quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Desempregados, mas felizes

A iniciativa da Finlândia de oferecer a desempregados uma renda mínima por dois anos não os ajudou a conseguir trabalho, informaram pesquisadores.

De janeiro de 2017 a dezembro de 2018, o programa piloto de renda mínima universal adotado pelo país pagou 560 euros (cerca de R$ 2.360) por mês a 2 mil finlandeses desempregados, selecionados aleatoriamente.

O objetivo do plano era avaliar se garantir uma rede de proteção social ajudaria as pessoas a procurar emprego e a apoiá-las se tivessem que trabalhar na chamada gig economy (baseada em trabalhadores temporários e sem vínculo empregatício).


Embora os níveis de emprego não tenham melhorado, os participantes do programa disseram que estavam mais felizes e menos estressados.

Quando lançou o projeto piloto em 2017, a Finlândia se tornou o primeiro país europeu a testar a ideia de uma renda mínima incondicional.

O projeto, conduzido pela agência finlandesa de seguridade social (Kela), atraiu imediatamente atenção internacional - mas os resultados levantaram questionamentos sobre a eficácia do sistema.
O que é 'renda mínima' e como funciona?

A renda mínima universal significa que todos recebem uma renda mensal fixa, independentemente dos recursos. O teste finlandês foi um pouco diferente, pois se concentrou em pessoas que estavam desempregadas.

Outra variação conhecida é o "serviço básico universal" - no qual, em vez de receber uma renda, serviços como educação, saúde e transporte são gratuitos para todos.

Embora esteja surfando em uma onda de popularidade, a ideia não é nova. O conceito foi descrito pela primeira vez na obra Utopia, de autoria de Thomas More, publicada em 1516 - há 503 anos.

Esquemas como esse estão sendo testados em todo o mundo. Adultos de um vilarejo no oeste do Quênia vão receber US$ 22 por mês até 2028, enquanto o governo italiano está adotando uma "renda cidadã".

A cidade de Utrecht, na Holanda, também está realizando um experimento de renda mínima chamado Weten Wat Werkt ("Saber o que funciona", em tradução livre) até outubro.

Os defensores da renda mínima geralmente acreditam que uma rede de proteção social incondicional pode ajudar as pessoas a saírem da pobreza, dando tempo para elas se candidatarem a vagas de emprego ou aprender novas habilidades essenciais. Isso é visto como cada vez mais importante na era da automação - ou seja, à medida que os robôs ocupam postos de trabalho.

O pesquisador Miska Simanainen, representante da Kela, disse à BBC News que era isso que seu governo queria testar, para "ver se seria uma maneira de reformar o sistema de Previdência social".

E funcionou? Isso depende do que você entende por "trabalho".

Ajudou os desempregados na Finlândia a encontrar emprego, como esperava o governo finlandês de centro-direita? Na verdade, não.

Simanainen diz que, embora algumas pessoas tenham encontrado trabalho, elas não se mostraram mais propensas do que o grupo de controle (de pessoas que não receberam dinheiro). Os pesquisadores ainda estão tentando descobrir exatamente o motivo disso, para inserir no relatório final, que será publicado em 2020.

Mas para muita gente, o objetivo original de inserir os finlandeses no mercado de trabalho era falho desde o início. Se, em vez disso, a meta fosse deixar as pessoas mais felizes de uma maneira geral, o projeto seria considerado um sucesso.

Um dos participantes resumiu esse pensamento quando contou à BBC News como a renda mínima afetou sua vida.

"Ainda estou desempregado", explicou o jornalista Tuomas. "Não posso dizer que a renda mínima mudou muito a minha vida. Ok, psicologicamente sim, mas financeiramente - nem tanto".

A renda mínima é uma daquelas raras questões que despertam elogios e críticas igualmente fortes de todas as partes da esfera política.

Para muitos representantes da esquerda, a renda mínima se concentra demais na riqueza pessoal e no poder de compra dos indivíduos - ou melhor, na falta deles - sem fazer nada para impedir as empresas de desperdiçar recursos produzindo muito mais do que as pessoas precisam e sobrecarregando os funcionários neste processo.

"Sem reformas estruturais fundamentais do nosso sistema econômico, a renda mínima será apenas um band-aid sobre as rachaduras", diz a escritora Grace Blakely, especializada em economia.

Outros se preocupam com o fato de que a renda mínima será usada para cortar custos, estabelecendo uma taxa muito baixa e cortando outros benefícios sujeitos à condição de recursos.

Enquanto isso, muitos representantes da direita e do centro se preocupam exatamente com o oposto - que a renda mínima seria cara demais de implementar e encorajaria uma cultura de "ganhar algo em troca de nada".

Ulrich Spiesshofer, diretor-executivo da empresa de engenharia ABB, expressou este sentimento em 2016 quando disse ao jornal Financial Times que "as recompensas econômicas [para as pessoas] devem ser baseadas na criação de valor econômico".

Os pesquisadores da Kela estão ocupados agora analisando todos os resultados do teste para descobrir o que mais podem nos dizer a respeito do uso e das lacunas da renda mínima.

Simanainen diz que não gosta da ideia de que o teste "fracassou".

Em sua opinião, "não se trata de fracasso ou sucesso - é um fato e [oferece] novos dados que não tínhamos antes desta experiência".

Pensamento do Dia


Erros do governo na Amazônia

Em termos de Amazônia, o atual governo está se especializando em criar falsas polêmicas, como se já não fossem suficientes os problemas que a região realmente enfrenta. O Planalto considera que é preciso monitorar uma reunião da Igreja Católica sobre Amazônia, porque entende que será um atentado à soberania brasileira na região se líderes católicos criticarem o governo. “Nós não damos palpite sobre o deserto do Saara, ou o Alasca”, disse ontem o general Augusto Heleno. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, atacou um morto. Fez acusações irresponsáveis contra Chico Mendes, assassinado há 30 anos.


A vitória de Jair Bolsonaro se deveu em parte à forte militância dos líderes das igrejas evangélicas. O ideal é que nenhuma religião fizesse militância partidária e eleitoral, porque essa mistura de púlpito e palanque interfere no direito de escolha do eleitor. Contudo, qualquer denominação religiosa é livre para defender temas que achar mais coerente com seus valores. O mesmo grupo político que não se preocupou com o uso das igrejas evangélicas na caminhada eleitoral de Jair Bolsonaro agora acha perigoso o que a Igreja Católica discutirá no Sínodo sobre Amazônia a ser realizado em outubro, em Roma.

O Estado é laico. Isso todos sabem, mas é sempre bom lembrar nestes tempos em que ministros acham que podem fazer proselitismo religioso nas decisões de políticas públicas. As igrejas também são livres para terem as suas visões dos fatos. É delirante a ideia de que se houver críticas ao governo Bolsonaro a soberania do Brasil estará ameaçada. Primeiro, crítica ao governo não é atentado à pátria. Segundo, a Amazônia não é apenas brasileira, é um bioma que se espalha por nove países. Terceiro, a Igreja Católica vem alertando sobre a urgência de proteção do meio ambiente muito antes de haver o governo Bolsonaro. É de 2015 a Encíclica Laudato Si do Papa Francisco.

Em entrevista à repórter Tânia Monteiro, do “Estado de S. Paulo”, o ministro Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), admitiu que há uma preocupação do Planalto com as reuniões preparatórias do Sínodo. Disse que o assunto “vai ser objeto de estudo cuidadoso pelo GSI”. E promete: “Vamos entrar fundo nisso.”

Melhor faria o GSI se aproveitasse a experiência que o general Heleno e outros integrantes da cúpula do governo acumularam quando serviram na Amazônia para entrar fundo nos problemas reais da região: a invasão de grileiros em florestas e parques nacionais, o desmatamento ilegal e predatório, a ameaça aos indígenas, a destruição da biodiversidade, os documentos falsos de propriedade de terra, o uso da região como rota do crime organizado.

As divergências que os especialistas de diversas áreas, as entidades do terceiro setor e eventualmente integrantes do clero tenham em relação às posições do governo Bolsonaro sobre questões ambientais e climáticas são apenas isso: divergências. Uma sociedade democrática é, por natureza, plural. As pessoas divergem, discutem, se manifestam, são convencidas, convencem, mudam de ideia. Hoje os partidos que se opõem à atual administração estão enfraquecidos em grande parte por seus próprios equívocos políticos. Mas isso não significa que o governo não enfrentará, na sociedade, vozes discordantes às decisões que tomar em qualquer área, principalmente nos temas mais sensíveis.

Os militares que comandaram o Exército brasileiro na Amazônia, e que hoje estão no governo, são pessoas inteligentes, preparadas e conhecem o terreno de andar nele. Quem não demonstra entendimento mínimo é o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. A acusação que fez a Chico Mendes desqualifica o próprio ministro e não o líder seringueiro. Salles fez no Roda Viva acusação sem prova, e sem fonte, contra quem não pode se defender. Disse que “as pessoas do agro da região disseram”. E o que disseram? “Que Chico Mendes usava os seringueiros para se beneficiar e fazia manipulação de opinião.” Sem fontes, sem fatos, a aleivosia do ministro do Meio Ambiente revela muito sobre o próprio ministro e o seu caráter.

Há adversários a enfrentar na Amazônia, os militares brasileiros os conhecem porque sempre estiveram presentes na região. Não é o Vaticano. Não é Chico Mendes.

Salles: 'Que diferença faz que é Chico Mendes?'

O ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) considera o lendário líder seringueiro Chico Mendes um personagem "irrelevante". Em entrevista ao Roda Viva, na noite de segunda-feira (11), o auxiliar de Jair Bolsonaro indagou: "Que diferença faz quem é o Chico Mendes nesse momento?". Recordou-se ao entrevistado que Chico Mendes teve a relevância reconhecida até pela ONU. E o ministro: "A ONU reconhece um monte de coisa errada também".

Chico Mendes foi injetado na conversa no final da entrevista. Como o ministro realizaria sua primeira visita à Amazônia nesta terça-feira, perguntou-se a ele o que achava do líder seringueiro. "Olha, eu não conheço o Chico Mendes e tenho certo cuidado em falar de coisas que não conheço", declarou Ricardo Salles, antes de soar descuidado na frase seguinte.

"Eu escuto histórias de todo o lado. Do lado dos ambientalistas, mais ligados à esquerda, um enaltecimento do Chico Mendes. As pessoas que são do agro, da região, dizem: olha, o Chico Mendes não era isso que é contado".


Uma das entrevistadoras indagou: O que o pessoal do 'agro' diz ao senhor? O ministro respondeu, de bate-pronto: "Que o Chico Mendes usava os seringueiros para se beneficiar, fazia uma manipulação da opinião ali".

Outro repórter emendou: Se beneficiar em quê? Ele morreu pobre! Foi nesse ponto que Ricardo Salles, já meio abespinhado, menosprezou uma das páginas mais importantes do enredo amazônico: "Que diferença faz quem é o Chico Mendes nesse momento?"

Chico Mendes, como se sabe, está no DNA da política ambiental no Brasil. Em 1977, recebeu o Prêmio Global de Preservação Ambiental da ONU. Ou seja: o personagem que o ministro tacha de "irrelevante" já era internacionalmente reconhecido há quatro décadas.

Em 1988, Chico Mendes foi passado nas armas pelo fazendeiro Darly Alves da Silva e seu filho. Os desmatadores não suportavam o convívio com um defensor de valores socioambientais. Não admitiam a pregação em favor da criação de reservas extrativistas, a salvo das motosserras —áreas em que os seringueiros conciliariam o trabalho com a preservação da floresta.

Se não tivesse sido acomodado na Esplanada dos Ministérios por Jair Bolsonaro, Ricardo Salles seria apenas um ex-secretário do governo paulista condenado por improbidade administrativa. Mas já que foi convertido em titular da pasta do Meio Ambiente, seria recomendável que evitasse espremer a biografia de Chico Mendes na bitola estreita dos sinais de trânsito: esquerda ou direita?

É certo que a história costuma ser escrita pelos vitoriosos. Mas pessoas como Ricardo Salles deveriam pelo menos simular algum respeito pelos combatentes que tombaram lutando. Do contrário, o ministro acaba reforçando no brasileiro essa incômoda sensação de que vive um enredo confuso, no qual faz o papel do passageiro que viaja num avião sabendo que sua bagagem, com tudo o que foi capaz de conquistar em sua história, viaja em outra aeronave.

Governar não é tuitar

A Constituição, em seu artigo 79, estabelece que o vice-presidente da República tem apenas uma função relevante: substituir temporariamente o presidente, se este se encontrar doente ou em viagem, ou suceder-lhe, se o cargo ficar vago. No caso de doença, por exemplo, a função presidencial obviamente deve ser exercida pelo vice enquanto o presidente não estiver restabelecido a ponto de conseguir retornar ao trabalho. Há uma razão comezinha para ser dessa forma: a administração do País e a tomada de decisões do governo não podem depender da plena recuperação da saúde do presidente, que pode demorar dias ou até meses.

É preciso que haja alguém com autoridade constitucionalmente reconhecida no exercício do cargo para deliberar sobre os assuntos do governo e orientar os ministros. Do contrário, haverá indesejável paralisia administrativa - como a que o País assiste agora em razão da prolongada internação do presidente Jair Bolsonaro.

Inexplicavelmente, Bolsonaro reassumiu seu cargo apenas 48 horas depois de uma cirurgia de sete horas de duração, realizada no dia 28 de janeiro, para a reconstituição do intestino, atingido no atentado à faca que sofreu ainda na campanha eleitoral, em setembro do ano passado. Conforme os boletins médicos, a operação foi bem-sucedida, e a equipe que o atendeu estabeleceu inicialmente um prazo de dez dias para a recuperação do presidente, mas mesmo esse prazo se mostrou otimista demais. Jair Bolsonaro continuava internado duas semanas depois da cirurgia, período em que o presidente apresentou quadro de pneumonia e febre.

Nesse meio tempo, em vez de delegar suas funções para o vice-presidente Hamilton Mourão, conforme estabelece a Constituição e manda o bom senso, Bolsonaro julgou que poderia logo retomar a dura rotina presidencial - até mesmo uma espécie de gabinete foi montado no quarto do hospital para que ele pudesse despachar. No dia 31 de janeiro, Bolsonaro chegou a fazer uma videoconferência com um ministro e a telefonar para outros, mas logo teve de interromper esse trabalho por ordens médicas - o presidente não poderia nem sequer falar, que dirá encontrar-se com ministros e tomar decisões de Estado. O repouso deveria ser absoluto.

Está claro que, nessas circunstâncias, o vice Hamilton Mourão deveria ter assumido o cargo, pois há diversas decisões à espera do aval do presidente, como a formatação da reforma da Previdência, para ficar só na mais importante. No entanto, Bolsonaro optou por manter-se no cargo mesmo sem ter condições para isso.

Não se conhecem as razões de tal decisão, mas consta que os filhos de Bolsonaro, cuja opinião é determinante para o presidente, não se dão bem com o vice-presidente. O ruído entre eles ficou ainda mais acentuado quando Hamilton Mourão resolveu dar opiniões sobre temas caros aos Bolsonaros - disse, por exemplo, que era contra a mudança da Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, uma promessa de campanha. Além disso, Mourão está tentando construir uma boa relação com a imprensa, contra a qual os filhos de Bolsonaro dedicam grande virulência. Em resumo, a relação do entorno do presidente com Mourão é de desconfiança. Num país em que tantos vices assumiram o cargo de presidente por vacância, isso tende a alimentar todo tipo de especulação.

Assim, o governo hoje é exercido por alguém sem condições de saúde para tal, sofrendo influência direta e ampla dos filhos - que não receberam um único voto para presidente nem ocupam cargos de ministros. O exercício da Presidência pelo vice-presidente deve respeitar o que diz a Constituição, e não o que ditam os filhos do presidente. Não se trata de uma questão familiar, mas institucional.

Bolsonaro precisa o quanto antes se dar conta de que não está mais em campanha, quando todos os problemas do País podiam ser “resolvidos” por meio de slogans digitados em redes sociais, sob orientação dos filhos. Governar é muito diferente de tuitar: demanda presença, articulação, lucidez - isto é, tudo o que Bolsonaro, convalescente e a reboque dos filhos e dos aliados mais radicais, ainda não conseguiu oferecer ao País.

Imagem do Dia

Mateusz  Urbanowicz 

No Brasil, são todos inocentes

Confesso que estou anestesiado, e até para escrever essas poucas linhas preciso buscar ânimo onde ele não existe. O noticiário tem me provocado náuseas. O que é o Brasil? Se algum desavisado ainda não sabe, basta uma lida rápida nos jornais. E se esse desavisado tiver problema com a Lei e quiser iniciar suas negociatas por aqui, venha logo, não perca essa oportunidade!

Se quiser investir, as opções são variadas: abra uma boate sem saídas de emergência, construa um prédio com areia da praia, monte um centro de treinamento em contêineres inflamáveis. No Brasil, famílias são soterradas por lama, tudo é festa, e a impunidade reina! Doze mortos em Santa Teresa, guerra de quadrilha. Na mesa ao lado, a senhora comenta: “Eles que se matem!”. Em Ipanema, o bloco Simpatia é Quase Amor arrasta milhares de foliões! Vamos comemorar!!! Um amigo me disse que a diretoria do Flamengo está vendo nessa tragédia uma oportunidade, afinal, enquanto alguns choram outros vendem lenços.

Teria sido encomendado ao departamento de marketing um plano para sensibilizar nossos corações, principalmente o dos promotores do Ministério Público. A primeira ideia brilhante seria levar os sobreviventes do incêndio ao próximo jogo. Meninos, não aceitem isso, não deixem que esse caso seja transformado em teatro. O próprio Zico, maior ídolo do clube, pede que os culpados sejam punidos. Quem morreu não volta mais. Indenizações não podem servir de cala-boca, vidas não têm preço.

Desavisados, venham logo para esse país onde um belo dia de sol nos faz esquecer os desabrigados do Vidigal e da Rocinha, onde os temporais arrastam tudo, menos os corruptos. Aqui o prefeito defende-se, o presidente da multinacional esquiva-se, o CEO do clube popular tira da reta. No Brasil, ninguém tem culpa, são todos inocentes. Aqui a democracia dá as cartas, país da opinião livre.

***
Na bancada do Sportv, a comentarista responde sobre o que achou da contratação do Cueva pelo Santos: “É um jogador baixo, o Santos está cheio de jogadores baixos...”. Preconceito? Talento tem tamanho? E depois emenda sobre Carlos Amadeu, técnico da seleção sub 20: “É uma das maiores referências do mundo...”. Óbvio, mudei de canal.

Estamos desassistidos em todos os sentidos. No Brasil, memória é triturada em máquina de moer carne. Vanderlei Luxemburgo foi metralhado em um desses debates: “Não acha que está desatualizado?”. Que atualização é essa de que tanto falam? O técnico novo do São Paulo, de onde surgiu, o que trouxe de inovação, assim como todos esses novatos?

Atualização não é ir para a Espanha e fazer um curso maroto, atualização é vivência! A imprensa constrói os perfis da forma que bem entende: caricato, herói, genial.

Meu perfil é marrento, reclamão, ranzinza. Qual é o seu? Não importa, venha para o Brasil porque aqui você vai dar um jeitinho de encaixá-lo em algum padrão e viver livre para sempre!

Paulo Cesar Caju

Maestrina de morte

A impunidade é o que rege, o que comanda a orquestra das tragédias nacionais
Ricardo Boechat

O lucro que move montanhas de lama

O “Wall Street Journal” publicou, recentemente, uma reportagem, segundo a qual funcionários da Tüv Süd Brasil – aquela instituição externa encarregada de monitorar a segurança da barragem de Córrego do Feijão – haviam atuado também como consultores da Vale, o que configuraria conflito de interesses. A conferir.

Em uma de suas primeiras entrevistas após a tragédia, o presidente da Vale parecia estufar o peito ao falar da reputação da Tüv Süd no campo das auditorias independentes.

Recorri, então, ao site da Deutsche Welle para apurar algumas informações sobre a Tüv Süd. De acordo com a DW, a Tüv Süd não é uma entidade de auditagem independente, mas, sim, “um empreendimento que trabalha por dinheiro”, com faturamento anual de 2,4 bilhões de euros.

A conceituada agência de notícias alemã lembra que a Tüv foi fundada em 1866 como uma associação de certificação de caldeiras a vapor e que, desde então, atuaria sob o mote “independente e neutra”, certificando produtos com “segurança e qualidade, segundo critérios definidos”. Durante muito tempo, veículos só puderam circular por vias alemãs se tivessem sido previamente aprovados pela Tüv, cuja isenção não era posta em dúvida.


Ocorre – diz a Deutsche Welle – que a TÜV, originalmente uma entidade sem fins lucrativos, não existe mais. Ela foi desmembrada em diversos empreendimentos econômicos sob a forma de sociedades anônimas: a Tüv Süd, a Tüv Nord, a Tüv Rheinland, a Tüv Hessen, entre outras, que concorrem no mercado de certificação. Todas, segundo a DW, precisam fazer lucro. Desde então, avolumam-se denúncias, mundo afora, segundo as quais essas empresas já não mais levam em consideração a questão da segurança em suas atividades.

Em novembro de 2018, a Tüv Rheinland foi condenada pela Justiça francesa a indenizar mulheres que fizeram uso de um silicone para implantes mamários que se mostraram, posteriormente, nocivos à saúde e que haviam sido certificados pela TÜV Rheinland. Valor da indenização: 3 milhões de euros.

Não sei como a “Folha de S.Paulo” teve acesso ao laudo da Tüv Süd, pois a Agência Nacional de Mineração não estava divulgando os dados da inspetoria que, em meados de 2018, a empresa teria realizado na barragem de Brumadinho. Alegava, estranhamente, que “os documentos do processo minerário são sigilosos, em obediência à Lei de Propriedade Industrial”. Fui, por um tempo, presidente da comissão que elaborou esse diploma legal e não me recordo de nada em específico que trataria desse sigilo.

Fica claro, pelo menos, que “critérios definidos” de segurança têm levado em conta, sobretudo, interesses econômicos, em prejuízo da neutralidade e independência. Se a situação da barragem era preocupante, por que não recomendaram, cautelarmente, a imediata interdição e evacuação? Medo de perderem o contrato? A aplicação da ciência à produção se entrelaçaria com a necessidade de faturamento?

Como afirmou Elio Gaspari, isso só evidencia o quanto o Brasil anda precisando, urgentemente, de uma “operação Lama Jato”.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O inimigo veste batina

Augusto Heleno Ribeiro Pereira tem precedência hierárquica na curadoria militar do governo Jair Bolsonaro. É da tradição dos quartéis, onde viveu 45 dos seus 71 anos de idade — a última dúzia como general.

A ascendência sobre Bolsonaro tem origem na dedicação do treinador da Academiadas Agulhas Negras, que ajudou o cadete Cavalão a se destacar em pentatlo moderno. A gratidão veio coma chefia do Gabinete de Segurança Institucional.

Desde que experimentou um biênio no Comando Militar da Amazônia (2007-2009), com 17 mil soldados em quatro brigadas de infantaria de selva, Ribeiro Pereira—mais conhecido como Augusto Heleno—enxerga um potencial de “teatro de operações” em metade do mapa do Brasil, por ausência do Estado.

Na últimas décadas, recitou em auditórios os clássicos da catequese sobre a “cobiça internacional” pela Amazônia, além de listar equações diplomáticas nos 11 mil kms da fronteira Norte com chance de “descambar para uma situação bélica”.

Agora, como disse à repórter Tânia Monteiro, mobiliza o governo para “neutralizar” o Vaticano, que programou para outubro o Sínodo da Amazônia, com batinas de Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Venezuela, Perue Antilhas. Faltou o chefe do GSI definir “neutralizar”.

Argumenta com possíveis críticas do Vaticano à política para a Amazônia. Seria impossível, porque, se existe, até hoje ninguém viu — como o projeto de reforma da Previdência.

Ele se queixa de que “há muito tempo existe influência da Igreja e ONGs na floresta”. Tem razão. Entidades civis proliferam no vácuo estatal. A história da Igreja Católica é mais antiga.

Ribeiro Pereira talvez tenha esquecido, mas Brasil é assunto em Roma desde meio século antes do “Descobrimento”. Caminha registrou o “achamento”, a missa e a ordem do capitão Cabral para deixar na praia de Santa Cruz (BA) um par de colonos. Um deles se chamava Ribeiro.
José Casado

Ícones se encantam


Para milhões de brasileiros, as manhãs de domingo nunca mais foram as mesmas sem Ayrton Senna na pista.

Agora também milhões não veem todas as manhãs do mesmo jeito sem Ricardo Boechat.

Gambiarra tem aos montes

Fala sério. De verdade. Confesse. A gente gosta de gambiarra. Não somente daquele original, que quer dizer extensão puxada fraudulentamente para furtar energia elétrica. O Brasil adora mesmo o sentido figurativo da palavra. Somos do quebra-galho, do jeitinho, do improviso, e, porque não, da gambiarra.

Gostamos tanto, que a gente nem mais percebe que a gambiarra está sempre presente nas terras tropicais. Tudo é um grande improviso esperando para dar errado. E sempre dá errado. E muito. Tantas vezes que não da para dedicar um artigo semanal para comentar cada consequência grave do desleixo nacional. Pensando bem, talvez nem cobertura diárias dariam conta.


A gente inventou um dia que Deus é brasileiro e, por isso, tudo no fim daria certo. Mas Deus está tão ocupado cuidando das gambiarras nacionais que de vez em sempre estoura uma. Seja como mar de lama, deslizamento, incêndio e o que mais a nossa imaginação possa conceber.

De gambiarra em gambiarra a gente vai empilhando tragédias. Tantas que restam injustificáveis. Dolorosamente explicáveis em um país que lamentavelmente não gosta ou não exige explicação.

Em nosso desvario diário, desastres são rapidamente esquecidos e imediatamente substituídos por um desastre novinho em folha. Conversa para encher papos de boteco é que não faltam.

No meio de todo o caos, tem sempre alguma lógica. A nossa, parece ser que o Brasil é local onde a governança vem para morrer. Governança em seu sentido mais amplo, que implica na administração dos recursos sociais e econômicos visando o desenvolvimento, e a capacidade de planejar, formular e programar políticas e cumprir funções. Disso a gente consegue fazer nada.

Em matéria de boa governança, aliás, a gente faz milagres. Ou melhor, um milagre somente: consegue viver sem ela. Está ausente não importa para onde se olhe. No município, no estado, na federação, no esporte e na iniciativa privada.

Pode procurar. Governança não há. Mas tome cuidado para não tropeçar em gambiarra. Disso tem aos montes.

Paisagem brasileira

Caraiva (BA)

Como o plástico mudou a sociedade brasileira

"Jazida arqueológica". É assim que a pesquisadora em antropologia e arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais, Vanúzia Gonçalves Amaral, se refere a um antigo aterro sanitário de Belo Horizonte, que abriga toneladas de lixo domiciliar depositados numa área de 60 hectares ao longo de 32 anos.

"O lixo é uma narrativa sobre os pequenos hábitos cotidianos de uma sociedade, é reflexo do que somos e do que temos", afirma a pesquisadora.


Desde fevereiro de 2018, ela faz escavações no aterro sanitário mineiro, separando os resíduos sólidos aterrados de acordo com cada uma das décadas entre 1975 e 2007, ano em que o lugar foi desativado.

"É possível ver quando o plástico passou a substituir materiais como o vidro", afirma Amaral, se referindo ao final da década de 1970, quando as garrafas PET aparecem, e as retornáveis de vidro foram deixando de existir. Foi nessa época também que as fraldas descartáveis começaram a aparecer no lixo.

Outra revolução pode ser vista no lixo a partir da década de 1990, com uma avalanche de produtos descartáveis, embalagens e sacolas plásticas.

Amaral aponta que foi justamente nessa época que se iniciaram as importações brasileiras de produtos populares chineses. Incrivelmente baratos, os importados da China trouxeram para o Brasil um novo comportamento de negócio, de consumo e também de hábitos sociais, marcado pelo surgimento das lojas de R$ 1,99 em todo o país e pela formação de grandes camelódromos.

Se por um lado são mais acessíveis, por outro lado, os produtos de plástico geram um acúmulo de lixo difícil de ser resolvido. "Os resíduos plásticos que compõem esses produtos são muito resistentes. Vasculhando o lixo de décadas passadas, é possível encontrar plásticos da década de 70, aterrados há mais de 40 anos, ainda com marcas legíveis e muitos até com restos de alimentos preservados em seu interior", descreve Amaral.

Com a finalidades de substituir materiais encontrados na natureza usados na indústria, como o marfim, e permitir produções em grande escala e mais baratas, o plástico totalmente sintético foi inventado em 1909.

A partir de 1930, diversos outros plásticos foram criados, como poliéster, náilon, teflon, silicone, entre outros, para atender a inúmeras demandas de mercado do século 20. Foi o caso da invenção do disco de vinil e da fita cassete, que revolucionaram o mercado fonográfico; e do PVC, que barateou os processos da construção civil, por exemplo.

No Brasil, assim como em diversas outras partes do mundo, a adoção do plástico na indústria moderna também barateou bens de consumo, alterando o estilo de vida sobretudo da classe média.

"Popularizado no Brasil na década de 1950, com o estabelecimento da indústria de resinas termoplásticas, o plástico passou a ser empregado em peças que antes utilizavam madeira, vidro, tecido, papel, etc., em especial em bens manufaturados, de uso pessoal e doméstico, como brinquedos, calçados, utensílios domésticos, embalagens", explica Silvia Helena Zanirato, professora de Gestão Ambiental da Universidade de São Paulo (USP) .

"Na década de 1950, o Brasil buscava uma imagem de país moderno, e os produtos fabricados com materiais plásticos foram tidos como mais práticos, modernos e acessíveis, ainda que menos duráveis", afirma.

Os novos produtos plásticos de consumo dominavam a propaganda na televisão da época. "As empresas que patrocinavam programas apresentaram esses produtos como componentes de um novo estilo de vida, de uma nova sociedade que se voltava agora para o consumo", aponta Zanirato.

Além dos inúmeros avanços, o plástico também trouxe diversos impactos ambientais. Apesar de muitos alertas sobre os efeitos sobre a natureza, a indústria do plástico ainda é uma das que mais crescem no mundo.

"Hoje, a produção mundial de plásticos está acima de 400 milhões de toneladas ao ano. Em termos comparativos, em 2012, a produção mundial era de 280 milhões de toneladas", afirma Luciana Ziglio, doutora em Geografia Humana pela USP, citando dados da ONU.

"O Brasil acompanhou esse crescimento, produzindo, somente em 2017, 6,4 milhões de toneladas de plásticos", compara a geógrafa. Atualmente, a indústria de transformação de plástico é um dos setores que mais emprega no país.

A fim de ilustrar como os benefícios do uso do plástico são relativos quando comparados aos estragos, o coordenador do Grupo de Estudos de Meio Ambiente e Sociedade do Instituto de Estudos Avançados da USP, Pedro Roberto Jacobi, chama atenção para a área da saúde.

Enquanto as resinas plásticas permitiram a criação de materiais hospitalares descartáveis, que reduzem os riscos de contaminação, o descarte irregular dos produtos plásticos ameaça a saúde pública.

"O acúmulo de resíduos plásticos nas cidades contribui para o aumento de enchentes urbanas, e eles servem de vetores de insetos e roedores, tendo reflexos tanto na degradação ambiental quanto na saúde pública", explica Jacobi.

Segundo o coordenador, o maior problema relacionado ao plástico no Brasil está associado ao seu uso excessivo e desnecessário, como as embalagens plásticas de baixo custo e os canudos, e ao descarte inadequado, principalmente em córregos urbanos, rios e praias.

De acordo com a Fiocruz, água parada em pequenos reservatórios, como vasos de plantas, calhas entupidas, garrafas e lixo a céu aberto são um dos principais criadouros do Aedes Aegypti, mosquito transmissor da febre amarela, chicungunya, zika e dengue no meio urbano. 

Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos

Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;
e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi –
não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.
Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

Jorge de Sena

No palanque da ideologia

Os discursos de posse do presidente Jair Bolsonaro, no Congresso e no parlatório do Palácio do Planalto, surpreenderam ao revelar que o novo chefe do Executivo ainda não havia descido do palanque. Com mais de um mês no cargo, Bolsonaro continua em tom de campanha eleitoral, sem se dar conta de que há um país a governar - o que exige mais do que bravatas ideológicas.

Lida no início da 56.ª Legislatura, a Mensagem de Jair Bolsonaro ao Congresso Nacional é, em sua maior parte, um amontoado de frases desconexas, sem fundamento nos fatos, voltado a atacar opositores e a imaginar inimigos a conspirar contra o País e o governo.

O presidente afirmou que trazia “uma mensagem de esperança”. Mas o discurso genérico, fincado numa ideologia estridente, foi incapaz de dar fundamento a qualquer otimismo.

Ao mesmo tempo que prometeu “transformar o País a partir de estudos sólidos e fundamentados que estão sendo elaborados pelos ministros em suas respectivas áreas”, Jair Bolsonaro disse que “a criminalidade bateu recordes, fruto do enfraquecimento das forças de segurança e de leis demasiadamente permissivas. Isso acabou! O Governo brasileiro declara guerra ao crime organizado. Guerra moral, guerra jurídica, guerra de combate”.

Não corresponde aos fatos dizer que a criminalidade vem batendo recordes. Em muitos Estados, conseguiu-se diminuir os índices de violência e os números de crimes praticados. Também é pouco preciso dizer que as leis penais são permissivas e que elas são causa dessa criminalidade recorde. Se o governo Bolsonaro pretende oferecer à população um novo patamar de segurança pública, urge abandonar diagnósticos genéricos e pouco realistas - mais afeitos à retórica do palanque eleitoral - e traçar um plano de governo, que, de forma serena e corajosa, apresente prioridades, meios e metas.

O governo tem um enorme desafio, por exemplo, nas relações internacionais. É preciso ampliar e fortalecer os acordos comerciais, abrir novos mercados aos produtos brasileiros e integrar o País nas cadeias globais de valor. No entanto, no discurso ao Congresso, o presidente Jair Bolsonaro limitou-se a dizer que, “nas relações internacionais, o Brasil deu as costas para o mundo livre e desenvolvido”, o que evidentemente não corresponde aos fatos, principalmente se considerados os últimos dois anos e meio. Ao falar assim, o presidente da República mostra que está desinformado sobre o Itamaraty e o seu trabalho.

Em vez de apresentar ao Congresso as prioridades que o novo governo enxerga pela frente, o presidente Jair Bolsonaro disse que “o Brasil resistiu a décadas de uma operação cultural e política destinada a destruir a essência mais singela e solidária de nosso povo, representada nos valores da civilização judaico-cristã”. Ora, o País não está numa cruzada e, muito menos, envolvido numa guerra civilizacional.

Um dos problemas sérios que o governo terá de enfrentar é o desemprego. Muito se fez no governo Temer para aumentar a ocupação, mas há ainda um longo caminho a percorrer. A esse respeito, o presidente disse: “Treze milhões de desempregados! Isso foi resultado direto do maior esquema de corrupção do planeta, criado para custear um projeto de poder local e continental”. É difícil vislumbrar um horizonte promissor diante dessa confusão de ideias.

Pelo que se vê, para o presidente Bolsonaro, não há muita diferença entre escrever no Twitter e apresentar ao Congresso a mensagem anual do Poder Executivo. Por sinal, a posse presidencial não mudou os hábitos de Jair Bolsonaro na rede social. No primeiro mês de governo, mais de um terço dos 200 tweets publicados pelo presidente é de ataques a adversários e à imprensa.

O tom de campanha eleitoral pode entreter, por algum tempo, parte de seus seguidores mais radicais, mas o exercício da Presidência da República vai além. A mensagem lida no início dos trabalhos legislativos não apresentou uma visão de país - apenas corroborou a imagem de um presidente que ainda não sabe a que veio.

'Até seus inimigos o respeitavam'

Ricardo Boechat, um dos jornalistas com mais garra neste país, partiu muito jovem e no momento em que os meios de comunicação tradicionais mais necessitam de figuras livres como ele, a respeito de quem o melhor elogio que li foi: “Até seus inimigos o respeitavam”.


Não deixa de ser simbólico que Boechat, antes de desaparecer para sempre, tenha falado sobre a impunidade das tragédias que o Brasil está vivendo em cadeia neste 2019. Um ano que deveria ter sido de renovação da política aparece mais como uma nuvem carregada, com seu novo presidente, Bolsonaro, ainda no hospital, e o país como que sendo assolado por uma peste que está ceifando muitas ilusões.

Sua morte repentina também parece ser simbólica da crise que atravessa a informação séria, essa que se nega a ser pura publicidade e se vê aprisionada pelas novas e turbulentas técnicas de comunicação onde é a cada dia mais difícil, como dizia Boechat, “distinguir a verdade da mentira”.

Se esse jornalista que trabalhara na imprensa escrita e audiovisual era de fato respeitado até por seus inimigos, isso foi porque seu trabalho era sério. Era um jornalista crítico, como não pode deixar de ser quem entra neste ofício de querer contar às pessoas o que o poder geralmente tenta esconder.

O mérito de Boechat, além de seu rigor profissional e de sua consciência sobre a importância de contar as coisas às pessoas sem lhes mentir, era o de se fazer entender por todas as classes sociais. Era ouvido e lido nas esferas políticas e nos templos econômicos, mas também pela gente comum. Perguntem aos milhares de taxistas que a cada manhã estavam atentos ao seu programa de rádio. Sem saber que eu era jornalista, às vezes me perguntavam: “Ouviu o Boechat? Hoje ele desceu a lenha”.

Essa capacidade de saber chegar com as notícias ou com seu comentário a todos é uma das alavancas que movem o jornalismo desde sempre — assim como sua capacidade de se fazer respeitar por seu escrúpulo em não tergiversar nem censurar.

Passei minha vida dedicado a este simples ofício de jornalista. Já escrevi reportagens à mão, e já tive que levá-las fora de casa, quando era correspondente, para que a transmitissem para mim por telex à redação do jornal. A primeira vez que me deram um pequeno computador portátil, aquilo me parecia uma miragem, um truque de mágica. Hoje, até uma criança de quatro anos é capaz de nadar nas redes com total naturalidade. Elas são a Enciclopédia Universal com a qual Borges sonhava. Elas são o futuro da comunicação.

E entretanto, como velho jornalista e admirador do querido Boechat, com quem me encontrei várias vezes nas finais do Prêmio Comunique-se de jornalismo, sou invadido por uma onda de orgulho quando alguém, ao ler uma notícia chocante nas redes, para se assegurar da sua veracidade, pergunta de qual jornal, rádio ou televisão saiu tal notícia. A credibilidade, hoje em dia, ainda continua viva nos meios de comunicação tradicionais.

Tem razão o presidente do Supremo Tribunal Federal, Antonio Dias Toffoli, quando, comentando a notícia da morte de Boechat, afirmou que se trata de um dia de luto “para a imprensa e a sociedade”. Vivemos tempos fragmentados e incertos, onde figuras com a força e a paixão que Boechat conferia à informação, agradasse ou não ao poder, são fundamentais para uma sociedade que parece ter perdido uma bússola que lhe confirme a cada momento que ela não está sendo enganada.

Obrigado, Boechat!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Fisiologismo namora governo e é correspondido

Brasília voltou a respirar uma atmosfera de bazar. A disposição do governo para acabar com o chamado toma-lá-dá-cá diminui à medida que cresce a percepção de que Jair Bolsonaro não sairá do lugar sem uma base congressual que lhe permita aprovar as reformas que prometeu. A movimentação do ministro Onyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil, dá uma ideia do que está acontecendo.

No mês passado, na primeira semana depois da posse do novo governo, o ministro exonerou 320 servidores lotados em cargos de confiança na Casa Civil. Embora seu antecessor na pasta fosse Eliseu Padilha, do bom e velho MDB, Onyx chamou a demissão coletiva de "despetização". Ele informou que, em reunião com todos os ministros, Bolsonaro referiu-se a essa canetada como um exemplo a ser seguido em todos os ministérios. Era lorota.

Numa extraordinária meia-volta, Onyx comunicou aos ministros que está suspensa a dança de cadeiras nos órgãos federais. Deve-se a mudança de orientação a uma chiadeira de congressistas que brigam não para ocupar, mas para manter cargos que já controlam na máquina estatal. Alguns desses parlamentares são fisiológicos profissionais. Apoiavam Fernando Henrique Cardoso. Continuaram apoiando Lula. Deram suporte a Dilma. Derrubaram Dilma para manter seus espaços sob Michel Temer. Agora, namoram a gestão Bolsonaro. E são plenamente correspondidos.

No momento, o governo realiza um grandioso mapeamento de cerca de 20 mil poltronas. Deseja identificar o nome dos políticos que apadrinharam cada nomeação. Se tiver disposição para aprovar as reformas de Bolsonaro, mantém o assento. Do contrário, vai para o olho da rua. Atendidos, certos parlamentares oferecem quase tudo ao Planalto. Só não oferecem a honra porque têm medo de que seja exigido certificado de origem.

Imagem do Dia


A tragédia Brasil

Os antigos diziam que quando Deus criou o mundo juntou num pedaço da América do Sul um país com uma costa gigantesca e belas praias, ouro nas montanhas e sol nos dias de verão. Sem terremotos, vulcões, tsunamis nem outros acidentes naturais. Então, o anjo Gabriel chamou Sua atenção para a injustiça de tal privilégio. Consta que o Criador explicou: “vais ver o povinho que porei lá”. É uma piada preconceituosa e inominável diante de tudo o que tem acontecido ultimamente nestes tristes trópicos, neste país do carnaval e do futebol, a superar em tragédia o teatro grego antigo, culminando com a coincidência de mesclar paixão coletiva e dor pessoal.

O incêndio do Centro de Treinamento (CT) do Flamengo com 10 mortos e 3 salvados do fogo parece mais um castigo divino, mas não é. É conjunção de canalhice com descaso, desídia e desumanidade, que já se haviam manifestado no incêndio do Museu Nacional e no estado lastimável que impede visitas ao Museu da Independência, no Ipiranga.



Essa mistura transforma nosso passado num monturo onde enterramos nossas oportunidades de aprender com erros e acertos que já cometemos. Os rejeitos minerais da Vale em Mariana, que mataram o Rio Doce, num descomunal assassinato ambiental, não serviram de alerta e três anos depois a lama seca de Brumadinho apodrece o Paraopeba e se prepara, de forma lenta, mas incansável, para emporcalhar Três Marias e trucidar o Rio São Francisco, o Velho Chico, “rio da unidade nacional”.

O Estado brasileiro, controlado por burocratas e políticos corruptos, se acumplicia a empresários gananciosos que exploram nossas riquezas e massacram nossos pobres à jusante de represas, expondo-os por cupidez às ondas de dejetos que sufocam humanos, bovinos e peixes. O Criador poupou-nos de vagalhões e lavas, mas os beneficiários do uso e furto dos bens públicos os substituem pela mortandade por susto, bala ou vício. Essa Medusa, que nunca encontra Ulisses de volta a Ítaca, reproduz em sua saga milhões de cabeças vorazes que despedaçam a ventura dos humildes.

Os meninos do Flamengo são talentosos e quase todos pobres, mais do que arrimos, o que resta de fé para seus parentes e amigos. Quando sucumbem à indiferença de dirigentes de má-fé, que usam a paixão do povo como combustível para sua fortuna, fundida num bezerro de ouro insaciável, levam para a morada final as esperanças de seus entes queridos.

O pior de tudo é que os dirigentes de Vale, Museu Nacional, Museu da Independência e Flamengo, e prefeitos que escorcham os munícipes com vultosos impostos (casos do Rio inundado e desprovido de programas públicos eficientes contra inundações e desta Piratininga de viadutos rachados caindo aos pedaços), são beneficiários da pior de todas as ofensas, a impunidade. Os mandachuvas do popular rubro-negro da Gávea, os mesquinhos da mineração que não gastam com segurança nem pagam multas e os gestores públicos e privados que se escondem das penas que deviam pagar em capas de pleonasmos nunca purgarão os seus crimes com vil metal ou perda de liberdade.

A tragédia Brasil tem a agravante de não contar com o deus ex-machina do teatro grego, aquela solução final implausível em que os justos são recompensados e os culpados, punidos. E às vítimas só resta reclamar, em vez de apoiar, aplaudir, glorificar, eleger e até endeusar os vilões que as massacram.

Apóstolos ainda presentes

Estes apóstolos são combatentes, gente de guerrilha que veio sentar-se à mesa da conjura, e no momento em que Hodart chegou estavam no aceso da questão, discutindo se deviam salvar o mundo ou esperar que ele por si próprio se salvasse. Neste ponto estavam e ainda não decidiram
José Saramago, em "Viagem a Portugal", sobre "Os Apóstolos", de Philippe Hodart, no Museu Nacional de Machado de Castro

Um futuro para Brumadinho

De novo em Brumadinho, desta vez para falar de reconstrução, como em Mariana. A cidade tem dois polos: cultura e mineração. O Museu de Inhotim, erguido no meio de um lindo pedaço da Mata Atlântica, pode ser um dínamo desse processo. Recebe 350 mil pessoas por ano e reabriu neste fim de semana. Nele trabalham 600 pessoas.

Se os artistas brasileiros quiserem dar uma força, é possível fazer a cidade transitar da hegemonia da mineração para se tornar um centro cultural. Será preciso apenas esquecer as diferenças ideológicas. Certos temas de união nacional ajudam até a lidar com as divergências.


Não sou especialista em barragens. Os engenheiros pensam coisas claras. Um deles sugeriu que a barragem se rompeu por liquefação. Desde esse momento, levei a serio a hipótese.

Agora, fico sabendo que a barragem de água estava a montante do minério armazenado. Vazava constantemente. A Vale construiu um cano para desviar essa água. Mas será que foi suficiente? Os sensores funcionavam mal, e faltavam cinco deles.

O atestado de estabilidade dado pela empresa alemã TÜV SÜD tratou desse tema. E parece que houve pressão para que os alemães transigissem: ou davam o atestado de estabilidade ou seria rompido o contrato com a Vale.

Indo um pouco adiante, como detetive amador, lembro que a barragem de água estava tão cheia que ameaçou romper após o desastre. No domingo de manhã, a sirene tocou por lá, pelo perigo da barragem de água. Possivelmente, a mesma sirene que silenciou diante do tsunami de lama. Nesse caso, enganada pela insuficiência dos sensores. Diante de tais circunstâncias, não é correto dizer, como disse a Vale, que a barragem de rejeitos era de baixo risco e grande poder de dano. Ela era de alto risco.

Essa é a conclusão de um ignorante esforçado. Quando a Vale disse que o desastre era inexplicável, ela estava de posse de todos os dados, tanto que tentava desviar o curso da água.

Espero que os fatos confirmem esta hipótese, pois, até agora, não consegui ouvir alternativas. Houve uma fake news, na época do desastre, dizendo que explodiram uma bomba. Um venezuelano e um cubano teriam sido presos. E não é que circulou. Os venezuelanos não têm bombas para uso externo: estão à beira de uma guerra civil.

Apesar de tudo, espero que a Vale participe do esforço de reconstrução, sem ambiguidades como em Mariana. Seria aprender a operar num espaço estrategicamente mais valioso que suas minas de ferro.

A entrada de Brumadinho é feinha e encardida. Na cidade, há um conjunto de painéis pintados por artistas brasileiros. Foi uma parceria da Vale com a prefeitura. Os painéis perderam a cor, foram degradados pelo descaso, alguns parecem uma colagem de minério de ferro.

A ideia geral era esta: já que produzimos minério, por que se importar com a beleza? Em outras palavras: já que vai sujar mesmo, por que manter limpo?

Antes do desastre, fui a Brumadinho uma única vez. Na época, para a palestra de fundação do Partido Verde, que hoje, quem diria, é o partido do prefeito. Não o conheço bem. Apenas o entrevistei sobre os fatos correntes. Mas, se pudesse dar um palpite, diria que o futuro de Brumadinho deveria se concentrar numa ideia simples: entra a beleza, sai a feiura.

As mineradoras costumam deixar apenas buracos, quando não levam as montanhas, como levaram o Pico do Cauê, na Itabira de Drummond.

Ter o mais belo museu a céu aberto do mundo e uma estrutura de hotéis e restaurantes sugere o novo caminho, que nem merece ser chamado de economia criativa: é uma decorrência lógica. Seria preciso um novo marco regulatório para exploração de minério numa área onde a cultura tem um grande papel. Brumadinho tem lindas estradas vicinais com áreas preservadas. Os 300 hectares enterrados na lama são apenas uma pequena parte de um município maior do que Belo Horizonte. Seu bairro mais atraente, Casa Branca, está no pé da Serra do Rola Moça, um parque estadual. É um belo roteiro, que pode florescer no futuro.

Em Casa Branca, onde há muitos moradores fugidos do estresse da grande cidade, há um movimento de defesa da águas em permanente choque com a mineração. O que alguns mineradores chamam de Quadrilátero Ferrífero é, na verdade, para os moradores um quadrilátero aquífero.

Há um passado e um futuro para Brumadinho. Hora de virar o jogo.

Tragédia brasileira


Um país que ignora os riscos

O ano mal começou. Ainda é o começo de fevereiro. E estamos contando os mortos em tragédias sucessivas. O fogo mata jovens num centro de jogadores, a chuva desaba deslizando encostas no Rio, uma barragem soterra mais de trezentas pessoas. Muito do que nos infelicita poderia ter sido evitado, principalmente a tragédia de Brumadinho, para a qual, tantos dias depois, a Vale não tem explicação plausível. Em muito do que está atingindo o Brasil há a mesma causa: o desprezo pelo princípio da precaução.

O dia de ontem já começou alarmante. Enquanto o incêndio matava meninos jogadores no Rio, mineiros corriam na madrugada de Barão de Cocais com a sirene disparada. Eles moram perto de uma barragem, e elas são bombas que podem explodir. Brumadinho, tempestade com deslizamentos no Rio e a dolorosa perda dos meninos do Flamengo, tudo em tão pouco tempo mostra de forma aguda como o país tem falhado em proteger os seus.

O princípio da precaução nos ensina que se há um cenário ruim é contra ele que precisamos nos preparar. No Brasil, avisos eloquentes não são ouvidos. Brumadinho nasceu em Mariana. A análise do desastre de três anos atrás deixa claro que a Vale construiu a sua repetição. E não estamos livres de novos horrores como lembraram as sirenes de Barão de Cocais.


Em 2015, nos primeiros dias após o rompimento da Barragem de Fundão, a Vale tentou fingir que o problema era da Samarco. Na hora da reparação, Vale e BHP criaram a Renova e entregaram a ela dinheiro e responsabilidade. Terceirizaram a culpa e a reparação do dano. Por fim, as empresas fecharam um pacto com o MP e os governos, que extinguiu a ação civil pública de R$ 20 bilhões. Segundo a Vale, tudo estava resolvido. Falso. O Rio Doce continua sequelado, os diretamente atingidos não tiveram suas casas reconstruídas, e os outros milhares de afetados permanecem carregando suas dores e seu desamparo.

O que ela podia ter feito diferente? Tudo. A Vale deveria ter iniciado imediatamente a transição para nova tecnologia de barragem com menos risco em todos os casos. Deveria ter desarmado as bombas que são as barragens úmidas, drenando, retirando os rejeitos sólidos e os separando para a reciclagem. Essa tecnologia já está dominada. Era e ainda é o único caminho para resolver estruturalmente o problema.

Dinheiro não faltou à Vale. Seus resultados financeiros mostram que, apesar do prejuízo de 2015, quando houve a tragédia de Mariana, o lucro líquido acumulado nos 10 anos anteriores superou R$ 150 bilhões em valores nominais. E que superaram os R$ 40 bilhões nos três anos após Mariana. A atitude da Vale — das reações em Mariana até o teor dos emails sobre Brumadinho revelados esta semana — é uma lição às avessas. Ensina o que não fazer. Os moradores vizinhos às barragens vivem ameaçados por novos rompimentos. Já não dormem, vigiam sirenes.

O Rio fica sobressaltado a cada chuva. A dolorosa tragédia da Serra, há oito anos, em que morreram 908 pessoas, e as muitas enchentes na capital ensinaram que as encostas deslizam com muita frequência pelos erros da ocupação urbana, pela falta de prevenção, porque o setor público ignora a precaução. Depois de enterrados os mortos, volta tudo ao que era antes. As chuvas serão mais intensas, os ventos, mais violentos. Extremos serão mais frequentes com as mudanças climáticas. Como nos proteger?

São casos diferentes, mas a morte dos meninos jogadores do Flamengo precisa ser bem apurada para ver se eles são vítimas também do descaso e da negligência. As investigações ajudarão a apontar a razão exata, mas o roteiro é sempre o mesmo: estavam dormindo em locais provisórios à espera do definitivo centro de treinamento. O Brasil vive à espera do definitivo. Em Minas, famílias de 182 desaparecidos ainda esperam os corpos dos seus entes queridos, e podem não recebê-los, apesar da emocionante dedicação dos Bombeiros.

Em agosto do ano passado, Fabio Schwartzman afirmou: “o único risco para a Vale é a economia global virar de cabeça para baixo.” Estava errado. O risco não era externo. O perigo maior permanece aqui dentro. A mineração sempre teve uma visão predatória, principalmente nas minas de Minas.

Diariamente o país corre riscos por não se preparar para o que pode ser evitado. E assim vamos chorando mortes prematuras e imaginando o que poderiam ter sido aqueles que nos deixam cedo demais.

Cultura da fartura impulsiona desperdício de alimentos no Brasil

A cultura do "é melhor sobrar do que faltar" impulsiona o desperdício de alimentos no Brasil, aponta uma pesquisa recente realizada pela Embrapa com apoio da Fundação Getúlio Vargas. O gosto pela fartura, desde a ida ao supermercado até o preparo das refeições, e a preferência por comida fresca à mesa faz com que cada brasileiro jogue mais de 40 quilos de comida no lixo por ano.

Além de ser associada à hospitalidade e ao cuidado com a família, a abundância está ligada ao status, aponta o estudo. "O Brasil é um país muito desigual, e a comida sinaliza riqueza. Famílias que enfrentaram pobreza no passado, por exemplo, tendem a gostar de preparar uma mesa farta, como forma de mostrar que vivem tempos melhores", afirma Gustavo Porpino, analista da Embrapa e líder da pesquisa sobre desperdício, realizada no âmbito dos Diálogos Setoriais União Europeia-Brasil.

Ter a despensa sempre abastecida também traz tranquilidade para quem tem baixo poder aquisitivo. Por ser prioridade no orçamento, a comida é comprada e estocada em grandes quantidades para garantir que será suficiente para todo o mês. Contudo, o preparo de porções exageradas e o não reaproveitamento das sobras fazem com que parte da comida vá diretamente para o lixo.

A classe social não é o que determina o desperdício, aponta a pesquisa da Embrapa. "As famílias que desperdiçam pouco não são necessariamente as mais pobres, mas as que adotam hábitos de consumo mais sustentáveis", explica Porpino.

Na prática, são as pessoas que fazem compras menores, preparam lista de compras e reutilizam as sobras em novas refeições. A pesquisa, que ouviu 1.764 pessoas de toas as classes sociais e regiões do país, aponta que quem tem maior consciência sobre o impacto do desperdício no orçamento tende a descartar menos comida.

Segundo o estudo, a família brasileira joga fora quase 130 quilos de comida por ano, uma média de 41,6 quilos por pessoa. Os alimentos que mais vão para o lixo, por percentual do total desperdiçado, são: arroz (22%), carne bovina (20%), feijão (16%) e frango (15%).

Cálculos do Instituto Akatu, ONG voltada ao consumo consciente, indicam que se uma família brasileira que gasta em média 650 reais por mês com alimentos reduzisse pela metade o desperdício com comida e depositasse o valor equivalente (cerca de 90 reais por mês) numa poupança, acumularia cerca de 1 milhão de reais em 70 anos, considerando o rendimento anual.

Além de pesar no bolso, o desperdício prejudica o meio ambiente, pois os recursos utilizados na agricultura para a produção de alimentos, como água, acabam sendo em vão.

"A Fao [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura] estima que se o desperdício de alimentos fosse concentrado em um único país, ele seria o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, depois dos EUA e da China, representando 8% das emissões globais, e o maior usuário de água, ultrapassando a Índia e a China", compara Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu.

Além da renda familiar e de recursos naturais, com o desperdício de alimentos aptos ao consumo vai para o lixo também a oportunidade de alimentar quem sofre com a fome.

"No Brasil, o elevado desperdício de alimentos convive com a insegurança alimentar, uma combinação infeliz para um país onde 22,6% da população enfrenta algum nível de insegurança alimentar e com 54,8 milhões de pessoas vivendo com até 5,5 dólares por dia, linha de pobreza proposta pelo Banco Mundial", comenta Porpino.

A pesquisa sugere que os brasileiros não estão alheios aos malefícios do desperdício. A grande maioria dos entrevistados (94%) tem consciência de que devem evitá-lo. Segundo Porpino, as sobras até são guardadas na geladeira, como forma de aliviar a culpa, mas não são de fato reaproveitadas. Assim, o descarte é apenas procrastinado.

No âmbito internacional, um terço da produção total de alimentos, ou 1,3 bilhão de toneladas, vai para o lixo, o que seria suficiente para alimentar 2 bilhões de pessoas, de acordo com cálculos da Fao. Com base nesse cálculo, é possível estimar que 8,7 milhões de toneladas de comida são desperdiçadas no Brasil, o suficiente para alimentar mais de 13 milhões de pessoas.

Ainda de acordo com o estudo, os números do Brasil o posicionam à frente da maioria dos países europeus. Uma pesquisa da União Europeia publicada em 2017, por exemplo, revelou que na Alemanha, Espanha, Holanda e Hungria são desperdiçados, em média, 439 gramas de comida por domicílio por semana, enquanto no Brasil são 353 gramas por domicílio por dia.

Uma das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas é reduzir pela metade o desperdício per capita de alimentos no mundo até 2030. Segundo Mattar, quantificar o desperdício de alimentos e fortalecer os sistemas de informação sobre a geração e coleta de resíduos em cada país é fundamental para que tal objetivo seja alcançado.

A sacralização do mecanismo político que paralisa o Brasil

Lula e o PT deixaram o poder, e, pelo que estamos vendo, o famoso mecanismo político descrito pelo cineasta José Padilha continua de pé, agora sob outra bandeira política de sinal contrário. Segundo ele, “a corrupção não se dá entre os políticos. É a política”.


Para poder conviver sem remorso com o mecanismo criado pelos políticos para se perpetuarem no poder, foi necessário para Lula e o PT sacralizá-lo em nome de uma causa mais nobre que assim justificasse. E não há nenhuma causa melhor que o serviço às classes mais baixas. Foi o que Lula tentou explicar ao ex-presidente uruguaio José Mujica quando lhe disse que no Brasil “não era possível governar de outro jeito” se quisesse avançar nas conquistas sociais. Segundo Lula, ou se aceitava o mecanismo, ou este acabaria nas mãos de uma direita que o usaria do mesmo jeito, mas se esquecendo da parte mais pobre do país.

Isso explica por que Lula, assim como José Dirceu, insiste ainda hoje em sua inocência no uso desse mecanismo de corrupção ao qual quem não adere fica de fora do festim político. A sacralização do mecanismo se deu metamorfoseando-o para que o dinheiro da corrupção fosse visto como um mal menor para ajudar os deserdados.

Sem dúvida será difícil que o Brasil possa desarmar essa estrutura, porque ela foi não só ideologizada como também até sacralizada. Então, mesmo se Bolsonaro e Moro tivessem o propósito real de desarticular esse mecanismo agora, seria muito difícil para eles, ou inclusive impossível, como já começamos a ver. A força do mecanismo e seu uso por parte praticamente de todas as forças políticas anulariam tal esforço.

O mais triste é que os mais pobres, não podendo compreender a sutileza e perversidade do mecanismo que se justifica pelo bem deles, acabam também por aceitá-lo. É o “rouba, mas faz”. É como se dissessem que não importa que esse mecanismo sirva para perpetuar os políticos no poder, e até enriquecerem pessoalmente. Já interiorizaram que são todos igualmente ladrões, mas que pelo menos os inventores do mecanismo lhes oferecem as migalhas do festim. E voltarão a absolver a direita quando notarem que também ela precisa se render ao mecanismo.

Ainda sob a premissa que sua sacralização possa oferecer alguma melhora para os pobres, ela acaba virando uma armadilha, já que esse mecanismo, que ao se ideologizar se torna intocável, impede que os despossuídos possam sonhar com um país mais livre, capaz de crescer e distribuir a riqueza sem ter que atravessar o túnel escuro dessa corrupção que polui todo o sistema democrático.

O mecanismo impede, por exemplo, que os melhores, os mais preparados e os menos poluídos sejam escolhidos para os cargos públicos como ministros, diretores de estatais ou de agências reguladoras. Nomeados pelo mecanismo, serão obrigados a prestarem adoração a seus sacerdotes, mesmo que à custa de saquear as riquezas da nação, como foi no escândalo da Petrobras.

Quem não se enquadra nas leis internas do mecanismo, não conseguiria sobreviver nele, embora, por descuido, pudesse chegar até ali. Lembro-me de que quando Fernando Haddad era ministro da Educação ouvi no Ministério que ele não era “um petista doc”. Traduzindo, queria dizer que ele não sabia se adaptar bem ao mecanismo.

Vivi de perto as peripécias de Cristovam Buarque quando foi escolhido ministro da Educação do primeiro Governo Lula. Sem dúvida, era quem mais sabia sobre o assunto ao qual havia dedicado boa parte de sua vida. Durou pouco. Lula o demitiu por telefone enquanto viajava na França. Mais tarde, como ele mesmo me contou, Lula explicou-lhe o motivo de sua demissão voando juntos: “É que o Dirceu não quer você como ministro”. Hoje, à luz do mecanismo, quis dizer que Buarque, embora reconhecido internacionalmente como especialista em educação, não se ajustava à doutrina do mecanismo, sinônimo das práticas pouco republicanas sem as quais seria impossível governar no Brasil. E hoje até os eleitores deixaram Buarque fora do poder.

E, no entanto, ou o Brasil quebra esse mecanismo perverso ou continuará no pântano da imobilidade e do desencanto em que se encontra a sociedade, cada dia mais insatisfeita com aqueles que a governam. Uma sociedade que deve compreender que não se trata de partidos melhores ou piores, de políticos e governantes mais ou menos corruptos, mas de desarmar esse mecanismo de raízes tão profundas que atravessa séculos de Governo nos quais, primeiro os escravos, e hoje os pobres, ainda se continua a querer comprar com espelhinhos coloridos como os antigos colonizadores europeus faziam com os indígenas. Acham que mudou tanto?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Janelas para o futuro estão fechadas

A política brasileira quase nunca surpreende, e qualquer absurdo tem precedente. Ainda assim, mesmo quem acompanha sua dinâmica há tempos ficou perdido com os episódios do Senado, logo na abertura da atual legislatura. É dispensável repetir o que se passou e talvez impossível explicar o que ocorreu; no Brasil, a realidade bate, de longe, a ficção. Mas curiosas são as semelhanças entre aquela eleição e a da Presidência da República, ano passado --além das coincidências com o que ocorre pelo mundo.

Como o eleitor comum, os senadores votaram "contra", não "a favor"; o gesto foi, antes, de desamor. Quando é assim, perdem-se rigor e critérios; faz-se opção emocional, pressionada por sentimentos e circunstâncias, sem pesar consequências.

As qualidades do escolhido deixam de ser importantes, desde que seja capaz de derrotar o mal maior -- seja ele o PT ou Renan Calheiros. Os símbolos da tragédia passada precisam ser removidos e não há possibilidade de diálogo, menos ainda de conciliação.


Claro que erros do passado precisam ser cobrados. Mas há exageros, perdendo-se o sentido de complexidade sistêmica que envolve a crise. Culpa-se o status quo pelos males do mundo moderno, sem perceber o status perdido diante de ondas de comunicação e novos processos políticos derivados da transformação tecnológica. Como se fosse possível negar a realidade e a modernidade incômodas, demoniza-se o adversário e substituem-se "ideologias" --o termo voltou à moda-- por outras ainda mais ultrapassadas.

São utopias regressivas, sobretudo, nos costumes; uma fuga para a nostalgia de um passado que retornará apenas como farsa. Um novo tipo de bonapartismo tende a piorar o que já era péssimo. Um otimismo forçado precisa ser sustentado, mas no íntimo suspeita-se que foi um tiro no pé.

Enfim, a despeito de qualquer alerta, a derrota do inimigo é mais comemorada que a vitória de quem ficará responsável pelo Executivo ou Legislativo --o Judiciário parece mais protegido, pelo menos por quanto tempo.

Do novo dirigente não importam o estofo cultural, o entendimento que tenha do mundo, sua biografia e conexões, nem a qualificação para o cargo; suas habilidades políticas mais amplas são ignoradas; não interessam.

Sem liderança, coordenação e condução políticas adequadas, a passagem para o que se imagina ser o futuro eleva muito mais os custos do que processos moderados de transição gradual e negociada --peremptoriamente descartada.

São períodos que geram impasses, o que ocorre agora em vários quadrantes do planeta, como atestam os resultados da Primavera Árabes, do brexit, no Reino Unido, ou da eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos. Não é um muro que se ergue, mas um beco que se forma. Lá estão tanto semelhanças quanto os fantasmas de consequências que parecem não tardar a surgir por aqui.

O fato é que uma massa disforme que representa a parte mais mobilizada e furiosa da opinião pública --sem representar toda a opinião pública-- se arroga como "o povo", num jacobinismo pueril que toma a frente do processo, sem assumir qualquer coordenação da ação coletiva. As lideranças não apenas são atropeladas, como se apequenam e desaparecem. Há pavor em se contrapor ao radicalismo confortável das redes sociais.

O resultado até aqui parece ser a destruição do passado e de seus personagens, como também da política. Não se abrem janelas para o futuro. E, depois de tudo, elas ainda estarão fechadas.

Com pretensos ares de renovação, o "novo" patina em antigos problemas, seja porque a suposta ruptura não traz novidade ou porque sobram inexperiência e inaptidão aos novos agentes.

E quase nunca há saída fácil para esses impasses a não ser purgar erros ao longo dos mandatos, torcendo para que instituições e o tecido social não se esgarcem completamente. Fica-se à espera de que no longo prazo essa destruição possa produzir algo de realmente criativo, antes que estejamos todos mortos de verdade.
Carlos Melo

Para o bem do pais, Bolsonaro precisa superar o antagonismo à imprensa

Não há dúvida de que ainda não foi superado o clima de antagonismo entre a família Bolsonaro e a grande mídia, que jamais foi simpática a uma possível vitória do candidato do nanico PSL. Desde a campanha, Bolsonaro ameaça cortar as verbas publicitárias. E para a imprensa em geral, o jornalismo não é paixão, funciona mais como balcão de negócios.

Sempre foi assim, desde que o inventor chinês Bi Sheng, por volta de 1040, criou os tipos móveis e a prensa a eles adaptada. Cerca de 500 anos depois, o alemão Johannes Gutenberg apenas aperfeiçoou a invenção, desenvolvendo o processo de produção em massa do tipo móvel, com uso de uma tinta à base de óleo e de uma prensa de madeira inspirada na prensa de parafuso que se usava na agricultura.


Nos dias de hoje, tudo mudou e estamos na era da imprensa virtual, em que jornais e revistas estão indo fazer companhia aos livros. Ou seja, não serão extintos, mas seu espaço na comunicação será cada vez menor, e o faturamento, também.

Não há dúvida de que Bolsonaro começou a vencer esta eleição sem auxílio da mídia, que lhe era hostil. Somente depois do esfaqueamento é que houve uma maior simpatia, a candidatura se fortaleceu via comoção popular e ele liquidou a fatura com facilidade no segundo turno.

O antagonismo voltou a se acirrar com o caso do ex-assessor Fabricio Queiroz, que trabalhou para o clã Bolsonaro e declarou ser um “cara de negócios”, mas depois ficou comprovado serem exclusivamente negócios escusos.

A imprensa colocou o caso na berlinda e a família Bolsonaro reagiu, ameaçando cortar verbas publicitárias e tudo o mais. A meu ver, é uma guerra que não interessa ao país, pois o objetivo da imprensa precisar ser informar com transparência, porque não se pode confiar em informação governamental ou empresarial.

No meu dessa briga, que Bolsonaro pai reacendeu nesta terça-feira, ao dizer que está bem de saúde, mas a “militância maldosa” diz o contrário, é hora de trazer as luzes de Marx sobre a liberdade de imprensa. Em um de seus textos como editor da “Gazeta Renana”, ele escreveu:

“A imprensa livre é o olhar onipotente do povo, a confiança personalizada do povo nele mesmo, o vínculo articulado que une o indivíduo ao Estado e ao mundo, a cultura incorporada que transforma lutas materiais em lutas intelectuais e idealiza suas formas brutas. É a franca confissão do povo a si mesmo, e sabemos que o poder da confissão é o de redimir. A imprensa livre é o espelho intelectual no qual o povo se vê, e a visão de si mesmo é a primeira condição da sabedoria”.

Para o bem do país, é preciso superar a rivalidade entre o governo e a imprensa. Caso contrário, aonde iremos parar? É absolutamente necessário que os dois lados refluam em busca do bem comum, que costuma ser chamado de “interesse público”. Apenas isso. Ms quem se interessa?

O retrato do país que 'mais preserva o meio ambiente'

Ocorreu 22 dias depois do presidente Jair Bolsonaro ter transferido a demarcação de terras de povos indígenas para o Ministério da Agricultura, fazendo com que uma área relacionada ao desenvolvimento agrícola supervisionasse terras protegidas; e 25 dias depois de ter anunciado sua intenção de desregulamentar o setor de mineração porque, com as leis atuais, “o ministro de Minas e Energia está amarrado". 

Ocorreu três anos depois do rompimento de uma barragem em Mariana, em Minas Gerais, operada pela mineradora Samarco, controlada pelas mineradoras Vale e BHP Billiton, com uma torrente de 45 milhões de metros cúbicos de resíduos tóxicos, ter causado a morte de 19 pessoas e contaminado 600 quilômetros do rio. 



Ocorreu dois anos e meio depois do procurador da República José Adércio Leite Sampaio ter concluído que a mineradora estava ciente dos problemas estruturais da barragem e que, sem repará-la, mesmo assim aumentou o nível de produção. 

Ocorreu seis meses depois da Vale, três anos após aquela catástrofe, ter aceitado assinar um acordo com o Estado para contribuir para a restauração do meio ambiente e das comunidades afetadas. Ocorreu seis anos depois de, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, a Vale ter doado 15 milhões de dólares para a campanha da maioria dos candidatos às eleições presidenciais de 2014. 

Ocorreu dois meses depois de Bolsonaro ter nomeado Roberto Castello Branco, ex-diretor e economista-chefe da Vale, como presidente da Petrobras. Em 25 de janeiro de 2019, uma barragem da Vale, na cidade de Brumadinho, Minas Gerais, a 120 quilômetros de Mariana, também se rompeu. Doze milhões de metros cúbicos de lama tóxica inundaram 290 hectares, deixando, até o momento, 150 mortos e 182 desaparecidos. Três dias antes, Bolsonaro fez seu primeiro discurso no Fórum de Davos. Disse: "Somos o país que mais preserva o meio ambiente".