quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Quem manda aqui sou eu

A querida colega Hildegard Angel do 247 tem razão. Não se viu ontem nas manifestações um soldado marchando, nem um evangélico cantando hino religioso. É uma constatação importante que vem a se juntar à minha reflexão. Bolsonaro está isolado e toda a sua pauta é individualista e sem propósito. O que ele defende? Nada coletivo.

Aliás, como ele mesmo prometeu, só defende a destruição. O discurso é todo feito no EU, jamais no NÓS. Não há projeto para o país, nem mesmo o econômico que era o que juntava alhos com bugalhos, ou seja, o mito com o Paulo Guedes e o Mercado. Acabou tudo. Pensando bem, de coletivo o projeto neoliberal não tem nada.

A população que ainda segue o mito (calculam em 20%) também pensa assim. Eles são aquele grupo que espera a atitude do salvador, do indivíduo, do deus, do mito, do guerreiro até do príncipe que vem salvar a população do monstro malvado. É o salvador de um lado e o demônio, mais justo ao estilo, do outro. O bem contra o mal. Deus e o diabo. O certo e o errado, o branco e o preto. Pátria e família. Tudo absoluto, nada relativo. Ele particulariza tudo para poder dar uma solução também particular. Não passa pela cabeça dessa gente nenhuma solução coletiva.

Eles acabaram com os sindicatos, com as ONGs, com as instituições culturais com qualquer projeto que pense na solução para muitos. Não se fala em fome, em pobreza, em trabalho. Nada que envolva mais de meia dúzia de pessoas. Não se fala em cultura, em saúde, em educação, nada que encha uma sala de aula, um museu ou um hospital. Nada. A pandemia não existe mais, a cultura também não, e a escola precisa ser reduzida a um colégio militar que ensina a disciplina, individualmente, cada um por si, obedecendo ao superior e não contestando suas ordens.



O que se viu ontem foi isso e as pesquisas mostram hoje no Globo o tipo de população que estava na Paulista. Classe média, ensino médio, de cor branca e maioria de homens. Nada mais médio. Nada mais individualista e sem ambições coletivas. A característica da classe média mais explorada pelo governo Bolsonaro é justamente a do cada um por si. Nada de se juntar ao vizinho. Melhor passar por cima dele querendo, por mérito próprio, chegar acima, o que quase nunca vai acontecer, do que se juntar a ele e juntos lutarem por algo melhor. Nada disso. Não há uma palavra de ordem coletiva e construtiva de alguma coisa. É só destruição e catarse a favor de um capitão marrento que grita exatamente o que o sujeito na rua quer ouvir. Não há nem confraternização entre os que ouvem. Um abraço, um sorriso. Nada. Só entre bandidos condenados. Selfies com o Queiróz têm para eles mais importância do que um programa de governo que vise melhorar a vida de todos. Eu sou amigo do bandido, do espertalhão, do transgressor. Eu prefiro avançar o sinal vermelho, não respeitar o radar de velocidade e não obedecer ao Supremo do que seguir as leis da sociedade, as decisões da justiça ou até mesmo os caminhos do Congresso.

O país deles é o país da não- política, da meritocracia, da segregação da malandragem e da esperteza. Nada que a democracia use em seus princípios. Bolsonaro não é um político incompetente, ele é um fascista perverso e é preciso que a imprensa oficial diga isso. A Globo, a CNN e os jornais ficam criticando o presidente como se ele fosse um político conservador que comete muitos erros, mas pode se redimir. Cada vez menos, é verdade, mas eles são incapazes de enquadrar o mito onde ele sempre esteve desde o começo e nós sabíamos. Ele sempre foi um militar medíocre que deu um jeito esperto e aliado a cúmplices inescrupulosos e outros inocentes acabou seu elegendo. Mas ele não quer nada com a política. Ele não sabe e não gosta. É preciso que ele seja chamado de tirano e fascista como sempre foi e tiranos fascistas não gostam de soluções coletivas. Gostam de aparecer cavalgando, andando de moto, discursando impropérios e debochando de tudo que é progresso social. Repete o “quem manda aqui sou eu” ignorando as regras do país que governa. Quem o aplaude também pensa assim. Nada é perfeito. Eles existem e Freud e Marx se juntam para explicar. Nada a esperar de Bolsonaro e quanto mais cedo a sociedade se convença disso, mais cedo voltamos a ser uma democracia.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Pensamento do Dia

 


Ruas foram espuma, projeto de golpe continua, elite ainda é conivente com Bolsonaro

No 7 de Setembro, Jair Bolsonaro cometeu mais alguns crimes de responsabilidade, motivo de processo de impeachment, entre outros que podem se tornar objeto de inquérito e condenação no STF. Na noite desta terça-feira (7) lúgubre, uns senadores haviam decido ir ao Supremo pedir a investigação por meio de uma “notícia-crime”. Os ministros, por sua vez, por ora ainda discutiam a elaboração de uma “mensagem dura” (hum...), apesar de Bolsonaro ter chamado alguns deles de “canalhas” e de dizer, aliás outra vez, que pode ou não obedecer a decisões do tribunal maior.

Vai ter consequência? Uns governadores, uns gatos pingados do PSDB e um ou outro partido centróide passaram a sussurrar a palavra “impeachment”. Um tucano manco, aliás meio bolsonarista, umas andorinhas depenadas e um monte de galinhas gordas de emendas não fazem um verão neste tenebroso inverno de Bolsonaro. As elites precisam tomar vergonha na cara (...), pois o tirano não vai parar a não ser que seja confrontado objetivamente. Se não o fazem, estão a dizer, na prática, que essa alternativa ou qualquer outra são piores do que Bolsonaro. Em geral, o mundo político se ocupa apenas e mal e mal de eleição, sem que ao menos exista oposição organizada, menos ainda da “terceira via”.

Que mais aconteceu em mais um dia de golpeamento da República e do projeto dos Bolsonaro de fugir da polícia? A espuma das ruas.


Sim, Bolsonaro até que juntou muita gente em São Paulo, cerca de 125 mil pessoas na Paulista, na conta razoável da Polícia Militar (este jornalista esteve lá), o equivalente a 1% da população da cidade. Sim, poderia ter acontecido algo de muito mais grave, mortes, depredação das sedes dos Poderes etc. No essencial, foi o de sempre.

Grosso modo, nas ruas houve a espuma de aglomerações covidárias em São Paulo e uns arreganhos de falangistas mais organizados em Brasília, financiados pelo agro ogro e por outros empresários bolsonaristas. No entanto, o Domingo no Parque autoritário paulista foi uma reunião meio cansada e não muito sensacional de gente convertida, não de batalhões fascistas prontos para a marcha (ainda reclusos em certos quartéis, clubes de tiro e milícias).

Bolsonaro falou para o “público interno” e não tratou de assunto real do país, nem para fazer demagogia: fome, inflação, falta d’água e luz, de emprego. Em Brasília, disse ao público que chamaria o “Conselho da República”, a quem mostraria fotos da sua força nas ruas. Era uma bravata para a galera e uma ameaça avacalhada e inviável de decretar um estado de sítio ou algo assim.

A espuma fez borbulha em mais um dia de trabalho do bolsonarismo: a normalização do golpe e a tentativa de espalhar medo, de intimidação física, um tanto frustrada. O problema está aí: Bolsonaro continua a tocar o seu projeto sem que seja impedido de maneira decisiva, um sucesso relativo. Normalizou a discussão de golpe. Sujeitou o país à tutela militar: gente da política e dos Poderes vai até os quarteis perguntar se vai haver golpe.

Na prática, conseguiu fazer com que a maior parte da elite política e econômica aceitasse seu programa de destruição do “sistema”, elite que apenas se moveu diante da ameaça explícita e reiterada do golpe de Estado. Até agora, a degradação selvagem do país havia sido tolerada: saúde, educação, desumanidade, preconceito, cafajestagem, “rachadinha”, administração comezinha do governo, desprezo internacional, em parte e por alguns justificada pelos 30 dinheiros de meia dúzia de “reformas”, muitas delas porcas.

É preciso agir contra os ataques de Bolsonaro

O tão temido 7 de Setembro de Bolsonaro não produziu mais do que discursos delirantes e incidentes isolados, como era mais ou menos esperado. O problema é que a coisa não acabou. O capitão reformado segue à frente do Executivo e continuará a investir contra os outros Poderes. Nesse contexto, o Dia da Pátria foi uma escalada, precipitada pelo desespero de quem vê suas chances de reeleição minguarem, mas ainda assim uma escalada. Devemos esperar mais ataques à democracia.


Num país mais decente, Bolsonaro já teria sofrido impeachment há tempos. Ao nem sequer abrir um processo para avaliar se o presidente comete crimes de responsabilidade, a Câmara dos Deputados normaliza suas atitudes antidemocráticas. Felizmente, a resistência ao golpismo presidencial não está limitada ao Parlamento. A cúpula do Judiciário, alvo dos principais ataques de Bolsonaro, sentiu na pele a pressão e resolveu reagir.

A capacidade de resposta do STF e das cortes superiores, porém, é limitada, porque a Constituição blinda o presidente contra ações penais. Elas só podem ser iniciadas com o aval do procurador-geral da República e de 2/3 dos deputados. Mas é possível tentar frear o presidente por outras vias. O TSE já tem os elementos para considerá-lo inelegível em 2022. Também é possível encarcerar os aliados mais exaltados do capitão reformado e até algum dos filhos. No limite, o STF poderia determinar medidas cautelares contra um presidente que comete crimes inafiançáveis e imprescritíveis descritos na Constituição.

Esses são remédios de emergência que talvez se façam necessários. A resposta correta, contudo, como venho insistindo aqui há mais de um ano, teria sido o impeachment. Um observador benigno pode até achar que a população foi enganada pela campanha mentirosa de Bolsonaro quando o elegeu. Mas não há desculpa para a sociedade que tolera ver ataques constantes à democracia sem tomar uma atitude.

Fracasso mortal

A inelegibilidade de Jair Bolsonaro já está garantida. Agora é preciso arrancá-lo na marra do Palácio do Planalto, antes que ele produza danos ainda maiores, dos quais jamais poderemos nos recuperar

Caricatura do ditador

Formou-se uma multidão surpreendente para dois comícios de atração única. Eventos irregulares da campanha eleitoral permanente de um presidente decidido a manter-se no poder a qualquer custo. Bandeiras e faixas produzidas na mesma fábrica de fantasias e ilegalidades. Encontros sem espontaneidade, que passaram por uma linha de montagem cara, industrial, e de cobertura nacional.

Deu tudo certo. Com seus 58 milhões de votos de 2018 hoje reduzidos, pela rejeição, a menos de 32 milhões, ele não pode se queixar do resultado. Não há certeza, porém, que tenha sido uma renovação de confiança ou voto na reeleição.

Bolsonaro não faria essa mobilização à toa e não se deve, portanto, descartar nenhuma intenção mais ambiciosa a partir de agora.

O presidente atribuiu um protagonismo inédito ao ministro Alexandre de Moraes (STF), tentando jogar contra ele até os que, em meio às multidões, não sabiam de quem se tratava. Foi pensando em Moraes que Bolsonaro disse a frase-chave do seu discurso ao garantir que não será preso. O ministro é o condutor dos inquéritos das notícias falsas e dos atos antidemocráticos, crimes em que estão investigados seus filhos e presos amigos, cúmplices e membros do famigerado gabinete do ódio, além de empresários financiadores do esquema. O mesmo Moraes será presidente do Tribunal Superior Eleitoral quando estiver em votação a inelegibilidade. Uma das duas alternativas de desfecho legal do seu drama. A outra é o impeachment.


Diante das multidões, Bolsonaro nunca pareceu tão isolado do Brasil e do mundo. Em confronto com a maioria dos brasileiros favorável à democracia, às suas instituições e ao próprio estado de direito. Como demonstram os manifestos que estão pipocando País afora.

Os bolsoblocks, que já andavam desaparecidos, não são tantos como se esperava. Deu para perceber que, entre seus eleitores, há cidadãos normais: vacinados, racionais, que acreditam ser a Terra redonda e respeitam a ciência. Não são, como Bolsonaro, caricaturas. Existem, aceitam passagens e hospedagens para uma viagem recreativa no feriado e topam animados o papel de figurantes que representaram.

À distância, parece incapaz de ter a inteligência tática que demonstra. Acredita-se que haja alguém a guiá-lo na concepção e execução das suas insanas ações presidenciais. Será alguma liderança da direita internacional? Isto explicaria o grande número de faixas escritas em inglês para dar satisfações a alguém no exterior.

Seja o que for, Bolsonaro seguirá honrando o método que explora, no seu repertório político, três elementos: a covardia, a boa-fé do povo e a violência.

A covardia é um dos elementos típicos de seu discurso. Ele nunca assume a autoria de nada, diz sempre que age por delegação quando foi ele quem determinou tudo: o que dizer, o que pedir. É dele a voz do comando e da ordem de execução. Assim conduz tanto a milícia digital como a claque matinal diária do cercadinho da porta do Alvorada.

Outro elemento de tal método são as falsas informações que acabam ganhando credibilidade popular. A falsidade é instrumento poderoso de ação política e arma eleitoral deste grupo. Bolsonaro decidiu, inclusive, legalizá-la, por medida provisória inconstitucional, assinada anteontem, tornando-a livre de punição. É esta a liberdade de expressão por ele reclamada nos comícios. Assim, salva a própria pele e a dos propagadores de infâmias e mentiras à sua volta. Muitos brasileiros acreditam que podem virar jacaré, assim como acreditam na fraude eleitoral da urna eletrônica.

O terceiro elemento do método é a violência. Bolsonaro não tem recuo possível, seguirá neste rumo até a imprevisível cena final. Que não será pacífica. Na intenção firme de instalar-se como ditador, fez das manifestações do 7 de Setembro uma evidência do golpe que colocou em andamento.

Brasil da barbárie

 


Triste fim do patriotismo

Se tivesse escapado a seu triste fim, Policarpo Quaresma jamais abandonaria sua casa em São Januário para engrossar o "protesto" no Sete de Setembro. Logo nas primeiras páginas da obra-prima de Lima Barreto, o personagem é apresentado como patriota. Um patriota bem diferente dos que avacalham os Poderes para salvar a pele golpista de Bolsonaro.

Nem de longe passava pela cabeça do major Quaresma promover uma guerra de fuzis em nome de Deus e da família contra comunistas imaginários. Seus delírios de Quixote suburbano eram mais modestos e não vinham embalados na camisa amarela com escudo da CBF. Aliás, se pensasse como seu criador, ele deveria odiar futebol, o "jogo do pontapé" trazido por estrangeiros.


Policarpo Quaresma idealizava um Brasil melhor e mais justo. Uma República que adotasse como língua oficial o tupi-guarani —sem imaginar que no futuro os índios seriam demonizados como arqui-inimigos do agronegócio— e um governo capaz de pelo menos eliminar a praga das saúvas. As formigas cabeçudas haviam dizimado seu experimento de agricultura doméstica, com o qual sonhava matar a fome do povo, a mesma fome que hoje atinge quase 20 milhões de brasileiros.

Veio a Revolta da Armada e o humilde major encheu-se de brios e esperanças nacionalistas. Enviou o célebre telegrama a Floriano Peixoto: "Sigo já!". No entanto, ao conhecer o Marechal de Ferro identificou nele "um ar de malfeitor", um político sem interesse verdadeiro pelo país.

Antes de ser morto por soldados de Floriano, Policarpo Quaresma questionou a causa à qual se dedicara: "Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la no intuito de contribuir para sua felicidade e prosperidade (...) Desde os 18 anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades".

Bolsonaro só quer tumultuar. Será que vai conseguir?

Então foi assim o 7 de Setembro, dia em que o Brasil celebra sua independência. Desta vez, com atos grandes pró-governo e muito barulho. E então? Para começar: que bom que tudo ocorreu de forma pacífica. Tenho amigas e amigos que temiam um golpe violento, a tomada do poder à força por Bolsonaro. Respondi a eles, tirando sarro, claro, que ele já está no poder, mas mesmo assim não sabe o que fazer com todo esse poder. Para que, então, um golpe?

Jair Messias Bolsonaro é nada mais que um provocateur. Seu repertório é bem limitado, se restringe a xingar e ameaçar, a bravatas e palavrões. Foi isso que ele fez durante os trinta anos como deputado, nada mais. Nenhuma lei de alguma utilidade ele propôs, e não temos notícias de algum projeto social de sua autoria. Não conseguiu formar um partido, e muito menos permanecer por muito tempo em alguma sigla. Ele não é político, e não sabe fazer política. E nem sabe o que quer politicamente.


O que ele quer – e sabe fazer com maestria – é irritar os outros. Eis a origem do "mito": o cara que responde na lata, sem medo. Ele é bom na hora do deboche e de ofender, de responder sem papas na língua. Já tinha chamado o ministro do STF Luís Roberto Barroso de "imbecil" e "idiota". Agora foi a vez de Alexandre de Moraes ser chamado de "canalha". Que perda de tempo e falta de educação.

Para que tudo isso? Às vezes penso que Bolsonaro quer provocar consequências severas para si, para poder se fazer de vítima. Isso, sim, é outra coisa que ele domina com maestria. Aliás, faz parte do repertório do populista: denunciar forças inimigas que o inibiam de realizar suas políticas fantásticas. Então, ser barrado pelo STF de ser candidato em 2022 seria um presente para ele. Poder posar de vítima sem apanhar nas urnas.

Mas não acredito que o STF caia nessa armadilha. Não vão dar a Bolsonaro o presente de poder posar de vítima. Vão apenas emitir notas de repúdio às falas golpistas do presidente. Como sempre fazem. Depois, vão fingir uma normalidade nas relações entre os Poderes. E esperar o mandato de Bolsonaro acabar.

A pergunta mais interessante é: como o Congresso vai reagir a tudo isso? Pois apesar de todo esse barulho, a aprovação do presidente está em baixa. E deve afundar ainda mais, com a economia "andando de lado", a inflação acelerando e a seca se agravando. O Brasil real tem outros problemas além de Sérgio Reis ou do voto impresso. Será que o Centrão quer afundar abraçado a Bolsonaro?

Tudo indica que Bolsonaro continua sendo um "pato manco" nestes últimos 15 meses de seu governo. Não tem ambição de nada além de liberar armas e obstruir a fiscalização na Amazônia, para agradar o núcleo mais duro dos seus seguidores. Mas não tem e nunca teve uma verdadeira ambição de fazer política de verdade. Apenas tumultuar e irritar os outros. Muito pouco para um país com 210 milhões de pessoas e muitos problemas urgentes.
Thomas Milz

Bolsonaro transforma 7 de Setembro em dia nacional do golpismo

Depois de se apropriar dos símbolos nacionais, Jair Bolsonaro conseguiu sequestrar o Dia da Independência. O capitão transformou o 7 de Setembro numa data nacional do golpismo. Coloriu as ruas de verde e amarelo para incitar a desordem e ameaçar a democracia.

Apesar do isolamento político, o presidente mostrou que ainda é capaz de mobilizar uma minoria barulhenta. Gente disposta a se embrulhar na bandeira do Brasil para defender medidas de exceção, como a prisão de opositores e o fechamento do Supremo.


Na mira de quatro inquéritos, Bolsonaro voltou a cometer crimes de responsabilidade em praça pública. Em Brasília, afirmou que o tribunal tem duas alternativas: “entrar nos eixos” ou “sofrer aquilo que nós não queremos”. Em São Paulo, chamou o ministro Alexandre de Moraes de “canalha” e disse que não cumprirá suas decisões.

Em outra cena de golpismo explícito, ele repetiu que não aceitará o resultado das urnas sem o voto impresso. “Eu não posso participar de uma farsa, como essa patrocinada ainda pelo presidente do TSE”, afirmou, em novo ataque ao ministro Luís Roberto Barroso.


Os bolsonaristas não cumpriram a promessa de depredar a sede do Supremo, mas vulgarizaram o clima de afronta ao tribunal. O capitão aposta nesse ambiente para manter a carta do golpe sobre a mesa. Se não houver reação à altura, ele continuará a avançar.

No palanque montado na Esplanada, o presidente ainda anunciou a convocação do Conselho da República, que se reúne para discutir a adoção de medidas excepcionais como a decretação de estado de sítio. O factoide durou poucas horas, mas serviu para eletrizar a militância governista.

Os patriotas de Bolsonaro não querem soluções para os problemas reais do país, como a inflação, o desemprego e a fome. O que continua a hipnotizá-los é a pregação messiânica contra o “sistema”, o comunismo e outros inimigos imaginários.

O discurso contra a corrupção, que embalou a campanha de 2018, já ficou definitivamente para trás. Isso explica a presença de um sorridente Fernando Collor no hasteamento da bandeira no Alvorada. E a tietagem ao ex-presidiário Fabrício Queiroz na marcha golpista de Copacabana.
Bernardo Mello Franco

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Brasil pinta o sete

 


Cidadania

Cidadania é um dever
do povo.
Só é cidadão
quem conquista o seu lugar
na perseverante luta
do sonho de uma nação.
É também obrigação:
a de ajudar a construir
a claridão na consciência
de quem merece o poder.
Força gloriosa que faz
um homem ser para outro homem,
caminho do mesmo chão,
luz solidária e canção.

Thiago de Mello

Réquiem para o Sete de Setembro

Com quem Bolsonaro vai desfilar neste 7 de Setembro enevoado de ameaças? Suas legiões são formadas por violadores da Constituição, sabotadores de eleições, predadores da democracia e um tropel de sequestradores de esperança.

São mercadores da morte, dispersores do vírus, charlatães com diploma de medicina, atravessadores de vacinas, os que roubaram o ar e o último fio de vida de quem agonizava numa cama de hospital em Manaus. Os que deixaram faltar anestésicos para intubação e obrigaram médicos e enfermeiros a amarrar pacientes como animais desesperados de dor. Os que riram de tudo isso. Os que celebraram um suicídio. Os que ajudaram a matar 580 mil brasileiros.


Os assassinos de indígenas, os incendiários de floresta, os que passam as boiadas, os que contaminam as águas, os que espalham venenos nos campos. Fabricantes de escombros sobre a ruína e as cinzas de árvores seculares. Vassalos do mercado, que subtraem a comida da mesa de pais e filhos, sanguessugas do dinheiro público, especuladores do desespero das famílias pobres, sem emprego e sem horizonte. Exterminadores do futuro.

Militares com seus uniformes cobertos de mofo e seus galardões de sangue, herdeiros da bestialidade dos porões, de Ustra e dos que explodiram bombas no Riocentro, na OAB e na ABI. Golpistas, sim. Terroristas, sim. E também argentários, aproveitadores da boquinha, farsantes do combate à corrupção. Amigos de milicianos e de operadores de rachadinhas e rachadões. Rambos excitados com um fuzil na mão. Criminosos do submundo digital, cantores sertanejos decadentes.

Traficantes da fé dos aflitos, pastores chantagistas de almas desalentadas, talibãs da cultura, dos livros, da ciência, que tentam nos arrastar para a penumbra de séculos passados, que só enxergam o mundo em rosa e azul. Devo ter esquecido alguém. Completem à vontade. Foi com essa gente que Bolsonaro atravessou o Rubicão. E faz tempo. Só não viu quem não quis.

Outros gritos da Independência do Brasil

O grito "independência ou morte!" marcou um novo tempo na história do Brasil. Naquele 7 de setembro de 1822, D. Pedro, até então Príncipe Regente, marcava a emancipação política do território que pertencia a seu pai. O feito foi muito menos pomposo do que o quadro pintado por Pedro Américo em 1888, justamente um ano antes da queda do Império do Brasil. O grito às margens de um rio pouco caudaloso – muito diriam que não passava de um córrego – não fora ensaiado. Foi quase um rompante do príncipe, agora imperador, tomando as rédeas de uma independência que já havia sido assinada por sua esposa dias antes, uma informação quase esquecida num país que insiste em silenciar a atuação das mulheres.


Gerações e mais gerações de brasileiras e brasileiros foram ensinados a pensar a Independência do Brasil tendo o 7 de setembro como seu começo, meio e fim. Uma Independência ou Morte!, que na realidade foi construída anos depois, que pouco fala sobre o complexo e intrincado processo que culminou na emancipação e soberania deste país, que a partir de então passou a se chamar Brasil.

É uma versão dos fatos marcada por o que se tornou praxe ao contar a história do Brasil: a passividade do brasileiro, sobretudo do povo, formado pelo harmonioso encontro das três raças. Uma grande e redonda mentira.

Não foi por acaso que D. Pedro I bravejou Independência ou Morte! naquele 7 de setembro. Ele sabia muito bem o quão esquentados estavam os ânimos de seus súditos. Sabia também que, num tempo não muito longínquo, esses mesmos súditos haviam ousado pensar um país independente e soberano. Por vezes, um país republicano – como na Inconfidência Mineira (1789), na Conjuração Baiana (1798), e na Revolução de Pernambuco (1817). Em momentos mais audaciosos, um país sem escravos.

Mas não foi isso que aconteceu. O 7 de setembro de 1822 foi também a escolha por uma Monarquia – que tinha a particularidade de ser um quarto poder – cuja base social era composta por milhares de escravizados, africanos e nascidos no recém-criado país. Como bem disse o historiador Luís Felipe de Alencastro, o Brasil nasceu apostando na escravidão, projetando-a no seu futuro.

Uma aposta que explica muito o Brasil de hoje e os significados que estão tentando atribuir a este 7 de setembro. Um Brasil forjado pelo e para os interesses de uma classe política e econômica muito bem desenhada, que fez tudo o que estava ao seu alcance para manter seus privilégios e propagar sua visão de mundo, que entendia a população branca como a única detentora do poder e do próprio fazer histórico. Um país para poucos. Os mesmos poucos de sempre.

Mas a questão é que houve independência, e houve morte! Porque não foi apenas a elite econômica e política que desejou uma nação soberana. O povo também a queria. E mais, o povo – esse ser amorfo, heterogêneo, polifônico e profundamente poderoso – lutou por essa liberdade, disputando à unha os possíveis sentidos que ela poderia ter.

É extremamente significativo que tenhamos aprendido tão pouco sobre as Guerras de Independência no nosso próprio país. Como se elas nunca tivessem existido. Mas se nossa soberania foi mais do que um grito, foi porque teve gente lutando e morrendo em nome dela. Piauí, Rio de Janeiro, Maranhão, Bahia. Essas foram algumas das localidades brasileiras nas quais o povo não branco deu novos sentidos para o Brasil, mostrando que o 7 de setembro de 1822 só perseverou graças à luta pela independência da Bahia, que começou em 1822 e culminou no 2 de julho de 1823.

Homens e mulheres, negros, indígenas, mestiços, pobres e nem tão pobres fizeram com que o 7 de setembro se transformasse na nossa primeira data cívica. Foram eles que lutaram, sangraram e, por vezes, morreram por um país que insiste em enterrar seus conflitos e enfrentamentos.

Controlar o passado é uma forma eficaz de definir o futuro. Essa é uma das mais antigas estratégias de exercício de poder. Por isso, precisamos revisitar o passado com criticidade. Porque munidos de um olhar apurado, e de novas perguntas, vamos escutar as vozes de Maria Felipa, uma mulher negra que liderou mais de 200 pessoas contra os portugueses nas batalhas travadas na ilha de Itaparica, Bahia. Ou então ouviremos Joana Angélica, uma senhora branca, pertencente a uma ordem religiosa, que morreu em nome da independência do Brasil. Ouviremos também as vozes de Francisco Montezuma e de seus comparsas, muitos homens negros, que queriam que a liberdade do Brasil se estendesse à população escravizada.

Como bem disse o samba-enredo da Mangueira, vencedor do Carnaval de 2019, ao procurarmos "a história que a história não conta, o avesso do mesmo lugar", veremos que um outro 7 de setembro pode e deve ser nosso. Lutemos por ele.
Ynaê Lopes dos Santos

País da escuridão


A gente se olha no espelho como nação e não vê imagem bonita
Luciano Huck

Preocupado com 7 de Setembro? Pois vem aí 8 de setembro! E 9 de setembro.....

Neste 7 de Setembro, Bolsonaro consolida-se como um presidente paradoxal. Apropriou-se do Dia da Independência para realçar sua dependência à histeria. Exalta o patriotismo piorando a pátria. Ao levar às ruas sua política de atear fogo sistematicamente ao quadro político-institucional, Bolsonaro não prejudica apenas o Brasil. Trabalha contra os próprios interesses.

O presidente se deixa levar por seus reflexos condicionados. O que estas últimas semanas evidenciaram foi que Bolsonaro não deseja —ou não consegue— se livrar dos acessos de histeria que lhe marcam a vida política. Durante três décadas, sempre que se viu em apuros, o capitão preferiu virar a mesa a sentar-se em torno dela.

Bolsonaro busca nas ruas um álibi para continuar botando a culpa em alguém pelo que não consegue fazer no gabinete. Adiciona raiva ao seu caldeirão de prioridades. Nele, misturam-se o hipotético complô de ministros do Supremo, as acusações sem provas ao sistema eleitoral, a confusão entre asfalto e "ultimato", a ameaça de "ruptura"... Esse caldo espesso pode interessar a muita gente, não a um presidente em pleno exercício do mandato.


No momento em que exerce a Presidência de olho na próxima cartada nacional de 2022, não calha bem a Bolsonaro o clima de histeria, muito menos as ameaças à estabilidade institucional. O problema é que ele não dispõe de coisa diferente para oferecer ao país. Demora a se dar conta de que, no regime presidencialista, o rosto do presidente costuma ser a cara da crise.

Para o brasileiro que não o vê como mito, a imagem de Bolsonaro aparece nos instantes mais indigestos: quando enche o tanque do carro, quando paga a conta de luz, quando vai à mercearia, quando sobra mês no fim do salário... Em momentos como o atual, em que o país é moído por uma confluência de crises —a tempestade econômica, a ruína fiscal, o flagelo sanitário, o drama social— o presidente precisaria ser a imagem da tranquilidade.

Ao utilizar o 7 de Setembro para fornecer mais do mesmo combustível que prolonga as crises desde a sua posse, há dois anos e oito meses, Bolsonaro condena-se a, no futuro próximo, ser vítima da própria histeria. Se tudo o que o presidente tiver para exibir na vitrine de 2022 for um clima de Apocalipse e um conjunto de desculpas, a perspectiva de obter um segundo mandato é reduzida.

Noutros tempos, cabia aos partidos de oposição envenenar a conjuntura. Hoje, é Bolsonaro quem puxa o próprio tapete, flertando com a ruptura institucional. Se você acordou preocupado com a eletrificação do 7 de Setembro, relaxe. Vem aí o 8 de setembro! E o 9 de setembro. E o 10, o 11, o 12..... -

Como a histeria não produz crescimento econômico, não faz chover, não barateia a gasolina, não cria empregos e não enche a geladeira, Bolsonaro continuará tirando uma crise de dentro da outra. Ele cultiva o hábito de magnificar crises pequenas, tornando-as gigantescas, barulhentas e ameaçadoras.

Com o beneplácito dos demais Poderes da República, será assim pelo menos até 31 de dezembro de 2022. Não é que falta rumo ao governo. A questão é que Bolsonaro tomou o rumo do brejo. E leva o Brasil junto.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

E tudo se acabar na quarta-feira

As manifestações bolsonaristas de amanhã devem ser grandes. Houve empenho do governo, intensa campanha nas redes sociais, financiamento para aluguel de ônibus do interior — enfim, um esforço excepcional.

Elas podem até ter algumas consequências adiante, mas, do ponto de vista de objetivo político, são um momento de sonho para vestir fantasias que não sobrevivem na quarta-feira.E, quando não há objetivo político válido, dificilmente uma força se impõe, mesmo havendo muita gente e até poder militar.

Uma das bandeiras do bolsonarismo está praticamente morta. É o voto impresso. Foi derrotado no contexto legal em que deveria ser analisado, e não há como voltar atrás. Nesse caso particular, estarão simplesmente carregando um defunto, na expectativa de que lhes possa ser válido no ano que vem, em caso de derrota eleitoral.

A outra bandeira do bolsonarismo será, aparentemente, a liberdade de expressão. Em termos abstratos, ninguém se coloca contra ela. A dificuldade é aceitar que se preguem a violência e a invasão de prédios públicos como se estivessem exercitando a liberdade, quando, de fato, ultrapassam seus limites legais.

Essa aceitação de limites está presente, por exemplo, no parecer da subprocuradora Lindôra Araújo, que denunciou o ex-deputado Roberto Jefferson.

Isso não significa que o tema não deva ser constantemente discutido. E o é no Brasil. Juízes têm censurado jornais; há debates sobre instruções do Supremo relativas a combate a fake news; o próprio Bolsonaro rejeitou uma lei que penaliza a divulgação em massa de notícias falsas. É um tema em aberto, mas a conclamação à violência e o racismo, para citar alguns, são limites legais que não podem ser transpostos apenas por atos de vontade.

Bolsonaro é presidente. Tem pouco a dizer diante de uma pandemia que não desapareceu, como creem alguns otimistas. Governa um país em que a economia estagnou, encontra diante de si uma crise hídrica que se desdobra também numa crise de energia.

Numa situação dessas, o presidente lidera manifestações pelo voto impresso ou por uma duvidosa concepção de liberdade. Isso é tão distante da realidade como conclamar as pessoas a comprar fuzis e definir como idiota quem está preocupado com os alimentos, cada vez mais caros.

O exame dos problemas reais do Brasil implica a definição da responsabilidade do presidente. Até a crise hídrica, de certa forma determinada por fenômenos como La Niña, seria mais branda se não houvesse tanto desmatamento e tantas queimadas estimulados pelo governo Bolsonaro.

Pode ser que se ouça nas ruas algum grito contra a corrupção. Mas será de uma amarga ironia. Bolsonaro apenas se aproveitou da bandeira. Os fatos descritos na CPI mostram como gigantescos golpes estavam armados contra os cofres públicos. As denúncias de rachadinha contra o filho ex-deputado estadual estendem-se ao filho vereador e alcançam o próprio gabinete de Bolsonaro.

Como se não bastassem essas revelações, o encontro com o setor fisiológico do Congresso revela que Bolsonaro, como ele próprio diz, se originou no Centrão e sempre se localizou nesse espaço político.

Muita gente pode ir para a rua, mas, se estiverem perdidos, de nada adianta serem muitos se perdidos de armas na mão.

O Brasil vive um momento dramático de crise sanitária ainda não vencida, crise econômica e social, crise ambiental, seca e escassez de energia, quase 15 milhões de desempregados.

Uma grande manifestação que ignore essa realidade e um presidente que se esconde dela servem apenas para mostrar como é profundo o abismo em que nos metemos e como será difícil superá-lo sem um grande debate sobre a reconstrução.

A cortina de fumaça que Bolsonaro cria para tentar sobreviver politicamente não nos deixa avaliar ainda quanto a democracia, o tecido social e os recursos naturais foram devastados neste período. É uma tarefa para a quarta-feira de cinzas.
 
Fernando Gabeira

O dia seguinte

Milhares devem ir às ruas na terça-feira em atos cuja ambiguidade dos mobilizadores impede qualquer previsão. Podem dar eco à beligerância do presidente Jair Bolsonaro, acabar em invasão do STF e do Congresso, com quebra-quebra e violência. Ou simplesmente se limitarem a louvar o “mito”. Fora a ficcional hipótese de golpe – com tanques e fuzis –, o dia seguinte será uma quarta-feira como outra qualquer. Talvez de cinzas para o presidente.

Bolsonaro deu caráter de “ultimato” às manifestações, endereçando a ameaça aos desafetos-mor do STF, ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. Por óbvio, não traduziu o significado da bravata. Como os ministros não vão sucumbir ao presidente, Bolsonaro colherá aqui a primeira derrota. Há muitas outras.


Durante a preparação dos atos, a base bolsonarista rachou. Parcela significativa dos caminhoneiros, fiéis desde a greve de 2018, sentiu-se usada. Gente graúda do agronegócio não só se afastou do governo como abriu um flanco oposicionista. Empresários de porte romperam a zona de conforto e até se digladiaram, caso da Febraban frente ao recuo da Fiesp em divulgar o manifesto pró-harmonia entre os Três Poderes, e da Associação Comercial de Minas diante da postura bolsonarista da Fiemg.

A rinha com o STF provocada pelo presidente também desagradou parlamentares. Neoaliados do Centrão preferiram distância estratégica dos atos da terça-feira e só bolsonaristas de carteirinha ativaram as suas redes em favor das manifestações.

Até entre evangélicos a corda roeu. Algumas igrejas pentecostais tidas como aliadas reclamaram abertamente da primazia do pastor Silas Malafaia sobre todas as coisas. Nas redes, começaram a surgir mensagens questionando o espírito cristão de quem prega fuzis para todos e a guerra como instrumento de paz, discurso semelhante ao da Igreja Católica, expresso pela CNBB.

Os danos para o presidente e suas hostes não param aí. Há ainda investigações em curso sobre o financiamento das manifestações, seja para pagar as caravanas – ônibus, infraestrutura e alimentação –, seja em publicidade. Alguns casos, com equipamentos e dinheiro públicos.

Esgarçou-se também o tecido ideológico que mantinha a turba unida. Na coordenação, enquanto muitos apelam à moderação, com o mote de “liberdade”, outros tantos preferem o confronto e a lacração do Supremo. Não há saída: se o presidente decidir por uma raríssima e quase inacreditável compostura nos palanques de Brasília e São Paulo, vai decepcionar muitos; se for o incendiário de sempre, será responsabilizado pelas consequências.

Mais: os preparativos para os atos, com as toadas desafinadas de Sérgio Reis, reações exacerbadas do presidente, frases de efeito e ameaças sem fim, conseguiram ocupar a mídia, deixando em segundo plano o que realmente aflige Bolsonaro. No dia 8, a CPI da Pandemia no Senado reassume seu protagonismo. Os processos contra o presidente no STF, os filhos enrolados com as rachadinhas, o ex-funcionário de confiança e a ex-mulher-bomba ganharão mais espaço. Pelo menos até que ele invente outra moda, o que seguramente acontecerá.

Os atos da terça também não têm o condão, por mais que Bolsonaro queira, de escamotear as crises reais do país. A pandemia vai somar mortos aos mais de 580 mil, o desemprego e a inflação continuarão em alta, a miséria não cederá.

O único fator a favor do presidente é a coleta de imagens das multidões, espertamente concentradas em dois polos, Praça dos Três Poderes e Avenida Paulista. Elas servirão para alimentar as redes sociais e, claro, a campanha eleitoral. Em São Paulo, onde por segurança os drones foram proibidos, alugou-se um helicóptero para garantir as melhores cenas. Sabe-se lá custeado por quem.

Isolado, e deprimido pela popularidade em queda, Bolsonaro pretende exibir “apoio do povo” contra os mais de 60% que o rejeitam. Primeiro, vai confrontar as pesquisas com imagens do 7 de Setembro. Depois, diante do fracasso anunciado em 2022, usará esses registros para “denunciar” fraudes eleitorais promovidas no “quarto escuro do TSE”. Tudo parte do script de um derrotado, mas que não cairá sem provocar tumulto e caos.

Bolsonaro diz ter três alternativas: “estar preso, estar morto ou a vitória”. O Brasil só tem duas: impedi-lo já – o que seria mais conveniente para a sanidade do país – ou derrotá-lo fragorosamente nas urnas.
Mary Zaidan

domingo, 5 de setembro de 2021

Pensamento do Dia

 


O Louco Sagrado

A carta O Louco é a última do Tarô— a de número 22—, mas também é considerada a carta 0 (zero), ou seja, pode ser o início e/ou o fim do baralho. O Louco não tem numeração certa; como um coringa, entra na linha da jogada e a interrompe, deixando tudo em suspenso e abrindo um novo horizonte, completamente indefinido. Segundo os esotéricos, essa persona não é nada ponderada, enfrenta os seus desafios sem planejar. No jogo de Tarô, O Louco tanto pode ser considerado uma carta benéfica, porque revela a necessidade de se arriscar, quanto também pode pôr tudo a perder, porque não pondera seus atos nem avalia as circunstâncias. O Louco é sócio da imprudência, da falta de paciência e das precipitações. Tudo a ver com o presidente Jair Messias Bolsonaro.

A eleição do atual presidente da República foi uma cartada eleitoral do antipetismo exacerbado, de políticos, militares, servidores públicos, empresários e da classe média mais conservadora e empobrecida. As consequências agora estão aí: catástrofe sanitária, fracasso econômico, crise política, mais desigualdades sociais e um pogrom cultural. Mas também é um fenômeno antropológico, que precisa ser estudado para além das análises políticas e econômicas, porque sua existência tem a ver com a nossa cultura e as características mais profundas do nosso povo, com tradições de origens ibéricas medievais.

Nosso sebastianismo, por exemplo: a busca de um salvador da pátria, inspirada em Dom Sebastião I, que desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. Sem herdeiros, a crise do trono levou Portugal à perda da independência para a Espanha, com a União Ibérica, e ao nascimento da lenda de que, numa manhã de nevoeiro, D. Sebastião voltaria à pátria para libertá-la. As cartas de Tarô surgiram mais ou menos nessa época, entre os séculos XV e XVI no norte da Itália, e foram criadas para um jogo praticado por nobres e senhores das casas mais tradicionais da Europa continental. Hoje, são muito usadas por esotéricos aqui no Brasil, para uso divinatórios, cujos significados são derivados principalmente da Cabala, a vertente mística do judaísmo.


Nossa memória coletiva ancestral pode ser ativada por símbolos, que funcionam como ilustrações para os anseios da alma humana, segundo o psicólogo Carl Gustav Jung, no estudo dos Arquétipos. O Tarô é uma espécie de história em quadrinhos sobre os nossos dramas. O Louco do Tarô é uma representação do “Louco Sagrado”, cujo estereótipo remonta à época do Apóstolo Paulo, em Coríntios, ao conclamar seus seguidores a “serem loucos por amor a Cristo”, como agora fazem o presidente Jair Bolsonaro e seus mais fanáticos partidários.

Na Idade Média, a patética figura do eremita tolo e indefeso, apesar de pouco inteligente, ganhou força popular porque era moralmente virtuoso ou puro. O “Louco Sagrado” era uma representação mítica de uma visão alternativa de mundo, como o Dom Quixote de Miguel de Cervantes, no Renascimento; uma imagem que, depois, viria a ser muito recorrente nas comédias de teatro, cinema e televisão, como as figuras de Carlitos, do genial Carlos Chaplin, e os Três Patetas.

Foi a propósito do “patético” nos meios de comunicação de massa que o filósofo alemão Theodor Adorno, em Mínima moralia (Editora Azougue), escreveu que tão errado quanto crer na existência do “Louco Sagrado”, é imaginar que podemos fazer qualquer julgamento baseados apenas na nossa razão, ou seja, de forma fria e racional. Fazer julgamentos criteriosos, equilibrados, abandonando a emoção é tão improvável quanto fazer um julgamento justo sem o uso da inteligência. Segundo Adorno, “quando for eliminado o último traço de emoção de nosso pensamento, não restará nada para pensarmos”.

Desde a década de 1990, neurologistas têm mapeado o cérebro e conseguido demonstrar com exatidão os processos de razão, de emoção e, consequentemente, o processo de decidir e julgar. Novos equipamentos permitem conhecer com mais detalhes a dinâmica cerebral, tornando possível mensurar a complementaridade entre as sensações e os raciocínios lógicos, as duas faces daquilo que nos torna humanos. No futuro próximo, o presidente Jair Bolsonaro será objeto de estudos de toda ordem, inclusive de natureza psicológica. Seu papel transgressor é incompatível com a liturgia do cargo que exerce e os parâmetros da Constituição de 1988, daí o isolamento político a que chegou, em relação à maioria da opinião pública e ao establishment nacional, que o apoiou em 2018.

Entretanto, o seu carisma e caneta cheia de tinta, em razão da Presidência, demonstram poder capaz de gerar grandes incertezas sobre o futuro, como O Louco do Tarô. O presidente da República encarna para certos segmentos da população o Louco Sagrado indispensável aos movimentos messiânicos. É como se tivéssemos uma espécie de Antônio Conselheiro, o líder de Canudos, na Presidência da República. As manifestações do dia 7 de setembro, não se fala de outra coisa, servirão de parâmetros de adesão a essa distopia que estamos vivendo. Seus fanáticos seguidores estão levando muito a sério o Messias de seu nome.

Provável intenção de Bolsonaro é situação conflituosa para exterminar democracia

Tudo pode acontecer no 7 de Setembro entre a mera reprise das manifestações bolsonaristas e, no outro extremo, eclosões de alta gravidade.

As ocorrências podem ser tão mais variadas quanto maior o número, que se anuncia alto, de cidades com manifestações programadas.

Em todo esse colar de imprevisões, já têm lugares assegurados três ingredientes solidários: o patético, a mediocridade e o vergonhoso.

É possível, mas sem indício nítido, que os pretendentes ao golpe obtenham o que lhes tem sido a carência impeditiva. Os militares bolsonaristas precisam de um pretexto, sem o qual sobram dificuldades até para conter a oficialidade restante, quanto mais para sustentar-se ante reações externas e o mal-estar interno.

Na atual situação do país, tudo deve ser pensado, creio, a partir desse problema político e técnico.


A agitação de Bolsonaro em Brasília será na parte da manhã. Como programa estar na onda paulista a meio da tarde, só por perda do controle haverá de manhã, em Brasília, ocorrências que o retenham aí. O risco forte chegaria à tarde. De encontro ao dispositivo de defesa que o Supremo e o Congresso consigam montar.

Sem confiar muito, é verdade, para outra vez enfrentar a situação patética de dois Poderes da República a proteger-se do governante que empossaram e sustentam no outro Poder.

As condições circunstanciais para um golpe já no 7 de Setembro precisariam de ações muito traumáticas do bolsonarismo, em especial nas ditas manifestações de São Paulo e Brasília.

E isso não se limita a arruaças. A provável intenção de Bolsonaro é iniciar uma situação conflituosa que, desenvolvendo-se, dê aos bolsonaristas militares o pretexto para exterminar a democracia "em defesa da democracia".

É o roteiro Trump, consta que elaborado pelo fascista Stefen Bannon, revisitado pelo discípulo Eduardo Bolsonaro no mês passado.

Trump discursou mandando os apoiadores para o Capitólio com a missão, puxada por incitadores, de deflagrar ali as circunstâncias impróprias para a instalação de um governo inexperiente, em organização, dali a duas semanas.

Se adiada a posse de Biden, que a campanha "Posse dia 20" inviabilizou, estaria dado o grande passo para a "solução pacificadora": anular a eleição contestada.

Aqui, Bolsonaro começou os ataques à eleição ainda na campanha, o que poderia ser um preparativo a arruaça e a intervenção militar em reação à esperada derrota.

Bolsonaro venceu, mas deixou, para posterior interpretação, os primeiros e inequívocos sinais de que sua candidatura veio de uma articulação externa. Assim como está indiciado sobre a Lava Jato, curitibana nas aparências.

No golpismo de Trump e do caudatário Bolsonaro, a convulsão pode ser vista como o trampolim para o golpe, sendo menos provável converter-se em golpe, propriamente.

Não falta quem anteveja neste 7 de Setembro já o começo da guerra civil. Isso exigiria alguma base armada no lado democrata, que não a tem (por ora?).

O dispositivo militar e policial de defesa da ordem constitucional já mostrou de que lado está: a rigor, é o lado em que esteve sempre que a ordem constitucional, os valores democráticos e os direitos civis foram envenenados —e logo sucumbiram.

Faltam militares e policiais autênticos. Nas instâncias civis, entre os encarregados de representar o Estado de Direito prevalecem a mediocridade, a venalidade política, a corrupção.

No patronato, o acúmulo de riqueza inútil é obsessivo e a indiferença pelos meios é o comum. Para esses segmentos, o país e suas multidões não têm interesse, é indiferente haver democracia ou autoritarismo, avanço ou retrocesso econômico, emprego ou pobreza: eles ganham sempre.

Por mais de dois anos e meio o Brasil vê, inerte, a construção de um golpe. Por criminosos e asseclas. Golpe que o inviabilizará talvez para sempre. Metade, ou mais, da população medianamente informada está aturdida. O país, parado, à espera.

É vergonhoso.

Dia de qual pátria?

“Uma pessoa sem memória ou é criança ou é amnésica. Um país sem memória não é criança nem é amnésico — nem sequer país é.” A citação não é de nenhum sábio da Antiguidade. Saiu da verve sempre inteligente de Mary Astor, a atriz de Hollywood que imortalizou “O falcão maltês” nos anos 1930. Quando somada a outra de autoria incerta, mas falsamente atribuída a Platão — “pode-se facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro: a verdadeira tragédia da vida é quando homens têm medo da luz”—, temos o Dia da Pátria planejado para esta terça -feira.

O Brasil que Jair Bolsonaro exibirá no 7 de Setembro deve marchar e incensar o “mito”, não honrar a memória do país. Para tanto, deve esquecer as nações indígenas que em 2021 ainda precisam bater às portas da História e do Supremo Tribunal Federal para não ser esquecidas. Tampouco se verá, na marcha, referência aos mais de 580 mil brasileiros que morreram de Covid-19 sem uma só palavra de compaixão do presidente. A ideia é deletar, esquecer e tentar reescrever o que é inconveniente na História do Brasil de hoje e de outrora.

O presidente também se enquadra na categoria “homem com medo da luz”, mas não só da luz do conhecimento. O medo maior é do clarão de investigações que mapeia a holding do clã Bolsonaro para surrupiar o Erário através da prática das “rachadinhas”, nome inocente do crime de recolhimento de parte dos salários de assessores parlamentares contratados para esse fim. De pai para filhos, de filho para mãe, o cipoal de práticas subterrâneas suspeitas a cada dia adquire mais visibilidade.


Ainda nesta semana, em entrevista a Guilherme Amado e equipe do site Metrópoles, mais um ex-empregado da família veio a público com denúncias da rachadinha atribuída a Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher de Bolsonaro e mãe de Jair Renan, o filho Zero Quatro do presidente. Os detalhes narrados por Marcelo Luiz Nogueira dos Santos são sórdidos e vingativos, além de não comprovados. Mas, ao não pedir anonimato e deixar-se fotografar para a entrevista, o denunciante indica sentir-se seguro, talvez pelo que tenha deixado de falar. De todo modo, em esfera mais sólida, as investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro, com foco em Carlos e Flávio, e as incursões da CPI da Covid em Brasília, que sem querer esbarrou numa liaison talvez dangereuse entre o lobista-mor de Brasília Marconny Faria e o Zero Quatro, prosseguem seu curso.

É essa a tormenta bíblica de Jair Bolsonaro, com outros tantos fios desencapados a apontar para o presidente. O 7 de Setembro nos moldes planejados lhe é necessário para manter acesa a ideia de que “os nossos”, como diz o general Augusto Heleno, são o Brasil. Não são, nem à força. O presidente pode relinchar patriotismo em Uberlândia, decretar a supremacia de fuzis sobre o feijão, mas nada além de um confronto aberto consegue apaziguá-lo. Sua linha de atuação segue o catecismo de mandantes a perigo: levar seus seguidores a também optar pelo desconhecimento. É a tática do nada perguntar, apenas afirmar. No caso da pandemia, são as perguntas que o presidente não fez que determinaram a mortandade de brasileiros indefesos. Só que o “privilégio” de não fazer perguntas é reservado àqueles que disso se beneficiam, aponta a cientista social britânica Jana Bacevic. “Para os mais vulneráveis e explorados”, diz ela, “os efeitos da Covid não são um tema evitável, e sim uma realidade inescapável”.

Com o mundo em emergência de sustentabilidade da vida, o aquecimento global a gritar na nossa cara, o milhão de espécies animais a perigo, a contaminação de águas e solos, o êxodo forçado de massas à deriva, a insegurança alimentar e as desigualdades obscenas da humanidade — nada disso parece frequentar os medos de Jair Bolsonaro. Seu foco imediato é o 7 de Setembro, fora ou dentro das quatro linhas da Constituição. Por via das dúvidas, o Departamento de Estado enviou um alerta a todos os cidadãos americanos residentes no Brasil para que mantenham low profile na terça-feira, evitem as áreas de manifestações e mantenham cautela se estiverem inadvertidamente próximos a protestos —“mesmo manifestações planejadas para ser pacíficas podem virar confrontos”.

Qualquer pessoa, ensina um grande poeta do século passado, pode aprender a pensar, a acreditar, a saber; mas nenhum ser humano pode ser ensinado a sentir. Por quê? Porque sempre que você pensa, ou crê, ou aprende algo, você é a soma de muitas outras pessoas; no momento de sentir, você é apenas quem você é. Será que Jair Bolsonaro sabe quem é?

sábado, 4 de setembro de 2021

Brasil leiteiro

 


À medida que se enfraquece, mais perigoso Bolsonaro se torna

Quanto mais isolado fica, mais perigoso se torna Jair Bolsonaro. Quanto mais votos ele perde como candidato à reeleição, mais dobra sua aposta no golpe que o manteria no poder.

Se não há consenso político para derrubá-lo, também não haverá para fazê-lo ditador caso seja derrotado na eleição do ano que vem – mas isso não o impedirá de continuar tentando até lá.

“A situação ainda vai piorar muito antes que possa começar a melhorar”, disse, ontem, a este blog um ministro do Supremo Tribunal Federal. Com ele concordam políticos de todas as cores.


Como atravessar os 16 meses que restam ao governo se Bolsonaro seguir esticando a corda na esperança de rompê-la a seu favor? Por ora, ninguém em Brasília ou fora daqui tem a resposta.

Ninguém acredita também numa súbita conversão de Bolsonaro à democracia. Presidente não pode tudo, mas pode muito. E o muito que pode basta para causar severos estragos ao país, como se vê.

Fernando Collor montou um ministério de notáveis imaginando com isso driblar o risco de impeachment – não adiantou. Eleito presidente com forte apoio militar, nem por isso apelou à farda.

Dilma se elegeu e se reelegeu contra a vontade dos militares. Acabou derrubada com o discreto apoio deles. Michel Temer salvou-se do impeachment apelando aos políticos, não às armas.

A única boa notícia do momento é a resistência cada vez maior da Justiça, do Congresso e de setores amplos da sociedade à ideia de trocar a democracia pela ditadura.

Para alguma coisa, afinal, serviria um presidente insano.

Dístico



Neste tempo de misérias feito
só se vive contrafeito

Mário da Silva Brito , "Suíte em dor maior"

O 7 de setembro deveria preocupar Bolsonaro

É fato comprovado: se o produto é muito ruim, melhor não fazer propaganda dele, porque as vendas podem baixar ainda mais. Jair Bolsonaro, como péssimo produto que é, deveria enxergar nas passeatas e motociatas de 7 de setembro uma ameaça à sua sobrevivência política. O que importa aqui é a qualidade do público em questão. Só deve dar maluco, do tipo que rasga dinheiro (com exceção do sujeito da Havan, que é maluco que não rasga dinheiro, mas que apoia maluco que rasga).


Por pior que seja a qualidade da nossa democracia — e ela é está bem aquém de sofrível –, qualquer golpe contra ela só faria o Brasil perder ainda mais dinheiro. Muito dinheiro. Nenhum empresário está disposto a bancar aventura golpista, porque não auferiria lucro nenhum disso. Inclusive porque viraríamos párias com certificado internacional. É nesse sentido que devem ser entendidos os manifestos — divulgados oficialmente ou não — do pessoal que não rasga dinheiro, muito pelo contrário. O amor pela democracia é bastante quantificável, senhoras e senhores. O bom negócio hoje é ser sociedade capitalista aberta, pluralista, ecológica, politicamente correta etc. etc., as meras aparências das quais o Brasil está forrado confirmando a essência no Ocidente e suas franjas (pertencemos às franjas).

É péssimo para Jair Bolsonaro, aliás, que até empresário mineiro — e empresário mineiro que pertencia à sua base de apoio, como Salim Mattar, ex-secretário de Desestatização do governo — tenha começado a se manifestar abertamente contra ameaças bolsonaristas e a cobrar por reformas que foram prometidas e morreram no terreno do estelionato eleitoral. Mostra que o seu impeachment talvez esteja deixando de ser tabu.

Um monte de gente maluca nas ruas, gritando por fechamento de STF, Congresso e intervenção militar — e se houver violência, pior ainda — só propagará a certeza de que Jair Bolsonaro deve ser chutado o quanto antes do Palácio do Planalto. Inclusive porque a sua permanência viabilizará ainda mais a candidatura de Lula, que é outra forma de rasgar, senão dinheiro no curto prazo, o futuro do país no longo termo. Se ninguém fizer nada, é o que ocorrerá. E a vitória do chefão petista, como eu já disse, poderá ser no primeiro turno. Teremos, então, um eterno 7 de setembro como o que se avizinha.

'Somos vistos como estrangeiros no nosso país'

Do lado de fora do Supremo Tribunal Federal (STF), na Praça dos Três Poderes, a fumaça e o cheiro de churrasquinho do vendedor ambulante se misturavam aos pouco mais de 1.000 indígenas que olhavam um telão nesta quarta-feira. O ministros do tribunal haviam acabado de retomar o julgamento do processo do marco temporal, que pode definir o futuro da demarcação de terras indígenas e balizar toda a política indigenista no país. Durante toda a tarde, as partes envolvidas no processo fizeram suas defesas em um debate histórico, que pode estabelecer que só são terras indígenas aquelas já ocupadas ou reivindicadas pelos índios até a promulgação da Constituição de 1988, barrando, com isso, muitos dos processos de demarcação em curso e colocando sob risco de questionamentos terras já oficializadas como indígenas.

A polêmica que ronda o tema é tanta que, nesta quarta, os ministros nem sequer conseguiram iniciar seus votos, algo previsto para acontecer nesta quinta-feira, após as manifestações de mais algumas dezenas de amici curiae, ou amigos da corte, instituições interessadas na causa. Do lado de fora, centenas de indígenas de diversas etnias seguem acampados há mais de uma semana, vindos de todas as regiões do país para reivindicar o direito à terra. “Somos vistos como estrangeiros no nosso próprio país”, resume Valdelice Veron, uma Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul.

Com uma clara e contundente política anti-indigenista, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) virou o grande alvo dos protestos ao longo da caminhada. Sob sua gestão, nenhuma terra foi demarcada até o momento. Nesta semana, Bolsonaro criticou, novamente, as demarcações de terra. “Acabaram com Roraima com aquelas demarcações, né? Acabaram com Roraima”, disse o presidente a apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada na segunda-feira. “Tem alguma favela de índio lá?”, questionou, sem especificar ao que se referia. “Foi no Governo Dilma ou foi Lula a Raposa Serra do Sol?”, perguntou aos apoiadores.

O presidente mencionou o território Raposa Serra do Sol, que fica em Roraima, e que foi demarcado graças a um entendimento do Supremo com base no marco temporal. Na época, a corte entendeu que os povos originários já estavam ali antes da promulgação da Constituição e que, portanto, o território pertencia a eles. O entendimento da corte, no entanto, foi restrito àquele território somente.

Agora, o julgamento que está em jogo tem caráter de repercussão geral, o que significa que o que for decidido passa a valer para todos os casos relacionados ao tema. Defendido principalmente por ruralistas, que afirmam que é preciso haver segurança jurídica para os proprietários de terras, a tese causa apreensão nos indígenas, que temem um retrocesso e a perda de direitos. “Índio sem território não é índio”, diz Jaciene Brito, da etnia Tupinambá, na Bahia.

O acampamento recebeu a visita de políticos ao longo da semana. Faltando pouco mais de um ano para a eleição presidencial, subiu ao palco nesta quarta-feira Guilherme Boulos (PSOL), candidato na última eleição. Luís Inácio Lula da Silva (PT) não apareceu, mas enviou um breve áudio, colocado pela presidenta do seu partido, Gleisi Hoffmann, enaltecendo a luta indígena.

Acampados há mais de dez dias, muitos se despediram de Brasília nesta quarta-feira. Ainda assim, o acampamento não será desfeito. No final de semana, começam a chegar mulheres indígenas para a marcha das mulheres, que ocorre entre 7 e 11 de setembro. O evento levanta dúvidas sobre possíveis confrontos, já que começa no dia em que bolsonaristas devem sair às ruas para defender o presidente.

Nesta quinta-feira, o julgamento no STF deve ser retomado. Ainda restaram alguns advogados que farão as suas sustentações de cinco minutos cada um. Depois disso, os ministros começam a votar, partindo do mais novo até o mais velho, o decano. Assim, o ministro Kassio Nunes, indicado por Bolsonaro, inicia as votações. Existe uma expectativa em torno desse primeiro voto, que deve ser contrário aos direitos indígenas. Também é possível que o ministro peça vistas do processo, suspendendo o julgamento, sem data para retomar.

Se isso ocorrer, a corte acabará jogando nas mãos do Congresso a decisão sobre o futuro das terras indígenas no Brasil. Isso porque tramita na Câmara dos Deputados o projeto de lei 490/2007, que impõe na legislação a tese do marco temporal. Estabelece, dentre outras coisas, que as terras indígenas são somente aquelas já ocupadas ou reivindicadas pelos indígenas até a promulgação da Constituição. Também prevê a abertura dos territórios para exploração de projetos, e permite, dentre outras coisas, o contato com indígenas isolados.

Os olhos dos povos originários estão, portanto, voltados também para o Congresso. “Se o PL 490 for aprovado, vai ocorrer um grande massacre”, diz Valdelice Veron. “Porque hoje, diferentemente de quando a Constituição foi promulgada, a gente fala português, a gente não tem medo. A gente não vai sair do nosso mato e quem entrar, não vamos deixar sair também”.

No início de julho, o PL 490 foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara. Agora, aguarda para ser apreciado pelo Plenário. Mas advogados que defendem a causa indígena ouvidos pelo EL PAÍS afirmam que, ainda o projeto de lei seja aprovado no Congresso, a causa não estará perdida. “Se o PL for votado e sancionado antes da decisão do STF, ainda assim será possível questionar judicialmente sua constitucionalidade”, diz a advogada Julia Neiva, da Conectas. “E se alguém quiser argumentar que uma terra entraria dentro do marco temporal, é possível que essa decisão fique suspensa justamente por não haver uma decisão dentro do STF”, completa.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

A podridão que emana do clã Bolsonaro emporcalha o ar de Brasília

Afinal, deu para entender por que o presidente Jair Bolsonaro aconselhou os brasileiros a comprarem fuzil ao invés de feijão, e falou que o futuro lhe reserva a prisão, a morte ou a vitória.

A vitória nas eleições do ano que vem lhe parece cada vez mais distante. O governo já não governa, desmancha-se. A saúde de Bolsonaro não é boa, mas o risco de que morra é pequeno.

Na verdade, ele borra-se de medo de ser preso ao fim do mandato, ou de assistir, antes, à prisão de um dos seus filhos zero. Jura que os protegerá, abrigando-os no Palácio da Alvorada. Mas e daí?

Até quando poderia se negar a cumprir uma eventual ordem de prisão da Justiça? Melhor seria tirá-los do país às escondidas e despachá-los para um exílio vexaminoso.


Bolsonaro elegeu o Supremo Tribunal Federal para saco de pancadas, mas é no Rio que o perigo está e não no deserto do Planalto Central. Aqui é só um puxadinho do inferno para ele.

Avançam as investigações sobre a roubalheira de dinheiro público que o envolve, aos seus quatro filhos homens e a uma de suas ex-mulheres. O país está atônito com as novas revelações.

“Brasília fede”, estampou a manchete do Correio Braziliense no final dos anos 1970, quando o Lago Paranoá emanava miasmas fétidos que incomodavam os moradores da área nobre da cidade.

Desta vez o que fede é o clã que chegou ao poder há quase 3 anos. Quem se lembra de Eriberto, o motorista que ajudou a derrubar Collor? E de Francenildo, o caseiro que ajudou a derrubar Palocci?

Marcelo Luiz Nogueira dos Santos, que trabalhou por 14 anos para a família Bolsonaro, jogou mais lenha na fogueira em que ardem os Bolsonaros ao contar o que viu ao Metrópoles.

Enquanto foi lotado no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio entre 2003 e 2007, alega ter devolvido 80% de tudo o que recebeu no período – 340 mil reais.

Em seguida, primeiro em Resende, no Rio, e nos últimos meses em Brasília, virou uma espécie de babá de Jair Renan, filho de Ana Cristina Siqueira Valle com Bolsonaro.

Segundo ele, Ana Cristina foi quem precedeu Queiroz na tarefa de recolher as rachadinhas não só no gabinete de Flávio, mas também no de Carlos, eleito vereador da Câmara do Rio em 2000.

Somente depois da separação de Jair e Ana Cristina, em 2007, Flávio e Carlos assumiram a responsabilidade pelo recolhimento dos valores dos funcionários de seus gabinetes.

O patrimônio de Ana Cristina, em 2020, era estimado em R$ 5 milhões. Ela não alugou a mansão onde mora, hoje, no Lago Sul, em Brasília, mas a comprou usando testas de ferro.

Ana Cristina joga pesado. Mensagens de celular em posse da CPI da Covid indicam que, a pedido de um lobista, ela acionou o governo para influenciar em nomeações de órgãos públicos.

As mesmas mensagens mostram que Jair Renan, ao invés de trilhar os caminhos ditados pela legislação, recorreu à ajuda de um lobista para abrir em Brasília sua empresa de eventos esportivos.

Quem puxa aos seus não degenera, mas em alguns casos, justamente por puxar, degenera sim. Daí os fétidos miasmas que voltam a emporcalhar o ar sempre tão carregado de Brasília.