Quando Bolsonaro aciona a boca, não liga o cérebroJorge Kajuru, senador (Cidadania-GO)
sexta-feira, 10 de abril de 2020
A engenharia do Jair
Com a crise sanitária deu-se por completada a obra de desconstrução da força política, da influência social e da autoridade moral da Presidência da República, cujo engenheiro atende pelo nome de Jair Bolsonaro. Está certo quando enxerga uma onda gigantesca de rejeição a ele, mas demonstra não compreender a razão quando delira imaginando que isso ocorra por seus méritos, pois tal reação acontece devido à terra arrasada que semeou em torno de si neste um ano e poucos meses de atuação desgovernada.
A situação talvez não estivesse no estágio de degradação a que chegou se Bolsonaro não tivesse dizimado seu capital político e explodido pontes de convivência institucional com coisas inúteis. Gastou patrimônio antes do tempo e, hoje, em plena crise de saúde pública, quando mais precisaria de âncoras de sustentação, está zerado: isolado, sem diálogo, desmoralizado, desautorizado, desacreditado.

Operando num mundo onde a lógica não tem vez, o presidente semeia a discórdia desde os primórdios de sua gestão. Não se deu ao respeito e ainda se dá ao direito de desrespeitar a tudo e a todos que vê como obstáculos ao exercício do mando. Por essa visão distorcida do que sejam atributos de um governante, Bolsonaro acabou perdendo o poder de comando.
É hoje um tutelado. Não traduz a realidade de maneira correta a atribuição dessa tutela aos militares que o cercam. Vai muito além: inclui o Judiciário na representação do Supremo Tribunal Federal, o Legislativo nas figuras dos presidentes da Câmara e do Senado, as unidades da federação nas pessoas de governadores e prefeitos, a insatisfação da sociedade retratada na imprensa, a diplomacia avessa aos ditames da cúpula do Itamaraty, entidades civis e parte significativa do universo religioso, entre outros setores que têm barrado iniciativas de Bolsonaro, sejam elas autoritárias ou contrárias à ciência.
Embora não tenha condições objetivas de provocar retrocessos irremediáveis como temiam alguns, o presidente causa um mal enorme ao país ao se posicionar como fator de instabilidade, obrigando a todo momento a uma mobilização de forças para contê-lo. Energia que deveria ser direcionada para o que de fato importa.
Se esse homem que ora desgoverna o Brasil tem consciência da própria responsabilidade pela armadilha na qual se encontra prisioneiro é uma incógnita, embora já não seja mistério para ninguém seu medo de perder o cargo antes do tempo regulamentar.
Mostram isso as constantes reafirmações autorreferidas de poder. Isso, em público. No particular já foi bem explícito a dois ministros do Supremo que, antes da crise atual, cada qual numa situação diferente, ouviram dele a aflitiva indagação: “Você acha que eu termino o mandato?”. Perplexos e constrangidos, calados ficaram.
Chegada do coronavírus ameaça terras indígenas
Ontem, o ministro Luiz Henrique Mandetta disse que o governo tem “extrema preocupação” com o assunto. Os indígenas tentam se proteger como podem, mas reclamam da falta de assistência e da presença de invasores em suas terras.
“Estamos muito apreensivos”, diz Paulo Tupiniquim, coordenador da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Ele conta que a ordem da Funai para proibir a entrada em terras indígenas tem sido desrespeitada. “Em algumas áreas, a presença de madeireiros e garimpeiros aumentou na epidemia.”

O sanitarista Douglas Rodrigues, da Unifesp, diz que a falta de saneamento e o modo de vida dos índios tendem a aumentar a transmissibilidade do vírus. O compartilhamento de utensílios e as moradias coletivas inviabilizam a adoção das medidas de isolamento indicadas à população urbana.
“Ainda não sabemos qual será a letalidade do coronavírus entre os índios, mas o cenário é o pior possível. As ações do governo estão muito aquém do necessário para enfrentar a doença. O que mais assusta é a precariedade do sistema de saúde”, diz o professor, que trabalha em aldeias desde 1981.
O conceito de grupo de risco usado nas cidades também pode não se aplicar aos indígenas. O pesquisador Antonio Oviedo, do Instituto Socioambiental, lembra que muitas aldeias registram alta incidência de anemia e desnutrição entre jovens. As queimadas também causam problemas respiratórios em todas as faixas etárias.
A Secretaria de Saúde Indígena confirmou ontem a contaminação de um ianomâmi de 15 anos em Roraima. O adolescente foi levado para Boa Vista e está internado em estado grave. O órgão contabiliza outros cinco casos de coronavírus em terras demarcadas. Fora delas, já foram registradas ao menos duas mortes de indígenas, em Manaus (AM) e Santarém (PA).
Louco da caneta
“Quem é aquele enfezadinho, naquele cercadinho, que anda com uma grossa caneta na mão, dizendo te demito?”.
“Ah! Figura nova, veio do longínquo 2020, hoje muito popular nos manicômios. Antigamente existia o Napoleão. Agora é o pô, sou presidente. Com a caneta, ameaça demitir todos os psiquiatras, visitantes e residentes.”

Em casa, desafio Marcia, minha mulher:
“Sem olhar no celular diga que dia é hoje?”.
Marcia pensa, arrisca:
“Sexta-feira”.
“Como acertou?”
“Semana passada, fiz compras para uma semana e era sexta-feira. Então? E amanhã então é sábado, maravilha.”
“Maravilha por quê.”
“Não teremos o que fazer.”
“Mas faz 15 dias que não temos o que fazer, o que fazemos é por nossa conta, você dá retoques em um projeto, eu esboço um texto, você vê um filme, eu mergulho em A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, além do lindo livro de Marina Colasanti, que acabou de sair, Mais Longa Vida. Sem esquecer Wisnik, Dentro do Nevoeiro. Belo título para os dias de hoje.
Wisnik, vejam só, décadas atrás, eu um insensato, tive um arranca-rabo injusto com ele, que até hoje me envergonha. Não ter o que fazer? Loucura. É só querer que tem. Na verdade, temos feito muito, mas achamos que não estamos “fazendo” nada. Põe a mesa, tira a mesa. Faxina no quarto, no banheiro. Mais tarde na sala e no quarto. Leva o lixo para baixo. Você acaba de arrumar cozinha, já tem outra à espera. E as roupas para lavar. Passar? Para quê? Não vamos sair. Amassado é moda, assim como jovens andam rasgados. E minha mãe que não me deixava sair de casa, aos 20 anos, se o vinco da calça não estivesse perfeito? Hoje, ao menos, não têm mais meias para cerzir. Falando em meias, e o comovente gesto de Liliana Aufiero, convocando todos os funcionários da Lupo e adaptando máquinas para fazer máscaras e doar? Eta Araraquara! E os Trajanos, do Magazine Luiza, dizendo: “Temos dinheiro para aguentar a crise”, enquanto muitos choram e mamam? Eta! E tira o pó, e tira o pó, e faz e repete, faz e repete, faz e repete, bate uma vitamina, bate um bolo, faz um mexidinho, e lava e desinfeta, lava e desinfeta. Maçanetas, trincos, botões de elevador, tudo que é tocado pela mão humana se torna maldito.
Porteiro chama: “Chegou o álcool gel”. Ele coloca no elevador, não era álcool gel, era água de coco mandada pelo meu filho Daniel. Mas a neura hoje é álcool gel.
Estamos “descobrindo o valor das domésticas, essas que superlotam a Disney, segundo o Guedes PecPecPecPecPec. O homem parece um pato grasnando. Não há declaração sem citar a PEC. Dá logo o dinheiro do povo e desgruda dessa PEC. Perdemos a contagem dos dias. Robinson Crusoe fazia uma marca com faca em árvores para cada dia que passava: foram 28 anos. No isolamento, olho a primeira página do jornal, vejo a data. Se um dia entregarem o jornal atrasado, vão me descontrolar. Também para que preciso saber o dia, todos são iguais, silenciosos, desertos? O que notamos é o ar mais puro. Antes, sair com camisa branca significava chegar em casa com o colarinho preto. Nunca vi como agora um céu tão límpido, durante o dia ou à noite.
Solidariedade e humor têm nos feito suportar o isolamento. A frase tornou-se clichê, mas deixe, vamos repetir à exaustão. Ao receber um meme, se gosto, reenvio. Quem não recebeu este, leia. Memes são como piadas, não se sabe onde nascem.
“Balanço do mês.
Taxas, pagamentos, crediários.
Boletos de banco contaminados, 14.
Sob ameaça de ter coronavírus, 9.
Mortos, 11.”
Há finais de livros e filmes que ficam para sempre em nossas mentes. A frase de Joe Brown, "Ninguém é perfeito", no filme Quanto Mais Quente Melhor é motivo de riso até hoje, passados 60 anos. Ruy Castro encerrou de modo exemplar uma crônica recente. Falando da hierarquia militar, rígida, severa, que faz o Exército ser o que é, ele comenta: “Hoje, generais batem continência para um ex-capitão expulso do Exército por indisciplina”. Há que pensar, há que pensar!
Outra foi Tati Bernardi que assim fechou sua crônica: “Vai ficar tudo bem. Eu sei que vai dar tudo certo, precisa dar. Eu tenho uma filha”. Nós todos temos, Tati. Filhas, filhos, netos, tudo. Quem tem razão é a blogueira Marli Gonçalves dentro do Chumbo Gordo, pondo o dedo na ferida: “A maior desgraça mundial hoje, além do vírus, é a ignorância, que aqui no Brasil há anos contamina nossos dias”.
Sobrevivemos. A cada dia, sento-me em uma cadeira diferente, em um lugar diferente, olho de uma janela diferente, coloco músicas que nunca ouvi, ou que fazia anos que não ouvia (Hernando’s Hideaway ou Mercado Persa), estou localizando aquela pilha de livros que comprei compulsivamente e jamais li. Dia desses, encontrei antiquíssima agenda de telefones, liguei para Daisy. Quem seria? Um homem atendeu: “Você é daqueles que, 50 anos atrás, ligavam sem parar e me infernizavam a vida?”. Era o pai ou o marido? O que fez Daisy no passado que eu não soube? Deu-me vontade de ligar para todos aqueles telefones, saber o que aconteceu com cada pessoa. Só que os números foram mudando, mudando, crescendo e as pessoas desaparecendo, assim como desaparecem os fones fixos, os orelhões e as listas telefônicas, que serviam para tudo, desde encostar a porta para que não batesse com o vento, até para marombados mostrarem sua força rasgando-as ao meio.
Tenho medo de que nos acostumemos com o confinamento. Medo de passarmos a gostar de encontros virtuais, festas virtuais, reuniões virtuais, happy hours virtuais, ida ao banheiro virtual, jejum virtual, transas virtuais, beijos virtuais, doenças virtuais, brigas virtuais, guerras virtuais, caminhadas virtuais. Cada um de nós isolado, segregado, desarticulado, afastado, insulado dentro de nós mesmos, nascendo com um celular acoplado na mão.
Quem pagará a conta da desgraça do coronavírus
Apertou a mão dos que o cumprimentaram e se disseram seus devotos. Posou com alguns deles para fotos. Mas não demorou muito por ali porque, de repente, começou a ouvir o tilintar de panelas e os gritos de “fora, Bolsonaro”. Saiu de cara fechada. Em 2018, a Asa Norte lhe deu 51% dos seus votos no segundo turno.
O presidente, à noite, fez sua tradicional live das quintas-feiras no Facebook. É o momento da semana onde sente-se mais à vontade. Não tem jornalistas à vista para incomodá-lo com perguntas embaraçosas. Fala o que quer e ninguém o contesta. Seus acompanhantes de ocasião sorriem de todas as suas tiradas.
Embora com ar sério, estava particularmente debochado. Sem citá-lo, debochou do ministro Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, que costuma repetir que médico não abandona paciente. Quer dizer com isso que em meio a uma pandemia, por mais que seja hostilizado por Bolsonaro, não pedirá demissão.
A pretexto de defender mais uma vez o uso da cloroquina contra o coronavírus, Bolsonaro disse que “médico não abandona paciente, mas paciente troca de médico”. Touché! Mandetta preferiu responder à gravação de uma conversa onde o ministro Onyx Lorenzoni e o ex-ministro Osmar Terra defendem sua demissão.
“Lavoro, lavoro, só lavoro”, comentou Mandeta. Lavoro é trabalho em italiano. É o que não falta ao ministro na medida em que o coronavírus multiplica o número de brasileiros infectados e mortos. Hoje, um novo recorde será estabelecido quando o número de mortos ultrapassar a casa dos mil.
De volta à live de Bolsonaro. Com o mesmo ar de seriedade com que deu uma estocada em Mandetta, ele debochou também da decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que o proibiu de revogar as medidas de restrição dos governadores para deter o avanço do coronavírus.
Valeu-se da decisão ainda em caráter de liminar para dizer que ela prova que ele, Bolsonaro, nada tem a ver com tais medidas. Até porque sempre se opôs a elas por considerá-las prejudiciais às pessoas que precisam circular e por fazerem mal à Economia. Se dependesse somente dele, nunca teriam sido adotadas.
Com a corrida às farmácias para a compra de cloroquina e o aumento de carros e de pessoas nas ruas das maiores cidades do país, pode-se afirmar tudo – menos que Bolsonaro esteja em isolamento social. Uma larga fatia do país, seja por ouvi-lo, seja por outras razões, está fazendo exatamente o que ele prescreveu.
Ah, mas o Congresso não quer mais conversa com ele! Ah, mas o tempo fechou para ele na Justiça! Esta semana, vários líderes e presidentes de partidos conversaram às escondidas com Bolsonaro no Palácio do Planalto. O clima na Justiça está pesado para o lado dele, mas nenhum togado recusaria um convite para conversar.
Mandetta… Mandetta não perde por esperar. A hora de Bolsonaro mandá-lo embora chegará a partir do instante em que o vírus comece a perder sua força – daqui a dois meses, talvez. Mandetta irá lavorar, lavorar para quem quiser, mas longe da Esplanada dos Ministérios, e sem horário gratuito de propaganda eleitoral.
O acerto final de contas de Bolsonaro com o país se dará quando for possível fazer um balanço do número de vidas ceifadas pelo vírus que ele chamou de “gripezinha”. Se for demasiado grande, se por aqui se repetirem cenas como as que chocaram a Itália e outros países, não haverá mais conversa que possa salvá-lo.
Democracia de coxos
A democracia brasileira me parece um coxo fugindo a um temporal. Manca, tropeça, toma chuva, enlameia-se, mas está viva ainda. Nossos políticos são (na sua maioria, é claro) inacreditavelmente inacreditáveis no seu primarismo, na sua voracidade pelo que há de mais desprezívelAdélia Prado
'Tsunami da miséria': coronavírus pode empurrar meio bilhão para a pobreza
As consequências econômicas do coronavírus podem empurrar até 500 milhões de pessoas para a pobreza. O alerta consta de um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o custo financeiro e humano da pandemia.
Por causa da crise, diz a pesquisa, o nível de pobreza em países em desenvolvimento poderia voltar a um patamar de 30 anos atrás.
Os pesquisadores usaram dados do Banco Mundial para medir os efeitos da redução dos gastos nas economias do mundo em três níveis de pobreza - U$ 1,90 (R$ 9,75), U$ 3,20 (R$ 16,40) e U$ 5,50 (R$ 28,18) por dia.
As previsões pessimistas ocorrem uma semana antes de encontros do Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e ministros de finanças do G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo).
O estudo foi escrito por especialistas da King's College London, no Reino Unido, e da Australian National University (ANU), na Austrália.
"A crise econômica será potencialmente ainda mais grave do que a crise da saúde", escreveu Christopher Hoy, da ANU.
O relatório, que estima um aumento de 400 a 600 milhões no número de pessoas em situação de pobreza em todo o mundo, diz que o potencial impacto do vírus representa um grande desafio para se cumprir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU de acabar com a pobreza até 2030.
"Nossas descobertas apontam para a importância de uma expansão substancial das redes de segurança social nos países em desenvolvimento o mais rápido possível e - de maneira mais ampla - uma atenção muito maior ao impacto da covid-19 nos países em desenvolvimento e ao que a comunidade internacional pode fazer para ajudar", afirmou Andy Sumner, do King's College London.
Quando a pandemia terminar, prevê o estudo, mais da metade da população mundial, ou 3,9 bilhões de pessoas, podem estar vivendo na pobreza.
Considerando o patamar de pobreza de U$ 5,50 (R$ 28,18) por dia, cerca de 40% dos novos pobres estariam concentrados no leste da Ásia e no Pacífico, com cerca de um terço na África Subsaariana e no sul da Ásia. A América Latina responderia por 10% desse aumento global.
No início desta semana, mais de 100 organizações internacionais pediram a suspensão dos pagamentos da dívida este ano para os países em desenvolvimento, que liberariam US$ 25 bilhões (R$ 128 billhões) em recursos para suas economias.
Por causa da crise, diz a pesquisa, o nível de pobreza em países em desenvolvimento poderia voltar a um patamar de 30 anos atrás.
Os pesquisadores usaram dados do Banco Mundial para medir os efeitos da redução dos gastos nas economias do mundo em três níveis de pobreza - U$ 1,90 (R$ 9,75), U$ 3,20 (R$ 16,40) e U$ 5,50 (R$ 28,18) por dia.
As previsões pessimistas ocorrem uma semana antes de encontros do Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e ministros de finanças do G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo).
O estudo foi escrito por especialistas da King's College London, no Reino Unido, e da Australian National University (ANU), na Austrália.
"A crise econômica será potencialmente ainda mais grave do que a crise da saúde", escreveu Christopher Hoy, da ANU.
O relatório, que estima um aumento de 400 a 600 milhões no número de pessoas em situação de pobreza em todo o mundo, diz que o potencial impacto do vírus representa um grande desafio para se cumprir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU de acabar com a pobreza até 2030.
"Nossas descobertas apontam para a importância de uma expansão substancial das redes de segurança social nos países em desenvolvimento o mais rápido possível e - de maneira mais ampla - uma atenção muito maior ao impacto da covid-19 nos países em desenvolvimento e ao que a comunidade internacional pode fazer para ajudar", afirmou Andy Sumner, do King's College London.
Quando a pandemia terminar, prevê o estudo, mais da metade da população mundial, ou 3,9 bilhões de pessoas, podem estar vivendo na pobreza.
Considerando o patamar de pobreza de U$ 5,50 (R$ 28,18) por dia, cerca de 40% dos novos pobres estariam concentrados no leste da Ásia e no Pacífico, com cerca de um terço na África Subsaariana e no sul da Ásia. A América Latina responderia por 10% desse aumento global.
No início desta semana, mais de 100 organizações internacionais pediram a suspensão dos pagamentos da dívida este ano para os países em desenvolvimento, que liberariam US$ 25 bilhões (R$ 128 billhões) em recursos para suas economias.
Fique em casa! Fique em casa!
De acordo com os dados coletados pela InLoco com base na localização de celulares, o índice de isolamento social no país caiu de 69,6%, no último dia 22, para 49%, ontem. No estado de São Paulo, ficou pouco abaixo disso, 48,7%. Em bairros críticos da cidade, como o centro, mal passa dos 30%, como se não tivesse havido nenhuma mudança.
Tal quadro representa a receita certeira para a explosão nos casos. Enquanto muitos continuam nas ruas, enchem as praças e transformaram os supermercados em shopping centers, o novo coronavírus encontra mais gente para infectar e se espalhar. São Paulo se torna aos poucos uma espécie de Wuhan, epicentro da epidemia na China, onde a população teve de ser submetida a medidas draconianas de isolamento para diminuir a transmissão da Covid-19.
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| Fossas comuns para indigentes mortos de Covid-19, no Bronx, bairro de Nova York |
Em cidades chinesas onde o contágio foi detido, os contatos caíram pelo menos 85%. No Reino Unido, um estudo recente estimou em mais de 70% a diminuição na quantidade de interações entre os habitantes (note que há uma diferença entre esse número e os usados por Doria ou pela InLoco, medidas da proporção da população parada em casa – embora ambos estejam relacionados).
A resistência do brasileiro em aceitar a necessidade de isolamento tem fundo cultural. Há um misto de ignorância e onipotência. A primeira despreza os mecanismos de contágio e a facilidade de contrair um vírus que fica incubado até uma semana e é transmitido por quem nem apresenta sintomas. A segunda acredita que “nada de grave vai acontecer comigo” ou “é só uma gripezinha”.
Ambas são características presentes no discurso e nos atos do presidente Jair Bolsonaro, criticado ontem mais uma vez ao distribuir cumprimentos numa padaria de Brasília. A imprensa mundial tem tratado o presidente brasileiro como lunático por desdenhar a pandemia, hoje levada a sério por todos os líderes que no início hesitaram, como o americano Donald Trump e o britânico Boris Johnson, também vítima do coronavírus e só ontem liberado da UTI.
Os números da InLoco revelam que a manifestação de Bolsonaro coincide com o relaxamento no isolamento. Depois de seu pronunciamento no dia 31 de março, o índice caiu ao nível mais baixo atingido desde o início das quarentenas: 47,2%. Não há como atribuir a Bolsonaro a responsabilidade pelo que faz a população, mas é fato que sua atitude negacionista em nada ajuda o país na emergência.
Metade da população ainda tem consciência da necessidade de ficar em casa. A outra metade ou bem não pode, ou não quer. O desafio de estender o isolamento a favelas, periferias e regiões pobres ds grandes cidades depende não só da adoção de regras duras como quer Doria, mas também de um discurso coerente das autoridades em todos os níveis de governo. Quando cada um diz uma coisa, o cidadão fica perdido, faz o que bem entender ou o que lhe deixa mais confortável.
Uma realidade perversa pode dar a ilusão de que o quadro não está tão ruim quanto se pinta e incentivar o relaxamento: a epidemia evolui com atraso de duas semanas em relação às medidas das autoridades. Quem morrerá nos próximos 14 dias provavelmente já contraiu a doença e deve até estar no hospital. Para quem pega o vírus hoje, o período do contágio à morte se estende na média por mais de 30 dias.
Em virtude disso, o relaxamento dos últimos dias no isolamento social só será sentido nos números da epidemia, com a explosão inevitável nos casos, dentro de uns dez dias. O vírus, enquanto isso, continuará a se espalhar. Mantido o ritmo atual de contágio, ao fim desse período o país somaria perto de 5 mil mortos, e São Paulo, mais de 2 mil (contando apenas casos oficiais, já que não se sabe quantas mortes por Covid-19 foram atribuídas a outras causas).
O mais provável é que a tragédia já incubada seja ainda maior graças ao relaxamento no isolamento. Se não houver mudança na atitude do brasileiro – e rápido –, será impossível evitar o pior. Não vacile: fique em casa, fique em casa!
A resistência do brasileiro em aceitar a necessidade de isolamento tem fundo cultural. Há um misto de ignorância e onipotência. A primeira despreza os mecanismos de contágio e a facilidade de contrair um vírus que fica incubado até uma semana e é transmitido por quem nem apresenta sintomas. A segunda acredita que “nada de grave vai acontecer comigo” ou “é só uma gripezinha”.
Ambas são características presentes no discurso e nos atos do presidente Jair Bolsonaro, criticado ontem mais uma vez ao distribuir cumprimentos numa padaria de Brasília. A imprensa mundial tem tratado o presidente brasileiro como lunático por desdenhar a pandemia, hoje levada a sério por todos os líderes que no início hesitaram, como o americano Donald Trump e o britânico Boris Johnson, também vítima do coronavírus e só ontem liberado da UTI.
Os números da InLoco revelam que a manifestação de Bolsonaro coincide com o relaxamento no isolamento. Depois de seu pronunciamento no dia 31 de março, o índice caiu ao nível mais baixo atingido desde o início das quarentenas: 47,2%. Não há como atribuir a Bolsonaro a responsabilidade pelo que faz a população, mas é fato que sua atitude negacionista em nada ajuda o país na emergência.
Metade da população ainda tem consciência da necessidade de ficar em casa. A outra metade ou bem não pode, ou não quer. O desafio de estender o isolamento a favelas, periferias e regiões pobres ds grandes cidades depende não só da adoção de regras duras como quer Doria, mas também de um discurso coerente das autoridades em todos os níveis de governo. Quando cada um diz uma coisa, o cidadão fica perdido, faz o que bem entender ou o que lhe deixa mais confortável.
Uma realidade perversa pode dar a ilusão de que o quadro não está tão ruim quanto se pinta e incentivar o relaxamento: a epidemia evolui com atraso de duas semanas em relação às medidas das autoridades. Quem morrerá nos próximos 14 dias provavelmente já contraiu a doença e deve até estar no hospital. Para quem pega o vírus hoje, o período do contágio à morte se estende na média por mais de 30 dias.
Em virtude disso, o relaxamento dos últimos dias no isolamento social só será sentido nos números da epidemia, com a explosão inevitável nos casos, dentro de uns dez dias. O vírus, enquanto isso, continuará a se espalhar. Mantido o ritmo atual de contágio, ao fim desse período o país somaria perto de 5 mil mortos, e São Paulo, mais de 2 mil (contando apenas casos oficiais, já que não se sabe quantas mortes por Covid-19 foram atribuídas a outras causas).
O mais provável é que a tragédia já incubada seja ainda maior graças ao relaxamento no isolamento. Se não houver mudança na atitude do brasileiro – e rápido –, será impossível evitar o pior. Não vacile: fique em casa, fique em casa!
O fraco mundo dos fortes
Chega material médico de Pequim a Paris ou a Lisboa. É a expressão da debilidade e da falta de sentido estratégico de um tecido produtivo que foi deixado aos apetites de uma elite sem noção das necessidades básicas do coletivo. Agora, em desespero, há empresas e comunidades de investigação que, na Europa e nos Estados Unidos da América, abandonam o que faziam normalmente e fabricam kits de testes ou máscaras de proteção. Mas é um arremedo, não é uma estratégia. Outros, os fortes de agora, tiveram-na e é a esses que europeus e norte-americanos, os fracos de agora, pedem ajuda. Ajuda humanitária, claro. E, como sempre aconteceu com aquela que foi dirigida aos fracos quando europeus e norte-americanos eram fortes, esta ajuda humanitária que agora é dirigida aos que estão fracos, virá com fatura.
Talvez agora os europeus e os norte-americanos percebam melhor o que é ser destinatário de ajudas e de cooperação. Talvez compreendam melhor que, para lá de boas intenções, de altruísmo, de solidariedade e de humanidade, há sempre uma relação de poder que vai transportada nessas ajudas e nessa cooperação, porque é claro que esse poder de quem é forte é o outro lado do estado de necessidade de quem é fraco.

Talvez os europeus e os norte-americanos entendam melhor, por estes dias, que a segurança humana que, enquanto fortes, prescreveram para o mundo, é aquela de que nós mesmos precisamos agora. Europeus e norte-americanos pregaram ao mundo que a segurança no século XXI não era para ser entendida de modo estreito, como segurança militar, de defesa do território contra invasões, coisa de exércitos e de submarinos. Que era muito mais do que isso: a segurança das pessoas, a freedom from fear e a freedom from need. Europeus e norte-americanos disseram ao mundo que era assim que devia ser. A segurança humana dos sírios, essa foi espezinhada pela insegurança mais clássica de todas: a do armamento vendido pelos mesmos europeus e norte–americanos aos senhores da guerra. A segurança humana dos palestinianos ou dos saharauis, essa, continuou a ser espezinhada pelas cumplicidades diplomáticas dos pregadores da segurança humana. O discurso da segurança humana soou, por isso, vezes demais, a ficção cínica. Mas, agora, é na Europa e nos Estados Unidos da América, e não lá longe, que se testa a coerência com a proclamação da segurança humana como objetivo certo. E a referência crucial desse teste é o Estado social. Ao contrário do que quer fazer crer o discurso securitário de exceção, é mesmo a freedom from fear e a freedom from want que são intensamente compreendidas por europeus e norte-americanos como pilares da segurança das suas vidas. Contra a insegurança insidiosa de um vírus agressivo, são os sistemas públicos de saúde que são vistos como garante da segurança das pessoas. Contra a insegurança imensa do desemprego, é o salário e a proteção social que são compreendidos como âncoras da segurança das vidas. Como depois da II Guerra Mundial, o que hoje se joga na Europa e nos Estados Unidos da América é a afirmação da segurança humana como princípio de organização social contra a barbárie. E isso tem um nome: Estado social.
Talvez agora os europeus e os norte-americanos entendam melhor que a segurança humana que advogam para o mundo começa aqui e que isso implica reforço dos serviços públicos contra o primado do negócio. Talvez entendam tudo isto agora. Mas talvez o desentendam logo a seguir. O vírus do business as usual é incrivelmente resistente.
Postura de Bolsonaro ante Covid-19 pode ser começo de seu fim
“Um por um, os que duvidam fizeram as pazes com a ciência médica. Apenas quatro governantes do mundo continuam negando a ameaça à saúde pública representada pela covid-19. Dois são destroços da antiga União Soviética, os déspotas da Bielorrússia e do Turquemenistão. Um terceiro é Daniel Ortega, o ditador tropical da Nicarágua. O outro é o presidente eleito de uma grande democracia, ainda que maltratada”, diz a publicação em texto da nova edição.
A tradicional revista britânica destaca que Bolsonaro é apoiado por um pequeno círculo de fanáticos ideológicos que incluem seus três filhos, pela fé de muitos protestantes evangélicos e pela falta de informações sobre a Covid-19 entre alguns brasileiros. Esses dois últimos aspectos, porém, podem mudar à medida que o vírus atinge seu pico.
O número de casos confirmados e mortes deve subir muito entre as últimas semanas de abril e as primeiras de maio, segundo expectativa oficial. Já antecipando este movimento, muitos governadores determinaram o fechamento do comércio não essencial em seus estados já nas últimas semanas de março, o que gerou uma tensão com Bolsonaro.
Dizendo temer os impactos econômicos, Bolsonaro defende o “isolamento vertical”, pelo qual apenas os brasileiros com mais de 60 anos ficariam em quarentena. “Existem dois problemas com isso. Os jovens morrem de covid-19 (10% dos mortes no Brasil têm menos de 60 anos), e a imposição dessa quarentena seria impossível”, diz a Economist.
Enquanto isso, a popularidade do presidente cai. Uma pesquisa realizada neste mês pelo Datafolha, e citada na publicação, revela 76% de aprovação para atuação do Ministério da Saúde na questão do coronavírus, em comparação com 33% para o gerenciamento da crise por Bolsonaro.
“Ele chegou duas vezes perto de demitir seu próprio ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta. Bolsonaro está aparentemente com ciúmes do crescente perfil de um ministro que ele alega ‘carece de humildade'”, diz o texto.
A Economist cita ainda que seus principais ministros, incluindo o grupo de generais no gabinete, bem como o Congresso, também deram apoio às vezes ostensivo a Mandetta. “Mesmo para seus próprios padrões, a violação de seu dever principal de Bolsonaro por proteger vidas foi longe demais”, diz.
Como consequência, afirma a Ecomomist, os pedidos para que ele saia aumentaram. “Eles não vêm apenas da esquerda, mas também de alguns de seus ex-apoiadores, como Janaina Paschoal, uma deputada estadual de São Paulo que ele considerou como seu companheiro de chapa. Dizendo que ele era culpado de ‘um crime contra a saúde pública'”.
Janaina também disse que, apesar disso, o país não tem tempo para mais um processo de impeachment neste momento. Por isso, apesar de Bolsonaro ter forçado a possibilidade de sua própria saída, segundo a revista, é provável que permaneça lá após a superação da epidemia.
Pandemia de falta de noção
A racionalidade e a lógica indicam o caminho do isolamento social e as medidas restritivas até que a curva da pandemia comece a melhorar. Valores como justiça social, e sentimentos como compaixão e empatia, tornam imperativo cobrar das autoridades medidas urgentes de complementação de renda, desonerações e esforço máximo para atender aos mais vulneráveis. Nada disso, porém, pode ser confundido com a falta de noção dos espertinhos que querem tirar vantagens que vão muito além da pandemia e dos que tentam aproveitar politicamente a situação ou usufruir seus cinco minutos de fama.
Nesse momento delicado, estamos todos perdidos, e às vezes fica difícil avaliar de cara o que é mesmo bom ou ruim, se ajuda ou cria problemas. O aplicativo da inscrição para receber o auxílio emergencial demorou e teve, nas primeira 24 horas, mais de 20 milhões de acessos — para se ter uma ideia da carência de boa parte da população. Ao mesmo tempo, porém, especialistas em políticas de distribuição de renda e prefeitos dizem que este acabará sendo o caminho mais complicado para que o dinheiro chegue a quem mais precisa, até porque o brasileiro miserável de verdade não tem celular nem acesso à internet.
São muitos os exemplos, até de quem, involuntária ou apressadamente, arrisca-se a criar confusão para o futuro. No Legislativo, foi admirável a atuação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ao votar a toque de caixa, remotamente, os projetos de combate ao coronavírus. Mostrou competência e espírito público. Mas passou do ponto ao aprovar na mesma tarde, em dois turnos, com voto pela Internet, uma emenda constitucional — a PEC do Orçamento de Guerra. Precisou ser lembrado pelo Senado, que adiou o exame da matéria para semana que vem, que as coisas não podem ser assim com mudanças na Constituição.
Todos os dias, somos surpreendidos pelo Diário Oficial e por medidas anunciadas e votadas de supetão. Quarta-feira, ao acordar, descobrimos que podemos sacar R$ 1.045,00 do FGTS e que o PIS/PASEP acabou. Com a primeira providência, o governo Bolsonaro se antecipou a uma proposta do PT, que provavelmente o Congresso aprovaria. O Executivo está ficando rápido no gatilho. Alguém no Legislativo anuncia, ele vai lá e faz — como no auxílio, que era de R$ 500 e acabou ficando em R$ 600. Quanto ao fim do PIS/PASEP, sabemos que nenhum brasileiro tem amor por esse fundo, embora alguns tivessem dinheiro lá. Será que passamos pela sonhada reforma desburocratizadora de fundos e tributos enquanto dormíamos? Ninguém explicou.
Nesse momento delicado, estamos todos perdidos, e às vezes fica difícil avaliar de cara o que é mesmo bom ou ruim, se ajuda ou cria problemas. O aplicativo da inscrição para receber o auxílio emergencial demorou e teve, nas primeira 24 horas, mais de 20 milhões de acessos — para se ter uma ideia da carência de boa parte da população. Ao mesmo tempo, porém, especialistas em políticas de distribuição de renda e prefeitos dizem que este acabará sendo o caminho mais complicado para que o dinheiro chegue a quem mais precisa, até porque o brasileiro miserável de verdade não tem celular nem acesso à internet.
Mais fácil teria sido usar os cadastros sociais das prefeituras, em sua maioria montados na era petista, mas ainda inteiros e capazes de identificar os mais pobres. Ou chamar especialistas reconhecidos na formulação e execução de programas sociais. Só que esse pessoal é “vermelho”, como se diz no jargão bolsonarista — e, para esse governo, a ideologia está acima do bem estar da população.
Não é só no Executivo. No DF, com uma canetada, um juiz pode ter cancelado as eleições municipais deste ano. Itagiba Catta Preta Neto, em sentença com cara de manifesto, bloqueou os fundos eleitoral e partidário e destinou seus R$ 3 bilhões ao combate ao coronavírus. A decisão pode ser revista por instância superior, mas é o caso de ficar de olho no resto da torcida para adiar as eleições, um marco da democracia, usando como desculpa a pandemia. A seis meses do pleito, quem defende isso no fundo não quer eleições por medo de perder.
São muitos os exemplos, até de quem, involuntária ou apressadamente, arrisca-se a criar confusão para o futuro. No Legislativo, foi admirável a atuação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ao votar a toque de caixa, remotamente, os projetos de combate ao coronavírus. Mostrou competência e espírito público. Mas passou do ponto ao aprovar na mesma tarde, em dois turnos, com voto pela Internet, uma emenda constitucional — a PEC do Orçamento de Guerra. Precisou ser lembrado pelo Senado, que adiou o exame da matéria para semana que vem, que as coisas não podem ser assim com mudanças na Constituição.
É preciso mais vagar e reflexão para não abrir precedentes perigosos para o futuro. Maia, que não é bobo, parece ter aprendido a lição. Desistiu de votar o Plano Mansueto, uma profunda reestruturação das finanças estaduais com ajuda federal, durante a pandemia. Vai destacar do projeto, para votação imediata, itens urgentes para os estados, como renegociação de dívidas e compensação de impostos. O resto só na volta à normalidade. Emergência é emergência, reforma é reforma, democracia é democracia — e suas regras têm que ser preservadas em qualquer circunstância.
Porta está aberta para a Renda Básica Universal
Nos últimos anos o interesse em propostas de Renda Básica Universal (RBU) cresceu enormemente em todo o mundo. Segundo os autores de um livro sobre RBU publicado neste ano pelo Banco Mundial, “Exploring Universal Basic Income” 1, 91 livros sobre o tema foram publicados apenas na última década.
O interesse não tem se restringido ao meio acadêmico: programas-pilotos foram implementados em diferentes países, e na esfera política vários candidatos têm adotado propostas de RBU como pivô de suas campanhas.

Com a crise deflagrada pelo novo coronavírus, o debate sobre uma RBU parece mais relevante do que nunca, uma vez que a fragilidade dos sistemas de proteção social tradicionais ficou exposta. Em vários países, incluindo o Brasil, surgem medidas de pagamento de uma renda básica a indivíduos ou famílias na tentativa de tapar buracos no sistema vigente.
Todavia, essas transferências que estão agora sendo implementadas não configura RBU, pois estão programadas apenas para um período emergencial e os beneficiários devem satisfazer determinados critérios de elegibilidade. Em contraste, uma RBU é usualmente conceituada como montante fixo de dinheiro regularmente pago pelo governo a cada indivíduo na sociedade, independentemente de sua renda ou posição no mercado de trabalho.
A ideia básica tem mais de dois séculos, tendo sido introduzida pelo filósofo Thomas Paine (1737-1809). A onda recente (antes da chegada do coronavírus) de interesse em RBU surgiu inicialmente nos países desenvolvidos, motivada pela crescente insegurança no mercado de trabalho - associada à automação e à globalização - e pelo crescimento da desigualdade.
No Brasil, a ideia de prover renda básica a cada cidadão foi introduzida nos primeiros anos da década de 1990 pelo então senador pelo PT Eduardo Suplicy (atualmente vereador de São Paulo). A campanha de Suplicy levou à aprovação, em 2004, da Lei de Renda Básica de Cidadania (Lei nº 10.835, de janeiro de 2004), que estabelece a progressiva implementação de uma renda básica universal no país. A lei “não pegou”. Têm prevalecidos argumentos de que uma RBU não é fiscalmente sustentável, ou de que programas de transferências focalizadas e condicionais, como o Bolsa Família, são mais efetivos na redução da pobreza.
Com o objetivo de examinar os efeitos fiscais e distributivos da implementação de uma RBU no Brasil, os autores deste artigo realizaram simulações de esquemas alternativos de RBU, usando a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2017 e técnicas de microssimulação de tributos e benefícios. Um dos esquemas simulados, conhecido na literatura como Basic Income/Flat Rate Proposal, combina uma RBU com imposto proporcional sobre todas as outras rendas.
A renda básica (paga a cada indivíduo) foi fixada em R$ 406 por mês, que em 2017 era equivalente à linha de pobreza proposta pelo Banco Mundial para países de renda média alta (US$ 5,50 por dia). No esquema simulado, as aposentadorias e pensões pagas atualmente pelo governo são reduzidas no mesmo montante da renda básica e as demais transferências monetárias são abolidas. O imposto proporcional substitui o atual imposto de renda da pessoa física bem como as contribuições previdenciárias dos empregados. Sua alíquota é calculada de forma a garantir “‘neutralidade orçamentária”, significando que o déficit fiscal não é exacerbado.
Neste esquema, o custo líquido da RBU foi estimado em 11,5% do PIB (R$ 758 bilhões, em 2017), e a alíquota do novo imposto de renda (compatível com neutralidade orçamentária) foi estimada em 35,7%. Conforme projetado, a pobreza seria eliminada com a reforma. Cabe mencionar que, sob o sistema vigente, a proporção de pessoas abaixo da linha de pobreza, em 2017, era 23,5%. Entre as crianças (17 anos ou menos), a taxa de pobreza era bem mais elevada, 39,7%, enquanto entre os idosos (65 anos ou mais), a proporção de pobres era 3,2%.
Em grande medida, isso ocorre porque hoje mais de 85% do gasto público com transferências monetárias correspondem a aposentadorias e pensões. O que também está associado ao fato do montante total de transferência para os 20% mais ricos da população ser cerca de dez vezes maior do que para os 20% mais pobres 2.
A proposta simulada também provocaria uma redução substancial na desigualdade de renda. Medida pelo coeficiente de Gini (que varia entre 0 e 1), a redução seria de mais de um quarto, com o Gini indo de 0,51 para 0,38.
Quase todos os indivíduos entre os 50% mais pobres da população teriam a renda familiar aumentada, sendo que os ganhos mais significativos se concentrariam na base da distribuição de renda. No caso dos 10% mais pobres da população, a renda familiar per capita quase que triplicaria, em média. Ao todo, 64% da população teria um ganho líquido com a reforma. As perdas líquidas, por sua vez, se concentrariam no topo da distribuição de renda. Para os 10% mais ricos, a redução média na renda domiciliar per capita seria de 16%.
Pode ser desconcertante admitir que a substituição (parcial) de um sistema complexo por outro - radicalmente simples - que paga uma quantia modesta a todos os indivíduos na sociedade e é financiado por um imposto com alíquota única sobre todas as rendas possa ter efeitos equalizadores tão fortes. De fato, essa oportunidade é peculiar do Brasil, dada a ineficiência e iniquidade do sistema atual. Outros países enfrentam tradeoffs muito mais fortes entre sustentabilidade/viabilidade fiscal e equidade. É importante ressaltar que além de ganhos em termos de equidade, um sistema como o discutido aqui tem vantagens derivadas de sua simplicidade, universalidade e transparência.
Entre elas, está a redução da burocracia e de custos administrativos, bem como minimização de oportunidades para manipulação do sistema por grupos de interesses específicos.
Crises frequentemente são motores de mudanças estruturais de longo prazo. Ao sair desta que agora vivenciamos, o Brasil e o mundo terão acumulado mais experiência com programas extensivos de transferência de renda. Há ainda a esperança de mudanças nas atitudes, que se tornem mais favoráveis à construção de contratos sociais mais inclusivos. Uma RBU pode ter um papel crucial nesse mundo mais justo. As evidências para o Brasil indicam que temos essa escolha. A porta está aberta.
Rozane Bezerra de Siqueira / José Ricardo Bezerra Nogueira Departamento de Economia/UFPE
1 Gentilini, Ugo, Margaret Grosh, Jamele Rigolini, and Ruslan Yemtsov, eds. (2020). “Exploring Universal Basic Income: A Guide to Navigating Concepts, Evidence, and Practices”. Washington, DC: The World Bank
2 Ver “Efeito Redistributivo da Política Fiscal no Brasil”, Ministério da Fazenda, Brasília, 2017
quinta-feira, 9 de abril de 2020
Ciência e política

Além de sugerir que tomaram remédios com base na hidroxicloroquina, Bolsonaro alegou que eles se recusaram a prestar essa informação por assessorarem o governador João Doria, seu adversário político. “Esse segredo não combina com o Juramento de Hipócrates que fizeram. Que Deus ilumine esses dois profissionais, de modo que revelem para o mundo que existe um promissor remédio no Brasil”, concluiu Bolsonaro.
A insistência de Bolsonaro em apresentar a hidroxicloroquina como “remédio promissor” dá a medida do modo como vem se comportando no combate à pandemia da covid-19, privilegiando seus interesses políticos. Ao recomendar o uso desse medicamento “promissor” baseado em seus “contatos com médicos e chefes de Estado”, mostra que não conhece o que é a ciência nem como se desenvolve o trabalho científico. Deixa claro que não sabe que a ciência trabalha com erros e acertos e que a busca de respostas costuma se dar pela elaboração de hipóteses e formulação de novas perguntas.
Todas as vezes em que surgem novas doenças e epidemias, a ciência oferece cenários e sugere medidas de controle enquanto os pesquisadores se esforçam para isolar o vírus em laboratório para compreender a doença e desenvolver vacinas e tratamentos. Esse processo é complexo, exigindo respeito a protocolos, publicações de artigos em revistas especializadas e intensos debates entre pesquisadores, até chegar a um consenso na comunidade científica. O tempo da ciência, pois, é incompatível com o tempo da política.
Na ciência, as pesquisas têm de ser públicas, para que possam ser discutidas, contestadas e aprofundadas. Elas só conseguem avançar, convertendo suas descobertas em bem comum para a humanidade, com base em fundamentos empíricos. Já na política costumam prevalecer decisões açodadas, tomadas com enviesamento ideológico e relevando verdades científicas consolidadas.
Se a relação entre ciência e política já é tensa em tempos normais, nas áreas de ciências biológicas e de saúde essa tensão é ainda maior em tempos de pandemia. Entre outros motivos porque, enquanto os governantes tendem a pensar apenas em sua popularidade e seus projetos eleiçoeiros, os cientistas têm de deixar de lado indagações que fazem em períodos de normalidade para buscar novas fontes de recursos e desenvolver às pressas novos projetos de pesquisa. Como revelam números da Web of Science, compilados pelo professor Peter Schulz, da Unicamp, essas tensões estiveram presentes em todas as vezes que surgiram epidemias relacionadas a cepas mais antigas do coronavírus, desde 2000. Isso porque, ao oferecer informações atualizadas e conhecimento de ponta, a ciência apontou a necessidade de políticas públicas que não estavam entre as prioridades dos governantes. Muitas vezes, além disso, essas tensões são exponenciadas pela tendência de dirigentes populistas de se apropriarem de resultados preliminares de pesquisas para convertê-las em dogmas usados para desqualificar adversários políticos.
Entre nós, infelizmente, enquanto os cientistas continuam cumprindo seu papel, conscientes de que a divulgação de eventuais descobertas neste momento precisa ser criteriosa, Bolsonaro contesta o ministro da Saúde. Critica médicos que integram a equipe de seus adversários. E recorre a outros de sua confiança, para que façam afirmações sobre as quais ainda não há consenso científico.
O coronavírus acordou o Brasil

Por paradoxal que seja, foi necessário chegar ao Brasil a pandemia para que a sociedade tomasse ciência de que não era mais possível ignorar a incompetência, a irresponsabilidade, a inépcia, o reacionarismo de Jair Bolsonaro. Durante meses ele fez com que passássemos vergonha, o Brasil virou motivo de chacota internacional, perdemos a respeitabilidade no campo da política externa. Sua política fez do Itamaraty um mero puxadinho da Casa Branca. A economia ficou estagnada, o discurso supostamente liberal de Paulo Guedes, de transformar os graves problemas nacionais em questões banais, que seriam resolvidas pela privatização e pelo livre mercado, deixariam Stuart Mill envergonhado. A ciência foi rebaixada e a educação foi tomada por incapazes idiotizados à serviço de um indivíduo que se autoproclama filósofo, isto quando encerrou seus estudos na antiga primeira série do curso ginasial. Os direitos humanos foram vilipendiados e as políticas sociais foram desqualificadas, rastaqueras assumiram o poder e transformaram a ignorância em saber, como se vivêssemos, no Brasil, o “1984” de George Orwell.
Foi necessário o coronavírus para o gigante acordar. Agora a tarefa é impedir que o desastre se espalhe. Infelizmente teremos de conviver com milhares de mortos e com a recessão econômica, mas podemos evitar males maiores se nos unirmos. As autoridades da saúde pública estão trabalhando bem e a maioria dos governadores estão seriamente comprometidos em minimizar os terríveis efeitos econômicos. A população entendeu que juntos podemos muito. Vamos sair maiores da crise do que entramos. Mas temos uma tarefa essencial a cumprir: Bolsonaro não pode continuar na Presidência da República.
Vai jogar no lixo?
A curva estaria muito pior, teríamos mais mortes sem o isolamento. Mas temos que desassociar um achatamento da curva com a ideia de que está pronto para voltar para a rua. As pessoas confundiram. O governo atuou rápido e de maneira correta. Então, a população joga isso no lixo! Vai para o calçadão caminhar!Edmar Santos, secretário de Saúde (RJ)
Bolsonaro está atrás de culpados para salvar a própria pele
Um presidente da República pode muito, mas não pode tudo. Entretanto, por dispor de um poderoso aparelho de coleta de informações, ele pode não saber tudo, mas sabe muito mais do que qualquer outra pessoa no país ou fora daqui.
Ao jornalista Luiz Datena, da Rede Bandeirantes de Televisão, sem que ele nada lhe tivesse perguntado sobre isso, Jair Messias Bolsonaro disse, sem mais nem menos, e depois mudou de assunto: “Não é hora de derrubar presidente”. Como?
Jamais um presidente brasileiro disse algo parecido a respeito de si próprio. O que ele sabe que não sabemos? Existe alguma trama para derrubá-lo? Quem está por trás dela? Cercado por militares de confiança, como ele pode ter medo de ser deposto?
Na melhor das hipóteses foi mais uma manifestação da paranoia de Bolsonaro que o acompanha desde o seu tempo de deputado. À época, em muitas ocasiões, ao sair da Câmara, ele se agachava ao lado do seu carro à procura de uma possível bomba.
Bolsonaro entende de explosivos. Planejou detonar alguns dentro de quarteis quando era um simples soldado, a reclamar sempre do valor do soldo. Foi por isso que acabou processado e expurgado do Exército, acusado de indisciplina e conduta antiética.
Já como presidente eleito e empossado, pelo menos uma vez ele ajoelhou-se para conferir se havia uma bomba debaixo do carro que o transportaria do Palácio da Alvorada para o Palácio do Planalto. Morre de medo de drones e vive olhando para o céu.
Na hipótese mais provável, a advertência disparada por Bolsonaro durante a entrevista trai a preocupação com os possíveis efeitos sobre o seu mandato da desastrosa maneira como tem conduzido até aqui o combate à pandemia que mudará o mundo para sempre.
Pois como fez questão de afirmar o ministro Luiz Henrique Mandetta, Jair Messias Bolsonaro é quem está no comando. A julgar por sucessivas pesquisas nacionais de opinião pública, ele tem mais atrapalhado do que ajudado a derrotar o vírus.
Bolsonaro ouviu do deputado Osmar Terra (PMDB-RS), candidato à vaga de Mandetta, que o vírus causará a morte de muita gente, principalmente de velhos, e que não há o que fazer. A contaminação só diminuirá quando muitos forem contaminados.
A taxa de letalidade da nova peste, ou seja, a proporção das mortes registradas em comparação com o número de casos confirmados, deu um salto de 42% nas últimas 24 horas. Era de 3,5% em 1ª de abril – 7 mortos em 200 casos. Agora, 5% – 10 mortos em 200.
Em 24 horas, o número de mortos aumentou em 16%, um novo recorde. Passou para 800, o equivalente à lotação completa de 4 Airbus 320. Ou três vezes mais do que o número de mortos pelo rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais.
O vírus começou a ceifar vidas em favelas do Rio. Na Rocinha, onde 150 mil pessoas se amontoam em minúsculas casas e circulam por vias estreitas, foram dois óbitos. Mais quatro em outras comunidades. O prefeito decretou o Estado de Calamidade.
Bolsonaro está à procura de culpados para salvar sua pele. Os governadores são um dos seus alvos – e voltou a distanciar-se das medidas restritivas tomadas por eles na 5ª fala à Nação que fez desde que chamou a pandemia de gripezinha, resfriadinho.
Sem coragem para atacar diretamente o confinamento social apoiado por Mandetta e adotado no resto do mundo, estimulou o retorno ao trabalho porque é preciso também salvar a economia. Não arredou pé de nenhuma de suas ideias, apenas baixou o tom.
Na hipótese mais provável, a advertência disparada por Bolsonaro durante a entrevista trai a preocupação com os possíveis efeitos sobre o seu mandato da desastrosa maneira como tem conduzido até aqui o combate à pandemia que mudará o mundo para sempre.
Pois como fez questão de afirmar o ministro Luiz Henrique Mandetta, Jair Messias Bolsonaro é quem está no comando. A julgar por sucessivas pesquisas nacionais de opinião pública, ele tem mais atrapalhado do que ajudado a derrotar o vírus.
Bolsonaro ouviu do deputado Osmar Terra (PMDB-RS), candidato à vaga de Mandetta, que o vírus causará a morte de muita gente, principalmente de velhos, e que não há o que fazer. A contaminação só diminuirá quando muitos forem contaminados.
A taxa de letalidade da nova peste, ou seja, a proporção das mortes registradas em comparação com o número de casos confirmados, deu um salto de 42% nas últimas 24 horas. Era de 3,5% em 1ª de abril – 7 mortos em 200 casos. Agora, 5% – 10 mortos em 200.
Em 24 horas, o número de mortos aumentou em 16%, um novo recorde. Passou para 800, o equivalente à lotação completa de 4 Airbus 320. Ou três vezes mais do que o número de mortos pelo rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais.
O vírus começou a ceifar vidas em favelas do Rio. Na Rocinha, onde 150 mil pessoas se amontoam em minúsculas casas e circulam por vias estreitas, foram dois óbitos. Mais quatro em outras comunidades. O prefeito decretou o Estado de Calamidade.
Bolsonaro está à procura de culpados para salvar sua pele. Os governadores são um dos seus alvos – e voltou a distanciar-se das medidas restritivas tomadas por eles na 5ª fala à Nação que fez desde que chamou a pandemia de gripezinha, resfriadinho.
Sem coragem para atacar diretamente o confinamento social apoiado por Mandetta e adotado no resto do mundo, estimulou o retorno ao trabalho porque é preciso também salvar a economia. Não arredou pé de nenhuma de suas ideias, apenas baixou o tom.
Como não bastasse, tornou a prescrever o uso da Cloroquina como se ela fosse capaz de curar infectados. O médico Roberto Kalil, do hospital Sírio Libanês, em São Paulo, tomou um coquetel de remédios para se curar – entre eles a Cloroquina.
Mas nem ele nem seu pneumologista garantem que a droga o livrou da morte. Por sinal, o pneumologista foi contra o uso da droga por falta de provas de que ela seja eficaz contra o vírus. Kalil contou que tomou o remédio para não “se arrepender depois”.
Por que a Cloroquina não está sendo usada em outros países – nem mesmo nos Estados Unidos onde o presidente Donald Trump é seu maior garoto propaganda? Bolsonaro tem evitado a imprensa para não ter que responder a essa e a outras perguntas.
Mas nem ele nem seu pneumologista garantem que a droga o livrou da morte. Por sinal, o pneumologista foi contra o uso da droga por falta de provas de que ela seja eficaz contra o vírus. Kalil contou que tomou o remédio para não “se arrepender depois”.
Por que a Cloroquina não está sendo usada em outros países – nem mesmo nos Estados Unidos onde o presidente Donald Trump é seu maior garoto propaganda? Bolsonaro tem evitado a imprensa para não ter que responder a essa e a outras perguntas.
O que sobrará da ideia inicial
Ao fim desta pandemia, pouca coisa vai sobrar da agenda com a qual o ministro Paulo Guedes chegou ao governo. As reformas foram engavetadas, o plano Mansueto foi deixado de lado por outro que socorre os estados na emergência, a empresa que está para ser privatizada ajudou a fazer o caminho para o pagamento do auxílio emergencial, a proposta de zerar o déficit público se transformará no maior déficit da nossa história.
Ontem, o governo, de um lado, a Câmara e os governadores, de outro, brigavam em torno de quanto transferir aos estados e municípios neste momento. O chamado Plano Mansueto era uma excelente ideia para um outro mundo, e certamente voltará a ser. Ele induz os estados e municípios a se ajustarem e buscarem notas de crédito melhores e os incentiva com recursos e avais conforme a nota alcançada. Mas como falar em ajuste num momento em que despencam as arrecadações de ICMS e ISS? Agora, a Câmara decidiu aprovar projeto que facilita as transferências para a sustentação da receita dos estados e municípios e suspende a cobrança das dívidas com o Tesouro.
– O Plano Mansueto é correto, vai ter que ser enfrentado, mas neste momento todos os estados vivem a mesma angústia, que é a necessidade de receitas para enfrentar a crise.
A pandemia mudou completamente tudo no mundo, mas o fato é que o projeto do governo já não ia bem. O que houve de privatização foi a venda de participações ou blocos de ações feita por algumas empresas e bancos públicos. A abertura da economia também teve pouco avanço. O projeto liberal patinou no primeiro ano de governo. Agora, devido às circunstâncias, ele tem que ser deixado de lado, e economistas preparados para fazer um programa têm que fazer o inverso.
A versão do governo, dita em várias entrevistas, é que o país estava decolando quando foi abatido pela crise. Não é verdade. O primeiro trimestre já não vinha dando bons sinais de recuperação da economia. O comércio caiu 1,4% em janeiro e subiu menos em fevereiro, 1,2%. O setor de serviços vinha de duas quedas no final do ano passado, subiu apenas 0,4% em janeiro e voltou a cair 1% em fevereiro. Na indústria, as duas altas dos meses de janeiro e fevereiro não recuperaram as perdas de novembro e dezembro. Olhando apenas para fevereiro, último mês antes da pandemia, o Ibre/FGV projetou alta de apenas 0,1% no seu Índice de Atividade Econômica (IAE).
Ontem, em entrevista coletiva, o secretário Adolfo Sachida sustentava que o Brasil fora o mais rápido a responder, do ponto de vista da economia, e o secretário Waldery afirmou que é o segundo emergente que mais está gastando, atrás apenas do Chile. Isso não é um campeonato de despesa. O que é preciso é fazer o dinheiro realmente chegar. Nesta quinta-feira é que começará de fato a acontecer o pagamento da primeira parte do auxílio emergencial. Anunciar medidas não é o mesmo que realizá-las. É preciso reduzir o tempo dedicado à reescrever a história para se empenhar mais em garantir a execução das medidas.
O banco BNP Paribas estima que o deficit primário este ano poderá chegar a 7,3% do PIB, com uma combinação de aumento de gastos e queda de arrecadação. Ao final desta crise, a dívida bruta poderá alcançar um patamar recorde, de 90% do PIB. Já o UBS tem números menos piores. O deficit este ano pode ir a 7%, com endividamento de 86% no ano que vem. Mas ele acredita que até em 2021 o governo teria um forte deficit primário, de 4% do PIB.
A conta será salgada. O mais importante agora é implantar o que vem sendo anunciado. E no momento seguinte preparar o plano da reconstrução da economia e dos parâmetros fiscais, para o dia em que este pesadelo passar.
Ontem, o governo, de um lado, a Câmara e os governadores, de outro, brigavam em torno de quanto transferir aos estados e municípios neste momento. O chamado Plano Mansueto era uma excelente ideia para um outro mundo, e certamente voltará a ser. Ele induz os estados e municípios a se ajustarem e buscarem notas de crédito melhores e os incentiva com recursos e avais conforme a nota alcançada. Mas como falar em ajuste num momento em que despencam as arrecadações de ICMS e ISS? Agora, a Câmara decidiu aprovar projeto que facilita as transferências para a sustentação da receita dos estados e municípios e suspende a cobrança das dívidas com o Tesouro.
O deputado Rodrigo Maia explicou ontem que, se deixasse o Plano Mansueto, ele seria desvirtuado, porque estavam sendo incluídas emendas com propostas de gastos de longo prazo:
– O Plano Mansueto é correto, vai ter que ser enfrentado, mas neste momento todos os estados vivem a mesma angústia, que é a necessidade de receitas para enfrentar a crise.
A pandemia mudou completamente tudo no mundo, mas o fato é que o projeto do governo já não ia bem. O que houve de privatização foi a venda de participações ou blocos de ações feita por algumas empresas e bancos públicos. A abertura da economia também teve pouco avanço. O projeto liberal patinou no primeiro ano de governo. Agora, devido às circunstâncias, ele tem que ser deixado de lado, e economistas preparados para fazer um programa têm que fazer o inverso.
A versão do governo, dita em várias entrevistas, é que o país estava decolando quando foi abatido pela crise. Não é verdade. O primeiro trimestre já não vinha dando bons sinais de recuperação da economia. O comércio caiu 1,4% em janeiro e subiu menos em fevereiro, 1,2%. O setor de serviços vinha de duas quedas no final do ano passado, subiu apenas 0,4% em janeiro e voltou a cair 1% em fevereiro. Na indústria, as duas altas dos meses de janeiro e fevereiro não recuperaram as perdas de novembro e dezembro. Olhando apenas para fevereiro, último mês antes da pandemia, o Ibre/FGV projetou alta de apenas 0,1% no seu Índice de Atividade Econômica (IAE).
Na entrevista concedida ontem pela área econômica foi dito que eles estavam se preparando desde dezembro para esta crise. Isso está bem distante dos fatos. A verdade é que até o começo de março o governo continuava defendendo apenas a aprovação das reformas. Perguntei a um integrante graduado da equipe econômica, no dia 5 de março, que resposta seria dada à crise do coronavírus e ouvi que havia apenas três infectados e que o Brasil era uma economia fechada que seria menos impactada. Naquele mesmo dia, o número subiria para oito. E ontem já havia 800 mortos.
Ontem, em entrevista coletiva, o secretário Adolfo Sachida sustentava que o Brasil fora o mais rápido a responder, do ponto de vista da economia, e o secretário Waldery afirmou que é o segundo emergente que mais está gastando, atrás apenas do Chile. Isso não é um campeonato de despesa. O que é preciso é fazer o dinheiro realmente chegar. Nesta quinta-feira é que começará de fato a acontecer o pagamento da primeira parte do auxílio emergencial. Anunciar medidas não é o mesmo que realizá-las. É preciso reduzir o tempo dedicado à reescrever a história para se empenhar mais em garantir a execução das medidas.
O banco BNP Paribas estima que o deficit primário este ano poderá chegar a 7,3% do PIB, com uma combinação de aumento de gastos e queda de arrecadação. Ao final desta crise, a dívida bruta poderá alcançar um patamar recorde, de 90% do PIB. Já o UBS tem números menos piores. O deficit este ano pode ir a 7%, com endividamento de 86% no ano que vem. Mas ele acredita que até em 2021 o governo teria um forte deficit primário, de 4% do PIB.
A conta será salgada. O mais importante agora é implantar o que vem sendo anunciado. E no momento seguinte preparar o plano da reconstrução da economia e dos parâmetros fiscais, para o dia em que este pesadelo passar.
Vacância de poder
Jair Messias Bolsonaro já não governa o País. Está a reboque das decisões. Tutelado por forças institucionais, inclusive militares, que determinam a ele o que e como fazer — alinhamento a governadores, foco nas medidas econômicas e menos estardalhaço circense, essa última orientação difícil de cumprir dada sua natural vocação ao papel de palerma descompensado. Não são meros conselhos, mas alertas que ele vem recebendo agora diariamente, sob pena de ser apeado da cadeira o quanto antes. Congresso, Judiciário, governadores, prefeitos, OMS, políticos em geral, além das Forças Armadas, já iniciaram uma reação em cadeia contra o Planalto. O vice-presidente, general Hamilton Mourão, habilitou-se ao papel de bombeiro e se credencia, cada dia mais, à condição de líder no comando. Em clara reprovação às palavras de ordem do capitão, alinhou-se àqueles que rebatem em público os desatinos do chefe. O ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello encaminhou à Procuradoria-Geral da República (PGR) pedido de afastamento de Bolsonaro. Sua petição, protocolada na Corte no último dia 25, vem se somar a outros cinco requerimentos no mesmo sentido. No Parlamento, o impedimento do chefe da Nação, por atos e palavras que caracterizam infrações em série à “lei de responsabilidade social”, virou voz corrente. Trata-se agora de acertar quando e como fazê-lo. A preservação da democracia é o pilar que sustenta o movimento. Fecha-se o cerco contra a desordem voluntariosa de Messias. É preciso resgatar a estabilidade maculada por quem tem apostado na ruptura e no confronto — inclusive com integrantes e subordinados do próprio governo — para buscar soluções autoritárias. Jair Bolsonaro, que nunca deixou de flertar com a ditadura, elogiar notórios torturadores e adotar a tática de converter em inimigos, traidores, qualquer um que atravesse o seu caminho, persegue, é fato, o inconfessável projeto de poder totalitário. Indagado recentemente em um programa de televisão se estaria disposto a dar um golpe, evitou negar de maneira categórica e saiu-se com o enigmático enunciado do “quem quer dar um golpe não vai falar que vai dar”. Ao contrariar a unanimidade nacional e do planeta no monumental desafio do confinamento para conter a doença, e assim minimizar perdas humanas e econômicas, Bolsonaro o faz de caso pensado. Aposta no caos para consagrar o maquiavélico ardil de projetar-se como salvador de uma pátria em ruínas.
Ao final e ao cabo, imagina jogar no colo dos adversários a culpa pela recessão que avança a galope no lombo da covid-19. Tenha certeza: ele não está preocupado com a normalidade do mercado, muito menos com a ameaça à vida de quem quer que seja. Ao falar em interromper o isolamento por decreto (e foi alertado pela Justiça que não conseguiria levar adiante a ideia) e alegar que “infelizmente, algumas mortes ocorrerão, paciência!”, o mito das falanges milicianas move peças do tabuleiro, à sua maneira trôpega, levado tão somente pela obsessão cega da reeleição. Irresponsabilidade é a palavra que lhe cabe. Declarações como a de uma “mera gripezinha, que brevemente passará” ou a de que “é preciso enfrentar o vírus como homem, pô, e não como moleque”, superam a classificação de arroubos disparados ao léu. Fazem parte de um mosaico de demagogias, um script calculado, onde o argumento econômico serve apenas de instrumento para concretizar as ambições pessoais. Seriam os “moleques” as autoridades que, teoricamente, atrapalham o roteiro de estultices para asseverar 2022. Já o “homem”, ele, atleta e mito, destemido, sai às ruas, desrespeitando as regras e pondo em ameaça os próprios seguidores, porque é o herói redentor blindado, capaz de denunciar a existência de uma “histeria”, sem apresentar um único argumento técnico para ir na contramão das medidas tomadas no planeta. Dias atrás, na manobra mais arriscada, antes mesmo do desastrado pronunciamento em cadeia de rádio e TV onde incitava o rompimento da quarentena, Bolsonaro tentou cerrar fileiras com a caserna para conquistar, quem sabe, o aval a uma perigosa aventura de atropelo à Constituição.
Foi pensando nisso que falou em “flexibilizar” as regras de isolamento. Adiantando-se a ele, e assim sinalizando que os quartéis não compactuariam com a quebra da ordem, o comandante Edson Leal Pujol postou um vídeo nas redes sociais do Exército falando que os militares estavam a serviço da mobilização nacional contra o coronavírus. Foi um balde de água fria no intento do capitão. Em poucas horas, o vídeo alcançava 500 mil visualizações, em especial entre membros da tropa, formada por recrutas de baixa renda preocupados em atender as medidas sanitárias deliberadas pelas autoridades. Bolsonaro não se deu por vencido e, naquela mesma noite da divulgação do vídeo de Pujol, insistiu em aparecer fazendo o comunicado elaborado com a ajuda dos filhos. Os ministros militares do Palácio do Planalto desaconselharam o pronunciamento em tom provocativo e evitaram participar da sua feitura e gravação. O presidente não recuou. Foi adiante, não medindo consequências. Novamente, por opção própria, ficava mais uma vez sozinho e ridicularizado nos devaneios. Diante de tantos tropeços, hoje ele parece governar apenas no seu ambiente digital, habitado pela corriola de seguidores fanáticos. Ao tencionar relações com todos os demais poderes, aliados e mesmo apoiadores, perdeu rapidamente sustentação e não é levado a sério em nenhum círculo de Brasília. Governa como rainha da Inglaterra, sem influência e com baixa capacidade decisória. Tentou uma derradeira empreitada com uma campanha publicitária de mau gosto, elaborada às pressas pela Secom, na qual entoava o mantra de “O Brasil Não Pode Parar”. Queimou mais de R$ 4,8 milhões nas esquetes – no momento em que a estrutura médico/hospitalar necessita vitalmente de recursos — e buscou distribuí-los nas redes sociais, via robôs.
Foi logo tolhido pela Justiça, que proibiu a circulação da campanha. Humilhação maior ainda estava por vir. O Facebook, o Instagram e o Twitter, em simultâneo, decidiram retirar do ar, como forma de censura, alguns de seus posts, por distorcerem orientações oficiais de segurança sanitária consagradas no mundo. O capitão acabou por virar uma ameaça. O sisudo jornal britânico “The Guardian” apontou em editorial que Bolsonaro representa atualmente um “perigo para os brasileiros”. A revista americana “The Atlantic” o classificou como “o líder mundial da negação do coronavírus”. O semanário “The Economist” deu a ele a alcunha de “Bolsonero”, em alusão ao polêmico imperador que mandou incendiar Roma, enquanto o “The Washington Post” pediu abertamente em artigo o seu impeachment. Virar chacota global não parece ser um problema. Não pense que ele se incomoda com isso. No estilo tosco e desenfreado, que lhe é característico, deve estar até achando boa a notoriedade, mesmo que na condição de pária do mundo. Desalento e vergonha destruindo a autoestima nacional. O mais grave no espetáculo bizarro de desvarios do mandatário é que ele, decerto, se converteu numa ameaça pública, afrontando às orientações de especialistas de saúde e pondo em risco à vida daqueles que eventualmente pensam em seguir os seus conselhos. Ao instigar a desobediência civil contra o isolamento, Bolsonaro demonstrou que precisa ser contido o quanto antes pelas forças republicanas. Extrapola os poderes de um chefe de Estado, se comporta como líder de seita e seus crimes atravessam a esfera política para alcançar o plano de atentado à humanidade. Credenciais mais do que suficientes para encarar não apenas um processo de impeachment, já dado como inevitável mais cedo ou mais tarde, como também ações nas cortes internacionais, de Haia e mesmo da ONU, onde já vem sendo denunciado. A expectativa é que, daqui por diante, um núcleo de governabilidade seja montado para a travessia desse período turbulento, enquanto se aguarda a sua retirada.
Ao final e ao cabo, imagina jogar no colo dos adversários a culpa pela recessão que avança a galope no lombo da covid-19. Tenha certeza: ele não está preocupado com a normalidade do mercado, muito menos com a ameaça à vida de quem quer que seja. Ao falar em interromper o isolamento por decreto (e foi alertado pela Justiça que não conseguiria levar adiante a ideia) e alegar que “infelizmente, algumas mortes ocorrerão, paciência!”, o mito das falanges milicianas move peças do tabuleiro, à sua maneira trôpega, levado tão somente pela obsessão cega da reeleição. Irresponsabilidade é a palavra que lhe cabe. Declarações como a de uma “mera gripezinha, que brevemente passará” ou a de que “é preciso enfrentar o vírus como homem, pô, e não como moleque”, superam a classificação de arroubos disparados ao léu. Fazem parte de um mosaico de demagogias, um script calculado, onde o argumento econômico serve apenas de instrumento para concretizar as ambições pessoais. Seriam os “moleques” as autoridades que, teoricamente, atrapalham o roteiro de estultices para asseverar 2022. Já o “homem”, ele, atleta e mito, destemido, sai às ruas, desrespeitando as regras e pondo em ameaça os próprios seguidores, porque é o herói redentor blindado, capaz de denunciar a existência de uma “histeria”, sem apresentar um único argumento técnico para ir na contramão das medidas tomadas no planeta. Dias atrás, na manobra mais arriscada, antes mesmo do desastrado pronunciamento em cadeia de rádio e TV onde incitava o rompimento da quarentena, Bolsonaro tentou cerrar fileiras com a caserna para conquistar, quem sabe, o aval a uma perigosa aventura de atropelo à Constituição.
Foi pensando nisso que falou em “flexibilizar” as regras de isolamento. Adiantando-se a ele, e assim sinalizando que os quartéis não compactuariam com a quebra da ordem, o comandante Edson Leal Pujol postou um vídeo nas redes sociais do Exército falando que os militares estavam a serviço da mobilização nacional contra o coronavírus. Foi um balde de água fria no intento do capitão. Em poucas horas, o vídeo alcançava 500 mil visualizações, em especial entre membros da tropa, formada por recrutas de baixa renda preocupados em atender as medidas sanitárias deliberadas pelas autoridades. Bolsonaro não se deu por vencido e, naquela mesma noite da divulgação do vídeo de Pujol, insistiu em aparecer fazendo o comunicado elaborado com a ajuda dos filhos. Os ministros militares do Palácio do Planalto desaconselharam o pronunciamento em tom provocativo e evitaram participar da sua feitura e gravação. O presidente não recuou. Foi adiante, não medindo consequências. Novamente, por opção própria, ficava mais uma vez sozinho e ridicularizado nos devaneios. Diante de tantos tropeços, hoje ele parece governar apenas no seu ambiente digital, habitado pela corriola de seguidores fanáticos. Ao tencionar relações com todos os demais poderes, aliados e mesmo apoiadores, perdeu rapidamente sustentação e não é levado a sério em nenhum círculo de Brasília. Governa como rainha da Inglaterra, sem influência e com baixa capacidade decisória. Tentou uma derradeira empreitada com uma campanha publicitária de mau gosto, elaborada às pressas pela Secom, na qual entoava o mantra de “O Brasil Não Pode Parar”. Queimou mais de R$ 4,8 milhões nas esquetes – no momento em que a estrutura médico/hospitalar necessita vitalmente de recursos — e buscou distribuí-los nas redes sociais, via robôs.
Foi logo tolhido pela Justiça, que proibiu a circulação da campanha. Humilhação maior ainda estava por vir. O Facebook, o Instagram e o Twitter, em simultâneo, decidiram retirar do ar, como forma de censura, alguns de seus posts, por distorcerem orientações oficiais de segurança sanitária consagradas no mundo. O capitão acabou por virar uma ameaça. O sisudo jornal britânico “The Guardian” apontou em editorial que Bolsonaro representa atualmente um “perigo para os brasileiros”. A revista americana “The Atlantic” o classificou como “o líder mundial da negação do coronavírus”. O semanário “The Economist” deu a ele a alcunha de “Bolsonero”, em alusão ao polêmico imperador que mandou incendiar Roma, enquanto o “The Washington Post” pediu abertamente em artigo o seu impeachment. Virar chacota global não parece ser um problema. Não pense que ele se incomoda com isso. No estilo tosco e desenfreado, que lhe é característico, deve estar até achando boa a notoriedade, mesmo que na condição de pária do mundo. Desalento e vergonha destruindo a autoestima nacional. O mais grave no espetáculo bizarro de desvarios do mandatário é que ele, decerto, se converteu numa ameaça pública, afrontando às orientações de especialistas de saúde e pondo em risco à vida daqueles que eventualmente pensam em seguir os seus conselhos. Ao instigar a desobediência civil contra o isolamento, Bolsonaro demonstrou que precisa ser contido o quanto antes pelas forças republicanas. Extrapola os poderes de um chefe de Estado, se comporta como líder de seita e seus crimes atravessam a esfera política para alcançar o plano de atentado à humanidade. Credenciais mais do que suficientes para encarar não apenas um processo de impeachment, já dado como inevitável mais cedo ou mais tarde, como também ações nas cortes internacionais, de Haia e mesmo da ONU, onde já vem sendo denunciado. A expectativa é que, daqui por diante, um núcleo de governabilidade seja montado para a travessia desse período turbulento, enquanto se aguarda a sua retirada.
Chacota na Presidência
O presidente de uma nação não pode confrontar a ciência e o bem-estar de seus cidadãos. Além disso, ele está minando a própria popularidade e causando divisões dentro da base de apoio à agenda de reformas econômicas no Congresso Nacional, o que pode conduzi-lo ao impeachment. No plano internacional, ele virou motivo de chacotaIan Bremmer, presidente e fundador da Eurasia Group, considerada a principal consultoria de risco político do mundo
Nau sem comando
Coesão, perseverança e equilíbrio são fatores fundamentais para o Brasil enfrentar a pandemia do coronavírus. Ao presidente competiria usar a autoridade que a Constituição lhe confere para liderar os brasileiros nessa dura travessia. A missão de comandar é indelegável, quanto mais em tempos de guerra. O Covid-19 pode provocar a morte de 110 mil brasileiros nos próximos meses e a recessão bate à nossa porta. O Brasil, portanto, não precisa que se instale uma crise de autoridade em um quadro tão dantesco.
Infelizmente já está posta, como evidencia o demite-não-demite do ministro da Saúde. O comportamento errático de Jair Bolsonaro, sua falta de foco na defesa da vida e da sobrevivência das pessoas passam para a sociedade a imagem de um presidente emparedado pelos outros dois poderes e por ministros moderados que ora atuam como bombeiros, ora para reduzir danos.
O mais comezinho direito de um presidente é o de nomear e demitir. O de Bolsonaro foi posto em xeque em função de suas tentativas atabalhoadas de livrar-se do ministro que lhe faz sombra. Não que Luiz Henrique Mandetta seja insubstituível ou que sua condução no combate ao coronavírus seja isenta de críticas.
O efeito mais perverso da crise de autoridade é a existência de um governo desarticulado. Ou melhor, de um governo desgovernado. É como se as ações dos diversos ministérios não tivessem relação entre si e inexistisse uma coordenação para dar coerência e eficácia a ação governamental. Não se pede ao presidente que seja o braço operativo dessa coordenação, mas a missão de dar um norte deveria ser dele e de mais ninguém.
Há um conjunto de necessidades que exigem uma ação articulada e transversal. Os desafios são muitos e as carências imensas.
Infelizmente já está posta, como evidencia o demite-não-demite do ministro da Saúde. O comportamento errático de Jair Bolsonaro, sua falta de foco na defesa da vida e da sobrevivência das pessoas passam para a sociedade a imagem de um presidente emparedado pelos outros dois poderes e por ministros moderados que ora atuam como bombeiros, ora para reduzir danos.
O mais comezinho direito de um presidente é o de nomear e demitir. O de Bolsonaro foi posto em xeque em função de suas tentativas atabalhoadas de livrar-se do ministro que lhe faz sombra. Não que Luiz Henrique Mandetta seja insubstituível ou que sua condução no combate ao coronavírus seja isenta de críticas.
Mas só se demite um general em campo de batalha quando sua estratégia pode levar à derrota ou à desagregação de suas forças. Não é que vem acontecendo com o desempenho de Mandetta, cuja estratégia encontra-se respaldada pela Organização Mundial da Saúde. O ministro acerta quando se pauta pela ciência. É recomendável que não desperdice energias em uma “guerra de estrelas”.
O efeito mais perverso da crise de autoridade é a existência de um governo desarticulado. Ou melhor, de um governo desgovernado. É como se as ações dos diversos ministérios não tivessem relação entre si e inexistisse uma coordenação para dar coerência e eficácia a ação governamental. Não se pede ao presidente que seja o braço operativo dessa coordenação, mas a missão de dar um norte deveria ser dele e de mais ninguém.
Há um conjunto de necessidades que exigem uma ação articulada e transversal. Os desafios são muitos e as carências imensas.
Como fazer para suprir a falta de EPIs ou reorientar a produção nacional para uma “economia de guerra”, capaz de responder por exemplo à demanda por respiradores mecânicos, são questões sem respostas. Também não se sente um esforço conjunto do governo federal para criar novos leitos e UTIs, bem como para avanços de pesquisas em busca de remédios e vacina para o coronavírus.
O general Braga Neto foi indicado para coordenar e dar sentido orgânico à ação de todas as pastas. Teoricamente é capacitado para a missão, por sua experiência como planejador, mas é visível que falta ao governo um Pedro Parente. Mais ainda falta um presidente como Fernando Henrique Cardoso, capaz de tornar menores as crises que adentram o Palácio do Planalto.
A quebra da autoridade presidencial traz consigo o germe da anarquia. O exemplo mais deletério vem do ministro da Educação, Abraham Weintraub, sem a menor noção do papel institucional de um ministro de Estado. Irresponsavelmente, contrariou os interesses nacionais com sua mensagem racista em relação aos chineses.
A China é o maior produtor mundial dos insumos médicos tão necessários para nosso sistema de saúde não colapsar. É nosso principal comercial, seu mercado é estratégico para a soja brasileira, que sofre concorrência agressiva dos Estados Unidos. Pois bem, enquanto a ministra da Agricultura, Tereza Cristina Dias, e o vice presidente da República, Hamilton Mourão, atuam para preservar os interesses brasileiros, Weintraub, por motivos ideológicos, opera para implodir as relações com a China. De que lado está Bolsonaro neste embate? Seu silêncio sepulcral é sintomático e preocupante.
Em jogo não está apenas a autoridade da figura Bolsonaro. Está a autoridade da instituição Presidência da República. Restaurá-la é fundamental, se quisermos vencer a guerra contra o coronavírus.
Não será reconstruída, contudo, à base do “prendo e arrebento” do general Figueiredo. Ou por uma canetada que jogue fora o esforço da sociedade e o bom trabalho realizado pela pasta da Saúde. Exigirá espírito de liderança, resiliência, autorregulação, inteligência emocional, requisitos ausentes no presidente.
A despeito de o leme estar em mãos trêmulas, vamos ter de nos reinventar para atravessar a tempestade do coronavírus. E triplicar esforços para evitar que a nau afunde.Hubert Alquéres
O general Braga Neto foi indicado para coordenar e dar sentido orgânico à ação de todas as pastas. Teoricamente é capacitado para a missão, por sua experiência como planejador, mas é visível que falta ao governo um Pedro Parente. Mais ainda falta um presidente como Fernando Henrique Cardoso, capaz de tornar menores as crises que adentram o Palácio do Planalto.
A quebra da autoridade presidencial traz consigo o germe da anarquia. O exemplo mais deletério vem do ministro da Educação, Abraham Weintraub, sem a menor noção do papel institucional de um ministro de Estado. Irresponsavelmente, contrariou os interesses nacionais com sua mensagem racista em relação aos chineses.
A China é o maior produtor mundial dos insumos médicos tão necessários para nosso sistema de saúde não colapsar. É nosso principal comercial, seu mercado é estratégico para a soja brasileira, que sofre concorrência agressiva dos Estados Unidos. Pois bem, enquanto a ministra da Agricultura, Tereza Cristina Dias, e o vice presidente da República, Hamilton Mourão, atuam para preservar os interesses brasileiros, Weintraub, por motivos ideológicos, opera para implodir as relações com a China. De que lado está Bolsonaro neste embate? Seu silêncio sepulcral é sintomático e preocupante.
Em jogo não está apenas a autoridade da figura Bolsonaro. Está a autoridade da instituição Presidência da República. Restaurá-la é fundamental, se quisermos vencer a guerra contra o coronavírus.
Não será reconstruída, contudo, à base do “prendo e arrebento” do general Figueiredo. Ou por uma canetada que jogue fora o esforço da sociedade e o bom trabalho realizado pela pasta da Saúde. Exigirá espírito de liderança, resiliência, autorregulação, inteligência emocional, requisitos ausentes no presidente.
A despeito de o leme estar em mãos trêmulas, vamos ter de nos reinventar para atravessar a tempestade do coronavírus. E triplicar esforços para evitar que a nau afunde.Hubert Alquéres
Malditas redes
Além de facilitar de maneira extraordinária as comunicações planetárias, as redes sociais deram voz a quem não as tinha, ou que não conseguiam expandi-la de maneira a alcançar mais do que seu círculo íntimo. Foi uma extraordinária revolução que mudou a forma das pessoas pensarem e agirem e transformou a indústria. Mais diretamente as indústrias das comunicações e das telecomunicações, mas todas as outras sofreram consequências, muitas de maneira positiva. No Brasil, apesar de reveses por abusos contra a livre concorrência e pela disseminação de mentiras, tudo ia relativamente bem, até chegarem Jair Bolsonaro, seus filhos e o gabinete do ódio.
A onda global de fake news que causa forte impacto sobre as redes, sobretudo na Europa, produzindo um enorme dano às suas imagens, não pode ser comparada ao que se viu no Brasil destes últimos dias. Em todo o mundo as pessoas passaram a buscar informações sobre o coronavírus em fontes confiáveis, nos veículos profissionais de notícia, com medo de se contaminarem pelas fakes disseminadas. Aqui, a avalanche de mentiras é tão grande e contínua que as redes acabaram sendo desmoralizadas. O efeito dessa onda é de tal maneira devastador que até mesmo um post do presidente da República foi retirado do ar pelo Facebook por ser mentiroso, mas apenas depois de causar enorme estrago.
Além da imprensa e de partidos de oposição a Bolsonaro, esse ódio alcança também os poderes Legislativo e Judiciário. A mais nova peça distribuída é a que indaga por que deputados e senadores não abrem mão de seus salários e suas vantagens por exercício de função e redirecionam esse dinheiro para o combate ao vírus. É ridículo, mas tem gente que acredita, sem fazer os devidos cálculos, que o volume de recursos (de alguns milhões de reais) que seria alcançado com a medida exótica poderia resolver a guerra (de muitos bilhões de reais) contra o flagelo.
A onda global de fake news que causa forte impacto sobre as redes, sobretudo na Europa, produzindo um enorme dano às suas imagens, não pode ser comparada ao que se viu no Brasil destes últimos dias. Em todo o mundo as pessoas passaram a buscar informações sobre o coronavírus em fontes confiáveis, nos veículos profissionais de notícia, com medo de se contaminarem pelas fakes disseminadas. Aqui, a avalanche de mentiras é tão grande e contínua que as redes acabaram sendo desmoralizadas. O efeito dessa onda é de tal maneira devastador que até mesmo um post do presidente da República foi retirado do ar pelo Facebook por ser mentiroso, mas apenas depois de causar enorme estrago.
Membros de grupos de WhatsApp raramente recebem alguma coisa de primeira mão. Quando não é uma mensagem pessoal, quase tudo chega por redirecionamento. Fora as piadas, as orações e as sacanagens, o que mais se vê hoje em dia são campanhas contra o confinamento. Mesmo não se conseguindo identificar o autor material da obra, sabe-se perfeitamente quem teve a ideia e a quem ela serve. Os objetos da sua ira são quase sempre os mesmos, com destaque para a mídia. Geralmente são ataques rasos e burros, mas ainda assim há militantes cegos que os distribuem.
Além da imprensa e de partidos de oposição a Bolsonaro, esse ódio alcança também os poderes Legislativo e Judiciário. A mais nova peça distribuída é a que indaga por que deputados e senadores não abrem mão de seus salários e suas vantagens por exercício de função e redirecionam esse dinheiro para o combate ao vírus. É ridículo, mas tem gente que acredita, sem fazer os devidos cálculos, que o volume de recursos (de alguns milhões de reais) que seria alcançado com a medida exótica poderia resolver a guerra (de muitos bilhões de reais) contra o flagelo.
Mais uma vez, não precisa ser gênio para saber quem produziu essa pérola e quais os instrumentos usados para a sua distribuição. São os de sempre, os que culpam Congresso, Supremo e imprensa pelo fracasso extraordinário de um dos piores e mais absurdos presidentes da História do Brasil. Como todo o material é distribuído por uma rede eficientíssima de robôs, mais cedo ou mais tarde essas barbaridades vão acabar em seu celular, encaminhados por membro desatento de um de seus grupos.
É verdade que de um lado as redes têm altíssimo valor nessa pandemia, sendo usadas pelos entes oficiais da saúde para se comunicar e por empresas para se conectar e atender aos seus clientes. Por outro lado, elas têm sido instrumento para difundir contrainformações que podem resultar até em mortes. O fato é que por isso as pessoas começam a se desligar. Pode ser difícil, para alguns será como mergulhar no mar numa noite escura. Mas um pouco mais de cuidado com o que se lê e com o que se compartilha não fará mal a ninguém. Em alguns casos, é melhor cair fora mesmo.
Post Scriptum
Post Scriptum
Talvez não explique por que os Estados Unidos são líderes de casos e mortes por coronavírus, mas uma visita a qualquer aplicativo de voos em tempo real, como o “Aviões ao Vivo”, pode dar uma boa pista. No Brasil, ontem, às 12h34m, havia 18 aviões voando. Na Índia, quatro aviões ocupavam o espaço aéreo. Na Itália, havia dois, na França, sete. E nove sobrevoavam a Inglaterra. Nos Estados Unidos, era impossível contar, porque somavam centenas.
Ascânio Seleme
Ascânio Seleme
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