domingo, 21 de junho de 2020

Avôs, filhos e netos

Perguntei a meu neto de 24 anos o que ele contará ao neto dele sobre o que foi viver, e sobreviver à pandemia. Por pior que seja, é antes de tudo uma história extraordinária, maior e mais surpreendente do que qualquer ficção, cheia de emoção, heroísmo, mortes em massa, bandidos que roubam respiradores de moribundos, guerra do Executivo contra o Legislativo e o Judiciário, milícias digitais manipulando notícias e um presidente da Republica ensandecido, irresponsável e incontrolável. Certamente meu tataraneto vai achar que o avô dele está exagerando, aumentando, ou até mentindo só para diverti-lo, como muitas vezes fiz com meus netos.


Depois conversamos sobre golpes, porque vi vários, e ele, futuro advogado, está preocupado com as ameaças do Bozo, e pediu que eu escrevesse sobre o que falamos: o Brasil, irônica e tragicamente, está começando a viver um “chavismo de direita”, unindo a pior parte da direita e a pior do chavismo. Por que arriscar a aventura de um autogolpe, que a maioria do Exército não apoia, e 70% da população são contra? O melhor é o “golpe gradual” inventado por Chávez, tudo na lei, usando a democracia para corroê-la por dentro, militarizando o governo, e dominando o Congresso porque a oposição burra não quis concorrer.

Chávez odiava a imprensa, e com a ajuda da Suprema Corte e dos tribunais, já cheios de juízes terrivelmente chavistas, foi fechando jornais e redes de televisão independentes, até a maior delas, a RCTV, e só restaram emissoras chavistas, cevadas por verbas públicas. É como se Bolsonaro fechasse a TV Globo.

Coronel do Exército, Chávez adorava armas e acreditava nelas como o melhor argumento, criou e armou milícias populares “para defender a pátria do Império”, aparelhou toda a administração e os serviços de inteligência, ninguém ousava contestá-lo. Qualquer opinião contrária virou traição.

É o sonho em progresso de Bolsonaro, só que Chávez, embora meio amalucado, era muito inteligente. E não tinha filhos. Nem era amigo do Queiroz.

Dizer Não

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo.

Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela.

Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos.

Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenanmo-nos em gado sob o comando de um pastor.

Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há-de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue.

Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal.

E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade.

Vergílio Ferreira, "Conta-Corrente"

Amanhã há de ser outro dia

Por quanto tempo teremos que lidar com o acaso em nossas vidas? Infelizmente, o Brasil se colocou acima do bem e do mal enquanto o mundo se mobilizava para controlar a pandemia. Era evidente que esse maldito vírus não tardaria a se espalhar entre nós. E o nosso presidente tem muita responsabilidade sobre isso.

Hoje ocupamos o segundo lugar — depois dos EUA — entre os países com o maior número de óbitos. Apesar de a contaminação ter se dado em todas as classes sociais, foram as camadas mais pobres da população que o vírus mais afetou. Principalmente, nas aglomerações urbanas informais com moradias precárias e sem infraestrutura.

As incertezas continuam aumentando a cada dia. Que futuro nos espera depois dessa pandemia? Se nada for feito teremos uma recessão jamais vista. Os Estados Unidos destinaram cerca de quatro trilhões de dólares para ativar sua economia e mais dois trilhões para as necessidades da área de saúde e da população desassistida. O Brasil disponibilizou apenas 40% dos 400 bilhões de reais destinados para esse fim.


Infelizmente, boa parte desses recursos foi surrupiada em negociações fraudulentas com a conivência de políticos e empresários. Houve, também, desperdício de dinheiro público. Um exemplo é o que está sendo gasto na produção em larga escala de cloroquina pelo Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército, por determinação do presidente.

Por essas e outras notícias precisamos defender e valorizar o papel desempenhado pela mídia tradicional nas democracias. Não dá para confiar — como muitos confiam — nas redes sociais que manipulam a opinião pública com falsas verdades para atacar os adversários do governo.

Ao invés de dar armas ao povo para defendê-lo, o presidente deveria estar mais preocupado em armar a população com educação, saúde e ciência, como disse o ministro do STF Luís Roberto Barroso. A ignorância e a truculência não podem ser balizadoras do futuro desta nação.

Quanto mais a crise na saúde se agrava, mais o modelo econômico atual mostra a sua fragilidade. Muitos conceitos dogmáticos da economia neoliberal se mostraram ineficientes ou superados. O momento é oportuno para o Estado retomar o discurso social, descartando os populismos de ocasião. Aspectos relevantes da política do bem-estar social precisam ser recuperados em nome da justiça social.

Por outro lado, as cidades não podem continuar atreladas ao paradigma da urbanização predatória. Seja no contexto urbano formal ou na informalidade. O tão incensado pragmatismo de resultados imediatos já mostrou sua ineficácia em várias operações urbanas malogradas.

Além da necessidade de políticas sociais abrangentes, o planejamento urbano como política de Estado se mostra capaz de reverter a situação caótica em que se encontram as nossas cidades. Conhecer, avaliar e propor soluções de curto, médio e longo prazo continua sendo o caminho mais consistente para enfrentar os complexos desafios urbanos.

Ambiências urbanas renovadas são indispensáveis para valorizar o espaço público e elevar a autoestima da população. A proximidade entre o poder público e as representações de moradores facilitará a formulação de projetos para atender às necessidades de cada localidade e às expectativas do conjunto da sociedade.

Com as eleições municipais se aproximando, seria de bom tom deixar de lado as idiossincrasias ideológicas que estimularam o voto útil nas eleições passadas, e escolher candidatos que tenham um compromisso irrefutável com a democracia. Não dá pra conviver com o obscurantismo de governos com perfil teocrático ou autocrático.

Precisamos de governantes que saibam, de fato, conduzir a gestão da cidade. Quem vive no Rio percebe o quanto um governo omisso pode ser desastroso. Cidades mais justas e com melhor qualidade de vida é o que a sociedade espera dos governantes.

Temos que ser propositivos para romper com o estigma da exclusão social. Não há tempo a perder diante da perspectiva de amanhã vir a ser outro dia.

sábado, 20 de junho de 2020

Pensamento do Dia


Fim da linha para Queiroz. Fim da linha para o presidente?

O cerco fechou para o presidente Jair Bolsonaro. Fabrício Queiroz é a chave para o passado nebuloso da sua família, uma bola de boliche capaz de fazer strike em seu Governo. Atinge desde a primeira-dama Michele Bolsonaro, brindada com um cheque de 24.000 reais de Queiroz, até as ramificações milicianas dos Bolsonaro, que estão na mira das investigações no Rio de Janeiro. De cara, o presidente se desmoralizou por completo quando Queiroz foi descoberto no sítio do advogado Frederick Wassef, de estreita relação da família Bolsonaro. Na posse do ministro Fabio Faria, da Comunicação nesta quarta, lá estava Wassef. Seu trânsito pelo Palácio do Planalto ou Alvorada era constante. Ele, o primeiro a defender o presidente de acusações, escondia Queiroz há um ano. Tudo nas barbas de seus ministros militares, que erguem a bandeira da lei e da ordem do Brasil.


Bolsonaro procurou ocultar seu passado quando assumiu o Governo. Queiroz foi exonerado do gabinete de Flavio no dia 15 de outubro de 2018, a duas semanas do segundo turno da eleição, quando Bolsonaro seria confirmado presidente. Sabe-se hoje, a partir do depoimento do empresário Paulo Marinho, que os Bolsonaro souberam antecipadamente que Queiroz era alvo de escrutínio da Justiça. Um delegado simpatizante do então candidato ultradireita vazou a um emissário de Flavio os rumos das investigações sobre rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio.

O ex-PM, amigo do presidente, que acompanhou Flavio por anos como assessor —pagando até a mensalidade escolar das filhas do então deputado, hoje senador— já estava orientado a driblar a Justiça a partir de então. Faltou a vários depoimentos marcados no Ministério Público do Rio de Janeiro para falar sobre as suspeitas de rachadinha. Depois, desapareceu.

Neutralizado o passado, o presidente Bolsonaro acreditou manter o controle total do presente para não resgatar assombrações de rachadinhas e funcionários fantasmas, encarnadas por Queiroz. Com a máquina pública nas mãos, logrou marcar sua narrativa e se descolar de Queiroz. Jactava-se reiteradas vezes que não havia uma denúncia sequer sobre corrupção em seu Governo. Que só se preocupava com a família, e os bons costumes, acreditando piamente na própria invenção que fez de si mesmo. Um homem austero e neoliberal, de gostos simples, chinelo no pé e camiseta de time. A cara do povão.

Mas o excesso de confiança cega. A reunião ministerial de 22 de abril deste ano deixa claro que ele estava interessadíssimo em ter informações privilegiadas sobre o rumo de investigações que pudessem atingir seus filhos. Não contava com a falta de lealdade a seu projeto do agora ex-ministro Sergio Moro.

Apostou então na teoria da perseguição. Gritou e humilhou jornalistas que, segundo ele, só queriam inventar mentiras sobre ele. No dia 22 de maio, quando o vídeo da reunião se tornou público por ordem do Supremo, insinuou que queriam chantageá-lo, deixando escapar que tinha informações paralelas sobre andamentos de ações policiais. “[Havia] Possibilidade de busca e apreensão na casa de filhos meus, onde provas seriam plantadas. Levantei [essa informação] porque graças a Deus tenho amigos na polícia civil e na polícia militar no Rio de Janeiro que [me contaram o que] estava sendo armado para cima de mim”, disse um esbaforido presidente, em Brasília.

O fracasso da sua gestão da pandemia foi lhe tirando apoio popular. Resiste una parcela de 30% de eleitores, que acreditam piamente nesse personagem e até engoliram sua aproximação com o Centrão, renegado desde o início do Governo. Ergueram bandeiras contra o Congresso e o STF em nome de proteger seu presidente. Vale até intervenção militar para afastar os inimigos do presidente. Mas muitos de seus porta-vozes tiveram baixas com o inquérito das fake news no Supremo Tribunal.

Mas o novo Bolsonaro encontrou hoje o velho Bolsonaro. Queiroz volta à baila, um dia após um procurador do Ministério Público do Rio apontar uma série de indícios que apontam que Flavio Bolsonaro lavou dinheiro na compra de 19 imóveis desde 2003. Movimentações atípicas mostram lucros extraordinários nessas operações. O MP vê relação dessas compras de imóveis com o dinheiro da rachadinha. Em outra frente, o MP vê conexões das rachadinhas financiando empreendimentos imobiliários da milícia, com ajuda de uma dobradinha entre Queiroz e Adriano da Nóbrega, que também recebia parte das rachadinhas de Flavio, segundo as investigações.

Nóbrega foi assassinado em fevereiro durante uma operação policial na Bahia. Queiroz também teme o mesmo destino. Nóbrega é vinculado ao esquema que executou Marielle Franco e Anderson Gomes. E Queiroz, a chave oculta para essas relações obscuras da família Bolsonaro. O quebra-cabeça vai ganhando forma, num momento em que o Judiciário está atento a cada passo do presidente e seus aliados. Os militares, por sua vez, devem marcar cada vez mais distância de um presidente radiativo. O desgaste do seu Governo é certo, quando tem pouco capital político para se resguardar. Para alguns, este 18 de junho marca o início do fim do Governo Bolsonaro. É inegável que o presidente está num beco sem saída. Só falta saber quanto tempo o Brasil resiste com ele nessa armadilha.

O vermelho e o negro

Os militares não podiam ter seus quartéis dentro dos perímetros da Roma antiga. Anos de mau convívio ensinaram a sociedade civil romana a manter os generais e suas legiões longe do poder, ou das tentações do poder. Não adiantou muito: foram os generais e suas legiões que fizeram história enquanto os tribunos faziam discursos. Roma antiga nos legou grandes peças de oratória contra a promiscuidade indesejada de políticos e militares que acabaram sendo hinos à hipocrisia. O papel dos militares num tempo de paz, portanto, é uma discussão que precede Roma, precede qualquer sociedade minimamente organizada e também precede a hipocrisia.

O que fazer com um poder armado quando ele não é necessário? Ou quando fazer guerra não é mais sua atribuição principal, mas ele mantém seu garbo e suas verbas? O romancista francês Stendhal, na sua obra mais importante, O Vermelho e o Negro, que não tem nada a ver com as cores anarquistas ou com as cores do Flamengo, escreveu sobre os dois caminhos que um jovem indeciso, lançando-se no conturbado mundo da Europa pós-napoleônica, deveria contemplar para ter uma carreira respeitável.

A escolha era entre o vermelho da Igreja, e o negro do Exército. Em nenhum momento da narrativa o protagonista de Stendhal revela uma vocação religiosa ou atração pela vida militar. Ele talvez seja o primeiro personagem da literatura a fazer uma escolha fria entre instituições que perderam o sentido, pensando só na sua carreira e inaugurando o herói moderno.

Desde a Roma antiga, desde antes da Roma antiga, desde antes do antes do antes, o que fazer com um poder armado num tempo de paz? Se ele não é o poder moderador que pretende ser, mas o ministro Fux diz que não é, o que é então? Julien Sorel, o personagem de Stendhal, escolhe o sacerdócio, mas não renuncia às mulheres e acaba guilhotinado. Se tivesse escolhido a farda teria uma bela carreira militar e acabaria, provavelmente, reformado em vez de decapitado. E teria tempo para meditar sobre o papel das forças armadas através dos tempos, desde as primeiras cavernas.

A verdade

Não nos enganemos.
Não termos o que dizer
É tudo que temos. 

Raul Drewnick 

Numa das mais deprimentes noites da história do Maracanã, o futebol foi detalhe

Um dos argumentos a favor da volta dos jogos tratava da possibilidade de criar uma bolha de segurança em torno dos profissionais envolvidos nas partidas. Poderosa, a tal bolha. É capaz até de isolar o futebol do mundo ao seu redor, do senso de realidade, de qualquer gota de sensibilidade e empatia. Por alguns momentos, o Flamengo x Bangu jogado no Maracanã pareceu um exercício de gente disposta a provar que o drama que o Brasil atravessa não lhes diz respeito.


Em meio a tanto açodamento para fazer a roda girar, este Flamengo x Bangu foi marcado com pouco mais de 48 horas de antecedência e confirmado de véspera. Mas houve tempo para cumprir todos os compromissos comerciais: as placas de publicidade reluziam, o pórtico do Campeonato Carioca que aguarda os times estava em seu lugar antes do jogo... Mas não sobrou lugar, fosse ao redor do campo, fosse nas arquibancadas vazias, para qualquer referência às famílias enlutadas. Tampouco, por incrível que pareça, aos profissionais de saúde que se expõem ao risco e se submetem a uma maratona com alto custo físico e mental para tentar salvar vidas. Nem os uniformes dos times, com seus tantos patrocinadores, preservaram um lugar para a solidariedade ou um sinal de luto — só o Bangu carregava uma fita na manga da camisa. Toda a noite pareceu planejada como uma desconcertante frieza.

Foi certamente uma das mais deprimentes noites da história do Maracanã. A noite do futebol a qualquer custo para satisfazer interesses comerciais e tramas políticas poderosas. Não parecia importar, sequer, que, no hospital de campanha montado no interior do complexo do estádio, a poucos metros do campo, morreram duas das 274 pessoas vitimadas ontem, dia do jogo, pela Covid-19.

Tudo parecia fora de lugar. A chegada dos times coincidiu com a troca de turno dos funcionários do hospital. Incomparável, neste momento, a importância da missão de uns e de outros. Por outro lado, é importante registrar que o entorno do Maracanã não deixava dúvidas: o futebol é apenas uma das faces de uma cidade que decretou por conta própria o fim da pandemia. Ciclovia cheia, pequenas aglomerações, gente sem máscara e um pequeno grupo reunido para ver o ônibus do Flamengo chegar. O Rio saiu da quarentena e o futebol pegou carona por conveniência.

A única referência à maior tragédia do país em um século foi o protocolar minuto de silêncio, que interrompeu a música de boate do sistema de som do Maracanã. Uma vez respeitado, voltou à total vigência a lei segundo a qual o futebol não tem tempo para dramas que extrapolem o seu universo. Nem o racismo teve vez. Não houve jogador de joelhos ou qualquer outra menção à luta global cotra o preconceito e a opressão.

O homem branco português afinal é mestiço

É sempre bom lembrar que, assim como a Democracia, a conquista dos direitos humanos nunca é definitiva – deve ser uma luta constante. O racismo, a xenofobia, a homofobia e a violência de género são pensamentos e ações cada vez com mais visibilidade e razão de conflitualidades nas sociedades atuais – e Portugal não é exceção.

O relatório da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância sobre Portugal merece ser lido com muita atenção, pois o país não fica muito bem na ‘fotografia’.

Vejamos algumas reflexões com base neste documento:

-Âmbito legislativo: é preciso criar (e aplicar) leis criminalizando (no Código Penal) a expressão pública da ideologia racista. Ironicamente, Portugal tem no Parlamento um deputado – em franca ascensão política, sinal de que há milhares de portugueses que pensam como ele – com intervenções declaradamente racistas, principalmente contra a comunidade cigana. Além disso, o líder do maior partido da oposição afirma sem corar que não há racismo em Portugal.

– Alto Comissariado para as Migrações: maior e melhor atuação, nomeadamente com campanhas direcionadas aos grupos de imigrantes que mais sofrem discriminação, informando sobre os seus direitos como cidadãos e indicando os organismos públicos onde podem fazer as denúncias.

– Forças de segurança. É sempre um tema polémico. Em primeiro lugar, é preciso desconstruir a (falsa) ideia de que a Polícia (enquanto instituição) é racista; o correto é admitir que há policiais racistas. É um pequeno grupo, mas os seus atos discriminatórios e de violência – principalmente contra os negros – tem um impacto muito grande na perceção (negativa) que a sociedade tem da atuação das forças de segurança. Para alterar essa situação, são necessárias algumas mudanças: política de tolerância zero, punindo severamente os agentes que cometem atos racistas; formação inicial e contínua dos agentes, nomeadamente sobre multiculturalidade e Direitos Humanos; intensificar o diálogo e a cooperação com os grupos mais expostos ao racismo e à intolerância.

– Educação: melhorar o acesso à educação, aumentando a taxa de escolaridade, nomeadamente dos alunos de meios carenciados, imigrantes pobres e ciganos, grupos que mais sofrem o processo de exclusão social. A educação deve formar as crianças e jovens dentro dos princípios de respeito pela diversidade. É importante notar que o racismo não é herdado geneticamente – é um construto social, é um comportamento, é um processo de aprendizagem, nos contextos familiar e escolar.

– Habitação: melhorar efetivamente as péssimas condições dos bairros degradados, sem condições mínimas de habitabilidade, locais onde vivem maioritariamente pobres, imigrantes, população de origem africana e ciganos. Esses locais não podem servir apenas para (algumas) autoridades e altos representantes do Estado e do governo, em ocasiões de conflito e/ou na altura do Natal, irem tirar ‘selfies’, levando atrás os holofotes da televisão.

Para terminar, uma mensagem especial aos ‘brancos racistas portugueses’, aos que defendem uma hierarquização dos indivíduos com base nas suas diferenças físicas e comportamentais herdadas. Do ponto de vista biológico-genético e antropológico, não existem ‘raças’, apenas uma gama enorme de variações de traços físicos entre os seres humanos. O ‘branco’ não existe: a formação étnico-racial da nação portuguesa é resultado de um profundo processo de miscigenação de diferentes povos. O ‘branco’ português é, na verdade, um mestiço.
Donizete Rodrigues, sociólogo da Universidade da Beira Interior

sexta-feira, 19 de junho de 2020

40 milhões de Flloyds

Se o título deste artigo fosse “o odioso rendismo”, o leitor de hoje não compreenderia, da mesma forma que no início do século XX o título “odioso racismo” não era compreendido. A prática racista já existia havia séculos, mas a palavra se consolidou a partir dos anos 1930. Até hoje no Brasil segregamos em escolas diferentes as crianças conforme a renda familiar. As escolas de qualidade são negadas às crianças de baixa renda, e, apesar dessa discriminação, os dicionários não registram a palavra “rendismo”. Porque esse tratamento é visto não como discriminação, mas como consequência de um conceito tolerado.

Felizmente, hoje nenhuma criança é impedida de estudar em uma escola por preconceito pela cor de sua pele, embora, no Brasil, o rendismo seja um braço do racismo, porque nossa pobreza tem pele negra.

Foi o ator Will Smith quem disse que “o racismo não aumentou, ele foi fotografado e divulgado”, mostrando policial branco asfixiando homem negro que desesperado sussurrava: “Eu não consigo respirar”. O vídeo mostrou a cara da perversão do racismo. Mas o rendismo escolar não tem seu filme para mostrar a tragédia, e educação de qualidade não é vista como oxigênio intelectual necessário para a sobrevivência plena neste século do conhecimento.


A população sabe que, dos 50 milhões de crianças brasileiras em idade escolar, pelo menos 40 milhões estão fora de escola com qualidade. Mas não percebe que crianças fora da escola de qualidade sofrem por falta do oxigênio intelectual: não saberá ler, orientar-se, ter emprego, produzir e participar da riqueza que o mundo moderno produz. Não percebe que essa asfixia educacional atinge não somente a criança, mas o país inteiro, que perde em produtividade, inovação, participação e consciência plena.

Tampouco compreende que estamos alimentando o racismo. O racismo nasce no atavismo da história e na desigualdade da escola. A escola é o berço do racismo pela exclusão dos afrodescendentes e dos pobres, e porque a escola sem qualidade induz preconceitos que se espalham pela sociedade.

A escola será o túmulo do racismo quando a educação for oferecida a todos com a mesma qualidade e a todos com conteúdo humanista que desfaça preconceitos e valorize a diversidade. Mas a tolerância com o rendismo escolar impede a luta para que os filhos dos pobres e dos ricos estudem em escolas com a mesma qualidade.

Contra o racismo, luta-se por cotas nas universidades, mas não se luta contra o rendismo, que impede que todas as escolas públicas municipais tenham a qualidade das boas escolas privadas ou federais. Falta agora que, cem anos depois do surgimento da palavra “racismo”, a palavra “rendismo” seja também entendida como um preconceito odioso, quando se referir à segregação que sofrem as crianças pobres ao serem impedidas de desenvolver seus talentos na escola e na idade ideal.

Bolsonaro está conseguindo reabilitar a política

O desgaste na imagem dos militares depois de um ano e meio de governo Bolsonaro era previsível diante da lambança em que se transformou a atual gestão. A pesquisa do Estudo do Instituto da Democracia (UFMG, Iesp/UERJ, Unicamp e UnB) que apontou queda de sete pontos no grau de confiança nas Forças Armadas entre 2018 e 2020 (33,9% para 27%) e um claro aumento da rejeição a um golpe militar (de 46,4% para 65,2%) permite ainda uma leitura mais ampla de mudanças na percepção da população que devem ser determinantes na agenda política e nas eleições de 2022.


Embora incipientes, há sinais de que, junto com o prestígio dos militares e a popularidade de Jair Bolsonaro, vai-se também o discurso da “nova política” que elegeu o presidente e um punhado de governadores de estado. A pesquisa “A cara da democracia”, feita anualmente, mostra certa recuperação na imagem de instituições que, em 2018, sob o impacto da Lava Jato, eram pessimamente avaliadas, como o Congresso e os partidos. Não que estejam superpopulares, mas a taxa dos que dizem não confiar no Congresso caiu de 56,3% para 37,2%.

Talvez diante da inépcia e das crises geradas pelo governo, as instituições da “velha política” parecem estar num caminho de reabilitação. Os partidos, sempre na rabeira do ranking, ainda são vistos com desconfiança por 66,9% – mas isso é dez pontos a menos do que há dois anos. Os que confiam “um pouco” neles subiram de 12,3% para 20,5%.

Também o Judiciário tem melhor avaliação. De 2018 para 2019, primeiro ano do governo em que as instituições começaram a ser abertamente atacadas pelos bolsonaristas, o percentual dos que diziam não confiar no poder havia subido de 33,9% para 38,2%. As ações do STF ao longo da pandemia, e a exacerbação dos ataques, agora claramente relacionados a investigações sobre a família e os aliados do presidente, parecem ter levado a rejeição a recuar para 21%. Os que confiam muito no Judiciário subiram de 8,3% para 13,6%, e os que confiam “mais ou menos”, de 28% para 39,4%.

Os últimos meses da pandemia do coronavírus, e as ações dos agentes políticos diante dela, parecem ter tido peso decisivo para a aparente virada no rumo dos ventos. Enquanto o Legislativo aprovava com celeridade projetos para mitigar os efeitos da Covid-19 e o Judiciário – em especial o STF – tomava decisões para barrar a insensatez da suspensão de medidas de proteção contra a “gripezinha”, o presidente da República negava a gravidade da pandemia. É um enredo ainda em curso, e apenas o futuro dirá qual terá sido seu impacto nessas instituições. Pelo andar da carruagem, porém, é possível supor um reforço da tendência de desgaste de Bolsonaro, e de ganhos para os poderes que trabalham para contê-lo.

Ainda é cedo para avaliar a dimensão do fenômeno, mas tudo indica que o discurso que elegeu Bolsonaro, puxado pela anticorrupção e pela antipolítica, dará lugar a uma agenda bem diversa. Possivelmente, temas como a reconstrução do país no pós-pandemia, geração de empregos e distribuição de renda, terão mais importância do que a esgotada temática da corrupção – até porque o próprio Bolsonaro deu sua contribuição para desmoralizá-la.

A percepção de que a chamada “nova política” era, com raríssimas exceções, uma balela que serviu para eleger, mas não para governar, também poderá ser fator importante. 2022 será de quem souber captar o novo humor e construir um discurso honesto e consistente em cima dele.
Helena Chagas

Pensamento do Dia


A chegada do cometa

A coluna de hoje não é recomendada para leitura durante refeições. Seu assunto é o ânus de Jair Bolsonaro e os desarranjos de seu governo. Desculpe o calão intestinal, mas faz parte da linguagem com que, pela primeira vez no Brasil, um presidente da República passou a se expressar.

O leitor se lembra. Pouco depois de sua posse, Bolsonaro confessou ter feito xixi na cama até os cinco anos de idade. Por algum motivo, disse também que o brasileiro não sabia lavar o pênis com água e sabão e, num arroubo de modéstia, declarou para uma plateia extasiada que continuava “na ativa e sem aditivos”.


Dias depois, no Carnaval, protagonizou o extraordinário episódio do golden shower, postando um vídeo em que dois rapazes se urinavam. Com essa fixação fálica e urinária de Bolsonaro, só a diplomacia explica que os outros chefes de Estado continuassem lhe apertando a mão.

Mas Bolsonaro, para quem “porra” é vírgula, evoluiu —levou seu governo à fase fecal e anal. Na inesquecível reunião ministerial de abril, chamou dois governadores e um prefeito de “bostas” e, referindo-se aos processos movidos pelo STF, alertou: “O que esses caras querem é a nossa hemorroida!”.

Como não se sabia que o presidente sofria de dilatação venosa em região tão delicada, ficou ainda mais dolorosa a recente afronta a ele dirigida por seu mentor Olavo de Carvalho, que, defecando para uma condecoração com que Bolsonaro o distinguira, mandou-o “enfiar a condecoração no *”. Foi a ordem mais chocante dirigida até hoje a um presidente no Brasil e, pelo silêncio presidencial como resposta, não se sabe se foi cumprida.

Agora, com a prisão de Fabrício Queiroz, volta à tona a desesperada advertência do velho amigo ao chefe que parecia tê-lo abandonado: “O Ministério Público tem uma pica do tamanho de um cometa pra enterrar na gente!”

Decididamente, este é um governo para entrar nos anais.

Verdade dos ditados

Se queres conhecer o vilão põe-lhe o governo na mão

Governo se diz liberal, mas joga contra empreendedores

O início da flexibilização do isolamento social em boa parte do país dá a impressão de termos saído da pior fase da pandemia. No entanto, a situação é mais complexa por três razões. A primeira é que ainda não atingimos o ápice da doença, algo que, segundo epidemiologistas, poderá acontecer em junho ou, mais provavelmente, julho. Além disso, há chances de ocorrer uma segunda onda da covid-19 (ou o alargamento da primeira onda), fruto da maneira desorganizada com que tratamos a crise sanitária - e aí teríamos um número maior de mortes. E quando passar a fase mais aguda do novo coronavírus, virá o maior dos desafios: a reconstrução do país.

O desempenho do presidente Bolsonaro no combate à covid-19 tem sido sofrível até agora. Ele já foi considerado por analistas estrangeiros como o pior governante do mundo neste quesito. A maneira como o país está tentando sair da quarentena pode aumentar o descrédito do Brasil no cenário internacional, em especial se a doença revigorar seu poder de disseminação. Uma nova onda da pandemia, ademais, atrasaria ainda mais a retomada das atividades econômicas, e num cenário como esse o bolsonarismo pode dobrar a aposta na confusão, desinformação e conflito com os governos subnacionais e outros atores sociais, ampliando a crise atual.


O dia em que o Brasil sair do pior da pandemia será marcado por duas questões. A primeira dirá respeito ao legado deixado pelos erros no combate à covid-19. A desconstrução do SUS, o acirramento dos conflitos federativos, a ascensão de grupos bolsonaristas de extrema-direita que atentaram contra a democracia e a falta de liderança presidencial, que reduziu a capacidade de os governadores e prefeitos lidarem com a política sanitária local, serão marcas com impacto sobre o futuro.

Hipoteticamente, é possível recomeçar e buscar um novo modelo de relacionamento político. Porém, isso exigirá capacidade de organizar a reconstrução do país. E aqui está o segundo ponto: o governo Bolsonaro já deveria estar preparando o Brasil para o “day after” da crise, mas está completamente perdido. Fica a pergunta: o presidente tem condições de reconstruir a nação?

A reconstrução do país enfrentará uma série de desafios. O primeiro deles será o de ajudar as pessoas atingidas pela doença, especialmente os familiares das pessoas mortas. Há cenários que vão de 100 mil a 150 mil mortes do país nos próximos meses.

Qualquer um dos números é aterrorizador. Cabe ao governo federal reconstruir a confiança social da nação e, para tanto, uma política de apoio às famílias atingidas pela covid-19 seria uma forma inteligente e humanista de restaurar um clima positivo no Brasil.

O sistema de Saúde e seus profissionais precisarão de uma atenção especial após toda a pressão pelo qual passaram por meses, numa intensidade descomunal. Embora seja necessário manter uma estrutura por um tempo para lidar com a covid-19, haverá uma demanda represada muito grande. Outras doenças importantes do ponto de vista epidemiológico podem ter se descontrolado e, mais uma vez, o SUS terá uma sobrecarga de trabalho. Muitos acham que foi necessário ampliar os recursos financeiros agora por conta da crise, mas se perceberá na volta ao normal que o subfinanciamento das políticas de saúde é estrutural.

Mais importante será apoiar os profissionais da área médica no dia seguinte dessa pandemia. Não foi só ver milhares de mortos e sentir a impotência de não poder evitar um destino trágico e rápido dos pacientes. O governo federal, em particular, desrespeitou continuamente às tecnicalidades da área, sugerindo soluções médicas sem evidências cientificas e, obviamente, isso afeta quem está na ponta do sistema. Para piorar, o presidente Bolsonaro incitou pessoas a invadirem hospitais, um lugar sagrado para o bem-estar das sociedades, tanto mais numa pandemia tão avassaladora. Valorizar os profissionais da saúde, em especial do SUS, deveria ser um dos primeiros atos da reconstrução nacional.

As relações internacionais serão estratégicas no dia seguinte do ápice da pandemia. As soluções mais duradoras em relação à covid-19 vão depender de cooperação com outros países, não apenas no que se refere à comercialização da tão desejada vacina, mas também em relação ao restabelecimento do crescimento econômico global. Tudo isso só será possível se o Brasil mudar a sua orientação atual de política externa, que se diz contra o globalismo e os organismos multilaterais. Acreditar que governo americano vai salvar o país de todas as suas trapalhadas e equívocos frente à opinião pública mundial, como nos casos das fracassadas políticas ambientais e indigenistas, é um caminho incerto e ingênuo - afinal, nem se sabe se Trump continuará presidente após a eleição de novembro.

A desigualdade ficou ainda mais visível com o crescimento da Covid-19, realçando como o país não resolverá seus principais problemas se não tiver políticas de longo prazo contra as diferenças sociais que dividem tragicamente o país. A adoção de políticas de transferência de renda mais eficazes já entrou na ordem do dia no debate público, embora o governo ainda não tenha deixado claro como irá lidar com esse assunto.

É preciso entender que há vários tipos de desigualdade que foram realçados com a crise sanitária. A distribuição de renda aos mais pobres é essencial, mas não esgota o tema. Deveria receber maior atenção a situação de moradia de grande parte das famílias brasileiras, que vivem em condições insalubres e quase sempre sem saneamento básico. A manutenção endêmica da dengue no Brasil já se vinculava a essa característica de desigualdade urbana. Se novas pandemias que não tenham ainda um remédio adequado atingirem o país, formas de isolamento social serão mais uma vez difíceis de se obter - e sem isso, o número de mortes sempre será maior.

Outras desigualdades, como as que atingem os idosos e sobretudo a população negra, também merecem tratamento mais adequado. O retrato dos mortos da pandemia tem revelado que não somos iguais perante as políticas públicas. Na verdade, outros indicadores, como o de violência urbana e o de escolarização da população, há décadas têm mostrado um país doente em termos de desigualdade. Mudar esse cenário seria uma forma de mostrar que aprendemos com a trágica história da covid-19.

A reconstrução econômica será um dos maiores desafios do pós-covid-19. É preciso, inicialmente, garantir alguma renda a milhões de brasileiros que ficarão sem emprego e para os quais a informalidade não garantirá sustento. Essa ajuda provavelmente precisará ter uma temporalidade maior do que a imaginada pelo governo, pois o retorno das atividades econômicas não vai puxar tão rapidamente o PIB e o emprego como se gostaria. O mundo pode entrar numa depressão, e para esta é preciso mais ideias de keynesianos do que de liberais extremos.

A ajuda às empresas brasileiras foi, até agora, completamente insuficiente. O governo Bolsonaro demonstrou ser insensível com pequenos, médios e grandes empresários, com exceção daqueles que o apoiaram diretamente na eleição e que continuam fiéis nas redes sociais. Faltou uma imaginação institucional e um sentido de urgência que houve na época do Proer e que evitou a crise bancária, ou quando o presidente Lula garantiu a sobrevivência de várias empresas após a crise de 2008. É muito paradoxal ter um grupo governante que se diz liberal e joga contra os capitalistas e empreendedores.

Mesmo sabendo que o tamanho da crise econômica e sanitária deva se fazer sentir por alguns anos no Brasil, a consequência mais profunda da crise da covid-19 ocorrerá na educação. Alunos pobres que ficaram por meses sem aula aumentarão a enorme distância que os separa dos mais ricos. A forma de corrigir isso está em melhorar a qualidade das escolas e ter professores motivados e preparados para essa batalha contra tamanha desigualdade.

Porém, até agora o MEC não disse como enfrentará essa tragédia. Na verdade, o governo Bolsonaro lavou as mãos diante dessa desgraça coletiva, abandonando a geração que será o futuro da nação. Os livros de história contarão quem foi o governante que mais abandonou a educação no país.

Obviamente que o ministro da Educação, cujo nome é indigno de ser pronunciado, tem culpa na falta de rumo para o setor. Mas o presidente deveria chamar para si a responsabilidade de aprovar um Fundeb capaz de financiar o enorme desafio que será reconstruir a esperança de crianças e jovens pobres pelo país afora.

Deveria também retomar o diálogo com governadores e prefeitos para tomarem decisões conjuntas que garantam o aprendizado de todos os alunos, desculpando-se assim do vexame que foi brigar com os governos subnacionais em meio a milhares de mortes. Mais do que tudo, deveria gritar que a reconstrução do país começa nas escolas, congregando professores, famílias e filhos em torno de um projeto de Brasil mais justo e capaz de aumentar a qualidade de seu capital humano. Gostaria de acreditar nessa imagem, mas, infelizmente, Bolsonaro é mais habilidoso em criar guerras culturais do que em juntar pacificamente as pessoas em torno do conhecimento como a principal arma de mudança social.
Fernando Abrucio

Bolsonaro já tem seu 'tchau, querida!'

O governo Bolsonaro acabou. A reforma da Previdência, único marco que ficará destes dias, durem quanto durar, é, na verdade, herança do governo Temer, que só não conseguiu aprovar o texto porque teve de enfrentar o lavajatismo golpista e de porre de Rodrigo Janot. Isso à parte, sobra pregação golpista. E só.

Quanto tempo o “mito” ainda fica por aí? Não sei. Mas é “um cadáver adiado que procria”, para lembrar verso de Fernando Pessoa em caso bem mais nobre. E qualquer coisa que venha à luz, nessas circunstâncias, será necessariamente ruim.

Não temos mais um presidente, mas um refém do fundão do centrão. À medida que a sociedade vai saindo da clausura a que a condenou o coronavírus, cresce o preço político para manter o corpo na sala. Até a hora em que os próprios apoiadores resolvem enterrar o malcheiroso.


Lembram-se do “tchau, querida” de Lula, ao se despedir de Dilma, naquela gravação feita e divulgada ilegalmente por Sergio Moro? Esqueçam o mérito. Fixo-me nas palavras. Elas se transformaram numa espécie de emblema da derrocada do governo. Era também uma senha entre os que defendiam o impeachment.

Bolsonaro já tem os dois vocábulos imortais que servem para carimbar seu fim. E saíram de sua própria boca, em um dos habituais acessos de fúria. Falando a seguidores no Alvorada, deu a entender que, a partir daquele momento, passava a ter o comando das vontades do STF. Vociferou para o TIH (Tribunal da Ironia da História): “Acabou, porra!”.

Pois é... Acabou, porra!

A partir de agora, não há mais como o presidente se ocupar do governo. Enquanto estiver por aí, vai ter de pagar, às custas do futuro do Brasil, o preço para que não se formem os 342 votos na Câmara que o empurrariam para julgamento, e condenação certa!, no Senado por crime de responsabilidade.

Aqui e ali, as pessoas se espantam: “Caramba! O Fabrício Queiroz foi se homiziar justamente no sítio de Frederick Wassef, advogado dos Bolsonaros, que tinha estado no Palácio do Planalto no dia anterior, a convite do presidente, na posse de Fábio Faria, o ministro que simbolizaria a disposição para o diálogo?”.

Meus caros, vocês queriam o quê? De Goethe a Max Weber, estamos diante de uma derivação das chamadas “afinidades eletivas”. A Operação Anjo, no âmbito da qual Fabrício foi garfado, é uma referência ao apelido de Wassef entre os Bolsonaros: anjo. Eles todos devem saber por quê.

Queiroz foi preso no dia seguinte àquele em que Bolsonaro negou a democracia três vezes. O dia 17 de junho entrará para a história. Logo de manhã, o presidente anunciou às portas do Alvorada, referindo-se a magistrados de tribunais superiores: “Eles estão abusando. Está chegando a hora de tudo ser colocado no devido lugar”. À noite, foi ainda mais sombrio: “É igual uma emboscada. Você tem de esperar o cara se aproximar”.

Na sequência, foi arriar a bandeira em companhia do comandante do Exército, Edson Leal Pujol, que caía, ele sim, numa emboscada. Entre uma ameaça e outra, fez a mais grave de todas as afirmações desde que assumiu. E justamente na posse do novo ministro.

Nas barbas de Rodrigo Maia e Dias Toffoli, presidentes, respectivamente, da Câmara e do STF, o mandatário evocou as forças do caos: “Não são as instituições que dizem o que o povo deve fazer. É o povo que diz o que as instituições devem fazer”. Essa é a divisa dos tiranos, não dos democratas. “Povo”, para Bolsonaro, ele já deixou claro, se resume às suas milícias digitais e àqueles que comungam de seus, vá lá, valores, que ele chama “conservadores”, numa distorção miserável do sentido da palavra.

É o passado policial de Bolsonaro que põe fim a seu governo, ainda que o cadáver fique por aí. Mas o que já o impedia de governar é a sua absoluta incompreensão do que é a democracia. Sim, novas ameaças de autogolpe virão nos próximos dias. É de sua natureza.

Bolsonaro quer que acreditemos que os generais podem botar os tanques nas ruas para unir a história das Forças Armadas à de patriotas como Fabrício Queiroz.

Reinaldo Azevedo

Brasil vampirizado


Não há mal que sempre dure

Não dá para esconder que a democracia brasileira esteja sob alto risco, e não apenas por que se encontra ameaçada por um governo que faz do seu desmonte o seu objetivo estratégico, mas também por que uma parte de sua sociedade abandonou sua afeição por ela. Afinal, os governantes que aí estão foram eleitos em pleitos eleitorais livres, secundados pelos parlamentares mais toscos, despreparados e vorazes conhecidos em nossa longa história parlamentar, presentes em todas as casas de representação política. Também eles não caíram do céu, foram eleitos, e muitos deles com estrondosa votação. O retrato lúgubre que estampam não é filho do acaso e da má vontade do destino, mas das nossas ações e inações. Diante de nossos olhos a sociedade adoeceu, perdeu-se de si mesma, da sua história e melhores tradições.


Como isso pode acontecer aqui, justo no lugar que soube derrotar pela ação política bem concertada um regime autoritário que a afligiu por duas décadas, essa a questão que temos de sondar até as suas raízes a fim de encontrar remédio para os males que nos atormentam. Que se ronde a blasfêmia, inevitável no caso, por que foi de um partido nascido da vida sindical, lugar sagrado da esquerda, que teve início a difusão do vírus maldito que apartou a democracia política da democracia social, cerne da concepção da Carta de 88, destituindo a política do seu papel criador e pondo no seu lugar a esfera bruta dos interesses, deixando fora de foco o cidadão em nome dos apetites do consumidor – os automóveis, as viagens de avião, as comemorações da Força Sindical no 1º de maio com brindes e rifas aos participantes no lugar da evocação das lutas civis que tradicionalmente celebravam.

Principalmente o descaso com a organização da vida popular e a descrença no papel que uma cidadania ativa pode desempenhar nas democracias, uma vez que por cima de todos um poder tutelar agia em nome de todos, vindo a reforçar as tendências à fragmentação social que décadas de modernização autoritária tinham produzido. A questão social sob a administração do Estado vem à tona com pouca sustentação nos atores que deveriam ser os seus portadores naturais, orientada como estava para os fins políticos da reprodução do poder tutelar que se empenhava, como recurso de legitimação, na satisfação dos desejos de consumo das multidões.

Naquele contexto o que importava era a preservação das posições conquistadas no interior do Estado, pois era a partir dele que realizava o seu enlace com os movimentos sociais e setores da sociedade civil, aí incluídas atividades empresariais de todo gênero, movimento que mereceu ser designado como o Estado Novo do PT. Seus efeitos foram letais na medida em que expos as estruturas do Estado às ações de grupos de interesse que se valeram dessas relações promíscuas para a expansão dos seus negócios e atividades econômicas, terreno fértil à corrupção. Com este flanco aberto, escancarou-se a possibilidade para o capitalismo brasileiro de se livrar dos inúmeros obstáculos, sociais e institucionais, que obstavam sua plena realização. A chamada operação Lava Jato foi o cavalo de Troia que permitiu a entrada em cena das hostes que há tempos ansiavam por essa oportunidade.

Com o terreno da política desertificado, lastro deixado pela Lava-Jato, afetado em sua credibilidade o sistema da representação política, destruídas as escoras e referências que orientavam o sistema de crenças da sociedade, já enfraquecidas por anos de práticas refratárias a uma cidadania ativa por parte do PT, a cena pública tornou-se presa fácil do mundo dos interesses e de todos os apetites. Uma ralé de novo tipo, com extração nos setores das camadas médias, em busca da fama e da riqueza fácil, inebriadas pelo mito pós-moderno da personalidade, vislumbra na sociedade indefesa a sua hora e a sua vez e consegue postos importantes no sistema da representação política. Com a infiltração desses vândalos a obra da ainda inacabada civilização brasileira passa a sofrer graves ameaças.

Contudo, dessa história de ruínas permaneceram de pé as instituições edificadas no já longínquo 1988, ano em que celebrou sua Carta democrática, e por isso mesmo os bárbaros que a sitiam têm como lema a sua destruição. Seus defensores, com firmeza e sabedoria, têm sabido até aqui preservar esse último reduto da democracia brasileira, mas seu esforço solitário não é garantia de que poderão sem recursos externos sobreviver ao cerco a que estão expostas. A dificuldade para a efetivação desse movimento está na pandemia que nos assola, e que nos mantém confinados em defesa da vida. Há outros recursos, porém, que embaraçam as ações dos que tramam contra nossa democracia, um deles, nada irrelevante, provem do mundo ao redor.

As forças que nos rondam em nome da destruição da nossa obra coletiva também sabem calcular, e têm tudo a temer, na economia e na política, no cenário atual das coisas no mundo, caso prevaleçam impulsos em suas ações no sentido de apostar na barbárie que anima tantas lideranças suas. O Brasil não é uma ilha, e faz parte desde sua origem do sistema capitalista mundial, filho do Ocidente, sua formação nacional se forjou sob a influência das correntes de ideias que nos vinham da França, no Império, segundo a modelagem operada pelo Visconde do Uruguai, e, na República, dos EUA que inspirou em larga medida a sua primeira Constituição em 1891, obra em grande parte derivada da influência de Ruy Barbosa na sua redação.

Orbitamos desde aí, de Rio Branco a Nabuco e Osvaldo Aranha em torno desse último eixo, que agora se move em reação contrária a política de Donald Trump que desafia as concepções dos seus pais fundadores em nome do seu projeto de poder em antagonismo com o universalismo e ideais civilizatórios preponderantes ao longo da sua história republicana. Tal movimento, nos dias que correm, tendo como estopim a questão racial, ganhou as ruas, em que pese a pandemia que a todos atinge, em multitudinárias manifestações de jovens apoiadas pela opinião pública e de grandes personalidades do mundo da cultura e dos esportes, não lhe faltando sequer palavras de simpatia entre algumas de suas elites militares. Anuncia-se a possibilidade de mudança nas coisas do mundo.

A política dos governantes que aí estão se encontra desalinhada das tendências benfazejas que ora se afirmam em todos os cantos do planeta. Sob a pressão da pandemia em curso, a linguagem da cooperação se universaliza, com forte intensidade na dimensão da ciência onde se fazem presentes vigorosas denúncias do estado de coisas reinante no mundo, que adoece pelas desigualdades sociais, pela degradação da natureza e da vida em geral. Coube a nós viver essa quadra inclemente sob a condução de ideologias de hospício, hostilizados pelo bestiário de dirigentes que afrontam o mundo e o que há de melhor em nosso país. Isso que aí está não pode durar, não vai durar.
Luiz Werneck Vianna

Acabou a 'liberdade dos tolos'?

Li, estes dias, na coluna de Yascha Mounk, na Folha de S.Paulo, que o "Brasil já é uma democracia sob supervisão militar". Concordo em parte, como explicarei a seguir.

Para começar: lotear os ministérios com militares, em vez de quadros técnicos, como originalmente prometido pelo presidente Jair Bolsonaro, é um sinal claro dessa supervisão. O mesmo vale para declarações dúbias como a do ministro-chefe da Secretaria de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos, de "não esticar a corda". Parece que há militares da ativa se confundindo sobre o papel dos militares. Eles são do Estado, e não um braço armado do governo. E servem para proteger a democracia e os cidadãos, sendo eles "de esquerda" ou "de direita".

Afastar o presidente do cargo, por meio de uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou de um impeachment, faz parte do jogo democrático. E não de uma tentativa de "esticar a corda". Só para lembrar que a ex-presidente Dilma Rousseff foi removida do poder por causa de "pedaladas fiscais" e sob o aplauso – e até ofensas – do então parlamentar Jair Messias Bolsonaro.

No meu entender, o impeachment de Dilma foi um jogo sujo, mas, obviamente, dentro das regras democráticas. O impeachment serve como saída de emergência no sistema presidencial. No sistema parlamentar, a saída é mais fácil e menos dolorosa: basta o parlamento eleger um novo primeiro-ministro e acabou. Sem drama.

Mas entendo que seja mais fácil fazer o impeachment de uma presidente da esquerda. É impensável fazer o impeachment de um presidente "de direita", que tem centenas de militares no seu governo? A direita sempre possui uma certa Narrenfreiheit, palavra alemã maravilhosa, que significa "liberdade dos tolos". É só olhar para a turma dos 300 do Brasil, que fizeram todo mundo de bobo na Esplanada dos Ministérios por semanas. Acamparam na Esplanada, xingaram e ameaçaram os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e os congressistas em plena Praça dos Três Poderes, copiaram as marchas noturnas com tochas dos nazistas e supremacistas brancos e até "bombardearam" o STF com fogos de artifício. E, ainda por cima, posaram com suas armas para fotos.

Nunca um grupo da esquerda teria tido tal Narrenfreiheit. E nunca um policial militar teria levado um desaforo de um ativista "da esquerda" como levou de Sara Giromini "Winter" no dia da remoção do acampamento dos 300 do Brasil. Aposto que a Sara estava lançando sua candidatura para 2022 ao xingar o policial. Igual fez seu ídolo, o então deputado Bolsonaro, que lançou sua candidatura para 2018 ao ofender Dilma na votação do impeachment em 2016.

A República sempre teve uma certa cegueira no olho direito. Afinal de contas, foram os militares que proclamaram a República, em 1889, e não forças políticas. (Ou será que os militares se enxergam como força política? Isso explicaria muita coisa.) Por isso, tenho que discordar de Yascha Mounk num ponto: o Brasil sempre esteve sob a supervisão militar.

Pode-se traçar uma linha desde a Proclamação da República, do começo da era Vargas, com a Revolução de 1930, passando pelo fim da presidência dele, pressionado pelos militares, e até o golpe de 1964. Desde 1988, o Brasil tenta tirar a supervisão militar. Mas lembramos das notas emitidas por militares, no fim do governo Dilma e na ocasião de uma suposta soltura do ex-presidente Lula da prisão, quando militares das mais altas patentes tomaram um lado.

Agora, uma parte do aparato militar faz parte do governo Bolsonaro. Nas manifestações do dia 7 de junho, em Brasília, Augusto Heleno Ribeiro Pereira, general da reserva do Exército e atual ministro-chefe do Gabinete da Segurança Institucional, fez questão de cumprimentar os policiais que fizeram o cordão de isolamento entre os manifestantes "da esquerda" e os bolsonaristas. Foi festejado como herói pelos "blogueiros" bolsonaristas, que seguem fielmente a filosofia dos Jedi de "Guerra nas Estrelas" que diz: "Aliada minha é a Força, e poderosa aliada é." Eles têm muitos motivos para acreditar que "a força está com eles".

Minha experiência de manifestações é que as forças policiais não hesitam em lançar gás e bombas de efeito moral contra manifestantes "da esquerda", além de balas de borracha e cacetadas. Nunca se atreveriam a fazer isso com manifestantes do outro lado.

Sobrou agora para a Justiça enquadrar os 300 do Brasil e a militância pró-governo. Na manifestação do dia 7 de Junho, ouviam-se reclamações por parte dos manifestantes bolsonaristas, que tinham a plena liberdade de se aglomerar na Praça dos Três Poderes (algo que os manifestantes "da esquerda" não podiam). Compararam as buscas e apreensões, feitas pela Polícia Federal nas casas de apoiadores do presidente Bolsonaro à perseguição que os judeus sofreram na Europa nazista. Chamaram o STF e o Congresso de "comunistas" e conclamaram uma "intervenção militar". Tudo fora da lei e do contexto histórico.

Resta saber se a "liberdade dos tolos" agora acabou. E o que o presidente Bolsonaro quis dizer, quando comentou as investigações contra políticos bolsonaristas que supostamente financiaram os atos dos 300 do Brasil com a seguinte frase: "Está na hora de tudo ser colocado no seu devido lugar."

Thomas Milz

Capitão Sanguessuga

Bolsonaro ‘vampiriza’ o prestígio dos militares para escorar seu governo cada vez mais impopular. O resultado é que não se pode mais dizer, hoje, que se trata de um governo civil com militares. É uma administração fraca que se cerca de militares para simular força e impedir sua queda por meio da intimidação dos outros poderes. Ou seja, é uma relação desigual, na qual a corporação perde e Bolsonaro ganha
Christian Lynch, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj)

Primeiro alerta aos militares: acabarão como o Sansão bíblico?

O primeiro alarme acaba de soar. Enquanto Bolsonaro vê sua taxa de apoio popular reduzida a 30% antes dos dois anos de mandato, os militares, que eram junto com a Igreja uma das instituições com maior índice de aprovação na sociedade, começam a descer a ladeira. Segundo a recente pesquisa do Instituto da Democracia, pela primeira vez o mítico apoio popular ao Exército começa a desmoronar, perdendo 7 pontos, enquanto sua permanência no Governo não contribui para a democracia na opinião de 58%.

Começa-se a notar na opinião pública a inquietação de que essa presença maciça dos militares no Governo de Bolsonaro, com suas manias golpistas, possa resultar em um desastre para todos. O apoio à ideia de uma ruptura institucional para permitir um golpe militar em nome do combate à criminalidade passou de 55,3% em 2018 para escassos 25% hoje.


Cabe perguntar aos militares o que os leva a continuar apoiando um Governo que está murchando aos olhos da opinião pública, cada vez mais encurralado internacionalmente. O índice de aprovação a Bolsonaro no Brasil se deteriorou os últimos meses com o desprezo do presidente pela pandemia, a tentativa de ocultar as mortes e sua falta de empatia com as vítimas, que estão prestes a serem as mais numerosas do mundo.

Há quem se pergunte o que esperam os militares para abandonar essa situação de apoio a um Governo contra o qual estão crescendo as manifestações populares, as quais poderiam alcançar a eles mesmos. Como escreveu dias atrás Carla Jiménez, diretora de redação do EL PAÍS Brasil, essa ambiguidade dos militares pode fazê-los serem vistos como “cúmplices” das ações de um presidente que já é tido como um caso psiquiátrico. Será só o acúmulo de salários, como ironizou o genial colunista Elio Gaspari? Ou será o prazer da visibilidade midiática por seus cargos no Governo, que os faz aparecerem, dia sim, dia não, pontificando sobre a política, da qual deveriam ficar de fora?

De qualquer modo, a responsabilidade dos militares perante a sociedade que começa a abandoná-los é grave, já que nada poderia ser mais perigoso para o Brasil, para sua imagem dentro e fora do país, que acabar perdendo sua cota cada vez mais minguada de popularidade.

Seria triste que os militares brasileiros que deram apoio à democracia, o que acabou por redimi-los da noite escura da ditadura, possam perder hoje sua credibilidade por um prato de lentilhas. Tomara não repitam a simbologia da passagem bíblica de Sansão, para citar um exemplo tirado do Livro Sagrado que seu atual chefe, o presidente Bolsonaro, exibe junto à Constituição.

Sansão, segundo aparece no Livro dos Juízes (capítulos 13 a 16) da Bíblia hebraica, foi o último juiz de Israel antes da monarquia. Tinha sido agraciado por Deus com uma força especial. Era capaz de despedaçar um leão com suas mãos. Seus inimigos eram os filisteus. Contra eles Javé tinha dado um poder especial que residia em sua vasta cabeleira de nazareno.Sansão pediu permissão para se apoiar em uma coluna do edifício e com um simples movimento fez desabar o templo, onde morreram ele e os filisteus

Sansão, entretanto, caiu na fraqueza de se entregar às delícias de uma prostituta que lhe arrancou o segredo da sua força. Assim, enquanto dormia em seus braços, fez que lhe cortassem sua cabeleira, e começou seu declínio. Os inimigos lhe arrancaram os olhos, obrigaram-no a labutar num moinho de grãos. Só que ali o seu cabelo cresceu novamente, e ele recuperou a força. Os filisteus não sabiam, e um dia o convidaram a ir ao templo. Estava, diz a Bíblia, abarrotada com 3.000 filisteus que ocupavam até o teto do templo. Sansão pediu permissão para se apoiar em uma coluna do edifício e com um simples movimento fez desabar o templo, onde morreram ele e os filisteus.

As histórias bíblicas têm muitas leituras. A de Sansão já foi tema de todas as artes, da literatura à pintura, e de todas as interpretações religiosas e laicas. E hoje se tornou atual na complexa história de Bolsonaro e dos militares. Não sabemos de onde vem a força que Bolsonaro revelou nas últimas eleições, quando obteve 57 milhões de votos sem nunca ter sido nada antes, nem como deputado em seus 30 obscuros anos de Congresso e menos como militar, já que foi forçado a abandonar sua carreira por causa dos seus instintos terroristas.

Talvez essa força do “mito”, que como Sansão hoje ameaça derrubar as colunas da democracia, tenha sido conferida pelos milagrosos robôs e fake news usados em sua campanha, ou como desforra pela humilhação de ter ficado em simples capitão reformado, para se tornar comandante-chefe de todas as Forças Armadas do país. É algo de que hoje ele se gaba. Não se deram conta os militares de que o acolheram e estão se tornando seus cúmplices no governo?

Cuidado, porque o novo Sansão pode acabar em sua loucura preferindo que todos morram com ele, derrubando as colunas do templo da Constituição. Perderíamos todos: ele, os militares, a sociedade e o mundo, porque o Brasil acabaria reduzido a mais uma república de bananas após ter sido o coração econômico do continente e a inveja do mundo quando o país desfrutava tranquilo de sua reconquistada democracia e era visto como o país do futuro.

Como acaba de afirmar Fernando Gabeira, que conhece como poucos, palmo a palmo, os territórios mais recônditos do Brasil e não pode ser acusado de conivência com o poder, “nem todos sabem como este país é grande, diverso, solidário e magnífico em sua beleza”. E alerta: “Impedir que ele se dissolva é a grande tarefa de construir uma civilização tropical onde só querem pastos, fuzis, carros e eletrodomésticos”.

Cuidado, senhores militares! O Brasil é maior, mais importante e interessante no mapa mundial que as mesquinhas manobras de poder. E vocês são os garantes de defender este grande patrimônio para que não seja jogado na roleta da morte.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Racistas, nós?!

Nestes tempos, a vida continua a revelar-nos um enredo de ficção distópica à frente dos nossos olhos. Há dias, ouvi ao fundo a voz off de um canal de televisão noticiar que uma “manifestação racista e uma manifestação antirracista” se tinham confrontado em Londres. Estremeci. O próprio conceito de “manifestação racista” é coisa intolerável e inimaginável – algo ao nível de uma manifestação de assaltantes ou de uma manifestação de agressores. E, porém, aconteceu. Grupos de extrema-direita gritaram palavras de ordem contra os negros, sob o pretexto de protegerem as estátuas que poderiam vir a ser destruídas pelos grupos de extrema-esquerda. Cá está o estado a que as coisas chegaram: os dois lados da barricada extremados frente a frente, arrasando uma causa que tem de ser comum e que não devia ter cor política. E, porém, estupidamente, tem.

O tema do antirracismo não pode ser da esquerda nem da direita. Tal como a igualdade, este tema tem de ser de todos. E não, não pode bastar-nos não sermos racistas, temos de ser ativamente antirracistas. Todos, da direita à esquerda democráticas, passando pelos vários centros, têm de fazer desta uma causa também sua.


Infelizmente, a direita portuguesa ainda não percebeu isso, e a esquerda está a deixar que a extrema-esquerda assuma o protagonismo do tema. A direita continua a enterrar a cabeça na areia e a repetir a velha lição aprendida na escola no tempo da outra senhora: fomos “colonizadores diferentes”, sempre tratámos bem, acolhemos e integrámos os negros, e não temos qualquer problema de racismo em Portugal. Que dizer da boutade de Rui Rio, um candidato a primeiro-ministro, acerca do assunto? Assegura o líder do PSD que não existe um problema de racismo em Portugal e diz que “ainda ficamos é racistas com tanta manifestação”. Os estudos sociológicos desmentem-no, mas Rui Rio garante que está tudo bem e ainda faz piadas que nem à mesa do café se admitem.

Já a esquerda está a deixar que a causa seja tomada de assalto pelos extremistas. Pelos destruidores ignorantes de estátuas e pelos discursos do apagamento da História e da memória coletiva. Não sou, à partida, contra intervenções em situações-limite – compreende-se que não faz sentido termos estátuas de Salazar ou de Hitler nas praças públicas. Mas não vai ficar pedra sobre pedra se começarmos a olhar todas as figuras de antigamente pelos valores de hoje, filtrando-as pelos crivos mais exigentes que só surgiram depois de uma evolução de séculos. Se começarmos a retirar estátuas das ruas e obras de arte dos museus de figuras opressivas, abusadoras, racistas e misóginas, pouco vai restar. A distância para estarmos, não tarda pouco, a queimar livros não é grande. Não é este o caminho, até porque este caminho afasta as pessoas “comuns” desta luta.

Precisamos de todos – mesmo todos, para combater um problema que é evidente que existe por cá. Segundo o European Social Survey, Portugal é o país da Europa com maior racismo biológico − a crença de que há raças ou grupos étnicos que nasceram menos inteligentes e/ou menos trabalhadores (52,9% dos portugueses afirmam-no, quando a média europeia é de 29,2%) −, e o quinto país com maior nível de racismo cultural – a crença de que há culturas muito melhores do que outras (54,1% face à média europeia de 44%). A discriminação racial nas polícias nacionais também está documentada. Portugal está no topo dos países da Europa Ocidental com o maior número de casos de violência policial e os riscos são maiores para afrodescendentes, concluiu um estudo de 2018 do Comité Europeu contra a Tortura do Conselho da Europa.

Consegue imaginar arriscar-se a ser espancado por causa do tom de pele se der uma resposta torta a um polícia? Consegue imaginar o que é sentir o medo nos olhos dos outros quando entra algures só porque tem um capuz na cabeça? Consegue imaginar o que é ser um desportista e ter a claque da equipa adversária a imitar chimpanzés sempre que entra em cena? Consegue imaginar o que é ficar para o fim da lista numa candidatura a um emprego por causa da sua cor? Eu, branca e privilegiada, não consigo – mas consigo perceber a revolta de quem passa por isso.

É preciso, de uma vez por todas, percebermos que temos de resolver este problema de descriminação, e começarmos por admitir que ele existe é o primeiro passo. Sem deixar polarizar os discursos, porque isso é o pior que podemos fazer pelos negros e pela causa antirracista.

Já houve golpe?

Eleito defendendo a prisão após a segunda instância, Bolsonaro agora defende que os militares sejam a última instância que pode absolvê-lo de qualquer coisa.

Bolsonaro encheu seu governo de militares para que todos acreditemos nas ameaças de golpe que ele faz todo dia. A última foi através de nota assinada pelo presidente, o vice e o ministro da Defesa dizendo que as Forças Armadas não são obrigadas a aceitar interferências indevidas de um Poder no outro. A nota referia-se às possibilidades de cassação de chapa presidencial pelo TSE ou de impeachment no Congresso.

Pode ser blefe, e deve ser. O comando do Exército não assinou a nota. Se tivesse assinado, o título desta coluna não teria ponto de interrogação.


Afinal, dizer "não faça isso ou eu dou um golpe" já é uma ameaça de golpe, assim como "me dê seu dinheiro ou eu te assalto" já é tentativa de assalto. Se alguém, em qualquer das instituições que fiscalizam o presidente, tiver sido intimidado pela ameaça, o golpe já aconteceu.

E é mau sinal que as instituições não se sintam confortáveis para dizer "vai lá, Jair, tente a sorte, vamos ver se você consegue dar seu golpe, veja o que vai acontecer com você".

Era o que diriam para qualquer presidente que não tivesse milhares de militares no governo. Se, por exemplo, Fernando Collor tivesse dito que pretendia armar a turma do artigo 142, teria sofrido impeachment na terça, sido preso na quinta e torturado na sexta para dizer que foi tudo um plano do Lula.

O que essas notas "não vai ter golpe, mas não derrubem o Jair" fazem é garantir imunidade ao presidente da República. Se não pode ser cassado pelo TSE, ele pode fraudar eleições. Se ele não pode sofrer impeachment, pode cometer crimes de responsabilidade dia e noite, como vem cometendo.

Se ele pode aparelhar a Polícia Federal impunemente, então não haverá mesmo denúncias contra ele. Se ele pode ameaçar a imprensa sem perder o mandato, não há nada que lhe impeça de continuar exercendo pressão até que ela faça efeito.

Pense em todos os políticos corruptos que foram denunciados nos últimos anos. Escolha aquele de quem você gosta menos, aquele contra quem havia provas mais sólidas. Ele não teria sido denunciado se pudesse jogar a carta do golpe.

Como vimos, o comando das Forças Armadas não assinou a carta. Mesmo assim, em uma República funcional, os militares desmentiriam Bolsonaro de forma clara, citando-o nominalmente, para dizer que os tribunais decidirão sozinhos sobre a chapa, o Congresso decidirá sozinho sobre o impeachment, e militar que virou político que aprenda a brigar só com as armas da política.

Se não o fizerem, serão corresponsáveis pelos abusos que Bolsonaro planeja cometer se puder intimidar as instituições com ameaças de golpe.

E, independentemente do que as Forças Armadas fizerem, é triste ver a quantidade de militares que aceitam participar desse desastre de governo. Ver um militar chefiando o Ministério da Saúde que manipula dados é triste.

Esses generais-políticos do governo querem ser poder moderador da República? Não conseguiram moderar nem o Bolsonaro. Porque, de duas, uma: ou fracassaram em moderá-lo ou, se isso aí já é uma versão moderada, foram irresponsáveis quando apoiaram alguém tão extremo em 2018.
Celso Rocha de Barros

'Sou mais um aterrorizado do que um terrorista'

Renato Aroeira estava em seu apartamento no Leblon, sentado na mesma cadeira onde tem passado a maior parte do tempo desde que se instaurou a quarentena na cidade do Rio, quando levou um susto ao ler o noticiário dessa segunda-feira, 15. Aos 66 anos, quase 50 deles dedicados à profissão de chargista, o mineiro nascido em Belo Horizonte se viu na posição de “inimigo público” pela primeira vez na vida.

Aroeira é um dos alvos do pedido de investigação protocolado na Procuradoria-Geral da República (PGR) pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça. Com aval do presidente Jair Bolsonaro, o ministro solicitou, com base na Lei de Segurança Nacional, a abertura de um inquérito sobre uma postagem do jornalista Ricardo Noblat, que compartilhava uma charge sobre Bolsonaro. O autor: o próprio Aroeira.

“Fiquei muito tenso, porque apesar de já ter sido processado, é a primeira vez que sou questionado pelo Estado. Nem na ditadura militar isso aconteceu. Até então, eu tive processos partindo de personalidades, autoridades, governadores… o escambau. Mas é a primeira vez que viro inimigo público. Isso me deixou angustiado e nervoso.”


Apesar do receio de potencialmente virar alvo de uma ação criminal movida pelo Estado, o cartunista faz piada da possibilidade de ser considerado um ‘terrorista’ por ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional.

“Eu sou mais um aterrorizado que um terrorista. Eu sou um cara que está apavorado com a inconsequência desse pessoal do governo. Sou um sujeito que está tenso com a abertura (das medidas de isolamento), quando não era isso que a gente tinha que fazer. Eu fico atônito quando vem o presidente falar que precisa invadir hospital! É difícil a gente não ficar indignado”, disse.

A charge em questão mostra uma cruz vermelha, símbolo universal para serviços de saúde, com as pontas pintadas de preto, formando uma suástica nazista. Ao lado, uma caricatura de Bolsonaro segura uma lata de tinta preta, e diz: “Bora invadir outro?”. A sátira foi publicada após o presidente sugerir, durante uma live, que seus apoiadores entrassem em hospitais de campanha e filmassem a situação encontrada.

“Pode ser que eu esteja equivocado, mas na totalidade ou em grande parte ninguém perdeu a vida por falta de respirador ou leito de UTI. Pode ser que tenha acontecido um caso ou outro. Seria bom você, na ponta da linha, tem um hospital de campanha aí perto de você, um hospital público, arranja uma maneira de entrar e filmar. Muita gente tá fazendo isso, mas mais gente tem que fazer para mostrar se os leitos estão ocupados ou não, se os gastos são compatíveis ou não”, sugeriu Bolsonaro na semana passada.

Após a fala do presidente. ao menos dois hospitais foram ‘invadidos’ por bolsonaristas, o que gerou a abertura de um inquérito por solicitação do procurador-geral da República, Augusto Aras.

Pouco tempo depois do anúncio do ministro da Justiça sobre o pedido de investigação contra Aroeira, uma rede de solidariedade se formou ao redor do chargista. Companheiros de profissão, músicos e escritores lançaram a campanha #SomosTodosAroeira nas redes sociais e fizeram um abaixo assinado virtual que conseguiu mais de 10 mil assinaturas até o começo da tarde desta terça-feira.

“A solidariedade dos meus amigos me deixou muito feliz, a ponto de dar taquicardia e eu ter que tomar água com açúcar”, contou. “Embora eu seja uma ‘puta velha’ em relação a processos, esse será o meu quinto – ou melhor, seria, porque eu espero que não chegue a tanto -, eu preferia que nada disso tivesse acontecido. Nos quatro anteriores, eu perdi dois e ganhei um e meio.”