terça-feira, 16 de junho de 2020

Ópera bufa

O país virou uma grande ópera bufa, que não termina em tragédia, mas pode se transformar, como aconteceu com o gênero do século XVIII, que começou como um mero entretenimento no intervalo das óperas sérias e acabou ganhando autonomia. 

Temos que torcer para que o governo Bolsonaro seja apenas o intervalo, o mais curto possível, que nos levará, aos trancos e barrancos, à peça principal. Os personagens cômicos da ópera bufa sempre existiram, mas saíram do baixo clero para o proscênio nessa quadra de pandemia e pandemônio. 



Um Mussolini de hospício surge de repente num cavalo branco emprestado, fantasiado de presidente do Brasil, que mais e mais torna-se mesmo uma republiqueta de bananas. Um personagem do grande Chico Anysio, guiado pelo absurdo, vivia repetindo “Eu odeio pobre”. Pois temos até um ministro, Abraham Weintraub, supostamente da Educação, que disse na fatídica reunião ministerial de abril: “Eu odeio a expressão "povos indígenas”. 

Os militares que abundam na estrutura burocrática de nosso serviço público acabam levando ladeira abaixo o prestígio das Forças Armadas que, inertes, não reagem a essa corrosão de imagem que já é registrada em pesquisas de opinião. Por falar nelas, quando, em um país sério, a possibilidade de um golpe militar se transformaria em conversa de botequim (quando os botequins estavam abertos) ? 

Ou serviria para dar um ar de seriedade a uma militância de extrema-direita mais cênica do que real, mas nem por isso tolerável e menos perigosa, acampada sob a denominação genérica de 300 ? O nome vem do filme baseado em uma história em quadrinhos de Frank Miller, com o brasileiro Rodrigo Santoro no papel do rei persa Xerxes. Classificado como propagador da violência militar e da eugenia, o filme ficou marcado como de extrema-direita, o que justifica o nome do grupo de Sara Giromini, dita Winter, que nem chega perto dos 300 de Esparta na Batalha das Termópilas.

São alguns gatos pingados estimulados pela retórica agressiva do governo Bolsonaro, sendo o próprio presidente um propagandista do grupo. Na falta de material humano suficiente para tornar realidade suas bravatas, sobra à terrorista visão marqueteira para impressionar a opinião pública. Desde encenar na frente do Supremo Tribunal Federal uma patética mimetizacão da Klu Klux Klan, com seus capuzes e tochas acessas, outro símbolo da direita selvagem, até atacar o (STF) com fogos de artifício. 

Foi tardiamente presa, menos pelo que pode fazer do que pelo simbolismo de suas ações midiáticas. Como se estivéssemos em uma ópera bufa, o cavaleiro glorioso não passa de um mau soldado seguido por uma vivandeira de quinta categoria. Ambos tornam vexaminosos os enredos em que se metem, e levam junto consigo a credibilidade das Forças Armadas. Pelo menos enquanto os militares que o cercam não forem desautorizados de representarem o Exército no apoio às loucuras de Bolsonero, como o apelidou a revista inglesa The Economist, representante maior do liberalismo econômico, e não um panfleto comunista. 

O vice-presidente Hamilton Mourão, que tem o hábito de escrever e declarar uma coisa e depois explicar com seu oposto, disse que Bolsonaro não conta com as Forças Armadas para um autogolpe: “ (...) ele sabe que as Forças Armadas não o acompanharão em uma aventura dessa natureza. É isso que ele quis dizer”. 

A exegese de Mourão seria importante se não estivesse banalizada pela sua própria incoerência, assim como o golpe militar está tão vulgarizado que já se tornou uma paródia de si mesmo. Está claro há muito tempo que é preciso desbaratar a rede que financia fake news, ataques à democracia e manifestações como as que foram feitas em frente ao Palácio do Planalto e ao QG do Exército. 

É uma turma que trabalha com a intenção de pressionar o STF, o Congresso e outras instituições e nunca recebeu qualquer crítica do presidente Bolsonaro. E essa investigação vai acabar conectada ao inquérito das fake news no STF e do financiamento ilegal na campanha presidencial de 2018 que corre no TSE. 

Nesse novo mundo pós-pandemia, o Brasil tornou-se um pária entre as nações ocidentais. Um país que, por incúria e negligência de um governante insano, se colocou no ranking dos mais atingidos pela pandemia, levando a que fronteiras sejam fechadas à sua gente e a seus produtos, já atingidos pela péssima fama das políticas ambientais do governo.

Bolsonaro: fato ou fake?

Nesta semana, completo um ano como colunista quinzenal de política do Estadão. Foram 27 colunas, nas quais abordei vários temas relacionados ao desenho institucional e ao funcionamento da democracia brasileira, especialmente as interações e conflitos entre o Executivo, Legislativo, Judiciário e a sociedade. Um dos temas mais recorrentes foi a discussão sobre a solidez/fragilidade de nossa democracia. Procurei me contrapor à interpretação dominante entre os meus colegas cientistas políticos e articulistas que acreditam que a democracia está sob risco iminente com a presidência de Jair Bolsonaro.

Neste primeiro aniversário da coluna, “dobro a aposta”. Afirmo que as ameaças do presidente Bolsonaro à democracia brasileira são falsas. “Não críveis”, como dizemos no jargão da ciência política. Não porque Bolsonaro seja um democrata convicto ou porque não tente, a todo momento, fragilizar as instituições democráticas do País. Bolsonaro já deu inúmeras demonstrações, mesmo antes de ser eleito, do seu pouco apreço pelos procedimentos, ritos e valores democráticos. Nem mesmo aqueles eleitores sem qualquer vínculo identitário com o reacionarismo que Bolsonaro representa podem se sentir enganados pelo presidente. Ou seja, não podem hoje alegar que compraram “gato por lebre”.


Pode parecer paradoxal, mas o funcionamento pleno da democracia não requer de seus cidadãos, e nem tampouco de seus governantes, convicções ou “profissões de fé”, ou mesmo comportamentos consistentes com os valores democráticos. Não resta dúvida que melhor seria se uma parcela cada vez maior de eleitores e de atores políticos acreditasse e confiasse que seus conflitos pudessem ser resolvidos institucionalmente.

Entretanto, a estabilidade e a qualidade da democracia não se medem por convicções, mas pelo respeito aos procedimentos e, especialmente, pela capacidade de reação das instituições democráticas e da sociedade de impor perdas diante de potenciais comportamentos desviantes de seus governantes. Neste quesito particular, o Brasil tem sido um exemplo entre as democracias, inclusive as mais consolidadas.

Mas quando, afinal, populistas eleitos democraticamente são capazes de transformar suas ameaças em fato? A resposta a essa pergunta é clara: quando as instituições e a própria sociedade não apresentam capacidade de resistência e de reação à altura das ações que pretendem subvertê-las. O potencial de populistas, como Bolsonaro, de causar estragos duradouros à democracia está sempre presente. Mas esse potencial é diretamente relacionado a sua capacidade de, por um lado, expandir os seus poderes e, por outro, de enfraquecer os demais. Mas, esse potencial tem sido mitigado, pelo menos até o momento, pela atuação firme das organizações de controle e da vigilância implacável da mídia e da sociedade a qualquer irregularidade ou descaminho seguido pelo governo.

O governo Bolsonaro, na realidade, tem amargado perdas sucessivas tanto no Legislativo como no Judiciário. A avaliação negativa de seu governo não para de subir. Seus vínculos com a sociedade têm se restringido a um núcleo duro cada vez menor de conservadores identitários. O inquérito das fake news no STF tem um potencial devastador sobre o seu governo. Além do mais, estamos testemunhando a ação conjunta de várias lideranças políticas de matizes ideológicas distintas em favor da democracia que não se deixam enganar pala astúcia que espreita sob as bravatas do presidente.

É a atuação das organizações de controle e da sociedade que de fato tem revelado o quanto são falsas as potenciais ameaças de Bolsonaro à democracia.

Bolsonaro é, de fato, fake!

Os dentes afiados da realidade

A semana passada houve certa comoção em Espanha e em Portugal, com a notícia de que um crocodilo do Nilo, um animal perigoso, que pode crescer até alcançar os seis metros, fora avistado no Rio Tejo. Afinal, era uma simples lontra.

Isto das pessoas olharem para uma lontra e verem um crocodilo, parece-me uma boa ilustração dos tempos que correm.

Também acontece o inverso: onde está um crocodilo, há quem insista em ver uma lontra. É o que se passa com o presidente Jair Bolsonaro, em relação ao número de mortes resultantes da epidemia de Covid-19. “Tem um monte de crocodilos por aí comendo gente”, alertam os especialistas. Bolsonaro encolhe os ombros flácidos e grita: “São lontras, p****! Duas ou três lontrinhas de merda! Querem f**** com minha família?!” — e nessa mesma tarde emite um decreto-lei equiparando os crocodilos a lontras. Por via das dúvidas, determina também que leões, panteras, jaguares, ursos e outros animais perigosos passem a ser considerados lontras.

— São todos lontras, p****! — Explica aos assessores, perplexos (aqueles que ainda têm a capacidade de se perplexizar). — Todos os f***** da p*** desses crocodilos do c****** são a partir de agora lontras fofinhas. 



No dia seguinte um general entra a medo no gabinete do Presidente da República para relatar que as lontras fofinhas andam comendo muita gente.

— Que comendo o quê, c******! — Irrita-se sua excelência. — Elas andam comendo é o c* da senhora sua mãe.

Para acabar de vez com as fake news, o presidente Jair Bolsonaro emite então um decreto-lei, determinando que as pessoas comidas por lontras fofinhas não podem mais ser consideradas pessoas, mas peixes — afinal, lontras comem peixes.

Durante alguns dias a situação parece acalmar. Os jornais destacam a infestação de lontras em todos os estados do país, e a quantidade impressionante de peixe que as mesmas andam devorando, mas essa questão deixou de ser do domínio da política. Como o Presidente da República faz questão de explicar a um repórter particularmente perplexo:

— Lontras comem peixes, é da ordem natural dessa p**** toda: a vida! Quando os peixes começarem a comer as lontras, aí, sim, me avisa. Entretanto cala a boca, comunista de m****!

Chegará a noite, em que ao entrar nos seus aposentos para repousar das inumeráveis fadigas do poder, o Presidente da República encontrará um crocodilo estendido na sua cama, de boca aberta. Há de ser um crocodilo enorme, bem nutrido, sólido como um inselberg.

— Olha a p**** da lontra! — Dirá Jair sacando do revólver. — Morre, comunista, morre!

E pum! Pum! Pum!

Acontece que a realidade tem o couro duro e os dentes aguçados. Assim, acabará devorando o Presidente da República, com todas as suas insígnias e medalhas, os seus palavrões e a sua persistente fixação anal.

— Os comunistas andam criando lontras à prova de bala. — Dirá Bolsonaro ao desembarcar no Inferno, diante de um Satanás perplexo e visivelmente assustado. — Mas pelo menos voltei para casa. Eta, rapaz, que calorzinho bom!…

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Pensamento do Dia


A razão sobre a emoção

O voto, maior arma de defesa da democracia, está deixando o coração para subir à cabeça. A hipótese pode parecer estrambótica nesses tempos de polarização, quando a emoção parece ganhar o jogo da razão. Mas engana-se quem imagina emoção como sinônimo de explosão, catarse, palavras de baixo calão (frequentes na linguagem dos governantes), slogans, culto aos mitos. Quando alguém, ante uma tragédia como a do Covid-19, diz "nunca vi tanto desgoverno, estou arrependido do meu voto na última eleição" está falando pelo coração ou pela cabeça?

À primeira vista, parece sair do coração. Ocorre que é um somatório de conhecimento da política, comparações, observação acurada do que se passa. Convenhamos que um processo racional se desenvolveu. A razão prevaleceu, coabitando com a emoção. Ultimamente, decepcionadas com os governantes, as pessoas dão as costas à política e revisam sua maneira de votar.

Na Europa, o sentido crítico acompanha os ciclos. Políticas sociais fracassadas, desvios da social-democracia, projetos liberalizantes inadequados e mesmo a corrupção alteram os comandos entre partidos. Os franceses chamam isso de "autogestã" técnica e definem o que esperam dos governos. Nos EUA, em que democratas e republicanos dominam a cena, é mais fácil selecionar seus representantes.

Aqui a paisagem é um deserto de ideias e líderes. Imensos buracos negros se multiplicam na política. Não há expressões de porte, quadros qualificados, pensadores e formuladores de alta densidade como antigamente. Claro que mudaram as condições da política. Os parlamentos perderam força, incluindo oposições, o discurso se torna grupal/ partidário/ fisiológico, sem a liturgia e o calor dos grandes embates.



O carisma, brilho que agiganta perfis, fenece sob a política de resultados. Causas nacionais cedem lugar a interesses de grupos, os comportamentos se igualam. O varejo se instala e a política deixa de ser missão para ser profissão. A ética fica a serviço das circunstâncias.

Coragem, zelo e obstinação, inerentes às lideranças, tornam-se escassos. Rigor na apuração de escândalos só ocorre sob pressão da opinião pública.

E o que faz o líder? Defende frentes de interesses. A liderança natural agoniza. O caso de Lula é emblemático. Seu carisma se esvazia. Tem o PT como seu trono e ali fica onipotente e onisciente. Diz que o partido não assina lista de Frente Ampla porque não é mais aquele do dito politicamente incorreto, "Maria vai com as outras". Pouca razão e muita emoção.

A política desconhece a nova identidade do Brasil, crescendo sob o signo da razão, do planejamento, das oportunidades. Entre as lideranças, a mesmice se instalou com um discurso que não afeta, não entusiasma, não entra na alma. São nomes de 20, 30 anos atrás.

Nesse ano de pandemia, o superlativo dominará o calendário eleitoral, a verdade se cobrirá de fake news e o mundo real se dividirá com o virtual. Esperemos que a razão supere a emoção. E que não deixemos a polarização eleger radicais. Que o cabo de guerra seja substituído pelo tronco da paz.

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa

O título acima, em latim, não precisa de tradução. Vem de uma reza tradicional da Igreja Católica, o “Confiteor” (Eu confesso), na qual o fiel reconhece seus erros perante o Criador.

A prática do mea culpa é rara no Brasil. O PT foi e ainda é muito cobrado para fazer autocrítica e reconhecer erros cometidos durante os anos em que esteve no poder, nos governos Lula e Dilma. Nunca os reconheceu, nunca pediu desculpas.

Há hoje, no Brasil, uma extensa lista de entidades e pessoas que precisam fazer o mea culpa pela escolha de 2018, quando a disputa democrática oferecia pelo menos seis ou sete candidatos melhores que o eleito.


Políticos influentes se omitiram na campanha eleitoral e deram um “dane-se” ao país. Oportunistas, muitos deles se elegeram governadores e deputados na sombra do candidato presidencial e agora viraram casaca como se nunca o tivessem apoiado, sem uma palavra de arrependimento e desculpas. Empresários só pensaram no próprio quintal e passaram a aceitar “qualquer um” desde que não fosse do PT. Igrejas se animaram com o tom conservador e as ideias retrógradas. Juízes e procuradores influenciaram o voto sem demonstrar constrangimento. Jornalistas olharam para a economia e acharam que Paulo Guedes, o Posto Ipiranga, com sua política liberal, poderia consertar o país. Mesmo que o presidente continuasse andando por aí propagando teorias bizarras, feito criança inconsequente.

Jornalistas, portanto, não podem fugir de suas responsabilidades. Muitos dos que hoje ferozmente expõem as atrocidades presidenciais deveriam reler com distanciamento crítico o que escreveram no passado recente. Julgaram que, uma vez eleito, o presidente não iria se aventurar no autoritarismo. Que as instituições impediriam aventuras desse tipo e consideraram histéricas pessoas que se mostravam temerosas. É possível mesmo que a sociedade organizada consiga evitar o avanço autoritário para uma ditadura, mas o custo será elevado. Já está sendo.

Na hora de assumir responsabilidade por erros, é instrutivo observar o mapa das votações no segundo turno das eleições de 2018. Está lá, em verde e vermelho, uma impressionante divisão do país em dois: o rico e o pobre. Quanto mais rico, mais verde, e, quanto mais pobre, mais vermelho. Em São Paulo, o Estado mais rico, Bolsonaro venceu em 631 dos 645 municípios. No Nordeste, a região mais pobre, ele perdeu em 98% dos municípios. A faixa verde se estende desde Rondônia, Mato Grosso e Goiás, áreas do próspero agronegócio, até o sul de Minas, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, as regiões mais industrializadas do país. A vermelha domina o Norte e o Nordeste.

Está claro que a escolha do presidente foi responsabilidade das elites brasileiras, do agronegócio à indústria, passando evidentemente pelo setor financeiro. Não há clichê esquerdista algum nessa afirmação que usa a palavra “elites”. Foram, sim, os mais ricos e teoricamente bem informados que elegeram ou trabalharam com mãos e mentes pela eleição do atual presidente. Precisam agora fazer mea culpa.

Ao escolher Bolsonaro, a classe dominante sabia que ele se juntaria ao conservadorismo de Trump, que adotaria comportamento hostil em relação à China, maior parceiro comercial do Brasil, que daria uma banana para as causas ambientais, que desprezaria os povos indígenas, que poria ideologia conservadora nas escolas, que incentivaria a homofobia e o uso de armas pela população, que tiraria recursos da cultura, que a contragosto apoiaria o arrocho fiscal recessivo, que flertaria com o autoritarismo antidemocrático.

O atual presidente tem muitos e graves defeitos, mas também uma qualidade: nunca mentiu sobre suas intenções autoritárias. As elites só não sabiam, mas poderiam desconfiar, que ele adotaria uma política tão desastrosa na área da saúde. Nem que o país enfrentaria a infeliz coincidência de ser liderado por alguém que despreza a ciência e promove a morte em meio a uma pandemia nunca vista em cinco gerações.

Por que o Brasil elegeu um cidadão que agora obriga brasileiros a lutar feito leões para manter a democracia? Por que o eleitorado foi tão incompetente a ponto de minar seu próprio terreno com bombas que agora exigem tempo e energia para a sua desativação?

Assustados, heróis da campanha das “Diretas já” dos anos 1980 emergem da aposentadoria para alertar os mais jovens sobre o perigo iminente. A batalha ideal de hoje seria pela saúde, pelo crescimento econômico, pela distribuição de renda, pela educação universal e por outras causas sociais que possam melhorar a vida dos brasileiros. Mas não, 35 anos depois de ter derrubado a ditadura, cá está novamente a nação lutando para salvar sua democracia.

Só a luta amada evita a ditadura

Meu texto sobre a urgência de uma resposta coletiva aos avanços autoritários de Bolsonaro alcançou muita gente de minha geração.

Felizes com a ideia, todos se preparam, sabendo que o bastão há muito foi passado para as novas gerações. Não importa a importância do papel, o que importa é estar presente.

Da minha parte, a situação é clara. No passado, deixei o país. Hoje, sinto que o país é que está me deixando, dissolvendo-se numa bruma viscosa, tornando-se irreconhecível.

Por isso, quando um grupo gaúcho sugeriu a ideia de uma luta amada, disse imediatamente que para mim caía como uma luva.

Durante muitos anos, ao lado de outros, construímos uma legislação ambiental para proteger nossos recursos naturais. Relatei, por exemplo, o projeto do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, conhecido como Snuc. Parece um nome de cachorrinho, Snuc, mas encerra uma realidade de florestas, montanhas, rios e manguezais que visito com frequência.

Quando vejo que estão querendo desmontar a legislação, aproveitando-se do nosso foco na pandemia, quando ouço que querem fazer uma boiada passar sobre a tenra grama de nossa rede de proteção, sinto claramente que estão nos levando o Brasil.

Ao saber que Bolsonaro decapitou a direção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, apenas para atender ao dono da Havan, sinto um calafrio. É um homem que vendia produtos chineses e tem uma cadeia de lojas com uma cafona Estátua da Liberdade na porta.

O Iphan foi dirigido por intelectuais como Rodrigo Melo Franco, Aloísio Magalhães, e Bolsonaro escolheu agora a esposa de um dos seus seguranças, para tomar conta de 1.300 bens materiais e 25 mil sítios arqueológicos. Foi barrado pela Justiça Federal.

Bolsonaro acha que nosso patrimônio se confunde com o que ele chama de cocô de índio cristalizado.

Das estátuas do Aleijadinho às pinturas rupestres da Serra da Capivara, é desse rico conjunto que extraímos o sentido de identidade nacional e também postos de trabalho para muita gente. Passam com uma boiada sobre os bens naturais e com um bando de javalis sobre nossos bens culturais.


Pena que os militares tenham embarcado nessa canoa. São potenciais interlocutores. Conhecem bem o Brasil. O escorregadão geográfico do general Pazuello foi apenas um acidente isolado.

Não sei se os militares estão usando Bolsonaro como um bode na sala, para depois se apresentarem como moderadores no pântano que ele criou. Ou se simplesmente se deliciam com o acúmulo de soldos e salários como os militares da Venezuela.

Em ambos os casos, estarão perdidos para sua tarefa maior, a defesa nacional. Não importa quantos aparatos de guerra possam comprar, se não têm mais o respeito do povo brasileiro.

De que adianta entrar para o Ministério da Saúde e empilhar cadáveres com a naturalidade com que pintam as árvores de branco?

Nossas populações indígenas estão sendo dizimadas pela Covid-19, nossa juventude negra massacrada pela opressão policial, nossas favelas organizam-se como podem para substituir um governo ausente na pandemia, ausente em todos os tempos.

Só não saímos às ruas porque o vírus tem sido implacável com os mais velhos. Por mais que Bolsonaro arme seus aliados e os filhos lutem para trazer do exterior novos brinquedos de morte, é preciso viver um pouco.

Na verdade, é preciso cautela nas ruas, pois todos precisam estar vivos. Cada um de nós que resiste é um pedaço do Brasil que pede socorro à humanidade, ao que resta de humano na humanidade.

Nem todos sabem como este país é grande, diverso, solidário, magnífico em sua beleza. Impedir que se dissolva nas mãos de vendedores de bugigangas, grileiros, racistas, incendiários é a grande tarefa de construir uma civilização tropical onde querem apenas pasto, fuzis, asfalto, carros e eletrodomésticos.

Como não suprimir o “r” das lutas passadas e chamar isto de uma luta amada? Como não compreender que todas as gerações pretéritas nos lembram de que o Brasil existe para todo o sempre, e que reinventá-lo depende de nós?

Vivendo com os carrascos

O dia amanhece com essa cara de zangado, disposto a raios e trovões. para ainda aumentar nossa tristeza, companheira de pandemia.

Estamos há meses convivendo com diversas batalhas, dia a dia somando mortos e estabelecendo estatísticas como se essas fossem vida. Não há números para expressar o sofrimento nem dos que morrem pela doença ou sofrem com ela. Mas pandemia será apenas conta? E gente, um número a mais ou a menos?

No mundo afora se usa ciência e todos os gastos para lutar contra o vírus, e tome doses de esperança para o povo sentir menos a opressão. Aqui há todo um armamento bélico desde a saúde e maciças porradas de selvageria para acabsar com o vírus. Os botocudos, à solta, atropelam a esperança e pisam no sofrimento alheio com a valentia de vândalos. A barbárie da matança tem nome e endereço fixo dos vândalos, mas o que importa?

É preciso assegurar a ordem e o progresso da desgovernança custe o que custar, morra quem morrer, sofra quem sofrer. Ficam a bater continência para os desmandos, a ignorância, a barbárie, a petulância como se fosse comum tais arbitrariedades medievais neste século XXI.

O custo não será pequeno para tanta bestialidade. O país sairá como pária da humanidade com certeza. Um título desprezível que pouco importa a quem apenas quer assegurar a legalidade da baderna executiva.

Pior ainda serão as mortes de tantos inocentes da política e do bem-estar sepultados em valões para que uns privilegiados entrem para a história como os carrascos heróis da maior matança governamental da história do país.
Luiz Gadelha

Brasil do naufrágio


Por que não te calas, estúpido?

“Quem que quer ganhar com isso? … tem um ganho político dos caras”.
“Tem hospital de campanha perto de você? Tem hospital público? Arranjem uma maneira de entrar e filmem…” (JMB, ao vivo em redes sociais, dia 11 de junho de 2020).
– Chega!

– Cala a boca, porra!

– Sai daí!

Respondo-te com teu linguajar chulo e autoritário, que não é o meu. Assim tu compreenderás,com teus simplórios atributos intelectuais, o que quero dizer. Exigimos respeito, como médicos e profissionais de saúde. Não mentimos ou desprezamos fatos, nem temos tua boca suja a cuspir palavrões, insanidades e acusações levianas.

Respeitamos, ao contrário de ti, os 40.000 mortos e seus familiares. Tu és ingrato. Nenhuma palavra de agradecimento ou apoio aos que labutam bravamente contra essa doença. Tu és covarde. Escuda-se atrás de militares de alta patente para esconder tua inépcia e incapacidade gerencial. Teu passado é sombrio, tenente cínico.Foste enxotado da caserna por trair os regulamentos militares. Deputado medíocre. Nunca defendeu algo nobre. Apologista da tortura, prestarás conta dos teus atos.

Desce dos helicópteros em que te penduras e macaqueia pelos céus. Desce do cavalo de narinas dilatadas em que tu, sacudido como um esqueleto sem máscara, avança para teu triunfo, o triunfo da morte. Vem governar, estúpido! Não tememos tuas ameaças e milícias.

Venham aos hospitais públicos. Encontrarão cansaço, faces marcadas pelas máscaras do trabalho, mãos limpas, amor e dedicação a profissão. Encontrarão doentes se recuperando, alguns ainda próximos da morte, corpos no necrotério e lágrimas dos familiares.

Documentarão familiares agradecidos ao trabalho de profissionais e gestores sérios que lutaram pela vida e contra a morte. Beócio, tudo isso te causa ira, inveja e despeito e corrói tuas pútridas entranhas. Teu ocaso deixará alívio e não saudade. Se calados ficarmos, teu desgoverno deixará um rastro de miséria com uma legião de desempregados e subempregados, devastará o meio ambiente, aniquilará minorias, fortalecerá o obscurantismo, destruirá a cultura, a ciência e o pensamento, infringindo a nós, povo brasileiro, os piores vexames perante a comunidade internacional.

Tu não passas de um soldado bisonho marchando em círculos, acompanhado de um pelotão de coveiros, a administrar cemitérios lotados e negar os fatos.
Sérgio Pessoa. médico membro do coletivo Rebento (Fortaleza)

Engenheiros do caos

Quando Jair Bolsonaro tomou posse no Planalto, em 2019, dois chefes de governo estavam presentes, Viktor Orbán, da Hungria, e Benjamin Netanyahu, de Israel. Ambos primeiros-ministros e líderes dos movimentos populistas, em seus respectivos países. Por motivo de força maior, Donald Trump não pôde vir a Brasília; mas enviou, por Twitter, mensagem calorosa ao novo presidente do Brasil.

Nada disso escapou a nossos analistas mais atentos. Mas tenho a impressão de que só agora começamos a entender, com mais clareza, o significado de suas consequências para o país. Talvez só recentemente tenhamos tomado consciência de que o presidente eleito já tinha um projeto no bolso, embora acreditássemos que não havia nenhum. O apoio daqueles políticos, além dos que não puderam vir à festa, indicava uma escolha ideológica consciente de Bolsonaro e sua turma mais próxima. A festa e os convidados estão no livro “Os engenheiros do caos” (Editora Vestígio, tradução de Arnaldo Bloch), escrito em francês pelo italiano Giuliano Da Empoli que, tendo sido conselheiro de Matteo Renzi, o derradeiro primeiro-ministro italiano social-democrata, hoje vive em Paris. 

Da Empoli narra as origens de um movimento político que, tendo sido formatado nos Estados Unidos, de Hollywood a Washington, teve seu primeiro pleno e proclamado sucesso na Itália, a partir das eleições de 2018. O que ele chama de “populismo real” é o resultado de uma concentração tecnológica contemporânea na disputa política, o uso de Algoritmo e Big Data, de trolls e fake news, para orientar os eleitores no rumo que interessa ao movimento. Uma revolução de direita sem armas, através dos princípios formais da democracia, feita para bagunçar com ela (a democracia). “Qualquer um pode crer na verdade”, escreveu Mencius Moldbug, blogueiro da direita alternativa americana, “mas acreditar no absurdo é uma real demonstração de lealdade”. Invente, invente sempre, porque a mentira vai dar a volta ao mundo, enquanto a verdade ainda calça os sapatos.



O grande ideólogo do populismo real é o americano Steve Bannon, que ficou famoso por “ter eleito”, em 2016, o improvável Donald Trump, graças a macetes originais com a internet e os algoritmos. Em reconhecimento, o novo presidente instalou Bannon num escritório vizinho ao seu, na Casa Branca, e deu-lhe um salário invejável. Em menos de um ano, Trump expulsou-o dali por inconveniente e ainda espalhou um tuíte em que dizia: “Steve, o babão, chorou e me suplicou por seu emprego quando eu o demiti”. O novo populismo de direita se alimenta também de emoções negativas e do escárnio, como instrumento de desprezo e imposição.

Bannon se instalou na Itália e, lá, participou das surpreendentes concertações entre o ascendente Movimento 5 Estrelas e a Liga, partido de extrema direita, com apenas 17% do eleitorado, onde Matteo Salvini, curiosamente chamado de “o Capitão” (?), até hoje espalha o medo e incita o ódio racial aos imigrantes. Bannon acabou tendo papel decisivo na eleição de Giuseppe Conte, atual presidente do Conselho de Ministros. Da Empoli conta que Conte foi desmascarado e humilhado pela imprensa, que desmentiu seu falso currículo de estudioso na NYU, Cambridge, Sorbonne e outras prestigiadas universidades. 

O livro de Da Empoli começa lembrando a passagem do poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe por Roma, no ano de 1787, durante o carnaval. Hospedado na Via del Corso, Goethe assiste perplexo à transmutação da sociedade italiana, com homens que viram mulher e mulheres que viram homem, tudo terminando em extrema violência. A descoberta da face sombria do carnaval, combinação de desvario, festa e porrada, sem critério e sem regras, “um festejo que o povo oferece a si mesmo”, se parece com a montagem do populismo real. Uma carnavalização da democracia.

A leitura de “Os engenheiros do caos” nos faz entender as razões do sucesso do populismo, de direita ou de esquerda, que cresce vitorioso pelo mundo afora. Ele tem sido uma alternativa às dificuldades contemporâneas da democracia representativa, da qual não podemos abrir mão. No último capítulo, “A era da política quântica”, encontramos portas de saída para a crise, ou como evitar na política o jogo, a mentira e o caos. Temos muita responsabilidade nessa história. Sempre que Da Empoli cita exemplos de populismo real no mundo de hoje, Donald Trump naturalmente encabeça a lista. Mas logo depois vem o nome do presidente Jair Bolsonaro. 
Cacá Diegues 

Inimigos mortais

Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos
Martin Luther King

À brasileira

Ainda é outono, há tulipas-do-gabão pelas calçadas, deve haver. E há uma lista tremenda de crimes imputáveis ao tirano, que segue livre de sentença, sorridente, jogando seus jogos mortais, negociando. Como a pedra que cai na água e faz brilhar círculos concêntricos, se somarmos aos nossos milhares de óbitos todos aqueles que vão se quebrando sem morrer completamente, teremos uma terra imensa de gente entristecida que não poupa de empestear com náusea a paisagem de quem ainda rega sua paz postiça no meio de uma guerra. Os dias têm amanhecido vermelhos, daquele vermelho denso de fornalha. Em qualquer lugar pode rebentar uma calamidade. Alguém é levado pela violência da voragem como se o chão se abrisse de repente, como se por azar, como se por acaso. Não dura meio minuto para uma mulher armadilhar uma criança só apertando um botão e deixando fechar-se uma porta. E como sair desse pesadelo de apocalipse se ainda há os que fazem festa, os que acarinham suas pistolas, seu muque de mata-leão, seu couro de porrete, e se ainda há os mais perversos que a polícia, em seus quase invisíveis gestos assassinos, em suas palavras-para-a-mídia, em suas assépticas maldades. Como barrar o mal sem sujar as mãos e os pés, sem desaprender a temperança, a diplomacia, o diálogo? A força bruta bate estaca cedo pela manhã, a força burra. Outro tempo corre nos cassinos do poder. Pessoas se amontoam nas lojas recém-reabertas, umas quantas de máscara à brasileira, arriada para o queixo. E os helicópteros continuam a invadir a nossa primeira hora iluminada. Os helicópteros, as sirenes, as serras. Também os bem-te-vis e os sabiás continuam. Como você está?, pergunta o amigo. Como tem passado esses tempos? Como um desses sabiás, você pensa. Escusada a pretensão, como um desses bem-te-vis. Ainda absurdamente vivo.
Mariana Ianelli

O labirinto de Bolsonaro

Seguir a política brasileira é uma mistura entre subir numa montanha russa e ver uma telenovela. Trepidante, o enredo é sempre complexo. Principalmente quando alguém como Jair Messias Bolsonaro, de 65 anos, praticamente monopoliza a cena. Nestes tempos de pandemia, ele conseguiu se destacar no mundo como o mais negacionista entre os líderes eleitos democraticamente e o único que demitiu não um, mas dois ministros de Saúde. Em vez de dedicar seus esforços para gerir a crise do coronavírus, concentra-se em satisfazer seus fãs com selfies e apertos de mão. Resultado: a curva de contágios continua subindo no país mais populoso da América Latina, novo epicentro de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O Brasil é o segundo país com mais casos e (e isso que pouca gente faz o teste) e o também o segundo com mais mortos ―mais de 42.000 no balanço mais recente, neste sábado.

Bolsonaro politizou a pandemia como poucos mandatários. Deixou isso claro ao proclamar: “Os de direita tomam cloroquina; os de esquerda, tubaína.” A polarização que atinge o Brasil nos últimos anos se estendeu ao coronavírus por obra do presidente ―que, de quebra, ativa sua base eleitoral.


A crise sanitária preocupa, mas também inquietam cada vez mais os flertes de Bolsonaro com o autoritarismo. “É preciso resistir à destruição da ordem democrática, para evitar o que aconteceu na República de Weimar quando Hitler, após eleito pelo voto popular e posteriormente nomeado pelo presidente Paul von Hindenburg como chanceler da Alemanha, não hesitou em romper e em nulificar a progressista, democrática e inovadora Constituição de Weimar, impondo ao país um sistema totalitário de Poder”, escreveu o ministro Celso de Mello a seus colegas do Supremo Tribunal Federal (STF), dias atrás, pelo WhatsApp.

O presidente deixou claro, desde o primeiro contágio, que as recomendações sanitárias lhe pareciam uma idiotice; e os meios de comunicação, histéricos. Embora oscile de tom à medida que se abrem tumbas nos cemitérios, ele não deixou de incentivar atos multitudinários e, mais recentemente, incentivou apoiadores a invadir hospitais para checar se havia mesmo doentes neles. O que tira seu sono não é o vírus, e sim a possibilidade de que este arrase a economia, que parecia começar a se recuperar lentamente. Apesar das críticas dentro e fora do país, ele nunca deixou de defender a reabertura das empresas. Quer se desvincular a todo custo da hecatombe econômica que espreita logo ali. Os milhões de desempregados, um eventual aumento dos crimes e a instabilidade social... Quer assegurar que a culpa pela situação que o país enfrentará na pós-pandemia poderá ser jogada em outros ―os governadores, os prefeitos. E evitar, de qualquer jeito, que um bichinho invisível frustre sua reeleição em 2022.

Bolsonaro ameaça não cumprir ordens que considera “absurdas”. Nesta sexta, fez seu ministro da Defesa acompanhar uma nota em que diz que não apenas ele, mas também as Forças Armadas, não vão cumprir “ordens absurdas” ou vereditos de “julgamentos políticos”. A escalada retórica coincide com as novas frentes se abrem contra dele. A demissão de um símbolo anticorrupção como o ex-juiz Sergio Moro desatou várias reações em cadeia. A investigação que o Supremo abriu para saber se o presidente interferiu na Polícia Federal para proteger seus filhos, o espetáculo de uma reunião ministerial que mais parece um encontro “conspiranoico” e uma avalanche de pedidos de impeachment. Nesta semana, uma nova trama se juntou à coleção de problemas: dois dos oito processos contra a chapa Bolsonaro-Mourão começaram as ser julgados no TSE (Tribunal Supremo Eleitoral). Apesar dos trâmites serem extremamente lentos, as ações, especialmente as que investigam o suposto envolvimento de sua campanha em um esquema massivo de fake news, podem custar o mandaro a ele e ao vice. Bolsonaro está fraco, sim, mas a chave é quanto. “É o seu momento de maior fraqueza com relação ao poder institucional. Mas, se olharmos fora do campo democrático, não saberia dizer se ele está mais fraco ou mais forte”, explica Flávia Bozza Martins, professora de Ciência Política na Universidade Federal do Paraná. “Sempre tivemos Governos que, com erros e acertos, tinham um pacto com os princípios democráticos.”

O ambiente político está muito tenso. A erosão da democracia avança com os constantes ataques do mandatário à separação de poderes e à imprensa. Bolsonaro legitima o golpismo que cresce em grupos de WhatsApp quando, nos atos públicos, incentiva os seguidores que defendem uma intervenção militar. Os desmentidos dos ministros militares são quase rotina. A cúpula das Forças Armadas parece não estar confortável, mas, ao mesmo tempo, a sua cara mais visível é justamente o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, que se mostrou ao lado de Bolsonaro em manifestações e agora na nota ameaçadora.

Nesse contexto, não surpreende que a rejeição a Bolsonaro bata recordes. Seus críticos, que antes da pandemia eram metade dos entrevistados, agora são dois terços. Os bolsonaristas mais pragmáticos, os que votaram nele para ver o Partido dos Trabalhadores (PT) longe do poder, agora o abandonam por causa de Sergio Moro ou porque veem o líder avançando sem considerar os perigos. Mas esse um terço que ainda o apoia se mantém firme. São os bolsonaristas duros, os que viram a demissão de Moro como uma traição. Os que votaram no capitão reformado para dar um bom “chute no traseiro” do sistema. “São os que se extasiam ao vê-lo na reunião ministerial enquanto fala dezenas de palavrões, os que consideram que esse vídeo mostra o Bolsonaro genuíno.”

É um respaldo sólido. Três vezes maior que o apoio que Dilma Rousseff tinha quando caiu no impeachment de 2016. Embora haja dezenas de pedidos de destituição, neste momento as contas para um julgamento político como aquele são insuficientes. Bem sabe disso a destituída presidenta de esquerda. “Bolsonaro tem os votos garantidos para impedir um impeachment. Esta será uma luta longa”, explicou Dilma recentemente a um grupo de correspondentes por videoconferência. Uma destituição assim demanda o que a jornalista Vera Magalhães chama de “uma alinhamento de astros: vontade do Congresso, apoio popular, uma economia em frangalhos e justificativa de crime de responsabilidade.” Até pouco tempo, as únicas manifestações de rua desde que a pandemia colocou meio país em quarentena eram as de partidários de Bolsonaro, exigindo a flexibilização das medidas de segurança. Mas esse quadro começou a mudar há duas semanas, com atos anti-Bolsonaro de torcidas organizadas que se autodenominam “antifascistas” ao qual se uniram também movimentos antirrascistas e alguns partidos de oposição —neste domingo, os dois lados prometem voltar às ruas. Na economia, todos os indicadores são ruins, mas ainda não estão em queda livre, embora o Banco Mundial preveja para o Brasil uma recessão pior do que a média mundial, com recuo de 8% em 2020. Por fim, resta ver as chances de prosperarem as acusações contra ele no campo legal, já que em todos os caminhos, menos o do TSE, é preciso autorização do Congresso para avançar.

O impeachment é a via política clássica, precisando do endosso inicial do presidente da Câmara dos Deputados, até agora inexistente, para existir. Mas também existe a via penal, no inquérito que corre no Supremo. Embora ainda em fase de investigação, é a frente mais avançada. O procurador-geral, apontado por Bolsonaro em setembro passado, decidirá se há material para denunciá-lo ―mas, em qualquer caso, o pedido precisaria de autorização do Congresso para virar uma ação penal e afastar o presidente. A tentativa de se blindar com apoio parlamentar está em pleno vapor. O presidente, que que governou o primeiro ano com uma maioria parlamentar instável, agora investe em assegurar cargos para garantir os votos do chamado Centrão. Recriou até um ministério exclusivamente para isso.

No horizonte, há outro fator: o general da reserva Hamilton Mourão. O vice-presidente assumirá o poder se Bolsonaro cair —salvo que ambos sejam retirados nas ações que correm no TSE. Ainda que Mourão tenha sido a primeira escolha do presidente, os seguidores de Bolsonaro consideram que o fato de Mourão proceder das Forças Armadas poderia ser um elemento dissuasivo ante a tentação de destituir o presidente. A cientista política Martins aponta outro fator importante: “Mourão não é um político, o que dificulta sua conversa com o Congresso” para realizar uma eventual destituição. Salvo surpresas, as eleições municipais previstas para o fim do ano, e a renovação do comando do Senado e da Câmara no começo do ano que vem, serão o melhor termômetro para medir as forças de Bolsonaro e seus aliados.

domingo, 14 de junho de 2020

Dano colateral

A alguns generais do Exército que fazem parte da equipe presidencial, já expressei minha opinião: eles provocam um dano à imagem das Forças Armadas, que não aceitam a participação deles em disputas partidárias e em atos radicais que ameaçam a democracia (…)
As manifestações promovidas pelo presidente são coordenadas por elementos de extrema direita, ligados por sua vez a extremistas americanos e a religiosos neopentecostais
Sérgio Ferolla,  brigadeiro ex-presidente do Superior Tribunal Militar, ao jornal italiano Il Fatto Quatidiano

A desastrada canetada militar do capitão

Tendo colocado um general no Ministério da Saúde, Jair Bolsonaro deveria escolher um médico para aconselhá-lo em assuntos militares. Fazendo isso, evitaria lambanças como a que produziu assinando um decreto que permitia ao Exército operar com aeronaves de asa fixa. Assinou o decreto no dia 2 e revogou-o uma semana depois. No escurinho de Brasília e na confusão da pandemia, passava-se uma boiada que criaria a aviação do Exército.

A incorporação de aeronaves às forças de terra e de mar é uma velha encrenca doutrinária. Caxias usou balões fixos na Guerra do Paraguai, antes do voo do primeiro avião. O Exército teve uma aviação, e seu patrono é o tenente Ricardo Kirk , que em 1915 morreu ao cair em Caçador (SC), combatendo os revoltosos do Contestado.

A Força Aérea não gosta da ideia de aviões com a Marinha ou com o Exército. Em 1964. o marechal Castelo Branco teve que descascar o abacaxi da aviação embarcada que tripularia o navio aeródromo Minas Gerais. Nessa crise, um capitão da FAB metralhou o rotor de um helicóptero da Marinha que pousou na base gaúcha de Tramandaí. Esse foi o único incidente em que os desentendimentos militares ocorridos durante a ditadura tiveram tiros. Em todos os outros as questões foram resolvidas por telefone. O presidente Castelo Branco viu no episódio “um deplorável estado de espírito” de “vários elementos da Marinha e da FAB”. Em poucos meses caíram dois ministros da Aeronáutica e um ministro da Marinha.

Finada a ditadura, durante o comando do general Leônidas Pires Gonçalves, sem quaisquer atritos, o Exército organizou uma força de helicópteros que vai muito bem, obrigado. Iam assim as coisas até que alguém teve a ideia do decreto que daria aviões à tropa terrestre. Como era previsível, a FAB incomodou-se e certamente a Marinha também não gostou. Se uma iniciativa desse tamanho tivesse sido tomada com algum debate público, cada lado teria bons argumentos. Depois da canetada, o melhor caminho foi pegar a Bic para revogá-la.

Bolsonaro fala em “minhas Forças Armadas”. Elas não são suas, mas o capitão precisa saber o que fazer com elas. Vá lá que batalhe pela cloroquina, que ouvisse seu ministro da Educassão e tentasse passar a boiada das nomeações de reitores. A ideia de equipar a aviação do Exército é velha. Tratar essa questão com uma canetada foi um despropósito, tanto assim que nunca havia sido tentado.

Se Bolsonaro tivesse consultado um médico antes de assinar o decreto, certamente teria sido dissuadido.

Saúde Militar do Brasil


A Constituição como inimiga

Impressiona a quantidade de vezes que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) tiveram que explicar ao presidente Jair Bolsonaro aspectos básicos da Constituição - aquela mesma que ele jurou respeitar ao tomar posse, mas que, dia e noite, trata de desvirtuar.

Na hipótese de que seja apenas ignorância, é espantoso que um político que passou três décadas no Congresso e hoje é a autoridade executiva máxima da República demonstre desconhecimento tão profundo do texto constitucional.

O presidente, por exemplo, já declarou que “qualquer dos Poderes” pode “pedir às Forças Armadas que intervenham para restabelecer a ordem no Brasil”. Fazia referência ao artigo 142 da Constituição, que, na exótica interpretação de Bolsonaro, lhe permitiria convocar as Forças Armadas para intervir em crises e também para atuar como uma espécie de “Poder Moderador” quando há conflito entre Poderes.


O presidente repetiu em diversas ocasiões essa interpretação mesmo tendo sido alertado por especialistas e magistrados de que se tratava de uma leitura estapafúrdia da Constituição. Isso enseja uma outra hipótese: a de que Bolsonaro sabe muito bem o que está fazendo, ou seja, trata de confundir a opinião pública e, em meio a um “debate” constitucional sem sentido, dar verniz de legitimidade a seus propósitos autoritários. Ao mesmo tempo, tenta enredar as Forças Armadas em seu projeto de poder, com o objetivo óbvio de intimidar os opositores.

É por esse motivo que são tão importantes manifestações cristalinas como a do presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, a propósito da absurda interpretação bolsonarista sobre o papel das Forças Armadas. “As Forças Armadas sabem muito bem que o artigo 142 não lhes dá (qualidade) de Poder Moderador. Tenho certeza de que as Forças Armadas são instituições de Estado que servem ao povo brasileiro, não são instituições de governo”, disse o ministro Toffoli.

Sendo o Supremo o intérprete final da Constituição, pode-se dizer que o caso está encerrado, mas tudo indica que Bolsonaro insistirá em sua exegese ardilosa do artigo 142. Afinal, seu objetivo é fazer suas mentiras se transformarem em verdades apenas pelo mecanismo da repetição incessante, a despeito - e muitas vezes à revelia - da realidade.

O presidente usa essa estratégia tipicamente totalitária ao insistir também que “o Supremo Tribunal Federal decidiu que governadores e prefeitos é que são responsáveis por essa política (de impor a quarentena contra a pandemia de covid-19), inclusive isolamento”, razão pela qual ele diz que não pode ser responsabilizado nem pelas mortes nem pela crise. “Não queiram colocar no meu colo”, disse Bolsonaro, numa frase que já se tornou padrão em um governo que não assume responsabilidade por nada.

Parece inútil explicar ao presidente, como já se fez diversas vezes, que em nenhum momento o Supremo atribuiu a Estados e municípios competência exclusiva para lidar com a pandemia. O STF, ao contrário, decidiu que União, Estados e municípios têm “competência concorrente” - isto é, todos os entes da Federação têm de agir para enfrentar a crise, em seus diversos aspectos, “preservada a atribuição de cada esfera de governo”.

O que Bolsonaro queria, na verdade, era ter poder para ordenar a Estados e municípios que ignorassem a pandemia e mantivessem a economia em funcionamento, atropelando não apenas as recomendações sanitárias, mas principalmente o princípio federativo gravado na Constituição. Como teve seu intento autoritário mais uma vez frustrado pelo Supremo, tratou de investir na versão fantasiosa segundo a qual é o Judiciário que o impede de tomar as medidas necessárias para o que o País “volte à normalidade”.

No devaneio ditatorial que os camisas pardas bolsonaristas acalentam, não há verdade senão aquela “revelada” por seu líder. Não à toa, já houve até um ministro de Bolsonaro que demandou a prisão de ministros do Supremo, já que estes ousaram contestar a “verdade” do chefe confrontando-a com a Constituição. Assim, na sua busca por um inimigo objetivo, que todo movimento totalitário requer, o bolsonarismo já encontrou o seu: é a própria Constituição, que reflete não a vontade de seu líder, mas o esforço coletivo de construção de um regime genuinamente democrático.

O tempo encurta

A jornalista americana de origem russa Masha Gessen usa de impiedade cirúrgica quando descreve tiranos. Basta ler “O homem sem rosto”, seu livro-reportagem sobre Vladimir Putin, o líder russo de alma soviética ou líder soviético de alma russa, tanto faz — para reconhecer em Gessen amplo conhecimento em viciados do poder. A mais recente investida da escritora tem por título “Surviving Autocracy” (Sobrevivendo à autocracia) e chega em boa hora. Embora a obra centre foco no esgarçamento do tecido democrático em curso com Donald Trump, o tema adquire urgência diante da proliferação de candidatos a autocrata mundo afora.

O presidente americano ainda estaria na primeira etapa de uma escalada ao poder antidemocrático, uma vez que as instituições, a oposição e a imprensa livre do país continuam de pé. Segundo uma sequência elaborada pelo sociólogo e ex-ministro da Educação húngaro Bálint Magyar, Trump vive a fase da “tentativa autocrata”. Ela antecede às duas seguintes do ciclo autoritário estudado por Magyar: a “ruptura autocrática” e a “consolidação da autocracia”.


Até recentemente Trump demonstrou ser um aspirante bastante sólido à supremacia do poder pelo poder, com eleitorado personalista fidelíssimo e um Partido Republicano curvado em servilidade. Mas tudo mudou com a devastação provocada pela Covid-19, que já ultrapassou a marca de dois milhões de contaminados e 110 mil óbitos nos EUA. A razia do vírus somou-se ao destemido despertar antirracista nas ruas do país e, de repente, a cinco meses da eleição presidencial, Donald Trump tem pressa.

Seu índice de popularidade voltou a despencar fora da bolha que lhe é fiel, e o adversário democrata Joe Biden, apesar de física e mentalmente fraquejante, está oito pontos percentuais à frente. Com ou sem pandemia, é imperioso para Trump voltar aos comícios em arenas fechadas, de forma a dominar o noticiário e turbinar o eleitorado. A adição de um pré-requisito para participar de seus comícios merece mais do que um rodapé na história: o apoiador precisa confirmar, on-line, ter ciência do risco de exposição ao coronavírus, e garantir, voluntariamente, que não vai acionar Donald J. Trump na Justiça no futuro. Temos aí um díptico perfeito da peste de 2020 e da mente do 45º presidente dos Estados Unidos. Como é que ninguém do Palácio do Planalto ou de seus porões não pensou em algo semelhante para Jair Bolsonaro?

Faz parte do perfil de um aspirante a autocrata ceder o poder em caso de derrota nas urnas, mesmo que esperneando e afogado em teorias conspiratórias. Mas e se ele quiser pular etapas e partir para a “ruptura”? Dias atrás, correu mundo um discurso em vídeo do general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos. Dirigida a cadetes da Universidade Nacional de Defesa, a fala visou a ouvidos civis e militares, republicanos e democratas.

A mais graduada autoridade militar americana pedia desculpas à nação. Milley servira de figurante a uma desastrosa encenação de Trump nas ruas, que resultara em violenta repressão a manifestantes pacíficos. “Minha presença naquele momento e naquele ambiente criou uma percepção de envolvimento dos militares na política interna... Nós que usamos as insígnias da nossa nação, que viemos do povo, devemos sustentar o princípio de Forças Armadas apolíticas...”, disse o general. Em privado, ele também alegou que fora convocado de surpresa pelo presidente e o acompanhou sem saber do que se tratava — o que por si só já seria péssimo, vindo de um chefe militar da maior potência mundial. Mais grave, contudo, é o fato em si: nos EUA de Trump foi necessário esclarecer que as Forças Armadas têm raízes firmes na base republicana da nação. Coisa rara, senão inédita. E inquietante.

Lá não é como no Brasil de Bolsonaro, onde dia sim dia não algum militar da ativa, de pijama, ou de ministério nega riscos de qualquer tipo de golpe —seja presidencial ou de quepe.

Por ora, a nossa aberração nacional tem tintas próprias. Na Praia de Copacabana a areia amanhecera com cem cruzes de madeira sobre covas rasas, simbolizando as mais de 40 mil vidas brasileiras que o coronavírus já levou e enterrou às pressas. Lá pelas tantas um bípede grisalho de peito estufado e passada firme sai do calçadão e adentra a instalação montada pela ONG Rio de Paz. Ele não usa máscara, prefere óculos de sol. Avança pela areia sem tirar o tênis e passa a arrancar as cruzes uma a uma, em movimento cadenciado, quase militar. Hesita só uma vez, indeciso diante da bandeira nacional que enfeitava uma das cruzes. Sacrilégio derrubar a bandeira pátria no chão. Tinha plateia, silenciosa.

Até que outro brasileiro irrompe na cena. Márcio Antonio perdera o filho de 25 anos para a Covid sem poder lhe dar um enterro decente. Caminhava pelo calçadão com a mulher quando percebeu o destruidor de cruzes em ação. De chinelo nos pés e camisa no pescoço, também invadiu a areia. Em cadência igualmente obsessiva foi refincando as cruzes tombadas uma a uma, com paixão. Foi xingado com estridências. Ouviu “Vai pra Venezuela!”, como se a Venezuela já não fosse aqui. De outro espectador recebeu o conselho de baixar o tom da raiva.

Se ninguém se mexer, os aspirantes daqui vencem.

O que a grandeza da terra nos traz

A gente vai sangrar por muito tempo, com níveis altos de mortalidade. Vai ser diferente da Europa, que teve um período curto e muito intenso
Ricardo Schnekenberg, médico pesquisador da Universidade de Oxford

O louco que nos governa

O país já está anestesiado pelas atrocidades diárias do presidente da República. Ainda assim tomou um susto com a criminosa atitude de estimular pessoas à invasão de hospitais. Isso é crime contra a saúde pública, é perturbação da ordem e incitação à prática de ilícitos. Coloca em risco pacientes, médicos e a população. Os seguidores do presidente podem seguir a proposta e executar tal desatino. Ele avisou que encaminhará os vídeos que receber à Polícia Federal. Se o fizer, será denunciação caluniosa. O negacionismo de Bolsonaro levou-o à loucura. Um louco nos governa.

Vamos olhar as leis. O código penal estabelece o crime de pôr em perigo a saúde de outrem (artigo 132), violação de domicílio (150) , infração de medida sanitária (268), incitação ao crime (286). Atentar contra a segurança ou o funcionamento de serviço de utilidade pública (265). Na lei de abuso de autoridade, o artigo 22 estabelece que é crime “invadir ou entrar astuciosamente ou à revelia da vontade do ocupante, imóvel alheio”, no artigo 25, obter provas, em procedimento de investigação ou fiscalização, de forma ilícita. Essa lei prevê o ato de cometer crime por meio de terceiros. Na lei das contravenções penais, artigo 42: “perturbar alguém, o trabalho, ou o sossego alheios, com gritaria ou algazarra”.

Para entrar em um hospital, em qualquer momento, é preciso apresentar documentos, passar pela segurança, saber se a pessoa pode receber visita, lavar as mãos, passar álcool gel, respeitar as restrições. Numa pandemia, todos esses cuidados aumentam. Se é crime invadir um hospital em períodos normais, imagine no meio de uma pandemia. Os governadores do Nordeste em carta o chamaram de inconsequente.

A proposta é um desrespeito aos pacientes, invasão de privacidade desses doentes, ameaça aos médicos e enfermeiros e coloca em risco a própria pessoa que o fizer, porque ela pode contrair o vírus e ser um vetor de contágio. O presidente está levando pessoas à morte com uma fala como essa.

Confesso que num primeiro momento não acreditei. Dei ao presidente Bolsonaro o benefício da dúvida. Infelizmente era verdade. O crime é agravado por ele ser o presidente da República. Ele acha que assim serão desmascarados os governadores e prefeitos, que, no seu delírio persecutório, estariam mentindo sobre os números de mortes e infectados e a respeito da sobrecarga do SUS, para ter ganhos políticos.

Bolsonaro repetiu a afirmação de que ninguém no Brasil morreu por falta de leitos ou respiradores. Está convencido de que há uma conspiração entre imprensa, governadores, Organização Mundial da Saúde (OMS), os que ele acha que são seus inimigos. Todos estariam inventando mortos. Indício claro de transtorno psíquico.

Bolsonaro voltou a atacar o “penúltimo”, que é como ele chama o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, dizendo que o número está alto agora porque Mandetta havia “dado uma inflada”. Vamos desenhar para o primeiro mandatário: quando ele foi demitido, em 16 de abril, os números oficiais eram de 1.933 mortos e de 30.449 contagiados, de acordo com o Ministério da Saúde. Ontem, estávamos com mais de 41 mil mortos e mais de 800 mil infectados. O aumento desde então foi de 20 vezes. Mesmo que todos os óbitos registrados no período do ex-ministro fossem apagados, ainda assim o país teria 39 mil mortes. Aliás, desde que o general Pazuello assumiu, as vítimas fatais pularam de 14.817 para 41.828.

Na frente desta guerra pela vida estão médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, todo o pessoal de apoio. Eles trabalham duro, diariamente, longe muitas vezes das suas famílias, com risco de contaminação, em cargas horárias pesadas, com equipamento de proteção desconfortável e insuficiente, vendo a falta de remédios, passando por momentos de estresse. Inúmeros integrantes das equipes médicas dos hospitais públicos já morreram de Covid-19. Como vítimas desta tragédia, estão os doentes, tentando se recuperar nos hospitais, ou sofrendo numa UTI entre a vida e a morte. Seus parentes estão aflitos à espera de notícias. A todos eles, médicos, pacientes, familiares, o presidente Jair Bolsonaro desrespeitou com essa imperdoável atitude de convocar seus seguidores para invadir hospitais. Que pessoa sã faria isso?

Pensamento do Dia


Por que não abandonar Bolsonaro para que se divirta apenas com seus brinquedos de morte?

O presidente gosta de brincar mais com a morte do que com a vida. Tem mais vocação de demolidor que de construtor, de guerreiro que de diálogo, de caçador de inimigos, verdadeiros ou imagináveis.

O presidente Jair Bolsonaro gosta de brincar mais com a morte do que com a vida. Tem mais vocação de demolidor que de construtor, de guerreiro que de diálogo, de caçador de inimigos, verdadeiros ou imagináveis, que de impulsor da paz. A mentira lhe cai melhor que a verdade.

Bolsonaro não será derrubado por suas bravatas ameaçando com um golpe. A tragédia do coronavírus o tirará da presidência por seus crimes contra a humanidade. Será derrotado pelo pranto das famílias de luto que nem poderem se despedir de seus entes queridos.

Bolsonaro zombou da epidemia desde o primeiro momento. Minimizou sua força destrutiva e continuou a fazê-lo enquanto os mortos se acumulavam nos cemitérios. Quando os números das vítimas o estavam desnudando de sua cegueira, tentou culpar os governadores, os prefeitos e a própria OMS.


Não apenas negou sempre as evidências como adotou uma atitude de provocação, desobedecendo pública e descaradamente a todas as normas de prevenção da ciência e da medicina. Desarmou o Ministério da Saúde de médicos e o armou de militares. Quando a epidemia se espalhou e começou a aparecer como uma das mais letais do mundo, chegou ao cúmulo do cinismo. Tentou esconder a realidade impedindo que fossem publicados os números da catástrofe. Decidiu matar até os mortos.

Se existe algo, no entanto, que hoje está unindo os brasileiros sem distinção é o medo da epidemia e a solidariedade com as famílias atingidas pela dor da perda dos seus. E será essa união de todos o que acabará destronando-o. A sua já é uma estátua cada vez mais desgastada por sua frieza psicopática e por sua incapacidade de entender e ainda menos de compartilhar a dor de uma nação.

Não busquem razões jurídicas ou políticas para apear Bolsonaro de um poder do qual se tornou indigno de exercer. Seu maior pecado é sua falta de humanidade, sua zombaria da tragédia e o fato de dar as costas à dor que sufoca as pessoas.

É possível que Bolsonaro caia antes de acabar seu mandato, esmagado pelos milhares de vítimas cujo grito não deveria deixá-lo dormir. Mas se por inércia ou falta de coragem daqueles que deveriam afastá-lo da presidência chegasse à reeleição, o silêncio ensurdecedor dos mortos o seguirá em cada passo da campanha e aos brasileiros será impossível voltar a assinalar seu nome nas urnas. Sim, serão os mortos mais que os vivos que colocarão uma barreira à sua insaciável fome de poder totalitário.

Quem conhece o presidente diz que tentou minimizar a guerra contra a epidemia diante do temor de que a tragédia pudesse criar problemas para sua reeleição porque a economia iria quebrar. Chegou a dizer que, no final das contas, quem mais morreria seriam os idosos e os já doentes, como se isso fosse irrelevante. Mais ainda, uma assessora de seu ministro da Economia chegou a afirmar que a morte de idosos seria um alívio para a economia, pois dessa maneira “se economizariam muitas aposentadorias”.

Bolsonaro confessou uma vez que sua missão como militar era “matar e não curar as pessoas”. Sem contar que essa afirmação é uma ofensa ao Exército, que não existe para matar, mas para salvar a nação de seus possíveis inimigos e também atuar para salvar vidas nas tragédias e calamidades naturais.

Bolsonaro não se conforma em ser mito, mas vai como um deus decidindo sobre a vida das pessoas. É difícil encontrar personagens na história com tal amplitude de negatividade, pois parece viver em um mundo de fantasmas de mortos como se os vivos o assustassem.

Como construir um país tão rico de vida quanto o Brasil, tão jovem e com tanto futuro governado por fantasmas de destruição e morte? Como apostar na reunificação pacífica do país sem ter que ouvir a todo o momento os lúgubres presságios da violência, da divisão e da falta de empatia com a dor alheia da boca de quem deveria, ao contrário, despertar sentimentos de vida e de renascimento do melhor que aninha no coração humano?

Bolsonaro sempre à caça de inimigos a abater os encontra em todos os lugares, na imprensa, no Congresso, no STF. Para que devem existir outros poderes fora de seus domínios? Não disse que a Constituição é ele e, portanto, sonha em poder mudá-la e reescrevê-la a seu gosto? Para que a cansativa viagem de diálogo e colaboração com as outras instituições que servem apenas como obstáculo? Não, Bolsonaro não é um fantasma, é um amontoado de instintos de destruição e morte. Seu sonho é armar pessoas, se possível até as crianças. O que é uma pessoa sem um fuzil para empunhar?

A morte sempre como pano de fundo. Seus instintos são o tânatos de Freud. A felicidade, o compartilhar a vida, o diálogo sereno com os que pensam diferente dele, a compaixão pelos que mais sofrem, que são os mais esquecidos, e o compartilhar a dor alheia não cabem em sua psicologia de destruição e em seus medos irracionais diante de inimigos inexistentes. Melhor deixá-lo sozinho se divertindo com seus brinquedos de morte, já que a vida parece lhe dar medo.
 

Governo demente

Cada dia que passa, ele demonstra que não está preparado para sentar-se naquela cadeira
Angelo Coronel, senador do PSD-BA

Pazuello: o “cara” (tosco) da Saúde na Covid-19

Ao assistir a participação do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na comissão especial da Câmara dos Deputados, na terça-feira passada – a ponto de quase arrebentar de empáfia, descaso e desinformação quanto à relevante função pública que exerce em tempos tão graves da pandemia Covid-19 – além da ignorância, tão estranha quanto lastimável, de lições primárias de Geografia e até das quatro estações do ano no País aonde nasceu, estudou e fez carreira a ponto de alcançar um dos postos mais elevados das Forças Armadas – lembrei imediatamente do coco magistral “O Secretário do Diabo”, do imortal Jackson do Pandeiro. Neste caso , o Tinhoso parece ter preferido mandar como representante um general de quatro estrelas da Infantaria do Exército Brasileiro. Uma lástima.

Meu Santo Antônio da Glória! Em plena celebração do seu dia (13/6), o jornalista – um ateu que já acreditava nos milagres do poderoso santo português desde menino da beira do São Francisco (rio da minha aldeia), muito antes de visitar seu templo maior de devoção, na italiana Pádua, e me ver ajoelhado diante de seu túmulo –, pergunta, meio desconcertado e com vergonha: O que se há de fazer, meu santo?


“O Diabo quando não vem, manda um secretário. Eu não vou nessa canoa, que eu não sou otário”, canta o insuperável ritmista da música popular brasileira, agora através do computador. Tiro e queda, diga-se a bem da verdade e do fato jornalístico, se comparado com a atuação tosca do ministro da Saúde do ponto de vista das informações e domínio dos dados e problemas específicos da pasta entregue pelo presidente da República ao general de infantaria, “eficiente cumpridor de ordens”, nesta quadra tão angustiante e temerária da saúde pública nacional. Mas, para surpresa geral, precário e sofrível até em termos de conhecimentos gerais primários, a partir do fato de que estamos falando de um oficial do mais alto rango das nossas Forças Armadas.

Na Câmara, ao tentar camuflar, jogar para debaixo do tapete e dificultar a divulgação dos dados reais de contaminados e mortos da pandemia no Brasil, o ministro Pazuello disse que a mudança aumenta a transparência, porque, a partir de então, os números ficariam à disposição 24 horas por dia. “Não precisa mais me perguntar que horas vai botar o dado. Na hora que o dado chega do gestor ele é colocado no BI (boletim de informação da saúde), e acabou, vai imediato. Se chegar às 16h, o nome do “cara” estará lá”.

Precisa desenhar a gravidade de tamanha grosseria e falta de sensibilidade? Se tais palavras de um ministro da Saúde, reduzindo a “caras” os mortos pelo novo corona vírus no País – quando o número já beirava os 40 mil – tivessem ficado restritas ao ambiente da comissão especial que acompanha o avanço da pandemia, já seria motivo de escândalo em qualquer lugar civilizado do planeta. Mas a fala de Pazuello, reproduzida nos noticiários de ponta a ponta da Nação, soou como uma botinada na memória das vítimas e de suas famílias, e uma bofetada humilhante na face da sociedade brasileira.

Glorioso Santo Antonio, louvado neste seu dia de pedidos e agradecimentos por seus milagres e graças, pelos católicos do Brasil e do mundo inteiro, peço licença para terminar este artigo que é também em seu louvor, com versos do imortal Jackson do Pandeiro: “Não vou na onda nem no conto do vigário, que o diabo quando não vem, manda um secretário”. Oremos!
Vitor Hugo Soares

Algemas

Eu terminara de almoçar e lia na sala os jornais que haviam chegado. Eles me ligavam ao mundo e informavam sobre os acontecimentos tormentosos daqueles dias de repressão. Minha mulher também corria os olhos pelas notícias e nossos filhos, ainda pequenos, pulavam por ali.

O telefone tocou. Era um colega de cidade vizinha que pedia minha presença na telefônica, no centro da cidade, com a maior rapidez porque seu tempo era curto. Tinha sido preso e estava sendo conduzido não sabia para onde, queria falar-me, precisava de apoio, estava desesperado. Chamara também os demais colegas e contava que todos fossem até lá para darem, pelo menos, apoio moral. Sentia-se na sua voz uma grande angústia.

Não hesitei um momento. Expliquei tudo em duas palavras à minha mulher, peguei um agasalho e rumei para o lugar indicado. Nenhuma outra consideração entrou no meu espírito – nem medo, nem cálculo, nem conveniência de qualquer espécie. Tratava-se de um advogado como eu, colega e amigo, ainda que não fosse dos mais chegados, e meu dever era socorrê-lo no momento amargo, quaisquer que fossem as conseqüências.


Na minha juventude de então eu não sabia que estava vivendo um instante fugidio mas glorioso da existência. Enquanto dirigia pela colina abaixo quase explodia de indignação diante da arbitrariedade que me parecia monstruosa e ia pronto para tudo, inclusive para ser preso e seguir com o colega, se isso fosse necessário. Hoje, na maturidade, fico encabulado à lembrança de alguns arroubos daquela época, mas esse episódio me envaidece e meu coração afirma que sairia novamente, agora, em socorro do colega se ele estivesse me chamando.

Minha surpresa foi grande ao notar a ausência dos demais. Nenhum compareceu, nenhum se dispôs a amparar o seu igual, nem mesmo os que se diziam “correligionários” do preso, de quem eu era, por coincidência, adversário em política. Olhei incrédulo para a casa de um deles, distante pouco mais de cem passos, e tive ganas de gritar com a força máxima dos pulmões:

– Covardes! Covardes!

Creio, sinceramente, que hoje eu gritaria.

Mas o choque maior foi quando percebi as algemas, aquelas peças niqueladas nos punhos do bacharel, como se fosse um marginal perigoso e prestes a intentar a fuga. Moço culto e educado, incapaz de uma grosseria, quanto mais da menor violência, ele mal podia falar em meio aos oficiais condutores. E tudo aquilo por ter sido contrário aos mandões do momento!

Fiquei arrasado.

Ele, num esforço imenso, resumiu tudo numa pergunta:

– E os outros?

Não tive o que dizer e me limitei a encolher os ombros. Depois, meio sem jeito, tratei de abraçá-lo e confortá-lo. Prometi telefonar à família (ele fora preso no escritório e nem pudera se despedir), atendê-la no que pudesse e acompanhar o destino dele próprio, até então obscuro. Seus olhos marejavam e eu senti com intensidade a gratidão que se instalava na alma do colega mais velho pela atitude do mais jovem.

O carcereiro, impaciente, queria partir. Tinha ordens e horários a serem cumpridos. Relutante, atrapalhado com as algemas niqueladas, o advogado embarcou. Em instantes a viatura policial dobrava a esquina em direção à estrada poeirenta.

Fiquei ali um tempão, parado na frente da telefônica, com o olhar fixo na estradinha campeira. Todo o edifício jurídico construído dentro de mim, em anos de estudo e trabalho, estava abalado.

Mas a vida continuava e era preciso lutar. Voltei devagar para casa, a esposa, os filhos, a profissão. Naquele trajeto, sozinho e amargurado, assumi comigo mesmo o compromisso formal — até hoje cumprido a duras penas — de jamais transigir com os inimigos da democracia, mascarados ou não, e defendê-la pelos modos ao meu alcance. Acima de tudo, incutir nos filhos a consciência democrática como forma de ensinar que só a democracia protege a dignidade do homem e que ela poda ter mil defeitos mas ainda não se inventou nada melhor. 
Enéas Athanázio