quinta-feira, 12 de março de 2020

Amazônia pode entrar em colapso em 50 anos

É possível que a Amazônia e outros grandes ecossistemas do mundo entrem em colapso mais rápido do que os cientistas previram anteriormente. A Floresta Amazônica está se aproximando de um ponto sem retorno, que, se ultrapassado, pode transformá-la numa savana dentro de 50 anos, aponta um estudo divulgado na terça-feira.

Outro grande ecossistema, os recifes de corais do Caribe, pode vir a desaparecer em apenas 15 anos se passar de seu próprio ponto sem retorno, ou seja, se sofrer mudanças irreversíveis, alertaram cientistas na revista científica Nature Communications.

O colapso desses ecossistemas teria graves consequências para a humanidade e outras espécies. Tanto para a Amazônia quanto para os corais, a projeção para o ponto sem retorno foi feita com base no aquecimento global e em danos ao meio ambiente – desmatamento, no caso da floresta, e poluição e acidificação, no caso dos corais.

"As mensagens aqui são duras. Precisamos nos preparar para mudanças dos ecossistemas do nosso planeta que são mais rápidas do que previmos anteriormente", afirmou um dos autores do estudo, John Dearing, professor da Universidade de Southampton, no Reino Unido.


Para outro dos autores, Simon Willcock, professor da Escola de Ciências Naturais da Universidade Bangor, também no Reino Unido, incêndios de grandes proporções recentes na Amazônia e na Austrália – que seriam mais prováveis de ocorrer devido às mudanças climáticas – sugerem que muitos ecossistemas estão "à beira do precipício".

Segundo os cientistas, o ecossistema amazônico poderia ultrapassar o ponto sem volta já a partir de 2021. A equipe de pesquisadores conclui que, enquanto grandes ecossistemas levam mais tempo para chegar ao chamado ponto sem retorno, uma vez que ele é alcançado, o ritmo em que a degradação ocorre é significativamente mais rápido do que o verificado em ecossistemas menores.

Os pesquisadores atribuem isso ao fato de ecossistemas maiores serem compostos por mais subsistemas de espécies e habitats. Esse conjunto inicialmente fornece resiliência, mas uma vez passado certo limite, faz se acelere o ritmo em que os ecossistemas se degradam. Isso significaria que ecossistemas que existem há milhares de anos podem entrar em colapso em menos de 50.

Um total de 42 ecossistemas de vários tamanhos foi analisado no estudo – quatro terrestres, 25 marinhos e 13 de água doce. Apesar de uma série de cientistas não envolvidos na pesquisa endossar sua metodologia e reforçar a urgência de proteger ecossistemas mundo afora, alguns questionaram se as conclusões podem ser aplicadas à Amazônia.

Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Oxford e Lancaster, disse que o estudo foi prejudicado pelo fato de os autores incluírem apenas quatro ecossistemas terrestres, nenhum deles uma floresta tropical.

"É muito improvável, se não até distópico, esperar que uma área com metade do tamanho da Europa passe por uma mudança completa de vegetação em apenas 50 anos", disse Berenguer. "Não há dúvida de que a Amazônia está muito ameaçada e que um ponto sem retorno é provável, mas alegações infladas como esta não ajudam nem a ciência nem a política."

Alexandre Antonelli, diretor científico do Royal Botanic Gardens (Kew Gardens) de Londres, classificou como assustadoras as conclusões do estudo: "A menos que se adotem ações urgentes, podemos estar prestes a perder a maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo, que evoluiu ao longo de pelo menos 58 milhões de anos e sustenta a vida de dezenas de milhares de seres humanos."

"Estas descobertas são mais um alerta para conter os danos impostos aos nossos ambientes naturais, e que empurram os ecossistemas a os seus limites", conclui Dearing.

O ministro que manipula a Bíblia para criar ódio político

Não se trata de um ministro qualquer, mas do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que carrega sobre seus ombros a enorme responsabilidade de formar milhões de crianças e jovens para o futuro da nação. O ministro, por ocasião de um encontro em Brasília promovido pela ONG Todos pela Educação, além de fazer ironias sobre o coronavírus, que pode ter infectado a organizadora do evento, Priscila Cruz, uma das figuras mais destacadas do mundo do ensino, ainda se serviu da Bíblia para recordar a ira de Deus.

Tirando do contexto o salmo bíblico “O Senhor fará recair sobre eles sua própria iniquidade, e os destruirá em sua própria malícia; o Senhor nosso Deus os destruirá” (Salmos, 94,23), ele manipulou os livros sagrados para semear ódio político.

O ministro, que parece conhecer a Bíblia, deveria saber que sua citação se refere a um versículo do Antigo Testamento, o do Deus ainda vingativo, que proclamava a destruição do inimigo, e que não é possível lê-lo hoje sem levar em conta o Novo Testamento, que é o ponto culminante do Velho, no qual a Humanidade dá o salto quântico do "olho por olho, dente por dente" para o da misericórdia, do perdão aos inimigos e do amor universal. Qualquer outro uso político das Sagradas Escrituras, e mais ainda em um Estado laico, é ferir a democracia e buscar semear a cizânia para manter os brasileiros divididos.

Se a religião, seja ela qual for, não servir para defender os princípios da liberdade e defesa dos marginalizados e não contribuir para manter vivos os valores da civilização, conquistados com tanta dor ao longo dos séculos, servirá apenas como instrumento de dominação e divisão. A essência de qualquer contato com a divindade ou é libertadora ou conduz à alienação que profana a Humanidade.

Enquanto em Brasília o ministro da Educação caía na pequenez de querer ofender uma militante que talvez não comungue de seus princípios políticos, chegando a invocar contra ela a ira e o castigo de Deus, no Rio, um programa da TV Globo sobre a vida dura dos transexuais na prisão despertou a ira dos intransigentes ao lembrar o “olho por olho” à la Weintraub. Foi por ocasião da participação do médico Drauzio Varella, que levou ao programa sua grande experiência profissional de aliviar a dor nas prisões e denunciar os possíveis abusos cometidos com os presos.

Se em um primeiro momento o relato do médico sobre uma trans, que ele acabara de visitar na prisão, despertou a solidariedade de milhares de brasileiros que ficaram sabendo que a detenta estava ali havia anos sem nunca ter recebido uma visita, e a quem Varella chegou a abraçar para confortá-la na sua solidão, uma tempestade imediatamente caiu sobre ele quando se descobriu algo que ele na ocasião ignorava. A detenta tinha cometido um crime terrível, estuprado e matado uma criança, um pecado pelo qual foi condenada e está pagando na prisão.

O médico quis lembrar que vai às prisões não como juiz ou advogado, mas como médico, para ajudar os presos. E um profissional não pode parar de curar um doente quaisquer que sejam os crimes que possa ter cometido.

E é aqui onde se cruzam as maldições do ministro da Educação contra aqueles que não pensam como ele, para os quais evoca o castigo de Deus, com a indignação contra o doutor Drauzio Varella.

Já que convivemos com um Governo cujo lema é “Deus acima de tudo”, e no qual os ministros evocam o Antigo Testamento para justificar sua semeadura de ódio político contra aqueles que não pensam como eles, também devemos lembrar aqui que os Evangelhos, que também fazem parte da Bíblia cristã, propõem um Deus diametralmente oposto à fúria escatológica dos seguidores do presidente Bolsonaro.

Basta lembrar que as maldições do profeta Jesus, que anunciava um mundo oposto ao antigo, da ira e da vingança, eram só contra a hipocrisia dos fariseus e a opressão dos poderosos, nunca contra os pecadores. Quando abraçava e curava os leprosos não lhes perguntava se antes tinham matado alguém. Sua compaixão diante da dor já revelava o nascimento de uma sociedade baseada na compaixão e no perdão em vez do ódio ou da vingança.

Para os homens que pediram a pena de morte contra a mulher apanhada em adultério, Jesus os provocou dizendo "quem de vocês estiver livre de pecado atire a primeira pedra contra ela". Todos se foram, “a começar pelos mais velhos”, narra o evangelista.

Se Jesus tivesse visitado hoje a trans presa por seu crime, certamente o teria feito não para lembrá-la de seu pecado, pelo qual já está pagando, mas para lembrá-la de que não estava sozinha na vida e que a misericórdia de Deus era maior que a justiça dos homens.

Na parábola do fariseu e o publicano, Jesus tomou a defesa do publicano, que, no último banco do templo, pedia perdão a Deus por seus pecados, e condenou a soberba do fariseu que se vangloriava, proclamando: "Eu não sou um pecador como esse publicano".

Uma das obras de misericórdia do cristianismo é “visitar os prisioneiros”. E esse trabalho de misericórdia não discrimina a culpa maior ou menor dos detidos, pois olha apenas para solidão que eles têm que suportar para expiar seu pecado.

Fui testemunha, como jornalista, da famosa visita do papa João XXIII à prisão de Regina Coeli, em Roma, destinada então a presos condenados à prisão perpétua. Portanto, seus crimes deviam ser gravíssimos. O Papa, misturando-se com os prisioneiros, abraçou-os, abençoou-os e até lhes recordou que alguns deles poderiam estar ali injustamente por algum erro da Justiça. Ele não foi lá para absolvê-los nem voltar a condená-los, já que isso era função da justiça dos homens. Foi confortá-los. Lembro-me de ter visto mais de um dos prisioneiros chorando.

E o papa João Paulo II foi a uma prisão para encontrar Ali Agca, o jovem turco que atirou nele e o colocou à beira da morte. Acabou pedindo às autoridades civis que ele fosse perdoado.

A justiça de Deus nem sempre coincide com a dos homens e ninguém tem o direito, e menos ainda na política, de invocar o nome de Deus para castigar ou pedir os castigos do céu contra ninguém. O resto é profanar os textos sagrados.
Juan Arias

quarta-feira, 11 de março de 2020

Tática kamikaze de Bolsonaro pode deixar presidente só no palco

Bolsonaro, como se sabe, está em conflito com o Congresso e dobrou a aposta no radicalismo de sua base mais aguerrida.

Explicitou o apoio que antes negara ao protesto de domingo (15), fazendo um “hedge” ao dizer que ele também deveria ser um dos cobrados.</p>

Não enganou ninguém. A manifestação democrática a que se refere, da voz do povo como dizem seus apoiadores, tem como itens centrais o palavrão dito pelo general Augusto Heleno, a crítica ao Congresso e mesuras como o fechamento de instituições.

Claro que direito de ir à rua é livre. Cabe lembrar que os protestos que ajudaram a derrubar Dilma Rousseff no biênio 2015-16 também incluíam em suas franjas toda sorte de boitatás que hoje proliferaram e viraram majoritários numa certa direita brasileira: defensores de intervenção militar, gente que celebra a suspeita de coronavírus se a vítima for alguém de quem não gosta, por aí vai.

Mas o centro das manifestações, concorde-se ou não com elas, nunca esteve nesse pessoal. Havia um caldo de insatisfação antipolítica brotado em 2013</a> associado à hecatombe econômica dilmista.

Já o ato insuflado pelo presidente orbita a acusação de um Poder contra outros. Isso para não falar nas bolas extras ofertadas pelo presidente, como a bizarra acusação de fraude sobre o Tribunal Superior Eleitoral. Ponto.

Que Bolsonaro levará gente à rua, há poucas dúvidas, ele ainda tem um naco respeitável do eleitorado. Será uma estrondosa demonstração de apoio popular à agenda do presidente contra a malvada classe política?

Parece improvável, a começar pelo fato de que ninguém sabe de que agenda se trata, fora os delírios e os retrocessos. O engasgo econômico atinge diretamente a classe média que costuma ir a essas manifestações. Já as reformas, bem, nessas nem mesmo os antes empolgados operadores da Faria Lima têm colocado muita fé.

Tanto é assim que os alvos potenciais estão quietos, apostando em que a coisa se esvaia de forma natural. A ver.

Segundo essa leitura, novamente o presidente emula seu antípoda, Lula. O petista passou anos ameaçando o uso do “exército do Stédile” para ficar na massa de manobra miserável do campo, para impressionar elites, políticos e os militares ora sequestrados pelo bolsonarismo. Era nada, vento.

O que o presidente faz é assoprar a brasa antiestablishment que tão bem operou em 2018.

A questão é a percepção de que isso já não é suficiente ante a incapacidade do governo de encarar de forma adulta o desafio de lidar com nossos problemas enquanto o mundo desaba sob as brumas apocalípticas do coronavírus, da guerra do petróleo e todo o mais.

O bolsonarismo mais ideológico, com o perdão às ideologias, sempre gostou desse tom de “Götterdämmerung” inevitável, de embates épicos comandados por seu líder, da mística do sangue derramado em Juiz de Fora.
 
Muitos políticos ainda creem ser possível uma reversão parcial do quadro, justamente por compartilhar com os governadores supracitados a falta de ânimo com uma ruptura maior. É uma abordagem prudente. Mas se insistir na rota atual, Bolsonaro poderá cumprir a previsão dos chefes estaduais e acabar sozinho no palco, num teatro esvaziado.

Pensamento do Dia


O plano de Bolsonaro para ficar no cargo mesmo se não for reeleito

Se Jair Bolsonaro diz que houve fraude na eleição presidencial que ganhou, o que dirá se perder a próxima?

Em conversas reservadas com alguns dos seus auxiliares, ele já adiantou o que pretende dizer nesse caso.

Se perder para um candidato de esquerda ou apoiado por ela, não reconhecerá o resultado da eleição ... e, aí, seja o que Deus quiser.

O que Deus quiser, não. Melhor deixar Deus fora disso. Bolsonaro imagina que terá força para ficar onde está para além de 2022.


Manobra vagamente parecida foi tentada pelo ex-presidente Jânio Quadros, eleito com larga margem de vantagem no final de 1960.

Jânio viveu às turras com o Congresso e surpreendeu o país renunciando ao cargo apenas oito meses mais tarde.
Seus ministros militares tudo fizeram para demovê-lo da ideia. Jânio voltou a São Paulo levando escondida a faixa presidencial.

Estava certo de que o povo se rebelaria e que ele acabaria de volta ao cargo com poderes para impor suas vontades ao Congresso.

Nada disso aconteceu, mas a renúncia detonou uma grave crise institucional que por pouco não resultou num golpe militar.

O golpe se daria três anos depois com a queda de João Goulart, que sucedera Jânio, e a instalação de uma ditadura de 21 anos.

Bolsonaro admite que se for derrotado por um candidato do centro seu plano naufragará, por isso quer enfrentar a esquerda outra vez.

Seguirá atirando nela, mas empenhado em abater a pauladas qualquer nome do centro que possa lhe fazer sombra.

Tal plano está longe de ser sofisticado, é claro. Mas é o que está na cabeça do presidente mais tosco que este país já teve.
Ricardo Noblat

Marolinha tá de volta

Enquanto o mundo desce, o Brasil vai começar a reaceleração do crescimento
Paulo Guedes, ministro da Economia

Mecânica do poder

Tem sido difícil ajudar o Guedes, é o que se houve aqui e ali entre intelectuais vinculados às atividades econômicas. Na área acadêmica a antipatia é esperada, pela linguagem coercitiva e disciplinar característica do governismo atual. Presume-se que a defesa do liberalismo não visa unicamente a mudar as habilidades no trato da política pública, mas a fazer um pensamento econômico mais obediente, quanto mais útil, à mecânica do poder.

Do lado dos simpáticos, mas críticos, mesmo sabendo que a política é um jogo de espaços, as maneiras do governo revelam uma natureza ligada a uma imodéstia que pouco ajuda. Uns lembram que em tudo há uma arte, até mesmo para cortar as pedras. Com o continuado cenário de incerteza, com forte característica de risco e a má conduta da economia, melhor não exagerar e pedir ao País que se comporte como adulto por um tempo infinitamente excessivo. Pois adversário do melhor ambiente de negócios tem sido a compulsão do governo por selfies e lives, explorações infantis de si mesmo. Fogo de artifício que costuma queimar o fogueteiro.

O presidente quer construir um campo de provas desconhecido para operar seu governo. A convocação dos desfiles de domingo – com tanta antecedência não é uma manifestação – continua tendo objetivos ocultos e visa a compensar a dispersão administrativa. A ideia de renovação por crise permanente sugere levar o atrito institucional ao limite para mudar peças na anatomia do poder. Convidando militares da ativa para se tornarem ministros, a digital das Forças Armadas na política já é fato.


O resultado econômico não produz convicção e revela um paradoxo. Como a economia perde giro, ao contrário do que se pensava após as reformas da Previdência e trabalhista, além de o governo não saber explicar por que os investidores não aparecem, a expectativa se ancora cada vez mais na política. Isso só reforça a crise institucional e joga risco excessivo num governo especialista em enredos secundários. Como a equipe econômica é teórica, insensível à desigualdade social, subestima a política e tem certa má vontade com dificuldades, a confusão prospera. É exemplar a entrelinha da questão dos dois PIBs. Traduzindo: o Estado não é mais o País, mas um setor da sociedade cujo PIB ruim bota a economia para baixo. O discurso moral que brota daí incluí escolha ficcional envernizada para fazer a propaganda do PIB bom, o privado, o que bota a economia para cima. Conclusão: não há necessidade de reforma para o País crescer 3%.

Tudo pode ser intensificado na medida em que o governo, ambíguo, acusa o Congresso pelos acordos que lhe dão vitória. Na dúvida, melhor falar a verdade e dizer como negocia, reconhecendo a legitimidade do Parlamento. Ou continua fora do tom e do foco, ampliando a insegurança geral.

Esse confronto com a política, assim como o baixo desempenho econômico e a dificuldade de gerir uma pasta tão grande é que podem estar provocando estresse extremo no ministro. Que não tem o que reclamar do presidente Rodrigo Maia, seu maior fiador e apoio para acalmar o Congresso e o mercado. Em suma, o presidente precisa ajustar o caminho este ano se quiser um terceiro ano diferente, em que o País possa colher os resultados que o governo prometeu. Mas como este ano temos eleições municipais e ele parece indiferente a elas, para seus adversários é agora que começa a sucessão de 2022.

O governo precisa se livrar do tempo perdido e diminuir a agenda de enfrentamento com o Legislativo e o Judiciário para não parecer que põe a culpa nos outros por interesse próprio. E, finalmente, ter criatividade para parar de rir do PIB e liberar recursos para investimento, mantendo a âncora fiscal. Sem se esquecer de que tem de enfrentar a responsabilidade de obedecer a todo o rito formal para isso. Por exemplo, em infraestrutura, só se pode falar em parcerias público-privadas (PPPs) e concessões depois de os recursos alocados percorrerem os longos passos burocráticos – estudo, audiência, Tribunal de Contas da União, edital, leilão e contrato.

Muita coisa para um governo que convoca um humorista para responder sobre o baixo crescimento do PIB e apresenta o fato como galhofa – o humor sempre foi o outro lado do trágico, uma forma de lidar com o mal-estar. Rir em velório tanto pode ser incongruência como transgressão. Há quem ria por submissão quando ameaçado por algo que parece dominante. Mas rir do abismo pode ser um desejo de amortecer a queda. Um alerta à equipe econômica, que está cada vez mais sem fio terra e indiferente ao potencial energético do chão.

Nesse cenário de sombras, parece ilusionismo achar que ao governo importa a aprovação da reforma tributária ou mesmo a administrativa neste ano. Especialmente se se repetir a pior das tradições do Parlamento e deputados e senadores decidirem disputar eleições municipais para manterem seu poder local. Assim, se surgirem mais de 20% de candidatos a prefeito ou vice, o ano acaba em julho.

Por tudo o que se vê, “é a economia, estúpido” não é nosso slogan. O slogan é a estupidez da política, o caminho que o Brasil escolheu para fracassar.

Apelo às massas

Com o restabelecimento do presidencialismo em janeiro de 1963 e a ampliação dos poderes do presidente João Goulart — que havia assumido o cargo após a renúncia de Jânio Quadros, não sem antes ter que derrotar uma tentativa de golpe militar para impedir sua posse —, a implementação das chamadas reformas de base passou a ser o eixo da disputa política nacional. Goulart apresentou às lideranças políticas um anteprojeto de reforma agrária que previa a desapropriação de terras com título da dívida pública, o que forçosamente obrigava a alteração constitucional. Uma segunda iniciativa para agilizar a agenda das reformas foi o encaminhamento de uma emenda constitucional, que propunha o pagamento da indenização de imóveis urbanos desapropriados por interesse social, com títulos da dívida pública.

Essas propostas, porém, não foram aprovadas pelo Congresso Nacional, o que provocou forte reação por parte dos grupos de esquerda, inclusive nas Forças Armadas. Em setembro de 1963, a Revolta dos Sargentos — movimento que reivindicava o direito de que os chamados graduados das Forças Armadas (sargentos, suboficiais e cabos) exercessem mandato parlamentar em nível municipal, estadual ou federal, o que contrariava a Constituição de 1946 — acirrou a polarização ainda mais. Entretanto, isso aumentou o isolamento de Jango, já agravado pelo rompimento com o Partido Social Democrático (PSD) e Juscelino Kubitschek, que era candidato a presidente nas eleições previstas para 1965.

Diante dessa situação, Jango pediu a Raul Ryff, seu secretário de Imprensa, que era membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que agendasse um encontro com o líder comunista Luiz Carlos Prestes. O encontro foi organizado por Antônio Ribeiro Granja, membro do secretariado do PCB, num apartamento em Copacabana. À época, Prestes já articulava a reeleição de João Goulart, o que era inconstitucional, à falta de melhor opção para enfrentar as candidaturas de Juscelino e de Carlos Lacerda (UDN), pois o ex-governador gaúcho Leonel Brizola, cunhado do presidente da República, era inelegível. O conselho de Prestes foi Jango apelar às massas e fazer as reformas de base por decreto. Para isso, os comunistas organizariam comícios populares em todos os estados do país, ao qual Jango compareceria.


A mobilização foi iniciada no dia 13 de março de 1964, com o comício realizado na estação da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, também denominado Comício das Reformas, ao qual compareceram cerca de 150 mil pessoas. Na ocasião, Goulart proclamou a necessidade de mudar a Constituição e anunciou a adoção de importantes medidas, como a encampação das refinarias de petróleo particulares e a possibilidade de desapropriação das propriedades privadas valorizadas por investimentos públicos, situadas às margens de estradas e açudes.

Era o começo de uma escalada fatal para democracia, pois, em resposta ao comício, várias manifestações e “marchas” foram convocadas por setores do clero e por entidades femininas. A primeira, A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ocorreu em São Paulo, a 19 de março, no dia de São José, padroeiro da família. Contou com a participação de cerca de 300 mil pessoas, entre as quais Auro de Moura Andrade, presidente do Senado, e Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara. A última, no dia 2 de abril, após a derrubada de Jango, levou às ruas cerca de um milhão de pessoas e legitimou o golpe militar de 1964, revelando uma correlação de forças favorável à implantação do regime autoritário.

Com sinal trocado, durante uma escala em Roraima, a caminho do encontro com o presidente Donald Trump, em Washington, recepcionado por 400 apoiadores, o presidente Jair Bolsonaro resolveu convocar seus partidários para a manifestação do dia 15 de março, com objetivo de pressionar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). “É um movimento espontâneo e o político que tem medo da rua não serve para ser político”, disse Bolsonaro. Na semana passada, havia negado que estava convocando o protesto nas suas redes de WhatsApp, apesar das evidências. Na verdade, o movimento não tem nada de espontâneo: está sendo organizado por grupos de extrema-direita que apoiam Bolsonaro, que também se utiliza de um exército de robôs comandado pelo vereador carioca Carlos Bolsonaro, o 02, seu filho, nas redes sociais.

Há duas motivações aparentes para Bolsonaro convocar a manifestação: manter a pressão sobre o Congresso, que votará os projetos regulamentando a execução das emendas parlamentares ao Orçamento da União; e reforçar os protestos, que estavam sendo esvaziados pelo acordo feito pelo Palácio do Planalto para resolver o impasse em relação ao Orçamento de 2020. Uma terceira motivação, porém, é subjacente: o fracasso do governo na economia começa a lhe subir à cabeça, depois do PIB de 1,1% do ano passado. Além disso, o cenário na economia mundial sinaliza tempos difíceis pela frente, ainda mais com a chegada da epidemia de coronavírus ao Brasil. Bolsonaro tenta se vacinar e responsabilizar o Congresso pelo eventual fracasso.

Como vimos, em que pese as diferenças polares, não é o primeiro presidente a apelar às massas quando o governo vai mal das pernas e enfrenta dificuldades com o Congresso.

Esquecidos do Brasil


Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá

Versos tomados de Chico Buarque para traduzir sentimentos desses tempos bicudos, assoberbados nos últimos dias.

A música Roda Viva é de 1967, quando o Brasil engolia Constituição dos milicos, que um Congresso, acarneirado, aprovou. Com a primeira emenda, a Carta de 67 abriu portas para o monstrengo dos atos institucionais, que cancelaram liberdades individuais, puseram fim às eleições diretas, deram ao Executivo poder de legislar por decretos, extinguiram partidos políticos existentes, liberdade de expressão e direito de greve. Deu ruim naquele ano que marcou também o começo da segunda presidência dos 20 anos de trevas da ditadura militar. Quando uma roda viva e operante moeu muita gente.

Sem parar de rodar, a tal roda viva entra no modo de moer esperança quando inventa de rodar pra trás, derrapando à beira do abismo. É o que anda rolando neste começo dos anos 20, do século 21. Um assombro atrás do outro – guerra, violência, ódio, dor, doença e a economia desabando no capitalismo exaurido. Tudo globalizado.

Não existe mais o lá-longe. O que acontece lá, rola por aqui também. E a gente vai aprendendo a se virar sozinho no meio do mundo. Racionalmente, tenta espantar o medo do corona vírus, bicho papão da hora, babando e matando planeta afora.

Sem pausa pra respirar, encara o pânico dos mercados no desabar do preço do petróleo. E, em segundos, tem que a assimilar circuit breaker. A Bolsa de Valores para quando dá muito ruim &#8211; meia hora ao cair 10%; uma hora se chegar aos 15% e sem tempo marcado se bater 20% de baixa.
Ontem, aqui, deu 12,175 maior queda do século 21.

O que significa? O que vai derreter hoje, nesses dias? Só Deus sabe. Mas o derretimento não será o pum de talco do palhaço da Regina Duarte. Aliás, ela fica Secretária da Cultura, assim desautorizada na primeira nomeação? Em que roubada se meteu a ex-namoradinha ao noivar com o diabo, hein?

É o de menos no imbróglio geral da nação. Na confusão mundial, Trump promete ajudar. Com a bolsa despencando e o dólar nas alturas, o ministro do pibinho, ex-superGuedes, garante: “Estamos calmos”. Algum dos dois é de confiança?

Cinquenta e três anos depois de Chico cantar Roda Viva no Festival de MPB da Record (ainda a emissora que não era do bispo), eis que a roda viva, de novo, malvada, carrega nosso destino pra sei lá onde seja esse lá.

Deus nos acuda.

Democracia armada

O Executivo não consegue governar porque o Congresso não deixa.
 
Quando chamamos de ‘parlamentarismo branco’, é porque o Congresso quer fazer o papel do Executivo
Eduardo José Barbosa, general da reserva e presidente do Clube Militar

Mourão mentiu ao dizer que 'manifestação está colocada aí como apoio às reformas'

Estamos vivendo uma Era Virtual, de realidades ardilosas e ilusórias. Um bom exemplo são os protestos marcados para o dia 15, em âmbito nacional. Em má hora, o vice-presidente Hamilton Mourão desgasta seu prestigio e sua imagem para afirmar que “a manifestação está colocada aí como apoio às reformas”. Com todo respeito ao general , isso é “menas verdade”, como dizia Lula da Silva no início da carreira política, antes das aulas de reforço no Português.

O governo pode até mandar fazer umas faixas tipo “Reformas Já”, “Reformas são a salvação” ou “Sem as reformas, vem o caos” e pagar alguns desocupados para exibi-las. Mas a verdade é que as manifestações são contra o Congresso e o Supremo. Todo mundo sabe disso, menos Mourão?


Com a declaração de Bolsonaro em Miami, dizendo que os atos do dia 15 de março podem perder força se o Congresso abrir mão do controle de R$ 15 bilhões do Orçamento, e que isso mostraria que “estamos, sim, afinados no interesse do povo brasileiro”, ficou mais do que claro que as manifestações convocadas pelo próprio Bolsonaro são contra o Congresso e o Supremo.

O objetivo é santificar o Planalto e demonizar os dois outros poderes da República, e isso já foi até alcançado. Pelo teor dos comentários nos sites de política e nas redes sociais, que são bombados por robôs, parte considerável da população já estaria convencida de que os dois poderes querem boicotar os programas do governo para recuperar a economia e reduzir a desigualdade social.

Acontece, porém, que esses programas “non eczistem”, são fruto da imaginação dos marqueteiros do Planalto. O único projeto apresentado até agora por Guedes foi a reforma da Previdência, que era uma boa porcaria e o Congresso até aperfeiçoou, não houve boicote.

Na quinta-feira pós-Carnaval o ministro Guedes enfim entregou a Bolsonaro a reforma administrativa. Mas o presidente e os ministros militares do Planalto acharam tão ruim que até hoje estão sentados em cima, sem coragem de enviar a proposta ao Congresso – esta é a realidade, que o vice-presidente Mourão conhece muito bem.

Mourão sabe que Bolsonaro é meio lesado e faz uma asneira atrás da outra. Sabe também que essa manifestação é uma farsa, pois até hoje não houve boicote ao governo no Congresso. Mas não pode passar recibo, como se dizia antigamente.

Quem saiu prejudicado no Congresso e no Supremo foi o Pacote Anticrime do ministro Sérgio Moro. Além de ter sido esvaziado pelos parlamentares, que aprovaram uma legislação às avessas, a favor do crime, denominada Lei do Abuso de Autoridade, destinada a imobilizar os juízes, delegados e procuradores da Lava Jato etc. Na época, Bolsonaro não disse uma palavra a respeito, fez olhar de paisagem, porque ele próprio e os filhos foram beneficiados.

Da mesma forma, o Supremo também esvaziou o Pacote Anticrime, ao mudar a jurisprudência sobre segunda instância, soltar Lula e Dirceu, e remeter para a Justiça Federal os crimes cometidos por parlamentares, que assim jamais serão condenados . E Bolsonaro, mais uma vez, não deu uma palavra e fez olhar de paisagem.

Mas agora o presidente aparece com essa manifestação, convoca pessoalmente os fanáticos que o idolatram, mas diz que nada tem com isso e que o protesto está sendo organizando pelo povo, uma sensacional Piada do Ano.

50 anos depois, Brasil volta a ser alvo sistemático de denúncias internacionais por violações de direitos humanos

O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas se transformou em uma plataforma de ataques contra o governo de Jair Bolsonaro, denunciado por diversas violações ao meio ambiente, a mulheres e a indígenas, e pelo desmonte dos mecanismos de proteção aos direitos humanos. O encontro, que acontece desde o final de fevereiro e é considerado a principal sessão do ano, vem colocando o Itamaraty em uma posição defensiva.

A ofensiva da sociedade civil e de alguns dos principais relatores da ONU coincide com outro momento complicado para o governo de Bolsonaro. Pela Europa, governos e parlamentares têm questionado o acordo comercial entre a União Europeia e Mercosul. Câmaras Legislativas de regiões da Bélgica e Áustria já promoveram votações para bloquear o tratado, alegando que não aceitariam uma aproximação num momento em que o governo brasileiro não se compromete em questões ambientais.


Na Suíça, que assinou um tratado em separado com o Mercosul, grupos políticos insistem que tal acordo precisa ser submetido a um referendo popular, apostando numa reação contrária da opinião pública diante da atual imagem internacional do Brasil. Mas a pressão internacional não se limita à Amazônia e as últimas reuniões na ONU escancararam como o Brasil já perdeu a confiança pelas inúmeras queixas recebidas sobre práticas incompatíveis com os diretos humanos.

Em janeiro deste ano, uma reunião privada dentro da missão diplomática do Canadá, em Genebra, fazia um exercício: como a comunidade internacional e da ONU deveriam reagir em termos legais diante de governos ditatoriais e com comprovadas violações graves de direitos humanos. O encontro, mantido em total sigilo, era organizado por entidades internacionais e ONGs, com o convite feito a governos europeus e de delegações de outras regiões do mundo. Ottawa havia cedido uma sala em sua missão diplomática para o debate. Oficialmente, tratava-se apenas de um exercício e uma simulação de cenários políticos. Mas altamente simbólico.

Entre os países com sérias violações de direitos humanos escolhidos para o debate confidencial estava o Brasil, ao lado do regime autoritário da China e da repressão no Egito. A realidade é que, 50 anos depois de o país ser alvo de denúncias nos antigos órgãos da ONU diante da tortura e desaparecimentos durante a ditadura, o Brasil volta a preocupar a comunidade internacional de uma forma sistemática.

Nos últimos 30 anos, denúncias e críticas foram apresentadas contra os diferentes governos brasileiros. Mas jamais colocando em questão a própria democracia e a existência do espaço cívico. Nos corredores da ONU e salas de reuniões, o governo brasileiro vive uma pressão inédita em seu período democrático, com relatores da entidade, ONGs brasileiras e estrangeiras, ativistas e líderes indígenas se sucedendo em críticas ao desmonte dos mecanismos de proteção aos direitos humanos no país.

Apenas em 2019, mais de 35 denuncias foram apresentadas contra o Brasil e, em 2020, essa tendência ganhou um novo ritmo. Desde que a sessão oficial do Conselho começou, dia após dia entidades e representantes de mecanismos especiais das Nações Unidas tomam o microfone na solene sala da ONU para acumular denuncias contra o Brasil. São bispos de Brumadinho ou defensores de direitos humanos que chegam para suplicar pelo apoio internacional contra um governo que, na visão de muitos, faz questão de menosprezar seus compromissos internacionais.

Um dos questionamentos veio da relatora da ONU para o direito à alimentação, Hilal Elver. Na quarta-feira passada, ela apresentou seu informe em que criticou abertamente o Brasil. Segundo o texto, o país era um “grande exemplo” de como instituições para o combate à fome estavam sendo financiadas, no marco do Fome Zero. “Infelizmente, esta boa prática foi quase perdida em 2019, quando o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional foi desmantelado”, lamentou. Os ataques levaram o governo brasileiro a tomar a palavra na ONU para questionar o informe. A delegação do Itamaraty afirmou ter ficado “desapontada” com algumas “informações enganosas” do documento. De acordo com o governo, a reestruturação das instituições de combate à fome 


Outra área de atrito é a produção agrícola brasileira. Segundo o mesmo informe de Elver, é “particularmente preocupante o aumento significativo das queimadas na Amazônia brasileira, seguindo as promessas feitas pelo novo governo de abrir terras indígenas para a agricultura e mineração”. Bolsonaro e seus aliados fomentam reiteradas vezes essa postura, insistindo em projetos que abram as reservas. “O governo passou a chamar os povos indígenas que se opõem à sua política como anti-desenvolvimentistas”, criticou.

Nesse ponto, uma vez mais o governo rebateu, alegando que os incêndios foram devidamente gerenciados e que a escala do problema era “consistente” com a média histórica. Elver não se deu por satisfeita e voltou a questionar. “A Amazônia é patrimônio de toda a humanidade”, insistiu, lembrando como os incêndios em 2019 foram mais severos. Segundo ela, existem “interesses” para abrir a região para a pecuária. “É uma situação importante e delicada o uso de floresta para a Humanidade no futuro. Não podemos destruir apenas para produzir mais alimentos. Isso não seria argumento aceitável”, disse.

Lembrando do impacto dessas ações para grupos indígenas, a relatora ainda defendeu que haja algum tipo de investigação internacional sobre a relação das grandes corporações e a situação da floresta, um cenário de pesadelo para a diplomacia nacional. “Talvez com algum comitê especial da ONU”, sugeriu.

Durante a sessão, um tema que colocou pressão sobre o governo foi a legalização da mineração em terras indígenas. O caso levou Davi Kopenawa Yanomami a viajar até Genebra para alertar a comunidade internacional sobre a situação dos povos indígenas. Há um mês, Bolsonaro assinou um projeto de lei para regulamentar a mineração e a geração de energia elétrica em reservas indígenas. O projeto de lei será analisado pelo Congresso Nacional. Mas, em sua assinatura numa cerimônia no Palácio do Planalto, Bolsonaro declarou ser um “sonho” a abertura de reservas indígenas para a mineração.

O projeto passou a ser alvo de duros ataques nas Nações Unidas. O relator da ONU para o meio ambiente, David Boyd, foi um dos que pediu que o projeto seja barrado. Para ele, a medida de Bolsonaro é “profundamente preocupante” e alerta que a situação dos indígenas seria “fortemente afetada”. “Esse é um retrocesso no reconhecimento dos direitos indígenas”, insistiu. Na mesma sessão, a pressão também veio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Em nome da entidade, o jurista Paulo Lugon Arantes afirmou que “o arcabouço legislativo criado pelo Brasil desde sua redemocratização está sendo desmontado em uma velocidade impressionante”. De acordo com o CIMI, no Congresso há mais de 800 projetos que atentam contra o arcabouço legislativo criado no Brasil nos últimos anos.

Uma vez mais, o governo tomou uma postura defensiva. No debate, a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo, tratou o assunto como se fossem “falácias” que estariam sendo ditas sobre a situação de meio ambiente no país e indicou que “correções” seriam necessárias. Ao longo dos dias, a embaixadora fez reuniões com o segundo escalão da cúpula da ONU para pressionar por uma revisão da posição do organismo sobre a situação no Brasil. Em vão.

A pressão do Itamaraty não impediu que a situação das mulheres também fosse denunciada, num gesto que gerou desconforto no Palácio do Planalto que, por sua vez, exigiu uma ação do Itamaraty. O Brasil havia sido citado em um relatório submetido ao Conselho, ao lado de países onde a religião é usada como justificativa para impedir que meninas e mulheres tenham acesso à educação sexual, assim como direitos reprodutivos e acesso à saúde sexual. Desde o início do governo Bolsonaro, o país modificou sua política externa e de direitos humanos para levar em conta valores religiosos. De acordo com o informe, consultas realizadas na América Latina em 2019 chegaram à constatação de que programas de educação sexual e saúde reprodutivas foram cortados no Brasil. Isso, segundo as pessoas ouvidas nas consultas, teria uma relação direta com a “pressão de grupos religiosos”.

O relator da ONU para Liberdade Religiosa, Ahmed Shaheed, confirmou sua preocupação e indicou que recebeu relatos de como as ameaças aos direitos de meninas e mulheres são realidades em diversos locais. Segundo ele, os estados da região continuam com leis seculares. “Mas as pessoas me relatam que existe uma visibilidade cada vez maior de grupos religiosos em espaços públicos que argumentam que alguns direitos de mulheres podem ser limitados com uma justificativa religiosa”, disse. “Meninas e mulheres têm tido dificuldades em ter acesso a direitos reprodutivos, com a consequência para a saúde e muito mais que isso”, alertou.

Ao longo dos últimos meses, o Itamaraty tem adotado uma postura que vem causando choque entre delegações estrangeiras. Em projetos de resolução na ONU, o governo tem alertado que não aceitaria referências a termos como educação sexual ou direitos reprodutivos. Em Nova York em setembro de 2019, o governo ainda se somou a uma declaração liderada pelos EUA em que países insistiam sobre a necessidade de se evitar a “criação” de novos direitos. Entre eles, mais uma vez estavam os direitos reprodutivos e sexuais. O argumento é de que tais referências poderiam abrir caminhos legais para o aborto.

A onda de críticas e cobranças contra o Brasil não ocorreram de forma isolada. No início do encontro da ONU, no final de fevereiro, o tom foi dado pela própria alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet. Num encontro fechado com a ministra de Direitos Humanos, Damares Alves, ela levantou a questão das violações contra indígenas e defensores de direitos humanos. O governo jamais revelou o conteúdo do encontro. Dias depois, num discurso oficial, Bachelet incluiu o Brasil na lista dos cerca de 30 países que vivem uma situação especialmente preocupante em temas de direitos humanos. Damares Alves, porém, já não estava mais em Genebra para escutá-la.

“No Brasil, ataques contra defensores dos direitos humanos, incluindo assassinatos - muitos deles dirigidos a líderes indígenas - estão ocorrendo em um contexto de retrocessos significativos das políticas de proteção ao meio ambiente e aos direitos dos povos indígenas”, alertou Bachelet. “Também estão aumentando as tomadas de terras indígenas e afrodescendentes”, disse. Outro temor da representante da ONU se refere ao trabalho dos movimentos sociais e dos ataques sofridos por ongs. Segundo ela, também estão aumentando os “esforços para deslegitimar o trabalho da sociedade civil e do movimento social”. No ano passado, ela já havia alertado sobre o encolhimento do espaço cívico no Brasil, o que gerou duras reações por parte do governo brasileiro. Desta vez, o governo optou por um ataque violento.

A embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo, pediu a palavra para descrever o questionamento de Bachelet de “lamentável” e alertando que a chilena teria sido aconselhada de forma errada. Uma análise da situação, segundo ela, não estaria sendo feita com bases em dados e evidências atualizados. “Propomos uma conversa com base em fatos”, disse. Ela ainda sugeriu que deva haver um fim para um embate entre “narrativas politicamente motivadas”.

Ela ainda se recusou a aceitar as denúncias de Bachelet. “Não há recuou para proteger o meio ambiente, muito menos na proteção dos direitos indígenas”, declarou. “Pelo contrário”, disse a embaixadora, lembrando que Bolsonaro criou o Conselho da Amazônia. Segundo ela, a demarcação de terras indígenas é uma realidade e a proteção é conduzida de forma séria. “Existe um amplo espaço cívico no Brasil”, completou a diplomata aplaudida pelo bolsonarismo mais radical, lembrando que 900 entidades apoiaram a candidatura do governo para o Conselho da ONU. Muitos desses apoios vinham de organizações religiosas e a lista contava até mesmo com agências imobiliárias no México, algo jamais explicado pelo governo.
Jamil Chade

terça-feira, 10 de março de 2020

Vai provar?

Eu acredito que, pelas provas que tenho em minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu tinha sido, eu fui eleito no primeiro turno, mas no meu entender teve fraude. E nós temos não apenas palavra, nós temos comprovado, brevemente eu quero mostrar.

Então eu acredito até que eu tive muito mais votos no segundo turno do que se poderia esperar, e ficaria bastante complicado uma fraude naquele momento

Jair Bolsonaro

A necropolítica das epidemias

A epidemia do vírus corona parece uma atualização das aulas de Michel Foucault sobre biopolítica, segurança e territórios. A biopolítica é o poder que organiza as políticas da vida, isto é, são táticas que regulam que corpos devem viver e quais podem ser descartáveis. A explosão de uma epidemia é um momento efusivo à biopolítica: em nome da proteção coletiva se controlam os corpos, se traçam fronteiras reais ou imaginárias à saúde. Assim foi com a epidemia de zika vírus. Com zika, no entanto, o pânico global foi ligeiro, pois logo se compreendeu que o risco à doença estava confinado aos países tropicais. E por que o rápido silenciamento sobre o zika? Porque toda biopolítica se converte em uma necropolítica quando os regimes de desigualdade determinam quais corpos vivem o risco.


Há uma nova doença em curso, e sobre a verdade do vírus não parece haver controvérsia —a Organização Mundial de Saúde a descreve como COVID-19, uma doença infecto-respiratória semelhante à gripe. Por ser um vírus novo, a taxa de infecção é alta, pois não há imunidade por adoecimento prévio ou proteção por vacina. Uma doença se apresenta como perigosa às populações por seu potencial de contaminação ou pelo risco de morte. Nesse sentido, os vírus corona e zika se parecem na epidemiologia: populações sem imunidade e risco de morte concentrado em determinados grupos etários —no caso do vírus corona, entre idosos; do zika, entre crianças.

Mas o burburinho das duas epidemias foi diferente. Houve compaixão às mulheres e seus filhos de cabeça miúda, discutiu-se os riscos de a doença sair do Sul Global para o Norte pelo risco de transmissão sexual, uma vez que o mosquito, o principal vetor, estava concentrado nas casas precárias dos trópicos. No entanto, não houve desaceleração da economia global, flutuação da bolsa de valores ou cancelamento de desfiles de moda, congressos acadêmicos e encontros de negócios, como ocorre com o vírus corona. Há um verdadeiro “pânico coletivo”, segundo Giorgio Agamben, cujo exagero da resposta seria, na verdade, um pretexto de governos autoritários para mover o “estado de exceção”.

Agamben está certo em descrever que o estado de medo em que vivemos se alimenta com momentos de “pânico coletivo”. O vírus corona permite fechar fronteiras, impedir mobilidade nas cidades, confinar indivíduos às casas. Se a política do medo explica o exagero da resposta e sua utilidade para os regimes autoritários, para nós, há uma outra particularidade em como se respondeu à epidemia de zika em comparação à de corona: zika era uma doença com risco global, mas se mostrou uma doença de gente miserável e uma sentença de vida às mulheres anônimas.

Nossa estranheza não é ressentimento de mulheres latinas que, ainda hoje, acompanham a peregrinação das sobreviventes de zika com seus filhos. Como qualquer outra pessoa, estamos expostas ao vírus corona, mas diferentemente das mulheres pobres do Brasil, Colômbia, El Salvador ou Venezuela, não estamos em risco ao adoecimento pelo vírus zika, ou sob leis criminais que proíbem o aborto ou sob regimes de pobreza que desamparam o cuidado. É preciso especificar quais mulheres vivem o vírus zika como uma ameaça para o futuro —as mulheres mais vulneráveis, negras e indígenas, jovens e pobres. Essa é a passagem da biopolítica para a necropolítica das epidemias: o vírus corona aciona o pânico coletivo dos regimes autoritários que não querem estrangeiros em terras próprias; o vírus zika abandona as mulheres mais vulneráveis ao abuso de governos patriarcais que perseguem a sexualidade e a reprodução.
Debora Diniz, pesquisadora da Universidade de Brown / Giselle Carino diretora da IPPF/WHR

A confusão como estratégia

Bolsonaro despreza os fatos e não se dá o trabalho de parecer coerente.

No começo do seu mandato, o Orçamento impositivo foi apresentado como manobra do Congresso para enquadrar um presidente que não queria negociar; depois, durante a votação, virou projeto desde sempre apoiado pela família Bolsonaro, demonstrando que não existia tensão entre os Poderes; em seguida, foi vetado pelo presidente.

Neste ano, quando o veto estava prestes a ser derrubado, voltou a ser chantagem do Congresso, motivo de sonoro "foda-se" pronunciado por um ministro; na semana passada, foi alvo de meticulosa negociação com os parlamentares; em seguida, a negociação, registrada no Diário Oficial, foi categoricamente negada.

A manifestação do dia 15 passou pelo mesmo processo.

Originalmente, foi convocada para pressionar o Congresso pela prisão em segunda instância; depois, a reboque do áudio vazado do general Heleno, virou convocação anti-Congresso; diante da repercussão negativa, transformou-se em ato pró-governo; de maneira pró-ativa, o presidente compartilhou a convocação; confrontado com o fato, disse que o fez na condição de pessoa privada; alegou, em seguida, que o vídeo não era sobre a manifestação deste ano, mas sobre uma manifestação de 2015; por fim, em evento público, fez elogio à manifestação, ressalvando que era espontânea.


É atordoante a sucessão de vaivéns.

O que os fatos sugerem é que, por inabilidade, Bolsonaro permitiu que o Congresso mordesse parte expressiva do Orçamento discricionário do Executivo.

Para não reconhecer sua incompetência política, nem a tensão crescente com o Legislativo em início de mandato, Bolsonaro fez parecer que não era contra o Orçamento impositivo, mas, sim, a favor dele. Em seguida, teve que reconhecer que a medida era ruim e que, se não negociasse, perderia o poder de alocação sobre R$ 30 bilhões. Convocou, ou articulou para que se convocasse, uma mobilização contra o Congresso para ampliar seu poder de negociação e desgastar as instituições. Mesmo tendo logrado uma boa negociação, disse que não negociou para manter a base mobilizada.

Chama a atenção como Bolsonaro consegue emplacar narrativas desprezando fatos e mesmo suas ações precedentes. Apenas neste episódio, o presidente foi evasivo, mentiu e se contradisse inúmeras vezes. Seus ataques à imprensa colocam em xeque a única maneira de determinar os fatos, e sua máquina de propaganda, por meio da repetição, consegue impor as explicações mais implausíveis.

Essa confusão toda tem estratégia.
Pablo Ortellado

Aventura perigosa

O presidente Bolsonaro está levando parte das Forças Armadas a uma aventura que não se sabe como terminará. A idéia equivocada de que haveria por parte dos militares disposição de controlar os ímpetos de Bolsonaro já foi há muito superada.

Mesmo que se saiba que existe desconforto de parte dos militares com as posições do presidente em certos temas, sempre há um ingrediente ideológico que une as Forças Armadas. A política de Meio-Ambiente do governo, por exemplo, se por um lado preocupa pelo prejuízo à imagem internacional do país, e pela possível perda econômica que pode provocar, também une os militares na visão estratégica da região.

O temor de que a região possa ser dominada por interesses estrangeiros une o pensamento militar a favor de nossa soberania, supostamente ameaçada. As questões ideológicas na política são também mais fortes do que eventuais desacordos com a maneira como as situações são enfrentadas por Bolsonaro.


Há uma tendência a considerar que ele é quem sabe lidar com políticos, pois é quem tem popularidade e votos. Ainda durante a campanha, quando o General Villas Boas ainda era o Comandante do Exército, alguém, numa roda de conversa em seu gabinete em que estavam generais que hoje integram o governo Bolsonaro, perguntou por que os militares não controlavam um pouco os arroubos do então candidato. Villas Boas deu uma gargalhada e disse: “Ele é incontrolável”.

Por outro lado, a ideia de que existe um perigo de volta do PT ao governo se não for combatido diuturnamente é majoritária nas Forças Armadas, que vêem um real perigo comunista numa eventual volta da esquerda ao poder.

Nomeando dois generais da ativa para seu ministério, saídos dos mais altos cargos da hierarquia militar, ele deu mais um passo perigoso no envolvimento dos militares com seu governo. O General Luiz Eduardo Ramos era o chefe do Comando Militar do Sudeste quando foi convidado a assumir a Secretaria de Governo de Bolsonaro, e ainda está na ativa.

O General Braga Neto era o Comandante do Estado-Maior do Exército, e foi para a reserva antes de assumir a Casa Civil da presidência da República. As intrigas palacianas que engoliram diversas autoridades militares nos últimos meses, inclusive o General Santos Cruz, a quem substitui, já estão envolvendo o General Ramos, que entrou na mira de tiro dos olavistas.

Até o momento indiretamente, o General está sendo acusado de ter traído o presidente na negociação dos vetos parlamentares com o Congresso, induzindo-o a erro. Teria sido a Ramos que se referia ao dizer recentemente que levara “uma facada na garganta” dentro do Palácio do Planalto.

Também seria a ele que o filho 02 Carlos se dirigia quando disse em recente twitter que o pai “está propositalmente isolado e blindado por imbecis com o ego maior que a cara”.

Experiente no jogo político, pois há muito mantém contatos com políticos de diversos partidos desde que estava no Comando Militar do Leste, Ramos aproveitou uma entrevista da Secretária de Cultura Regina Duarte ao Fantástico para tentar se realinhar com o grupo olavista.

Em uma sequência de mensagens no Twitter, Ramos afirmou que, ao utilizar o termo "facção", sem identificar os integrantes, Regina deu a entender que há "divisões inexistentes e inaceitáveis em nosso governo".

O ministro também disse que "são seus ministros e secretários que devem se moldar aos princípios publicamente defendidos por Bolsonaro, não o contrário". A exigência de lealdade explícita de seus ministros e assessores impede que existam ao redor do presidente vozes discordantes que ponderem suas decisões sem cair na lista dos inimigos definitivos.

Preservando a área militar de cortes nos investimentos, e negociando um plano de Previdência especial para a categoria, o presidente Bolsonaro vem dando atenção especial aos militares, onde recruta boa parte do primeiro e segundo escalões da República.

Ao mesmo tempo, deixou clara sua simpatia pelo movimento reivindicatório dos policiais militares do Ceará, e aproveita toda solenidade militar a que comparece para fazer discursos políticos, mesmo que nada tenham a ver com a ocasião.

Como ao fazer uma escala em Roraima para seguir viagem à Flórida na visita que fez a Trump no fim de semana, quando aproveitou a solenidade da Base Aérea e fez a convocação popular para as manifestações no próximo domingo.

Pensamento do Dia


Brasil lidera importações de armas na América do Sul

O Brasil se tornou o maior importador de armas da América do Sul, de acordo com um estudo divulgado nesta segunda-feira pelo Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri). O país superou a Venezuela, que liderou a lista de importadores sul-americanos no relatório anterior publicado há cinco anos.

Entre 2015 e 2019, o Brasil foi responsável por 31% das compras de armas entre as nações sul-americanas, apesar de uma queda de 37% em comparação ao período 2010-2014. O país também possui a maior encomenda de armas pendente na região, que inclui aviões de combate suecos e submarinos franceses.

Em relação à exportação, o Brasil também fica em primeiro da lista na América do Sul, sendo responsável por 0,2% das vendas globais, e figurando em 24ª posição no ranking mundial.


A Venezuela, que liderou a lista de importadores sul-americanos em 2010-2014, viu suas compras caírem 88% nos últimos cinco anos, como resultado da grave crise econômica que está sofrendo.

A pesquisa, que compara o período de 2015 a 2019 com o de 2010 a 2014, também destaca um aumento de 5,5% no tráfico global de armas entre os dois períodos.

"No geral, as transferências de armas aumentaram. Entre os países importadores de armas, a demanda é alta e parece até ter aumentado um pouco", disse Pieter Wezeman, pesquisador sênior do Sipri.

O relatório confirmou que os Estados Unidos reforçaram sua condição de maior exportador mundial de armas nos últimos cinco anos, com um aumento de 23%, enquanto a Arábia Saudita se consolidou como o maior importador.

Os EUA, que venderam armas para 96 ​​países, aumentaram sua participação no total de exportações globais para 36% (cinco pontos percentuais a mais), 76% a mais que o segundo exportador mundial, a Rússia.

"Metade das vendas foi para o Oriente Médio e metade destas, para a Arábia Saudita. Ao mesmo tempo, a demanda por aviões militares avançados dos EUA aumentou, especialmente na Europa, Austrália, Japão e Taiwan", destaca o estudo.

A Rússia mantém o segundo lugar, apesar de uma queda de 18%, devido à perda de peso nas vendas para a Índia, que continua sendo seu principal cliente; à frente da França, Alemanha e China, nessa ordem.

Os cinco primeiros países da lista foram responsáveis ​​por 76% das vendas globais de armas nos últimos cinco anos, observa o Sipri.

A Alemanha manteve seu quarto lugar entre maiores exportadores de armas do mundo. O governo alemão afirma visar uma política "restritiva" de exportação de armas. No entanto, entre 2015 e 2019, as exportações do país aumentaram 17%. Desde o outono de 2018, a Arábia Saudita é um grande cliente para os fabricantes de armamentos alemães. Berlim interrompeu a exportação de armas para o país em resposta ao assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi.

Com um aumento de 72%, a França teve o maior crescimento de exportações, graças à demanda por armas em Egito, Catar e Índia.

Com um aumento de 130% em comparação a 2010-2014 e uma participação global de 12%, a Arábia Saudita se estabeleceu na liderança entre os importadores mundiais de armas.

"Apesar das preocupações nos EUA e no Reino Unido sobre a intervenção militar saudita no Iêmen, os dois países continuaram a vender armas. Do total das importações sauditas, 73% vêm dos EUA e 13%, do Reino Unido", destaca o estudo.

Índia, Egito, Austrália e China completam a lista dos cinco principais compradores de armas globais.

Por região, a Ásia-Oceania foi o principal destinatário de armamento nos últimos cinco anos, com 41% do total, seguido pelo Oriente Médio (35%), Europa (11%), África (7,2%) e América (5,7%).

As importações na América Central e no Caribe aumentaram 23% nos últimos cinco anos, com o México como líder regional com 70% do total, coincidindo com suas operações militares em andamento contra cartéis de drogas.

Na América do Sul, as importações caíram 59%, sendo os Estados Unidos (19%), França (16%) e Itália (8,6%) os principais fornecedores.

Deutsche Welle

Apoio viral


A questão do coronavírus também, no meu entender, está superdimensionado, o poder destruidor desse vírus, então talvez esteja sendo potencializado até por questão econômica
Jair Bolsonaro

Bolsonaro primeiro destrói para construir depois o que não se sabe

Se o governo cometer mais besteiras, o dólar baterá a casa dos 5 reais, admitiu o ministro Paulo Guedes, da Economia, o ex-Posto Ipiranga do presidente Jair Bolsonaro. Se Guedes for demitido ou pedir as contas, o dólar irá a 7 reais, projetou o ministro.

O mercado está pronto para evitar uma disparada dessas se o substituto de Guedes for Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, embora saiba que o problema maior não é Guedes. E ainda faltam três anos para que se dê adeus a Bolsonaro...

Fora outras razões que podem impulsionar o dólar. Como deverá acontecer, hoje, depois que o preço do barril do petróleo desabou no mercado internacional. Na abertura do mercado na Ásia, ele voltou ao patamar de 1991, antes do início da Guerra do Golfo.

Quando Guedes diz que tem 15 semanas para mudar o Brasil, ignora-se se esse é o prazo que ele se deu para depois seguir ou não no cargo ou se esse foi o prazo que seus superiores lhe deram, do contrário será mandado embora. Guedes não explicou direito.



Quinze semanas tem a ver com o costume de o Congresso ficar vazio a partir de junho em ano eleitoral. A primeira das 15 semanas venceu. Esta agora vencerá sem que nada de bom aconteça à espera das manifestações marcadas para o próximo domingo.

Se elas forem grandes, e o Congresso o seu alvo, deputados e senadores levarão certo tempo para engolir mais um sapo indigesto que Bolsonaro lhes serviu. Restarão 12 semanas para que se cumpra ou que se frustre a inesperada previsão de Guedes.

E no que consistiria mudar o Brasil em 15 semanas? Guedes não explicou. Talvez consistisse em avançar dentro do Congresso de modo convincente com a pauta das reformas. Mas imaginar que elas serão aprovadas em prazo tão curto é um despautério.

Quem sabe Guedes não será obrigado a dizer outra vez que foi mal interpretado quando falou em 15 semanas, que retiraram sua frase de contexto, e coisa e tal? Quem sabe não culpará por isso a imprensa, inimiga número um de governos em dificuldades?

Extraordinário é que o governo precise tanto do Congresso e não perca uma chance de atacá-lo. Foi novamente o que fez Bolsonaro no último fim de semana dentro do Esquadrão Logístico da Força Aérea Brasileira, em Boa Vista, Roraima.

magine se Lula, o líder vermelho, cercado de admiradores no ambiente de uma unidade militar, chamasse o povo às ruas em apoio ao seu governo? E logo às vésperas de manifestações a serem promovidas por seus devotos da esquerda contra o Congresso?

Lula ou outro governante qualquer de esquerda, mesmo que legitimamente eleito, se arriscaria a ser acusado de subversivo, de atentar contra a ordem e as instituições da República, e de acabar enquadrado na Lei de Segurança Nacional de triste memória.

Mas Bolsonaro pode, porque a direita e os militares estão com ele. Foi no Regimento Mallet, quartel do Exército em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que Bolsonaro, em 15 de junho do ano passado, aproveitou a Festa Nacional da Artilharia para incitar sua turma.

“Mais do que o Parlamento, precisamos do povo ao nosso lado para que possamos impor política que reflita em paz e alegria a todos”, ele disse quando a reforma da Previdência empacara. E defendeu armar a população para evitar golpes de Estados.

Saiu do regimento aos gritos de “Mito”. Em Boa Vista, antes de entrar nas dependências da Força Aérea Brasileira, foi saudado aos gritos de “Mito”. Nunca antes na história da democracia neste país um presidente jogou tanto o povo contra os demais Poderes.

Bolsonaro teve tempo suficiente até aqui para entregar ao país muitas de suas promessas de campanha. Entregou quase nada. A reforma da Previdência foi obra deixada pronta pelo governo Temer e aprovada pelo Congresso apesar de Bolsonaro.

Entre Dilma e Bolsonaro houve Temer, que herdou um PIB negativo de 3,3 e tornou-o positivo um ano depois. Legou a Bolsonaro um PIB que crescia a 1,3%, inflação e dólar sob controle, juros em queda, reforma trabalhista, teto de gastos públicos.

O Brasil estava pronto para voltar a crescer. Mas deu no que se vê: um pibinho que não passará dos 2% este ano, dólar nas alturas, fuga de capital estrangeiro, ações de empresas em baixa, desemprego expressivo e instabilidade política.

Em sua primeira visita a Washington, Bolsonaro afirmou durante convescote na embaixada do Brasil que seria necessário, primeiro, destruir tudo que encontrara (o sistema) para só depois começar a construir. É a única promessa que se empenha em realizar.
Ricardo Noblat

Eleições – jornalismo sem censura

Estamos em ano eleitoral. E o galinheiro político já começa a entrar em clima de agitação. Eleição municipal é sempre um ensaio para o grande embate presidencial lá na frente. Ataques aos adversários, promessas irrealizáveis e imagens produzidas farão parte, mais uma vez, do discurso dos candidatos. Assistiremos, diariamente, a um show de efeitos especiais capazes de seduzir o grande público, mas, no fundo, vazio de conteúdo e carente de seriedade. O marketing, ferramenta importante para a transmissão da verdade, pode, infelizmente, ser transformado em instrumento de mistificação. Estamos assistindo à morte da política e ao advento da era da inconsistência.

Os programas eleitorais vendem uma bela embalagem, mas, de fato, são paupérrimos na discussão das ideias. Nós jornalistas somos – ou deveríamos ser- o contraponto a essa tendência. Cabe-nos a missão de rasgar a embalagem e desnudar os candidatos. Só nós, estou certo, podemos minorar os efeitos perniciosos de um espetáculo audiovisual que, certamente, não contribui para o fortalecimento de uma democracia verdadeira e amadurecida.

Por isso uma cobertura de qualidade será, antes de mais nada, uma questão de foco. É preciso declarar guerra ao jornalismo declaratório e assumir, efetivamente, a agenda do cidadão. Não basta um painel dos candidatos, é preciso cobrir a fundo as questões que influenciam o dia a dia das pessoas. É importante fixar a atenção não nos marqueteiros e em suas estratégias de imagem, mas na consistência dos programas. É necessário resgatar o inventário das promessas e cobrar coerência. O drama das cidades – segurança, educação, saúde, saneamento básico, iluminação, qualidade da pavimentação das ruas, transporte público de qualidade, responsabilidade fiscal, entre outros – não pode ficar refém de slogans populistas e de receitas irrealizáveis. Os candidatos deverão mostrar capacidade de gestão, experiência, ousadia e criatividade.

Não se pode permitir que as assessorias de comunicação dos políticos definam o que deve ou não ser coberto. O centro do debate tem de ser o cidadão, as políticas públicas, não mais o político, tampouco a própria imprensa. O jornalismo de registro, pobre e simplificador, repercute a Nação oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real. Precisamos fugir do espetáculo e fazer a opção pela informação. Só assim, com equilíbrio e didatismo, conseguiremos separar a notícia do lixo declaratório.

A independência é a regra de ouro da nossa atividade. Para cumprir a nossa missão de levar informação de qualidade à sociedade, precisamos fiscalizar o poder. A imprensa não tem jamais o papel de apoiar o poder. A relação entre mídia e governos, embora pautada por um clima respeitoso e civilizado, deve ser marcada por estrita independência.

Um país não se pode apresentar como democrático e livre se pedir à imprensa que não reverbere os problemas da sociedade. Não apenas os que aparecem na superfície, mas também aqueles que vão corroendo os pilares da cidadania. A intolerância é, de longe, um dos mais nefastos filhotes do sectarismo. A radicalização ideológica não tem a cara do brasileiro. O PT procurou dividir o Brasil ao meio. Jogar pobres contra ricos, negros contra brancos, homos contra héteros. Pretendeu substituir o Brasil da tolerância pelo país do ódio e da divisão. Tentou arrancar com o fórceps da luta de classes o espírito aberto dos brasileiros. Procurou extirpar o DNA, a alma de um povo bom e multicolorido. Não queria o Brasil café com leite.

O totalitarismo ideológico pretende espoliar milhões de cidadãos do direito fundamental de opinar, elemento essencial da democracia. Se a ditadura gramsciana constrange a cidadania, não pode, por óbvio, acuar jornalistas e redações. Informação independente incomoda e faz pensar. Jornalismo sem censura é o melhor antídoto contra aventuras autoritárias.

Anotemos a experiência e estejamos alertas. Agora e sempre. Governo e Congresso precisam se entender. Não cabe mais o toma lá da cá de triste memória. Mas também não faz sentido ameaças populistas e ensaios de democracia direta. É preciso dialogar. Faz parte do processo democrático. O primeiro mandamento do jornalismo de qualidade é a independência. Não podemos sucumbir às pressões dos lobbies direitistas, esquerdistas, homossexuais ou raciais. O Brasil eliminou a censura. E só há um desvio pior que o controle governamental da informação: a autocensura. Para o jornalismo, em ano eleitoral e em qualquer tempo, não pode haver vetos, tabus e proibições. Informar é um dever ético.

O leitor espera uma imprensa firme, disposta a exercer o seu intransferível dever de denúncia fundamentada. O jornalismo de qualidade deve assumir o papel de memória da cidadania. Mostramos o que os políticos querem ocultar. Precisamos falar dos planos e do futuro. Mas devemos também falar do passado, das coerências e das ambiguidades.

Deixemos de lado a pirotecnia do marketing e não nos deixemos aprisionar pelas necessárias pesquisas eleitorais. Nosso papel, único e intransferível, é ir mais fundo. A pergunta inteligente faz a diferença. Incomodar é preciso. E é o que o leitor espera de nós.

Uma injustiça enterrada e explosiva

Me parece que não prestamos atenção o suficiente a uma notícia verdadeiramente atroz: o intolerável Donald Trump acaba de dizer que os Estados Unidos voltarão a usar minas antipessoa. Vejam, essas minas são um invento de uma perversidade horripilante. Possuem cargas explosivas muito pequenas porque seu objetivo não é matar, mas mutilar, arrebentar os ventres ou arrancar pernas e braços, para enfraquecer o oponente, forçando-o a cuidar de seus feridos e transportá-los. São artefatos cruéis que se fartam com a população civil. Por isso, quando se realizou em 1997 a Convenção de Ottawa para proibir o uso dessas minas, a humanidade deu um passo gigantesco. Sair do acordo, como Trump fez, é uma infâmia.

Mas, já que falo de minas e de indecência política, quero falar sobre os saarauís. Sim, desse povo que nós, espanhóis, traímos e vendemos como ovelhas aos marroquinos há 45 anos. Sim, esses mesmos saarauís que têm a Justiça e os acordos da ONU a seu favor, mas nem assim conseguem recuperar suas terras. De fato, todos os dias nos esquecemos um pouco mais deles.


E as minas são um exemplo perfeito desse esquecimento. Segundo a Landmine Monitor, o Saara Ocidental está entre os países mais tomados por minas no planeta. Talvez seja o mais poluído dos territórios habitados. E o muro que divide em dois o Saara Ocidental (de um lado os saarauís, do outro, a área ocupada por Marrocos) é o campo minado mais longo do mundo. Estima-se que nessa área existam entre sete e 10 milhões de minas, colocadas pelos dois lados do conflito durante a guerra. A ONU e a Frente Polisário, líder da causa saarauí, pediram repetidas vezes ao Marrocos mapas de localização de seus explosivos, sem nenhum resultado. A remoção de minas é cara, perigosa e difícil; as chuvas deslocam as bombas na areia, o que complica ainda mais sua localização. Aliás, há um grupo de aguerridas mulheres saarauís, as SMAWT, em inglês (Sahrawi Mine Action Women Team, grupo saarauí de mulheres em ação contra as minas), que se dedica a essa arriscadíssima tarefa de caçadoras e neutralizadoras de explosivos.

A Frente Polisário, que acata a convenção de Ottawa e a de Oslo (contra as bombas de fragmentação) fez um enorme esforço para reduzir seus artefatos explosivos e destruiu todo o seu arsenal de minas antipessoa (20.493 unidades) e de munições de fragmentação (24.107). Enquanto isso, o Marrocos continua sem aderir a Ottawa ou Oslo. Para piorar, ocorre que após o precário acordo de paz de 1991 entre Marrocos e a Polisário foi criada uma faixa de exclusão de cinco quilômetros de largura a leste do muro, onde não podem entrar nem pessoal nem equipamento militar, mas os civis podem.

Esta zona, que proporciona reservas de água porque se formam poças quando o muro cruza os rios, é atravessada o tempo todo por pastores nômades e seus animais, e é aí que está a maioria das minas. Entre 2014 e 2019, houve 186 vítimas. Uma delas passou 10 horas sangrando diante do olhar desamparado dos soldados, que não podiam entrar na zona de exclusão para resgatá-lo (por fim, civis o resgataram e foi preciso cortar a perna dele). Além disso, mais e mais animais são feridos ou mortos pelas explosões, o que arruína a vida dos pastores.

E sendo tudo isso horrível, o pior é que esta situação catastrófica que acabo de contar não existe oficialmente. Embora já tenhamos dito que o Saara Ocidental talvez seja o território habitado mais poluído por minas antipessoa em todo o planeta, não está no foco das áreas a serem limpas, de acordo com a Convenção de Ottawa, pois não possui status de país independente.

Além do mais, delegados saarauís não têm permissão para intervir de forma oficial nas conferências antiminas. Ottawa estabeleceu como objetivo conseguir em 2025 um mundo sem minas antipessoa (uma meta que Trump tornou muito difícil), e eu me pergunto como sequer se atrevem a esboçar semelhante conquista se não levam em conta os milhões de artefatos letais que irrigam o Saara. Aqui está uma boa metáfora da causa saarauí: é uma injustiça indecentemente silenciada, enterrada, explosiva.