quinta-feira, 21 de maio de 2020

Saúde militarizada

Na terça-feira, o Brasil cruzou uma barreira macabra ao contabilizar mais de mil mortos pelo coronavírus num intervalo de 24 horas. Foram 1.179 vítimas do patógeno, segundo o Ministério da Saúde.

O número é certamente maior, dada a notória subnotificação verificada aqui, mais uma entre tantas mazelas locais que a Covid-19 veio apenas sublinhar —e também pelo colapso do sistema funerário do país, que mal consegue registrar os dados básicos de seus mortos (em muitos lugares o laudo omite a cor da vítima, por exemplo).

Tem-se morrido às centenas diariamente de genéricos “problemas respiratórios”, em número várias vezes superior à média histórica brasileira, para ficar apenas numa das rubricas lavradas em atestados de óbitos que devem mascarar novas vítimas da nova doença.


Mesmo considerando somente o número oficial, é aterradora a comparação com as principais causas de morte pré-coronavírus: doenças cardiovasculares, sejam infartos ou AVCs (980 pessoas na média diária de 2018), câncer (624) e causas externas, como acidentes de trânsito e violência (412), segundo as informações mais recentes do DataSUS, do Ministério da Saúde.

As cifras são tristemente eloquentes também no número de contaminados, de 291,6 mil oficialmente contabilizados até esta quarta-feira (20), o que faz o Brasil saltar de sexto para terceiro lugar no ranking mundial, atrás apenas de EUA (1,5 milhão) e Rússia (299 mil). Um de cada sete novos casos no mundo acontece aqui.

Outra marca lamentável foi atingida nesta semana —pelo governo Jair Bolsonaro. Ao empossar um coronel do Exército como seu número dois, o ocupante interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, somou 17 militares nomeados, de qualificação ignorada, apenas nos últimos dias. É o que o humorista José Simão chamou de “Milistério”.

Blagues à parte, vai sendo desmontado aos poucos o quadro técnico organizado pelo ex-ministro Henrique Mandetta, a maioria com experiência na gestão da saúde pública federal, celebrizada em entrevistas coletivas diárias pelo uso dos coletes pretos do SUS.

A militarização começou já na gestão do sucessor de Mandetta, Nelson Teich, o Breve, cujas únicas marcas nos 29 dias de atuação terão sido o semblante sombrio e a tutelagem verde-oliva. Mas esta não se restringe à pasta.

Segundo levantamento mais recente deste jornal, feito no fim de 2019 por meio da Lei de Acesso à Informação, eram 2.500 militares em cargos de chefia ou assessoramento no governo, um recorde desde a redemocratização do país.

O número, possivelmente maior hoje, não inclui o próprio presidente Jair Bolsonaro, um tenente indisciplinado e conspirador que se tornou capitão ao ser obrigado a deixar as fileiras do Exército, seu vice, general Hamilton Mourão, e 9 de seus 22 ministros atuais.

O caso da Saúde é o mais visível. Causa alarme a presença cada vez maior de fardados numa pasta que deveria ser o centro científico e estratégico do combate à pandemia que vitimiza e empobrece uma geração no Brasil e no mundo.

Ao trocar a experiência na coisa pública pela obediência cega e a priorização da logística, Bolsonaro nem sequer disfarça seu objetivo de fazer do ministério um empório de distribuição da cloroquina e da hidroxicloroquina, suas obsessões irracionais.

As drogas —de eficácia ainda não comprovada no combate aos efeitos do coronavírus em sua fase mais branda e com efeitos colaterais importantes— tornaram-se a bandeira do governo e, desde a saída de Mandetta, sua única resposta visível à pandemia.

Nesta quarta, após determinação presidencial, o ministério divulgou documento que amplia a possibilidade de uso dos medicamentos para paciente com sinais e sintomas leves. Até então, o protocolo oficial os recomendava somente para casos graves e com monitoramento em hospitais.

No cálculo bolsonarista, não chancelado por nenhum estudo sério e não adotado por nenhum país do mundo até agora, a disseminação do medicamento levaria a uma diminuição dos casos, o que possibilitaria a implantação de um isolamento seletivo (idosos e grupos de riscos, por exemplo), com retomada das atividades normais pelo resto da população e consequente recuperação econômica.

A preocupação com a reabertura das empresas é legítima, e os governos deveriam de fato estar preparando seus planos de abandono gradual das restrições. Entretanto o presidente apequena a discussão, contaminando-a com o vírus da política inconsequente.

Até papagaio bate continência

Nunca, desde abril de 1985, as Forças Armadas foram usadas de maneira tão escancarada em favor de um projeto político. E nunca, em toda a história do Brasil, cederam tão docilmente. A ocupação das estruturas do Executivo por militares já depõe sobre a subserviência das forças ao presidente Bolsonaro. Não se trata de disciplina, de obediência ao comandante em chefe, que podem ser até a desculpa oficial, mas é porque há uma compensação. Com esse loteamento de cargos, Jair Bolsonaro interfere à vontade em todas as instâncias de poder militar, sobretudo no Exército.

Não fosse assim, sua ordem para a revogação de três portarias do Comando Logístico do Exército que estabelecem controle, identificação e rastreabilidade de armas e munições jamais passaria. Passou e foi mais um dos muitos ataques de Bolsonaro ao Estatuto do Desarmamento, que o Ministério Público Federal denunciou por inconstitucional. O presidente já baixou diversos decretos autorizando porte, aumentando volume de compra de munições, reduzindo idade e ampliando áreas para uso de armas de fogo. Quase todos foram revogados depois de reconhecidas suas inconstitucionalidades. 

Um desses decretos aumentava de 50 para 5.000 o número de munições que poderiam ser compradas anualmente por qualquer pessoa que tivesse arma registrada. Ela autorizava a compra de pouco mais de 2 bilhões de balas por ano, permitindo que se dessem quase 6 milhões de tiros a cada dia no Brasil. Caiu, claro. Em outro, Bolsonaro flexibilizava de tal forma a lei de compra de armas que um cidadão como você e eu poderia ir ao mercado e comprar um fuzil para defesa pessoal. Há quem veja nisso apenas o atendimento de uma pauta da turma da bala. Ma há os que veem mais do que isso. 

Haveria um projeto em curso para armar e municiar pessoas e grupos que apoiam o presidente? O fato é que as pessoas estão cada vez mais à vontade para portar armas. No acampamento paramilitar da Esplanada dos Ministérios há gente armada, como revelou a líder do grupo, Sara Winter. Ela disse que as armas servem para o grupo se defender. Se defender de quê? Todos os acampados de Brasília são radicais antidemocráticos e atacam sistematicamente o Congresso, o Supremo e a imprensa, e muitos são membros efetivos ou reformados de forças militares.

Nesse sentido, os milhares de cargos federais entregues a militares, suas famílias e seus amigos se transformam em motivadores do apoio a Bolsonaro. Além de membros das três Forças Armadas, há cargos ocupados por oficiais e praças da ativa ou da reserva das forças auxiliares estaduais, como PMs e Bombeiros, e por delegados e agentes das polícias Civil, Federal e Rodoviária. A aposta é consolidar de tal maneira a presença militar e policial nas estruturas do poder que qualquer solavanco que ameace esses empregos se transforme num gatilho de defesa do governo. 

Eles estão por todos os lados, nos ministérios, nas autarquias, nas estatais, nos bancos oficiais. Mas o caso do Ministério da Saúde é exemplar. Lá há tantos militares em cargos de chefia, 18 segundo contabilidade do GLOBO, que até papagaio bate continência. A expressão é do falecido escritor Joel Rufino, se referia à antiga CBD, Confederação Brasileira de Desportos e dava conta da militarização da seleção brasileira sob o comando do almirante Heleno Nunes. Na Saúde do general Pazuello ocorre o mesmo. 

A explicação de que são bons porque são disciplinados é mais esfarrapada que pano de chão velho. Ninguém é melhor em qualquer coisa apenas porque foi ou é militar. Com certeza, pode-se garantir apenas que os militares são melhores em ordem unida. Fora isso, podem ser melhores ou piores, de acordo com a formação acadêmica de cada um. O que está ocorrendo sob o manto da eficiência militar é a distribuição de cargos com salários que variam de R$ 10 mil a R$ 39 mil. E, nas ruas, colegas de farda, amigos e parentes armados e municiados servem de apoio. Assim Bolsonaro se protege, dando boquinhas aos militares e bocarras ao centrão.

Pensamento do Dia


O pilantra, o corrupto e o burro

Talvez o leitor mais otimista não concorde comigo, mas devo dizer que, salvo algumas exceções, há três tipos de políticos e governantes: os corruptos, os pilantras e os burros. Uso a palavra pilantra em respeito às senhoras, o correto seria um termo que envolve progenitoras e a profissão mais antiga do mundo. De qualquer maneira o PF — prato feito, é claro — da política atual se faz com os três. Eles, às vezes, se misturam: existem corruptos com pitadas de burro, assim como burros com um toque de pilantra, mas é só uma característica que traz fama ao político.

Os corruptos existem em grande número, dos mais variados tipos, mas a maior parte — por incapacidade, não por falta de vontade — fica só nas jogadas rasteiras. Só os mais espertos — por assim dizer — conseguem as grandes verbas e as comissões polpudas. São também os que percebem que se roubarem todo o dinheiro de uma vez o governo quebra e se perdem as negociatas. É a sabedoria do parasita e do sanguessuga. Também têm consciência de que, se o roubo for espalhafatoso demais acabarão, cedo ou tarde, na cadeia. Não à toa estão por aí desde sempre. Como chegam ao poder? Pagando, é claro. Com o seu dinheiro.

Já os pilantras são um grupo menor em número, porém maior na influência. São os que não têm ética alguma, prometem e não cumprem, dizem uma coisa e fazem outra e mentem, muito, sempre. Também dependem da esperteza, usada em proveito próprio para disfarçar as reais intenções. Como todos os picaretas, são simpaticíssimos e carismáticos. Alguns, de tão safados, acabam virando folclóricos e terminam a vida escrevendo livros e dando palestras. Não chegam ao poder porque, na verdade, nunca saíram dele.

Finalmente, os burros.

Sei o risco que corro ao falar mal deles, a categoria é muito unida, e o sindicato dos idiotas costuma atacar com fúria seus desafetos. No entanto, devo dizer que são os piores: o corrupto pode até trabalhar a favor do país, ainda que a sua motivação seja ter mais o que roubar. O pilantra pode, por algum interesse escuso, atuar em prol de alguma causa justa, mas o governante burro, pela sua natureza, não descansa. É obtuso 24hs por dia, sete dias por semana. Não tem férias nem dia santo. Todo dia é dia, toda hora é hora para mais uma estupidez.

Como um idiota acaba no poder, perguntará o leitor, afinal ninguém tem um currículo mais insignificante que um imbecil. Acontece que às vezes o corrupto exagera e o pilantra perde a mão. É quando o eleitor conclui que está sendo enganado. Ele grita “Basta!” e aponta para o primeiro burro que estiver passando: vamos votar naquele ali, ele nunca fez nada — os eleitores sempre têm razão —, portanto será um excelente governante.

Claro que, com sua malandragem característica, o corrupto e o pilantra enxergam no poder do burro mais uma oportunidade: podem voltar ao seu ofício sem serem incomodados, as imbecilidades e estultices proferidas e praticadas pelo burro criam tanta confusão que ninguém liga para mais nada.

Para não estragar o dia do leitor mais otimista, não vou especular sobre qual deles está no poder. Melhor brindar à vida: vai uma cloroquina aí?
Leo Aversa 

Minorias de guerra

Minorias, que contra toda a razão e civilização, alimentam para isso castas guerreiras, explicáveis no tempo dos assírios, mas anacrônicas e absurdas nesta era
Miguel Torga, 'Diário"

Que papelão, Forças Armadas

É madrugada de quarta-feira, dia 20 de maio de 2020. O dia começou há pouco: digito essa frase às 00h37. Há oficialmente 271.885 casos confirmados de Covid-19 no Brasil e 17.983 mortes, mas o que o Ministério da Saúde diz não se escreve, até porque não temos ministro, não temos equipe no segundo escalão, não temos políticas federais minimamente confiáveis, não temos testes suficientes, não temos nada, nada, nada — além de alguns milicos brincando de médico e da certeza absoluta de ter o pior governo possível no pior momento imaginável.

A situação é tão desesperadora que, nesse momento, o coronavírus é o menor dos problemas do Brasil. Já se prevê uma vacina em futuro razoável, adivinham-se possíveis anticorpos aqui e ali, a Ciência funciona e, mais cedo ou mais tarde, estaremos livres disso, assim como ficamos livres de outras doenças — a peste bubônica, várias gripes, a paralisia infantil, a meningite, a Aids. Elas não desapareceram, mas já as conhecemos e as combatemos com eficiência suficiente para não temê-las mais (ou não temê-las tanto).


Mais difícil vai ser encontrar uma cura para a maldição que rege Brasília. E que não, não vem de 2018, embora nesse ano tenha chegado a um patamar nunca antes atingido na História desse país. Saímos cheios de esperança da ditadura — para cair em Sarney e Collor. Elegemos Fernando Henrique — mas ele nos legou a reeleição, essa sim a verdadeira Herança Maldita, que fez com que todos os que se sentassem depois naquela cadeira desgraçada sonhassem em se fincar no poder até o fim dos tempos (ou, pelo menos, até o fim das reeleições possíveis).

De desastre em desastre viemos dar aqui: um sociopata genocida apoiado por militares.

Não é difícil entender Bolsonaro. Ele é um Napoleão de hospício com poder real, com a caneta que é, afinal, o sonho de todo Napoleão de hospício. Numa sociedade saudável, porém, Napoleões de hospício estão, obviamente, no hospício, e não na Presidência da República.

O Napoleão de Hospício é doido, mas as pessoas que estão ao seu redor não são.

Por isso, paradoxalmente, é tão difícil entender o fenômeno Bolsonaro, sobretudo para além das eleições. Eleitores desesperados (ou seja, quase todos, sempre) fazem qualquer coisa, de entregar países a tiranos ou cidades a rinocerontes. Mas uma coisa é entregar uma cidade a um rinoceronte, outra deixá-lo governar e, ainda por cima, incentivar os seus arroubos.

Cacareco continuou no zoológico; Jair Bolsonaro é presidente.

Os militares passaram os últimos 35 anos tentando mudar a imagem sombria que conquistaram durante a ditadura. Ainda que não possam reescrever a História, tiveram êxito. Respeitaram a constituição, trabalharam muito e falaram pouco. As pesquisas de opinião mostram que reconquistaram a confiança da população.

Agora, como se 1964 não tivesse acontecido nunca, começam a sair dos quartéis e se aliam a um homem que foi afastado das Forças Armadas por indisciplina e deslealdade.

É fácil entender o Napoleão de hospício; é fácil até entender a sua família, porque genética é, como sabemos, uma coisa hereditária. Mas é impossível entender os altos oficiais que se mantém ao seu lado, e que não se envergonham em bater palma para o maluco dançar.

Que papelão, Forças Armadas, que papelão.

A cloroquina e o crime de responsabilidade

A pressão do presidente Jair Bolsonaro para que o Ministério da Saúde altere, contra as evidências e estudos médicos, o uso da cloroquina em pacientes com covid-19 é uma patente violação do direito à saúde, tal como previsto na Constituição de 1988. “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”, estabelece o art. 196 da Carta Magna.

A manobra do presidente é manifestamente perversa, por insistir numa medida com graves riscos para a saúde da população. Nada mais nada menos, Jair Bolsonaro quer que o Ministério da Saúde atue em sentido contrário ao que preconiza a medicina. Até Nelson Teich, que assumiu a pasta da Saúde assegurando “alinhamento completo” com o presidente, se recusou a assinar o novo protocolo.

Mas isso não é obstáculo para Jair Bolsonaro. Se médicos não podem assinar a mudança de orientação no uso da cloroquina, por ferir a ética profissional, o presidente da República quer valer-se do interino, Eduardo Pazuello, que não é médico – e sim um general de brigada intendente –, para obter a desejada aquiescência a seus arbítrios. À plena luz do dia, Jair Bolsonaro utiliza-se do cargo para causar dano à saúde da população, em escancarado exercício abusivo do poder.


Vale notar que a insistência de Jair Bolsonaro no uso da cloroquina não causa danos apenas à saúde da população. Ela coloca em risco a própria permanência de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, uma vez que a insistência em agredir a saúde da população, prescrevendo algo que afronta as evidências médicas, se encaixa inequivocamente em uma das descrições dos crimes de responsabilidade previstos na Lei 1.079, de 1950.

Assim estabelece o seu art. 7.º: “São crimes de responsabilidade contra o livre exercício dos direitos políticos, individuais e sociais: (9) violar patentemente qualquer direito ou garantia individual constante do art. 141 e bem assim os direitos sociais assegurados no artigo 157 da Constituição”. Editada em 1950, a lei refere-se aqui a dois artigos da Constituição de 1946. O primeiro protege os direitos fundamentais – direito à vida, à liberdade, à segurança individual e à propriedade – e o outro, os direitos sociais, incluindo a saúde. A Constituição de 1988 ampliou e tornou ainda mais explícito esse direito.

No caso, a conduta do presidente da República não viola o direito à saúde por uma limitação de recursos financeiros, falta de infraestrutura, ausência de mão de obra qualificada ou alguma circunstância condicionante da atuação do poder público. Não é que o Estado, em razão de alguma limitação, se mostre incapaz de prover atendimento médico adequado à população. O empenho de Jair Bolsonaro para ampliar o uso da cloroquina em pacientes com covid-19 é de outra ordem e, portanto, de outra gravidade. O que se vê é o uso insistente e arbitrário do poder presidencial para pôr em risco a saúde da população.

É de tal forma desastrosa, do ponto de vista médico, a ampliação do uso da cloroquina que governadores ouvidos pelo <b>Estadão</b> disseram que ignorarão o novo protocolo, se houver. Além dos graves efeitos colaterais da cloroquina e da ausência de comprovação de sua eficácia no tratamento da covid-19, o novo protocolo não contribuiria para solucionar os problemas principais das atuais circunstâncias, por exemplo, a falta de respiradores, leitos e testes.

Os fatos são contundentes: o governo de Jair Bolsonaro é completamente disfuncional. E de pouco adianta a presença de pessoas oriundas das Forças Armadas, seja com experiência em coordenação, logística ou enfrentamento de crise, se a orientação que prevalece no Executivo federal são os delírios de Jair Bolsonaro. Não se pode tapar o sol com peneira. Não há racionalidade e tampouco moderação em um governo no qual o presidente da República tenta obrigar o Ministério da Saúde a emitir uma orientação que inequivocamente coloca em risco a saúde da população. É o poder direcionado a causar dano, e isso é crime.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Sob ordens do 'capitão'

Sigam-me os que forem brasileiros!
Marechal de Exército Luiz Alves de Lima e Silva, Marquês de Caxias, na batalha de Itororó

Quando ele tiver de se explicar

No dia ainda incerto, mas infalível, em que Jair Bolsonaro se sentar no banco dos réus, veremos se usará a tática a que se habituou no poder para se impor numa discussão —silenciar seus interlocutores cortando-lhes a palavra e repetindo aos gritos seus bordões, como “Chance zero!”, “Ponto final!”, “Caso encerrado!”, “Próxima pergunta!”, “O recado está dado!”, “Cala a boca!” e “E daí?”.


A Justiça não se contentará com uma argumentação tão lacônica. Bolsonaro terá de responder extensivamente sobre os episódios em que violou a Constituição, estuprou as instituições, acusou sem provas, jogou o povo contra o Congresso e o STF, botou órgãos de Estado a seu serviço, encobriu sujeiras dos filhos e dos asseclas, mentiu compulsivamente, agrediu minorias e promoveu o desmoronamento da nação com seu ministério de celerados. O crime de mandar os humildes para a morte, exortando-os a sair de casa em plena pandemia, talvez tenha de ser julgado por um tribunal com sede na Holanda.

Será fascinante seguir Bolsonaro pela TV, defendendo-se no julgamento com seu vocabulário indigente, português estropiado, expressões chulas, sotaque caipira, estoque de palavrões e abuso de taoquêis. E mais ainda porque, apesar de velho político, ele nunca fora contestado para valer —como deputado de quinta, ninguém perdia tempo com ele e, presidente, achava-se poderoso demais para discutir.

Condenado em várias instâncias, mas à espera de que se esgotem os recursos, Bolsonaro, como ex-presidente, deverá ter direito a uma sala de Estado Maior num quartel da Polícia Federal.

Talvez, então, ele já terá sido abandonado por seus seguidores. Aqueles que, nos áureos tempos, exerciam em seus ataques aos opositores um laconismo igual ao do chefe: “Lixo!”, “Chega de mimimi!”, “Simples assim!”, “Entendeu ou quer que desenhe?” e “Aceitem que dói menos!”.

A queda

Era 10 de março de 2020. Naquele dia, as bolsas desabaram, os circuit breakers foram acionados: no Brasil, mais de uma vez. Era a semana em que os mercados internacionais – e o brasileiro, em parte – começaram a se dar conta da dimensão da crise econômica que resultaria da pandemia. Lembro de ter dito, quando as perspectivas ainda eram de crescimento do Brasil em 2020, que o País provavelmente sofreria a maior recessão da história. De lá para cá, passaram-se dois meses. Foram dois meses em que as projeções para o PIB brasileiro rapidamente convergiram para o quadro recessivo com o qual hoje nos debatemos. Dois meses é muito pouco tempo para uma virada tão abrupta, o que revela o tamanho do precipício.

Esta semana, Kristalina Georgieva, a diretora-gerente do FMI, afirmou já estarem desatualizadas as projeções para o encolhimento do PIB global feitas há pouco mais de um mês. Na ocasião, em meados de abril, o FMI afirmou que a economia mundial sofreria retração inédita de 3% esse ano. Já será pior. Recentemente, o Congressional Budget Office, instituição fiscal independente que funciona no Congresso americano, destacou que o PIB dos EUA deverá sofrer queda de 11% no segundo semestre. Tal queda é de uma ordem de magnitude superior a tudo o que aconteceu durante a crise financeira de 2008, o que dá a dimensão dessa crise. A destruição já é evidente nos empregos perdidos e nas portas que se fecham. Livrarias, restaurantes, lojas de rua. De súbito, bairros na região onde moro ficaram irreconhecíveis, assim como o ritmo da vida.


No Brasil tudo é mais dramático e trágico. O presidente afronta o vírus semana sim, outra também. Brinca com a natureza e com a vida das pessoas de forma irresponsável, inconsequente. Nos seus atos revela não apenas ignorância, mas desprezo – desprezo pelas pessoas, por todo um país. Falta-lhe quase tudo, mas sobretudo a capacidade de se deixar afetar pelo sofrimento causado tanto pela doença quanto pela queda brutal que marcará esse ano como o pior da história. Ao seu ministro da Economia, também falta muito. Dia desses ele dizia que, se uma pessoa sã quiser sair às ruas e correr o risco de se contaminar, esse é um direito dela. O ministro esqueceu que, se essa pessoa se contaminar, ela põe em risco a vida de outras pessoas, logo, seu direito de ir e vir não deve ser irrestrito. E, evidentemente, ninguém consegue identificar a olho nu quem está infectado e quem não está.

O Brasil de Bolsonaro está espantando o mundo ao se revelar vil de modo tão banal. Está conseguindo espantar o mundo mesmo com a angústia generalizada, o que é um feito impossível de exagerar. Não faz muitos anos, fomos exemplo no combate à inflação, no combate à pobreza, nas políticas de preservação do meio ambiente, na redução das desigualdades, ainda que tenhamos permanecido profundamente desiguais. Já demos contribuições importantes para o debate público global. Se por um lado permanecíamos profundamente desiguais, nossa rede de proteção social, criada nos anos 1990 e ampliada nos anos 2000, já foi alvo de elogios e estudos, além de tentativas por parte de outros países de construir algo semelhante. A nossa é uma queda inestimável.

Hoje, somos um país esgarçado e desgraçado por vontade própria – a culpa nossa mesmos. Brevemente, estaremos disputando com os Estados Unidos o primeiro lugar entre os países mais afetados pela epidemia, porém, com uma população mais vulnerável e mais pobre. Brevemente, seremos vistos como o país que mais falhas cometeu no combate à epidemia, que mais deixou exposta a sua população, que mais atrocidades fez ao decidir desdenhar do vírus, investidor em curas contestadas pela ciência, por fazer buzinaços e carreatas em frente aos hospitais, onde pessoas padecem do mal que o presidente insiste em diminuir.

A queda de nosso PIB em 2020 será gigantesca, ainda que a real magnitude seja difícil de antever. As dezenas de milhões de pessoas que serão lançadas ao desemprego estarão visíveis, a despeito do descaso presidencial. Mas a queda maior? A queda mais dolorosa? É a de testemunhar a crise humanitária e nela enxergar a nossa mais profunda falência e decadência como sociedade.

Enquanto o coronavírus mata, Bolsonaro conta piada

No dia em que pela primeira vez o número de mortos com Covid-19 no Brasil passou de mil em 24 horas, o presidente da República, em entrevista virtual concedida a partir da biblioteca do Palácio da Alvorada, resolveu contar uma piada e ele mesmo riu muito dela: “Quem for de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína".

Cloroquina é a droga receitada pelo presidente para tratar doentes com coronavírus. Não há comprovação científica de que ela funcione, mas ele mandou que o Exército a produzisse em larga escala. Tubaína é um refrigerante de baixo custo à base de guaraná. Jair Bolsonaro é o presidente mais estúpido e ignorante da história do Brasil.

O mundo em que ele vive não gira em torno do Sol. Não tem vida inteligente nem seres sensíveis. As espécies são as mais rudimentares. Chafurdam em pântanos que exalam odores apodrecidos e venenosos. Não sobrevivem por muito tempo. Mas enquanto duram, tentam capturar e destruir os seus semelhantes. O planeta da morte.

Em menos de dois meses, o número de brasileiros vítimas fatais do coronavírus ultrapassará, hoje, a casa dos 18 mil. E o de infectados poderá chegar a 300 mil. A soma dos mortos já é maior do que a população de mais da metade dos municípios do país. O Brasil é o terceiro país com mais casos confirmados da doença e avança célere para a vice-liderança.

O fato é que o Brasil perdeu a luta contra o Covid-19. Como poderia ganhar com um presidente da República que se recusou a lutar? Bolsonaro foi o maior aliado do vírus quando ele apareceu por aqui em meados de março último. E continua sendo aliado. Não parece possível que ao cabo da pandemia seja absolvido por crime tão monstruoso e premeditado.

Quantas vezes você já o ouviu dizer: "Fiquem em casa, se protejam, é uma doença perigosa"? Nunca disse. Parece absurdo, mas ele nunca disse. Quantas vezes você ouviu Bolsonaro lamentar as mortes? Duas ou três vezes, se tanto. E sempre de maneira apressada. Quantas vezes você o ouviu dizer: "Precisamos salvar a Economia". Ah, dezenas!

São poucos no mundo os chefes de Estado que se comportam dessa maneira. Conta-se nos dedos de uma mão o número deles. Bolsonaro é um dos dedos. E é também o mais importante dado ao tamanho do país que preside, e ao tamanho de sua população. É por isso que o mundo olha para o Brasil com assombro e não quer acreditar no que vê.

Como foi possível a eleição de um tipo tão primitivo como é Bolsonaro? Como é possível que os militares batam continência para ele e o apoiem com entusiasmo depois de tê-lo afastado do Exército no passado por indisciplina e conduta antiética? Até quando esse sujeito se manterá no poder apesar de todo o mal que causa ao país?

O que ele fez de bom até aqui? Cite algo de bom destinado a ficar na história como uma marca do governo Bolsonaro. E não se diga que foi por falta de tempo. Quinhentos e poucos dias são suficientes para que se avalie o que um governante será capaz de fazer de bom ou de mal por seu país. Que boa herança se desenha no horizonte?

Continência para o Brasil verde-oliva


Presidente português no supermercado que surpreende mais o resto do mundo

Não há ninguém mais popular em Portugal que seu presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, o Professor. Desde que ganhou as eleições por maioria absoluta, em janeiro de 2016, sua popularidade nunca minguou. Sua fórmula é agir como ele é: um político habituado a dar abraços, falar com todos e pôr as pessoas de acordo. Sua campanha eleitoral foi a mais barata de todas, e sua equipe cabia em um carro que, frequentemente, era dirigido por um filho dele.

Nunca habitou o palácio de Belém, sede da presidência, pois prefere continuar em sua casa de toda a vida, em Cascais. Ali, diariamente ―exceto durante a pandemia―, faça frio ou calor, toma um banho de mar às 8h da manhã e se seca tranquilamente na areia enquanto turistas ou jovens nativos aproveitam para fazer uma selfie. Geralmente é o próprio Rebelo de Sousa quem pega o celular dos fãs para tirar a foto, pois é quem tem mais prática. Em Portugal, se diz que, depois de cinco anos todos os portugueses já deverão ter uma foto com seu presidente.

Nós vamos ultrapassar esta pandemia e os efeitos económicos e sociais este ano, no ano que vem, nos anos próximos. E eu cá estarei, e cá estaremos todos, porque isto é um espírito de equipa que se formou e que nada vai quebrar. Cá estaremos este ano e nos próximos anos a construir um Portugal melhor
Marcelo Rebelo de Sousa.
No sábado passado ele foi ao supermercado. Talvez lhe faltassem iogurtes bifidus, que adora, ou sabão para a máquina de lavar roupa. Então se pôs na fila do Continente (a rede de supermercados), com sua máscara e seu short azul-celeste, um de seus preferidos. Sua presença não causou nenhuma surpresa entre os cidadãos, acostumados a esse tipo de comportamento por parte de Marcelo de Sousa, hoje numa fila do supermercado, ontem servindo refeições a indigentes. Mas no exterior a imagem parece ter surpreendido, tanto que foi amplamente reproduzida no Twitter.

A Internet da vizinha Espanha se mostrou especialmente surpresa ao descobrir que um presidente pode ir às compras com esse estilo. A foto em questão, por exemplo, conseguiu milhares de retuítes e reações em poucas horas, a grande maioria da Espanha. Muitas outras contas retomaram a imagem nas últimas horas, acumulando mais reações.

Fundador do partido centrista PSD, católico, torcedor do Braga, comentarista nas mesas-redondas televisivas, Rebelo de Sousa decidirá em breve se disputa a reeleição, mais do que garantida, ou se aposenta para cumprir uma de suas promessas: assistir a doentes nos cuidados paliativos de hospitais.

Quando o país era sério...

A partir do momento em que a gripe (espanhola) se instala, a atitude do governo brasileiro, de uma maneira geral, foi muito mais propositiva do que a nossa atitude agora. Não existia o ministro da Saúde, portanto as atitudes eram centralizadas na figura do presidente. E os presidentes no Brasil (da época) acabaram se transformando em líderes nesse sentido, assim como os cientistas
Lilia Schwarcz, historiadora e antropóloga.pandemia da gripe espanhola em 1918-1920

Para os bolsonaristas, o melhor é já irem se acostumando

O presidente Jair Bolsonaro tem mais o que fazer do que se preocupar com o coronavírus que já matou quase 17 mil pessoas e infectou 254 mil; o índice de desmatamento na Amazônia, o maior registrado nos últimos 10 anos no mês de abril; a dificuldade enfrentada por donos de pequenos negócios de acesso a linhas de crédito especiais. Mesmo a escolha de um novo ministro da Saúde, o terceiro em pouco mais de 500 dias de governo, pode esperar.

No momento, são duas as prioridades de Bolsonaro: preparar-se para defender seu mandato ameaçado por um processo de impeachment; e salvar a pele do seu filho Flávio, investigado sob a suspeita de que embolsou parte do salário dos funcionários de seu gabinete à época em que era deputado estadual no Rio. Foi para ajudar a carreira política dos filhos que ele se lançou candidato a presidente. Uma vez eleito, imaginou que o futuro deles estava garantido.

Um amigo de Bolsonaro, que ele chama de Fred, ouviu seu desabafo na noite da vitória, em 28 de outubro de 2018: “Estou fodido”. Em seguida, o presidente começou a chorar. Fred não sabe dizer se o desabafo e o choro tinham a ver com a situação de Flávio, avisado por um delegado da Polícia Federal de que em breve viria a público a história do esquema da rachadinha comandado por ele e Queiroz. Ou se tinham a ver com o despreparo de Bolsonaro para governar.


É possível que o interesse de Bolsonaro em controlar a Polícia Federal tenha nascido depois da operação que, em 8 de novembro daquele ano, prendeu 10 deputados colegas de Flávio, acusados de corrupção. Eleito senador, Flávio escapou ileso. Mas nem tanto. Virou um grande problema para o pai, só menor do que o outro filho, Carlos, vereador, o mais instável deles. Sempre que Carlos entra em crise, o pai teme que ele possa cometer um tresloucado gesto.

Filhos acima de tudo, só abaixo do medo do pai de não completar o mandato. Até porque, sem o pai, eles não seriam nada. Às favas todos os escrúpulos, o que não fará tanta falta a Bolsonaro. Seus eleitores que o perdoem por esquecer a promessa de jamais ceder cargos públicos em troca de votos para governar. Não se trata mais do toma-lá-dá-cá para aprovar no Congresso projetos do governo. Trata-se impedir que o governo acabe antes da hora.

Na semana passada, para delírio dos bolsonaristas de raíz, Abraham Weintraub, ministro da Educação, teve o desplante de proclamar que não cederia cargos sob o seu comando para saciar o apetite de políticos fisiológicos. Deu a entender que se fosse obrigado a fazer isso, iria embora. Pelo visto, alguém lhe deu um toque e Weintraub recuou. O cargo de diretor de Ações Educacionais passará a ser ocupado por um nome indicado pelo Partido Liberal (PL).

A diretoria de Ações Educacionais é responsável por alguns dos programas mais importantes do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Tem um orçamento de mais de R$ 50 bilhões. Cuida da compra de livros didáticos, merenda e transporte escolar. O PL indicou um nome sem nenhuma experiência na área de educação – o advogado Garigham Amarante Pinto, ex-assessor do deputado Wellington Roberto, líder do partido, que por sua vez.

Wellington Roberto é o homem de confiança de Valdemar Costa Neto, ex-presidente do partido, mas, na prática, o dono do PL. Costa Neto ganhou fama quando vendeu por R$ 6 milhões o apoio do partido à eleição de Lula para presidente em 2002. A fama cresceu quando ele foi condenado e preso no caso do mensalão do PT. Da Penitenciária da Papuda, em Brasília, continuou mandando no partido e negociou cargos com Dilma Rousseff.

Melhor para os bolsonaristas já irem se acostumando. Para o bem de Bolsonaro e dos seus filhos, o leilão de cargos está mal começando.

Militares no poder

No mesmo dia em que chegamos ao trágico recorde de mil mortes por dia devido à Covid-19, nada mais exemplar da militarização do governo Bolsonaro do que o General Eduardo Pazuello, exercendo a função de ministro interino da Saúde, ter assinado o novo protocolo que autoriza a utilização da cloroquina no tratamento inicial da doença. 

Uma decisão polêmica, que não possui suporte técnico de credibilidade para ser adotada. A cloroquina provoca efeitos colaterais graves, como arritmias que podem ser fatais, e não se mostrou eficaz em vários testes já realizados em diversas partes do mundo. 

O General Pazuello assumir a responsabilidade de autorizar prescrições médicas temerárias demonstra que as vontades do presidente Bolsonaro já não têm barreiras para contê-las, mesmo perigosas. 


Por mais competente que o General seja na questão de logística, o que justificou sua chegada ao ministério na gestão de Nelson Teich, não é sério um país que coloca um leigo em seu ministério da Saúde para fazer o que dois ministros técnicos da área se recusaram a fazer por motivos éticos, no momento em que vivemos a maior pandemia em um século. 

Para corroborar a ideia de que os militares aderiram sem restrições à marcha da insensatez de Bolsonaro, o General de Exército Luiz Eduardo Ramos, que ocupa a chefia da Secretaria de Governo, participou da manifestação de domingo na rampa do Palácio do Planalto, e teve o braço levantado para a aglomeração pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, assumindo a condição de político, embora seja um general da ativa. 

Nada menos que 2.897 militares integravam em março o governo Bolsonaro, dos três ramos das Forças Armadas, número que pode ter crescido exponencialmente, como o de infectados pela Covid-19, pois somente ontem o General Pazuello levou nove militares para trabalharem com ele no ministério da Saúde. 

O presidente Bolsonaro não dá a impressão de que tenha um nome para indicar para a Saúde, pois os que são especulados trariam para o governo uma dose a mais de insensatez ideológica talvez exagerada, principalmente quando temos uma crise tripla na saúde, na economia e na política. 

A mesma militarização ocorre nos segundo e terceiro escalões dos demais ministérios, especialmente nos oito em que militares estão à frente. A presença de militares no governo encontra ainda um problema administrativo sério no que se refere ao salário. 

O limite para vencimentos dos servidores públicos é de R$ 39 mil, e o ministério da Defesa reivindica que o teto constitucional seja aplicado separadamente sobre os rendimentos daqueles que recebem, além do salário de carreira, uma gratificação pela função que exercem. 

Esse acúmulo de salários encontrou respaldo na Advocacia-Geral da União (AGU), alegando que há precedentes nos poderes Legislativo e Judiciário e, portanto, "a partir de seus efeitos no Poder Executivo”, seria mantida a isonomia entre os poderes. A reivindicação foi suspensa com a chegada da pandemia, mas está no ar a discussão. 

Há indicações de que o presidente Bolsonaro gostaria de manter o General Pazuello no ministério, mas encontra resistência entre seus conselheiros militares, que temem que a crise da Covid-19 caia no colo dos militares caso isso aconteça. Uma preocupação despicienda depois de tudo o que está acontecendo, na área e fora dela. 

Os militares sempre defenderam a tese de que não existem ministros militares, mas ministros que têm origem militar, assim como outros são engenheiros, advogados, ou mesmo políticos. Mas o fato de que, assim como o PT aparelhou o governo nos seus 15 anos com sindicalistas e políticos fisiológicos do centrão, Bolsonaro esta aparelhando o seu com o mesmo tipo de políticos e militares, e eles não podem mais se escusar de fazer parte de um governo populista de baixa qualidade técnica e moral.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Luto

Quem cala sobre teu corpo Consente na tua morte *

Ana, Anete, Anita, Alex, Amanda, Anselmo, Alexandre, Antonia, Adriano, Adriana, Antonio, Alice, Benedito, Bento, Berenice, Benício, Bruna, Bernardo, Bernadete, Cesar, Carla, Chico, Carmem, Carmela, Cleonice, Celso, Catia, Carlos, Davi, Dito, Diva, Dimas, Denilson, Domingos, Domingas, Elias, Elenice, Élio, Eduardo, Eva, Elmano, Francisco, Fernando, Fabrício, Fernanda, Fabio, Felipe, Gloria, Geisa, Gabriel, Gerusa, Gelci, Genésio, Gabriela, Gilson, Genário, Gelci, Gentil, Gilson, Guilherme, Guilermina, Homero, Hilton, Hélio, Helena, Horácio, Hilda, Hilma, Inácio, Ilda, Inocêncio, Isabel, Isabela, Ingride, Iracema, João, Joana, Juca, Julia, Joca, Janaína, Juliana, Janete, Jose, Jane, Josiane, Jorge, Katia, Kelson, Karina, Kleber, Karem, Kelma, Kito, Lena, Lenildo, Lorena, Laís, Lindauro, Letícia, Leandro, Luciana, Lino, Laerte, Lélio, Lana, Liana, Lívio, Lomanto, Lineu, Lúcia, Lucas, Lúcio, Lorena, Maria, Moises, Mario, Marcio, Marcia, Marina, Malvino, Mateus, Maicon, Marcelo, Marcela, Miriam, Martin, Milton, Marlene, Marluce, Miranda, Norma, Nelma, Nina, Nilton, Nair, Nilson, Nélio, Nélia, Noilton, Omar, Olivia, Orlando, Olga, Otávio, Odete, Orácio, Olinda, Orfeu, Orfélia, Olímpia, Orlando, Otília, Olímpio, Paulo, Patrícia, Paloma, Pedro, Paula, Pietra, Pablo, Penha, Patric, Pascoal, Paulina, Péricles, Policarpo, Pompeia, Porfírio, Quincas, Queila, Quintino, Quésia, Quitéria, Quim, Regina, Regis, Ricardo, Rita, Renan, Rose, Rosilda, Rui, Renata, Raul, Rute, Rosa, Raimundo, Romero, Raimunda, Rodolfo, Rosangela, Romulo, Ricardo, Ricardina, Romário, Sandra, Sergio, Santana, Samara, Sueli, Saulo, Sofia, Selena, Silvio, Silvana, Siron, Selma, Santino, Telma, Teresa, Stela, Sidnei, Solange, Tadeu, Teresinha, Terêncio, Talita, Tato, Tide, Uriel, Ursula, Ulisses, Ully, Ubiratan, Ubirajara, Uda, Uziel, Vania, Valdomiro, Valéria, Valêncio, Valdo, Valmira, Vinicius, Valentina, Vitor, Viviane, Vicente, Vitória, Valdir, Verônica, Vanderlei, Vivian, Vagner, Vera, Valter, Wilma, Willian, Wanda, Warner, Walquíria, Welington, Walesca, Wallace, Winie, Washington, Xande, Ximena, Xavier, Xenia, Yago, Yasmim, Yan, Yara, Youssef, Yolanda, Yves, Yoko, Zion, Zara, Zaqueu, Zoé, Zeca, Zilda, Zacarias, Zélia, Zulmira, Zaki, Zuleide.

São nomes, alguns nomes, das 16.792 vitimas brasileiras do covid 19. Gente de todas as idades, de todos os estados e DF. Entre eles, médicos, enfermeiros e auxiliares da luta contra a pandemia. Por todos choram pais, mães, irmãos, irmãs, filhas, filhos, amigos, amigas, maridos, mulheres, vizinhos, colegas, companheiros. Choramos nós.


Passamos de 250 mil infectados-diagnosticados.

O Brasil é terceiro do mundo em números da doença. Desde sexta-feira, 15, o Ministério da Saúde é mula sem cabeça – desembestada e sem ministro. Em plena e dura pandemia.

E daí? Diz JMessias, o perverso, enquanto procura alguém que, a ferro ou tiro, reze na sua receita única: a cloroquina.

Aliados pegam o boné e vazam. Jair é dose! E, escapando, vazam histórias nada republicanas, de palavreado impublicável, do mitômono que se empenharam em eleger.

Jair tomou pra si a PF. Foi claro. Não esperaria “foder minha família toda de sacanagem”. Dito assim mesmo em reunião ministerial.

É esse vosso presidente da república. Em minúsculas mesmo.

Notícias do Queiroz?

Brasil, 19 de maio de 2020.

Quem cala morre contigo Mais morto que estás agora *
Tânia Fusco
(*Versos da música Menino, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos/1976)

A crise em câmera lenta

Quem assistiu ao vídeo da reunião ministerial de 22 de abril pôde confirmar: o governo resolveu preencher com palavras o vazio de ideias sobre a crise humanitária.

Morreram mais de 16 mil pessoas até ontem. São 1.105% mais vítimas do que o país possuía apenas um mês atrás. É como se, em quatro semanas, houvesse desaparecido a população inteira de cidades do tamanho de Sumidouro, no Rio, Pindorama, em São Paulo, ou Canudos, na Bahia.

As cenas gravadas são de inusual crueza. O Planalto surge como centro de um pandemônio político na pandemia. Bolsonaro e alguns ministros se desqualificam em atmosfera de vulgaridades, incapazes de discernir entre a realidade e a fantasia autoritária. Confirmam a ironia do vice Hamilton Mourão: “Está tudo sob controle... só não se sabe de quem.”


O vídeo contém fragmentos de um processo de suicídio político, em câmera lenta. É parte do mosaico de autoflagelo que justifica pressões crescentes, hoje materializadas em três dezenas de pedidos de impeachment. Elas aguardam decisão do presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Há pedido no STF para impor à Câmara uma rápida resolução dos requerimentos sobre o impedimento de Bolsonaro. O Supremo vai decidir sobre o tempo de Maia para aceitar ou recusar. O caso é relatado pelo juiz Celso de Mello e tem desfecho previsto para esta semana. Maia alegou que não há prazo regimental, mas especialistas acham que o tribunal tende a reconhecer o direito de petição, e a obrigação de resposta diligente do servidor público.

A construção do impedimento está se tornando fato político, a despeito da decisão do procurador-geral sobre eventual crime de responsabilidade ou de Maia rejeitar os atuais pedidos de impeachment.

É impossível prever o desfecho, mas Bolsonaro percebeu o quanto já aumentou o custo da sua permanência no poder. Ontem entregou ao grupo de Valdemar Costa Neto, do PL, notório ex-presidiário do mensalão, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), onde se gasta por ano o equivalente a 20% do orçamento do Ministério da Saúde.

'Eles' são a Força

Pela Constituição, se houver conflito entre os Poderes e um deles recorrer às Forças Armadas, quem repõe a lei e a ordem são elas
Ives Gandra Martins

O Brasil já vive ditadura branda?

A cada dia que passa, o Brasil acorda com a sensação de que, mais do que uma democracia, vive uma ditadura branda. Eu a chamo de branda porque o presidente Jair Bolsonaro foi eleito nas urnas e porque, teoricamente, as instituições continuam formalmente de pé. Mas não restam dúvidas de que o país tem cada dia mais a sensação de que tais instituições, como o Congresso e o Supremo, estão sitiadas pelas decisões autoritárias do presidente e pelas contínuas ameaças contra elas nas redes sociais.

A mudança aparente demonstrada no domingo pelo presidente durante a manifestação a seu favor na Esplanada dos Ministérios em Brasília, fazendo elogios à democracia e pedindo o respeito às instituições do Estado, cercado por 11 de seus ministros, foi somente uma estratégia no momento em que se vê assediado por vários processos que podem fazer com que perca o cargo. É a sua tática bem conhecida de dar um passo atrás e dois à frente em seus propósitos de escalada autoritária.

É possível dizer que por enquanto se trata somente de ameaças de Bolsonaro e suas hostes à democracia, ainda que algumas vezes já apareceram claramente as linhas de um regime ditatorial. Que existe o temor de que Bolsonaro prepare um golpe institucional apoiado pelos militares, revela o documento publicado no domingo por seis ex-ministros da Defesa no qual lembram as Forças Armadas de que elas devem fidelidade à Constituição e que “somente podem ser chamadas por algum dos Poderes constituídos para manter a ordem no caso de anarquia”. O medo está nas ruas.

Quando, por exemplo, em pleno Conselho de Estado no dia 22 de abril, do qual vários ministros generais do Exército participavam, o presidente ameaçou mandar os militares às ruas; quando o ministro da Educação, Abraham Weintraub, pode se permitir dizer impunemente, na mencionada reunião, que os 11 membros do Supremo Tribunal Federal são outros tantos “filhos da puta que deveriam ser presos”, e quando a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, pede abertamente que os governadores também sejam presos, sem que nenhum dos presentes intervenha para dizer que isso era uma barbaridade, a democracia está quebrada.

O presidente se empenha em sustentar uma política eugenista, para não dizer genocida, em relação à epidemia de coronavírus que está custando milhares de vidas. Não somente ataca o senso científico universal de combater a tragédia, como dá a entender que pouco importa que morram os idosos e os que já possuem alguma doença crônica. Parece que para ele só têm direito à vida as forças do trabalho. A economia, para ele, é mais importante do que a vida de milhares de inocentes.

Já antes de ser presidente, Bolsonaro havia afirmado, como lembrou em sua coluna de sábado em O Globo o membro da Academia Brasileira de Letras Merval Pereira: “Eu sou capitão do Exército. Minha especialidade é matar, não é curar ninguém”. Por isso sua paixão pelas armas. Quando as exibe e as acaricia são, de fato, as poucas vezes em que é visto rindo às gargalhadas. De prazer?

Quando é o presidente que provoca a autoridade de seu próprio ministro da Saúde, infringindo descaradamente as normas de prevenção impostas à população para deter a hemorragia da epidemia, e até incita a desobediência, a democracia está em perigo. Dessa maneira se explica que em menos de um mês e em plena escalada da epidemia precisaram deixar seu cargo dois ministros da Saúde, ambos médicos, diante da impossibilidade de aceitar o comando suicida do presidente.

Bolsonaro zomba da democracia quando uma corte de empresários e lobistas se apresenta sem aviso prévio no Supremo exigindo um encontro com o presidente do tribunal e é Bolsonaro quem faz as exigências no encontro.

E quando, em um regime democrático, o presidente insulta em público os jornalistas, ameaça punir os veículos de comunicação, jornais e redes de televisão retirando a licença e a publicidade oficial e incentivando que os empresários façam o mesmo? E quando insiste em afirmar “a Constituição sou eu” e quem manda no país é ele, como se o restante das instituições do Estado devesse estar às suas ordens?

O presidente, capitão reformado (ou expulso?) do Exército, tem uma característica psicológica que o assemelha aos garotos teimosos que quando levam bronca sabem dar um passo atrás para imediatamente dar dois à frente. Acabam sempre conseguindo o que querem. Dizem que também é uma característica de alguns loucos.

Hoje sabemos que é possível instaurar um regime ditatorial apesar da passagem pelas urnas. Temos exemplos aqui mesmo na América do Sul, como no caso da Venezuela, onde o presidente Nicolás Maduro foi eleito e acabou instaurando um regime de ditadura com a cumplicidade do Exército. Bolsonaro não precisa da cumplicidade dos militares já que os tem, às centenas, no Governo e nas outras esferas do Estado. Que segurança oferece o presidente capitão reformado de que em determinado momento não poderá convencer o Exército de que o Brasil sofre de excesso de democracia e que seria melhor cortar as liberdades?

Um presidente que antes de cumprir os dois anos de seu mandato se vê rechaçado pela maioria da mesma população de quem recebeu o voto e que se refugia cada vez mais em um grupo minoritário alimentado com suas saídas antidemocráticas, seu fanatismo de ver fantasmas de esquerda até debaixo da cama e sua tática de atiçar a política do ódio e a mania de perseguição não pode deixar de ser um perigo à democracia.

E para que não falte nada à sua tática autoritária e violenta começam a aparecer cada dia mais aguerridas suas milícias de triste memória nazifascista que exigem abertamente a morte da democracia. E já não se conformam com as palavras de ordem contra as liberdades democráticas e suas instituições e usam a força bruta para agredir seus opositores no melhor estilo fascista.

E se tudo isso é grave e começa a preocupar internacionalmente e pode ser um freio para que as empresas possam investir no país pelo temor de uma ruptura constitucional, não é menos grave que as instituições do Estado que deveriam e poderiam parar essa tentação totalitária do presidente, como o Congresso e o Supremo, pareçam perplexas, para não dizer amedrontadas, diante de suas bravatas e ameaças. Se o começo é alegando prudência diante das ameaças, o final é de joelhos humilhado diante do tirano em vez de ter a coragem de afirmar: “Daqui não se passa”. Este é o limite sagrado da democracia.

Dormem no Congresso, de fato, mais de 20 pedidos de impeachment contra o presidente sem que sejam encaminhados com a desculpa de que se trataria de um procedimento muito lento e desgastante. Enquanto isso, o Supremo se blinda em que não pode agir sem a autorização do Legislativo. Tudo isso tem um nome: é medo, se não for cumplicidade, já que todos sabem, porque já é clamor majoritário no país, que Bolsonaro já não representa a vontade da maioria.

Contra o bolsonarismo e sua parafernália de ódio à democracia também existe a evidência do engano feito na campanha eleitoral vencida pelo capitão brandindo três bandeiras de renovação nacional que acabaram imediatamente sacrificadas no altar da pior das políticas. Bolsonaro e os seus prometeram à época acabar com a corrupção que a Lava Jato havia começado a revelar e combatido com firmeza. Prometeram acabar com o conceito da “velha política” que humilhava a essência da democracia dobrando-a aos interesses de grupos e personagens do mundo político e até judicial. Contra ela propunham fortificar a luta contra as velhas práticas corruptas de governar, assim como prometiam à nação “menos Brasília e mais Brasil”, ou seja, uma economia com menos Estado e mais aberta à livre iniciativa e à abertura ao capital estrangeiro. Para isso colocou no Governo duas estrelas, o ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro no Ministério da Justiça e o liberal Paulo Guedes, da Escola de Chicago, na Economia.

O novo Governo não demorou para revelar sua mentira. Em poucos meses queimou suas três bandeiras e colocou em marcha uma perseguição aos valores democráticos, revelando-se como um dos Governos não só alterados como de traição a todas suas promessas. O Brasil foi enganado e hoje paga duramente por aquela mentira.

Nem sempre na História as ditaduras foram impostas com um golpe de Estado e uma aberta ruptura institucional. Há muitas formas de assassinar a democracia e uma delas é a da tática que o presidente do Brasil está usando de amedrontar as instituições, aguçando os instintos de violência de minorias ideológicas extremistas que lhe servem de pavio para provocar o incêndio. Puro itinerário fascista mussoliniano.

Assim como uma pessoa pode ser assassinada de muitas formas, seja com as armas ou com a fome, a democracia também pode acabar sacrificada com a tática de minar suas instituições com o medo e com a violência. O resultado é sempre o mesmo: mais pobreza, menos liberdade, mais luz verde aos violentos, mais isolamento internacional, mais desprezo pela vida e o assassinato de tudo o que cheirar a cultura, a ciência, a defesa dos direitos humanos.

Os ditadores e aprendizes a tais costumam ter também um mesmo denominador comum que é uma fome e sede especiais pela religião. Não por seus valores de liberdade e sim por seus métodos de adormecer e atemorizar as consciências. E Bolsonaro, para não ficar para trás, já começou colocando Deus “acima de todos”. Mas um Deus que hoje se revela cúmplice de suas loucuras totalitárias, não o Deus da liberdade e da paixão pelo humano e pelos excluídos, pelos mansos de coração e não pelos violentos.

É isso o que se quer para o Brasil? Então o que esperam as outras instituições, os líderes democráticos, os que lutaram por um país livre? Dormir sobre as conquistas quando a bocarra da fera começa a mostrar seus dentes pode ser fatal. Cada dia de espera e de trégua às ameaças contra a democracia pode significar assinar a sentença de uma viagem sem volta à tirania.

Brasil autoritário sempre esconde seus mortos


O livro que (quase) mata a charada

A internet, sinônimo de participação, é o instrumento de uma revolução democrática destinada a arrancar o poder das mãos de uma casta de profissionais da política e entregá-lo ao homem comum ou é, antes de tudo, um instrumento de controle, vetor de uma revolução a partir do topo que capta uma quantidade enorme de dados a fim de utilizá-los para fins políticos?

É nessa segunda internet e nos personagens que primeiro a entenderam e usaram como tal que se concentra “Os engenheiros do caos” de Giuliano da Empoli, um livro imprescindível para se entender o Brasil e o mundo de hoje.

Com intuições brilhantes sobre a natureza humana, a internet e a democracia na era do narcisismo de massa ele mergulha nos bastidores das campanhas que elegeram (Obama), Donald Trump, Boris Johnson, Matteo Salvini, Bibi Netanyahu e Viktor Orbán deslocando a luta pela conquista de votos, “da tentativa de unir eleitores em torno de um denominador comum numa lógica que tendia a marginalizar os extremistas do passado, para a arte de inflamar paixões no maior numero possível de grupelhos que valoriza e põe os extremistas no centro do processo de hoje”. (Bolsonaro é só uma menção pois o livro é de dezembro de 2019).


Os cientistas de dados, mesmo usando só as chaves classificatórias do Facebook e similares, conseguem operacionalizar campanhas com milhares de grupos sendo bombardeados por mensagens personalizadas até contraditórias entre si, sem que os “alvos” jamais fiquem sabendo o que têm em comum com os demais apoiadores dos “seus” candidatos. A campanha do Brexit, por exemplo, foi feita com o disparo de bilhões de mensagens sob medida: para os animalistas, uma sobre as regulamentações europeias que ameaçam os direitos dos animais; para os caçadores, sobre as regulamentações europeias que, ao contrário, protegem os animais; para os libertários, mensagens sobre o peso da burocracia de Bruxelas; para os estatistas, sobre os recursos desviados do estado de bem-estar para a União, e assim por diante…

A coisa começa na Itália, “o Vale do Silício do populismo”. É do vazio da morte da velha política pela Operação Mãos Limpas que surge Gianroberto Casaleggio, “mistura de John Lennon pós-moderno com a cibercultura californiana” que, com o país procurando algo novo, é o primeiro a abrir a porta para a ação politica radical por fora dos partidos e do parlamento, “esse monumento aos mortos”, com o site do Movimento 5 Estrelas, “uma ideia a procura de quem a encarnasse”. Ele arma de algoritmos a exploração do “sentimento de raiva que atravessa todas as sociedades, alimentado por aqueles que pensam ter sido lesados, excluídos, discriminados ou insuficientemente ouvidos”. E para sua surpresa quem virá a encarná-la são outsiders histriônicos cuja estrela sobe tanto mais vertiginosamente quanto mais “incorretas” e iconoclastas são suas manifestações e o escândalo com elas do establishment e da mídia tradicional, que “cai em todas as suas provocações”.

O refino da fórmula da-se com a parceria de Steve Bannon e Andrew Breitbart, jornalista para quem “o establishment americano está impregnado de uma cultura progressista hipócrita e elitista que se apoia no Democrat Media Complex para traçar as fronteiras do justo e do injusto, do dizível e do indizível, pautar o discurso publico e perseguir ferozmente os hereges”.

“The Donald”, com sua longa experiência de televisão, logo se dá conta de que as eleições americanas são “um reality show cheio de maus atores” e, com seu talento midiático, o slogan “Deixe-me ser o porta-voz da sua ira” e uma absoluta falta de cerimônia para com “todos quantos se orientam pelas preocupações do New York Times com os banheiros transgênero e os casamentos homossexuais, operou o milagre de fazer de um bilionário novaiorquino a voz dos excluídos de todos os 44 estados americanos que não são banhados nem pelo Pacífico, nem pelo Atlântico”.

Empoli enxerga as afinidades eletivas perfeitas entre o mundo das redes e alguma forma de democracia direta, e tem todas as razões do mundo para temer esta generalista, violenta e sem filtros, que entidades como o Movimento 5 Estrelas quer impor e tem os mesmos vícios que a que o PT tentou nos enfiar goela abaixo diversas vezes durante o reinado da dinastia Lula.

Como quase toda a geração dos que viveram sob a hegemonia ininterrupta da esquerda nos últimos 100 anos, Empoli parece não ter nenhuma visibilidade do sistema de democracia semi-direta sólida e transparentemente ancorada na vontade popular, defendida de eventuais pendores autoritários pela pulverização do poder proporcionada pelo sistema de eleição distrital pura que se pratica nos Estados Unidos desde a virada do século 19 para o 20. Não há dúvida que a vida conectada levará a algum modelo de democracia mais direta no futuro imediato. Mas para todos quantos souberem escolher a boa não há nada a temer. Liberados de uma politica que hoje é bandalha porque pode, se estarão habilitando, ao ganhar o poder de mandar nela, a dar o mesmo salto espetacular que os Estados Unidos deram no século 20 tanto em matéria de liberdade quanto de afluência material.

Mais 170 mil brasileiros entraram para a pobreza extrema em 2019

O grupo de pessoas em pobreza extrema no Brasil, que inclui os que vivem com menos de 1,9 dólar por dia, ganhou cerca de 170 mil novos integrantes em 2019 e encerrou o ano passado com 13,8 milhões de pessoas, o equivalente a 6,7% da população do país. É o quinto ano seguido no qual o número de brasileiros na miséria cresce.

Essa piora no grupo dos mais desassistidos ocorreu apesar de uma pequena melhora na renda média dos brasileiros e de uma ligeira redução da desigualdade no primeiro ano do governo Bolsonaro. Esse retrato do Brasil pré-pandemia da covid-19 foi divulgado pelo IBGE no início deste mês, por meio da Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD) Contínua de 2019.

O país manteve o padrão da recuperação da crise de 2015 que vinha sido observado nos últimos anos, de cima para baixo: primeiros os mais ricos ampliam sua renda, depois a classe média e, por último, os mais pobres.

No ano passado, foi a vez de a classe média ter os maiores avanços médios da renda apurada pela PNAD. Por isso, a desigualdade de renda medida pelo índice de Gini caiu um pouco, pontuando 0,542 em 2019, contra 0,545 do ano anterior – quanto mais próximo de zero o índice, maior a igualdade.

Foi a primeira redução na desigualdade de renda desde 2015, mas, por ser tão diminuta, o IBGE considera que houve "estabilidade". A PNAD não mede ganhos financeiros e não capta de forma precisa a evolução da renda do 1% mais rico da população.


Outro aspecto positivo apontado pela pesquisa foi um pequeno aumento da renda média da população, que no ano passado alcançou 1.406 reais, 1,4% superior à do ano anterior. Mas houve desaceleração da retomada. Em 2018, a renda média havia subido 3,9% em relação a 2017.

O sociólogo Rogério Barbosa, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole da Universidade de São Paulo (USP), afirma à DW Brasil que o ano passado foi "microscopicamente melhor" que 2018 em termos de renda e desigualdade, mas que o país não fez o suficiente para combater a pobreza.

"Se olharmos somente os gráficos da renda média e da desigualdade, parece que temos uma boa notícia. Mas é importante olhar ao longo de toda a distribuição [da população]: os mais pobres continuaram perdendo em 2019, como vêm perdendo sistematicamente desde 2015", diz, apontando para uma "recessão duradoura" na base da pirâmide, que não foi totalmente superada e não será neste ano, em função da pandemia da covid-19.

O principal motivo para o aumento do número de brasileiros em pobreza extrema são deficiências na execução do Bolsa Família. Em 2019, o programa chegou a ter uma fila estimada em mais de 1 milhão de famílias que estavam aptas a receber o benefício, mas não eram incluídas pelo governo.

A esse problema se somam a redução das equipes que fazem a busca ativa de possíveis beneficiários e a ausência de reajustes anuais do benefício para repor a inflação. Além disso, o 13º benefício do Bolsa Família, pago de forma excepcional em 2019, não foi captado por essa pesquisa do IBGE.

O número de pobres que não estão em miséria extrema e vivem com mais de 1,9 dólar e menos de 5,5 dólares por dia, porém, diminuiu no ano passado para 38 milhões de pessoas, ou 18% da população. Em 2018, esse grupo representava 39,3 milhões de pessoas.

O economista Daniel Duque, pesquisador da FGV-IBRE, afirma que o número de brasileiros nesse grupo diminuiu pois uma parcela deles se beneficiou da melhora no mercado de trabalho no ano passado.

"Em 2018 já houve uma melhora no mercado de trabalho, mas que beneficiou primeiro os mais bem colocados, levando ao aumento da concentração de renda. Em 2019, os ganhos foram mais generalizados para toda a população", diz.

Outra assimetria de renda revelada pela PNAD de 2019 diz respeito às regiões do país. O Nordeste foi a única onde houve aumento de concentração de renda medida pelo Gini, que subiu de 0,545 para 0,559. No ano passado, houve na região uma perda de rendimentos de 5% entre os 10% mais pobres, enquanto o 1% mais rico teve uma alta de 14,9% em sua renda.

Um dos motivos para a alta da desigualdade no Nordeste é, novamente, o Bolsa Família. A região teve, de 2012 a 2019, a maior redução do percentual de domicílios que recebem a transferência de renda desse programa, de -6,1%.

Isso é potencializado pela maior dificuldade de a população pobre da região ter acesso à educação de qualidade, afirma o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social, centro de pesquisa dedicado ao desenvolvimento inclusivo. Segundo ele, desde a crise de 2015, o nível educacional tem peso relevante para a reinserção profissional.

No cenário geral, o Brasil segue sendo um país muito desigual. Em 2019, o 1% da população mais rica teve uma renda média de 28.659 reais por mês, 33,7 vezes superior à dos 50% mais pobres, cuja renda média mensal foi de 850 reais. No ano passado, essa relação era de 33,8 vezes.

Em meio ao quadro de melhora tímida para a classe média e de recessão prolongada para os miseráveis, o Brasil foi atingido pelo novo coronavírus e suas implicações sociais e econômicas. A projeção dos economistas consultados pela DW Brasil é de queda da renda e de aumento da desigualdade do trabalho.

Neri chama a atenção para a parcela da população que fica no meio da distribuição da renda, composta por pessoas que são pobres mas não se qualificam para receber o Bolsa Família.

"Esses são invisíveis aos olhos do estado. Após [o final] da concessão do benefícios emergenciais, serão muito afetados", afirma.

Duque afirma que a renda média irá cair "inevitavelmente" e que a desigualdade do trabalho irá "aumentar muito", mas que a desigualdade total pode não se alterar significativamente se o auxílio emergencial for prorrogado pelo governo, mesmo que para um escopo menor de pessoas.

"O auxílio tem um poder equitativo muito forte. Ele repõe e, às vezes, até mais do que repõe a renda de muitas famílias", afirma.

Bolsonaro ignora a catástrofe

O Brasil de Bolsonaro habita um mundo paralelo, um teatro do absurdo onde fatos e realidade não existem mais. Nesse universo sob tensão, nutrido por calúnias, incoerências e provocações mortíferas, a opinião é polarizada em uma nuvem espessa de ideias simples, mas falsas.
Depois de ter praticado a negação histórica do Holocausto, elogiado a ditadura, negado a existência dos incêndios na Amazônia e a gravidade da pandemia de Covid-19, Bolsonaro e sua tentação autoritária correm o risco de levar o país a uma situação perigosa
Editorial do Le Monde

Programa de aceleração do radicalismo

A saída de Teich informa que até a inexistência individual tem limites; e que mesmo um inexistente — cujo contrato para ser ministro consistia em não ser sujeito —pode ter alguma espinha dorsal.

Teich teve, afinal. Alguém se deve ter orgulhado. Não os que percebem que seus dias na pasta se somam aos outros tantos, consumidos pela batalha que resultaria na queda de Mandetta, no curso dos quais o ministério esteve paralisado; isto em meio ao totalitarismo de um vírus cuja sanha configura a peste.

A contribuição de Teich ao país seria nenhuma se o papel que aceitou cumprir não tivesse ampliado o campo a que o chefe expusesse o autoritarismo por meio do qual exerce a atividade executiva na República: o presidente que quer e que, porque quer, terá; no caso, o protocolo para utilização da hidroxicloroquina expandido a pacientes sob infecção leve.

A lacuna Teich comunica que somente Bolsonaro pode ser ministro da Saúde de Bolsonaro. A ver apenas quem — explorando nova fronteira para flexibilização de vértebras morais — lhe será o cavalo. Não é muito diferente da vontade que se move para interferir na PF. A saída de Moro comunicou que somente Bolsonaro poderia ser a polícia política de Bolsonaro.

Repito: o presidente está trocando de pele, inaugurando um governo que se liberta da carcaça narrativa eleitoral, num processo de radicalização acelerado pela janela de oportunidades escancarada pela Covid-19. Há também, insisto, a mudança de base social: a aposta bolsonarista em compensar a perda de apoio na classe média com a conquista das camadas populares.


Dos pilares artificiais que tornaram Bolsonaro persona eleitoral consumível só resta o liberalismo econômico guedista; o que avaliou ser possível, em nome das reformas, liquefazer a coluna vertebral do liberalismo político para se associar ao populismo autocrático bolsonarista — um projeto de poder reacionário de pulsão para a ruptura, revolucionário mesmo, comandado por um elemento que é o centro gerador de conflitos e cujo palácio, um sindicato de servidores públicos, está fundamentado em variáveis daquilo em que ele mesmo, o presidente, consiste: um militante de interesses corporativos.

Já era um arranjo de sucesso improvável em tempos de paz — esse entre reformas liberais e desestabilizações bolsonaristas. O que dizer de agora, e doravante, com o vento virado?

Bolsonaro é instabilidade. Se há crise, ele será o multiplicador de imprevisibilidade. Reagirá radicalizando. É o que está em curso. O vento virou — e é vento que lhe enche a vela e o impulsiona a ser plenamente o que é. Em matéria econômica, para tornar Guedes e o que representa prescindíveis (antes do esperado).

O Bolsa Jair já se espraia, a própria âncora da mudança de base social, alcançando milhões de brasileiros pobres, muitos dos quais até então invisíveis ao Estado, inclusive no Nordeste, onde o presidente não conseguia penetrar. São milhões de outrora inexistentes incorporados por um programa de auxílio emergencial — milhões também de novos títulos de eleitor mapeados pelo surgimento de uma ajuda, a do Jair, temporária. Temporária?

A tentação é grande, e o mar puxa para o afogamento do teto de gastos.

O vento virado — para o projeto liberal guedista — é o que traz uma nova convenção social, que descarta o pacto por austeridade fiscal em prol da demanda por que o Estado injete dinheiro na economia e sustente artificialmente o setor produtivo e aqueles cuja parca renda foi aterrada. O milagre bolsonarista?

Há quem diga que Guedes fica por ser mais parecido com o chefe do que se gostaria de admitir. Não se trataria de elogio, a essa semelhança contribuindo a noção de democrata segundo o ministro, capaz de abranger até o presidente. Guedes vai ficando. Sua agenda, porém, comprometida. Talvez fatalmente. A favor de sua permanência, ainda que de norte fulminado, pesando a avaliação de que Bolsonaro não poderia se dar ao luxo de perder — hoje — esse derradeiro estribo de credibilidade narrativa. Que usa bem.

Penso na reunião virtual havida, na quinta última, com um grupo de empresários graúdos. A repercussão jornalística da conversa definiu-a como desprovida de propostas da parte do presidente; um erro de leitura grave. A proposta houve — e claríssima, doutorada pela presença de Guedes: para que aqueles cidadãos enfrentassem, em guerra, as medidas restritivas decretadas, particularmente, por João Doria. O presidente pregando a desobediência civil.

Avalizada pela ciência de Guedes, a proposta de Bolsonaro para a crise — um plano de enfrentamento do enfrentamento à pandemia — nem sequer vagamente tem a reação da economia como centro de preocupação; mas o estímulo à reação de grupos de pressão, que vão dos caminhoneiros aos donos das cargas, passando por milicianos dentro das polícias, contra os decretos dos governadores.

Está acelerado. Vai piorar. Dá-lhe lustro quem concorda.