as de seus amigos, parentes, colegas de trabalho e de toda a sua comunidade. Tempere com a suavidade da liberdade, com o gosto forte da verdade, elimine o ardor da intolerância, o amargo da corrupção e leve tudo ao calor das ruas. Vá adicionando o melhor de cada sonho encontrado…Mas, importante: não desista, nunca, desse caminhar no rumo da Utopia. 2022 chegou. Hora de dar mais um passo na busca do Brasil mais livre, mais solidário, mais igual. Feliz Ano Novo. Vote bem em 2022!

Muito dinheiro para os ‘bem atendidos’

A entrevista que o presidente Jair Bolsonaro concedeu à Rádio Jovem Pan na terçafeira passada serviu para, mais uma vez, evidenciar o seu despudor em afrontar os princípios republicanos mais comezinhos e indicar uma das razões, talvez a principal, pelas quais alguém tão despreparado como ele – administrativa, intelectual e moralmente – siga inabalável no exercício da Presidência da República, a despeito de todos os crimes de responsabilidade que cometeu, descritos em mais de uma centena de pedidos de impeachment, e de todos os males que vem infligindo ao País desde que tomou posse.

Sob seu governo, avaliou Bolsonaro, o Congresso está “muito bem atendido”. Primeiro, é preciso reconhecer que o presidente não mentiu. Aí está o volume recorde de liberação de emendas parlamentares ao longo desses três anos de mandato a comprovar a afirmação, especialmente as emendas do relator-geral do Orçamento, tecnicamente conhecidas como RP-9. No entanto, é preciso deixar claro o que Bolsonaro entende por “muito bem atendido” e, principalmente, em que bases se dá esse “atendimento”.

“Hoje em dia, todos estão ganhando”, afirmou o presidente à rádio, em referência aos deputados e senadores. “Além das emendas impositivas, por volta de R$ 15 bilhões por ano, tem uma outra forma de conseguir recurso, que é a RP-9. E só em RP-9”, prosseguiu Bolsonaro, sem manifestar qualquer sinal de constrangimento, “os parlamentares têm quase o triplo de recursos do Ministério da Infraestrutura, do (ministro) Tarcísio (Gomes de Freitas). Então, o Parlamento está muito bem atendido conosco.”

É muito dinheiro, mas não é verdade que “todos estão ganhando”. A liberação de emendas RP-9 contempla primordialmente os parlamentares que compõem a base de apoio ao presidente no Congresso, como revelou o Estado em uma série de reportagens que, desde maio do ano passado, tornaram público o chamado “orçamento secreto”. A distribuição dessa bilionária soma de recursos públicos por meio de emendas RP-9 é feita sem levar em consideração critérios técnicos, sem transparência e, sobretudo, sem equidade entre os congressistas. Na prática, o governo dividiu os parlamentares em dois grupos: os de “primeira classe”, que apoiam o governo, e o resto.

Em português cristalino, “orçamento secreto” é compra de votos no Congresso. Não sem razão, a prática espúria “estarreceu” ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) e levou a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), a suspender, em um primeiro momento, o pagamento das emendas RP-9, classificadas por ela como um instrumento que “se distancia dos ideais republicanos” e que é operado “sob o signo do mistério”. Contudo, pouco tempo após manifestar “perplexidade” diante do pagamento das emendas RP-9, a ministra liberou a execução dos repasses a pedido dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Ambos prometeram à ministra dar transparência aos acordos que viabilizam o pagamento das emendas, como se não estivessem obrigados pela Constituição a fazê-lo. Mas, até agora, não honraram a palavra empenhada.

A entrevista de Bolsonaro foi uma aula de desfaçatez. Mas ele não está sozinho na subversão dos “ideais republicanos” mencionados pela ministra Rosa Weber. Há neste Congresso “muito bem atendido” quem se disponha a se apropriar de recursos do Orçamento para satisfazer interesses eleitorais ou financeiros muito particulares. Não se sabe quais exatamente por não haver transparência em relação às transações. Se são legais e republicanas, por que o sigilo? A dúvida singela, não respondida até hoje, abre espaço para dúvidas muito razoáveis sobre a higidez de todo o processo que cerca as emendas de relator-geral.

Malgrado ser o presidente que mais liberou emendas parlamentares desde 2003, Bolsonaro foi o que menos conseguiu aprovar projetos de sua iniciativa no Congresso. É evidente que o “atendimento” prestado por Bolsonaro a um grupo de parlamentares – e não ao Congresso – se presta, fundamentalmente, a garantir sua sustentação política no cargo para que ele siga fingindo que governa o Brasil sem ser incomodado.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

'Estamos a dar-lhes uma segunda oportunidade'

São seis Davides a enfrentar 33 Golias: a Sofia, o André, a Catarina, a Cláudia, a Mariana e o Martim contra 33 países europeus. Os jovens portugueses, em conjunto com a Global Legal Action Network (GLAN), estão a processar os países que consideram ser responsáveis pela pouca atuação para com a crise climática que se vive hoje.

Autodenominam-se os “queixosos”, que não estão a atacar, mas sim a dar uma segunda oportunidade aos governos europeus. “Nós somos as provas de que a crise climática existe, e somos nós, a nova geração, que vamos acartar com as consequências das gerações anteriores à nossa”, começa por contar André Oliveira à VISÃO.

Tudo começou quando, há quatro anos, os irmãos Sofia e André foram desafiados pela GLAN – uma organização sem fins lucrativos que apoia ações legais contra violações de direitos humanos – a juntarem-se à Catarina, à Cláudia, à Mariana e ao Martim para exporem as suas preocupações com as alterações climáticas. “Como a nossa geração é que vai sofrer com as alterações, a GLAN fez algo que nunca tinha sido feito: juntou o caso das alterações climáticas com os direitos humanos”, explica o adolescente de 13 anos.

Os seis conheceram-se em Leiria, e desde esse momento que sentem que podem fazer a diferença. “Foi uma sensação mesmo boa, porque ficámos logo muito unidos e temos uma causa em comum que nos diz muito”, recorda Sofia Oliveira, de 16 anos. Assim nasceu a Youth4ClimateJustice, a cara do processo.

A ação destes jovens é mais prática do que técnica, até porque para isso têm toda uma equipa de advogados que completam essa parte e que prepararam o processo contra os países. “Nós somos os porta-vozes, os queixosos que querem passar a mensagem”, explica André.

Sofia acrescenta que também investem muito tempo em investigação: “Vemos e analisamos muitos documentários e reunimos semanalmente para falar sobre as informações que fomos recolhendo. Reunimos também para que possamos perceber em que ponto estamos em tribunal e dar a voz do grupo.”

Para que se possa compreender como é que se faz a queixa de 33 países ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, André explica que, numa fase inicial, os jovens pediram ao tribunal que avisasse e notificasse todos os países processados. Depois deste passo, cada Estado teve de apresentar medidas e testemunhos de como vão tentar combater as alterações climáticas. Essas medidas foram enviadas de volta ao Tribunal, que mais tarde devolveu aos jovens. Neste momento, e até dia 9 de Fevereiro, os membros da Youth4ClimateJustice têm de analisar as propostas dos países: “Temos de perceber se fazem sentido, se são válidas ou se estão só a tentar enganar-nos”.

Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, República Checa, Alemanha, Grécia, Dinamarca, Estónia, Finlândia, França, Croácia, Hungria, Irlanda, Itália, Lituânia, Luxemburgo, Letónia, Malta , Holanda, Polónia, Portugal, Roménia, República Eslovaca, Eslovénia, Espanha, Suécia bem como Noruega, Rússia, Suíça, Turquia, Ucrânia e Reino Unido são os países que estão a ser processados desde o dia 3 de setembro de 2020.

O grupo acredita que este processo vai resultar em medidas reais e que ainda se está a tempo de salvar o planeta. Para André, as propostas vão ser apenas executadas a longo prazo: “Não acredito que os países deixem de, por exemplo, produzir energia com combustíveis fósseis de um dia para o outro. Vai ser uma transição lenta. Diria que só perto de 2050 é que a maioria estará a utilizar indústria verde.”

Já Sofia garante que o processo demonstra o caráter urgente de atuação: “As alterações climáticas já eram tão extremas em 2021… Como será em 2022? O nosso caso vai mexer com muitas pessoas e há vários adultos e crianças que se estão a mexer para que alguma coisa seja feita”, diz. “O nosso futuro está em jogo, e estamos a dar uma oportunidade a todos, oportunidade à geração anterior, porque sabemos que eles erraram e é preciso remediar isso.”

O caso dos seis jovens está a ter grandes repercussões fora de Portugal, mas garantem que não querem ser uma versão portuguesa da Greta Thunberg. “Queremos ser só a Sofia e o André. Até porque temos formas diferentes de agir. A Greta é mais de manifestações, ela já está muito frustrada e eu entendo-a. Mas a nossa ação é mais legal, mais burocrática. Queremos espalhar a esperança e mostrar que com pequenas ações podemos mudar e cuidar do planeta”, afirma André.

Se André e Sofia tivessem de escolher um ídolo, não seria Greta, mas sim uma pessoa que está no seu antípoda geracional: David Attenborough. “Ele inspira-nos muito com as suas entrevistas, porque começa sempre por mostrar como a natureza é linda, e de repente explica como tudo está devastado e como já não há muito que fazer”, começa por descrever Sofia. “Mas o mais incrível é que ele ainda tem esperança e consegue passar essa mensagem. E nós queremos continuar a espalhar também essa esperança.”

Essa esperança, no entanto, não pode ser só movida pelos mais novos. “As crianças e os jovens têm de ser ouvidos, mas os adultos também têm de estar alerta. São eles que têm mais poder e que podem votar em pessoas que realmente podem fazer algo pelo nosso planeta”, reafirma o jovem.

São também os mais velhos que têm de equilibrar o que é mais importante: o dinheiro e o ambiente. “O dinheiro é muito importante na nossa sociedade e vai sempre continuar a ser. Mas se equilibrarmos o dinheiro e o ambiente, pegando num para ter o outro, conseguimos salvar o planeta”, confere Sofia. Neste momento, é preciso “gastar dinheiro para recuperar o nosso ambiente.”

A mensagem que deixam é esta: “Isto não é um ataque”. “Para os governos, eu gostava de dizer que eles são os governantes do povo e que são eles que têm a voz e por isso é importantíssimo agir. Isto não é um ataque. É uma segunda oportunidade, e uma oportunidade para que possam resolver aquilo que está a acontecer”.

Expert em ditadura

A nova ditadura não é de uma hora pra outra. Vem aos poucos. Vai tirando da sua liberdade aqui e acolá. E quando você se move até a cintura na areia, não tem como sair mais. O Brasil ainda corre esse risco. Não está descartado
Jair Bolsonaro, que de ditadura entende

Pequenas maldades

Nóis sofre, mas nóis ri.

Vai dizer que não riu quando soube que a vizinha negacionista saiu toda pimpona para a viagem de férias e foi barrada no check in. Voltou pra casa injuriada, com a desagradável tarefa desfazer mala e cuia. Sem vacina, sem Europa. Metade da rua soube e riu. Os mais malvados murmuraram: Bem feito. Rindo.

Vale o mesmo para os barrados em restaurantes, espetáculos, etc.. Toma negacionista!

Vai dizer que não riu com a foto do Moro de óculos escuros em uma boate, no Nordeste? Seria um disfarce, conjuntivite, new style?

Vai dizer que não riu quando as férias bagaceira do piloto de Jet ski/PR acabaram em intestino enfezado? Riu mais ainda quando o camarão levou a culpa pelo nó nas tripas. A piada veio pronta. Se a trava está no reino dos moluscos, imagine quando for lula?

Vai dizer que não riu com a invertida, em carta aberta, do General da ANVISA ao capitão bocudo?

Qual o interesse da ANVISA por trás disso aí? Indagou o PR, com sua performance de sabichão/Tonho da Lua, sobre a aprovação da ANVISA para vacinação, contra Covid, em crianças de 5 a 12 anos.

No sábado, dia 8/01/22, Antônio Barra Torres, Contra-Almirante, médico, que preside a ANVISA mandou essa: Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa ou sobre qualquer um que trabalhe na ANVISA.

E ainda pediu retratação do capitão-falastrão que, apesar de Presidente da República, na hierarquia militar seria subalterno do Contra-Almirante, patente equivalente a de General.

Jair ficou dois dias sem palavras, naquele estado catatônico do “Ah é, é”?, quando não se sabe como rebater uma lambada cara a dentro.

Rimos de novo, vá?

Ontem à noite, primeiro ao seu estilo, Jair disse que nunca acusou a ANVISA de corrupção e classificou a carta de Barra Torres como “muito agressiva”. Minutos depois, voltou ao seu toró de palpite habitual. Disse que “é comum ver Agência criar dificuldade para vender facilidade”.

“Não quero acusar a ANVISA de absolutamente nada. (Jura?) Agora, que tem alguma coisa acontecendo, não tem a menor dúvida que tem”.

Tem o quê, seu Jair? Diga lá!

Ou seja, como já apontou Barra Torres, saber de coisa errada e não denunciar é prevaricação.

Jair, o mentidor, é mesmo prevaricador contumaz.

Bora aguardar próximos rounds do General X capitão rolando lero.

Nesse melê a que somos submetidos diariamente, desde que esses tipos botaram a mão na presidência do Brasil, rir é fundamental para desopilar o fígado e sobreviver às raivas, aos medos das Covids, que mudam de nome, da influenza, da dengue. De tudo junto.

Jair é um pandego. A la Mussolini, é perigoso mas pandego.

Com ele et caterva, nóis sofre, mas nóis também ri. E toca a vida.

Essa nossa resiliência – com riso e/ou pela fé e esperança – é registrada nas pesquisas de comportamento, como no levantamento do Observatório da Febraban, realizado em dezembro, pelo Ipespe. Mais da metade dos 3000 entrevistados (58%) se dizem satisfeitos da vida. Estar com boa saúde apesar da grave crise sanitária é um dos principais motivos por esse sentimento. Tipo: Sobrevivi, tá de boas.

A esperança aparece também em mais da metade (53%) dos entrevistados, que acreditam em tempos melhores, ainda que não seja em curto prazo. Pra esses brasileiros, em 10 anos, o país estará melhor.

Esse otimismo chega aos 58% entre os jovens de 18 a 24 anos, pessoas com nível superior e entre os que ganham de 2 a 5 salários mínimos.

O desencanto alcança 22% dos entrevistados, que imaginam o país pior em uma década. Sentimento que é maior entre as mulheres (25%).

14% dos entrevistados jogam a toalha. Não acreditam em mudanças, acham que o país vai continuar igual. Entre as mulheres esse percentual de descrédito chega aos 19%.

Mais da metade dos entrevistados quer um país mais justo e com menos desigualdade social. Sem esquecer cuidado e respeito à natureza.

E com esses sonhos vamos resistindo. Rindo até do que mete medo.

PS.: Com tristeza. Solidariedade e respeito às vitimas da chuva, mais uma dor a castigar o Brasil neste começo de 2022.

Militares, golpismo e oportunismo

Alcançou grande repercussão a carta do diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, cobrando de Bolsonaro uma retratação diante de suspeitas infundadas a respeito de decisões da agência sobre vacinas. Barra Torres vem se afastando do presidente, mas daí a considerar que estão em campos opostos vai uma longa distância.

O comando da agência é uma posição estratégica para o agronegócio, esteio do atual governo. Pela Anvisa passam as análises de todos os agrotóxicos usados no Brasil. Vejamos o exemplo do paraquate, associado à incidência da doença de Parkinson em trabalhadores que o manipulam.


O processo que levou ao banimento do veneno começara em 2017. Em setembro de 2020, ele foi, de fato, proibido, mas, dias depois, a Anvisa aprovou o uso para quem tivesse estoques do produto. Um doce para quem adivinhar quem propôs o relaxamento da norma, que agradou em cheio ao agronegócio.

Agora que Bolsonaro derrete nas pesquisas, outros tomam atitudes que contrariam o chefe. O comandante do Exército, Paulo Sérgio de Oliveira, determinou a vacinação contra a Covid para que militares retornem ao trabalho presencial. E proibiu que divulguem notícias falsas em redes sociais. Oliveira foi quem poupou o general Pazuello de punição quando este participou de um ato com Bolsonaro, em evidente transgressão disciplinar.

Outro exemplo é o ex-ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, que toma ares de democrata ao assumir cargo no TSE. É o mesmo que celebra o golpe de 1964 e que jogou dinheiro público no lixo ao autorizar a produção de cloroquina no laboratório do Exército.

São movimentos oportunistas, típico "reposicionamento de marca" de uma parcela dos militares. Bolsonaro não serve mais como instrumento de seu projeto de poder e, ao que parece, eles irão buscar alternativas. Isso não os torna menos golpistas nem anula o fato, negativo em todos os sentidos, de que estão fazendo política quando deveriam estar nos quartéis.

Pensamento do Dia

 


A tragédia de Capitólio é a alegoria de um desastre nacional

Muito usada por pensadores gregos, como Platão, autor da mais famosa delas, o Mito da Caverna, uma alegoria pode ter vários significados, que transcendem ao seu sentido literal. Representa uma coisa por meio da aparência de outra, uma metáfora ampliada. Com 10 pessoas mortas — todas já identificadas, a maioria da mesma família, ocupantes da lancha Jesus, atingida pelo desmoronamento de parte de uma das escarpas do grande cânion da represa de Furnas —, a tragédia de Capitólio (MG) é a alegoria de um desastre nacional anunciado.

Registrado por meio de vídeos e fotos de turistas que presenciaram a tragédia, o flagrante do acidente de Capitólio é chocante. Em circunstâncias normais, um passeio de lancha no local contrastaria fortemente com as imagens de desespero e dor de milhares de famílias desabrigadas pelas enchentes em diversas cidades mineiras, muitas das quais ainda submersas, repetindo o que ocorreu na Bahia há duas semanas. O que era para ser uma tarde de sábado magnífica se transformou na tragédia que comove o país, enquanto chuvas torrenciais castigam Minas Gerais.

Foi uma fatalidade. Entretanto, o gerenciamento de risco ensina que acidentes desse tipo não acontecem de uma hora para outra, são tecidos por meio de uma sucessão de fatos identificáveis e de consequências previsíveis. Contingências e erros acabam confluindo para um desfecho catastrófico. Em quaisquer circunstâncias, mesmo num período de seca, as rochas que desabaram se desprenderiam, porque a erosão progressiva da escarpa estava em curso irreversível. O fenômeno é muito estudado por geólogos. O Rio de Janeiro vive permanentemente esse tipo de problema, por causa de suas encostas, muitas delas ocupadas por favelas e/ou circundadas por habitações e logradouros. Ou seja, o acidente poderia ter sido evitado.


É uma metáfora com o que está acontecendo no país, neste começo de ano sob temporais. Fomos surpreendidos pela quarta onda da pandemia, que já chegou com tudo, conforme se pode observar por meios dos relatos de médicos e pelas imagens registradas no pronto-atendimento dos postos de saúde. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, utiliza um subterfúgio antiquado para esconder da opinião pública o que está acontecendo: tapar o sol com a peneira. O apagão de dados do SUS, que impossibilita uma avaliação precisa da propagação da variante ômicron, não impede que as pessoas fiquem doentes. Uma epidemia de Influenza H3N2, que chegou ao país muito antes do previsto, agrava ainda mais a situação.

Nas redes sociais, circula um vídeo de um bando de pequenos pássaros numa praia que se movimentam de forma sincronizada: quando as ondas vêm, eles se afastam do mar; quando se vão, eles se aproximam das águas. Sempre tem uma ave mais afoita ou um retardatário que acabam alcançados pelas ondas. Um gozador resolveu comparar essas imagens com o nosso comportamento diante da covid-19. A grande maioria participou de confraternizações de Natal e ano-novo. Os mais afoitos ou descuidados acabaram doentes. Agora, diante do avanço da ômicron, os desfiles de blocos e escolas de samba, os bailes e outros eventos de carnaval estão sendo cancelados. As viagens também.

Medidas de prevenção estão sendo tomadas pelas autoridades sanitárias, prefeitos e governadores, porém, contrastam fortemente com o comportamento negacionista do presidente Jair Bolsonaro, cujas atitudes são previsíveis. Estima-se que a quarta onda dure de dois a três meses, com base no que aconteceu na África do Sul, onde surgiu a variante ômicron. Naquele país, com 56 milhões de habitantes, em 106 dias, os casos subiram de dois mil para 20 mil por dia e, depois, voltaram para dois mil. Estudos mostram que essa variante é menos letal do que a delta, mas é preciso levar em conta a diferença de escala demográfica, pois o Brasil tem 212 milhões de habitantes, ou seja, caso haja um grande número de contaminados, a baixa letalidade, em termos quantitativos, pode representar muitos óbitos.

Muitas pessoas com a terceira dose de vacina estão contraindo e propagando a doença, a maioria de forma branda ou assintomática. Cerca de 25% dos brasileiros não tomaram sequer a primeira dose da vacina, principalmente as crianças; 33%, tomaram somente uma dose. É muita gente, o que compromete o controle da pandemia. Por isso, é grande o risco sanitário. Por causa do apagão de dados do SUS, não se sabe bem o que está ocorrendo em termos estatísticos, mas os indícios de que a economia já está sendo afetada pela situação sanitária são evidentes, devido ao número de pessoas afastadas do trabalho, o que deve agravar a recessão e complicar ainda mais a situação da população de baixa renda, que sofre com a fome e o desemprego.

Revivendo a síndrome de touro

Abrimos 2022 com a sinalização de que viveremos um ciclo de tensão, envolto no cobertor eleitoral. A par das costumeiras escaramuças que o país costuma abrigar sob a teia de uma guerra pelo poder entre protagonistas que lutam para aumentar sua fatia de bolo, desta feita estaremos diante de uma encruzilhada: à direita, descortina-se uma trilha de curvas e buracos, que dificultam a caminhada dos peregrinos pela régua civilizatória; à esquerda, uma vereda também sinuosa, que impede descortinar horizontes claros.

O fato é que, mais uma vez, padeceremos da síndrome do touro, caracterizada pela sentença: pensar com o coração e arremeter com a cabeça. Não é novidade. Os ciclos eleitorais são propícios a expandir os níveis de emoção e a enfraquecer as taxas de racionalidade. País tropical, o Brasil lapida a feição de território emotivo, diferente do modus vivendi de nações que forjaram a identidade no cimento da racionalidade, como os países nórdicos, por exemplo.


Olhemos para o pano de fundo, onde está a lenha que alimentará fogueiras de múltiplos tamanhos: a avaliação de três anos do governo Bolsonaro; a crise sanitária, com a troca de chumbo grosso entre guerreiros da situação e da oposição; a discussão sobre as vacinas, um tema de intensa polêmica; a avaliação dos governos estaduais; as operações espetaculosas da Polícia Federal, como esta recente que teve como alvo o ex-governador de São Paulo, Márcio França, que volta a disputar o governo em outubro próximo pelo PSB; a crise hídrica, com falta de chuva em algumas regiões, rebaixamento do nível dos reservatórios e excesso de água em outras: as inundações na Bahia, Minas Gerais e outros Estados garantindo imagens fortes no espaço eleitoral.

Os dois principais fogueteiros serão Jair e Luis Inácio. O presidente, como mostra todos os dias, tende a reforçar a condição de vítima, valendo-se do escudo emotivo originado pela facada de um maníaco, Adélio Bispo, cuja recorrência ilustra a expressão do bolsonarismo desde 2018. A recente obstrução intestinal, que interrompeu o périplo do presidente em SC, foi mais um episódio perpetrado pelo Senhor Imponderável, que costuma nos visitar.

Lula, de seu lado, mostra-se como o benfeitor dos pobres, famintos e distantes do pão sobre a mesa. E mais: sem o rancor verborrágico de outrora; ao contrário, veste o manto da união, sob a bandeira de um pacto super-partidário, com que espera ter apoio de entes à esquerda e ao centro-direita. Sua aliança com Geraldo Alckmin, ex-tucano, possível candidato a vice em sua chapa, está sendo chamada de “estratégia das tesouras, cujas bandas abertas parecem mostrar diferenças. Ambas, porém, cortam apenas para o lado desejado por quem as manuseia. As redes sociais batem bumbo: gato e rato se unem. Até composições musicais viralizam exibindo as “peculiaridades” destes animais.

O lavajatismo será acusado de exorbitâncias. O troco virá na esteira de lembranças sobre o mensalão e o petrolão, a serem tirados do baú e exibidos como trunfo para mostrar a corrupção na era lulista. A questão será: o discurso “pegará”? As massas se incomodarão com o passado ou preferirão ouvir mensagens diferentes que denunciavam os subterrâneos da corrupção? Eis algumas situações que tendem a balizar atitudes e o sistema cognitivo dos eleitores: o estado da economia, falta de dinheiro no bolso, greves controladas ou um cordão de movimentos reivindicatórios, enfim, o Produto Nacional Bruto da Felicidade Social, o PNBF. Entre 0 e 10, que nota ganhará em setembro/outubro?

A insatisfação/satisfação se fará presente nas urnas. As emoções ganharão teor expressivo junto às correntes das margens, mas encontrarão resistência por parte de contingentes do meio da pirâmide. Assistiremos a uma campanha eleitoral paralela, com registros bombásticos nas redes sociais. Será uma guerra de verbos e adjetivos, desfechados principalmente por partidários de Bolsonaro e de Lula.

Chegaremos esgotados em outubro. Afinal, o país continuará patinando no mesmo lugar ou dará um salto seguro para enfrentar o amanhã? O sentimento deste escriba é de que a crise ensejará oportunidades para o Brasil. Mesmo revivendo a síndrome do touro.

Crise militar é real ou é fabricada pelo próprio partido dos generais?

O presidente da ANVISA Antonio Barra Torres assina nota como “Oficial General da Marinha do Brasil” em que exige – sim, exige – retratação do Bolsonaro pela insinuação que ele fez sobre supostos interesses escusos da ANVISA ao preconizar tecnicamente a imunização de crianças.

“Se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate”, anotou Barra Torres, que ainda desafiou Bolsonaro: “Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa […]”.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária não é um órgão militar. É uma instituição civil dotada de autonomia científica para regulamentar e regular produtos, insumos e práticas de saúde à luz da ciência, da legislação nacional e dos protocolos da Organização Mundial de Saúde incorporados ao ordenamento jurídico brasileiro.

Em vista disso, portanto, é inadequado e totalmente despropositado o uso, pelo presidente da ANVISA, do seu posto na hierarquia militar. A evocação do cargo militar, por outro lado, parece não ter sido fortuita; pode ser algo deliberado e orquestrado com o propósito de confundir e gerar caos.

Por que Barra Torres assinou o comunicado como “Contra-Almirante RM1 Médico – Marinha do Brasil” – portanto, um superior hierárquico do capitão reformado?

Escudado no mandato aprovado pelo Senado de Diretor-Presidente da ANVISA, Barra Torres usa, porém, a hierarquia militar para dar ordens a Bolsonaro – inferior na hierarquia militar, mas seu superior hierárquico enquanto comandante-supremo das Forças Armadas.


Não é preciso muito esforço para deduzir que, em qualquer desfecho deste episódio, é bastante significativa a possibilidade de eclosão de uma crise.

Qualquer que seja a reação de Bolsonaro, seja ela ensaiada ou não, o potencial de crise e impasse é considerável. Até que ponto isso é planejado e fabricado? Ou será resultado de uma crise real no interior dos estamentos militares?

Ou os militares pretendem fabricar uma “crise militar” pra tumultuar o ambiente político e institucional; ou, então, há, de fato, uma “crise militar” que, de todo modo, serve para tumultuar e desestabilizar o já tenso clima político e institucional.

Do ponto de vista do partido dos generais, o cenário de crise real ou fabricada oferece-lhes uma equação de ganha-ganha, na qual, em qualquer caso, do ponto de vista deles, as Forças Armadas assumem as rédeas da situação.

Em qualquer caso, o efeito seria o mesmo: as FFAA sempre estarão a postos para “garantirem a lei e a ordem” diante do caos promovido pelos próprios militares no contexto da guerra híbrida que desenvolvem.

Seja na eventualidade duma crise real, ou de uma crise fabricada por eles mesmos, uma pergunta se impõe: por que fazem isso?

Se algo tem ficado cada vez mais claro, é que o partido dos generais joga nas duas pontas: tumultua e simula caos e, ao mesmo tempo, oferece o controle total da situação.

Não por acaso, nos últimos dias eles plantaram notícias na imprensa sobre riscos de violência na eleição de outubro.

É um truque manjado. Na realidade, com meses de antecedência eles testam a reação da sociedade a um roteiro que já está escrito de antemão, de um possível “Capitólio de Brasília” que podem estar armando, nos moldes dos acontecimentos terroristas perpetrados pelos trumpistas nos EUA em 6 de janeiro de 2021. O general Fernando Azevedo e Silva já está escalado em posto-chave no TSE para cumprir eventual “missão”.

Neste cenário, eles “naturalmente” preveem que as Forças Armadas serão “convocadas” a oferecerem a solução salvadora de garantia/tutela da democracia e de estabilidade do sistema diante da crise que eles próprios inventam e produzem …

Por trás das imagens cândidas e de prestação de serviços comunitários que o Exército publicou no twitter nos últimos dias, se esconde a face real duma instituição transformada em facção política; convertida em milícia armada que conspira contra o Estado de Direito e tutela a democracia.

O professor da UFRRJ Francisco Carlos Teixeira da Silva arrisca uma hipótese que não deixa de ser alentadora, ainda que de duvidosa confirmação, na opinião dele mesmo: “há uma versão de crise fabricada para esvaziar a pressão sobre o caso da Bahia, já que a ‘facada – episódio 2022’, não colou”, disse ele.

Os sinais estão no ar.