quarta-feira, 1 de maio de 2019

Saudades das cavernas

O tempo é dos reacionários. Falo daquelas "mentes naufragadas", de que falava Mark Lilla no seu livro, e para as quais o presente em que vivemos é tão precário, tão imundo, tão cruel que o melhor é retornar ao passado.

Antigamente, dizem eles, tudo era mais simples, mais ordenado, mais perfeito. Como os revolucionários que tanto abominam, os reacionários são iguais a eles e podem estar à esquerda e à direita, entre ateus ou fervorosos crentes.

Podem ser ambientalistas radicais (não confundir com cientistas) que, seguindo uma criança sueca aparentemente perturbada (Greta Thunberg), defendem um retorno às cavernas para salvar o planeta.

Podem ser nacionalistas extremistas que desprezam a democracia pluralista e sonham com formas autoritárias de política.

Sem esquecer o pessoal das arábias, que procura recriar, pela força das bombas e das decapitações, um novo Califado.

É contra essa moda que se insurge o filósofo francês Michel Serres em ensaio recente. Serres, do alto dos seus quase 90 anos, publicou "Antes é que Era Bom!" (edição portuguesa pela Guerra & Paz), ensaio de uma ironia fina, no qual a autobiografia se mistura com a filosofia. Antes é que era bom?

Sem dúvida, escreve Serres. Para ficarmos apenas no século 20, esse tempo arcádico para onde os reacionários querem voltar, havia grandes estadistas, como Hitler ou Stálin, Mao ou Pol Pot.

E havia também paz, muita paz, ao contrário das barbáries de hoje. Como não recordar, com um sorriso nostálgico, os anos de 1914 ou 1939? Como esquecer os piqueniques em Hiroshima ou Nagasaki? Como não sonhar com os tempos felizes no Gulag ou em Auschwitz?

Mas Michel Serres não se fica pela grande história. A pequena também tem espaço nas suas meditações rezingas. Vejamos.

Antigamente, quando tudo era bom, vivia-se longamente até aos 35 ou 40 anos —e uma família tinha que ter cinco filhos, às vezes mais, na esperança de conservar dois.

Não havia problemas na previdência social porque, em rigor, não havia previdência social. Nem previdência social, nem água encanada, nem sistema de descarga, nem antibióticos, nem anestesia. Uma ida ao dentista era uma experiência deliciosa.

E se o leitor, indignado, acusa Michel Serres de não ser sensível às tribulações do presente —o ambiente, a condição da mulher, a alimentação artificial, as redes sociais—, o pobre filósofo não tem defesa possível para cada um desses males.

A revolução industrial ou o regime de semiescravidão em que viviam as mulheres não têm paralelo com a trágica situação atual.

Redes sociais? O mundo era sem dúvida melhor quando as comunicações duravam semanas (e não segundos) —e as viagens duravam meses (e não horas).

E sobre os produtos naturais que era possível consumir diretamente da origem, sem controle sanitário de qualquer espécie, Michel Serres, filho de agricultores, suspira: era diarreia em família seis vezes por ano! Que interessava a febre aftosa quando era possível beber leite acabado de mungir de uma vaca bucólica e enferma?

Eu sei, eu sei: nunca devemos confundir progresso material com progresso moral. Se, como dizem os hipocondríacos, a saúde é uma fase transitória que não augura nada de bom, o momento que vivemos no Ocidente, de relativo conforto e acalmia, um dia será recordado como um "intermezzo" na história da humanidade. E essa história, como alguém dizia, sempre foi a história dos crimes contra a humanidade.

Mas, por outro lado, como negar que esse "intermezzo" existe? E que, material e até moralmente, nunca estivemos tão bem --na longevidade, na alimentação, no trabalho, no lazer? E até na política, sim, sobretudo quando nos comparamos com os desgraçados fantasmas que cresceram e morreram às ordens de Lênin, Franco ou Ceausescu?

Os reacionários que enchem a boca com a história desconhecem-na grosseiramente. E eu, depois de ler Michel Serres, imagino como seria terapêutico construir uma Disneyland só para eles —um resort gigantesco onde, voluntariamente, os reacionários poderiam experimentar os prazeres do passado com que tanto sonham.

Viveriam 24 horas sob vigilância policial. Trabalhariam a terra com as mãos, ou com instrumentos tão rudimentares como as mãos, e não com as frescuras da tecnologia. Os cuidados de saúde estariam a cargo de um barbeiro —ou, então, de um médico especializado em sangrias ou lobotomias.

E as mulheres reacionárias, especialmente elas, viveriam submetidas aos caprichos dos pais, dos maridos, dos irmãos, sem direitos cívicos de qualquer espécie. Se estivessem em plena menopausa, era hospício para elas.

Ah, já me esquecia: a alimentação seria "autêntica". Como negar aos nostálgicos os prazeres de uma boa diarreia?
João Pereira Coutinho

Pensamento do Dia


Sem luz no fim do túnel

Os militares empregados no governo já concluíram que o presidente Jair Bolsonaro não dará conta do recado. Ele foi um sindicalista durante seus sete mandatos como deputado federal. Jamais passou disso. E na Câmara nada aprendeu.

Eles o apoiaram porque era o único candidato com chances reais de impedir a volta do PT ao poder. Continuarão a apoiar mais preocupados em evitar o desmanche do governo do que esperançosos de que no final acabará dando certo.

A desesperança da farda contamina políticos de todos os partidos, até do PSL de Bolsonaro, e os donos do dinheiro no país. Esses estão cada vez mais aflitos com a possibilidade de que o Congresso aprove uma reforma da Previdência raquítica.

Por sua vez, deputados e senadores não querem dar a Bolsonaro uma reforma robusta. Não confiam nele. Não o veem disposto a compartilhar o poder. Temem ser ainda mais marginalizados caso aprovem a reforma do jeito que ela lhes foi proposta.

Tudo que vai mal sempre pode piorar. E se Carlos Bolsonaro continuar como dono da voz e da senha do pai nas redes sociais? E se ele não parar de fazer campanha para derrubar o vice-presidente Mourão Filho?

E se chegar a um ponto, como já admitiu o próprio Mourão, de ele renunciar o cargo como reação às hostilidades do filho mimado pelo pai? E se o Ministério Público Federal do Rio puser em risco o mandato do senador Flávio Bolsonaro?<

E se o próprio Bolsonaro, o pai, que já disse não ter nascido para ser presidente, que se revela às vezes entediado ou irritado com sua rotina, se ele, um dia, resolver largar tudo pelo meio e renunciar ao cargo? Dizem que os filhos não deixarão.

O ministro Paulo Guedes, da Economia, é o fiador deste governo junto ao mercado. Mas é também um temperamental, talvez menos do que Bolsonaro. Se o Congresso não lhe der o que quer e do tamanho que quer poderá ir embora.

O ministro Sérgio Moro, da Justiça e da Segurança Pública, não irá embora mesmo que seja contrariado. Despiu a toga acreditando que irá retomá-la em breve e numa posição superior a que tinha. Só está à espera da ocasião.

Procura-se quem acredite que este governo, do jeito que vai, será bem-sucedido.

Há cego para qualquer lado

Alguns bolsonaristas são tão cegos quanto todos os petistas, né? Não conseguem entender que você pode fazer uma ponderação sem querer destruir. Essa necessidade de defender todas as posições, de sempre ver o seu líder com razão…. isso é um comportamento muito petista. É muito ruim. 
Janaina Paschoal (PSL-SP))

Por um choque de conexão!

O Brasil Oficial precisa um “choque de conexão”. Tem de ser radicalmente plugado ao Brasil Real. Hoje este só existe em véspera de eleição. Está excluído de tudo para além do momento em que deposita o voto na urna. “As reformas” são uma novela sem fim cujos capítulos, sempre “decisivos”, o país assiste à distância ha gerações. “Desta vez vai”! Mas o roteiro é exclusivo do grupo da privilegiatura momentaneamente investido do Poder Executivo, vivendo o papel para ele inédito de pagador e não apenas de gerador de contas, mais os seus interlocutores únicos: o resto da privilegiatura. Pelo País Real, feito touro de arena, entra no picadeiro sozinho, para ser desmontado, o ministro da Economia da vez. No final, todos “cedem”, docemente constrangidos, aos seus próprios interesses porque a condição de “governo” é temporária, os empregos e as aposentadorias públicas é que são para sempre.

Não é que esteja faltando convencer alguém. Não há mais o que discutir. Não há mais o que argumentar. Todo mundo está convencido não só da iniquidade criminosa da situação como, a esta altura, da iminência do desastre, mas Miami e Lisboa são logo alí.


Falta entrar nesse debate quem tem tido o sangue chupado. Quem vai ter de continuar aqui. O Brasil sonha esquerda x direita mas acorda nobreza x plebeu. “Velha política” é a de político sem patrão, intocável. “Nova política” só quando todo mundo souber quem pôs cada um deles onde está e eles passarem a ter medo que os seus eleitores os tirem de lá todo santo dia; só quando formos nós a dar a ultima palavra sobre as leis que aceitamos acatar. Esperar que uma nova política nasça de mais regulamentos baixados pela velha é ilusão de noiva.

Estão aí as Forças Armadas para não nos deixar mentir. O orçamento delas já era uma miniatura do orçamento do Brasil. ¾ do dinheiro vai pra salário. R$ 81,1 bi de 107,7 bi. O gasto com reservistas é maior que com militares da ativa porque lá, como no resto do serviço público, os aposentados, sempre precoces, são remunerados pelo provento máximo. Nas FAs eles custam, por enquanto, R$ 46,2 bi por ano contra contribuições previdenciárias de R$ 2,4 bi. O resto paga o favelão nacional que não se aposenta nunca. O que sobra para investimento em equipamentos de defesa, que é a parte que nos cabe nesse latifúndio, é o mesmo que sobra para investimento em infraestrutura, educação, saude e segurança públicas na União, nos estados e nos municípios. Estão orçados para este ano R$ 9,8 bi, 16% menos que em 2018, número que irá de menos em menos até o amargo fim empurrado pelas fórmulas de “reajustes” automáticos que a privilegiatura ativa ou aposentada se atribui como “direito adquirido”, se nada mudar muito nesse meio tempo.

E já sabemos que vai mudar, só que para pior. Como toda a discussão se dá exclusivamente entre eles e com base exclusivamente nos parâmetros deles, não será corrigida a pornográfica defasagem para cima do salário inicial de R$ 18 mil do ascensorista do Congresso em relação à realidade do favelão nacional. Será, sim, corrigida a defasagem para baixo do salário do general em relação ao dos ascensoristas do Congresso.

A “alternativa militar” na sua vez no poder após 34 anos de ostracismo resolveu o seu, portanto. Tomou distância do Brasil plebeu e está agora pau-a-pau com a privilegiatura.

E o desemprego? A economia paralisada? A guerra civil que mais mata no mundo?

Quem?! Como?! Aonde?!

A gente do poder tem mais o que fazer. Mas se valer olhar pelo buraco da fechadura do banheiro, é bom lembrar, nem o papa resiste. Carlos Bolsonaro solto na rede é o buraco da fechadura do banheiro da família do presidente da republica escancarado. Anda sempre à beira de um ataque de nervos. O dedo puxa o gatilho antes da participação do cérebro. Com ele tudo logo vira um enredo “família Bórgia”. Na equipe, no palácio, no Brasil, no mundo, tudo é uma só e mesma conspiração. Com o filósofo esotérico esbravejando por cima essa “nóia” toda ganha um endosso “teórico”. E então, dia sim dia não, o ratinho que sai de um buraquinho vira um ratazão, vira um tigre-leão.

Nos albores da internet ganhou enorme notoriedade o “email-bomba”. O cara chegava em casa vindo do boteco e começava a “desabafar por escrito” no computador. Vomitava tudo de mais azedo que tinha atravessado na garganta desde priscas eras, como fazia antes de si para si. Só que no final, “uósh”, lá ia o bomba para o computador de alguém onde ficava gravado para todo o sempre para ser lido, relido e cem vezes amargado. E de lá vinha outro do mesmo calibre, vazado naqueles termos que nos sobem à veneta na hora da raiva mas que se repetidos em voz alta não passariam na polícia do bom senso.

As regras de convivência, a ceriônia e o mínimo de polidez exigidos no trato social até pelos indivíduos mais toscos, foram moídas pela internet onde o “convívio” se dá entre solidões. Você, o semi-analfabeto, o “noiado”, todo mundo conversa na rede sozinho no seu canto, trancado no banheiro, sem ouvir o que ele próprio está dizendo, sem ver a reação das pessoas na hora, sem o concurso do tom de voz, da expressão do rosto, do gestual, enfim, que dá a cor e o peso ao que é dito e ouvido, sem esclarecer os mal entendidos. O que passa de um computador para outro nessas discussões é o texto sem contexto nem revisão. Despido. Árido. De pedra.

O resultado é a guerra. Mundial e de todos contra todos, cada vez mais. Babel. Coisa de Exu.

Isso arrebentou tantas amizades, tantas empresas e tantas famílias que um dos primeiros aplicativos que fez sucesso na lojinha da Apple foi um que procurava sinais de excesso de substâncias intoxicantes no texto dos emails digitados após o anoitecer (erros de grafia, palavrões e etc.) e aplicava um bom questionário ao seu autor buscando aferir o grau de consciência critica que lhe restava antes de libera-lo para envio.

Sumiu. E pelo que está pintando, vai levar 5 gerações para o 03 entender a importância fundamental dos ritos do poder. O diabo é que o Brasil não tem nem mais 5 minutos pra perder.

Imagem do Dia


Astrólogos, bruxos e cartomantes

Nascido no século passado e sendo inevitavelmente marcado por essa época, padres, cartomantes, videntes, fantasmas e conspirações fazem parte da minha vida.

Tinham-se empregadas (conhecidas apenas pelo primeiro nome e, em geral, por um apelido de duas sílabas), faziam-se compras em armazéns e quitandas nas quais a “dona da casa” era “freguesa”; e rezava-se numa Igreja cujo padre era em geral coadjuvado por um mago, um médium, uma cartomante ou um astrólogo.


Os ritos de passagem oficiais e indispensáveis (batismo, primeira comunhão, casamento, ritos funerários) eram realizados dentro do catolicismo, mas o outro mundo era compartilhado e dividido. Noto que o protestantismo era, ao contrário de hoje em dia, ausente. O sagrado dominante era católico romano, mas os paradoxos, os acidentes da vida — essa esfera que de modo muito claro inflige um limite ao lado rotineiro — eram complementados por cartomantes, astrólogos e médiuns e outros especialistas em “ciências ocultas e letras apagadas”. As confusões do presente e um futuro duvidoso pertenciam aos astrólogos, bruxos e cartomantes.

Minha mãe dizia que era católica, mas acreditava no espiritismo. Penso que não é um exagero afirmar que essa duplicidade de códigos destinados ao entendimento do futuro e do sofrimento é parte das origens e da formação do Brasil.

Nascemos de uma colônia semiabandonada, mas, num século 19 revolucionário e napoleônico, passamos de periferia a centro do Reino de Portugal e Algarves. A vinda da família real e da Corte para o Rio de Janeiro teve profundas consequências socioculturais. Houve uma inversão geopolítica singular em paralelo a uma visão íntima e realista da realeza e da aristocracia. Esse “futuro” imprevisível para historiadores e jornalistas, era — porém — previsível para bruxos e astrólogos.

O oficial e o rotineiro sempre estiveram em combate complementar entre nós — e cada qual tinha os seus teólogos e sacerdotes. No livro testemunho de Manuel Antônio de Almeida, “Memórias de um Sargento de Milícias” (de 1855) —, a trama é movida pelo padre da Sé, por um feiticeiro do Mangue, pelo Leonardo Pataca, um meirinho, por fidalgos, por uma viúva rica e por uma cigana. O Major Vidigal faz — como ensina Antônio Candido num ensaio clássico — um contraponto — uma espécie de polícia e juiz daquele sistema.

Na nossa casa — formada por uma família de três gerações com seus criados — o menino testemunhou encontros com espíritos por meio de um copo imantado que recebia suas mensagens. As almas do outro mundo que assombravam pedindo rezas, uma tia solteirona. Já as entidades acessadas por meio do copo eram todas favoráveis aos projetos da mãe. Ao lado disso, oratório da casa pululava de santos protetores tal como nos “lares” dos antigos romanos.

A polarização entre nobres e comuns (teoricamente brancos ou mestiços) e ex-escravos negros — até hoje vigente, mas ameaçada por desarmonias políticas, dificultava um sistema submetido a uma modernização capitalista personalizada e aparelhada e conduzia sempre a desfechos imprevisíveis. Nele, o fake, o fuxico, as anedotas, as intrigas enfeixadas por múltiplas teorias conspiratórias, revelam uma sociedade na qual o código pessoal do saber com quem se fala (que vive com privilégio e o aristocrático) tem como alternativa um sistema impessoal ainda visto como uma ameaça desumanizadora justo quando as reformas cidadãs tornam-se inexoráveis.

As desavenças entre matrizes largamente inconscientes sempre foram explicadas por magos, astrólogos, cartomantes e bruxos, hoje relativamente substituídos por “especialistas”, cronistas e comentadores — esses mediadores entre os fatos e o seu significado. A grande questão sempre foi a de saber se o mundo tem finalidade ou se o acaso é o grande senhor, cabendo a nós o dever da construção e da compreensão. Ou se o Brasil presta ou está condenado a uma autoproclamada ruína.

PS: Declaro o meu repúdio à ideia de suprimir sociologia, antropologia e outras disciplinas dos saberes humanos das salas de aula. Sem elas, corremos o risco de criar um mundo no qual uma fulgurante irracionalidade (que já envolve o governo Bolsonaro) vai se acasalar a uma profunda ignorância de nós mesmos. O resultado é a burrice — essa matéria-prima das censuras.

Consolo presidencial

Se fala em 12 milhões de desempregados. Sim, eu acho que é muito mais do que isso. Desculpa IBGE, mas é muito mais do que isso
Jair Bolsonaro, presidente

Ministro diz que trocará universidade por creche

A troca de um 'olavete' (Ricardo Vélez) por outro 'olavete' (Abraham Weintraub) demonstrou que nada de mal aconteceu no Ministério da Educação que não seja esplêndido diante do que ainda está por ocorrer. O novo ministro inaugurou uma cruzada contra as universidades. Começou cortando verbas. Terminou avisando que trocará cadeiras no ensino superior por vagas nas creches.

Primeiro, Weintraub mandou passar na lâmica 30% das verbas de três instituições: Universidade de Brasília, Universidade Federal da Bahia e Universidade Federal Fluminense. Por quê? Não gostou de manifestações supostamente realizadas nas escolas.

O ministro declarou ao Estadão: "Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia terão verbas reduzidas."Hã?!? "A universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo". Que bagunça? "Sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus". Hummmm.



Ouviram-se muitos protestos. Em reação, Weintraub mandou estender o corte de 30% a todas as universidades. Encarregado de explicar o esquartejamento orçamentário, o secretário de Educação do MEC trocou o critério da "bagunça" ideológica pela alegação de penúria fiscal: "São 30% de forma isonômica para todas as universidades no segundo semestre, que pode ser reavaliado dado um cenário econômico positivo que a gente está esperando."

Na noite de terça-feira, Weintraub deu demonstrações de que tomou gosto pela polêmica. Levou ao ar nas redes sociais um vídeo no qual anuncia a intenção de retirar verbas do ensino superior para aplicar no ensino fundamental. Sem explicar de onde tirou as cifras, disse que o custo de um aluno de graduação (R$ 30 mil por ano) é muito superior ao de uma vaga numa creche (R$ 3 mil anuais).

Além de não especificar a origem dos números que manuseou. Weintraub não se deu conta de que comparou abacaxi com abóbora. O custo do universitário inclui coisas que um aluno de creche dispensa —de hospitais universitários a laboratórios e professores no topo da carreira.

Triunfante, Weintraub jactou-se de sua futura realização: "Para cada aluno de graduação que eu coloco na faculdade, eu poderia trazer dez crianças para uma creche. Crianças que geralmente são mais humildes, mais pobres, mais carentes, e que, hoje, não têm creches para elas. O que você faria no meu lugar?".

Quando um sujeito se considera um gênio, há três possibilidades: trata-se de um ignorante, de uma enganação ou de um gênio mesmo. Bolsonaro parece convencido de que acomodou um gênio na pasta da Educação, pois reproduziu o vídeo do ministro nas suas próprias redes sociais. Mas a pergunta de Weintraub continua no ar: "O que você faria no meu lugar?" A imaginação é o limite.

Você também, Portugal?

Alunos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa deram pedras para serem jogadas em estudantes brasileiros, desdenhosamente chamados de “zucas”. O fato ocorreu há alguns dias e o mais grave é que, em vez de ser visto como um ato de racismo e xenofobia em um momento em que cresce na Europa a cizânia de novos nazismos e a intolerâncias contra os diferentes, foi considerado pelas autoridades da universidade como pouco menos que uma brincadeira. E tudo se limitou a uma “investigação disciplinar” contra os “engraçadinhos”.

Uma das alunas brasileiras que se consideraram ofendidas, Maria Eduardo Calado, de 24 anos, disse ao jornal O Globo: “Estamos vivendo muito ódio e as pessoas acham que isso é normal”. E a juíza brasileira Daniele Hampe, que faz graduação na mencionada universidade, disse que não se tratou de uma brincadeira, mas de “uma incitação à violência, como todos puderam ver”.

A notícia da ideia de distribuir pedras colocadas em um cesto na entrada da universidade para lançá-las contra os colegas brasileiros ainda teve o sarcasmo de anunciar que “as pedras eram grátis”. E a Faculdade de Direito não condenou explicitamente esse gesto de desprezo pelos estudantes brasileiros.

Pessoalmente, a notícia me chocou duplamente, porque considero que neste momento Portugal, com o seu Governo progressista e social, é uma ilha na Europa, em que cresce a extrema direita que quer voltar aos tempos das guerras entre irmãos e cerceia os direitos humanos e as liberdades conquistadas com tanto sacrifício e tanto sangue.

No Brasil, hoje, Portugal é visto como uma meca em que milhões de jovens colocam os olhos. Brasileiros. Encontrei muitos deles que me disseram com olhos de alegria, que seu “sonho é poder ir trabalhar em Portugal”. Eles veem essa meca — ao lado do Brasil de hoje, atingido pela falta de oportunidades e pela caça às bruxas da intolerância — como uma ilha de paz.

Que esses jovens que conseguem ir estudar em universidades da importância da Faculdade de Direito de Lisboa, ao chegarem ali encontrem na porta da universidade uma caixa cheia de pedras, que os alunos portugueses oferecem “grátis” para serem jogadas contra eles, o mínimo que podem sentir é a profunda frustração de terem sido enganados. Essas pedras, mesmo sem usá-las, já haviam feito sangrar seus sonhos.

Não, não era e nem poderia ser uma brincadeira e esses estudantes mereciam no mínimo a expulsão da faculdade. O silêncio cúmplice das autoridades acadêmicas, ao que parece por motivos políticos de eleições dentro da universidade, é tão ou mais grave do que o silêncio dos alunos xenófobos.

A universidade, já em sua etimologia que evoca o “universal”, sempre foi o lugar onde todas as liberdades são semeadas e cultivadas, onde todos os estudantes do mundo têm acolhida, onde todo conhecimento humano pode ser cultivado em liberdade. Quando, por outro lado, se torna um antro de ideologias e discriminações, acaba profanando sua própria essência e razão de ser.

A “brincadeira” sangrenta dos estudantes de Direito portugueses contra seus irmãos brasileiros é ainda mais grave por causa do simbolismo que a envolve. Qualquer universitário deve saber que uma caixa de pedras, preparadas para serem lançadas em alguém, não pode deixar de evocar uma das formas de castigo mais brutais e sangrentas desde os tempos mais antigos, como a morte por lapidação da qual só restam vestígios em alguns países da África, da Ásia e do Oriente Médio. Foi considerada uma das expressões mais bárbaras que a humanidade foi capaz de conceber para tirar a vida. Vi a foto da caixa com as pedras dadas para serem atiradas contra os estudantes brasileiros e me deram um calafrio. Tinham a medida exata que ainda hoje se exige para esse espetáculo macabro, para acertar as vítimas, geralmente mulheres. Não devem ser grandes demais, para que o condenado não morra demasiado rápido, nem tão pequenas que não bastem para arrancar-lhe a vida. Devem ser de tamanho médio, para que a vítima possa suportar o sofrimento pelo maior tempo possível.

Não digo que os alunos xenófobos portugueses chegaram a pensar no rito infame da lapidação, mas curiosamente aquelas pedras eram da mesma medida das que ainda se usam, levadas em sacos ou caminhões onde, especialmente em países islâmicos, continuam sendo usadas.

Mais do que a abertura fria e burocrática de um processo “disciplinar”, as autoridades da Universidade de Lisboa já deveriam ter pedido desculpas às vítimas e ao Brasil, um país que sempre acolheu, não apenas com respeito, mas com carinho, os seus alunos e pesquisadores.

Vivemos tempos em que até uma brincadeira pode se tornar uma bomba atômica. A vigilância na defesa das liberdades e contra toda discriminação deve ser redobrada. O ódio é um veneno que é inoculado em silêncio. Como acaba de afirmar em uma entrevista a este jornal o psiquiatra espanhol Luis Rojas: “Pedir perdão” e ter a coragem de dizer “te amo” é fundamental “porque sem ele não há futuro na vida”. Do ódio à explosão de uma guerra há apenas um suspiro. O perdão apaga até os incêndios mais devastadores. E hoje esses incêndios começam a nos cercar de maneira ameaçadora também no Brasil, esse grande país, que já deu exemplo para o mundo de acolhimento de diferentes, com vocação de paz.

Do tempo

Faz alguns anos, tive, num sonho, um vislumbre de uma escultura interminável de corpos humanos entrelaçados emergindo muito abaixo de mim e perdendo-se no infinito acima de minha cabeça. Talvez seja um dos significados da existência nossa: encadeamento e continuação. Como um novelo desenrolando-se incessantemente, todos nascendo uns dos outros, uns por cima dos outros, cada um estendendo as mãos para o alto um milímetro mais e mais e mais: somos novelo e fio ao mesmo tempo.

Meu gesto repete o de uma de minhas antepassadas; meu riso será o de algum descendente meu, que jamais conhecerei, o fio primeiro de minhas ideias nasce de outro pensamento milênios atrás, e continuará se desenrolando depois que eu tiver deixado de existir há séculos, num tempo que não flui como o imaginamos, esse tempo medido e calculado. Ele é pulsação, surpresa.


Às vezes, suspiramos pelo conforto que, vista de longe, parecia ser a vida quando tudo era mais limitado e certo: menos opções, menos possibilidade de erro. Temos de aprender a conviver com essas novas engrenagens de tanta surpresa e perplexidade, mas tanta maravilha. Temos de estar mais alertas do que décadas atrás, quando a vida era - ou hoje nos parece - tão mais simples: precisamos estar mais preparados, para que ela não nos dilacere. Temos de ser múltiplos, e incansáveis.

Que cansaço.

Pois a vida não anda para trás: o preço da liberdade são as escolhas com seu cortejo de esperança, entusiasmo, hesitação e angústia - para que se criem novos contextos e se realizem novas adaptações, que podem não ser estáveis. Pois as inovações, a corrida do tempo e as possibilidades aparentemente infinitas já nos puxam pela manga e nos convidam para outra ciranda de mil receitas: vamos ser inventivos, vamos ser produtivos e competentes, felizes a qualquer preço na companhia de todos os deuses e demônios nessa sarabanda. Fora dela, nos dizem, restam o tédio, a paralisia e a morte.

Será mesmo assim? Ou ainda existem, e podemos descobrir, lugares ou momentos de tranquilidade onde se realiza a verdadeira criatividade, onde podemos expandir a alma, onde podemos amar as pessoas, onde podemos contemplar a natureza, a arte, e os rostos amados, e construir alguma paz interior? Creio que sim.

Para que as emoções e inquietações positivas não entrem em coma antes que termine de definhar o corpo.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Gente fora do mapa


Assina, Bolsonaro!

Aconteceu num sábado no Rio, ano passado, uma semana antes do segundo turno eleitoral. O candidato Jair Bolsonaro anunciou uma de suas “primeiras medidas”, promessa repetida desde o início da campanha: “O que eu pretendo, tenho conversado com o Parlamento também, é fazer uma excelente reforma política para acabar com o instituto da reeleição, que no caso começa comigo, se eu for eleito.”

Oito dias depois, estava eleito. Perguntaram-lhe sobre a reeleição e ele fez a primeira ressalva: “A possibilidade de não concorrer à reeleição é se conseguir fazer um acordo para aprovar a reforma política. Não é apenas ‘eu não vou concorrer à reeleição.’”

Já completou 120 dias no poder mas, até agora, ninguém viu ou sabe o destino da promessa, uma das “primeiras medidas” de governo.

Por gestos e palavras, sugere ter se rendido à síndrome do Planalto — transe no qual o presidente, já no primeiro dia, se incorpora num novo mandato. Assim foi com Fernando Henrique, Lula e Dilma. Com Bolsonaro não é diferente.

“A pressão está muito grande para, se eu estiver bem (de saúde), me candidatar à reeleição”, ele contou dias atrás ao repórter Augusto Nunes. Com três décadas na política, e tendo garantido a dinastia na folha do Legislativo, Bolsonaro dissimula sobre a origem da “pressão” para descumprir sua promessa — se íntima, familiar ou dos acólitos.

Deixa escapar alguma culpa ao sugerir que vestígios da jura de candidato ainda pairam na sua memória. Talvez aflito com a possibilidade de que negligência o deprecie, continua a falar em “uma reforma política”, mas salteia a reeleição. Projeta uma redução do tamanho da Câmara, do Senado e, por consequência, das assembleias estaduais e câmaras municipais. Arremata, como se falasse para si mesmo: “Se essa proposta me custar a reeleição, eu assino.”

Contratos verbais não valem a tinta com que são assinados, ensinava o lendário produtor hollywoodiano Samuel Goldwyn (nascido Schmuel Gelbfisz em 1882). Não custa estimulá-lo: assina, Bolsonaro!

Lava-Tudo

A Operação Lava-Jato conseguiu o grande feito de despertar uma consciência nacional contra a corrupção no comportamento dos políticos brasileiros. Mas ainda não houve um verdadeiro despertar da consciência nacional contra as outras formas de corrupção.

Já prendemos políticos que desviaram para seus bolsos o dinheiro que deveria ser destinado ao gasto com a população, mas não condenamos políticos que cometem a corrupção nas prioridades, desviando recursos públicos sem consequência social. O gasto de quase dois bilhões para um estádio de futebol em Brasília, a poucos quilômetros de distância de onde vivem dezenas de milhares de pessoas sem saneamento, foi um ato de corrupção, mesmo que não tivesse havido pagamento de propina e roubo de dinheiro para o bolso de políticos.


Mesmo obras necessárias e urgentes implicam corrupção quando seus gastos são elevados pela monumentalidade desnecessária. A maior parte das edificações no Legislativo e no Judiciário carrega a corrupção do desperdício pela ostentação. O mesmo pode-se dizer dos luxuosos prédios do Ministério Público, instituição que luta contra a corrupção no comportamento dos políticos, mas tolera a corrupção nas prioridades e a corrupção do desperdício.

E o que dizer de uma obra necessária que, embora austera, carrega a corrupção da ineficiência pelo descaso com os assuntos e gastos públicos? As ferragens, areia, cimento de obras paradas formam esqueletos da corrupção da ineficiência. Da mesma maneira, há corrupção no relaxamento dos serviços que não atendem bem ao público, por culpa do mau funcionamento da máquina ou pela má postura de servidores.

Há corrupção nos desperdícios para atender a mordomias e privilégios que desviam dinheiro público para beneficiar servidores do topo de carreiras do Estado. Além de se apropriar de dinheiro público, para atender a interesses privados, a corrupção das mordomias e privilégios corrói a credibilidade do Estado, provocando perda de credibilidade na democracia e no Estado.


A Operação Lava-Jato trouxe a consciência e a indignação com a corrupção no comportamento da classe política, que rouba para seus bolsos, mas não desnudou a corrupção da deseducação que compromete o futuro do país ao deixar o Brasil com um dos piores sistemas educacionais, e o mais desigual no mundo, e por termos ainda dez milhões de adultos analfabetos, no máximo 20% dos nossos jovens terminando o ensino médio com razoável qualidade.

A corrupção da deseducação rouba cruelmente, ao comprometer a eficiência econômica e impedir a justiça social. Essa é a pior das corrupções porque incinera o futuro de nossas crianças e por elas o futuro da Nação; e ainda esconde as outras corrupções pela falta de consciência.

A corrupção ecológica vandaliza o futuro ao devastar nossas matas, sujar nossos rios, poluir nosso ar. A corrupção monetária pela inflação, que seduz os populistas, rouba o assalariado do valor de seu salário, pago com dinheiro falso e desorganiza o empresário que fica sem um padrão para o valor nominal dos insumos que compra e dos produtos que vende.

O Brasil descobriu a corrupção no comportamento de políticos que roubam, mas é preciso perceber e acabar com as demais formas de corrupção que comprometem o bom funcionamento e o futuro do país, nas prioridades, nas mordomias, na ostentação, na ineficiência, na irresponsabilidade, na deseducação, na ecologia e na inflação.

Mais do que uma Operação Lava-Jato, precisamos de uma Operação Lava-Tudo para todas as formas de corrupção.
Cristovam Buarque

Uruguai multiplicado por quatro na rua

No primeiro trimestre do ano, ele atingiu 13,4 milhões de pessoas, ou 12,7% dos trabalhadores.

O número de subutilizados foi o mais alto da série histórica: 28,3 milhões de trabalhadores.

O que é o bolsonarismo?

Essa pergunta se tornou frequente desde que me lancei a uma série de artigos em que tento radiografar a força antipolítica que preside o Brasil. A resposta não é banal, embora facilitada pelo estudo da ascensão do que se pode chamar de nacionalpopulismo mundo afora. Está claro, a propósito, que o sumo bolsonarista deriva mais da cepa populista corrente na Europa, notadamente a húngara, do que da singularidade do que exprime Donald Trump, em favor de quem sempre haverá a rede de proteção democrática americana.

O bolsonarismo tem fortuna própria e invulgares recursos de espraiamento. Não pode ser analisado, por exemplo, sem a compreensão da maneira decisiva como a Lava-Jato — por meio de seu subproduto político-eleitoral, o lava-jatismo — ofereceu carne para a campanha, de tessitura bolsonarista, que criminalizou a atividade política, donde se explica o modo como a fé anticorrupção foi equipada partidariamente, isto a ponto de haver sido apropriada pelo novo governo, na estampa de Moro.

O bolsonarismo tem meios e códigos próprios. Como desdobramento do desprezo pela democracia representativa, despreza a instância partidária — descartada como base por meio da qual se aglutinar e financiar, ao contrário da relação entre PT e lulopetismo. A forma bolsonarista de lidar com o PSL é eloquente. O partido consiste numa estrutura para fins meramente utilitários, esvaziado da mais mínima chance de ter caráter e identidade, condição fundamental para futuro despejo. Em matéria de objetivo, porém, o bolsonarismo em nada difere daquele do lulopetismo: permanência no poder e controle do Estado.

Referi-me ao bolsonarismo como força antipolítica que preside o país. Esse motor dirigente não é, contudo, o presidente; mas a mentalidade, a gramática discricionária, que influencia — sem outra comparável — Jair Bolsonaro. O bolsonarismo não é, pois, o governo Bolsonaro, cindido em grupos precariamente arranjados, mas aquilo que o condiciona e detém. Um sistema antidemocrático e anti-intelectual, de índole reacionária e têmpera para a revolução, que se funda em rara capacidade de mapear, acolher e manipular ressentimentos, e que opera sob o combustível da campanha permanente — do conflito constante — em prol de um projeto autoritário de poder, de vocação autocrática, cujo êxito depende da depredação progressiva das instituições republicanas sem, entretanto, prescindir do gatilho legitimador eleitoral.

O bolsonarismo precisa tanto do ímpeto para a fratura, para a desqualificação de símbolos de independência institucional, quanto do voto, ícone da normalidade democrática e mecanismo revigorante para a imagem do líder populista. Sua essência é interventora, centralizadora e intimidadora. Trata-se de um complexo para a ruptura, talvez mais uma orientação discursiva incendiária do que um desejo real de incêndio — algo de norte incontrolável, diga-se, como mostra a lista histórica de revolucionários enforcados pela própria revolução.

A revolta dos caminhoneiros, de maio de 2018, ilustra essa efusão pelo caos. O bolsonarismo é a revolta dos caminhoneiros, levante que soube distinguir e que encampou com engenho, e por meio do qual testou hipóteses sobre até onde se poderia esticar a corda da pressão popular em rede e instrumentalizá-la contra o establishment. Aquela mobilização criminosa, evento pré-eleitoral, foi destacado componente na cesta de insatisfações e falências que resultaria na eleição de Bolsonaro.

Forja de crises e de inimigos, força iliberal, à margem de qualquer política pública, que atua desde dentro da máquina estatal para localizar e explorar qualquer projeção de instabilidade onde carcomer o equilíbrio institucional, o bolsonarismo, também uma linguagem, está no comando, espaço ocupado a partir da campanha, e é o agente condicionador do governo, daí por que jamais se deveria esperar — sob tal conformação — que Bolsonaro pudesse encarnar a urgente pacificação política nacional.

Insisto, no entanto, em que não se deve observar o que está em curso com os olhos engessados do século XX, como se estivéssemos diante de uma marcha ditatorial que suprimirá liberdades e fechará o Congresso. O bolsonarismo avança para comprimir, e sempre precisará do que comprimir, de resto porque promove a insólita limpeza que aparelha para desaparelhar. Este é seu modus operandi: como o cupim, mina as bases, corrói os pilares, mas sem desarmar a carcaça. Precisa do aparato democrático em modo de segurança, em versão econômica, tão somente funcional, para emparedar e subordinar tudo quanto possa ser apregoado como musculatura autônoma e ameaçadora.

Para dar corpo à mentalidade e figura às práticas: Carlos Bolsonaro é mais bolsonarista do que Jair Bolsonaro; Eduardo Bolsonaro, idem — e é a ação deste filho, respaldada pela guerrilha daquele, que será lastreada pelo bolsonarismo.

Pensamento do Dia


O presidente das pequenas coisas

Até as pedras sabem que o sucesso do governo Bolsonaro dependerá da economia, mais especificamente da reforma da Previdência e de outras medidas que destravem o crescimento. Não obstante, o mandatário prefere dedicar suas energias a uma cruzada moralista e a assuntos que, embora não sejam desimportantes, jamais deveriam ocupar o topo da escala das prioridades presidenciais.

Jair Bolsonaro está se tornando o presidente das pequenas coisas. Na semana passada, ele censurou uma peça publicitária do Banco do Brasile fez observações pouco congruentes sobre o turismo gay. Isso foi até a quinta-feira. Na sexta, manifestou apoio a um plano do ministro da Educação de “descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia (humanas)”.

Uma coisa se pode dizer em favor de Bolsonaro. Ele não comete estelionato eleitoral. Tenta cumprir todos os desatinos prometidos durante a campanha. Não dá para reclamar de ele ser conservador. Ele foi eleito com essa plataforma e, numa democracia, se a sociedade decide coletivamente caminhar para trás, caminha-se para trás.

Só que o presidente perde a razão quando se apoia em erros factuais para justificar suas idiossincrasias. Não é verdade, por exemplo, que exista uma centralização de investimentos em faculdades de filosofia e sociologia. Como mostrou análise de Sabine Righetti e Nina Stocco Ranieri, as matrículas em filosofia ou sociologia representaram apenas 0,6% do total de inscrições em 2017. São ainda cursos incomensuravelmente mais baratos que os de áreas tecnológicas, o que significa que é preciso ter tomado um ácido para imaginar que exista concentração de verbas nessas carreiras.

Como dizia o senador americano Daniel Patrick Moynihan, aliás, uma rara combinação de pessoa que deu certo na política e na academia (sociólogo), “você tem direito a sua própria opinião, mas não a seus próprios fatos”.

Gênio da lâmpada de Bolsonaro se chama Olavo

Suponha que você se chama Jair Bolsonaro e preside um país chamado, digamos, Brasil. Você tomou posse há quatro meses. Embora você admita que não entende bulhufas de economia, já assimilou a avaliação de que a crise fiscal é feia. Porém, você ainda dispõe de três anos e oito meses para mudar o rumo das coisas.

Suponha que você está caminhando pelos jardins do Palácio da Alvorada e tropeça numa lâmpada mágica. De dentro da lâmpada sai um gênio. Ele diz que quer ajudar você a salvar o país. O gênio pergunta quais são suas quatro prioridades. Ele não costuma atender a mais de três pedidos por pessoa. Mas foi com a sua cara. E decidiu conceder-lhe um bônus.

Você responde rapidamente: "ma escola sem partido, sem filosofia e sem sociologia; uma publicidade estatal sem tatuagens, sem cabelos compridos e sem transexuais; um turismo sem o paraíso gayzista, aberto apenas a estrangeiros que prefiram fazer sexo com mulheres; e, por último, um vice-presidente sem língua."

O gênio se irrita. Faz cara de nojo. E volta para o interior da lâmpada resmungando: "Você não precisa de mim. Creio que a alegada genialidade do Paulo Guedes tampouco lhe será útil. Tente repatriar o Olavo de Carvalho."

A esse ponto chegou Jair Bolsonaro. Tornou-se escravo mental de um guru amalucado. Prometia nomear um ministério de craques e entregar aos brasileiros o básico: educação, saúde e segurança. Para atingir seus objetivos, tocaria um governo sem viés ideológico e priorizaria na largada as reformas econômicas.

Súbito, descobre-se que cultivava uma prioridade secreta: converter o futuro do Brasil numa Antiguidade sem Sócrates, Platão e Aristóteles. Mas com muito viés ideológico e doses cavalares (com duplo sentido, por favor) de Olavo de Carvalho. Não há gênio que resolva.

O Novo Governo mofou

E é um mofo grudento, mal cheiroso, o tipo de bolor difícil de erradicar. Vivemos num país ensolarado e dizem as donas de casa de antigamente que a luz do sol é a grande inimiga do mofo. Nosso sol é forte e dourado. Se essa lição fosse verdadeira, no Novo Governo o mofo não deveria prosperar. Mas prosperou.

Fiquei intrigada e fui pesquisar. Acho que matei a charada.

O Novo Governo começou em 1º de janeiro de 2019. Em 1º de maio, Dia do Trabalho, estaríamos comemorando quatro meses de trabalho se tivesse havido trabalho. Houve muito furdunço, muito salsero, muita fofoca e muita intriga, mas trabalho: onde? quando? feito por quem?


Quem votou em Jair Bolsonaro, votou acreditando que votava num militar que saiu das fileiras como capitão e de lá sentou-se numa das cadeiras do Congresso Nacional, lá bem no fundo do plenário, onde permaneceu apagadinho durante sete mandatos e nove partidos e conseguiu sair sem deixar marca alguma. Talvez seja o recorde do Nada, mas não posso garantir. 

O que posso garantir é que os eleitores dos Bolsonaros foram muito bem embrulhados. Explico: eles votaram num homem que passara pelo Exército e pelo nosso Congresso. Que se casara três vezes. Que teve quatro filhos homens e uma menininha. Que afirma ser católico apostólico romano mas frequentou a Igreja Batista por dez anos, que foi batizado no Rio Jordão e teve seu casamento com sua terceira mulher celebrado pelo pastor Silas Malafaia. Sua mulher e seus filhos são evangélicos. Quer dizer, experiências não lhe faltaram.

Quais os planos desse homem para o Brasil? Alguém sabe? Não creio. Talvez seu eleitor achasse que sabia alguns, tipo Armas Para Todos, Estradas Livres de Quebra-Molas, Ruas Livres de Pardais, Escolas Sem Partido, Abaixo o Marxismo Cultural (seja lá o que isso signifique).

Agora, muito recentemente, o capitão que diz não ter nenhum preconceito contra LGBTs, pronunciou a seguinte pérola: "Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay". Como disse muito sabiamente Paulo Coelho, é preciso deixar bem claro que as mulheres brasileiras não são uma commodity para o Bolsonauro oferecer assim sem mais aquela.

Pois esse embrulho muito bem feito e luxuosamente amarradinho, não é da autoria do capitão. Segundo ele mesmo afirma e sempre que pode confirma, ele ocupa o cargo que ocupa graças ao seu garoto Carlos e seus irmãos. Quer dizer, os bolsonaristas votaram no Zezinho, no Huguinho e no Luizinho. Nele Jair, não. Nos seus três Zeros. Ele é só um Zero à esquerda.

O capitão faz questão de dizer que não se vê como de direita. Insiste em afirmar que seu governo é o Novo, aquele que não se deixará vender, nem comprará ninguém. O governo que não será, como os demais, de coalizão. Tudo Novo. Brilhando de Novo.

Rodin do Brasil


O Poder briga com a sombra

O governo deu um passo na reforma da Previdência, mas continua no clima de barraco eletrônico, com grupos internos se atacando.

Não entro em detalhes, nem me interesso por personagens. Persigo um quadro um pouco maior.

Nele, a primeira ideia que surge dessas incessantes brigas é a ausência da oposição, ocupando ampla e seriamente o seu espaço. Na falta dela, o governo não tem com quem brigar e resolve brigar consigo próprio.

A cena agora revela mais abertamente uma tensão entre presidente e vice. É uma dupla singular para quem observa o recente período democrático. Na última viagem a Brasília, o fotógrafo Orlando Brito me mostrou a imagem da posse de Fernando Henrique Cardoso. No carro aberto, o vice Marco Maciel levantava a mão, de olho na altura da mão de Fernando Henrique. Ele não queria que acidentalmente seu braço estivesse mais elevado.

Marco Maciel era rigoroso na interpretação do papel do vice. Entre Temer e Dilma, houve um período em que a relação esquentou, terminando com aquela carta em tom de bolero: você não se importa comigo, sou apenas um vice decorativo.

Era, na verdade, uma carta de despedida. Temer já se preparava para substituir Dilma.

No caso Bolsonaro-Mourão, teoricamente tinham tudo para se complementar. Poderiam ter até combinado uma divisão de trabalho: Bolsonaro falaria para seus adeptos; Mourão faria a ponte com os setores que, por pura rejeição ao PT, votaram sem concordar com tudo.

Mas a política não se faz apenas com teorias. Ela é mediada por nossas paixões humanas. Sem combinar suas posições, agindo desorganizadamente, acabaram caindo na armadilha de sempre: até que ponto o vice pode ser protagonista?

No princípio da campanha, Mourão parecia tão ou mais conservador que Bolsonaro. Com o tempo, foi abrandando seu discurso, voltado para o mercado financeiro, a imprensa, a diplomacia.

Até que ponto Mourão quis apenas manter a amplitude da frente que elegeu Bolsonaro, até que ponto seu protagonismo é a maneira de se diferenciar dele, mostrar-se como uma alternativa?

Isso dá margem para tantas nuances interpretativas que prefiro avançar um pouco na tese inicial. Não importa o que aconteça com Mourão, um governo tão estreito como o de Bolsonaro certamente terá novas tensões internas, sobretudo pela ausência de uma forte oposição. Um efeito colateral dos confrontos entre alas do governo é o tiroteio contra as Forcas Armadas. O que se diz sobre os militares em posts e lives da direita, não se dizia nem nos panfletos da extrema esquerda no tempo da Guerra Fria.

Não me importo com textos que tentam interpretar o golpe de 64 como algo realizado pelos civis, muito menos com a afirmação de que os militares destruíram os políticos de direita.

O mundo da internet é recheado de interpretações, eletrizado por teorias conspiratórias. Por que perder tempo em desfazê-las?

As coisas mudam de figura quando os ataques às Forcas Armadas são postados na conta do próprio presidente da República.

É algo tão grave, em termos políticos, como a postagem do golden shower. Não creio que Bolsonaro compartilhe realmente da tese de que as Forcas Armadas no Brasil são uma nulidade. Todo os que viajam pelo Brasil podem testemunhar a ação positiva do Exército. Se quiser reduzir o aprendizado a duas situações, basta ir à fronteira com a Venezuela, ou mesmo às cidades mais secas do Nordeste, onde o Exército organiza o abastecimento de água.

Quem gosta de ler também pode ter acesso às obras que militares têm publicado. Outro dia, resenhei o livro do coronel Alessandro Visacro sobre “A guerra na era da informação”. Acabo de receber o livro “Direito internacional humanitário”, do coronel Carlos Frederico Cinelli. Um estudo sobre a ética em conflitos armados.

As Forcas Armadas não divagam sobre filosofia ou política, mas cuidam de temas ligados à sua atividade principal.

Quem escolheu um general como vice foi o próprio Bolsonaro. Tem de arcar com sua escolha. Se quiser trocar de vice, que o faça em 2022, se for candidato.

A comparação das fotos de posse de Fernando Henrique e Bolsonaro é sintomática. No carro de FH, Marco Maciel obcecado em ser discreto; no carro de Bolsonaro, a ausência. Em seu lugar, Carlos Bolsonaro, protegendo o pai.

O protagonismo de Mourão foi suprimido no ritual. Naquele momento, o drama, como dizia o poeta Drummond, já se precipitava sem máscaras. Era só olhar.
Fernando Gabeira

'Pulhas' acima de tudo

Há pouco mais de três anos, numa entrevista na varanda de sua casa no Rio - à vontade, de chinelos, bermuda da Nike, camisa polo da Adidas e relógio Casio no pulso - o então pré-candidato a presidente Jair Bolsonaro afirmava que pediria, "pelo amor de Deus", a seus eleitores para que votassem, dali a dois anos e meio, nos nomes que indicasse a senador e deputado federal. Se não tivesse um grupo parlamentar de apoio no Congresso - como ainda não tem - Bolsonaro antevia duas alternativas, ao reconhecer a radicalidade de suas ideias. "Vão cassar o meu mandato ou vou ser um pulha - como a Dilma é pulha, como Lula foi pulha, e como FHC foi também um... vendido", dizia.

Por "pulha" Bolsonaro entendia os presidentes da República que têm necessidade de formar aliança, em sistemas multipartidários como o brasileiro. Antes mesmo de adotar os chavões da "velha política" e do "toma lá dá cá", já antecipava o comportamento refratário que dispensaria aos parlamentares, equiparados à figura de sequestradores. O eleitor deveria votar nos seus candidatos, tão radicais quanto ele: "Se não, vou ser refém desses caras".

Na tremenda onda conservadora, Bolsonaro viu suas preces atendidas, ao se eleger ao lado de uma bancada do PSL que, de nanica, tornou-se a segunda maior da Câmara, com 54 integrantes. Algo muito insuficiente, porém, para lhe dar maioria diante da extrema fragmentação do Congresso, ainda mais elevada nessa legislatura. A fatia do PSL é de meros 10,5% dos deputados e 5% dos senadores.


Em quase quatro meses de governo, Bolsonaro oscila entre o destemor com o precipício e a figura do "pulha" que imputa aos antecessores. O apoio de legendas do Centrão à aprovação da reforma da Previdência, na Comissão de Constituição e Justiça, na terça-feira, é sinal de que a crista empinada tem limite. A ideia de governar à margem dos partidos - com bancadas temáticas, como a ruralista, a evangélica ou a dos agentes da área de segurança - se mostrou um fracasso. Bem previsível, uma vez que a distribuição de poder e toda lógica interna do Congresso é partidária. Bolsonaro tentou inventar a roda e viu que a ideia o levaria a dar com os burros n'água. E, no caso do governo atual, não são poucos os jericos pelo caminho.

O presidente nem precisaria ser o "pulha", o refém do Congresso, pois já tem problemas o suficiente diante da confusão e clima de beligerância entre os principais grupos que o sustentam. O duelo entre seu filho Carlos Bolsonaro e o guru Olavo de Carvalho contra o vice Hamilton Mourão beira à sandice mas expõe o nível de conflagração entre olavistas e militares, a despeito das tentativas - raras - de apaziguamento. Bolsonaro nunca foi e nunca será um pacificador. A neutralidade não é possível, já deixou claro, quando um dos lados é "sangue do meu sangue."

Maquiavel afirmava que uma coisa é conquistar; outra, diferente, é manter o poder. Olavistas foram importantes na primeira etapa; os militares são a base da segunda fase, e estão presentes em vários postos da administração federal. Nesse conflito insanável, Bolsonaro se desgasta e mostra falta de liderança. Sua palavra não é respeitada pelo rebento que prefere seguir o ideólogo defensor da guerra contra um suposto marxismo cultural. De birra, depois de uma bronca, Carlos barra o acesso do pai à própria conta do Twitter presidencial.

As coisas se tornaram mais complexas para Bolsonaro e vão muito além de ser - ou não ser - o "pulha" perante o Congresso. O presidente já é refém - não propriamente dos profissionais da política - mas dos amadores, da enorme turma de voluntariosos que instalou no governo e que pretendem tutelá-lo. Não bastasse a fragmentação parlamentar, o partido não orgânico, com políticos inexperientes, a instabilidade é fomentada por atores ligados ao próprio Executivo e ao filho incontrolável.

Há um sequestro psicológico, emocional. Bolsonaro atribui a vitória eleitoral a Carlos - que fez as vezes de marqueteiro de sua campanha nas redes sociais. E foi, entre os três filhos que seguiram carreira política, o que aceitou a missão dada pelo pai, em 2000, de derrotar nas urnas a mãe e então vereadora Rogéria Bolsonaro. À época, com 17 anos, Carlos era o único dos três que morava com Jair Bolsonaro, a madrasta e o meio-irmão caçula, Jair Renan, enquanto Flávio e Eduardo viviam com a mãe. A política nacional não é mais analisável sem a ajuda da psicanálise. O (des)governo Bolsonaro não quer apenas "tirar Paulo Freire do pedaço". Requer deixar de lado premissas da escolha racional.

Mas a balbúrdia e a desorganização favorecem o enredo geral desenhado pelo presidente que é o de confundir mais do que explicar, o de personalizar mais do que apresentar ideias e propostas concatenadas. A queda de braço entre olavistas e militares, entre Carlos e Mourão, não traz uma única substância em termos de política pública. Está no nível das acusações mútuas de traição e de ingerência descabida no governo. É espuma para a falta de conteúdo que caracteriza um mandatário hiperdependente da aprovação da reforma da Previdência e, em menor medida, do pacote anticrime de Moro.

Resta saber o que será de Bolsonaro quando, e se, a reforma passar e não houver mais a âncora que atrai os liberais ao seu governo. Se partirá para novas reformas - como a tributária - ou, se autoisolado, mergulhará na agenda de costumes. O posto Ipiranga de Paulo Guedes terá sido apenas o "pit stop" para voltar à caravana dos confrontos eleitorais, na estratégia de manter seus simpatizantes mobilizados até 2022.

Bolsonaro chegou ao poder num cenário de anomia - de descrédito com os partidos, com as elites, com "o sistema" - e nele se sente bem. Pinto no lixo. O bruxo da Virgínia ajuda a desmoralizar instituições, até mesmo as Forças Armadas, e o estrato superior delas, os generais.

Militares de alta patente tendem a acreditar menos em teorias da conspiração - como a hegemonia gramsciana da esquerda. O risco é a cooptação e politização de praças e oficiais em início de carreira. A Venezuela, com sinal invertido, pode ser aqui.

Começou e nem notaram!

Estou esperando para que o governo comece logo
Sérgio Etchegoyen, general e ex-Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional

Nós, os patos

A certa altura de sua entrevista à GloboNews, o ministro da Economia Paulo Guedes soltou uma pérola: “A minha interpretação é que está ficando muito claro para o brasileiro comum o seguinte: tem cinco bancos, tem seis empreiteiras, tem uma produtora de petróleo, tem três distribuidoras de gás e tem 200 milhões de patos. Os patos somos nós.”

Paulo Guedes tem razão. A cidadania brasileira é feita de patos que pagam a conta do privilégio de poucos. Temos uma carga tributária injusta e excessiva, recebemos serviços de baixa qualidade e aceitamos o privilégio das aposentadorias milionárias pagas pelo erário.

Aceitamos pagar um dos maiores spreads bancários do mundo. O nosso é cinco vezes maior que o da quebrada Argentina. Em novembro passado, os juros do crédito rotativo dos cartões de crédito no Brasil chegaram a singelos 305% ao ano.

Aceitamos um Estado burocratizado, que cria dificuldades para vender facilidades. Nós nos humilhamos nos postos de saúde e nos acotovelamos nos transportes públicos de baixa qualidade. E, quando temos carro, vamos desviando dos buracos ou ficamos paralisados em engarrafamentos.

Partidos políticos são sustentados por cofres públicos e não por seus militantes. E, até há bem pouco tempo, os sindicatos de trabalhadores recolhiam compulsoriamente contribuições, além de manterem “monopólios” por região. Agora, após a Operação Lava Jato, a presunção da inocência deixou de existir. Todos são culpados até que se prove o contrário. Na burocracia, tal assertiva já valia há tempos: o cidadão é sempre penalizado com montanhas de pré-requisitos. Quase diariamente a burocracia produz normas e atos num imenso redemoinho de exigências. No Brasil, a papelada aumenta para atender o crescimento da própria burocracia.

Nos tribunais administrativos da Receita Federal, o voto de minerva é de quem jamais votará contra a redução de seus bônus, decorrentes de multas bilionárias. Certidões são penosamente extraídas, mesmo que as obrigações do cidadão estejam em dia. Gastamos horrendas 2 mil horas por ano para pagar impostos, enquanto a média mundial é de apenas 250 horas.

O Brasil pune quem quer gerar emprego com um dos piores ambientes de negócios do mundo. Entre 190 países, estamos no 109º lugar. O País é um imenso paradoxo sustentado por nossa mansidão. Trata-se de uma lógica muito louca, que revela que aceitamos os absurdos apenas por sempre ter sido assim. E se é assim, o verdadeiro absurdo está em nós.

O País é um paradoxo sustentado por nossa mansidão. Aceitamos os absurdos apenas por acreditarmos que é assim que as coisas são.
Murillo de Aragão 

Paisagem brasileira

Carlos Oswald

Bolsonaro quer um país que não amarrota e não perde o vinco

As gotinhas da Esso eram brancas e as crianças Dulcora mais ainda, alvíssimas, chupando eufóricas a felicidade dos drops embrulhados um a um. Não havia diversidade, essa palavra fundamental em 2019, e lá estava nos comerciais da TV a Neide Aparecida anunciando a peruca kanekalon. Sem tatuagem, sem piercing e acima de tudo com uma virgindade à espera do casamento com Cyll Farney, conforme anunciava a Revista do Rádio, ela balançava a cabeça para mostrar que o adereço capilar estava firme. Essa propaganda das perucas Lady é das caricaturas mais risíveis da história. Não era só o cabelo, não era só a virgindade. Era tudo falso.

O Brasil da propaganda, não faz muito tempo, era a mentira mantenedora dos preconceitos nacionais, um país inteiro de cabelos lisos, gente com uma carinha assim fofa, sem homem usando piercing como na propaganda do Banco do Brasil que Bolsonaro proibiu. Preto na propaganda só os soldadinhos feitos com palitos dos fósforos das marcas Olho, Pinheiro e Beija-Flor.

Era um país em que mulher não abria conta em banco e nos comerciais só aparecia cuidando das prendas do lar, como a Dona Ermelinda, a velhinha que saía correndo feito uma louca pelas ruas do Rio porque precisava aproveitar a liquidação de flanelas, lãs e cobertores das Casas Pernambucanas. Mulher de verdade posava sorridente ao lado do novo orgasmo daquele ano, um pote de gelatina framboesa da Royal. Não fazia cara de "diva irritada", como pede a propaganda censurada do Banco do Brasil. Mulher de família fingia-se de mãe extremada e bibelô. Mentia a depressão.


O governo Bolsonaro desconhece todas as boas novidades sociais das últimas décadas, e agora quer mostrar que desconhece também as da propaganda. Pretende uma volta ao tempo em que o único produto oferecido aos negros na televisão era o henê Cilin, aquele com jingle do Moreira da Silva: "Para tingir/ para alisar/ Henê Cilin o Morengueira vai usar". Breve, proibirá comerciais de absorventes femininos.

A propaganda que Bolsonaro tirou do ar falava em tom atualizado com as novas diversidades - com exceção da que está surgindo em algum lugar neste exato momento. Tinha uma mulher careca e outra ainda, negra também, com tranças que acentuavam o orgulho africano, tudo num jeito ostensivo de afirmar que cada um faz o que quiser com o que lhe cresce na cabeça. Respeito à família é isso. O presidente achou o Banco do Brasil liberal demais na sedução à clientela jovem - onde já se viu pedir selfie fazendo "biquinho de vem cá me beijar"? Bloqueou.

O grande problema da propaganda do BB, que reunia ainda transexuais, gays e afins, era o fato de a peça - muito bem produzida - ter custado R$ 17 milhões aos cofres públicos. Sobre isso nada foi espantado. Bolsonaro, depois de atirar despropósitos em todos os cantos da atividade nacional, agora quer presidir agência de publicidade e dirigir comerciais com os valores acanhados de sua caserna moral. A propaganda oficial é o seu novo sonho de governo.

Ele busca um país onde todo mundo tenha a mesma cara de macho-hétero-branco de anúncio de Tergal, aquele tecido que não amarrotava, não perdia o vinco e que saiu do mercado pelo desinteresse de homens e mulheres se vestirem dentro desta mesma e insuportável assepsia. A moda, Bolsonaro não sabe, é o orgulho das diferenças - vidas que se vestem com um tecido que cada um amarrota do seu jeito.

Continua perda de tempo

Em outros tempos, discutir o alcance e o tom do discurso de Olavo de Carvalho era perda de tempo. Hoje, ele acalenta o núcleo duro do governo com doses supremas de bajulação virtual — e indicou quase vinte cargos no governo 
Ana Clara Costa 

O desalento começa a prevalecer

Não é mera coincidência o comportamento mais conservador adotado tanto pelo empresariado do comércio como pelo da indústria na gestão dos estoques. Esse comportamento observado recentemente parece antecipar sua percepção de que haverá queda nos negócios nos próximos meses. Têm sido pequenas, até agora, as variações dos índices que medem os estoques nos dois setores, mas elas mostram atitude mais cautelosa dos dirigentes das empresas. O economista Aloísio Campelo, superintendente de Estatísticas Públicas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), escolheu uma expressão um pouco mais direta, “desalentador”, para se referir ao cenário que vai se formando no ambiente de negócios a partir dos dados que vão sendo conhecidos.

O índice de adequação de estoques do comércio, calculado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) registrou alta de 5,9% em abril na comparação com o resultado de um ano antes, o que indica que, nesse período, a economia ganhou fôlego. Mas a comparação com dados mais recentes mostra uma tendência menos brilhante. Em relação a março, o índice teve aumento de 1,5%, mas essa variação, como ressaltam os economistas da FecomercioSP, não se deveu à melhora do ambiente econômico. Os empresários do setor já não têm o otimismo que demonstravam no início do ano. O comportamento mais conservador se deve ao fato de que o comércio “já percebe sinais de arrefecimento das vendas”.



Também na indústria o cenário é de estoques ajustados e de pequena melhora na demanda interna, o que levou à alta de 0,4 ponto entre março e abril na prévia do Índice de Confiança da Indústria medido pela Fundação Getúlio Vargas. Mas as expectativas vêm se deteriorando. O resultado preliminar do índice que mede essas expectativas caiu 0,2 ponto entre março e abril, o que o economista Aloísio Campelo interpretou como “uma ducha de água fria” no humor do empresariado industrial.

Outra pesquisa confirma essa tendência. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) caiu 3,5 pontos em abril, após queda de 0,2 ponto em fevereiro e de 2,6 pontos em março. A queda deveu-se tanto ao recuo das expectativas como à piora da avaliação das condições de negócios.

O mau desempenho da economia no primeiro trimestre decerto afetou o humor do empresariado. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) caiu 0,73% de janeiro para fevereiro, depois de ter recuado 0,41% em janeiro na comparação com dezembro. São dados que, por anteciparem com razoável precisão os resultados oficiais do Produto Interno Bruto (PIB) calculado pelo IBGE, indicam desempenho negativo da economia brasileira no primeiro trimestre. As revisões para baixo nas previsões para o comportamento do PIB neste ano, por economistas de instituições financeiras privadas e do próprio governo, realimentam a desconfiança do empresariado. Ou o “desalento”, como prefere o economista do Ibre-FGV.

O quadro político-administrativo acentua esse sentimento. As expectativas positivas alimentadas após o conhecimento do resultado das eleições de outubro do ano passado foram sendo paulatinamente corroídas por confusões, retrocessos e notória desarticulação política do governo que tomou posse em 1.º de janeiro.

Há oportunidade e tempo, obviamente, para que aos poucos se vá recompondo a confiança do empresariado e das famílias com relação ao desempenho da economia nos próximos meses. É absolutamente indispensável para isso que avancem as propostas destinadas a assegurar o equilíbrio futuro das finanças públicas, sem o que o País não poderá crescer de maneira consistente. E isso depende do governo Bolsonaro, que precisa demonstrar mais firmeza de propósitos e mais competência política do que apresentou até agora.

A gargalhada

Sempre que tenho o prazer de ir ao leste europeu, ouço a mesma resposta quando conto que no Brasil a maior parte dos jovens “informados” e da classe culta em geral são simpáticos a regimes socialistas ou comunistas: uma gargalhada seguida de espanto. “Mas, eles não sabem o que aconteceu aqui nos países comunistas durante décadas?”, me perguntam.

Claro que esta adesão ao socialismo e comunismo como tara intelectual não é um pecado brasileiro. Por todo o ocidente, inteligentinhos brincam de socialistas e comunistas. Diante da violência e miséria que viveram, os habitantes dos países que padeceram sob o regime comunista de fato, só podem dar uma gargalhada como esta.


Arriscaria dizer que só agora começamos a ter a chance de tentar entender, em algum grau, nossa história política desde a guerra fria. O trágico período da ditadura (que nenhum inteligentinho de direita venha dizer que não houve ditadura no Brasil) foi seguido por outro período em que, ao invés de termos uma elite cultural que olhou para o país de uma forma um pouco mais realista (um filósofo diria, “empírica”), tivemos uma elite cultural monolítica que continuou presa a geopolítica da guerra fria. A polarização política no Brasil hoje é anacrônica. Direita e esquerda parecem pastar como jumentos na grama da guerra fria.

Se Bolsonaro e seus seguidores são uma espécie de cadelas hidrófobas que saíram do quarto escuro quase 30 anos depois (a imagem é inspirada em Nelson Rodrigues), nostálgicos de uma ditadura, a elite culta ativa nos “aparelhos culturais e educacionais” pós-ditadura se encastelaram numa narrativa atávica, presa a um “profetismo” marxista (e derivados) que logo estará na lata de lixo da historiografia.

Ao invés de propor uma análise mais complexa e ampla da política, grande parte de nós preferimos transformar as universidades, a mídia, a arte e a cultura em espaços de disputa política baixa, a serviço de interesses de classe, assim como se vê hoje em dia uma parte do poder judiciário fazer a mesma coisa: que se dane o país, contanto que seus privilégios de uma República das Bananas continuem a funcionar.

A historia do pensamento político é essencial para pensarmos qualquer política. A obviedade da afirmação acima é proposital. Referências existem por toda parte, cito aqui apenas uma delas: “On Politics” do professor Alan Ryan, que ensinou teoria política nas universidades de Oxford e Princeton, da editora W.W. Norton & Company.

O debate sobre como fazer a vida em sociedade um pouco menos ruim (porque é disso que se trata a política), desde a Grécia, tem alguns marcadores essenciais. Vou dar apenas dois exemplos importantes.

Um deles é a busca de “regimes mistos”, como buscava Aristóteles em Atenas e Cícero em Roma, ambos na antiguidade, e “Os Federalistas” (James Madison, John Jay e Alexander Hamilton) nos EUA, no final do século 18. “Misto” aqui significa um regime que integre minimamente uma “aristocracia” (não de sangue) competente a agentes que representem o “povo”, a maioria, de forma razoável. A busca dessa integração institucional visa evitar a ganância dos poderosos e o ressentimento dos mais pobres.

Política é o campo em que conflitos auto-justificados se organizam institucionalmente a fim de que esses conflitos não destruam a sociedade. Esta tradição atinge seu apogeu justamente nos Federalistas, com a criação de mecanismos práticos e institucionais de pesos e contrapesos que limitem o poder de todo mundo que tem alguma forma de poder.

Outro marcador essencial é o debate acerca da natureza humana (não vou debater com os inteligentinhos o conceito de natureza humana aqui). De um lado, Santo Agostinho, na antiguidade tardia, para quem o pecado faz de nós seres interesseiros que a qualquer hora podem destruir tudo para realizar seus desejos mais mesquinhos e que, portanto, necessitam de uma ordem mínima que os mantenham sob cuidado e atenção. David Hume, cético, já no século 18, pensava que seria uma máxima política justa supor que todo homem pode a qualquer hora agir como um patife, e por isso mesmo, se faz necessário confiar desconfiando, em bom português.

Do lado oposto, a tradição, grosso modo, iluminista, de Rousseau a Marx (e derivados) para quem os homens são vítimas históricas que um dia, libertos da opressão, serão anjos políticos.

Você também está ouvindo a gargalhada de Aristóteles, Cícero, Santo Agostinho, Federalistas e David Hume?