quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Conta outra, doutor

Ganha um fim de semana em Rio das Pedras quem conseguir montar um cenário plausível para a seguinte situação: Setenta policiais participam de uma operação para a captura do “Capitão Adriano”, foragido desde o ano passado. Suspeitando-se que ele se escondeu na chácara do vereador Gilsinho da Dedé (PSL), alguns deles formam um triângulo e cercam a casa. Tratava-se de uma área rural, sem vizinhos.

Segundo a versão da polícia baiana, ratificada pelo governador Wilson Witzel (Harvard Fake ’15), “chegamos ao local do crime para prender mas, infelizmente, o bandido (Medalha Tiradentes ’05) que ali estava não quis se entregar, trocou tiros com a polícia e infelizmente faleceu”.


Conta outra, doutor. Ou, pelo menos, conta essa direito. Adriano da Nóbrega estava cercado. O bordão “trocou tiros” é um recurso gasto. Antes da chegada da polícia, o miliciano já fugira da casa onde estava com a família, na Costa do Sauípe, e do esconderijo onde se abrigara, numa fazenda próxima. Os policiais podiam ficar a quilômetros da casa, e o bandido poderia atirar o quanto quisesse, mas continuaria cercado. Se a intenção fosse capturá-lo vivo, isso seria apenas uma questão de tempo. Três dias depois da operação, as informações divulgadas pelas polícias foram genéricas e insuficientes para se entender o que aconteceu.

Na melhor da hipóteses, os policiais foram incompetentes. Na pior, prevaleceu o protocolo de silêncio seguido pelo ex-PM Fabrício Queiroz, "chevalier servant" da família Bolsonaro e administrador da “rachadinha” de seus gabinetes parlamentares, onde estiveram aninhadas a mãe e a mulher de Adriano. O silêncio de Queiroz é voluntário, o do miliciano foi inevitável. Fica no ar um trecho da fala triunfalista de Witzel, no qual ele disse que a operação “obteve o resultado que se esperava”.

Quando a polícia estava no rastro de Adriano, o ministro Sergio Moro vangloriou-se de ter organizado uma lista dos criminosos mais procurados. Nela estavam 27 bandidos, mas faltava o “Capitão Adriano”. No melhor burocratês, o ministério explicou: “As acusações contra ele não possuem caráter interestadual, requisito essencial para figurar no banco de criminosos de caráter nacional”. Conta outra, doutor. Dois dos listados eram milicianos municipais do Rio de Janeiro. Ademais, a interestadualidade de Adriano foi comprovada na cena de sua morte, com policiais baianos e fluminenses.

O secretário de Segurança do governo petista da Bahia prometeu transparência na investigação da morte do miliciano. Seria uma pena se a cena do tiroteio tiver sido alterada. Numa troca de tiros deveriam existir cápsulas da arma de Adriano. Seria razoável supor que a polícia disparou mais tiros, além dos dois que atingiram o bandido. A cena poderia ter sido filmada, mas isso seria pedir demais, mesmo sabendo-se que se tratava de uma operação de relevância nacional. A captura de Adriano lustraria a polícia e jogaria luz sobre suas conexões. A morte do ex-capitão serviu apenas para aumentar as trevas que protegem essa banda das milícias do Rio.

Faz tempo, uma patrulha do Exército perseguiu outro ex-militar foragido pelo interior da Bahia. Chamava-se Carlos Lamarca. Apesar de ter teatralizado a cena de sua morte, o oficial que comandava a patrulha não falou em troca de tiros. Narrou uma execução.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Brasil incendiário


Japoneses, parasitas, bananas e os brasileiros

João, casado e professor, tinha 25 anos quando, em 2013, conheceu Eduarda, sua aluna, de oito anos. A menina vivia em um abrigo para órfãos e abandonados. Quis adotá-la, mas descobriu que ela era a mais velha de seis irmãos – a mais nova com dois anos. No grupo havia ainda um menino de seis anos e trigêmeas de quatro anos. Todos vivendo no abrigo.

O grupão não intimidou o casal que encarou o processo formal de adoção de todas as crianças. Em 2014, a família de João Nogueira somava seis filhos – Eduarda, Eduardo, Ana Clara, Maria Luiza, Mariana e Yasmim.

A façanha de generosidade e amor só foi notícia agora, em 2020, quando uma “vaquinha virtual” permitiu a compra de uma Kombi capaz de acomodar a família inteira na sua lida diária.

João contou na rádio que a produção da “vaquinha” foi presente de sua amiga oculta, no Natal. Esperavam conseguir parte do dinheiro para a compra da Kombi sonhada. O restante seria complementado com doações da família. Mas a solidariedade surpreendeu e, além da compra, a “vaquinha” ainda deu para um trato geral no veículo, de 2010, batizado pelos filhos de Kombão do amor.

A família vive no DF. Entre a adoção e a compra do Kombão, João encarou dois anos de desemprego, separação e novo casamento. Nada desuniu a grande família.


Ou seja, podemos garantir ao colega Alexandre Garcia e ao Capitão Presidente que não é preciso importar japoneses para fazer o Brasil melhor. Há gente boa, corajosa e generosa no país. A maioria é assim. O que atrapalha, corrompe, desatina e desalenta são as cíclicas más gestões ou as gestões temerárias a que somos submetidos por temporários praticantes da beira do caos. Os tais que, prometendo muito, salvam uns poucos e abandonam milhares. Não há povo que sobreviva a isso, sem sequelas.

Houve esperança e orgulho de ser brasileiro em período recente, quando o Brasil ousou andar pra frente, quando os Governos, ainda que de diferentes partidos, não desfaziam os bens feitos dos seus antecessores. Ao contrário, ampliavam e consolidavam, particularmente, políticas inclusivas de atenção à maioria abandonada por gerações e gerações de governos gulosos, perversos e vendidos de baixo preço.

Exemplo mais visível, o Bolsa Família, que começou como Bolsa Escola, fez melhoria e crescimento chegar até às pequenas cidades. A economia mais solidária permitiu a muitos o consumo de comida e de bens antes reservados a minoria mais rica.

Foi manchete ontem, 10 de fevereiro: “O governo Jair Bolsonaro congelou o Bolsa Família em uma a cada três cidades dentre os 200 municípios mais pobres do Brasil”. Municípios mais pobres! De doer. E dói.

Volta a faltar dinheiro para o iogurte e a geladeira nova na casa da maioria mais pobre. Para milhares, os apertos na economia, fazem faltar dinheiro até para a comida básica. Para esses, o arroz e o feijão diário voltam a ser luxo eventual.

Porque noticiam descalabros, atropelos e descaminhos do atual governo, no fim de semana, jornalistas receberam gesto de banana do sempre deselegante Presidente Capitão ou vice-versa. Na semana passada, o ministro de economia, na mesma tecla de depreciação e afronta, definiu como “parasitas” os servidores públicos.

No modelo faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço, a perversa autoridade é antigo chupista dos sistemas de capitalização – que chama de “poupança garantida”, mas que só dá garantias reais aos guardiões da bufunfa capitalizada. Os de sempre. O povo chileno conhece de perto essa modalidade de abuso de desalmados governantes. No caso deles, Pinochet, com o ministro Chicago boy, nefando, na área – fazendo girar a roda do mal.

(Aos costumes, depois de grita geral, o comandante da economia desculpou-se pelo “mal-entendido”. Suas desculpas já foram banalizadas. A gente não tem cara de panaca. Até o Rei Momo sabe que elas não mudam o que ele pensa e sente e que escapa cada vez que se sente à vontade, entre os seus.).

Não há japonês que dê conta desses malignos. Faltam adjetivos para qualificar os Chicago Oldies da cena diária brasileira.

Sem esquecer:
Quem pagará por Mariana e Brumadinho?
Quem matou Marielle?
Como morreu Adriano, o miliciano que sabia demais?
Cadê o Queiroz?
Tânia Fusco

Quem é o verdadeiro parasita no cinema e no mundo real?

“Parasita”, vencedor dos principais prêmios do Oscar no domingo (9), não foi o meu filme favorito do ano. (Eu ficaria com “Era uma Vez em... Hollywood” ou “1917”.) Seja como for, o quadro das relações sociais traçado pelo vencedor vem bem a calhar num momento em que a desigualdade desponta como um dos grandes problemas globais.

Em “Parasita”, a extrema desigualdade social faz com que o único caminho para a família Kim sobreviver seja se infiltrar pouco a pouco como serviçais da família Park. Entre fraudes e pequenos golpes para aproveitar algumas das benesses da vida dos Park, que permanecem —em sua inocência— alheios aos planos dos Kim, estabelece-se uma relação parasitária.

O conflito, contudo, não se estabelece entre parasita e hospedeiro, e sim entre os Kim e outra família pobre com quem disputam as migalhas que caem da mesa dos patrões. Destroem-se mutuamente sem reconhecer o verdadeiro beneficiário de sua situação precária.

Coloca-se, evidentemente, em questão quem seriam os verdadeiros parasitas. Afinal, os Park, que desfrutam uma vida de ócio e prazeres, só o fazem porque contam com o trabalho incessante de desesperados como os Kim, cujo abandono social os leva a se sujeitar a qualquer exploração.

E, para completar, com a exploração econômica vem o desprezo humano, no completo desinteresse dos patrões pela vida dos empregados e seu incômodo com o cheiro deles. Conforme a tensão cresce, um desfecho de violência brutal torna-se inevitável.


Quando rotulamos uma classe ou grupo social de “parasita”, estamos dizendo que ele é um peso, um gasto extra que não gera retorno e que, por isso, pode e deve ser combatido.

Na URSS, o “parasitismo social” era crime previsto em lei, punindo quem não trabalhasse (não raro, intelectuais críticos do regime). Na Alemanha nazista, estigmatizava povos que não tinham um território próprio, como os judeus e os ciganos.

No discurso atual, os “parasitas” podem ser qualquer um: beneficiários de programas sociais, banqueiros, políticos, sindicalistas, imigrantes, artistas, funcionários públicos (como na fala recente de Paulo Guedes).

Não há nada de científico aí: em cada caso, faz-se um recorte tendencioso em que o grupo é pintado como uma corja de malandros ou preguiçosos que suga recursos da sociedade. Podemos até aceitar que alguns indivíduos são, com justiça, descritos como parasitas. Mas no caso de grupos inteiros a atribuição é sempre descabida.

Ela é útil para criar ódio: para nos colocar no estado de espírito em que nos dará prazer ver um membro do grupo “parasitário” sofrer. E também nos garantirá um inimigo incondicional, do qual não poderemos esperar colaboração, mesmo para objetivos em comum.

Criticar o termo não é negar a existência de problemas distributivos: seja por setores do funcionalismo que têm salários e reajustes automáticos muito acima do mercado, seja por multimilionários que pagam menos impostos que um trabalhador comum. Elaborar regras que produzam uma sociedade mais eficiente e justa é um trabalho complexo e muito diferente do mero desejo de punir funcionários públicos ou banqueiros.

O uso do termo pode se prestar à mobilização política, mas não nos ajuda a entender melhor as relações sociais em sua complexidade e nem a resolver os problemas que delas surgem. Entre os Kim e os Park, quem são os verdadeiros parasitas? Ficar preso a isso só perpetua as relações desiguais que, em última análise, são destrutivas a ambos.
Joel Pinheiro da Fonseca

Censura

Governador Marcos Rocha,

Espero que o senhor já tenha demitido o secretário de Educação do Estado de Rondônia, assim como a diretora-geral de Educação. Nada pessoal, senão pelo fato de que — ao não o fazer — será somente do senhor a responsabilidade pela tentativa de censura contida no memorando 4/2020, aquele que propõe o Index Librorum Prohibitorum do século XXI, expedido por uma secretaria de seu governo e enviado às coordenadorias regionais.

Permita-me lembrá-lo de como a mensagem começa, desde já me desculpando por constrangê-lo com o uso do idioma por auxiliares que escolheu: “Solicitamos aos senhores que verifiquem nos kits de livros paradidáticos encaminhados às escolas para compor os acervos das bibliotecas, os livros relacionados no Adendo ID (10053329), e procedam com o recolhimento dos mesmos imediatamente, tendo em vista conterem conteúdos inadequados às crianças e adolescentes”.

Espero que já os tenha demitido também porque, de qualquer outra forma, recairá sobre o senhor a obrigação de explicar à sociedade o que seriam — nos livros que se pretendeu censurar —os tais “conteúdos inadequados”. O que seriam? Uma sugestão, governador: pergunte aos autores do memorando censor e então tenha — qualquer que seja a resposta — a justa causa para exonerá-los.


O outro caminho será o habitual, o da covardia, o que o senhor trilha até aqui: assumir, com o silêncio, a incompetência dos subordinados, passando-lhes a mão na cabeça, e, por omissão, plantar que desconhecia o ato, torcendo para o fervo baixar — combinação que intenta descaracterizar o propósito difundido pelo memorando, opção que reforça o propósito sem negar a incompetência.

Talvez o senhor diga que houve um mal-entendido e que, uma vez identificado o erro, o governo se mobilizou para repará-lo. Nesse caso, terá de explicar como se conserta um arreganho autoritário colocando o documento em questão sob sigilo. Precisará igualmente esclarecer que tipo de consciência — senão a do “a casa caiu” — vai expressa em comunicações oficiais como a que se segue: “Missão recolhimento dos livros abortada. Caso façam contato com vocês sobre o tema, por favor, peçam que entrem em contato com a C.R.E.”

Não é bonito o retrato. Bonito tampouco é o tuíte por meio do qual o seu governo buscou reagir após recuar: “A @seducro reforça o compromisso com a Educação e reconhece que os livros são obras de autores consagrados mundialmente e que cumprem um papel importante para uma construção social. Sendo assim, não há ordem de recolhimento dos mesmos”.

O reconhecimento da secretaria não interessa, governador. Tampouco interessa a avaliação sobre o papel de um escritor para “uma construção social”, seja lá o que isso for. O fato de serem livros de “autores consagrados” não importa. Não é critério — a condição de clássico — para não censurar. Ou seria diferente — a censura avançaria — fossem escritores desconhecidos?

Livro nenhum precisa ser lido. Todo livro precisa estar livre para a leitura. Sem exceção. Isso é um valor — valor que não vê capa. Só o tempo pode tornar degredado um livro. Só o desinteresse das gentes, no curso das décadas, elege os proscritos — exílio do qual sempre um novo olhar lhes poderá resgatar.

O que faz um livro clássico não é a imposição do gosto de alguém ou de algum grupo. A imposição do gosto de alguém ou de algum grupo faz a censura. Não foi a caneta de um burocrata que fez “Memórias póstumas de Brás Cubas” um clássico. Foi a força de permanência dessa obra — sua capacidade de se manter atraente para além dos séculos — o que a fez clássica.

A vida de um livro é a vida dos que o desejam ler. O livro envelhece, rejuvenesce ou encontra a maturidade, a estabilidade, em função do desejo soberano de leitura. Quando o Estado viola o fluxo dessa natureza e mobiliza suas estruturas para recolher obras — clássicas ou não — em decorrência do juízo de burocratas, o que temos nome tem: censura.

Foi o que tentou fazer o governo do senhor: censurar.

São homens de bem — certos de proporem o melhor para proteger a juventude — os que censuram; os que mais rapidamente materializam o espírito do tempo. Doutrinação esquerdista nos colégios, a onipresença do marxismo cultural nas salas de aula, o ensino como irradiador de perversões etc. Isso nunca tarda a resultar, na mão do guarda da esquina, em lista de leituras a serem trancadas; nunca demora a desaguar em um Machado de Assis proibido, autor também de “Dom Casmurro”, criador da personagem Capitu, Capitu que dá nome à cadela do ministro da Educação, de quem não se ouviu palavra em repúdio ao limite que o governo do senhor testou. O senhor, com a omissão que abona, é o guarda da esquina.

É onde estamos. A corda seguidamente esticada; sendo inegável que, nos 43 livros amaldiçoados, haja muita coisa escrita — e de impossível suavização. Quando afrouxa, nunca volta ao mesmo lugar.

As enchentes

As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas.

Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.


De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.

Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.

O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida intagral.

Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!

Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.

O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.

Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.

Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.
Lima Barreto, Vida urbana, 19-1-1915

Pensamento do Dia


A guerra que não pode esperar

Mesmo em tempos prolongados de paz, todos os países realizam, com maior ou menor periodicidade, manobras militares e jogos de guerra destinados a avaliar a “prontidão” das suas tropas, em caso de necessidade. De acordo com as alianças de cada nação e a localização geográfica onde os simulacros decorrem, muitos desses exercícios são realizados num regime de estreita cooperação com as forças armadas de outros países e sob um comando unificado. Com um objetivo claro: treinar a resposta mais rápida, eficiente e adequada à ameaça, de forma a derrotar o inimigo e a sofrer o menor número de baixas.

O mais incrível, em especial nos tempos que correm, é que este tipo de exercícios, com um grau elevado de cooperação e de movimentos coordenados, continua a ser apenas possível de se concretizar no campo militar. Só na preparação para a guerra, quase sempre com base em cenários hipotéticos de resposta a ataques dos inimigos tradicionais, sejam eles próximos ou estratégicos, os países aceitam coordenar planos, esforços e ações no terreno, recebendo ordens de uma cadeia de comando aceite por todos. No entanto, esta cooperação em assuntos de guerra não consegue repetir-se noutras batalhas, mesmo quando se enfrentam inimigos comuns, como as alterações climáticas ou a ameaça das pandemias. Nesses casos, como se tem visto, a cooperação limita-se às grandes declarações e aos discursos de intenção, mas continua a falhar na adoção de medidas e nas soluções no terreno.

Quem se preocupa minimamente com as questões da saúde pública, como as principais organizações sanitárias mundiais, sabia que uma epidemia como a do 2019-nCoV – o novo coronavírus que rapidamente alastrou a partir da China – iria ocorrer, mais tarde ou mais cedo. Ninguém podia adivinhar quando e onde a epidemia ia começar, mas todos sabiam que ela ia acontecer. Como também sabem que esta epidemia não será a última – outras se lhe seguirão.

Há pelo menos cinco anos que, por exemplo, Bill Gates anda a alertar para este risco e a pedir que os governos se coordenem entre si e se preparem para o enfrentar como se fossem para a guerra. O milionário fundador da Microsoft tem pedido mesmo que se use o exemplo dos exercícios militares realizados no âmbito da NATO como modelo para estancar futuras epidemias: a realização de jogos de guerra e de manobras, de forma a tentar antecipar como um vírus pode espalhar-se e até que ponto os serviços de saúde, nos vários países, estão preparados para enfrentar a ameaça e qual o tipo de ajuda internacional que pode ou deve ser ativado. Com o mesmo grau de prontidão e competência que se aplica nas guerras, para que todos marchem na mesma direção.

Num documento recente, em que enumerou os principais desafios para a década, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde sentiu também a necessidade de criticar os governos que gastam fortunas para tentar evitar os ataques terroristas, mas que não aplicam os mesmos esforços perante a possibilidade de um ataque com um vírus – “que pode ser muito mais mortífero e com muito maior impacto económico e social”, sublinhou.

Esta necessidade de coordenar esforços a nível internacional, ao mesmo tempo que se apela a maiores investimentos e esforços, públicos e privados, na promoção dos cuidados de saúde básicos, no combate às desigualdades e na luta contra a desinformação, acaba, no entanto, por colidir de frente com os discursos populistas, isolacionistas e nacionalistas que grassam pelo mundo. Mas se há algo que esta pandemia começa já a demonstrar – até pelo exemplo de cooperação entre cientistas – é que os grandes desafios planetários só se resolvem mesmo à escala planetária. E esta guerra ainda só começou.
Rui Tavares Guedes

Futuro?

A existência das gerações futuras é das coisas que menos cuidado dão às gerações presentes
Visconde de Santo Thyrso ( Eduardo da Costa Macedo, 1859-1916), "De rebus pluribus"

Como a imprensa lucra com líderes como Trump e Bolsonaro

A peça publicitária do diário americano The New York Times dura apenas 31 segundos: "A verdade é dura. Dura de achar, dura de saber. A verdade é mais importante agora do que nunca."

O vídeo de fevereiro de 2017 é um exemplo para a autopublicidade de sucesso de veículos da imprensa numa era de notícias falsas e de acusações de mentirosa. Mostra o jornalismo como instrumento de resistência política e garantidor da liberdade de opinião e de expressão.

Desde a eleição do presidente americano Donald Trump, em 8 de novembro de 2016, jornais como New York Times e Washington Post, mas também o britânico The Guardian e a revista The Economist, vivem uma espécie de Renascimento midiático. No Brasil, ventos favoráveis sopram para veículos críticos ao governo desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, há pouco mais de um ano.

O efeito Trump sobre o setor jornalístico parece ser duradouro. O New York Times registrou o maior "dividendo democrático", por assim dizer. Desde novembro de 2016 e novembro de 2018, o número de assinaturas digitais subiu de 1,5 milhão para 2,5 milhões. Atualmente, o jornal tem quase 4 milhões de assinantes.

"Em 2019, o New York Times computou mais de um milhão de novas assinaturas digitais", diz a publicação alemã especializada em marketing W&V. "É o maior aumento anual desde a implementação das assinaturas digitais pagas, em 2011, e o mais expressivo crescimento de assinaturas dentro de um ano desde a fundação da New York Times Company", acrescenta o texto.


No Brasil, também houve um chamado "efeito Bolsonaro". Desde que o presidente declarou que o governo não publicaria mais propagandas e anúncios no maior diário do país, a Folha de S. Paulo, o número de assinaturas digitais da publicação disparou.

"Jornalismo profissional é antídoto para notícia falsa e intolerância", diz o título dos princípios editoriais do jornal, que publica uma versão em inglês desde 2011. De acordo com o Instituto Verificador de Comunicação (IVC), o número de assinaturas digitais pagas da Folha de S. Paulo subiu de 207 mil em dezembro de 2018 para 241 mil em outubro de 2019.

Durante a Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro, em setembro do ano passado, a Folha deu um exemplo do que entende por tolerância, estampando na capa o desenho dois homens se beijando, parte da história em quadrinhos Vingadores – a Cruzada das Crianças. A decisão repercutiu internacionalmente porque a HQ havia sido proibida, pouco tempo antes, pelo prefeito do Rio, o evangélico Marcelo Crivella – sob a justificativa de conter "conteúdo sexual para menores".

No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson ameaçou a BBC de eliminar a taxa compulsória para TV e rádio no país, cobrada de todos os domicílios e principal fonte de recursos para a emissora pública internacional. Neste cenário, o The Guardian vem ganhando força com sua abordagem crítica. A publicação não apenas aumentou o número de seus assinantes, mas também consegue, com sucesso, angariar doações para a manutenção de um jornalismo independente.

Pouco antes das eleições parlamentares antecipadas em dezembro de 2019 no Reino Unido, o Guardian iniciou uma campanha com o slogan "Mudar é possível. A esperança é poder". No vídeo, uma borboleta dentro de uma sala voa contra a janela, até que, em certo momento, o vidro quebra e o inseto consegue se libertar. Desde então, mais de um milhão de doadores faz parte do círculo de apoiadores do jornal cronicamente endividado.

O Washington Post é menos dramático. A campanha "A democracia morre na escuridão", anunciada já em 2017 pelo fundador da empresa Amazon e dono do jornal, Jeff Bezos, também conquistou muitos novos leitores. Em 2019, a publicação tinha 746 mil assinantes da versão impressa e 1,7 milhões de assinaturas digitais.

"Acho que muitos de nós pensam que a democracia morre na escuridão e que certas instituições desempenham papel muito importante para iluminar essa escuridão", disse Bezos, na época do lançamento da campanha.

Há um paradoxo: o temor da expansão do extremismo de direita, do populismo e do autoritarismo leva a disputas políticas mais duras e uma demanda mais acentuada por coberturas e conteúdos jornalísticos. Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro trazem novos leitores aos jornais.

Outra consequência desse efeito é que os veículos tradicionais acabam conseguindo apoio para a transformação digital, e um dos resultados dessa transformação não parece ser reversível: a retração mundial de jornais diários impressos.

Enquanto isso, a guerra midiática entre notícias falsas e a checagem de fatos continua com uma severidade desenfreada. E os dois lados parecem se alavancar mutuamente. Em entrevista recente à emissora de rádio alemã Deutschlandfunk, o historiador Bernd Greiner apontou para uma situação ganha-ganha perigosa: por lucrarem com o valor de entretenimento de políticos populistas, os meios de comunicação aceitam qualquer provocação e dão atenção adicional a essas personalidades.

"Pelas suas provocações, políticos como Boris Johnson, Donald Trump, Benjamin Netanyahu ou Matteo Salvini são fontes constantes de novas notícias", explicou Greiner. "A imprensa não deveria responder a todas as provocações", concluiu.
Deutsche Welle

Parasitologia

Na ciência, a parasitologia estuda os parasitas, seus hospedeiros e a relação entre esses organismos. Não são apenas os animais que possuem parasitas, todos os organismos vivos podem ser parasitados. Até mesmo uma bactéria pode ser alvo desse tipo de relação, como é o caso dos vírus bacteriófagos que se reproduzem no interior desses organismos. No parasitismo, apenas um dos organismos envolvidos é beneficiado. Isso, porém, não gera necessariamente a morte do hospedeiro.

O parasita pode se instalar tanto fora (ectoparasita) como dentro (endoparasita) do corpo do hospedeiro. Piolhos e carrapatos são exemplos do primeiro; as lombrigas, do segundo. Já o parasitoidismo é a situação na qual se observa a morte do hospedeiro: As vespas, por exemplo, colocam os ovos no interior de alguns artrópodes. Após eclodirem, as larvas alimentam-se do hospedeiro ainda vivo. Depois de algum tempo, elas matam o hospedeiro e emergem de seu interior.

Para os neodarwinistas, como o biólogo Richard Dawkins (O gene egoísta), o organismo humano é apenas uma “máquina de sobrevivência” do gene, cujo objetivo é a sua autorreplicação; a espécie na qual ele existe é a “máquina” mais adequada a essa perpetuação. Analisando o comportamento de algumas espécies animais, Dawkins explica que o altruísmo que se observa em muitas espécies não é contraditório com o egoísmo do gene, mas contribui para a sua sobrevivência. A tese leva as ideias liberais ao terreno da história natural, pois o egoísmo seria uma característica básica dos indivíduos, sendo o altruísmo uma necessidade de sobrevivência, apenas.


Dawkins desenvolve o conceito de “meme” como o equivalente cultural ao gene, que seria uma espécie de unidade básica da memória ou do conhecimento que o ser humano transfere para os descendentes. A comparação da relação entre a administração pública e os que dela se aproveitam com o parasitismo faz todo o sentido, mas daí a classificar o servidor público de parasita, como fez o ministro da Economia, Paulo Guedes, há uma enorme distância. Mudando de paradigma, é tão equivocado como chamar de parasitas os operadores do mercado financeiro, categoria da qual o ministro faz parte, com muito êxito.

Existe, sim, parasitismo na administração pública brasileira. A Operação Lava-Jato está aí mesmo para mostrar a plêiade de ectoparasitas e endoparasitas que tomou de assalto, por exemplo, as operações da Petrobras e a preparação da Copa do Mundo de 2014, mas comparar os servidores públicos às pulgas, aos carrapatos e às lombrigas é uma agressão alucinada e inaceitável. Não foi à toa que o ministro Guedes se viu obrigado a distribuir uma nota afirmando que a frase na qual chama os servidores públicos de parasitas foi retirada do contexto — a culpa das declarações infelizes é sempre dos jornalistas. Guedes levou um puxão de orelhas do chefe, o presidente Jair Bolsonaro, mantido pelo erário público desde a juventude, seja como militar, seja como político.

Às vésperas de uma reforma administrativa cujo objetivo é reduzir custos, aumentar a eficiência e eliminar privilégios na máquina pública, a frase de Guedes revela que, mesmo cercado de excelentes técnicos do setor público, não se deu conta de que não existe administração eficiente e moderna sem um corpo burocrático qualificado e motivado. Ou seja, não conseguirá dar seguimento às reformas que preconiza sem conquistar o apoio dos servidores públicos de carreira.

Aliás, o governo Bolsonaro começa a pagar o preço por subestimar e tratar com preconceito os servidores, como no caso dos desmontes das equipes técnicas do INSS e da Dataprev, hoje com uma fila de 2,6 milhões de pessoas esperando aposentadorias e benefícios. Não se trata de defender o corporativismo e ser contra a privatização de estatais, como a Eletrobras, os Correios, a BR Distribuidora e outras. Mas é um erro crasso desvalorizar os servidores e, inclusive, não reconhecer a existência de centros de excelência na gestão pública, como o BNDES, o Inep, o Inpe, a Funai, a Polícia Federal e o Itamaraty. Isso não tem nada a ver com eliminar privilégios e mordomias.

O outro lado da moeda é a tensão permanente entre a ética das convicções, como a do ultraliberal Paulo Guedes, que persegue o “estado mínimo”, e a ética da responsabilidade, que serve de eixo condutor e moral da atuação da burocracia de carreira, responsável por zelar pela legitimidade dos meios empregados pelo governo. Talvez o grande incômodo de Guedes não seja propriamente a existência de servidores parasitando a máquina pública — eles também existem —, mas as exigências legais e institucionais que o governo precisa observar para viabilizar as reformas. Ou seja, o fato de que gostaria de impor a sua reforma administrativa a qualquer preço, colocando-se acima das instituições e do ordenamento democrático vigente.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A era da mediocridade

Sempre há medíocres. São perenes. O que varia é seu prestígio e sua influência
José Ingenieros




A mediocridade é ardilosa. Não ataca repentinamente. Avança sem pressa, como insidioso câncer. Apodera-se dos partidos, espraia-se pela economia, invade a mídia, explora as redes sociais. Ao nos darmos conta, os espaços públicos e privados já foram ocupados. Sobreviverão ilhas de inteligência e de caráter, habitadas por mulheres e homens capazes, cuja inferioridade numérica lhes dificulta a reação. Derradeiras esperanças são depositadas no aparecimento de alguém disposto a arregimentar o povo para campanha comprometida com a recuperação ética, cultural e econômica da Nação.

José Ingenieros (1877-1925) escreveu: “A psicologia dos homens medíocres caracteriza-se por um traço comum: a incapacidade de conceber uma perfeição, de formar um ideal. São rotineiros, honestos e mansos; pensam com a cabeça dos demais, compartilham a alheia hipocrisia moral e ajustam seu caráter às domesticidades convencionais (...). Não vivem para si mesmos, senão para o fantasma que projetam na opinião dos semelhantes. Carecem de linha; sua personalidade se borra como um traço de carvão sob o esfuminho, até desaparecer”. Registra Ingenieros que, ao se associarem, tornam-se perigosos, pois “a força do número supre a debilidade individual: juntam-se aos milhares para oprimir quantos desdenham encadear sua mente com os grilhões da rotina” (O Homem Medíocre, Ed. Ícone, SP, 2006).

Como definir o medíocre? Eça de Queiroz traçou-lhe o perfil na figura do talentoso Pacheco, José Joaquim Alves Pacheco. Em resposta à imaginária carta enviada pelo sr. E. Mollinet, interessado em saber quem é esse compatriota “cuja morte está sendo tão vasta e amargamente carpida nos jornais de Portugal”, escreveu Eça de Queiroz: “Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como num resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu país nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento. Todavia, meu caro Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente aclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visível! O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundezas de Pacheco” (A Correspondência de Fradique Mendes).

O macunaíma medíocre não é reservado ou discreto. Além de inútil, é ambicioso e pedante. Alardeia a solução de problemas objetivos com frases feitas e ideias extravagantes. Analisa o povo como massa anônima e submissa. Conserva-se alheio ao mundo real, que lhe é indiferente e desconhecido. É por sua causa que continuamos subdesenvolvidos, analfabetos, pobres, sem saúde, sem educação, apesar de escorchante carga tributária. “O Brasil só não é subdesenvolvido na pretensão”, escreveu o jornalista Carlito Maia (1924-2002).

Analisemos o currículo dos membros da Assembleia Nacional Constituinte, escolhidos nas urnas após 20 anos de autoritarismo. Quando se esperava que o eleitorado atribuísse o ônus de representá-lo à elite ética, jurídica e intelectual, o que se observou foi o oposto. A preferência recaiu sobre maioria tacanha e despreparada. Depois de três décadas – tempo suficiente para a atrasada China se transformar em potência mundial – os resultados são constrangedores. O que esperar das eleições municipais de outubro? Políticos envelhecidos, ultrapassados, desacreditados espanarão a poeira do esquecimento para ressurgirem crentes na falta de memória, de interesse ou de vergonha do eleitorado. Aspirantes à vereança e às prefeituras disputarão o primeiro mandato investindo na fama conquistada como astros do palco e da televisão.

O progresso econômico deve-se a audazes pioneiros que acreditaram no agronegócio. Na indústria, breves lapsos de crescimento são acompanhados de anos de estagnação. O império da mediocridade pode ser avaliado no aumento da pobreza, nas filas do INSS, no desemprego de 12 milhões, na crescente violência, na desilusão dos jovens que buscam fazer a vida no exterior, na falência (para os pobres) dos sistemas de saúde e educação, no declínio da classe média. Escreveu Ingenieros que sob o governo da mediocridade “a política se degrada, converte-se em profissão”; “políticos sem vergonha existiram em todos os tempos e sob todos os regimes, mas encontram melhor clima nas burguesias sem ideais”.

O presidente Jair Bolsonaro derrotou o Partido dos Trabalhadores com o programa de combate à corrupção. Consumiu o primeiro ano do mandato na busca do equilíbrio fiscal e com a reforma da Previdência. Como se conduzirá em 2020? Governará para todos os brasileiros ou se dedicará à tarefa irrelevante de fundar legenda submissa, organizada à sua imagem e semelhança?

Dez meses nos separam de eleições destinadas à reconstrução da base da pirâmide política. Triunfará o desejo nacional de renovação, ou prevalecerá o domínio da mediocridade? É o desafio que pela enésima vez os eleitores serão chamados a decifrar.

Brasil da goleada diária


Ruído, veneno mortal

O ruído é uma epidemia, embora durante muitos anos tenha havido um boicote das autoridades, caso da própria Organização Mundial da Saúde e dos ministérios da Saúde, que bloquearam os resultados dos estudos feitos nas últimas décadas por entenderem que eram politicamente desconfortáveis. Mas os novos estudos são absolutamente demolidores e é impossível esconder mais. As estimativas feitas, e só com os dados da Europa Ocidental, apontam para que anualmente haja mais de um milhão de anos perdidos (mortes e anos de vida saudável, designados por disability adjusted life years). Mesmo com pressupostos muito conservadores, são 61 mil anos perdidos por doenças cardíacas, 900 mil anos em perda de vida saudável por distúrbios de sono, que não chega a ser profundo e reparador, e 45 mil por distúrbios cognitivos de crianças.

O ruído não é uma causa direta de morte, como aliás a poluição atmosférica não o é. Morre-se e perdem-se anos de vida saudável das complicações de saúde que resultam de uma resposta de stresse aguda se converter em crónica. O problema está no desgaste: quanto menos se conseguir controlar a origem do estímulo e confrontá-lo, maior o risco de danos físicos e psicológicos. No início, as pessoas até podem ficar mais ativas na tentativa de controle, mas se os esforços não funcionarem surge o chamado desamparo aprendido, que leva ao isolamento social. Seguem-se as complicações psico-fisiológicas: primeiro vem o incómodo, depois a desregulação hormonal e a hipertensão até aos problemas de coração.

A princesa Isabel, o imposto quebra-galho e a obscura reforma tributária

A princesa Isabel pode ficar em paz. Pelo menos a Lei Áurea deve ser preservada, se a equipe econômica tiver sucesso em sua campanha contra os direitos trabalhistas. O ministro da Economia, Paulo Guedes, continua a pregar a desoneração da folha de salários como se fosse o principal – quase único – objetivo de uma reforma tributária. Ele voltou a defender, em conversa com senadores, a criação de um imposto para compensar, do ponto de vista fiscal, a prometida redução dos encargos trabalhistas. Pode ser o tal “imposto sobre o pecado”, incidente em cigarros, bebidas alcoólicas e alimentos com açúcar, ou um tributo sobre transações eletrônicas. Noticiada pelo Estado, a conversa mostra mais que insistência – já é uma fixação – em eliminar direitos para baratear a mão de obra. Mostra também uma forma peculiar, e muito estranha, de entender a tributação e a tarefa, proclamada como prioritária, de reformar o sistema de impostos e contribuições. Há pelo menos dois pontos intrigantes e até assustadores.

Em primeiro lugar, dois tributos de tipos muito diferentes são igualados na função de quebra-galhos, isto é, de recobrar a receita perdida com a desoneração da folha.

Em segundo lugar, o tal imposto sobre transações eletrônicas, concebido para tributar grandes empresas de tecnologia, é reduzido à função menor, quase mesquinha, de facilitar a eliminação de encargos sociais. Mas serviria, mesmo, só para isso?

Este segundo ponto é particularmente preocupante. Encontrar meios de tributar a economia digital, um componente de peso enorme e crescente na vida econômica, é hoje uma das principais missões da OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. O tema foi discutido em Davos, em janeiro, em reunião do Fórum Econômico Mundial.

O assunto é tão complicado quanto delicado. O governo francês meteu-se em conflito com a Casa Branca ao tributar operações de empresas como Google, Apple, Microsoft, Amazon e Facebook. Um entendimento bilateral foi anunciado pelo ministro da Economia da França, mas falta um esforço muito mais amplo para um acordo geral em relação ao projeto da OCDE.

Um tema dessa dimensão ficaria muito bem na pauta diplomática e, é claro, no projeto de reforma tributária do governo brasileiro. Mesmo sem a questão internacional, o assunto ainda seria excessivamente importante para ser tratado de forma isolada e, pior que isso, como simples quebra-galho fiscal.

Mas terá o governo, de fato, um projeto de reforma tributária? Não há sinal disso. Não há sinal, pelo menos, da existência de algo digno de ser classificado como projeto.

O ministro da Economia nunca foi muito além, nas suas declarações, de referências à criação de algo parecido com o extinto imposto do cheque, a CPMF, da redução do número de tributos e da eliminação dos encargos trabalhistas. A volta do imposto sobre movimentação financeira foi apresentada em várias ocasiões como forma de compensar o fim daqueles encargos. São, portanto, duas fixações, aparentemente muito fortes, mas insuficientes para compor uma reforma tributária.

Tampouco se encontram sinais de um projeto em declarações do presidente da República. Talvez ele esteja ocupado demais com a reeleição para cuidar de assuntos como esse. Além disso, o presidente nunca mostrou inclinação a pensar de forma organizada sobre questões tributárias. Ele se opôs à recriação da CPMF, mas sem um argumento econômico. Poderia usar vários, mas nunca deu sinal de pensar em algo diferente do custo político-eleitoral.

Esse tipo de preocupação ficou mais escancarado em outras ocasiões. Quando se falou pela primeira vez em “imposto sobre o pecado”, ele proibiu a incidência sobre a cerveja. Mas nada iguala a campanha para mudar ou eliminar a cobrança do tributo estadual sobre combustíveis.

A campanha é obviamente populismo tosco, mas esse talvez nem seja o dado mais importante. A proposta do imposto zero, nesse caso, revela também uma ignorância incomum sobre a aplicação, a gestão e a importância do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o principal tributo dos Estados. Se a mistura de populismo, irresponsabilidade e ignorância incomodar o fã-clube de Bolsonaro, ele terá perdido alguns pontos nesse episódio. Mas incomodará, mesmo?

Não perguntem ao presidente a orientação e o sentido estratégico da reforma tributária, por ele apresentada como prioridade. Ele remeterá a questão ao ministro da Economia. Mas em relação a isso o ministro está inadimplente.

Ele nunca apresentou um quadro geral do novo sistema nem explicou os objetivos principais da reforma. Supõe-se haver algo além da redução do número de tributos e do alívio da folha salarial. A tributação da economia digital deveria ser parte de uma ampla modernização, mas foi apresentada como quebra-galho.

Perguntar sobre outra prioridade oficial, a reforma administrativa, deve ser igualmente frustrante. Uma resposta satisfatória dependeria de noções claras de administração e de funções de governo, itens obviamente escassos no repertório bolsonariano.

Mataram Marielle novamente

Escrevi nesta mesma coluna que a jovem ativista negra Marielle Franco, executada pelas milícias, acabaria sendo para o senador Flavio Bolsonaro, filho do presidente da República, mais perigosa morta do que viva.

De fato, Marielle, assassinada, continuava viva politicamente e sua figura de ativista comprometida com a defesa dos direitos humanos e sua luta contra as milícias, não havia morrido. Era como uma sombra e uma voz acusadora que sua morte não conseguiu dissipar. Marielle, símbolo da defesa da liberdade e de todos os excluídos por serem diferentes, não se apagou e continuou assustando desde o túmulo.

Sabiam muito bem disso aqueles que tiraram sua vida e todos os políticos que ficaram assustados com sua possível ressurreição.

A misteriosa e enigmática morte de um dos supostos envolvidos com a morte de Marielle, o capitão do Bope e miliciano Adriano da Nóbrega, pode ser um perigoso bumerangue que ameaça todos aqueles que a preferiam muda em seu túmulo.

Quiseram assassiná-la de novo porque entenderam que continuava viva e ameaçadora. Terão conseguido desta vez calando a voz de alguém que talvez soubesse mais sobre aquele crime que já havia atravessado as fronteiras do país?

Sobre a morte violenta do miliciano muito ainda será escrito e ele poderia falar hoje com mais perigo do que se estivesse vivo.

Este segundo assassinato de Marielle deve ser trazido à luz pública.

São muitas as perguntas que serão feitas nos próximos dias sobre o misterioso assassinato que aos poucos daqueles que amam a democracia poderá convencer de que era inevitável.

Talvez, em um dia não muito distante, aqueles que tanto desejavam o desaparecimento do líder da organização criminosa investigada pela morte de Marielle se arrependam de não o terem capturado vivo.

Com essa nova morte, as nuvens cinzentas da pior das suspeitas continuarão a perseguir os mandantes daquele crime que se recusa a morrer.

Brasil, as forças que continuam acreditando nos valores da liberdade precisam saber.

Como escrevi sobre Marielle tempos atrás, não é possível matar os mortos. Mas eles podem ressuscitar e exigir contas àqueles que forem culpados por um crime que dói e envergonha a todos nós.
Juan Arias

O Guedes liberal naufragou

Pode ter sido pela turbulência dos ventos ou por uma vontade danada de chegar lá ainda que em condições precárias. Mas é indisfarçável que a bússola do ministro Paulo Guedes – o único dito e havido como porto seguro do Governo Bolsonaro - está descalibrada. Talvez a imantação já estivesse comprometida antes mesmo de ele assumir o barco, quanto mais para pilotá-lo em meio de terraplanistas. Assim, o Guedes liberal naufragou.

Acuado pelas contas que não saem do vermelho, por uma economia que não rompe o nanismo e por um patrão que insiste em jogar contra, Guedes abandonou as promessas arrojadas e só pensa em mais impostos, suplicando pelo uso das velhas boias. Ora sobre transações digitais, um upgrade da CPMF para as movimentações online, ora no que ele chamou de “imposto do pecado”, incidente sobre cigarros, açúcares e bebidas, incluindo a cerveja, já descartada pelo chefe.

Pode-se dizer que nada saiu como planejado. Pouquíssimo deu certo.


A produção industrial refluiu 1,1% em 2019 depois de dois anos no azul; o tímido crescimento do emprego não chegou a representar alívio. É verdade que os juros e a inflação continuaram a trajetória de queda iniciada no governo Michel Temer, e isso é parte do pouco que se fez. Mas esses são indicadores perigosos, não raro associados à estagnação da economia.

Com a determinação do Parlamento e a despeito das críticas de seu chefe, Guedes pode exibir a vitória da nova Previdência, e pronto. Privatização, que seria a menina dos olhos, não andou, e o tal Plano Mais Brasil, que inclui um novo pacto federativo, emergência fiscal e fundos públicos, nem está cogitado para a pauta de 2020. As propostas governamentais para as reformas tributária (para a qual o Congresso já tem duas versões sem participação do Executivo) e administrativa só estão no gogó.

>Gogó que Guedes tem cada vez mais usado de forma errática, como uma cópia mal acabada da agressividade barata do presidente, que colhe sucesso entre fiéis com os seus maus modos. Guedes, não. Fala besteira – e não são poucas – e se vê obrigado a arrepender depois, alegando sempre que suas frases são divulgadas “fora do contexto”.

Foi assim na sexta-feira, ao comparar o funcionário público a um parasita. Também em Davos, ao dizer que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza; as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Corroborou para a imagem de um Brasil que trata mal seus recursos naturais, completamente alienado quanto às questões ambientais. Ouviu o que não queria (mas precisava ouvir) do ex-vice-presidente americano Al Gore: “Desmatar a Amazônia é produzir pobreza”.

As derrapadas orais de Guedes não são casos isolados. Antes de tomar posse ele já havia desafiado o Congresso Nacional, ao qual daria “uma prensa” caso não votasse os projetos de interesse do presidente eleito. Na época da discussão da reforma da Previdência ameaçou deixar o governo e o país. E foi mais longe ao concordar com a baixaria de Bolsonaro contra Brigitte Macron, mulher do presidente da França Emmanuel Macron: “O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo”. Em novembro, incorporou a ultra direita ao criticar o ex-presidente Lula que havia conclamado o povo a ir às ruas contra Bolsonaro: “Não se assustem se alguém pedir o AI-5”.

Nem parece o mesmo Guedes, que nas épocas áureas do Instituto Millenium, do qual foi um dos fundadores, mostrava-se um crítico feroz do digladio direita-esquerda: “A direita brasileira afundou a redemocratização por estar associada ao autoritarismo político e à insensibilidade social do regime militar. A esquerda afunda agora com a morte da velha política por estar associada à roubalheira, ao colapso do crescimento econômico e à insegurança nas ruas de uma decrépita Nova República”. Esse era o Guedes que Bolsonaro reduziu a um “Posto Ipiranga”, metáfora barata que o ministro permitiu popularizar.

Sobrou quase nada daquele liberal que em 2017 dizia que “o aperfeiçoamento das instituições de uma democracia emergente” era “mais importante do que as obsoletas disputas entre esquerda e direta, conservadores e progressistas, liberais e socialistas”.

Ainda que continue sendo a única aposta de muitos e que não abandone o navio, Guedes naufragou. Sua boia de salvação é a CPMF. E essa o país rejeita.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Por que gente com cabeça no lugar engrossa a cruzada contra as artes?

Ninguém acusa a ciência de elitismo. A não ser o populista que, no lugar da educação, e apoiado pelas elites econômicas mais oportunistas e inconsequentes, oferece a Terra plana ou o “design inteligente” como solução para a ignorância.

Então, por que gente com a cabeça aparentemente no lugar continua a engrossar a cruzada de demagogos contra as artes? Por que insistem em confundir exceção com “elitismo cultural”? Afinal, o que esperam da arte? Que confirme crenças, gostos, consensos e hegemonias? Que não seja uma forma de reflexão e conhecimento?

Se fosse assim, praticamente nada do que consideramos artisticamente excepcional existiria. Não haveria Herman Melville e o maior romance americano; não haveria Kafka nem Clarice Lispector. Também não haveria Godard, autor da máxima que, apesar de surrada, continua a deitar luz pelo caminho: “A cultura é a regra; a arte é a exceção”.

Ao contrário do que pretende o projeto ideológico bolsonarista (com o apoio de elites ignaras e suicidas), arte não tem nada a ver com ideologia. Tem a ver com a força e a vulnerabilidade da contradição como resistência à criação de consensos. Tem a ver com a produção de diferença, com a exceção como condição de possibilidade do pensamento e da reflexão, na contramão de crenças e sofismas.

Vem daí a urgência de fomentar e proteger, como um bem social de todos (e não de “elites culturais”), a arte que não se vende nem se paga, aquela que não agrada nem serve ao mercado. Isso não significa que ela seja necessariamente boa ou ruim, apenas que a arte que serve ao mercado não precisa da proteção do Estado. Como podem explicar os economistas liberais, ela se autorregula.

Ao contrário das aparências mais rasteiras, a Terra não é plana. É difícil para quem nunca tirou os pés do chão contrariar suas impressões diárias e imediatas. Mas será essa dificuldade justificativa suficiente para se contentar com o conforto do erro (e suas consequências)?

Num dos seus textos mais misteriosos (“O Ovo e a Galinha”), Clarice Lispector escreve sobre a impossibilidade de ver o ovo pela primeira vez. Só vê o ovo, e o entende, quem já o viu, e isso já não é entender, é reproduzir o erro, a inércia ou a “naturalidade” de uma função irrefletida. Como é que se vê o ovo pela primeira vez? É com essa dificuldade que lida a arte de verdade ou de exceção. Ela não quer ser representação de consensos nem ilustração do que queremos ver. Ela não é confirmação de nada.

Nem crença nem função, nem ideologia nem moral, essa arte encara a dúvida, a contradição e o desconforto de não entender, como condição fundamental do próprio conhecimento, da descoberta e da ampliação do entendimento do mundo.

Sem dúvida e sem contradição não há conhecimento. Mas dúvida e contradição não costumam produzir prazer —pelo menos não à primeira vista. Nada nelas é natural e confortável. E por isso precisam ser fomentadas e defendidas. Não porque correspondam ao que queremos crer, mas justo pelo contrário, porque nos confrontam com a diferença, com o outro, o que não tem nome, com o que nos causa repulsa, o que não podemos ver em nós.

Quando Bolsonaro diz que “cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós”, não está apenas exprimindo um racismo abjeto mas também, na sua miséria intelectual, o projeto suicida de erradicação da diversidade cultural.

Homogeneização e extinção —autoextermínio, para surpresa dos “agentes homogeneizadores”— costumam andar de mãos dadas. A natureza é inequívoca: a sobrevivência das espécies está ligada à diversidade. A monocultura empobrece o solo. Um corpo sem anticorpos não sobrevive fora de bolhas estéreis.

Poeta e cineasta excepcional, Pier Paolo Pasolini também foi um combativo adversário do fascismo, em especial daquele que se manifesta onde menos se espera, com outros nomes. Em sua última entrevista, horas antes de ser assassinado, Pasolini falava do perigo de um sistema cultural e educacional consumista, capaz de fazer todo mundo desejar as mesmas coisas, e assim matar o desejo.

O maior desafio da cultura é fomentar o outro, a exceção. E é esse o paradoxo de um projeto ideológico uniformizador como o do bolsonarismo, não só para a cultura mas para o país. Combater o outro (na educação, na ciência e nas artes) é estrangular-se. É criar um país fraco, vulnerável, monotemático, infértil, para corresponder à miséria do pensamento do seu líder. É esse, aliás, o projeto ao qual os fascismos estão condenados inadvertidamente. Mas é isso o que desejamos para nós?
Bernardo Carvalho

Weintraub é ministro só dele mesmo

O bolsonarismo não inova ao reservar no governo espaços para especialistas e delimitar áreas destinadas a quem trata de forma direta da execução de projetos relacionados a objetivos políticos e ideológicos do grupo no poder. O Ministério da Economia, de Paulo Guedes, por exemplo, enfrenta questões objetivas. Por exemplo, das reformas, em que estão em jogo pontos fundamentais relacionados à estabilidade econômica, ao crescimento e à geração de empregos.

Bolsonaro e filhos, porém, reservaram temerariamente cargos importantes também para ideólogos orgânicos da extrema direita. Entre eles, o economista e professor Abraham Weintraub, o segundo ministro da Educação do governo, substituto de Ricardo Vélez, de perfil semelhante. Um sério erro. Weintraub tem se destacado pela absoluta incompreensão da importância do cargo. Dedica-se a travar a chamada “guerra cultural”, um tipo de briga de rua no mundo virtual.


Os erros crassos de ortografia de Weintraub são menos graves do que a sua incapacidade de administrar o MEC num momento em que o Brasil precisa acelerar projetos para impulsionar a educação, quando persiste grande evasão no ensino médio, existe um contingente preocupante de analfabetos funcionais, e os cuidados com a primeira infância, cruciais para uma boa formação, continuam sendo negligenciados.

Os problemas que se repetem no Enem foram enfrentados de forma canhestra, e restou um forte golpe na já debilitada confiabilidade no exame, a única porta de entrada de milhões de jovens para o ensino superior. Além de gerenciar o reparo do Enem, por meio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), ligado ao MEC, o ministro precisa cuidar da implementação do currículo único (a partir da Base Nacional Comum Curricular) e da reforma do ensino médio, aprovada no Congresso, e da qual nada se fala no MEC de Weintraub. E é preciso encaminhar proposta ao Congresso da renovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), que vence este ano. É a única fonte de recursos para a grande maioria das secretarias de Educação de estados e municípios.

Especialistas dizem que o MEC tem de ser um polo de aglutinação técnica e política, para fazer um trabalho amplo e constante de estimulação junto a governadores e prefeitos, cujos secretários e professores são os responsáveis por melhorar o ensino em cada sala de aula. Este é um papel estratégico do MEC.

Weintraub não consegue exercê-lo. Não procura dialogar. É apenas um militante de causas extremadas. Não tem perfil para o cargo. Não pode transitar na Câmara dos Deputados, devido à compreensível repulsa do presidente da Casa, Rodrigo Maia, e não apenas deste: acaba de chegar ao STF pedido de impeachment do ministro encaminhado por deputados e senadores. Não transita no meio universitário, nem tem diálogo com a comunidade de especialistas no setor, está isolado no MEC, bajulado apenas pelo presidente Bolsonaro e filhos. Weintraub é só ministro dele mesmo. O MEC está à deriva, e a educação também.

É isto um homem?

O que acontece a essa gente que no meio de uma pandemia só se preocupa com as cotações da Bolsa? Essa gente que mesmo no meio da miséria mais desmoralizante ainda pensa que seu catre é melhor que o catre alheio? Que raio de humanidade é essa que não sente, não vê, não ouve, senão o que lhe chega ao pé da porta, o que lhe fisga o nervo, o que lhe quebra o osso, o que lhe subtraem do próprio bolso? Pertence de fato à espécie humana essa gente armada até os dentes, que não enxerga o outro a não ser como um alvo? Que tipo de gente é essa que se fotografa sobre o lombo de um cadáver como um prêmio angariado, que chama de esporte a uma matança, de erro a um estupro, de incidente a duzentos e cinquenta assassinatos? Que espécie é essa imune a toda lei, toda Constituição, toda justiça, a quem é dado o poder de matar, e, não lhe fosse dado, tomaria à força e assim igualmente mataria? Que bicho maldito é esse que não se reconhece bicho, mas se regozija em ser maldito, em nada se importando, quem sabe mesmo se divertindo, se o que lhe sai da boca é crime, e o que lhe sai das mãos, mais crime, de que elemento é feito isto que empesteia a terra e o ar e água por onde passa, que desgraça uma floresta, que arrasa uma cidade, que tipo de ser é este, afinal? É isto um homem?
Mariana Ianelli

Pensamento do Dia


Treinamento para naufrágio

A Humanidade não desaparecerá com uma explosão, mas com um suspiro, vaticinou T. S. Eliot num dos seus poemas mais conhecidos. Penso naqueles versos sempre que surgem notícias de um novo vírus assassino. 

Não creio, contudo, que o anunciado apocalipse silencioso venha a ter como protagonista a nova estirpe de coronavírus, detectada na cidade chinesa de Wuhan nos últimos dias de 2019. 

O surto revelou o melhor e o pior do regime chinês. A burocracia enferrujada do aparelho de Estado atrasou a resposta à epidemia, enquanto o pensamento totalitário dominante no Partido Comunista explica a tentativa inicial de ocultação da mesma. Durante dias, as redes sociais chinesas registraram reclamações de populares enfurecidos com o seu próprio governo, algo muito raro, desde logo porque a internet é vigiada e controlada pelas forças repressivas do regime.

Logo a seguir, porém, os chineses deram um show de organização, disciplina e capacidade de mobilização, isolando grandes cidades, controlando o pânico, e construindo um enorme hospital em apenas dez dias. Nenhum outro país conseguiria algo semelhante. O diretor da Organização Mundial de Saúde (OMS), o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, elogiou as autoridades chinesas, afirmando que as medidas adotadas para combater o vírus em seu epicentro são a melhor maneira de impedir a disseminação daquele. 

Suprema ironia, a principal ameaça à sobrevivência da Humanidade — para além da própria Humanidade — é representada por entidades invisíveis aos nossos olhos e tão rudimentares que ainda hoje se discute a sua natureza: são ou não seres vivos?


Em criança fiz várias viagens de navio, intercontinentais. Lembro-me das sessões de treinamento para um eventual naufrágio. A buzina tocava e todos os passageiros se reuniam no convés. O mais importante, diziam-nos, era controlar o pânico, manter a disciplina, obedecer às instruções da tripulação, e ajudar quem mais precisasse. 

A gripe comum mata mais de 600 mil pessoas todos os anos. A nova estirpe do coronavírus detetada em Wuhan matou até agora perto de 500 pessoas. Não será o apocalipse, mas é certamente um alerta, a buzina chamando os passageiros para o convés do navio. Temos de estar preparados para quando o naufrágio acontecer. Sabemos o que é necessário: rapidez de resposta, transparência, partilha de conhecimentos, colaboração entre todos os países e instituições de pesquisa, calma, organização e disciplina. 

A possibilidade de aparecimento de vírus perigosos aumenta todos os dias, devido à movimentação cada vez mais rápida de cada vez mais gente, ao crescimento das grandes cidades, à destruição de ecossistemas ou ao aquecimento global. Então, sim, acontecerá. Mais dia menos dia, o navio irá naufragar. Sobreviveremos se soubermos aprender com as lições do presente, o que inclui vencer não apenas o coronavírus, mas também a xenofobia que lhe está associada. 

A menos que um simples vírus seja, afinal, mais inteligente do que nós.
José Eduardo Agualusa

Acabou de recomeçar

O monstro finalmente derrotado começava a dar lugar à monstruosidade dos vencedores
Antonio Tabucchi, "Tristano morre"

Bolsonaro confirma sentença de morte da Amazônia

Em um só documento, Jair Bolsonaro confirmou as acusações estrangeiras e brasileiras aos seus propósitos destrutivos para a Amazônia, atestou serem mentirosas afirmações suas na Mensagem ao Congresso sobre 2019-2020, e expôs o país a graves reações internacionais.

Tudo isso em uma sentença de morte da Amazônia sob a forma de projeto mandado ao Congresso: a abertura da região, inclusive das reservas indígenas e dos parques nacionais, a toda exploração empresarial.

O desmatamento amazônico, preocupação de numerosos países e de cientistas das alterações climáticas, é incentivado sob disfarce no projeto. A oferta da área florestal à pecuária, explicitada no texto, pressupõe o desmatamento preliminar para a formação de pastos.

E em imensas extensões, porque a criação de gado com lucratividade em escala empresarial, ali, recomenda grandes rebanhos, dado o oneroso transporte aos distantes centros de distribuição e exportação.


A abertura das reservas indígenas à exploração empresarial, por sua vez, encobre o transtorno total das relações do Estado com a população indígena. E das políticas indigenistas mais ou menos equivalentes em todos os governos pós-ditadura militar, exceto o atual.

Os indígenas perdem o domínio das terras que lhes são reconhecidas, e do próprio ambiente: seu único direito de contestar a exploração, diz o projeto, incide sobre o garimpo primitivo. Para o mais, devem satisfazer-se com a retribuição financeira admitida pelo empreendimento.

Isso é de uma radicalidade feroz como poucas vezes terá sido, se alguma vez o foi, em disposição de governo. Daí não se pode esperar senão um processo ainda mais celerado e acelerado de extirpação da cultura indígena. E de vidas que a têm sustentado, apesar da pressão de convívios forçados e dissolutos.

Esse projeto pode explicar uma das motivações básicas da ligação de velhos militares a Bolsonaro, exibida desde a campanha eleitoral pelo general Villas Bôas, então comandante do Exército e hoje conselheiro do governo.

Na primeira década da ditadura, anos 1970, a questão indígena recebeu relevância nas Forças Armadas e, por indução delas, na imprensa. De elaborações simplistas, surgira o delírio de que estrangeiros — sobretudo os Estados Unidos — ambicionavam apossar-se da Amazônia, e a maneira de evitá-lo seria difundir a ocupação econômica da região.

Uma fantasia precursora da ministra Damares Alves, pois acaba-se com a riqueza florestal da Amazônia e sua importância para o mundo, e ninguém mais desejará possuí-la. A teoria ainda prevalece. E cumpre mais um papel.

Por décadas, a obsessão foi a guerra com a Argentina. Uma das promoções do general Amaury Kruel, contei aqui há muitos anos, foi pelo plano de Estado-Maior por ele feito para o caso dessa guerra. O Rio Grande do Sul tornou-se uma concentração de recursos do Exército e da FAB por causa da obsessão.

O primeiro porta-aviões, Minas Gerais, ruína inglesa que acabou custando uma loucura monetária, foi comprado porque a Argentina tinha o seu. Com o presente, Juscelino apagou a ira golpista na Marinha. Com as crises econômicas, a Argentina perdeu a posição onírica para a Amazônia.

Outro indicador da origem e da impulsão atual do projeto anti-Amazônia: é claro que não foi ocasional a simultaneidade entre a proposta mandada ao Congresso e o vazamento de um alegado estudo contra intenções hostis da França para a Amazônia.

Estão vendo? Precisamos ocupar a nossa Amazônia — e, quem sabe, talvez também a de vizinhos — antes que algum aventureiro o faça, como já disse nossa pobre história. Mas não se pode dizer que o “estudo militar” seja medíocre: não passa de idiota.

Também dos últimos dias, a Mensagem ao Congresso é uma combinação de mentiras e cinismo. Entre elas, a dedicação do governo à sustentabilidade ambiental. Ao que me consta, jamais um governo ousou propor um projeto tão obstinado e minucioso contra o meio ambiente, a vida como criação da natureza e o conjunto do país. Nenhuma reação internacional, seja onde e qual for, será desproporcional ou surpreendente.

Por que os poderes religiosos e políticos temem tanto a sexualidade?

No Brasil, enquanto o presidente Bolsonaro mistura em seus discursos Deus, sexo e poder, sua ministra da Mulher, Damares Alves, clama a favor da castidade dos jovens. Por que será que o poder religioso e o poder político temem tanto o exercício livre da sexualidade? De acordo com antropólogos e psicólogos se deve ao fato de que ninguém é mais difícil de dominar pelo poder do que uma mulher e um homem felizes. E é a sexualidade, exercida sem tabus e medo, uma das maiores fontes de felicidade.

Enquanto os deuses antigos do paganismo eram mais liberais com sexo, a partir da chegada do monoteísmo e concretamente do cristianismo influenciado por Paulo de Tarso, o exercício da sexualidade com sua força de libertação, começou a ser considerada como pecado e a mulher como a tentação do homem. Para isso foi retomado o mito de Eva, que tentou o homem fazendo-o desobedecer a Deus.

Desde então, as igrejas cristãs relegaram a mulher como perigosa ao homem e foi até afastada dos mistérios do culto dos quais os homens se apossaram. Elas foram relegadas da hierarquia da Igreja. E na vida, como sentenciou São Paulo, “submetida em tudo ao homem”, até no exercício da sexualidade.


Todos os poderes, do religioso ao político, à medida em que se tornavam mais autoritários e ditatoriais, foram alérgicos a uma sexualidade vivida em liberdade. No mundo político essa tentação de controlar a sexualidade das pessoas foi um pecado que tentou a direita e a esquerda, assim como o preconceito para que a mulher chegasse ao poder.

Lembro aqui no Brasil, quando Lula designou como candidata a sua sucessão sua ministra Dilma Rousseff, respondeu a um amigo que lhe perguntou por que havia escolhido uma mulher: “Porque ela é mais homem do que nós dois juntos”. No outro extremo, hoje Bolsonaro, além de seu pouco apreço pela mulher e o feminino, está usando em seus discursos e conversas uma linguagem que degrada a sexualidade. Do famoso vídeo com a cena do golden shower, do Carnaval passado, a suas já famosas comparações da política com relacionamentos, está banalizando a força que o sexo exerce na vida humana. E, ao mesmo tempo, adere às consignas de sua ministra, a pastora evangélica Damares, que advoga pelo exercício da castidade entre as jovens para não ficarem grávidas antes da maturidade.

Se a Igreja já tentou legislar até sobre a posição em que os casais deveriam fazer sexo somente para procriar, e chamou de “partes sujas” os órgãos da reprodução, hoje a presidência de Bolsonaro nos acostumou a fazer chacota sobre o assunto, como a de comparar suas relações com o Congresso com dois casados que às vezes não se entendem, mas que “acabam dormindo juntos sob os mesmo lençóis”. E sua maneira de tratar a nomeação da secretária da Cultura, a atriz Regina Duarte, como sua “namorada” e a de dizer que como “o ato ainda não foi consumado”, ainda pode deixá-la fora do poder.

Os maiores tiranos da história tiveram medo do sexo e o ridicularizaram, talvez para exorcizá-lo. Lembro quando o general e ditador Franco decidiu que as mulheres não podiam ir à praia de biquíni, já que isso atentava contra a moralidade. Imediatamente surgiram as piadas e ironias. Um guarda civil se aproximou de uma jovem estrangeira que tomava sol em uma praia e lhe disse: “Senhorita, você não pode ficar aqui com um maiô de duas peças”. E a jovem lhe respondeu com humor: “Então, seu guarda, me diga se prefere que eu tire a parte de cima ou a de baixo”.

A Igreja também sempre teve medo da mulher, a eterna tentadora, e de seus seios. Lembro que em uma viagem do papa Paulo VI a Uganda, na África negra, ao aterrissar o avião o religioso era esperado por um grupo de jovens mulheres para fazer uma dança ritual em sua homenagem. Na África as mulheres costumam andar com os seios descobertos com toda a naturalidade, mas os organizadores da viagem papal pensaram que não era de bom tom aquelas jovens se apresentarem ao Papa com os seios descobertos e as obrigaram a colocar um sutiã. Quando os fotógrafos se aproximavam elas cobriam com as mãos, envergonhadas, não os seios e sim os sutiãs.

Esse problema não resolvido do poder com o sexo se deve a que não existe nada mais machista do que ele. E essa é uma das grandes batalhas da libertação da mulher realizada nesse momento no mundo. A mulher sabe que só adquirirá o papel que lhe pertence na sociedade da mesma forma que o homem quando o sexo deixar de ser um tabu e ela deixar de ser vista como objeto de tentação e pecado. Nada dá mais medo hoje aos poderes políticos e religiosos do que esse movimento de libertação dos gêneros. Que a sexualidade é livre como o ar e o sol e ninguém, nem o poder religioso e o civil têm direitos sobre tal liberdade. Os tabus sobre o sexo foram e continuam sendo criados pelo poder masculino para submeter a mulher e os que ousarem fazer uso da liberdade de gênero no exercício da sexualidade.

Exigir no século XXI que as jovens brasileiras abracem a castidade por medo de ficar grávidas antes do tempo é ignorar que a fisiologia e a natureza fizeram com que a mulher muito jovem já possa procriar para assegurar-se o direito à prole e que hoje, no pior dos casos, existem substitutivos à castidade para evitar gravidezes não desejadas.

Um teólogo da libertação colombiano me disse uma vez que é curioso que a Igreja tenha criado o dogma da Imaculada Conceição para exaltar a castidade já que, dessa forma, a virgem Maria pôde ficar grávida e ter Jesus por obra e graça do Espírito Santo sem precisar fazer sexo. E me dizia: “Não há maior desprezo pelo exercício da sexualidade, uma das forças motoras da Humanidade sem a qual nenhum de nós existiria começando pelos Papas”.

Esse medo ancestral das igrejas à sexualidade também explica o sacerdócio celibatário obrigatório e as pressões contra o papa Francisco, o menos machista dos Papas da idade moderna, que não só começou a abrir no Sínodo sobre a Amazônia a possibilidade de padres casados, como chegou a dizer que a Igreja precisava com urgência de uma “nova teologia da mulher”, que seria o último grande tabu da Igreja, como o é seu afastamento da hierarquia.

A guerra contra Francisco já está aberta. Das insinuações a que talvez esteja com câncer de cérebro a que traiu o papado por não querer se chamar Papa. Como os primeiros cristãos, de fato, preferiu desde o primeiro dia se chamar simplesmente “bispo de Roma” e até renunciou aos palácios vaticanos para morar no quarto de uma simples pensão para padres. Francisco é o primeiro Papa que não só não vê a mulher como inimiga e tentadora e o sexo como pecado, como acredita serem imprescindíveis para que a Igreja não fique fora da História.

Pode existir heresia maior?