quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Perdemos o trem

O trem que conduz ativistas, chefes de Estado, jornalistas e empresários à idílica cidade de Davos, nos Alpes suíços, funciona como uma metáfora do caminho que o documentário O Fórum, recém-lançado nas plataformas de streaming, mostra, de um mundo em lenta, mas inexorável transformação. E o Brasil que aparece na tela perdeu o trem e ficou perdido na estação.

Não é só a cena da conversa que mais parece uma brincadeira de telefone sem fio entre Jair Bolsonaro e o ex-vice-presidente norte-americano Al Gore, que viralizou nas redes sociais como um teaser do documentário, que mostra o quão deslocado o País está. São todos os aspectos abordados, da quarta revolução industrial às emergências climáticas. Somos párias, motivo de piada e preocupação por parte dos atores mais relevantes.


O filme tem duas partes. Uma mais otimista mostra um fórum concorrido em 2018, com Donald Trump posando de dono do mundo, Theresa May ainda não derrotada e um sorridente e galante Emmanuel Macron exalando charme pelos corredores. A edição de 2019 é mais melancólica e cercada de ceticismo, após o Brexit, com a crise comercial entre Estados Unidos e China já deflagrada e com Macron cercado pelos coletes amarelos. Nesse cenário, a presença de Bolsonaro é um constrangimento para todos.

A equipe do premiado diretor alemão Marcus Vetter teve acesso pleno a reuniões preparatórias de Klaus Schwab, fundador e figura central do Fórum, com sua equipe, empresários, ativistas para as duas edições que o filme retrata. Também acompanhou os bastidores, as conversas informais e as iniciativas que acontecem off-Davos, a partir do que é tratado ali.

 

Schwab tenta fugir de todas as formas do mico de ter de moderar o painel com Bolsonaro. Tenta passar o fardo para o presidente mundial da Nestlé, que declina gentilmente. Sua preocupação com a chegada do presidente brasileiro é mostrada em detalhes. Até que, já nos 15 minutos finais do filme, Bolsonaro entra em cena. Seu bizarro discurso de dois minutos na abertura do evento é mostrado na íntegra, com cenas intercaladas da plateia atônita e o filho 03, Eduardo, filmando tudo com cara de “meu paipai” na primeira fila.

A cena da conversa com Gore dá ainda mais vergonha quando mostrada sem cortes. Bolsonaro está na sala de café absolutamente deslocado, acompanhado apenas de Ernesto Araújo. Na conversa com Gore, além de tratar Alfredo Sirkis como seu “inimigo na luta armada”, uma mentira completa e desnecessária, ainda termina o breve e desastrado encontro dizendo que sabe quem o ex-vice-presidente norte-americano é, e não o tem como inimigo.

Em seguida Bolsonaro é abordado por Jennifer Morgan, diretora-executiva global do Greenpeace, que diz que ficou satisfeita em ouvir seu compromisso com a preservação da Amazônia. Bolsonaro não a olha nos olhos, não responde e diz só um “thank you” enfezado ao final. Em seguida, ela tira sarro com uma colega ativista por ter conversado com o presidente brasileiro, e a interlocutora ri de sua “coragem”.

É esta a imagem do Brasil que emerge de um filme que mostra ainda outros líderes mundiais em ação para mitigar os efeitos crise ambiental no mundo. “Pronta?”, pergunta Schwab a Angela Merkel. “Estou sempre pronta”, responde ela, sem a enorme entourage do presidente brasileiro (outro motivo de chacota dos organizadores).

O documentário deixa claro que as discussões sobre mudança de mentalidade de nações e empresas em relação ao meio ambiente não são acessórias, mas essenciais. Isso era verdade no pré-pandemia e será no pós. O Brasil não está no mesmo vagão de todos os demais tomadores de decisões, inclusive os investidores. Passamos vergonha e ficamos perdidos na estação junto com Bolsonaro.

Bolsonaro infecta pelo ouvido

Jair Bolsonaro não se contenta em ser visto como desumano, mentiroso, sem compostura, incapaz de governar, conivente com a corrupção, destruidor do meio ambiente, defensor da tortura, amigo de milicianos, subornador de militares, golpista, genocida e cínico. Também é uma ameaça pessoal à saúde pública. Por seu passado de atleta —como ele define sua carreira de terrorista no Exército—, gaba-se de ser inexpugnável à Covid, chamando de bundões os 115 mil brasileiros que já morreram e quem não tem um serviço médico como o dele, pago com o nosso dinheiro.

Suspeita-se de que, ao circular infectado e sem máscara pelo país, Bolsonaro contaminou uma multidão. A prova é a de que as pessoas ao seu redor, constrangidas a não usar máscara, vivem pegando a doença —só os funcionários do Planalto a contraem à média de três por dia. O mais novo infectado é o seu filho Flávio “Queiroz” Bolsonaro. Mas isso não é causa de preocupação porque, por ser filho de quem é, ele está proibido de reagir como um bundão.


Para mim, quem mais corre perigo com Bolsonaro é aquele pobre intérprete de libras que se vê ao seu lado —também sem máscara— nas declarações oficiais. Não sei o nome, idade ou histórico de atleta do tal senhor, mas espero que ele sobreviva aos perdigotos de Bolsonaro, ao tentar converter em sinais os coices do chefe contra as instituições e a verdade.

Por seu visual sóbrio, parece um homem de família, de sólida formação moral, talvez evangélico. Como será, para ele, dizer “bundão” em libras? E como será quando tiver de traduzir expressões como “porra”, “bosta”, “merda”, “putaria”, “filho da puta” e “puta que pariu”, como as que Bolsonaro ejaculou 28 vezes na reunião ministerial de 22 de abril? E o recente “encher tua boca com porrada”?

É o que me faz temer pela saúde do intérprete de libras. Afinal, certas infecções penetram também pelo ouvido.
Ruy Castro

Brasil, o retorno

 


Última trincheira da escravidão

A escravidão era aceita tão naturalmente, que nem os escravos lutavam pela Abolição; alguns reagiam, mas sem imaginar um mundo em que brancos e negros tivessem os mesmos direitos, fugiam do inferno em que viviam, mas sem imaginar o paraíso da liberdade. Por isso, alguns historiadores dizem que havia escravos até nos quilombos. Intelectuais, políticos, padres, empresários, trabalhadores, viam a escravidão dos negros com a mesma naturalidade como hoje vemos a desigualdade na qualidade da educação, conforme a renda e o endereço da criança.

Demorou para surgirem reações contra maus tratos que sofriam os escravos, tais como a proibição do tráfico, o ventre livre, a liberdade dos sexagenários, mas sem tocar na estrutura escravocrata. Da mesma maneira, nas últimas décadas implantamos medidas favoráveis à educação pública, mas sem a meta de assegurar que o filho do pobre tenha acesso à mesma escola do filho do rico.

A defesa da Abolição só surgiu depois de três séculos de escravidão inspirada desde o exterior, e sob a desconfiança geral da sociedade: por ser vista como uma utopia impossível, desnecessária, contra a natureza das coisas e ameaçadora do estabelecimento social. Os humanistas que eram contra os maus tratos não conseguiam ver a possibilidade, nem a razão, para o fim do sistema arraigado sob visão hegemônica de que a desigualdade entre raças era natural, como hoje é aceita a desigualdade educacional por renda.

Até o final da luta, a bandeira da Abolição foi carregada por poucos. A trincheira contra ela tentou adiar a data e indenizar os donos, mas perdeu. Mesmo assim, quando ela chegou, os não-escravos não aceitaram dar os mesmos direitos aos ex-escravos e seus filhos, negando-lhes terra e escola. Continua resistindo na última trincheira da escravidão: a escola como privilégio para poucos, ricos, na maior parte brancos. A luta atual pela igualdade na qualidade da educação tem este mesmo lento ritmo. As pessoas começam a ter sentimentos de vergonha pelo atraso educacional no país, a perceber que a evolução tecnológica está exigindo conhecimento, mas sem aceitar a ideia de que a escola deve ser a mesma para ricos ou pobres.




Quase 100 anos depois da Abolição, criamos um sistema de escolas públicas municipais, programas para merenda e livro didático, Emenda Calmon; determinamos obrigatoriedade de matrícula dos 6 aos 14 anos, depois, desde os 4 aos 17 anos; implantamos Fundef, Fundeb, PNE-I, PNE-II, Piso Nacional Salarial, mas não nos atrevemos a uma estratégia educacionista. Nenhum partido, nenhum governo, de direita ou de esquerda, defendem e se comprometem com uma estratégia com duas metas: o Brasil ter educação com a qualidade das melhores do mundo, e toda criança ter acesso igual a essa educação, independentemente da renda ou do endereço de sua família. Eleitores e eleitos, não acreditam ou não querem, tanto quanto na escravidão muitos não queriam a Abolição e outros não acreditavam que ela fosse possível.

A igualdade escolar é o gesto que ficou faltando na Abolição. A desigualdade na qualidade da escola é um resquício da escravidão, a última trincheira. Mas a ideia educacionista não seduz a opinião pública. Nem mesmo o movimento negro tem essa bandeira para completar a Abolição, porque se concentra na luta correta, mas insuficiente, para beneficiar os afrodescendentes que terminaram o ensino médio e querem entrar na universidade, mas sem lutar pela alfabetização dos pobres na idade certa, pela erradicação do analfabetismo que ainda tortura 12 milhões de adultos, e garantir a cota de 100% dos jovens brasileiros concluírem o ensino médio com qualidade e qualidade igual. Comportamento parecido com o dos humanistas contra maus tratos, mas sem aceitar a Abolição.

A última trincheira da elite social e econômica é manter para seus filhos o privilégio de uma escola com mais qualidade do que a escola dos filhos dos pobres. Por isso, é difícil um pacto social para uma estratégia que objetive colocar a educação brasileira entre as melhores do mundo, e que todas as escolas sejam concessão pública, abertas para todos os alunos. Mesmo assim, seguindo o exemplo dos abolicionistas, não podemos deixar de lutar por essa bandeira, ainda sabendo que até mesmo aqueles que se incomodam com o vergonhoso quadro de nossa educação vão continuar defendendo os paliativos que caracterizavam os humanistas-contra-os-maus-tratos. E não podemos ficar contra eles, mesmo sabendo a insuficiência.

Chibata nas crianças!

E bons tempos, né?, onde menor podia trabalhar. Hoje, ele pode fazer tudo, menos trabalhar, inclusive cheirar um paralelepípedo de crack, sem problema nenhum 
Jair Bolsonaro em congresso nacional da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Durante a campanha eleitoral de 2018, o então candidato ja havia declardo que "o ECA tem que ser rasgado e jogado na latrina" por ser "um estímulo à vagabundagem e à malandragem infantil"

 

Não quero ouvir que o vírus vai nos ensinar uma lição

Um. Um bom amigo morreu no começo da epidemia. Era um narrador maravilhoso e o dono do café de Jerusalém Tmol Shilshom. Nesse café ocorreu o segundo encontro com a que hoje é minha esposa. Fomos ouvir David Grossman e depois, enquanto caminhávamos pela rua, ela me disse que seu sonho era se casar com um escritor (não tive outra escolha, portanto). Também ocorreu no mesmo café, meu primeiro encontro com o público como escritor. Cinco pessoas apareceram, mas graças à atenção e às perguntas formuladas pelo dono lembro como uma boa experiência. Com o passar dos anos, eu e o proprietário nos tornamos amigos. E tive o privilégio de aproveitar sua especial habilidade para entabular conversas íntimas. Conversas espirituais e honestas após as quais você se sente melhor. Morreu enquanto dormia. Ao que parece, de um ataque do coração. Ainda que, de fato, ele é uma das vítimas do coronavírus. De noite sentiu dores no peito, mas não quis ir ao hospital por medo do contágio. Era relativamente jovem. Tenho certeza de que, se não fosse pelo vírus, ainda estaria com vida. E eu ainda teria meu amigo. Quando soube de sua morte, tive um grande desejo de estar em companhia das pessoas que o amavam. Perguntei onde seria o funeral. Pela situação, me responderam, a cerimônia ocorreria na mais estrita intimidade familiar. Perguntei pela shivá. E me disseram que seria no domingo à noite pelo Zoom. Uma shivápor Zoom?, disse a minha mulher, chorando. Que terrível. Vírus odioso, acrescentei. Eu o odeio. Não estou disposto a escutar mais ninguém dizendo que o vírus “vai nos ensinar uma lição”, e que “vai nos fazer retornar a uma vida mais simples”. O vírus é um filho da puta.


Dois. Outro amigo meu é ator. Quando éramos adolescentes fomos a aulas de teatro juvenil e após duas lições ficou claro quem tinha talento e quem faria melhor procurando outro caminho para expressar suas angústias. Agora, meu amigo ator está sem trabalho. Pelo vírus já faz meio ano que os teatros estão fechados. Na semana passada, a caixa do supermercado não aceitou seu cartão de crédito. Ele me ligou para me contar que acaba de sair de uma entrevista na escola de sua filha para ocupar uma vaga de professor substituto. O que acontece é que a escola é das “democráticas”, de modo que na comissão de admissão de professores substitutos também há alunos. E na entrevista encontrou com duas amigas de suas filhas, garotas de 10 anos que frequentemente vão a sua casa para comer bolinhos e que lhe fizeram perguntas como: Por que você quer ser professor substituto?, e Quais são seus pontos fracos? E que ouviam suas respostas com rostos sérios. Rimos dessa história, em vez de começar a chorar.

Três. Saí com meu amigo músico para caminhar à uma da madrugada. Caminhamos pelos campos nos arredores da cidade e uivamos à Lua. Observei que quando ela não aparece, ele vai mais devagar. Eu sugiro que, enquanto a epidemia durar, ele faça shows ao vivo no Facebook. E me responde que não pode cantar sem ter o público diante dele. Simplesmente, não consegue. Eu lhe sugiro que aproveite o tempo livre para trabalhar em algo novo. Diz que tenta, mas tudo o que escreve lhe parece irrelevante, pertencente a um mundo que já não existe. Durante o passeio, sem perceber tiramos a máscara e, quando nos aproximamos da cidade, um carro de polícia para ao nosso lado e nos repreende pelo megafone: por que estão sem máscaras? Estamos praticando esporte. Isso é esporte?, caçoa o policial. Vão em passo de tartaruga. E qual é o problema? Responde, irritado, meu amigo. Quando era adolescente já tinha a tendência a se meter em confusões. O policial sai do carro, furioso. Digo sussurrando que cale a boca, mas ele grita para o policial: veja, veja, senhor policial, vamos colocar as máscaras. O policial se aproxima, cassetete nas mãos. Seu olhar diz que passaremos a noite no xadrez. Mas, então, algo muda em seu rosto. Para. Observa detalhadamente meu amigo e diz: um momento, você não é...? Meu amigo admite e o policial diz: adoro suas músicas. Vai lançar coisas novas? Está preparando algo? Meu amigo baixa a cabeça timidamente: sim, estou trabalhando em um novo disco. O policial diz, sensacional, sensacional, nesse momento precisamos de uma boa sacudida. Depois, volta a si, entra em seu papel, ergue um dedo de reprovação a ambos e lança um: cuidado ao não usar máscaras, hein? Há uma segunda onda!

Quatro. Meu amigo ginecologista está contente. Pela segunda onda do vírus menos mulheres vão ao hospital. Por medo do contágio, poucas mulheres se submetem a tratamentos de fertilidade. De repente, sua agenda está vazia e tem muito mais tempo para se dedicar a sua mulher e seus dois filhos. Descobre que, de fato, isso é o que mais gosta de fazer. Em uma das videoconferências me pede: me recomende um livro, por fim tenho tempo para ler. Eu sugiro "O Sol Desvelado", de Isaac Asimov, cuja ação ocorre em um planeta em que as pessoas se relacionam entre si somente através de telas por medo de se infectar com um vírus. Como aperitivo, li para ele uma frase do livro: “Na ausência de contato entre os seres humanos perdemos o interesse central pela vida, desaparecem muitos interesses intelectuais, em grande medida nos abandona a razão de viver. Ver não pode substituir o olhar”.

115 mil ‘bundões’?

Tardou, mas não falhou. O Jairzinho Paz e Amor jogou a toalha e, no domingo, emblematicamente à entrada da Catedral de Brasília, foi o que ele nunca deixou e nunca deixará de ser: Jair Messias Bolsonaro, sempre no ataque, beligerante, grosseiro, despejando sua ira nos repórteres que deixam famílias e amores em casa e enfrentam a covid-19 para cobrir as atividades do presidente-candidato até aos domingos. E ele não deixou barato. Ontem, voltou à carga.

Um repórter fez uma pergunta não só válida, mas obrigatória, e Bolsonaro reagiu à la Bolsonaro: “Vontade de encher a tua boca de porrada”. Pior para ele. A pergunta viralizou, replicada em mais de um milhão de posts em português e outras línguas – “Presidente, por que sua esposa Michelle recebeu R$ 89 mil do Fabrício Queiroz?”. De boca calada, Bolsonaro some das manchetes e sua popularidade sobe. Quando fala, volta às manchetes, choca o País e passa vergonha no mundo.



Apoiadores registraram o golpe e, na tentativa de se contrapor ao tsunami da internet, editaram o vídeo, sem a pergunta do repórter e deturpando a fala de um feirante. Ele convidava Bolsonaro para visitar “a feirinha na catedral”, mas a legenda diz que é para visitar “a filha na cadeia”. Daí a reação do presidente. Feirante, filha, feira, cadeia... Uma lambança. Mas há quem acredite!

Bolsonaro continuou sem explicar os depósitos e não cogitou pedir desculpas ao jornalista, mas poderia ao menos ficar calado. Até ficaria, não fosse Bolsonaro. E, assim, um evento ontem no Planalto virou um festival de vexames. Começa pelo nome: “Vencendo a covid-19”. Vencendo o quê? Com mais de 115 mil mortos e 3,5 milhões contaminados, o Brasil é o segundo País mais atingido pela pandemia no mundo e virou referência de erros, descaso e falta de coordenação federal. Até o “amigão” Donald Trump já disse isso mais de uma vez.

Segundo: como fazer um evento sobre a pandemia sem dar uma palavra sobre os muitos milhares de mortos? Sem conforto para as famílias e amigos? Sem solidariedade aos que pegaram o vírus, muitos com sequelas graves? A quem o presidente pensa que está enganando ao esconder a realidade? Aliás, ele continua enganando e se enganando quando diz que “sempre foi um atleta das Forças Armadas”. “Sempre”? Como assim? Ele foi do Exército há bem mais de 30 anos e saiu pela porta dos fundos, depois de alucinações com bombas em quartéis.

Numa cerimônia de derrotados para comemorar uma vitória imaginária, não poderia faltar cloroquina. Catados a dedo, compareceram bolsonaristas dispostos a corroborar o constrangedor “Vencendo a covid-19”, badalar um medicamento que não tem comprovação contra esse vírus em lugar nenhum do mundo e dizer amém a qualquer outra barbaridade do presidente.

No triste espetáculo, Bolsonaro se vangloriou do “histórico de atleta” e de ter tido uma forma amena da covid-19, para provocar os jornalistas:

“Quando pega num bundão de vocês, a chance de sobreviver é bem menor”. Assim, ele atacou não só os jornalistas, a quem quer “encher de porrada”, mas os 115 mil que morreram e os que pegaram a forma mais grave – os fracotes, “bundões”. Como já ensinou Bolsonaro, “tem de enfrentar o vírus como homem, não como moleque”. Ou seja, cara a cara, sem isolamento, aglomerado, sem máscara, sem álcool em gel. Tudo frescura.

A ameaça de “dar porrada” foi diante da Catedral de Brasília e o título do vídeo deturpado, sem a pergunta do repórter sobre o “Queiroz”, é um versículo da Bíblia: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Nada mais apropriado ao momento que vive o Brasil. A verdade está aí, escancarada, à vista de todos. Pena que milhões se recusam a admiti-la e a se libertar.

Agressividade de Bolsonaro aos jornalistas que o interrogam é grosseria ou delito?

Que Bolsonaro passou de todos os limites em seus já habituais insultos a jornalistas fica claro pela reação imediata da sociedade, que em poucas horas repetiu no Twitter mais de um milhão de vezes a mesma pergunta que lhe fizera o jornalista. Sinal de que desta vez até a voz das ruas condenou, e de forma criativa, a permanente atitude de agressão aos jornalistas e à imprensa livre por parte do Estado. Condenaram-na a rua e todas as associações democráticas do país.

Seria o caso de se perguntar por que a pergunta do jornalista ao presidente desta vez o irritou tão especialmente, levando-o a passar de seus habituais insultos à ameaça de agressão física. É que o caso Queiroz continua sendo uma espada de Dâmocles sobre Bolsonaro e sua família, que fazem o possível e o impossível por esconder o suposto escândalo de corrupção e que deixa o presidente novamente à beira de um possível impeachment.



É sabido que todos os ditadores ou aspirantes a tal sempre se incomodam com os meios de comunicação e a imprensa livre. E quando chegam a tomar o poder totalmente, a primeira coisa que fazem é fechar esses meios. Talvez por saberem que o dever elementar do jornalismo como se ensina nas faculdades de todo o mundo é informar sobre o que o poder tenta esconder. Costuma-se dizer, por isso, que no jornalismo não existem perguntas impertinentes às instituições do poder, e sim respostas inúteis ou vergonhosas.

A repercussão negativa e de condenação que a grande maioria da sociedade brasileira está manifestando nas redes sociais e a solidariedade demonstrada com as ameaças de agressão ao jornalista que lhe fez uma pergunta incômoda revelam melhor que muitas pesquisas de opinião que essa sociedade ainda não se contaminou totalmente com a nova onda dos chamados “gabinetes do ódio” implantados pelas hostes do Governo Bolsonaro. As agressões contínuas às instituições democráticas provêm de uma minoria que não representa a sociedade que começa a se cansar do clima de agressividade implantado pelo presidente de extrema direita.

A reação maciça de condenação da sociedade contra a incapacidade do Governo de aceitar a crítica e concretamente as ameaças cada vez mais duras e escandalosas do presidente aos jornalistas e às instituições democráticas começam a revelar que talvez não se trate apenas de grosserias ou falta de educação de quem deveria dar exemplo, mas sim de algo mais grave.

A ameaça de “encher de porrada” a boca do jornalista é também um lapso lacaniano do presidente que revela sua impotência e medo frente à verdade e à liberdade.

Existem muitos parâmetros para medir o grau de democracia e de liberdade de uma sociedade, mas sem dúvida um dos indiscutíveis é a capacidade de respeitar os controles que a Constituição, através da informação livre, impõe aos poderes da República. Tudo indica que o presidente do Brasil está ultrapassando todos os limites que o colocam à beira da incompatibilidade com o cargo que lhe foi dado pelas urnas e que ele parece pretender transformar em um poder absoluto e punitivo. Até quando?

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Brasil do escárnio

 

Nada de novo sob o sol

Mário Henrique Simonsen, ultraliberal, considerado gênio da economia tinha suas manias, como todo gênio que se preze. Ele, por exemplo, passava a semana usando o mesmo terno. E só tinha dois. Usava um na semana, outro nos sete dias seguintes. Seus amigos fizeram até vaquinha para comprar mais um conjunto de calça e paletó para o ministro.

Ele era um boa praça, homem rico, cantor de ópera amador, que se divertia fazendo equações, jogando xadrez, escrevendo textos sobre o destino do Brasil. Neles defendia a privatização de empresas estatais, a redução do estado e a abertura da economia. Discurso parecido com o de Paulo Guedes, porém mais inteligente, irônico e aberto ao debate.

Ele foi ministro forte no governo do general Ernesto Geisel, de 1975 a 1979. Na mesma administração, havia Severo Fagundes Gomes, homem culto, experiente, viajado, ótimo papo, liberal, industrial rico e defensor do capital brasileiro. Ele e Simonsen se respeitavam, mas falavam idiomas diferentes.

Severo defendia, junto com alguns militares e parcela da bancada de esquerda do Congresso, a indústria nacional. Eles foram responsáveis pela reserva de mercado para produção de computadores no Brasil, impedindo a entrada do produto estrangeiro. Simonsen, naturalmente, queria abrir o mercado.

Na questão política, o governo Geisel tinha dois lados opostos. O chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, trabalhava a favor da abertura lenta, gradual e segura. Na primeira semana daquela administração, ele, pessoalmente, me relatou o objetivo do governo e as etapas para conseguir alcançar aquele alvo, ou seja, a redemocratização do país.

Isso naturalmente envolvia a sucessão do presidente. Por essa razão, a escolha de João Baptista Figueiredo já estava decidida desde o início daquele governo.

No lado oposto estava o grupo que não queria que a sociedade evoluísse para uma democracia liberal. Preferia manter a política nas mãos dos generais. Seu representante maior foi Sylvio Frota, ministro do Exército.

Havia generais no Serviço Nacional de Informações (SNI) que não tinham nenhuma simpatia pela política de abertura, lenta, segura e gradual. Estes grupos continuam vivos. Apoiadores do presidente Bolsonaro não escondem o desejo de voltar aos governos militares e o retorno do AI-5. É o que sonha o pessoal da antiga.

No feriado de 12 de outubro de 1977, o Palácio do Planalto amanheceu protegido por soldados e atiradores de elite em posições estratégicas. O presidente da República decidira exonerar seu ministro do Exército, Sylvio Frota, que era abertamente contra o processo de abertura lenta e gradual na política brasileira.

Naquele dia de Nossa Senhora Aparecida ocorreu o confronto decisivo entre os partidários da democracia e os defensores do regime fechado conduzido pelos militares. O presidente convocou uma reunião do Alto Comando do Exército. Sylvio Frota convocou outra reunião na mesma hora, mas em outro local. No gabinete dele.

A maioria dos generais foi para o Palácio do Planalto. E Frota foi demitido. Houve ainda uma série de incidentes até que a Constituinte fosse convocada, o que só ocorreu no governo Sarney, depois do trauma da agonia e morte de Tancredo Neves.

O governo Geisel viveu a crise do petróleo. Acabou a gasolina no Brasil. Foi instituído o racionamento. As pessoas tinham que comprar boletos, chamados de simonetas, para adquirir gasolina. Os postos de combustíveis fechavam as oito da noite e abriam as seis da manhã. Naturalmente, crise econômica pesada se instalou no país. A saída sugerida por Simonsen era abrir a economia e convidar o capital internacional a investir no Brasil.

Uma das primeiras soluções foi demitir Severo Gomes do Ministério da Indústria e Comércio. Parecia que o rumo econômico estava decidido. Porém o país entrou numa espiral inflacionária e aumentou muito a dívida externa, que mais tarde iria resultar na moratória, já no governo Sarney.

Os militares retomaram o conhecido caminho do nacionalismo. Mais empresas estatais. Desta vez, quem saiu do governo foi Mário Henrique Simonsen.

Aqui, neste canto de mundo, as crises são iguais, só mudam os nomes dos envolvidos. Nacionalistas versus globalistas. Ultradireita que pretende fechar o Congresso e o Supremo, contra grupos a favor da democracia e das liberdades públicas. Só falta surgir a divisão dentro do Exército. É possível que aconteça nos próximos tempos. Mas também já ocorreu antes.

E, como sempre, a instabilidade política enriquece investidores e o pessoal do mercado financeiro. Nada de novo sob o sol. Mediocridade assustadora.

O incitamento ao ódio e a liberdade de expressão

O princípio de que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e que ninguém pode ser descriminado no exercício dos seus direitos em razão da raça, da cor ou da língua, assume na sociedade atual a natureza de um valor universal, inerente ao próprio reconhecimento da dignidade da pessoa humana.

O princípio expressamente consagrado na Declaração Universal dos Direitos do Homem e em todos os documentos de natureza internacional dos direitos humanos, tem igual consagração na Constituição da República Portuguesa, enquanto direito fundamental de qualquer cidadão.


A liberdade de expressão constitui um direito de primeira geração, englobando o direito de exprimir e divulgar ideias e opiniões, através de quaisquer meios, sendo vedado qualquer obstáculo discriminatório para a sua concretização por parte do Estado ou de terceiros.

No entanto, o âmbito da liberdade de expressão não é ilimitado nem absoluto, podendo ser restringido ou regulado por lei em prol da ponderação de outros bens jurídicos igualmente relevantes ou de maior peso tutelados constitucionalmente ou internacionalmente.

O Código Penal Português, tal como outros códigos a nível europeu, punem criminalmente a conduta de quem “fundar ou constituir organização ou desenvolver atividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica, ou que a encorajem; ou participar na organização ou nas atividades referidas ou lhes prestar assistência, incluindo o seu financiamento”.

Grande parte dos países europeus proíbe o discurso ao ódio.

A lei não deve tutelar a proteção da liberdade de expressão dos titulares de discursos propagadores do ódio, cujo único objetivo é, na sua forma e conteúdo, a estigmatização, o insulto ou a humilhação de um determinado grupo, seja ele minoritário ou maioritário. A liberdade de expressão deve ser negada a quem queira, através do seu exercício, restringir liberdades fundamentais alheias, propalando e incitando ao ódio racial e pondo com o seu comportamento em causa o próprio valor universal da dignidade da pessoa humana.

A propaganda e o incitamento à discriminação, ao ódio ou à violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica, ou o encorajamento de tais atividades constituem atividade criminosa e, por conseguinte, caem fora do âmbito do princípio da liberdade de expressão.

Não estamos assim perante cidadãos a exercer o seu direito de opinião, mas perante um grupo de delinquentes que devem, por esse facto, ser investigados e responsabilizados pelos seus atos, pois são eles que estão a agir à margem dos valores constitucionais da sociedade em que se inserem.

A nossa memória coletiva é muito curta. Não aprendemos com a História.

Vivemos tempos em que os direitos humanos e a proibição da discriminação injustificada estão consagrados na legislação nacional, europeia e internacional, mas também não ignoramos que os tempos de crise são uma oportunidade para populismos discriminatórios e racistas.

O individualismo e o egoísmo nunca conduziram a bons resultados. Torna-se necessário utilizar com rigor os meios legais existentes, com tolerância zero para com os crimes racistas, mas também e, sobretudo, promover as condições do respeito pela dignidade e direitos de todos sem discriminações e a adoção de uma pedagogia que promova o espírito de fraternidade entre todos os residentes, sejam eles nacionais, estrangeiros ou apátridas.

Palavras torpes e mente autoritária

O presidente Jair Bolsonaro deveria ter se antecipado e prestado contas ao país das muitas dúvidas sobre as finanças da sua família. A nação tem o direito de saber. O jornalista do GLOBO fez a pergunta certa e necessária. A ameaça de “encher a sua boca de porrada” que ele disparou ao repórter é recorrente e reveladora. Ele quer uma imprensa domesticada que o exalte, como todo ditador. Bolsonaro tem um projeto autoritário de poder, já demonstrou inúmeras vezes, verbaliza com frequência, distorce, mente, atropela limites institucionais, e usa as Forças Armadas como escudo para ameaçar os outros brasileiros. As autoridades do Congresso e da Justiça que não querem ver essa realidade, colaboram com esse projeto.

Ontem o país ultrapassou os 115 mil mortos pela pandemia. Na cerimônia “Brasil vencendo o Covid-19” — fora do tom e sem propósito — o presidente foi aplaudido de pé dentro do Palácio do Planalto depois de agredir os fatos, a imprensa e o ex-ministro da Saúde. Congratulou seu governo por ter indicado o uso da cloroquina, disse que muitas das 115 mil vidas perdidas poderiam ter sido salvas com o remédio, jogou culpas sobre Luiz Henrique, repetiu que o Supremo “o alijou” do combate à pandemia e depois ofendeu de novo os jornalistas.

— Aquela história de atleta... que o pessoal da imprensa vai para o deboche. Mas quando pega num bundão de vocês, a chance de sobreviver é bem menor. Só sabe fazer maldade, usam a caneta com maldade.

Além de tentar atingir os jornalistas com mais uma palavra torpe, o que ele faz é ofender os doentes e até os mortos. Se ele define como bundões os que têm mais risco de morrer, se ele vive se referindo ao seu passado de atleta e diz que a doença tem que ser enfrentada “como um homem”, os que perderam a batalha têm culpa de seu próprio destino?


A pessoa pública deve prestar contas e esclarecer zonas de sombra e dúvidas. É inerente aos cargos que ocupam. Não há motivo aparente para que Fabrício Queiroz e sua mulher Márcia façam depósitos na conta de Michelle Bolsonaro. Eles eram funcionários do gabinete do filho mais velho do presidente. O caso todo é uma coleção de dúvidas. Os excessos de depósitos em espécie na conta de Flávio Bolsonaro, os funcionários fantasmas que ocupavam aquela folha salarial, ter parentes do miliciano Adriano da Nóbrega entre esses falsos servidores. De um lado, o senador Flávio Bolsonaro em vez de se explicar, faz chicana. De outro, o presidente da República, em vez de responder, ameaça de agressão física o jornalista que perguntou. Mais de um milhão de tuítes repetiram a mesma pergunta e ela permanece no ar. Por que aqueles depósitos foram feitos na conta da mulher do presidente?

O risco de o país se acostumar está presente o tempo todo. Nos pouco mais de 60 dias em que Bolsonaro falou menos barbaridades, muitos passaram a considerar que agora ele estava estabilizado, teria sido enquadrado pelas instituições. O ministro Jorge Oliveira disse ao “Valor” que o presidente é “veemente”. Ora, ministro, procure outra palavra que defina com mais exatidão a arrogância, a agressividade, os ataques do presidente aos que ele escolheu como inimigos.

Quando Bolsonaro moderou o tom não foi por ter entendido o decoro do cargo, mas porque teve medo. Ele submergiu logo após Queiroz ter sido encontrado na casa do advogado Frederick que defendeu o presidente e era advogado de Flávio quando abrigou a peça-chave para esclarecer o que se passava no gabinete do agora senador.

Bolsonaro tem usado as Forças Armadas no mesmo estilo de Hugo Chávez. Como Chávez, ele chegou ao governo pela via democrática, como o ex-ditador venezuelano ele também não tem apreço pelas instituições democráticas. Na Venezuela, o orçamento privilegiou os gastos da Defesa para costurar essa lealdade militar. Essa história não terminou bem lá, não terminará bem aqui, a menos que o país se defenda de um jogo já conhecido. O passo agora é usar os recursos públicos para cimentar seu populismo. Na Venezuela foi assim também. O dinheiro dos nossos impostos deve chegar a quem mais precisa, mas não pode ser apresentado como doação do líder magnânimo às massas. Contudo, é para sustentar essa visão que se trabalha no governo em todas as áreas, inclusive na economia.

Democraticamente armados


Agora essa infestação de armas numa gigantesca barbárie autorizada. É o polícia que hoje abertamente se excede ou se antecipa, é a adolescente de classe média toda paramentada treinando tiro, é o homem louco de raiva voltando equipado à lanchonete para nunca mais atrasarem seu pedido. São os monstros felizes que atiram para o alto como que produzindo seus próprios fogos de artifício. É a tentação na gaveta de casa para o filho deprimido, é um bem guardado no cofre do velho assombrado por bandidos, é a solução final que o nazista saca da cintura, por cima do muro do vizinho, o cala-a-boca, o ultimato, o argumento de autoridade, o elemento surpresa da desforra do garoto que mal atravessa o portão da escola já vai abrindo a mochila. Fetiche do presidente, dos filhos do presidente e de mais de um país de gente doente, que gosta de caça, de ameaça, da farsa de autodefesa e do embuste chamado bala perdida. Agora isso, quinze anos depois da campanha do desarmamento, que recolheu mais de quatrocentas mil armas de fogo pelo Brasil, entregues de boa-fé, numa resolução massiva, histórica, de gente que se desfazia de seus motes assassinos, quinze anos passados e agora temos um decreto que permite a cada cidadão a posse de até quatro armas, o dobro do que lhe pode caber nas próprias mãos. E temos o tempero do ódio servido fresco todo dia, a excitação da energia do disparo, uma espécie de diabólica autonomia de nos matarmos uns aos outros sem necessidade de polícia ou de bandido. E ainda pistolas, fuzis, escopetas, bazucas coloridas e munições plastificadas nas estantes das lojas de brinquedos. Uma infestação de armas e alvos, para (quase) todos os tipos de raiva e medo, para os que não têm nada e para os da elite, para o luxo da caça esportiva e para quem só está na lida, também para o bebê que nem queria, nem pretendia, mesmo assim tomou aquela estranha coisa fria entre os dedos, para ver o que era e como lhe dar vida.

 Mariana Ianelli

Selfie do Brasil

 

Uma versão musical do Orçamento

No momento em que se discute um tema tão áspero como o Orçamento, lembrei-me de uma velha canção chamada “Matilda”, de um gênero antigo como o calipso, cantada por Harry Belafonte, hoje com 93 anos.

“Matilda, Matilda, Matilda, she take me money and run Venezuela” — dizia a letra. A idade atrai certas loucuras. Como essa de lembrar “Matilda” ao analisar os movimentos de Bolsonaro na articulação do Orçamento.

Bolsonaro previu uma destinação para as Forças Armadas maior do que para a Saúde e a Educação. O desejo de fazer dos militares sócios do governo é um traço comum entre o Brasil de hoje e a Venezuela bolivariana. Muita grana para a Defesa, militares em postos-chave, tudo isso revela que, ao se preparar para uma guerra imaginária, o governo tem em mente a verdadeira defesa que lhe interessa: a de si próprio contra uma eventual oposição popular.

Existe uma diferença, entretanto.

Os militares na Venezuela são acusados de corrupção por apoiar um governo do qual talvez discordem ideologicamente. No Brasil não há indícios de corrupção. O máximo que pode existir são algumas benesses que fundem salário e soldo.


Aqui há proximidade ideológica. Os militares, por uma bizarra concepção de Defesa, gostariam de ver o progresso clássico na Amazônia, como se a floresta em pé nos tornasse mais vulneráveis. E gostariam também de integrar os índios à sociedade abrangente: um só povo e um só Deus facilitam a Defesa nacional.

Bolsonaro prepara seu próprio Bolsa Família. Com a ajuda emergencial, percebeu o crescimento de sua popularidade. Pessoalmente, era contra a ajuda. No passado, acusava o PT de comprar votos com ela.

Em certos temas, esquerda e direita acham que escrevem a história e não percebem que são escritas por ela. O apoio de regiões mais carentes ao governo tem sido uma constante, uma vez que, em certa medida, dependem da ajuda oficial. Elas são as últimas a abandonar um governo decadente, mesmo no período da ditadura militar.

Se as pessoas desfavorecidas sentem que o governo alivia seu fardo, elas estão dispostas até a lutar por ele. Um governo que é sócio dos militares e cria uma fiel base popular torna-se muito forte.

Nesse sentido que canto: Bolsonaro pega a grana e foge para a Venezuela. Naturalmente, as pessoas vão dizer: não é sustentável destinar tanto dinheiro para a Defesa nem manter grandes programas assistenciais.

Não discuto isso. Por acaso a Venezuela é sustentável? No entanto, Maduro sobrevive. O que interessa a ele não é a sustentabilidade nacional, e sim a do governo.

Nem interessa às Forças armadas de lá o fato de o país, pelo crescimento da pobreza, tornar-se mais vulnerável. A sensação corporativa é a de um poder crescente.

É sempre possível argumentar que políticas como a Educação e a Saúde influem diretamente no bem-estar das pessoas mais pobres. Neste momento de pandemia, a Educação é uma resignada lacuna, e a Saúde usa um orçamento de guerra.

Meu problema não é cantar calipsos na quarentena. Mas simplesmente tentar entender alguns enigmas como o de um presidente que se torna mais popular num país que entra em recessão. Há várias saídas para a Venezuela, de avião a Caracas, por terra até Santa Elena. Não esperava encontrar uma na própria discussão do Orçamento.

Não creio que Bolsonaro tenha tomado essa decisão consciente. Apenas tento imaginar as possibilidades futuras. A sedução das Forças Armadas e uma base popular não bastam para nivelar as experiências com a Venezuela. O Congresso é conquistável por métodos historicamente consagrados. A tentativa de destruir ou simplesmente arruinar uma parte da imprensa é idêntica. Resta um Supremo que também muda, embora demande algum tempo para a reposição de ministros.

Aqueles que se deslumbram com uma pseudonormalidade deveriam, pelo menos, levar em conta o processo de reorganização da inteligência estatal voltada basicamente a julgar pelos primeiros passos, a monitorar opositores. O movimento não cessa, nós é que, às vezes, não o notamos.

Rotina de matança

 

Esse é um país em que morrem em média 50.000 pessoas por ano assassinadas. É uma coisa absurda. É um país em que pessoas morrem de fome. Um país só pode ficar tão apático em torno de 100.000 mortes quando é um país que já se acostumou com a morte, principalmente de trabalhadores e de pessoas negras. É um país que não se livrou da alma da escravidão. Ela não existe mais como sistema econômico e político, mas deixou marcas nas quais o Brasil se reconhece muito. Acho que 100.000 mortes é tido como algo absolutamente corriqueiro 

Água, livros e votos

Ainda não inventamos um sistema melhor do que a democracia para servir aos interesses do povo de uma nação, mas ela confunde as necessidades do povo no futuro com a soma dos interesses dos eleitores no presente: metade mais um dos indivíduos de hoje representando o todo no amanhã. Embora a democracia ainda seja o melhor dos sistemas, há momentos em que a soma dos indivíduos não representa, necessariamente, o conjunto deles, como nação. A democracia é o neoliberalismo na política. Um exemplo é a fala do Ministro da Economia dizendo que os livros são bens de consumo dos ricos e, portanto, é justo e democrático taxar os livros: cobrar dos ricos para que eles leiam e paguem para que os pobres tenham água para beber. Ele tem razão na lógica democrática e na justiça imediata: temos pobres sem água em casa e temos ricos lendo enquanto bebem água fresca. Ele tem razão na medíocre visão do neoliberalismo político, do imediato e dos indivíduos.



Nesta lógica, leitura é para ricos, água para os pobres, hoje e sempre, por isto ele não analisa a justiça de ensinar o povo, desde criança, a ler e gostar de ler. Na visão da política democrática neoliberal do eleitor individual e o contribuinte atual, não há justificativa para o eleitor pobre pagar para que o rico se embriague no vício da leitura, nem o rico pagar para o pobre virar leitor. Porque para ele, não existe o conceito de povo leitor, nem isto é visto como indicador de riqueza e progresso. Por isto ele se sente um paladino da justiça e do progresso ao defender o que nos parece absurdo, impostos mais altos para livros.

Mas muitos leitores, escritores, editores, são contra este aumento de imposto, sem defender e lutar para que a leitura deixe de ser um privilégio. Na visão do povo-leitor, não apenas eleitores e ricos, deveria lutar por programas de rápida erradicação do analfabetismo. Por uma estratégia para transformar o Brasil em um país de leitores, todos lendo, graças a uma escola com a máxima qualidade e igual para todos. Para implantação de uma rede de bibliotecas, inclusive domésticas, financiadas com recursos públicos e com acervo de um bilhão de livros.

Desde quando, para calar a boca do ministro, lutam para que a leitura não seja um consumo, alguns consideram um vício, de rico, como tomar uísque? No máximo defende-se pequenas políticas positivas em prática há décadas para minúsculos, sem o salto para termos uma escola de qualidade entre as melhores do mundo e a qualidade igual para todos: independente da renda e do endereço. Com resultados concretos na formação de uma sociedade leitora, ávida por livros. Deixa assim ao ministro a chance de dizer, com lógica, o absurdo que ele disse: “ler é um privilégio de quem lê”.

Com a lógica da democracia neoliberal do eleitor, sem considerar o povo e sem ver o país adiante. O neoliberalismo econômico vê o livro como bem de consumo, não a leitura como vetor de riqueza estética, de ampliação da eficiência econômica e do horizonte de liberdade. Lógica também dos que se opõem à medida do ministro, mas querem livros baratos para os mesmos que já leem, sem propor a construção de um povo de leitura.

A imbecilidade do ministro tem lógica e não é só ele que pratica esta lógica: a democracia vista como o governo a serviço de cada indivíduo, não a serviço da nação, e sem uma liga com o futuro. Não temos uma liga moral com os não leitores e nem com a lógica econômica, não percebermos que o custo do livro não é só imposto, é também o resultado das tiragens baixas em um idioma de raros leitores.

A imbecilidade do ministro está na moral, ele não vê a importância da leitura nem tem sentimento de povo e de transcendência histórica que vai além do imediato. Mas também lhe falta inteligência contábil para saber que são tão poucos os leitores, que aumentar imposto sobre livro empobrece o país e não ajuda a equilibrar as contas públicas. Estamos divididos entre pobres que não leem e leitores que não veem. Não percebem que os pobres não leem por falta de dinheiro, mas sobretudo por falta de alfabetização e educação de base que promova o gosto e a capacidade de ler. Se todos lessem, os livros ficariam baratos e as bibliotecas seriam como bolsões de oxigênio cultural.

Temos que enfrentar o neoliberalismo anti-leitores de Guedes, mas distinto do neoliberalismo social de manter os benefícios apenas para os poucos leitores que temos. Precisamos barrar livros, este imposto contra a riqueza cultural, lembrando que Guedes é um detalhe grotesco de uma política anti-leitura de séculos no Brasil. Devemos aceitar impostos sobre os leitores ricos, mas não sobre a leitura, penalizar os bens de luxo que eles compram, mas não tratar livros como luxo… salvo talvez alguns que o ministro leu. São estes impostos sobre os bens de luxo, que não são livros, serem usados para baratear os livros, até também com menos impostos sobre eles, mas sobretudo com melhores escolas para todos, inclusive os filhos de ricos que também estão deixando de ler.

Mas o Guedes não é o primeiro a querer propor esta troca: por décadas, decidiu-se enfrentar a desigualdade regional levando água, não leitura, para o Nordeste. Certo que água é mais urgente para a sobrevivência, mas não transforma a sociedade. Porque a água, como impostos sobre livros, pode dar votos, mas não enriquece o povo, não ensina a votar, nem faz perene o fluxo de água e demais bens e serviços que o povo precisa, inclusive sua liberdade.

Sr. presidente, por que sua mulher recebeu R$ 89 mil do Queiroz?

Bolsonaro voltou no domingo a ser o que é. Depois de dois meses cumprindo a liturgia do cargo, agrediu um repórter do GLOBO ao ser questionado, dentro das estritas prerrogativas e da missão do jornalismo profissional, sobre um assunto de interesse público — a razão de a primeira-dama Michelle ter recebido, do casal Fabrício Queiroz e Márcia Aguiar, cheques num total de R$ 89 mil. 

O presidente reagiu com palavras dignas daquele personagem do “Casseta & Planeta”, o Maçaranduba, que queria resolver tudo “na porrada”. Os ares de valentão ginasiano podem pegar bem com o extremista que faz o gesto de arminha com a mão. Mas voltar a agredir a imprensa cobra um preço alto nas faixas da classe média e do eleitorado mais instruído, que voltaram a dar apoio a Bolsonaro, não por coincidência nestes pouco mais de dois meses em que mudou de tom. 


A onda de críticas que recebeu nas redes sociais — uma enxurrada de perguntas sobre a razão de R$ 89 mil terem sido depositados em favor de Michelle — confirma que Bolsonaro erra ao deixar emergir sua face autoritária, incapaz de entender que, numa democracia, é papel da imprensa fazer perguntas incômodas. É hora de ele compreender que parcela relevante da sociedade não aceita esse tipo de postura. Se não quer ou não sabe responder, que se cale. É inadmissível agredir um repórter que faz seu trabalho.

Das perguntas incômodas, a dos cheques de Michelle é apenas um dos mistérios que pairam sobre a conexão entre o ex-PM Queiroz e o clã Bolsonaro. O Ministério Público fluminense ainda investiga o papel de Queiroz no esquema que é acusado de gerenciar no gabinete do ainda deputado estadual Flávio Bolsonaro na Alerj.

A investigação já identificou o repasse de R$ 2 milhões de assessores de Flávio a Queiroz, forte evidência do esquema em que pessoas de confiança são nomeadas em gabinetes de parlamentares para devolver parte do que recebem, a “rachadinha”. A presença de parentes de Queiroz e dos Bolsonaros no caso reforça as suspeitas. O intenso tráfego de dinheiro vivo na vida de Flávio completa o enredo. 

Antes de tomar posse, Bolsonaro teve de responder sobre depósitos de R$ 24 mil feitos por Queiroz na conta de Michelle. Explicou que se tratava de parte do pagamento de um empréstimo, no valor total de R$ 40 mil. Podia fazer sentido na ocasião. Agora se descobre que os depósitos para Michelle somaram mais que o dobro disso — sem registro de transferência de Bolsonaro a Queiroz. O presidente continuou ontem a agredir a imprensa. Mas ainda não respondeu à pergunta do GLOBO: Por que sua mulher, Michelle, recebeu R$ 89 mil do Queiroz?

Nós, os restantes

Estou deixando para trás uma semana em que perdi um amigo para a covid-19. Nós, os consternados, a quem cabe relatar esta rotina cinzenta, vivemos a tragédia de sermos humanos.

Esta pandemia nos ensina a conviver com as perdas. Com as nossas vulnerabilidades. Com nossas limitações e fraquezas. A única forma de continuarmos com um mínimo de paz é nos adaptarmos a esta realidade maluca.

Não vou me ludibriar. Não vou fingir que não estou magoado com a perda do meu amigo. Nem que estou com medo do vírus. Esta pessoa desamparada sou eu. Esta dor sou eu. Profundamente eu.


O meu amigo se chamava Beto Rezende. Não resistiu às sucessivas paradas cardíacas, complicações enquanto estava intubado, lutando para sobreviver ao novo coronavírus.

Beto era da luta. Um enorme senso de justiça social, defensor das liberdades individuais, bem informado, humilde e leve, crítico ferrenho dos fascistas, dos fundamentalistas, dos caretas e bossais. O ateu mais misericordioso e fraterno que Deus colocou na face da Terra.

Foi jornalista. Dividi com ele o idealismo das redações de jornal, achando que nossas canetas e bloquinhos de repórteres poderiam contribuir para um mundo mais igualitário. Protagonizamos gargalhadas e lágrimas típicas da boemia nas mesas de bar. Vivemos aquela coisa toda da geração coca-cola nos anos 1990, quando fomos jovens. Pintamos a cara para pedir impeachment de um presidente que não gostava de gente.

Recentemente, víamo-nos pouco, pelas contingências. Mas, a amizade (esse misto de afeto e afinidade) estava ali, “em ferro e flor”. As alegrias de uma amizade, quando um amigo morre, ficam.

(Mesmo correndo o risco de parecer tolo, recomendo que se você tiver palavras de afeto, de alegria, de conciliação, de reflexão, de incentivo, para dizer a um amigo (a um parente, a um conhecido), diga-as agora. Não deixe as palavras para um dia quando elas jamais poderão ser ditas).

Esta pandemia desfigura a vida e parece interminável. A doença se espalha e se prolonga enquanto tememos por nós mesmos e pelas pessoas com as quais nos preocupamos. (Meu Deus, como será o nosso momento seguinte?).

A proximidade com a morte nos faz enxergar os débitos: nós nos banalizamos na trivialidade do dia a dia, nos fatos corriqueiros e cotidianos. Nessa corrida superficial, terminamos construindo muralhas com os sentimentos.

A perda de um amigo querido desperta em nós uma fatalidade. Tomamos consciência de que a vida é passageira demais, o que é hoje pode não ser amanhã, e uma certa urgência de viver termina nos obrigando a perder o medo de sentir os nossos sentimentos. Afinal são eles, os sentimentos, que dizem muito sobre nós mesmos. E sobre o mundo.
Cícero Belmar

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Afronta à cidade e ao cidadão

Faltam menos de três meses para a escolha dos prefeitos e vereadores das 5.570 cidades do país. Nem parece, tamanha a apatia em relação às eleições.

Muitos tentarão culpar a pandemia. Mas os males endêmicos são outros: sistema eleitoral cruel, criado para manter o eleito longe do eleitor, e o voto obrigatório, que desobriga partidos e candidatos de se empenhar em campanhas de convencimento.

Hoje, o embate real, com participação ativa do eleitorado, só ocorre em pequenos municípios onde os candidatos pertencem à comunidade. Um privilégio restrito a apenas 15,5% da população que, segundo o IBGE, vivem em locais com menos de 20 mil habitantes.


Mais da metade dos brasileiros moram em cidades com mais de 100 mil habitantes e 30,2% em aglomerações de mais de 500 mil. Nelas, poucos são os eleitores que conhecem as propostas do político a quem dão o seu voto. Menor ainda é o grupo que lembra em qual vereador votou ou que cobra as promessas não cumpridas pelos postulantes. Não à toa, o voto distrital, puro ou misto, seria a solução para aproximar o eleitor do eleito.

O sistema misto poderia ter sido experimentado neste ano caso a proposta de José Serra (PSDB-SP), que chegou a ser aprovada no Senado, tivesse logrado êxito na Câmara. A ideia era aprimorar a representação testando o distrital na escolha de vereadores em cidades com mais de 200 mil eleitores. Depois, estendê-lo ou não ao pleito de deputados estaduais e federais.

Não vingou à época e tem chances mínimas de ser adotado por mexer na política rasa e de compadrio, nas quais o voto é tratado como troca de favores, e no poder hereditário – avô, pai, filhos, netos, bisnetos se elegendo pelo sobrenome. Tem-se assim gerações de políticos unidos pelo umbigo sem qualquer compromisso com o eleitor. O então deputado Jair Bolsonaro e seu zeros são um exemplo modelar dessa perversa distorção.

Tida e havida como mãe de todas, a reforma política de 2017 foi tímida. Avançou no estabelecimento da cláusula de barreira (que já deveria ter sido implantado anos atrás, mas foi suspensa pelo STF) para impedir a proliferação infinita de partidos políticos, e no fim das coligações para eleições proporcionais, que têm sua estreia neste ano.

Voto distrital ficou no caminho e o facultativo nem mesmo entrou na pauta. Ou seja, a reforma de 2017 ficou longe de aprimorar a relação entre representantes e representados, esses últimos só lembrados nas campanhas eleitorais.

Absurda e hipócrita, a obrigação de ir às urnas deforma o caráter cívico do voto, sendo cada vez mais driblada pela justificativa ou pela multa irrisória (em 2018 foi de R$ 3,50). Números do TSE dão conta de que um terço (32,5%) dos eleitores não compareceram ao segundo turno das eleições municipais de 2016, realizado em 57 cidades.

Há outros fatores que pesam no desinteresse do eleitor. Não é de hoje que o debate municipal, que deveria ser mobilizador por envolver o cotidiano do cidadão, vem perdendo terreno. E tende a piorar.

Quanto mais a polarização nacional se acirra, menos espaço há para questões locais. No embate internético, elas são esmagadas pela satânica mistura do terraplanismo de ideias, notícias falsas e demolição de adversários nas redes sociais, canal que passou a monopolizar a comunicação política.

Questões como postos de saúde, creches, pavimentação, calçadas, transporte público têm audiência baixíssima em um ambiente no qual a sedução se faz com apelos de baixo calão e pela destruição do outro que ousa expor um pensamento diferente.

Político algum nega a essencialidade da eleição municipal para garantir o mandato do deputado, do governador e do presidente da República que se encontrarão com as urnas daqui a dois anos. Até por esse motivo, para muitos deles é melhor que o eleitor vote no candidato aliado sem saber muito sobre ele.

Os adeptos dessa cartilha põem suas fichas na nacionalização do pleito, jogando às favas planos de governo e soluções para problemas locais.

Essa é a aposta dos dois polos extremados – à direita e à esquerda. Farão de tudo para transformar a disputa municipal em um embate entre os pró e os anti-Bolsonaro. Com isso, se safam de firmar compromissos. Desprestigiam as cidades e desrespeitam o eleitor.

Nem um livro a menos

Nunca me esqueci daquele dia. Era novembro de 2013, e em Vigário Geral acontecia a semana de encerramento da Flup (Festa Literária das Periferias). De quarta a domingo, a favela esteve cheia de atividades literárias. Com distribuição de livros, peças de teatro, saraus, além das discussões teóricas na tenda principal.

Eu devia estar voltando de alguma atividade, pois cheguei com a palestra já iniciada. Uma pesquisadora traçava um panorama do mercado editorial brasileiro. Os números no telão abrangiam cerca de três décadas e eram implacáveis: entre os romances publicados, menos de 3% foram escritos por negros ou negras. Lembro de olhar em volta, me perceber cercado de pessoas negras de várias idades que, assim como eu, almejavam a carreira literária. Na hora tive certeza, só havia duas opções: ou estávamos todos nos iludindo naquele processo de formação ou o mercado editorial seria obrigado a mudar para nos receber.





Nos últimos sete anos, apesar de ainda estarmos bem distantes da justiça, muita coisa mudou. Surgiram muitas novas editoras, como a Malê, que é especializada em literatura produzida por pessoas negras e que a cada dia ganha mais espaço e público. Além disso, tivemos o fortalecimento de editoras como a Pallas e a Kapulana que já se dedicavam à literatura africana e toda a diáspora. E a mudança não parou por aí. Um número muito maior de pessoas negras passou a publicar em grandes editoras. Conceição Evaristo recebeu enfim seu merecido reconhecimento em nível nacional. A Flip teve por três anos consecutivos sua lista de mais vendidos encabeçada por pessoas negras.

Esse salto monumental está diretamente ligado a uma outra mudança: de público. Depois de décadas de luta dos movimentos negros, uma série de políticas públicas como a lei de cotas, o ensino da história afro-brasileira nas escolas, os pontos de cultura, entre outras, foram implantadas e possibilitaram essa mudança no público consumidor. A Flup é também um grande exemplo nesse sentido, mais do que “apenas” formar autores nas favelas, o projeto também sempre se preocupou em formar novos leitores.

Lembro de uma resenha que escrevi na “Folha de S. Paulo” sobre o “Efetivo variável”, segundo romance de Jessé Andarilho. Enquanto escrevia o texto, encarava como um trabalho normal. Só quando vi nossos nomes naquelas páginas de jornal, tive a dimensão do significado daquele momento. Pensei em nossos pais, crias de favelas como nós. Quais eram as chances do meu pai escrever uma resenha num jornal importante sobre um livro publicado pelo pai do Jessé na maior editora do país? Percebem o tamanho da mudança numa única geração?

Me faltam dedos nas mãos para contar os amigos próximos que tiveram suas vidas transformadas pela literatura, e que hoje são os próprios agentes da transformação. Seja por suas publicações, seja pelos projetos de leitura, bibliotecas comunitárias, sempre num exercício contínuo de abertura das perspectivas.

A proposta de uma taxa de 12% em cima dos livros com a desculpa de que se trata de um “produto da elite”, nada mais é que a resposta racista de quem sabe muito bem o impacto social provocado pelo empoderamento através da leitura, de quem morre de medo de ver o Brasil mudar.

Geovani Martins

Texto indignado contra a boçalidade de certos grupos da população

Quatro sombras escuras pairam sobre um país solar que nunca puderam ser dissipadas pela nossa consciência e inconsciência coletivas: a sombra do genocídio dos povos originários. Os donos primeiros destas terras. De seis milhões que eram, sobra apenas um milhão. A maioria por não suportar o trabalho escravo ou pelas doenças dos invasores contra as quais não possuíam nem hoje possuem imunidade. A sombra da colonização que depredou nossas terras e florestas e nos tornou sempre dependentes de alguém de fora, impedidos de forjar nosso próprio destino.

A sombra da escravidão, nossa maior vergonha nacional, por termos transformado pessoas trazidas de África em escravos e carvão a ser consumido nos engenhos de cana de açúcar. Jamais vistas como pessoas e filhos e filhas de Deus mas como “peças” a serem compradas e vendidas, construíram quase tudo o que existe neste país. E hoje, tidos por preguiçosos e presos, compõem mais da metade de nossa população, jogados nas periferias; suportam o ódio e o desprezo antes imposto aos seus irmãos e irmãs das senzala e agora transferidos a eles com uma violência tal como mostrou o sociólogo Jessé Souza (A Elite do Atraso: da Escravidão à Lava Jato, 2007 p.67) até perderem o sentido de sua dignidade.

A sombra das elites do atraso que sempre ocuparam o frágil Estado, usando-o para seu benefício. Nunca forjaram um projeto de nação que incluísse a todos, apenas, com as artes perversas da conciliação entre os endinheirados, apenas um projeto só para eles. Não bastava desprezar os marginalizados, mas rachar-lhes as cabeças, caso se levantassem, como ocorreu várias vezes na sua heroica história da resistência e da rebeldia.



Quando um sobrevivente dessa tribulação, por caminhos de pedras e de abismos, chegou a ser presidente e fez alguma coisa para ajudar a seus irmãos e irmãs, logo criaram as condições perversas para destruir sua liderança, excluindo-o da vida pública e, por fim, a ele e a sua sucessora apeá-los do poder. Essa sombra ganhou contornos de “procelosa tempestade e noturna sombra” (Camões) sob o atual governo que não ama a vida, mas exalta a tortura, louva os ditadores, prega o ódio e larga o povo à sua própria sorte, atacado letalmente por um vírus, contra o qual não tem nenhum projeto de salvamento e, desumano, se mostra incapaz de qualquer gesto de solidariedade.

Estas sombras, por serem expressão de desumanização, se aninharam na alma dos brasileiros e brasileiras e raramente puderam conhecer a luz. Agora criaram-se as condições ideológicas e políticas para serem lançadas ao ar como lavas de um vulcão, feitas de boçalidade, de violência social generalizada, de discriminações, de raiva e de ódio de grandes porções da população. Seria injusto culpar a elas. As elites do atraso se internalizaram em suas mentes e corações para fazer que se sintam culpadas de sua sorte e acabem por fazerem seu o projeto deles que, na verdade, é contra eles. O pior que pode acontecer é o oprimido internalizar o opressor com o projeto enganoso de bem estar, sempre lhes sendo negado.

Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido As Raízes do Brasil (1936) difundiu uma expressão mal interpretada em benefício dos poderosos, de que o brasileiro é “o homem cordial” pela lhanesa de seu trato. Mas teve um olho observador e crítico para logo acrescentar que “seria engano supor que essa virtude da cordialidade, possa significar “boas maneiras” e civilidade (p.106-107) e arremata: “A inimizade bem pode ser cordial como a amizade, pois, que uma e outra nascem do coração” (p.107 nota 157).

Pois, no atual momento o “cordial da incivilidade” brasileiro irrompe do coração, mostrando a sua forma perversa de ofensa, calúnia, palavras de baixo calão, fake news, mentiras diretas, ataques violentos a negros, pobres, quilombolas, indígenas, mulheres, LGBTs, políticos de oposição, feitos inimigos e não adversários. Irrompeu, violenta, uma política oficial, ultraconservadora, intolerante, com conotações fascistoides. As mídias sociais servem de arma para todo tipo de ataque, de desinformação, de mentiras que mostram espíritos vingativos, mesquinhos e até perversos. Tudo isso pertence ao outro lado da “cordialidade” brasileira hoje exposta à luz do sol e à execração mundial.

O exemplo vem do próprio governo e de seus fanáticos seguidores. De um presidente se esperaria virtudes cívicas e o testemunho pessoal de valores humanos que gostaria vê-los realizados em seus cidadãos. Ao contrário, seu discurso é eivado de ódio, desprezo, de mentiras e de boçalidade na comunicação. É tão inculto e tacanho que ataca o que é mais caro a uma civilização: sua cultura, seu saber, sua ciência, sua educação, as habilidades de seu povo e o cuidado da saúde e da riqueza ecológica nacional.

Nunca tanta barbárie, nos últimos 50 anos, tomou conta de algum país, como no Brasil, aproximando-o ao nazifascismo alemão e italiano. Estamos expostos à irrisão mundial, feitos país pária, negacionista do que é consenso entre os povos. A degradação chegou ao ponto de o chefe de Estado fazer o humilhante rito de vassalagem e de submissão ao presidente mais bizarro e “estúpido” (P. Krugman) de toda a história norte-americana.

A nossa democracia sempre foi de baixa intensidade. Atualmente se transformou numa farsa. Pois a constituição não é respeitada, as leis são atropeladas e as instituições funcionam somente quando os interesses corporativos são ameaçados. Então a própria justiça se torna conivente face a clamorosas injustiças sociais e ecológicas. Como a expulsão de 450 famílias que ocupavam uma fazenda abandonada, transformando-a em grande produtora de alimentos orgânicos; arranca crianças agarradas a seus cadernos e lhes arrasa a escola; tolera o desmatamento e as queimadas do Pantanal e da floresta amazônica e o risco de genocídio de inteiras nações indígenas, indefesas face ao covid-19.

É humilhante constatar que não haja da parte das mais altas autoridades a coragem patriótica para encaminhar, dentro da legalidade jurídica, a destituição ou o impeachment de um presidente que mostra sinais inequívocos de incapacidade política, ética e psicológica para presidir uma nação das proporções do Brasil. Podem fazer-se ameaças diretas à mais alta Corte, de fechá-la. Fazer proclamas à volta ao regime de exceção com a repressão estatal que implica e nada acontece por razões arcanas.
Elemento de classe

As oposições, duramente difamadas e vigiadas, não conseguem criar uma frente compartilhada para opor-se à insensatez do poder atual.

A brutalização nas relações sociais e especialmente entre o povo simples não deve ser imputada a ele, mas às classes oligárquicas do atraso. Elas lograram internalizar neles seus preconceitos e visão obscurantista de mundo. Estas classes nunca permitiram que vingasse aqui um capitalismo civilizado, mas o mantêm como um dos mais selvagens do mundo. Com os apoios dos poderes estatais, jurídicos, midiáticos e policiais para abaterem qualquer oposição organizada. A “racionalidade econômica” se revela desavergonhadamente irracional pelos efeitos maléficos sobre os mais desvalidos e para as políticas sociais destinadas aos socialmente mais sofridos.

Este é um texto indignado. Há momentos em que o intelectual se obriga, por razões de ética e de dignidade de seu ofício, a deixar o lugar do saber acadêmico e vir à praça e externar sua iracúndia sagrada. Para tudo há limites suportáveis. Aqui ultrapassamos a tudo o que é dignamente suportável, sensato, humano e minimamente racional. É a barbárie instituída como política de Estado, envenenando as mentes e os corações de muitos com ódios e rejeições. Levando à frustração e à depressão milhões de compatriotas, num contexto dos mais atrozes. E que tira de nosso meio pelo vírus invisível mais de 100 mil entes queridos. Calar-se equivaleria render-se à razão cínica que, insensível, assiste o desastre nacional. Pode-se perder tudo, menos a dignidade da recusa, da acusação e da rebeldia cordial e intelectual.