quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O governo no divã do analista

Está provado e, deveras, reconfirmado: a impulsividade é uma característica latente do presidente, que toma decisões de acordo com o sentimento (e a conveniência) da hora. Tome-se o caso da retirada dos brasileiros de Wuhan, na China, já de retorno para uma quarentena por aqui. Alegando entraves diplomáticos, custo orçamentário, ameaça de contaminação, dificuldades jurídicas, o escambau a quatro, Bolsonaro havia dito que não iria fazê-lo. Determinou que a medida estava fora de cogitação porque, no seu entender, poderia expor boa parte da população brasileira de maneira desnecessária. Nas suas palavras: “Não vamos colocar em risco nós aqui (sic) por algumas famílias apenas”. Voltou atrás no surto de egoísmo e descaso.


Ao ver que os demais países, por dever humanitário e de solidariedade aos compatriotas, providenciaram a saída de seus cidadãos dos locais afetados — medida óbvia e inevitável —, o capitão resolveu finalmente seguir a ordem natural das coisas e repetir o exemplo. Deve ter caído a ficha sobre o tamanho da insensatez que cometeria lavando as mãos e se eximindo de responsabilidade no assunto. Afinal, onde iria parar o lema “governar para todos”, tão decantado em prosa de políticos de sua estirpe? Com a fritura em fogo brando do ministro Onyx Lorenzoni se deu a mesma coisa. Ele inicialmente havia resolvido retirar o auxiliar da pasta. Chamou-o para uma conversa nesse sentido. Pensou em deslocá-lo para outro posto. Depois decidiu mantê-lo onde está. O secretário Vicenti Santini, também da Casa Civil, virou pivô de mais um espetáculo de vacilação. Há poucas semanas, o capitão chegou a destituí-lo, indignado por uma viagem dele em voo da FAB. No dia seguinte voltou atrás e o readmitiu em outra função, para logo a seguir demiti-lo de novo. Em menos de 24 horas, Santini entrou e saiu do governo três vezes, em um feito inédito de ordens e contraordens oficiais. Foi assim em inúmeras ocasiões. Nunca se sabe se o mandatário seguirá firme por uma direção ou por outra, já que ele demonstra tocar as decisões quase sempre sem rumo certo e com limitado conhecimento da realidade que o cerca. Em tempos não muito distantes, chegou a dizer que não havia brasileiro passando fome. Depois…voltou atrás e reconheceu as evidências em contrário. Na virada de ano, anunciou que iria promover um reajuste para os policiais. Alertado sobre o custo do agrado, negou logo após. Em determinada ocasião, comunicou de público que suspeitava ter câncer e, em seguida, classificou a própria declaração de mentira e sensacionalismo da imprensa. Havia se superado na negação de si mesmo. O presidente é um adepto tão fervoroso das fake news que há de se dar a ele o benefício da dúvida quanto a uma verdade absoluta na cartilha pela qual professa. Desconfie! Nem sempre o que Bolsonaro diz ou pensa é realmente aquilo que ele acredita ou quer dizer. Em um comportamento ainda mais complexo, talvez explicável apenas na psicanálise, rotineiramente ele afirma algo para depois desmentir. É quase um esporte. Entendeu? Ninguém consegue. Nem dá para aceitar. Os episódios nesse sentido se multiplicam aos montes. Na gangorra das divagações de Messias, sequer os venezuelanos escaparam. Bolsonaro, sem prova ou qualquer informação concreta, logo nas primeiras horas de um vazamento criminoso de óleo contaminar parte da costa brasileira, atribuiu a responsabilidade aos vizinhos. E falou isso para quem quisesse ouvir, em entrevista aos jornalistas. Desdisse o que disse, mais uma vez. Foi se verificar mais tarde que um navio grego estava por trás do incidente. O ministro da Justiça, Sergio Moro, herói nacional, não escapou de ser mais uma vítima de sua, digamos, “tática” de idas e vindas. Receoso do prestígio e da sombra que o auxiliar gerava no seu governo, o presidente sugeriu a intenção de retirar dele as atribuições da segurança. Falou isso, jogou a ideia no ar e…voltou atrás. O mesmo quando, logo na estreia de sua gestão, resolveu extinguir o Ministério do Trabalho. Depois não levou adiante a medida. O Imposto de Renda? Garantiu que baixaria a alíquota. Reavaliou e desistiu.

É nessa instabilidade de decisões e na malemolência de gestão que Bolsonaro fixa seu mandato. Nada do que ele diz é seguro. Bem como ninguém que ele acusa de traidor — e fez isso diversas vezes, inclusive com aliados e correligionários – pode ser encarado exatamente como tal. Não se toma ao pé da letra o que diz e pensa o presidente. Afinal, pode ser só uma reação da hora. Nessa toada fica a duvida: é possível apostar que esse Messias está realmente tentando dar prumo e norte ao País? Ou mesmo: como reconhecer quais as suas reais convicções se elas mudam ao sabor do vento e das circunstâncias? Bolsonaro diz que não aceita o toma lá, da cá com políticos e abertamente pratica a habitual distribuição de verbas e até de cargos para fazer valer suas propostas — muitas delas esdrúxulas, como a do fim dos radares e das cadeirinhas para transporte de crianças nos carros. Francamente, não é razoável levar a sério um chefe da nação assim. Ele não pode ser taxado sequer de mercurial. Sua inconstância não é apenas no humor. Passa disso. Avança perigosamente para o plano das ações e, dessa forma, compromete ou, no mínimo, desestabiliza os rumos de um País inteiro. O capitão, que é facilmente influenciável, pelos bajuladores em especial, e teimoso com os supostos opositores — de quem não aceita qualquer contribuição, mesmo construtivas e corretas —, mostra-se inábil na cadeira do Planalto. Em mais de um ano aboletado no poder, não aprendeu e, pelo visto, demore o tempo que for ali, não vai aprender a ser estadista na plenitude do conceito. De pulso firme, princípios republicanos e preocupação com o interesse geral. Bolsonaro age exclusivamente para proteger os seus e valores retrógrados de perseguição e preconceito contra quem pensa e é diferente dele. Pobre de uma nação que precisa conviver com um comandante de valores tão limitados.

Mais do que nunca, o presidente parece precisar urgentemente de um divã de analista para se tratar e quem sabe assim passar a exibir aos menos um pouco de equilíbrio nas escolhas e enunciados que faz. Como uma metralhadora giratória, nos últimos dias ele tratou de disparar mentiras, acusando indevidamente governadores estaduais pelo preço do combustível (quando 80% dos tributos sobre o produto são federais). Na sua munição de fake news, o Congresso é alvejado como vilão, acusado pelo “mito” de jogar contra os interesses nacionais — quando, os fatos demonstram, a Casa assumiu a responsabilidade direta pelos trabalhos e aprovação, por exemplo, da Reforma da Previdência, enquanto Bolsonaro mostrava pouco interesse e empenho com o assunto. Agora o mandatário diz que quer, mas, na verdade, não faz o menor esforço para ver aprovada a reforma administrativa. Teme que servidores federais se voltem contra ele e o boicotem nas eleições municipais. Mais uma vez prevalece o interesse pessoal sobre a necessidade nacional. Governar para si e para os seus, jamais para maioria, virou marca da gestão bipolar.

Como foi que eles conseguiram

Todo mundo pergunta como foi que, partindo de uma situação em que “tudo estava dominado” pela corrupção, os americanos conseguiram virar o jogo.

O “Movimento Progressista” foi uma resposta aos problemas que se tornaram agudos depois da Guerra Civil (1861-1865) que em tudo fazem lembrar os do Brasil de hoje: urbanização desordenada com multiplicação de cortiços, favelas e violência urbana; exploração vil do trabalho; usurpação dos governos das cidades por máquinas políticas corruptas altamente profissionalizadas financiadas por empresários de araque; corrida às fusões e consolidações de empresas de setores inteiros da economia concentrando a riqueza e criando grupos gigantes com poder de corrupção ilimitado (os famigerados robber barons)…

Embora todos tivessem as mesmas queixas, até meados da década de 1890 dezenas de grupos reformistas ou de protesto separados por antagonismos em torno de minucias programáticas e vaidades imensas batiam cabeças em cidades e estados diferentes sem força para mudar nada.


Quatro fatores, principalmente, concorreram para que somassem forças a partir da crise que levou ao pânico financeiro de 1893. A ação de todas as igrejas na crítica do estado de coisas e na pregação do social gospel que associava a salvação individual também à “salvação social” preparou o terreno. Mas foi a fundação da National Municipal League (NML), em 1894, amplamente financiada pelo empresariado que perdia com a corrupção, que profissionalizou a critica do sistema e a busca de alternativas pesquisando sistematicamente ao redor do mundo bons modelos de gestão das cidades, formando pessoal, prestando assessoria jurídica e legislativa e, principalmente, difundindo para o grande público as alternativas encontradas, municiando de argumentos e “estruturando em rede” os movimentos reformistas do país inteiro.

Também foi crucial o início de uma revolução no jornalismo americano que evoluiu do sensacionalismo e do panfletarismo partidário para o jornalismo investigativo dos repórteres “revolvedores da sujeira” (muckrakers) da revista de Samuel McClure que circulou entre 1893 e 1929 e expôs os intestinos da corrupção dos robber barons dos setores de petróleo, financeiro, do aço e outros, que constituíram monopólios maquiavélicos mancomunados com os donos das ferrovias e com políticos corruptos. Foram esses jornalistas, também, que pesquisaram e difundiram persistentemente nos EUA novos métodos de combate à corrupção, especialmente as ferramentas de democracia direta usadas na Suíça.

Os muckrakers e a NML deram a contribuição decisiva para a mobilização da opinião pública numa direção consistente apoiada numa espinha dorsal de sólido conhecimento.

O elemento sorte entrou, então, decisivamente em cena pela mão de Theodore Roosevelt. Vindo de fora dos currais tradicionais da política, ele foi o primeiro político do Ocidente a compreender a força do novo jornalismo nascente. Jogando “fechado” com os grandes repórteres daquela geração, começou como chefe de polícia de Nova York, foi eleito na sequência governador do estado, e logo tornou-se herói nacional ao enfrentar a máfia que dominava a política local havia décadas e controlava nacionalmente o Partido Republicano. Traído, foi “esterilizado” numa candidatura à vice-presidência num golpe dos velhos caciques corruptos dentro da convenção republicana. Mas com o assassinato do presidente McKinley antes da posse “TR”, aos 42 anos, carismático e orador brilhante, tornou-se, em 1901, o 26o e mais moço de todos os presidentes dos Estados Unidos, servindo até 1909.

Sua primeira providência foi reviver o Sherman Antitrust Act de 1890, engavetado pelos antecessores, regulamentar a operação das ferrovias e instituir a preservação de um grau mínimo de concorrência em cada setor em benefício do consumidor como limite legal da disputa por mercados. Ao mesmo tempo atacou forte as bases do “caciquismo” que viciava a política implantando eleições primárias diretas, eleição direta de senadores (antes indicados pelos legislativos estaduais) e os direitos de recall, iniciativa e referendo popular dos atos dos Legislativos e Executivos estaduais e municipais. Essas medidas vieram de encontro aos novos modelos de gestão das cidades a partir de eleições municipais despartidarizadas promovidos pela NML, o de City Council (um conselho eleito de 5 a 7 membros executando todas as funções antes prerrogativas de prefeitos e vereadores) e o de City Manager (uma variação do mesmo sistema mas ainda mais profissionalizado) e acabaram com o poder dos velhos caciques.

TR “picou” o poder econômico onde estava excessivamente concentrado e, na política, deu poder de polícia aos eleitores contra os representantes eleitos o que matou o varejo da corrupção e garantiu a constante renovação de quadros. Desde então os EUA vivem em reforma permanente mas com o povo e não os políticos dirigindo a pauta, o que explica toda a diferença de desenvolvimento, afluência e liberdade entre eles e o resto do mundo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Bolsonarismo e lava-jatismo

Quando o então juiz, Sergio Moro, foi convidado para o Ministério da Justiça de Jair Bolsonaro, houve quem acreditasse que ele seria aquele capaz de colocar freios aos notórios ímpetos autoritários do presidente eleito. Moro era visto por esses otimistas como possível bastião do estado de direito num governo cuja liderança principal nunca lhe demonstrara apreço. O curioso otimismo talvez se justificasse se fosse Moro, ele mesmo, em sua carreira de magistrado, referência para a defesa do império da lei, dos direitos individuais e do devido processo legal. Contudo, quando se considera o que foi a Operação Lava-Jato, não é esse o quadro.

Conduções coercitivas a rodo, de pessoas que sequer sabiam que deveriam depor e, logo, nunca se negaram a fazê-lo; prisões preventivas a perder de vista, até que os presos, ainda não condenados, nem de alta periculosidade, decidissem confessar ou delatar algo; aceleração considerável de processos de determinados réus; condução das audiências de forma a intimidar os advogados de defesa; divulgação politicamente oportuna de informações relativas a processos - como a delação de Antonio Palocci, às vésperas do primeiro turno de 2018; grampos em escritório de advogados do réu; e, por último, mas não menos importante, o vazamento de um grampo telefônico tomado em momento não autorizado pelo próprio juiz, envolvendo autoridade fora do alcance de sua jurisdição - no caso, a presidente da República.

Algo foi esquecido? Provavelmente sim. Porém, tudo já era conhecido previamente ao anúncio do convite para o ministério e, portanto, antes também das revelações da Vaza-Jato pelo “The Intercept”, que demonstraram existir conluio do juiz com procuradores - estes últimos, sempre bom lembrar, parte do processo, não seu árbitro.

A ilusão de que Moro pudesse ser o dique às tendências autoritárias de Bolsonaro decorre da normalização do arbítrio na Lava-Jato, em nome do combate inclemente à chaga da corrupção. Ela explica a leniência de cortes superiores com excessos cometidos pela operação, como ficou claro na decisão do TRF-4 sobre abusos do juiz que a chefiava, em especial o vazamento do telefonema presidencial, irregularmente captado.

Para justificar a não punição de Moro por seus abusos, afirmou o desembargador relator do caso: “É sabido que os processos e investigações criminais decorrentes da chamada operação ‘Lava-Jato’, sob a direção do magistrado representado, constituem caso inédito (único, excepcional) no Direito brasileiro. Em tais condições, neles haverá situações inéditas, que escaparão ao regramento genérico, destinado aos casos comuns”. Ainda complementou: “a ameaça permanente à continuidade das investigações da operação ‘Lava-Jato’, inclusive mediante sugestões de alterações na legislação, constitui, sem dúvida, uma situação inédita, a merecer um tratamento excepcional (...) as investigações e processos criminais da chamada operação ‘Lava-Jato’ constituem caso inédito, trazem problemas inéditos e exigem soluções inéditas”.

Trocando em miúdos: o ineditismo da situação permite uma justiça de exceção. Ocorre que a Operação Lava-Jato, que perdura por seis anos, rotinizou a exceção, normalizando-a. Moro e seus companheiros no Ministério Público foram artífices dessa normalização, coonestados pelo restante da hierarquia judicial, sob pressão da empolgação pública, do cansaço em relação à corrupção e do apoio acrítico, apaixonado ou mesmo cínico de segmentos importantes da imprensa. A normalização do Estado de Exceção, contudo, tem nome: chama-se ditadura.

Portanto, como esperar do heroico propulsor do Estado de Exceção judicial no país que se transformasse subitamente em freio limitador de um presidente de vocação autoritária? Seria de se supor, na verdade, exatamente o oposto: que Moro se convertesse naquele capaz de dar forma jurídica ao autoritarismo bolsonarista, desenhando seus contornos legais.

O pacote anticrime, consideravelmente corrigido pelo Congresso - mas que continha na versão originária, proposta pelo ministro, algo como o excludente de ilicitude de assassinatos cometidos sob “escusável medo, surpresa ou violenta emoção” - é um exemplo de como dar forma legal ao arbítrio. Nesse caso, não se trata apenas da perseguição a corruptos e criminosos do colarinho branco, supostamente alvos preferenciais de Moro, mas de ações que dão ao Brasil a liderança mundial da letalidade policial, preferencialmente de jovens pobres e negros - sob elogios da família Bolsonaro e silêncio do ministro.

Essa convergência de propósitos é visível não apenas na lealdade de Moro ao projeto bolsonarista, antecipada por suas ações como juiz e pelo apoio público de sua esposa ao candidato de extrema direita na eleição presidencial. Ela se nota também na mistura de lavajatismo e bolsonarismo nos movimentos de base da nova direita extremista (como o movimento Nas Ruas); na ideia de que, em nome da “justiça”, o respeito a direitos fundamentais e ao devido processo é “mi-mi-mi”; na tentativa de criminalizar a imprensa, que revela impropriedades da atuação de agentes “da lei”; e na acusação a críticos e opositores de cumplicidade com malfeitorias.

Assim, a disputa intestina, entre Moro e Bolsonaro, não contrapõe concepções políticas significativamente distintas. Ambos têm estilos pessoais diferentes e conseguem apelar a públicos que se sobrepõem considerável, mas não completamente. A maior discrição e polidez do ex-magistrado, se lhe tira o carisma por um lado, amplia seu alcance por outro. Não ter vínculos obscuros com milicianos e que tais também é vantagem, pois lhe reduz as vulnerabilidades. Não à toa segue mais popular do que o chefe e com boa chance de lhe dar uma rasteira se for expelido. Por isso mesmo, para além das afinidades de fundo, o mais interessante para Bolsonaro é o manter vinculado a si. Para Moro, pode ser exatamente o oposto, sob o risco de ser tragado pelas confusões de um governo ao qual dá seu respaldo, mas com cujos problemas pode acabar se fundindo.
Cláudio Gonçalves Couto

Poder de sangue

O poder é, antes de mais nada, arbitrário, impaciente e necessariamente cruel
Jean-Clude Carrière, "O círculo dos mentirosos"

O silêncio do clã Bolsonaro

Escolheram o silêncio, estranharam amigos de ambos na Polícia Militar do Rio. Até há pouco não perdiam chance de louvá-lo: um “brilhante oficial”, nas palavras do patriarca Jair, ou, um homem de “excepcional comportamento”, na definição do primogênito Flávio. Viam nele um combatente urbano, treinado no Batalhão de Operações Especiais, hábil no gatilho à distância, sagaz em perseguição camuflada na geografia carioca. 


Os Bolsonaro o reverenciavam. Jair, por exemplo, se apresentou como deputado federal no julgamento do amigo, no outono de 2005. Assistiu à sua condenação (19 anos e 6 meses de prisão) pela execução “de um elemento que, apesar de envolvido com o narcotráfico, foi considerado pela imprensa um simples flanelinha”, como descreveu em discurso de protesto na Câmara. 

Com o filho Flávio, cultuava o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega como símbolo de uma PM cuja prioridade, julgavam, deveria ser a eliminação sumária de suspeitos, “porque vagabundo tem de ser tratado dessa maneira”. Dedicaram-lhe discursos, homenagens e até inscreveram seus parentes na folha salarial do Estado do Rio. 

Estavam numa cruzada por alguma forma de legitimação das milícias. No plenário da Assembleia, o deputado Flávio argumentava: “Será que um vagabundo sendo preso poderá se recuperar? Temos de deixar de ser hipócritas! Não há recuperação mesmo.” E justificava o avanço desses grupos à margem da lei: “Não podemos generalizar, dizendo que esses policiais, que estão tomando conta de algumas comunidades, estão vindo para o lado do mal. Não estão.”

Era uma visão consensual no clã liderado por Jair. Em 2003, na Câmara, saiu em defesa das execuções feitas por policiais baianos. “Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio será muito bem-vindo. Se não houver espaço na Bahia, pode ir para o Rio. Terão todo o meu apoio... Meus parabéns!”

Acusado de liderar matadores de aluguel no Rio, o ex-capitão do Bope fluminense acabou morto pelo Bope baiano em Esplanada, cujo cemitério foi erguido por Antônio Conselheiro, líder do fanatismo religioso no sertão do final do século XIX. O clã Bolsonaro preferiu o silêncio.

O que é o 'Cisne Verde', que pode causar a próxima crise financeira mundial

Quando o dinheiro estava correndo fartamente nos corredores de Wall Street e a festa parecia nunca acabar, poucos viram que uma crise financeira brutal estava a caminho. Seus efeitos profundos pelo mundo contam esta história até hoje.

Após a crise de 2008, a urgência em tentar antecipar crises como essa cresceu tanto quanto o medo da reincidência.

Foi nessa época que os economistas começaram a usar o termo "cisne negro" para se referir a eventos fora da curva e que têm um forte impacto negativo ou até catastrófico.

Na semana passada, o Bank for International Settlements (BIS), conhecido como "o banco dos bancos centrais", com sede na Suíça, publicou o livro The green swan (O cisne verde), um estudo de Patrick Bolton, Morgan Despres, Luiz Pereira da Silva, Frédéric Samama e Romain Svartzma.

A partir do cisne negro, os autores criaram a figura do "cisne verde" para se referir à perspectiva de uma crise financeira causada pelas mudanças climáticas.


"Os cisnes verdes são eventos com potencial extremamente perturbador do ponto de vista financeiro", resumiu à BBC News Mundo o brasileiro Luiz Pereira da Silva, vice-diretor geral do BIS e co-autor do estudo.

O economista explica que eventos climáticos extremos, como os recentes incêndios na Austrália ou furacões no Caribe, aumentaram sua frequência e magnitude, o que traz grandes custos financeiros.

Explicam os prejuízos as interrupções na produção, destruição física de fábricas, aumentos repentinos de preços, entre outros. Pessoas, empresas, países e instituições financeiras podem ser afetados.

Recentemente, no Brasil, fortes chuvas com intensidade muito superior à média mensal castigaram os Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, causando dezenas de mortes, prejuízos materiais e interrupções de atividades produzindo um efeito negativo ainda não totalmente medido na economia.

"Se houver um efeito cascata na economia, outros setores também sofrerão perdas. Tudo isso pode acabar em uma crise financeira", diz Pereira da Silva.

A esse cenário são adicionados outros riscos que o especialista chama de "transição", altamente perigosos.

Isso ocorre quando, por exemplo, há uma mudança abrupta nos regulamentos, como uma proibição repentina da extração de combustíveis fósseis.

Ou se houver uma mudança inesperada na percepção do mercado e, por exemplo, os proprietários de certos ativos financeiros decidirem repentinamente se livrar deles.

Nesse caso, se produz um efeito em cascata: o pânico afeta outros investidores, que acabam se desfazendo de ativos.

Todos esses riscos estão sendo estudados por bancos centrais e reguladores do sistema financeiro, que buscam uma maneira de antecipar ou se prevenir para a chegada de um cisne verde.
Como enfrentar um cisne verde?

A verdade é que, nos círculos financeiros, não há resposta para essa pergunta.

Os autores do livro explicam que os modelos de previsão do passado não foram projetados para incluir as mudanças climáticas.

É por isso que eles convidam outros pesquisadores a desenvolver novas fórmulas considerando isto.

Os autores também alertam que, se uma crise como a de 2008 acontecer de novo, os bancos centrais não terão mais como auxiliar no resgate mundial como naquele tempo — quando tiveram papel vital reduzindo as taxas de juros a níveis historicamente mínimos.

Acontece que, mais de uma década depois, as taxas continuam baixas, o que deixa pouco espaço de manobra para estimular as economias e impulsionar o crescimento.

O livro também afirma que os níveis mínimos de capital acumulado para enfrentar crises, exigidos pelos regras atuais, não seriam suficientes para mitigar os efeitos de um cisne verde no sistema financeiro.

Outros alertas já vieram também de outras partes do mercado.

Larry Fink, diretor executivo do BlackRock, o maior fundo de gerenciamento de ativos do mundo, alertou em meados de janeiro que as mudanças climáticas estão prestes a desencadear uma grande reforma.

"Estamos à beira de uma mudança fundamental no sistema financeiro", escreveu Fink em sua carta anual aos acionistas.

Ele explica que "as mudanças climáticas se tornaram um fator determinante nas perspectivas de longo prazo das empresas" e prevê que uma realocação significativa de capital ocorrerá "antes do previsto".

"As mudanças climáticas são quase sempre a principal questão que os clientes em todo o mundo levantam para o BlackRock. Da Europa à Austrália, América do Sul, China, Flórida e Oregon, os investidores perguntam como devem modificar seus portfólios de investimentos".

E embora Fink não seja uma autoridade política ou monetária, sua empresa administra ativos avaliados em quase US$ 7 bilhões. Portanto, quando ele fala, é ouvido com atenção.

"Durante os 40 anos de minha carreira em finanças, testemunhei uma série de crises e desafios financeiros: aumento da inflação nos anos 70 e início dos 80; a crise monetária asiática em 1997; a bolha da internet e a crise financeira global", afirmou.

"Mesmo quando esses episódios duraram muitos anos, eles eram todos de um tipo de curto prazo. É diferente com as mudanças climáticas."
Em The green swan, os autores identificam cinco tipos de riscos associados às mudanças climáticas que podem contribuir para uma crise financeira. São eles:
  • Risco do crédito: as mudanças climáticas podem atrapalhar os devedores a honrar seus compromissos. Além disso, a possível depreciação dos ativos utilizados como garantia para os empréstimos também pode contribuir para o aumento dos riscos de crédito.
  • Risco dos mercados: se houver uma mudança acentuada na percepção de rentabilidade pelos investidores, poderá haver vendas rápidas de ativos (liquidações de preços baixos), o que pode desencadear uma crise financeira.
  • Risco de liquidez: ele também pode afetar bancos e instituições financeiras não bancárias. Se estes não conseguirem se refinanciar no curto prazo, isto poderia levar a uma crise maior.
  • Risco operacional: ocorre quando, como resultado de um evento climático extremo, escritórios, redes de computadores ou data centers têm problemas em funcionar.
  • Risco de cobertura: no setor de seguros, uma quantidade maior de sinistros poderia ser acionada, colocando as empresas do ramo em xeque.

Conta outra, doutor

Ganha um fim de semana em Rio das Pedras quem conseguir montar um cenário plausível para a seguinte situação: Setenta policiais participam de uma operação para a captura do “Capitão Adriano”, foragido desde o ano passado. Suspeitando-se que ele se escondeu na chácara do vereador Gilsinho da Dedé (PSL), alguns deles formam um triângulo e cercam a casa. Tratava-se de uma área rural, sem vizinhos.

Segundo a versão da polícia baiana, ratificada pelo governador Wilson Witzel (Harvard Fake ’15), “chegamos ao local do crime para prender mas, infelizmente, o bandido (Medalha Tiradentes ’05) que ali estava não quis se entregar, trocou tiros com a polícia e infelizmente faleceu”.


Conta outra, doutor. Ou, pelo menos, conta essa direito. Adriano da Nóbrega estava cercado. O bordão “trocou tiros” é um recurso gasto. Antes da chegada da polícia, o miliciano já fugira da casa onde estava com a família, na Costa do Sauípe, e do esconderijo onde se abrigara, numa fazenda próxima. Os policiais podiam ficar a quilômetros da casa, e o bandido poderia atirar o quanto quisesse, mas continuaria cercado. Se a intenção fosse capturá-lo vivo, isso seria apenas uma questão de tempo. Três dias depois da operação, as informações divulgadas pelas polícias foram genéricas e insuficientes para se entender o que aconteceu.

Na melhor da hipóteses, os policiais foram incompetentes. Na pior, prevaleceu o protocolo de silêncio seguido pelo ex-PM Fabrício Queiroz, "chevalier servant" da família Bolsonaro e administrador da “rachadinha” de seus gabinetes parlamentares, onde estiveram aninhadas a mãe e a mulher de Adriano. O silêncio de Queiroz é voluntário, o do miliciano foi inevitável. Fica no ar um trecho da fala triunfalista de Witzel, no qual ele disse que a operação “obteve o resultado que se esperava”.

Quando a polícia estava no rastro de Adriano, o ministro Sergio Moro vangloriou-se de ter organizado uma lista dos criminosos mais procurados. Nela estavam 27 bandidos, mas faltava o “Capitão Adriano”. No melhor burocratês, o ministério explicou: “As acusações contra ele não possuem caráter interestadual, requisito essencial para figurar no banco de criminosos de caráter nacional”. Conta outra, doutor. Dois dos listados eram milicianos municipais do Rio de Janeiro. Ademais, a interestadualidade de Adriano foi comprovada na cena de sua morte, com policiais baianos e fluminenses.

O secretário de Segurança do governo petista da Bahia prometeu transparência na investigação da morte do miliciano. Seria uma pena se a cena do tiroteio tiver sido alterada. Numa troca de tiros deveriam existir cápsulas da arma de Adriano. Seria razoável supor que a polícia disparou mais tiros, além dos dois que atingiram o bandido. A cena poderia ter sido filmada, mas isso seria pedir demais, mesmo sabendo-se que se tratava de uma operação de relevância nacional. A captura de Adriano lustraria a polícia e jogaria luz sobre suas conexões. A morte do ex-capitão serviu apenas para aumentar as trevas que protegem essa banda das milícias do Rio.

Faz tempo, uma patrulha do Exército perseguiu outro ex-militar foragido pelo interior da Bahia. Chamava-se Carlos Lamarca. Apesar de ter teatralizado a cena de sua morte, o oficial que comandava a patrulha não falou em troca de tiros. Narrou uma execução.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Brasil incendiário


Japoneses, parasitas, bananas e os brasileiros

João, casado e professor, tinha 25 anos quando, em 2013, conheceu Eduarda, sua aluna, de oito anos. A menina vivia em um abrigo para órfãos e abandonados. Quis adotá-la, mas descobriu que ela era a mais velha de seis irmãos – a mais nova com dois anos. No grupo havia ainda um menino de seis anos e trigêmeas de quatro anos. Todos vivendo no abrigo.

O grupão não intimidou o casal que encarou o processo formal de adoção de todas as crianças. Em 2014, a família de João Nogueira somava seis filhos – Eduarda, Eduardo, Ana Clara, Maria Luiza, Mariana e Yasmim.

A façanha de generosidade e amor só foi notícia agora, em 2020, quando uma “vaquinha virtual” permitiu a compra de uma Kombi capaz de acomodar a família inteira na sua lida diária.

João contou na rádio que a produção da “vaquinha” foi presente de sua amiga oculta, no Natal. Esperavam conseguir parte do dinheiro para a compra da Kombi sonhada. O restante seria complementado com doações da família. Mas a solidariedade surpreendeu e, além da compra, a “vaquinha” ainda deu para um trato geral no veículo, de 2010, batizado pelos filhos de Kombão do amor.

A família vive no DF. Entre a adoção e a compra do Kombão, João encarou dois anos de desemprego, separação e novo casamento. Nada desuniu a grande família.


Ou seja, podemos garantir ao colega Alexandre Garcia e ao Capitão Presidente que não é preciso importar japoneses para fazer o Brasil melhor. Há gente boa, corajosa e generosa no país. A maioria é assim. O que atrapalha, corrompe, desatina e desalenta são as cíclicas más gestões ou as gestões temerárias a que somos submetidos por temporários praticantes da beira do caos. Os tais que, prometendo muito, salvam uns poucos e abandonam milhares. Não há povo que sobreviva a isso, sem sequelas.

Houve esperança e orgulho de ser brasileiro em período recente, quando o Brasil ousou andar pra frente, quando os Governos, ainda que de diferentes partidos, não desfaziam os bens feitos dos seus antecessores. Ao contrário, ampliavam e consolidavam, particularmente, políticas inclusivas de atenção à maioria abandonada por gerações e gerações de governos gulosos, perversos e vendidos de baixo preço.

Exemplo mais visível, o Bolsa Família, que começou como Bolsa Escola, fez melhoria e crescimento chegar até às pequenas cidades. A economia mais solidária permitiu a muitos o consumo de comida e de bens antes reservados a minoria mais rica.

Foi manchete ontem, 10 de fevereiro: “O governo Jair Bolsonaro congelou o Bolsa Família em uma a cada três cidades dentre os 200 municípios mais pobres do Brasil”. Municípios mais pobres! De doer. E dói.

Volta a faltar dinheiro para o iogurte e a geladeira nova na casa da maioria mais pobre. Para milhares, os apertos na economia, fazem faltar dinheiro até para a comida básica. Para esses, o arroz e o feijão diário voltam a ser luxo eventual.

Porque noticiam descalabros, atropelos e descaminhos do atual governo, no fim de semana, jornalistas receberam gesto de banana do sempre deselegante Presidente Capitão ou vice-versa. Na semana passada, o ministro de economia, na mesma tecla de depreciação e afronta, definiu como “parasitas” os servidores públicos.

No modelo faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço, a perversa autoridade é antigo chupista dos sistemas de capitalização – que chama de “poupança garantida”, mas que só dá garantias reais aos guardiões da bufunfa capitalizada. Os de sempre. O povo chileno conhece de perto essa modalidade de abuso de desalmados governantes. No caso deles, Pinochet, com o ministro Chicago boy, nefando, na área – fazendo girar a roda do mal.

(Aos costumes, depois de grita geral, o comandante da economia desculpou-se pelo “mal-entendido”. Suas desculpas já foram banalizadas. A gente não tem cara de panaca. Até o Rei Momo sabe que elas não mudam o que ele pensa e sente e que escapa cada vez que se sente à vontade, entre os seus.).

Não há japonês que dê conta desses malignos. Faltam adjetivos para qualificar os Chicago Oldies da cena diária brasileira.

Sem esquecer:
Quem pagará por Mariana e Brumadinho?
Quem matou Marielle?
Como morreu Adriano, o miliciano que sabia demais?
Cadê o Queiroz?
Tânia Fusco

Quem é o verdadeiro parasita no cinema e no mundo real?

“Parasita”, vencedor dos principais prêmios do Oscar no domingo (9), não foi o meu filme favorito do ano. (Eu ficaria com “Era uma Vez em... Hollywood” ou “1917”.) Seja como for, o quadro das relações sociais traçado pelo vencedor vem bem a calhar num momento em que a desigualdade desponta como um dos grandes problemas globais.

Em “Parasita”, a extrema desigualdade social faz com que o único caminho para a família Kim sobreviver seja se infiltrar pouco a pouco como serviçais da família Park. Entre fraudes e pequenos golpes para aproveitar algumas das benesses da vida dos Park, que permanecem —em sua inocência— alheios aos planos dos Kim, estabelece-se uma relação parasitária.

O conflito, contudo, não se estabelece entre parasita e hospedeiro, e sim entre os Kim e outra família pobre com quem disputam as migalhas que caem da mesa dos patrões. Destroem-se mutuamente sem reconhecer o verdadeiro beneficiário de sua situação precária.

Coloca-se, evidentemente, em questão quem seriam os verdadeiros parasitas. Afinal, os Park, que desfrutam uma vida de ócio e prazeres, só o fazem porque contam com o trabalho incessante de desesperados como os Kim, cujo abandono social os leva a se sujeitar a qualquer exploração.

E, para completar, com a exploração econômica vem o desprezo humano, no completo desinteresse dos patrões pela vida dos empregados e seu incômodo com o cheiro deles. Conforme a tensão cresce, um desfecho de violência brutal torna-se inevitável.


Quando rotulamos uma classe ou grupo social de “parasita”, estamos dizendo que ele é um peso, um gasto extra que não gera retorno e que, por isso, pode e deve ser combatido.

Na URSS, o “parasitismo social” era crime previsto em lei, punindo quem não trabalhasse (não raro, intelectuais críticos do regime). Na Alemanha nazista, estigmatizava povos que não tinham um território próprio, como os judeus e os ciganos.

No discurso atual, os “parasitas” podem ser qualquer um: beneficiários de programas sociais, banqueiros, políticos, sindicalistas, imigrantes, artistas, funcionários públicos (como na fala recente de Paulo Guedes).

Não há nada de científico aí: em cada caso, faz-se um recorte tendencioso em que o grupo é pintado como uma corja de malandros ou preguiçosos que suga recursos da sociedade. Podemos até aceitar que alguns indivíduos são, com justiça, descritos como parasitas. Mas no caso de grupos inteiros a atribuição é sempre descabida.

Ela é útil para criar ódio: para nos colocar no estado de espírito em que nos dará prazer ver um membro do grupo “parasitário” sofrer. E também nos garantirá um inimigo incondicional, do qual não poderemos esperar colaboração, mesmo para objetivos em comum.

Criticar o termo não é negar a existência de problemas distributivos: seja por setores do funcionalismo que têm salários e reajustes automáticos muito acima do mercado, seja por multimilionários que pagam menos impostos que um trabalhador comum. Elaborar regras que produzam uma sociedade mais eficiente e justa é um trabalho complexo e muito diferente do mero desejo de punir funcionários públicos ou banqueiros.

O uso do termo pode se prestar à mobilização política, mas não nos ajuda a entender melhor as relações sociais em sua complexidade e nem a resolver os problemas que delas surgem. Entre os Kim e os Park, quem são os verdadeiros parasitas? Ficar preso a isso só perpetua as relações desiguais que, em última análise, são destrutivas a ambos.
Joel Pinheiro da Fonseca

Censura

Governador Marcos Rocha,

Espero que o senhor já tenha demitido o secretário de Educação do Estado de Rondônia, assim como a diretora-geral de Educação. Nada pessoal, senão pelo fato de que — ao não o fazer — será somente do senhor a responsabilidade pela tentativa de censura contida no memorando 4/2020, aquele que propõe o Index Librorum Prohibitorum do século XXI, expedido por uma secretaria de seu governo e enviado às coordenadorias regionais.

Permita-me lembrá-lo de como a mensagem começa, desde já me desculpando por constrangê-lo com o uso do idioma por auxiliares que escolheu: “Solicitamos aos senhores que verifiquem nos kits de livros paradidáticos encaminhados às escolas para compor os acervos das bibliotecas, os livros relacionados no Adendo ID (10053329), e procedam com o recolhimento dos mesmos imediatamente, tendo em vista conterem conteúdos inadequados às crianças e adolescentes”.

Espero que já os tenha demitido também porque, de qualquer outra forma, recairá sobre o senhor a obrigação de explicar à sociedade o que seriam — nos livros que se pretendeu censurar —os tais “conteúdos inadequados”. O que seriam? Uma sugestão, governador: pergunte aos autores do memorando censor e então tenha — qualquer que seja a resposta — a justa causa para exonerá-los.


O outro caminho será o habitual, o da covardia, o que o senhor trilha até aqui: assumir, com o silêncio, a incompetência dos subordinados, passando-lhes a mão na cabeça, e, por omissão, plantar que desconhecia o ato, torcendo para o fervo baixar — combinação que intenta descaracterizar o propósito difundido pelo memorando, opção que reforça o propósito sem negar a incompetência.

Talvez o senhor diga que houve um mal-entendido e que, uma vez identificado o erro, o governo se mobilizou para repará-lo. Nesse caso, terá de explicar como se conserta um arreganho autoritário colocando o documento em questão sob sigilo. Precisará igualmente esclarecer que tipo de consciência — senão a do “a casa caiu” — vai expressa em comunicações oficiais como a que se segue: “Missão recolhimento dos livros abortada. Caso façam contato com vocês sobre o tema, por favor, peçam que entrem em contato com a C.R.E.”

Não é bonito o retrato. Bonito tampouco é o tuíte por meio do qual o seu governo buscou reagir após recuar: “A @seducro reforça o compromisso com a Educação e reconhece que os livros são obras de autores consagrados mundialmente e que cumprem um papel importante para uma construção social. Sendo assim, não há ordem de recolhimento dos mesmos”.

O reconhecimento da secretaria não interessa, governador. Tampouco interessa a avaliação sobre o papel de um escritor para “uma construção social”, seja lá o que isso for. O fato de serem livros de “autores consagrados” não importa. Não é critério — a condição de clássico — para não censurar. Ou seria diferente — a censura avançaria — fossem escritores desconhecidos?

Livro nenhum precisa ser lido. Todo livro precisa estar livre para a leitura. Sem exceção. Isso é um valor — valor que não vê capa. Só o tempo pode tornar degredado um livro. Só o desinteresse das gentes, no curso das décadas, elege os proscritos — exílio do qual sempre um novo olhar lhes poderá resgatar.

O que faz um livro clássico não é a imposição do gosto de alguém ou de algum grupo. A imposição do gosto de alguém ou de algum grupo faz a censura. Não foi a caneta de um burocrata que fez “Memórias póstumas de Brás Cubas” um clássico. Foi a força de permanência dessa obra — sua capacidade de se manter atraente para além dos séculos — o que a fez clássica.

A vida de um livro é a vida dos que o desejam ler. O livro envelhece, rejuvenesce ou encontra a maturidade, a estabilidade, em função do desejo soberano de leitura. Quando o Estado viola o fluxo dessa natureza e mobiliza suas estruturas para recolher obras — clássicas ou não — em decorrência do juízo de burocratas, o que temos nome tem: censura.

Foi o que tentou fazer o governo do senhor: censurar.

São homens de bem — certos de proporem o melhor para proteger a juventude — os que censuram; os que mais rapidamente materializam o espírito do tempo. Doutrinação esquerdista nos colégios, a onipresença do marxismo cultural nas salas de aula, o ensino como irradiador de perversões etc. Isso nunca tarda a resultar, na mão do guarda da esquina, em lista de leituras a serem trancadas; nunca demora a desaguar em um Machado de Assis proibido, autor também de “Dom Casmurro”, criador da personagem Capitu, Capitu que dá nome à cadela do ministro da Educação, de quem não se ouviu palavra em repúdio ao limite que o governo do senhor testou. O senhor, com a omissão que abona, é o guarda da esquina.

É onde estamos. A corda seguidamente esticada; sendo inegável que, nos 43 livros amaldiçoados, haja muita coisa escrita — e de impossível suavização. Quando afrouxa, nunca volta ao mesmo lugar.

As enchentes

As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas.

Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.


De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.

Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.

O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida intagral.

Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!

Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.

O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.

Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.

Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.
Lima Barreto, Vida urbana, 19-1-1915

Pensamento do Dia


A guerra que não pode esperar

Mesmo em tempos prolongados de paz, todos os países realizam, com maior ou menor periodicidade, manobras militares e jogos de guerra destinados a avaliar a “prontidão” das suas tropas, em caso de necessidade. De acordo com as alianças de cada nação e a localização geográfica onde os simulacros decorrem, muitos desses exercícios são realizados num regime de estreita cooperação com as forças armadas de outros países e sob um comando unificado. Com um objetivo claro: treinar a resposta mais rápida, eficiente e adequada à ameaça, de forma a derrotar o inimigo e a sofrer o menor número de baixas.

O mais incrível, em especial nos tempos que correm, é que este tipo de exercícios, com um grau elevado de cooperação e de movimentos coordenados, continua a ser apenas possível de se concretizar no campo militar. Só na preparação para a guerra, quase sempre com base em cenários hipotéticos de resposta a ataques dos inimigos tradicionais, sejam eles próximos ou estratégicos, os países aceitam coordenar planos, esforços e ações no terreno, recebendo ordens de uma cadeia de comando aceite por todos. No entanto, esta cooperação em assuntos de guerra não consegue repetir-se noutras batalhas, mesmo quando se enfrentam inimigos comuns, como as alterações climáticas ou a ameaça das pandemias. Nesses casos, como se tem visto, a cooperação limita-se às grandes declarações e aos discursos de intenção, mas continua a falhar na adoção de medidas e nas soluções no terreno.

Quem se preocupa minimamente com as questões da saúde pública, como as principais organizações sanitárias mundiais, sabia que uma epidemia como a do 2019-nCoV – o novo coronavírus que rapidamente alastrou a partir da China – iria ocorrer, mais tarde ou mais cedo. Ninguém podia adivinhar quando e onde a epidemia ia começar, mas todos sabiam que ela ia acontecer. Como também sabem que esta epidemia não será a última – outras se lhe seguirão.

Há pelo menos cinco anos que, por exemplo, Bill Gates anda a alertar para este risco e a pedir que os governos se coordenem entre si e se preparem para o enfrentar como se fossem para a guerra. O milionário fundador da Microsoft tem pedido mesmo que se use o exemplo dos exercícios militares realizados no âmbito da NATO como modelo para estancar futuras epidemias: a realização de jogos de guerra e de manobras, de forma a tentar antecipar como um vírus pode espalhar-se e até que ponto os serviços de saúde, nos vários países, estão preparados para enfrentar a ameaça e qual o tipo de ajuda internacional que pode ou deve ser ativado. Com o mesmo grau de prontidão e competência que se aplica nas guerras, para que todos marchem na mesma direção.

Num documento recente, em que enumerou os principais desafios para a década, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde sentiu também a necessidade de criticar os governos que gastam fortunas para tentar evitar os ataques terroristas, mas que não aplicam os mesmos esforços perante a possibilidade de um ataque com um vírus – “que pode ser muito mais mortífero e com muito maior impacto económico e social”, sublinhou.

Esta necessidade de coordenar esforços a nível internacional, ao mesmo tempo que se apela a maiores investimentos e esforços, públicos e privados, na promoção dos cuidados de saúde básicos, no combate às desigualdades e na luta contra a desinformação, acaba, no entanto, por colidir de frente com os discursos populistas, isolacionistas e nacionalistas que grassam pelo mundo. Mas se há algo que esta pandemia começa já a demonstrar – até pelo exemplo de cooperação entre cientistas – é que os grandes desafios planetários só se resolvem mesmo à escala planetária. E esta guerra ainda só começou.
Rui Tavares Guedes

Futuro?

A existência das gerações futuras é das coisas que menos cuidado dão às gerações presentes
Visconde de Santo Thyrso ( Eduardo da Costa Macedo, 1859-1916), "De rebus pluribus"

Como a imprensa lucra com líderes como Trump e Bolsonaro

A peça publicitária do diário americano The New York Times dura apenas 31 segundos: "A verdade é dura. Dura de achar, dura de saber. A verdade é mais importante agora do que nunca."

O vídeo de fevereiro de 2017 é um exemplo para a autopublicidade de sucesso de veículos da imprensa numa era de notícias falsas e de acusações de mentirosa. Mostra o jornalismo como instrumento de resistência política e garantidor da liberdade de opinião e de expressão.

Desde a eleição do presidente americano Donald Trump, em 8 de novembro de 2016, jornais como New York Times e Washington Post, mas também o britânico The Guardian e a revista The Economist, vivem uma espécie de Renascimento midiático. No Brasil, ventos favoráveis sopram para veículos críticos ao governo desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, há pouco mais de um ano.

O efeito Trump sobre o setor jornalístico parece ser duradouro. O New York Times registrou o maior "dividendo democrático", por assim dizer. Desde novembro de 2016 e novembro de 2018, o número de assinaturas digitais subiu de 1,5 milhão para 2,5 milhões. Atualmente, o jornal tem quase 4 milhões de assinantes.

"Em 2019, o New York Times computou mais de um milhão de novas assinaturas digitais", diz a publicação alemã especializada em marketing W&V. "É o maior aumento anual desde a implementação das assinaturas digitais pagas, em 2011, e o mais expressivo crescimento de assinaturas dentro de um ano desde a fundação da New York Times Company", acrescenta o texto.


No Brasil, também houve um chamado "efeito Bolsonaro". Desde que o presidente declarou que o governo não publicaria mais propagandas e anúncios no maior diário do país, a Folha de S. Paulo, o número de assinaturas digitais da publicação disparou.

"Jornalismo profissional é antídoto para notícia falsa e intolerância", diz o título dos princípios editoriais do jornal, que publica uma versão em inglês desde 2011. De acordo com o Instituto Verificador de Comunicação (IVC), o número de assinaturas digitais pagas da Folha de S. Paulo subiu de 207 mil em dezembro de 2018 para 241 mil em outubro de 2019.

Durante a Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro, em setembro do ano passado, a Folha deu um exemplo do que entende por tolerância, estampando na capa o desenho dois homens se beijando, parte da história em quadrinhos Vingadores – a Cruzada das Crianças. A decisão repercutiu internacionalmente porque a HQ havia sido proibida, pouco tempo antes, pelo prefeito do Rio, o evangélico Marcelo Crivella – sob a justificativa de conter "conteúdo sexual para menores".

No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson ameaçou a BBC de eliminar a taxa compulsória para TV e rádio no país, cobrada de todos os domicílios e principal fonte de recursos para a emissora pública internacional. Neste cenário, o The Guardian vem ganhando força com sua abordagem crítica. A publicação não apenas aumentou o número de seus assinantes, mas também consegue, com sucesso, angariar doações para a manutenção de um jornalismo independente.

Pouco antes das eleições parlamentares antecipadas em dezembro de 2019 no Reino Unido, o Guardian iniciou uma campanha com o slogan "Mudar é possível. A esperança é poder". No vídeo, uma borboleta dentro de uma sala voa contra a janela, até que, em certo momento, o vidro quebra e o inseto consegue se libertar. Desde então, mais de um milhão de doadores faz parte do círculo de apoiadores do jornal cronicamente endividado.

O Washington Post é menos dramático. A campanha "A democracia morre na escuridão", anunciada já em 2017 pelo fundador da empresa Amazon e dono do jornal, Jeff Bezos, também conquistou muitos novos leitores. Em 2019, a publicação tinha 746 mil assinantes da versão impressa e 1,7 milhões de assinaturas digitais.

"Acho que muitos de nós pensam que a democracia morre na escuridão e que certas instituições desempenham papel muito importante para iluminar essa escuridão", disse Bezos, na época do lançamento da campanha.

Há um paradoxo: o temor da expansão do extremismo de direita, do populismo e do autoritarismo leva a disputas políticas mais duras e uma demanda mais acentuada por coberturas e conteúdos jornalísticos. Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro trazem novos leitores aos jornais.

Outra consequência desse efeito é que os veículos tradicionais acabam conseguindo apoio para a transformação digital, e um dos resultados dessa transformação não parece ser reversível: a retração mundial de jornais diários impressos.

Enquanto isso, a guerra midiática entre notícias falsas e a checagem de fatos continua com uma severidade desenfreada. E os dois lados parecem se alavancar mutuamente. Em entrevista recente à emissora de rádio alemã Deutschlandfunk, o historiador Bernd Greiner apontou para uma situação ganha-ganha perigosa: por lucrarem com o valor de entretenimento de políticos populistas, os meios de comunicação aceitam qualquer provocação e dão atenção adicional a essas personalidades.

"Pelas suas provocações, políticos como Boris Johnson, Donald Trump, Benjamin Netanyahu ou Matteo Salvini são fontes constantes de novas notícias", explicou Greiner. "A imprensa não deveria responder a todas as provocações", concluiu.
Deutsche Welle

Parasitologia

Na ciência, a parasitologia estuda os parasitas, seus hospedeiros e a relação entre esses organismos. Não são apenas os animais que possuem parasitas, todos os organismos vivos podem ser parasitados. Até mesmo uma bactéria pode ser alvo desse tipo de relação, como é o caso dos vírus bacteriófagos que se reproduzem no interior desses organismos. No parasitismo, apenas um dos organismos envolvidos é beneficiado. Isso, porém, não gera necessariamente a morte do hospedeiro.

O parasita pode se instalar tanto fora (ectoparasita) como dentro (endoparasita) do corpo do hospedeiro. Piolhos e carrapatos são exemplos do primeiro; as lombrigas, do segundo. Já o parasitoidismo é a situação na qual se observa a morte do hospedeiro: As vespas, por exemplo, colocam os ovos no interior de alguns artrópodes. Após eclodirem, as larvas alimentam-se do hospedeiro ainda vivo. Depois de algum tempo, elas matam o hospedeiro e emergem de seu interior.

Para os neodarwinistas, como o biólogo Richard Dawkins (O gene egoísta), o organismo humano é apenas uma “máquina de sobrevivência” do gene, cujo objetivo é a sua autorreplicação; a espécie na qual ele existe é a “máquina” mais adequada a essa perpetuação. Analisando o comportamento de algumas espécies animais, Dawkins explica que o altruísmo que se observa em muitas espécies não é contraditório com o egoísmo do gene, mas contribui para a sua sobrevivência. A tese leva as ideias liberais ao terreno da história natural, pois o egoísmo seria uma característica básica dos indivíduos, sendo o altruísmo uma necessidade de sobrevivência, apenas.


Dawkins desenvolve o conceito de “meme” como o equivalente cultural ao gene, que seria uma espécie de unidade básica da memória ou do conhecimento que o ser humano transfere para os descendentes. A comparação da relação entre a administração pública e os que dela se aproveitam com o parasitismo faz todo o sentido, mas daí a classificar o servidor público de parasita, como fez o ministro da Economia, Paulo Guedes, há uma enorme distância. Mudando de paradigma, é tão equivocado como chamar de parasitas os operadores do mercado financeiro, categoria da qual o ministro faz parte, com muito êxito.

Existe, sim, parasitismo na administração pública brasileira. A Operação Lava-Jato está aí mesmo para mostrar a plêiade de ectoparasitas e endoparasitas que tomou de assalto, por exemplo, as operações da Petrobras e a preparação da Copa do Mundo de 2014, mas comparar os servidores públicos às pulgas, aos carrapatos e às lombrigas é uma agressão alucinada e inaceitável. Não foi à toa que o ministro Guedes se viu obrigado a distribuir uma nota afirmando que a frase na qual chama os servidores públicos de parasitas foi retirada do contexto — a culpa das declarações infelizes é sempre dos jornalistas. Guedes levou um puxão de orelhas do chefe, o presidente Jair Bolsonaro, mantido pelo erário público desde a juventude, seja como militar, seja como político.

Às vésperas de uma reforma administrativa cujo objetivo é reduzir custos, aumentar a eficiência e eliminar privilégios na máquina pública, a frase de Guedes revela que, mesmo cercado de excelentes técnicos do setor público, não se deu conta de que não existe administração eficiente e moderna sem um corpo burocrático qualificado e motivado. Ou seja, não conseguirá dar seguimento às reformas que preconiza sem conquistar o apoio dos servidores públicos de carreira.

Aliás, o governo Bolsonaro começa a pagar o preço por subestimar e tratar com preconceito os servidores, como no caso dos desmontes das equipes técnicas do INSS e da Dataprev, hoje com uma fila de 2,6 milhões de pessoas esperando aposentadorias e benefícios. Não se trata de defender o corporativismo e ser contra a privatização de estatais, como a Eletrobras, os Correios, a BR Distribuidora e outras. Mas é um erro crasso desvalorizar os servidores e, inclusive, não reconhecer a existência de centros de excelência na gestão pública, como o BNDES, o Inep, o Inpe, a Funai, a Polícia Federal e o Itamaraty. Isso não tem nada a ver com eliminar privilégios e mordomias.

O outro lado da moeda é a tensão permanente entre a ética das convicções, como a do ultraliberal Paulo Guedes, que persegue o “estado mínimo”, e a ética da responsabilidade, que serve de eixo condutor e moral da atuação da burocracia de carreira, responsável por zelar pela legitimidade dos meios empregados pelo governo. Talvez o grande incômodo de Guedes não seja propriamente a existência de servidores parasitando a máquina pública — eles também existem —, mas as exigências legais e institucionais que o governo precisa observar para viabilizar as reformas. Ou seja, o fato de que gostaria de impor a sua reforma administrativa a qualquer preço, colocando-se acima das instituições e do ordenamento democrático vigente.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A era da mediocridade

Sempre há medíocres. São perenes. O que varia é seu prestígio e sua influência
José Ingenieros




A mediocridade é ardilosa. Não ataca repentinamente. Avança sem pressa, como insidioso câncer. Apodera-se dos partidos, espraia-se pela economia, invade a mídia, explora as redes sociais. Ao nos darmos conta, os espaços públicos e privados já foram ocupados. Sobreviverão ilhas de inteligência e de caráter, habitadas por mulheres e homens capazes, cuja inferioridade numérica lhes dificulta a reação. Derradeiras esperanças são depositadas no aparecimento de alguém disposto a arregimentar o povo para campanha comprometida com a recuperação ética, cultural e econômica da Nação.

José Ingenieros (1877-1925) escreveu: “A psicologia dos homens medíocres caracteriza-se por um traço comum: a incapacidade de conceber uma perfeição, de formar um ideal. São rotineiros, honestos e mansos; pensam com a cabeça dos demais, compartilham a alheia hipocrisia moral e ajustam seu caráter às domesticidades convencionais (...). Não vivem para si mesmos, senão para o fantasma que projetam na opinião dos semelhantes. Carecem de linha; sua personalidade se borra como um traço de carvão sob o esfuminho, até desaparecer”. Registra Ingenieros que, ao se associarem, tornam-se perigosos, pois “a força do número supre a debilidade individual: juntam-se aos milhares para oprimir quantos desdenham encadear sua mente com os grilhões da rotina” (O Homem Medíocre, Ed. Ícone, SP, 2006).

Como definir o medíocre? Eça de Queiroz traçou-lhe o perfil na figura do talentoso Pacheco, José Joaquim Alves Pacheco. Em resposta à imaginária carta enviada pelo sr. E. Mollinet, interessado em saber quem é esse compatriota “cuja morte está sendo tão vasta e amargamente carpida nos jornais de Portugal”, escreveu Eça de Queiroz: “Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como num resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu país nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento. Todavia, meu caro Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente aclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visível! O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundezas de Pacheco” (A Correspondência de Fradique Mendes).

O macunaíma medíocre não é reservado ou discreto. Além de inútil, é ambicioso e pedante. Alardeia a solução de problemas objetivos com frases feitas e ideias extravagantes. Analisa o povo como massa anônima e submissa. Conserva-se alheio ao mundo real, que lhe é indiferente e desconhecido. É por sua causa que continuamos subdesenvolvidos, analfabetos, pobres, sem saúde, sem educação, apesar de escorchante carga tributária. “O Brasil só não é subdesenvolvido na pretensão”, escreveu o jornalista Carlito Maia (1924-2002).

Analisemos o currículo dos membros da Assembleia Nacional Constituinte, escolhidos nas urnas após 20 anos de autoritarismo. Quando se esperava que o eleitorado atribuísse o ônus de representá-lo à elite ética, jurídica e intelectual, o que se observou foi o oposto. A preferência recaiu sobre maioria tacanha e despreparada. Depois de três décadas – tempo suficiente para a atrasada China se transformar em potência mundial – os resultados são constrangedores. O que esperar das eleições municipais de outubro? Políticos envelhecidos, ultrapassados, desacreditados espanarão a poeira do esquecimento para ressurgirem crentes na falta de memória, de interesse ou de vergonha do eleitorado. Aspirantes à vereança e às prefeituras disputarão o primeiro mandato investindo na fama conquistada como astros do palco e da televisão.

O progresso econômico deve-se a audazes pioneiros que acreditaram no agronegócio. Na indústria, breves lapsos de crescimento são acompanhados de anos de estagnação. O império da mediocridade pode ser avaliado no aumento da pobreza, nas filas do INSS, no desemprego de 12 milhões, na crescente violência, na desilusão dos jovens que buscam fazer a vida no exterior, na falência (para os pobres) dos sistemas de saúde e educação, no declínio da classe média. Escreveu Ingenieros que sob o governo da mediocridade “a política se degrada, converte-se em profissão”; “políticos sem vergonha existiram em todos os tempos e sob todos os regimes, mas encontram melhor clima nas burguesias sem ideais”.

O presidente Jair Bolsonaro derrotou o Partido dos Trabalhadores com o programa de combate à corrupção. Consumiu o primeiro ano do mandato na busca do equilíbrio fiscal e com a reforma da Previdência. Como se conduzirá em 2020? Governará para todos os brasileiros ou se dedicará à tarefa irrelevante de fundar legenda submissa, organizada à sua imagem e semelhança?

Dez meses nos separam de eleições destinadas à reconstrução da base da pirâmide política. Triunfará o desejo nacional de renovação, ou prevalecerá o domínio da mediocridade? É o desafio que pela enésima vez os eleitores serão chamados a decifrar.

Brasil da goleada diária


Ruído, veneno mortal

O ruído é uma epidemia, embora durante muitos anos tenha havido um boicote das autoridades, caso da própria Organização Mundial da Saúde e dos ministérios da Saúde, que bloquearam os resultados dos estudos feitos nas últimas décadas por entenderem que eram politicamente desconfortáveis. Mas os novos estudos são absolutamente demolidores e é impossível esconder mais. As estimativas feitas, e só com os dados da Europa Ocidental, apontam para que anualmente haja mais de um milhão de anos perdidos (mortes e anos de vida saudável, designados por disability adjusted life years). Mesmo com pressupostos muito conservadores, são 61 mil anos perdidos por doenças cardíacas, 900 mil anos em perda de vida saudável por distúrbios de sono, que não chega a ser profundo e reparador, e 45 mil por distúrbios cognitivos de crianças.

O ruído não é uma causa direta de morte, como aliás a poluição atmosférica não o é. Morre-se e perdem-se anos de vida saudável das complicações de saúde que resultam de uma resposta de stresse aguda se converter em crónica. O problema está no desgaste: quanto menos se conseguir controlar a origem do estímulo e confrontá-lo, maior o risco de danos físicos e psicológicos. No início, as pessoas até podem ficar mais ativas na tentativa de controle, mas se os esforços não funcionarem surge o chamado desamparo aprendido, que leva ao isolamento social. Seguem-se as complicações psico-fisiológicas: primeiro vem o incómodo, depois a desregulação hormonal e a hipertensão até aos problemas de coração.

A princesa Isabel, o imposto quebra-galho e a obscura reforma tributária

A princesa Isabel pode ficar em paz. Pelo menos a Lei Áurea deve ser preservada, se a equipe econômica tiver sucesso em sua campanha contra os direitos trabalhistas. O ministro da Economia, Paulo Guedes, continua a pregar a desoneração da folha de salários como se fosse o principal – quase único – objetivo de uma reforma tributária. Ele voltou a defender, em conversa com senadores, a criação de um imposto para compensar, do ponto de vista fiscal, a prometida redução dos encargos trabalhistas. Pode ser o tal “imposto sobre o pecado”, incidente em cigarros, bebidas alcoólicas e alimentos com açúcar, ou um tributo sobre transações eletrônicas. Noticiada pelo Estado, a conversa mostra mais que insistência – já é uma fixação – em eliminar direitos para baratear a mão de obra. Mostra também uma forma peculiar, e muito estranha, de entender a tributação e a tarefa, proclamada como prioritária, de reformar o sistema de impostos e contribuições. Há pelo menos dois pontos intrigantes e até assustadores.

Em primeiro lugar, dois tributos de tipos muito diferentes são igualados na função de quebra-galhos, isto é, de recobrar a receita perdida com a desoneração da folha.

Em segundo lugar, o tal imposto sobre transações eletrônicas, concebido para tributar grandes empresas de tecnologia, é reduzido à função menor, quase mesquinha, de facilitar a eliminação de encargos sociais. Mas serviria, mesmo, só para isso?

Este segundo ponto é particularmente preocupante. Encontrar meios de tributar a economia digital, um componente de peso enorme e crescente na vida econômica, é hoje uma das principais missões da OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. O tema foi discutido em Davos, em janeiro, em reunião do Fórum Econômico Mundial.

O assunto é tão complicado quanto delicado. O governo francês meteu-se em conflito com a Casa Branca ao tributar operações de empresas como Google, Apple, Microsoft, Amazon e Facebook. Um entendimento bilateral foi anunciado pelo ministro da Economia da França, mas falta um esforço muito mais amplo para um acordo geral em relação ao projeto da OCDE.

Um tema dessa dimensão ficaria muito bem na pauta diplomática e, é claro, no projeto de reforma tributária do governo brasileiro. Mesmo sem a questão internacional, o assunto ainda seria excessivamente importante para ser tratado de forma isolada e, pior que isso, como simples quebra-galho fiscal.

Mas terá o governo, de fato, um projeto de reforma tributária? Não há sinal disso. Não há sinal, pelo menos, da existência de algo digno de ser classificado como projeto.

O ministro da Economia nunca foi muito além, nas suas declarações, de referências à criação de algo parecido com o extinto imposto do cheque, a CPMF, da redução do número de tributos e da eliminação dos encargos trabalhistas. A volta do imposto sobre movimentação financeira foi apresentada em várias ocasiões como forma de compensar o fim daqueles encargos. São, portanto, duas fixações, aparentemente muito fortes, mas insuficientes para compor uma reforma tributária.

Tampouco se encontram sinais de um projeto em declarações do presidente da República. Talvez ele esteja ocupado demais com a reeleição para cuidar de assuntos como esse. Além disso, o presidente nunca mostrou inclinação a pensar de forma organizada sobre questões tributárias. Ele se opôs à recriação da CPMF, mas sem um argumento econômico. Poderia usar vários, mas nunca deu sinal de pensar em algo diferente do custo político-eleitoral.

Esse tipo de preocupação ficou mais escancarado em outras ocasiões. Quando se falou pela primeira vez em “imposto sobre o pecado”, ele proibiu a incidência sobre a cerveja. Mas nada iguala a campanha para mudar ou eliminar a cobrança do tributo estadual sobre combustíveis.

A campanha é obviamente populismo tosco, mas esse talvez nem seja o dado mais importante. A proposta do imposto zero, nesse caso, revela também uma ignorância incomum sobre a aplicação, a gestão e a importância do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o principal tributo dos Estados. Se a mistura de populismo, irresponsabilidade e ignorância incomodar o fã-clube de Bolsonaro, ele terá perdido alguns pontos nesse episódio. Mas incomodará, mesmo?

Não perguntem ao presidente a orientação e o sentido estratégico da reforma tributária, por ele apresentada como prioridade. Ele remeterá a questão ao ministro da Economia. Mas em relação a isso o ministro está inadimplente.

Ele nunca apresentou um quadro geral do novo sistema nem explicou os objetivos principais da reforma. Supõe-se haver algo além da redução do número de tributos e do alívio da folha salarial. A tributação da economia digital deveria ser parte de uma ampla modernização, mas foi apresentada como quebra-galho.

Perguntar sobre outra prioridade oficial, a reforma administrativa, deve ser igualmente frustrante. Uma resposta satisfatória dependeria de noções claras de administração e de funções de governo, itens obviamente escassos no repertório bolsonariano.

Mataram Marielle novamente

Escrevi nesta mesma coluna que a jovem ativista negra Marielle Franco, executada pelas milícias, acabaria sendo para o senador Flavio Bolsonaro, filho do presidente da República, mais perigosa morta do que viva.

De fato, Marielle, assassinada, continuava viva politicamente e sua figura de ativista comprometida com a defesa dos direitos humanos e sua luta contra as milícias, não havia morrido. Era como uma sombra e uma voz acusadora que sua morte não conseguiu dissipar. Marielle, símbolo da defesa da liberdade e de todos os excluídos por serem diferentes, não se apagou e continuou assustando desde o túmulo.

Sabiam muito bem disso aqueles que tiraram sua vida e todos os políticos que ficaram assustados com sua possível ressurreição.

A misteriosa e enigmática morte de um dos supostos envolvidos com a morte de Marielle, o capitão do Bope e miliciano Adriano da Nóbrega, pode ser um perigoso bumerangue que ameaça todos aqueles que a preferiam muda em seu túmulo.

Quiseram assassiná-la de novo porque entenderam que continuava viva e ameaçadora. Terão conseguido desta vez calando a voz de alguém que talvez soubesse mais sobre aquele crime que já havia atravessado as fronteiras do país?

Sobre a morte violenta do miliciano muito ainda será escrito e ele poderia falar hoje com mais perigo do que se estivesse vivo.

Este segundo assassinato de Marielle deve ser trazido à luz pública.

São muitas as perguntas que serão feitas nos próximos dias sobre o misterioso assassinato que aos poucos daqueles que amam a democracia poderá convencer de que era inevitável.

Talvez, em um dia não muito distante, aqueles que tanto desejavam o desaparecimento do líder da organização criminosa investigada pela morte de Marielle se arrependam de não o terem capturado vivo.

Com essa nova morte, as nuvens cinzentas da pior das suspeitas continuarão a perseguir os mandantes daquele crime que se recusa a morrer.

Brasil, as forças que continuam acreditando nos valores da liberdade precisam saber.

Como escrevi sobre Marielle tempos atrás, não é possível matar os mortos. Mas eles podem ressuscitar e exigir contas àqueles que forem culpados por um crime que dói e envergonha a todos nós.
Juan Arias

O Guedes liberal naufragou

Pode ter sido pela turbulência dos ventos ou por uma vontade danada de chegar lá ainda que em condições precárias. Mas é indisfarçável que a bússola do ministro Paulo Guedes – o único dito e havido como porto seguro do Governo Bolsonaro - está descalibrada. Talvez a imantação já estivesse comprometida antes mesmo de ele assumir o barco, quanto mais para pilotá-lo em meio de terraplanistas. Assim, o Guedes liberal naufragou.

Acuado pelas contas que não saem do vermelho, por uma economia que não rompe o nanismo e por um patrão que insiste em jogar contra, Guedes abandonou as promessas arrojadas e só pensa em mais impostos, suplicando pelo uso das velhas boias. Ora sobre transações digitais, um upgrade da CPMF para as movimentações online, ora no que ele chamou de “imposto do pecado”, incidente sobre cigarros, açúcares e bebidas, incluindo a cerveja, já descartada pelo chefe.

Pode-se dizer que nada saiu como planejado. Pouquíssimo deu certo.


A produção industrial refluiu 1,1% em 2019 depois de dois anos no azul; o tímido crescimento do emprego não chegou a representar alívio. É verdade que os juros e a inflação continuaram a trajetória de queda iniciada no governo Michel Temer, e isso é parte do pouco que se fez. Mas esses são indicadores perigosos, não raro associados à estagnação da economia.

Com a determinação do Parlamento e a despeito das críticas de seu chefe, Guedes pode exibir a vitória da nova Previdência, e pronto. Privatização, que seria a menina dos olhos, não andou, e o tal Plano Mais Brasil, que inclui um novo pacto federativo, emergência fiscal e fundos públicos, nem está cogitado para a pauta de 2020. As propostas governamentais para as reformas tributária (para a qual o Congresso já tem duas versões sem participação do Executivo) e administrativa só estão no gogó.

>Gogó que Guedes tem cada vez mais usado de forma errática, como uma cópia mal acabada da agressividade barata do presidente, que colhe sucesso entre fiéis com os seus maus modos. Guedes, não. Fala besteira – e não são poucas – e se vê obrigado a arrepender depois, alegando sempre que suas frases são divulgadas “fora do contexto”.

Foi assim na sexta-feira, ao comparar o funcionário público a um parasita. Também em Davos, ao dizer que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza; as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Corroborou para a imagem de um Brasil que trata mal seus recursos naturais, completamente alienado quanto às questões ambientais. Ouviu o que não queria (mas precisava ouvir) do ex-vice-presidente americano Al Gore: “Desmatar a Amazônia é produzir pobreza”.

As derrapadas orais de Guedes não são casos isolados. Antes de tomar posse ele já havia desafiado o Congresso Nacional, ao qual daria “uma prensa” caso não votasse os projetos de interesse do presidente eleito. Na época da discussão da reforma da Previdência ameaçou deixar o governo e o país. E foi mais longe ao concordar com a baixaria de Bolsonaro contra Brigitte Macron, mulher do presidente da França Emmanuel Macron: “O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo”. Em novembro, incorporou a ultra direita ao criticar o ex-presidente Lula que havia conclamado o povo a ir às ruas contra Bolsonaro: “Não se assustem se alguém pedir o AI-5”.

Nem parece o mesmo Guedes, que nas épocas áureas do Instituto Millenium, do qual foi um dos fundadores, mostrava-se um crítico feroz do digladio direita-esquerda: “A direita brasileira afundou a redemocratização por estar associada ao autoritarismo político e à insensibilidade social do regime militar. A esquerda afunda agora com a morte da velha política por estar associada à roubalheira, ao colapso do crescimento econômico e à insegurança nas ruas de uma decrépita Nova República”. Esse era o Guedes que Bolsonaro reduziu a um “Posto Ipiranga”, metáfora barata que o ministro permitiu popularizar.

Sobrou quase nada daquele liberal que em 2017 dizia que “o aperfeiçoamento das instituições de uma democracia emergente” era “mais importante do que as obsoletas disputas entre esquerda e direta, conservadores e progressistas, liberais e socialistas”.

Ainda que continue sendo a única aposta de muitos e que não abandone o navio, Guedes naufragou. Sua boia de salvação é a CPMF. E essa o país rejeita.