terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Mariana, Brumadinho e...

No triste fim de semana passado, lembrei-me de um texto de George Santayana, filósofo e poeta espanhol. Uma das frases é instigante: “...quando a experiência não é retida, como acontece entre os selvagens, a infância é perpétua.”

De fato, três anos após a tragédia de Mariana, apesar das inúmeras advertências da academia, dos ambientalistas e do Ministério Público, o que aprendemos?

Foram 19 mortos e nenhuma condenação; empresas envolvidas em desastres ambientais quitaram apenas 3,4% dos R$ 785 milhões aplicados em multas; das 24.092 barragens cadastradas no país, apenas 3% foram vistoriadas em 2017 e, dentre essas, 723 apresentam riscos de acidentes e danos potenciais altos; famílias que tiveram suas vidas destruídas pelo rompimento da barragem do Fundão (2015) ainda aguardam indenizações, pois o acordo entre a promotoria e as mineradoras foi fechado apenas em outubro do ano passado, quase três anos após a tragédia.

Na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, somente um dos três projetos de lei apresentados pela Comissão Extraordinária de Barragens foi aprovado. Dormem em gavetas os outros dois, que preveem restrições para a construção de barragens e direitos para os atingidos. No Senado, projeto que endurecia a política de segurança de barragens foi arquivado.

Muitas perguntas objetivas continuam sem respostas consistentes: o que foi feito para recuperar o Rio Doce? Quais as medidas adotadas para aprimorar a fiscalização das barragens?

Nesse marasmo irresponsável, lamentavelmente a história se repetiu em Brumadinho. A impunidade em relação ao que ocorreu na barragem do Fundão, em Mariana, é certamente uma das causas da tragédia de Brumadinho. O rompimento da barragem da Vale na Mina do Feijão não foi, obviamente, um acidente ocasional. Em Mariana e Brumadinho, o que ocorreu foram crimes, praticados pelas empresas que negligenciam na construção, manutenção e no monitoramento desses empreendimentos e pela leniência do Estado na concessão de licenciamentos e na fiscalização. Dessa forma, além da indignação e da vergonha que sentimos como brasileiros, precisamos cobrar as punições dos agentes privados e públicos.

O enredo e o filme são conhecidos. As autoridades sobrevoam a área devastada, declararam estado de calamidade e prometem providências e recursos. Os dados orçamentários, porém, também espelham o descaso do poder público.

Conforme dados pesquisados pela Associação Contas Abertas, com base em critérios de um estudo de técnicos do Senado, nos últimos 19 anos (2000 a 2018) dos R$ 444,4 milhões autorizados no Orçamento da União para ações destinadas às barragens, efetivadas pelos ministérios da Integração, Minas e Energia e Meio Ambiente, somente R$ 167,3 milhões (37,6%) foram realmente pagos. Logo após o maior acidente ambiental do país, em Mariana, em 2015, no auge da consternação, o orçamento conjunto das pastas destinado às barragens praticamente dobrou, passando de R$ 62,3 milhões para R$ 121,9 milhões (2016). No entanto, no fim de 2016 o valor efetivamente gasto somou apenas R$ 22,7 milhões, praticamente o mesmo de 2015. Em 2017, o gasto efetivo ficou no mesmo patamar, tendo aumentado para a casa dos R$ 32,8 milhões em 2018. Para 2019, pasmem, o valor autorizado é de apenas R$ 67,9 milhões, praticamente o mesmo de 2015, o ano da tragédia de Mariana!

Para que o leitor tenha uma ideia de quanto são insignificantes esses dispêndios, o valor pago no ano passado (R$ 32,8 milhões) é inferior às despesas da União com festividades e homenagens (R$ 40,4 milhões).

O minguado orçamento para ações relacionadas às barragens é mais uma evidência de que não absorvemos as experiências passadas. Assim, vale a pena reler as frases finais de um parágrafo do texto do espanhol George Santayana, publicado em “A vida da razão” (1905): “...quando a experiência não é retida, como acontece entre os selvagens, a infância é perpétua. Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. Quando irá acontecer a próxima tragédia?

Os supermercados

Angel Boligan
Os supermercados são os palácios dos pobres. Não são só os azarentos e os mal alojados, os que ao longo das gerações foram reduzindo os gastos da imaginação, que frequentam e, de certo modo, vivem o supermercado, as chamadas grandes superfícies. As grandes superfícies com a sua área iluminada e sempre em festa; a concentração dos prazeres correntes, como a alimentação e a imagem oferecida pelo cinema, satisfazem as pequenas ambições do quotidiano. Não há euforia mas há um sentimento de parentesco face às limitações de cada um. 

A chuva e o calor são poupados aos passeantes; a comida ligeira confina com a dieta dos adolescentes; há uma emoção própria que paira nas naves das grandes superfícies. São as catedrais da conveniência, dão a ilusão de que o sol quando nasce é para todos e que a cultura e a segurança estão ao alcance das pequenas bolsas. Não há polícia, há uma paz de transeunte que a cidade já não oferece.
Agustina Bessa-Luís, "Antes do Degelo"

O crime independe de classe

Engana-se quem pensa que tráfico de drogas é exclusividade dos morros, das favelas e das periferias excluídas. Não é de hoje que jovens de classe média e média alta frequentam o noticiário policial. Crimes, vandalismo, espancamento de prostitutas, incineração de mendigos, consumo e tráfico de drogas despertam indignação e perplexidade. O novo mapa do crime transita nos bares badalados, vive nos condomínios fechados, estuda em colégios e universidades da moda e desfibra o caráter no pântano de um consumismo descontrolado.

Frequentemente, operações policiais prendem jovens de classe média vendendo ecstasy, LSD, cocaína, maconha. Segundo a polícia, eles fazem a ligação entre os traficantes e os vendedores de drogas no ambiente universitário.

O tráfico oferece a perspectiva do ganho fácil e do consumo assegurado. E a sensação de impunidade -rico não vai para a cadeia - completa o silogismo da juventude criminosa. A delinquência bem-nascida mobiliza policiais, psicólogos, pais e inúmeros especialistas. O fenômeno, aparentemente surpreendente, é o reflexo de uma cachoeira de equívocos e de uma montanha de omissões.

O novo perfil da criminalidade é o resultado acabado da crise da família, da educação permissiva, do consumismo compulsivo e de setores do negócio do entretenimento que se empenham em apagar qualquer vestígio de normas ou valores. Os pais da geração transgressora têm grande parte da culpa. Choram os desvios que cresceram no terreno fertilizado pela omissão.

É comum que as pessoas se sintam atônitas quando descobrem que um filho consome drogas. Que dirá, então, quando vende. O que se diz, no entanto, é que muitos lares se transformaram em pensões anônimas e vazias. Há, talvez, encontros casuais, mas não há família. O delito não é apenas o reflexo da falência da autoridade familiar. É, frequentemente, um grito de revolta. Os adolescentes, disse alguém, necessitam de pais morais, e não de pais materiais.

Alguns pais não suportam ser incomodados pelas necessidades dos filhos. Educar dá trabalho. E nem todos estão dispostos a assumir as consequências da paternidade. Tentam, então, suprir o vazio afetivo com carros, mesadas e presentes. Erro fatal.

A demissão do exercício da paternidade sempre acaba apresentando sua fatura. A omissão da família está se traduzindo no assustador aumento da delinquência juvenil e no comprometimento, talvez irreversível, de parcelas significativas da nova geração.

Não é difícil imaginar em que ambiente afetivo terão crescido os integrantes do tráfico de classe alta. Artigos, crônicas e debates tentam explicar o fenômeno. Fala-se de tudo, menos do óbvio: a brutal crise que machuca a família. É preciso ter a coragem de fazer o diagnóstico. Caso contrário, assistiremos a uma espiral de delinquência. É só uma questão de tempo.

Psiquiatras, inúmeros, tentam encontrar explicações para os desvios comportamentais nos meandros das patologias. Podem ter razão. Mas nem sempre.

Independentemente de eventuais problemas psíquicos, a grande doença dos nossos dias tem um nome menos técnico, mas mais cruel: desumanização das relações familiares. A delinquência, último estágio da fratura social, é, frequentemente, o epílogo da falência da família.

Teorias politicamente corretas no campo da educação, cultivadas em escolas que fizeram a opção preferencial pela permissividade, também estão apresentando um perverso resultado. Uma legião de desajustados e de delinquentes, crescida à sombra do dogma da tolerância, está mostrando suas garras. Gastou-se muito tempo no combate à vergonha e à culpa, pretendendo que as pessoas se sentissem bem consigo mesmas. O saldo é toda uma geração desorientada e vazia.

A despersonalização da culpa e a certeza da impunidade têm produzido uma onda de infratores e criminosos. A formação do caráter, compatível com o clima de verdadeira liberdade, começa a ganhar contornos de solução válida. É pena que tenhamos de pagar um preço tão alto para redescobrir o óbvio: é preciso saber dizer não!

Impõe-se um choque de bom senso. O erro, independentemente dos argumentos da psicologia da tolerância, deve ser condenado e punido. Chegou para todos, sobretudo para os que temos uma parcela de responsabilidade na formação da opinião pública, a hora da verdade. É necessário ter a coragem de dar nome aos bois. Caso contrário, a delinquência enlouquecida será uma trágica rotina. Colheremos, indefesos, o amargo fruto que a nossa omissão ajudou a semear.

O consumismo desenfreado, tolerado e estimulado pelas famílias, produz uma geração sem limites. O desejo deve ser satisfeito sem intermediação do esforço e do sacrifício. As balizas éticas vão para o espaço. A posse das coisas justifica tudo. É uma juventude criada de costas para o trabalho. O fim da história não é nada bom.

A irresponsabilidade pragmática de alguns setores do negócio do entretenimento fecha o triângulo da delinquência bem-nascida. A exaltação do sucesso sem limites éticos e a consagração da impunidade, marca registrada de algumas novelas e programas de TV, têm colaborado para o crescimento dos desvios de caráter. Apoiados numa leitura equivocada do conceito de liberdade artística e de expressão, alguns programas de televisão exploram as paixões humanas. Ao subestimar a influência negativa da violência ficcional, levam adolescentes ao delírio em shows e programas que promovem uma sucessão de quadros desumanizadores e humilhantes.

Como já escrevi neste espaço opinativo, recuperação da família, educação da vontade, combate à impunidade e entretenimento de qualidade compõem a melhor receita para uma democracia civilizada.
Carlos Alberto Di Franco

Brasil tem pior desempenho em sete anos em índice de corrupção

A pontuação do Brasil no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), divulgado pela Transparência Internacional nesta terça-feira, voltou a recuar e atingiu seu pior patamar desde quando passou a ser possível fazer comparações anuais, em 2012. A ONG classificou o Brasil de "país em observação", alertando para possíveis ameaças a conquistas democráticas no governo do presidente Jair Bolsonaro.

Em 2018, o Brasil despencou nove posições em relação ao ano anterior, ficando em 105º lugar no índice de 180 países. A classificação brasileira apresenta tendência de queda desde 2014, quando o país ocupava a 69ª posição.


Para a Transparência Internacional, os esforços contra a corrupção no Brasil, como a operação Lava Jato, foram notáveis, mas não representam uma resposta às causas estruturais do problema. "Para o país efetivamente avançar e mudar de patamar no controle da corrupção, são necessárias reformas legais e institucionais que verdadeiramente alterem as condições que perpetuam a corrupção sistêmica no Brasil", afirmou a ONG.

A escala do IPC vai de zero (altamente corrupto) a 100 (muito íntegro). No índice divulgado nesta terça, relativo a 2018, o Brasil ficou com pontuação 35, pior resultado em sete anos e bastante aquém de outros países da região, como Uruguai (70 pontos, na 23ª posição) e Chile (67 pontos, na 27ª posição).

"Em meio a promessas de acabar com a corrupção, o novo presidente deixou claro que vai governar com pulso firme, ameaçando muitas das conquistas democráticas alcançadas pelo país", disse a ONG em referência ao governo de Bolsonaro.

"É muito mais provável que a corrupção floresça quando os fundamentos democráticos estão enfraquecidos e, como temos visto em muitos países, onde políticos antidemocráticos e populistas podem usar isso para sua vantagem", afirmou a diretora da Transparência Internacional, Delia Ferreira Rubio.

A Transparência Internacional afirma que índices elevados de corrupção podem contribuir para um maior apoio a candidatos populistas.

Assim como o Brasil, os Estados Unidos também foram mencionados entre os países em observação pela entidade. Ambos foram apontados como exemplos de países onde "líderes populistas fizeram campanha contra a corrupção, mas agora ameaçam minar as instituições que foram eleitos para representar, abrindo caminho para mais corrupção".

Os EUA ficaram com uma pontuação de 71 e na 22ª posição no IPC, tendo deixado pela primeira vez desde 2011 a fazer parte da lista dos 20 países mais bem colocados no índice.

Segundo a ONG, o sistema de checagem do poder público vem sendo ameaçado nos EUA, o que se soma à "erosão de normas éticas nas esferas mais altas de poder".

Contudo, Brasil e EUA não são os únicos motivos de preocupação. Mais de dois terços dos 180 países avaliados pela Transparência Internacional ficaram com pontuação abaixo de 50, sendo que, desde 2012, apenas 20 países tiveram melhora substancial nas suas posições.

"O fracasso contínuo da maioria dos países em controlar a corrupção de forma significativa está contribuindo para uma crise da democracia ao redor do mundo", disse a ONG.

Somália (pontuação 10), Sudão do Sul (13) e Síria (13) foram os países com o pior desempenho, enquanto, na outra ponta, Dinamarca (88 pontos), Nova Zelândia (87) e Finlândia (85), Cingapura (85), Suécia (85) e Suíça (85) foram os que melhor pontuaram no índice em 2018.

O IPC mede como a corrupção no setor público é percebida por empresários e especialistas em cada país – sem levar em conta dados quantitativos, como o montante de dinheiro desviado, e sem medir se, na prática, o problema se agravou ou não na região. O índice de 2018 foi calculado utilizando 13 fontes de dados de instituições que capturam percepções de corrupção.

Para alcançar progresso real contra a corrupção e fortalecer a democracia, a Transparência Internacional recomendou que governos ao redor do mundo fortaleçam instituições de checagem do sistema político; reduzam a distância entre a legislação anticorrupcão, a prática e a fiscalização; além de apoiar organizações da sociedade civil e uma mídia livre e independente.
Deutsche Welle

Imagem do Dia

Meineke Reinders

O valor do silêncio do general calado

A eleição de Jair Bolsonaro propagou o vírus da anarquia militar. Aqui e ali ouve-se falar em “núcleo militar” influindo no governo e “desconforto” fora dele. Desde que o presidente disse ao ex-comandante do Exército que “o que nós já conversamos morrerá aqui”, disseminou-se a curiosidade em torno do que conversaram. O fato da vida é que, para impedir-se a eleição de um candidato do PT, com suas obras e suas pompas, levou-se ao Planalto um capitão de pouca disciplina que, em 1988, baldeou-se para a atividade parlamentar. Ele levou na vice um general de quatro estrelas (da reserva) que anos antes perdera o comando das tropas do Sul por ter feito um discurso político.

O general tal acha isso, o general qual acha aquilo. Falta registrar que todos os militares que ocupam cargos civis estão na reserva e comandam apenas poderosas mesas. Chefe militar acha, mas não fala. Ninguém ouviu uma só palavra do general Enzo Peri, que comandou o Exército de 2007 a 2015. O mesmo se pode dizer de Gleuber Vieira, comandante de 1999 a 2003. Ambos tipificam o general calado. Não falavam antes de assumir o comando, nem falaram depois. O general calado é um enigma em si mesmo. Move-se dentro das normas da corporação. Manda, mas não fala, mesmo em épocas em que falam generais que não mandam ou, pelo menos, não mandam tanto quanto se pensa. Olhando-se para trás, é fácil ver o peso do general calado.

Castelo Branco só falou em março de 1964, dias antes da deposição do presidente João Goulart. Emílio Médici foi o silêncio da orquestra e chegou à Presidência sem dizer uma palavra fora das reuniões de generais. Os irmãos Geisel, Orlando e Ernesto, nunca falaram.

O general Euler Bentes, que em 1978 foi candidato a presidente pelo MDB (o de Ulysses e Franco Montoro, não o que está aí) nunca falou enquanto esteve na ativa. Derrotado, retirou-se no seu “Sítio do Pica Pau Amarelo” e morreu em 2002. Seu curto necrológio foi publicado abaixo da notícia da morte de “Mocinha”, a inesquecível porta-bandeira da Mangueira.

No ocaso da ditadura e da anarquia militar, havia alguns generais falantes, mas ninguém se lembra, por exemplo, de Ademar Costa Machado e de Jorge de Sá Pinho. Estavam no Alto Comando que barrou as bruxarias da anarquia e garantiu a eleição de Tancredo Neves (pode ser verdadeira a história segundo a qual Tancredo pediu para conversar com Costa Machado, a quem queria colocar no governo. Ele pediu que se encaminhasse a solicitação ao Ministério do Exército). Para dançar um tango e para alimentar a anarquia, não basta um militar, mesmo que seja da reserva. É indispensável uma vivandeira paisana. Durante a campanha eleitoral do ano passado, um general organizou uma reunião para ouvir uma palestra de paisano sobre obras de infraestrutura. Na sessão de perguntas, um oficial quis saber qual dos dois candidatos a presidente teria mais qualificações para tocar o assunto. O comandante da guarnição pediu que a pergunta fosse ignorada e que o oficial saísse da sala.

Ouvir o silêncio do general calado é tarefa impossível, mas uma coisa é certa: ouvir as falas dos generais da reserva em funções civis ou mesmo fora delas, como se falassem pelos quartéis, estimula a anarquia, embaralha os problemas e confunde a audiência. dos movimentos do “Mestre” também conhecido como “Cardeal”.

Nos últimos meses de 1963, teve pelo menos três conversas com o embaixador americano Lincoln Gordon, que via nele um conselheiro e redator de discursos do presidente João Goulart. Serpa testemunhou o ocaso de Jango na madrugada de 1ª de abril de 1964. Em julho, encontrou-se com o general Golbery do Couto e Silva, estrela da ditadura nascente. Anos depois, frequentava o gabinete de um coronel da confiança do general Emílio Médici. Em 1969, ao ser nomeado para a Presidência, o general fez um discurso oferecendo-se para praticar um “jogo da verdade” e restabelecer a democracia. Quem escreveu? Jorge Serpa (mais tarde, Médici defenestrou o coronel para liquidar a influência daquilo que o SNI chamava de “Grupo Serpa”).

O poderoso Jorge Serpa baixou à sepultura no cemitério São João Batista na terça-feira. Havia menos de dez pessoas na cena.

Política

Política é aquela atividade em que uns falam dos outros e todos estão certos em tudo que dizem
Raul Drewnick 

Tragédia provoca guinada ambiental no governo

O Diário Oficial da União publica em sua edição desta terça-feira resolução que representa uma guinada nos planos do governo de acabar com o que Jair Bolsonaro batizou de "indústria das multas", suavizando as normas ambientais para instalação e funcionamento de empreendimentos privados. A resolução recomenda aos órgãos de controle a fiscalização imediata de todas as barragens do país que representam riscos à população. A iniciativa é do conselho interministerial criado por Bolsonaro para reagir ao desastre de Brumadinho (MG).


Na campanha eleitoral, Bolsonaro esgrimira discurso anti-ambientalista. No varejo, defendera o estímulo a setores como mineração e agronegócio. Ambos prosperam testando a capacidade do Estado de conciliar interesses empresariais e respeito ao meio ambiente. No atacado, Bolsonaro defendera a flexibilização das regras sobre o licenciamento ambiental. Queria &quot;tirar o Estado do cangote&quot; dos empreendedores. Sob a coordenação da Casa Civil da Presidência, o grupo criado depois do estouro da barragem de Brumadinho opera não para soltar, mas puxar as rédeas.</p><p>

Além da fiscalização das barragens, a portaria determina que os órgãos de controle exijam das empresas a atualização dos seus planos para assegurar a segurança das barragens. Recomenda também a remoção de instalações erguidas em áreas do empreendimento que submetam trabalhadores e visitantes a riscos em caso de acidente. Essa providência foi inspirada pelo refeitório que a Vale instalou na rota da lama vertida por sua unidade de Brumadinho. Um número ainda não contabilizado de empregados da mineradora foram soterrados enquanto almoçavam.

Uma segunda portaria da comissão interministerial cria um grupo de trabalho incumbido de sugerir mudanças na lei de 2010 que instituiu a Política Nacional de Segurança de Barragens. Há no Congresso meia dúzia de projetos com o mesmo propósito —um no Senado e pelo menos cinco na Câmara. Foram apresentados nas pegadas do desastre de Mariana (MG), em 2015. O lobby das mineradoras impediu que chegassem à pauta de votações. Súbito, o Planalto intessou-se pela matéria.

A substituição do ânimo liberalizante pelo ímpeto intervencionista levou o governo a analisar a sério a hipótese de articular a destituição da diretoria da mineradora Vale. Mais: autoridades como o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, passaram a defender que a Vale e demais mineradoras substituam as barragens de contenção de rejeitos, como a de Brumadinho, por instalações mais modernas e menos sujeitas a desastres.

Antes, o governo parecia observar as transgressões ambientais como se considerasse que não adiantava chorar o leite derramado. Isso significava que não se deveria ficar lamentando eventuais descalabros e procurando culpados. Em vez disso, planejava-se asfixiar a fiscalização e oferecer rotas de fuga aos empreendedores.

Agora, empurrado pela comoção social provocada pelos cadáveres que os telejornais despejam no tapete da sala desde a noite de sexta-feira, o governo age como se considerasse essencial saber quem derramou o leite —ou a lama—, por quê, em cima de quem e em que circunstâncias, para que Brumadinho, uma reincidência de Mariana, não se repita pela terceira vez.

É a lama

O que há em comum, além da cafajestice, entre o PSOL insinuar que Flávio Bolsonaro tem parte na morte de Marielle Franco e o clã Bolsonaro sugerir que Jean Wyllys está envolvido no atentado do Adélio Bispo contra a vida de Bolsonaro? Brumadinho. Brumadinho, Mariana, o levante dos criminosos no Ceará e outros flagrantes de não civilização mantêm o país integrado, fazem-no um só. Esqueçam a cópula incessante entre os primitivismos contrários e complementares, a língua portuguesa maltratada, a bandeira e outros símbolos nacionais, o Carnaval que nos anestesia ou nos incendeia por uma semana, o almoço de domingo na casa da sogra, o saci no bambual e o curupira indo quando está voltando, a malemolência do brasileiro e a ginga da brasileira: o que nos torna e nos mantém brasileiros é o desmoronamento que nos joga na lama que provoca o desmoronamento. Uma sina? Sim, enquanto o poder público, em conluio com elites depravadas por descaso e ganância, não tratar Mariana e Brumadinho com cadeia para os chefões de multinacionais. Mas não temos essa tradição por aqui, tudo se restringindo à comoção e discurseira.

Assim, o Brasil, sai governo-entra governo, desmorona em torno de si e se distrai com os próprios escombros discutindo a poeira que se ergue até que ela assente. Conseguimos a façanha de combinar lama e poeira: com o Brasil ninguém pode! O país desmorona, desmorona até que chega um dia em que continua desmoronando. Nesta terra-lama sem Estado em que nunca faltou governo para nosso desgoverno consumado na ausência de políticas públicas, discutimos se o desmoronamento é de direita ou de esquerda, como se o PT - a manifestação perfeita de negligência com a coisa pública, mas não seu inventor - tivesse reinado 13 anos por ser de esquerda, e não porque ancorado no carisma do jeca, na fraude multiforme, no roubo profundo e nos bons resultados da Economia dos primeiros anos da era petista.

Era da qual, sempre cobertos de poeira, saímos ainda divididos em coxinhas, mortadelas, isentões, bonsominions, esquerdopatas, bolsopatas, direitopatas, imprensa-extrema, armamentistas, desamarmentistas, órfãos do Amoedo, viúvas do Alckmin, para entrarmos na anunciada nova era assim divididos porque seu líder aposta na estratégia infértil - a continuidade beligerante da divisão dos empoeirados em que a poeira se torna um vício por meio do qual evitamos a terrível contemplação do desmoronamento - para enfrentar o inimigo imaginário: o dragão extinto do comunismo. Nem sequer há o cadáver imaginário desse inimigo que nunca nos ameaçou nos últimos 50 anos, há sim o Estadossauro Rex - o fardo de um Estado sequestrado por corporações cujo custo demolidor traduz a única forma da presença do Estado: é o privilegismo-estadismo, a ideologia-mãe nesse rascunho de nação.

Vi uma mulher com a perna quebrada ser resgatada da lama em Brumadinho. Fisicamente distante da lama, sem parentes queridos sumidos na tragédia, na segurança da minha casa, não faço ideia do que aquela mulher está passando, mas me vi na lama com ela de onde foi resgatada e de onde não sai. Não saímos. Estamos todos lá, olhem bem, é um espelho esta nova tragédia antiga, a cotidiana e histórica: nos vemos todos nessa lama do atraso. Coxinhas, mortadelas, bolsomínios, isentões, mídia-comprada-vendida, todos nós em nossas caixinhas voluntárias ou atribuídas, estamos lá. Vi o presidente agir corretamente quanto ao crime em Brumadinho; Bolsonaro agiu com rapidez, montou um gabinete de crise e se fez presente. Mas vi também o tweet em que esse presidente correto desmorona ao postar "mistérios" sobre Adélio Bispo e aquele tenebroso 6 de setembro.

Ele tem direito a questionar, mas que o faça pela via institucional: deixe que de Adélio a Justiça cuida, ou o presidente não confia em seu Ministro da Justiça sob o qual a Polícia Federal trabalha? Levar isso às redes sociais revolve a lama em que escumalhas contrárias disputam, uma dando sentido à outra. Para que senão maquiar o vazio deixado pelo desmoronamento da noção de governo, Estado e sociedade? Bolsonaro não disputa mais nada: venceu, sobreviveu e foi eleito para governar, não para arrastar a instituição da Presidência à latrina das redes sociais onde não faltam bajuladores num patético campeonato de sabujice tão sabotador quanto a crítica hipócrita financiada por quem nos roubou.

E daí? Nada, cada um escolha como se mover na lama, ao presidente cabe jamais perder de vista que 14 milhões de desempregados migraram da era petista à espera não de seus tuítes dirigidos perigosamente pelos dois filhos mais novos bêbados de primitivismo, mas de suas decisões contra o Estadossauro, o confronto real que interromperá o desmoronamento e a lama que têm nos constituído como nação e formado uma visão de mundo. Quem pode travá-lo é o presidente que reagiu a Brumadinho, não o governante caricaturado pelo filho bolsonarismo nas redes sociais.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

O Brasil é redondo

Durante séculos, os navegantes tinham razão em evitar o oceano, por causa dos limites da Terra plana. Tinham razão, mas estavam errados, porque a Terra era redonda. Estamos fazendo o mesmo no Brasil: enfrentamos nossos problemas sem perceber que as soluções propostas são baseadas em ilusões. Nossa democracia precisa redondear o Brasil, buscando soluções que combinem a razão imediatista dos eleitores com a lógica necessária ao enfrentamento de nossos problemas. Diante de tanta violência e do descrédito da polícia, o eleitor tem razão em querer armas para se defender. Mas, apesar da razão, o eleitor está errado, porque estas mudanças não levarão ao fim da violência.

A razão de que mais armas diminui violência se baseia em falsas premissas, como ao dizer-se, olhando para o horizonte, que a Terra é plana. O argumento de que as armas irão apenas para as mãos dos homens de bem não se sustenta, porque antes do primeiro crime os atuais bandidos tinham bons antecedentes. Com mais armas nas mãos, disputas entre vizinhos com bons antecedentes poderão se transformar em guerras, quando eles puderem usar as armas guardadas em casa; a raiva transforma a posse em porte, automaticamente, mesmo que ilegal. O direito à posse vai levar os bandidos a assaltarem casas de bons cidadãos em busca de armas, em vez de dinheiro; diante do risco de uma arma guardada, entrarão atirando. A generalização da posse de armas vai provocar duelos dos cidadãos de bem reagindo ao assaltante que entrará atirando.

O mesmo serve para a redução da maioridade penal. Tem razão o eleitor em não se conformar com um delinquente juvenil matar e continuar solto: impune e ameaçando. Mas universalizar a redução da maioridade pode ampliar a criminalidade: a cadeia será a universidade dos pequenos delinquentes para depois cometerem crimes maiores. A solução é construir uma sociedade pacífica sem armas nem raiva; graças a um longo projeto de pacificação nacional, onde o principal vetor será a educação. Para enfrentar a violência imediata, é preciso fortalecer a polícia, valorizar o policial. Ao armar a população, estamos passando a mensagem de que a polícia é ineficiente, incompetente e desnecessária. Isto é como ver a Terra plana, olhando apenas para o horizonte.

A diferença entre a “razão” e o “certo” também aparece nos demais problemas. Queremos resolver os problemas do desemprego, da concentração de renda, da baixa produtividade, da persistência da pobreza, mas, no lugar de iniciarmos o processo de redondear o Brasil por meio da necessária revolução — para termos uma educação de base com qualidade e igual para todos —, preferimos soluções simplistas. O problema é que, para redondear os problemas, seria preciso eleger políticos que acreditem que o Brasil é complexo, é redondo, e digam isso aos eleitores, desde a campanha. Mas para o eleitor é mais obvio e crédulo ver o Brasil plano e votar com a razão do horizonte curto, mesmo que as propostas escolhidas não resolvam, mas iludam, como a visão da Terra plana iludiu por milênios.
Cristovam Buarque

A pessoa sem nome

Na minha cidade natal nos Açores, havia uma pessoa sem-abrigo, quando ainda era eu criança e passava o tempo a correr na rua com o meu cão amarelo de nome "Jáki". Esse senhor era a única pessoa em situação de sem-abrigo, um gigante de barbas e vestes compridas até aos pés, que vagueava pelas ruas sozinho em silêncio. A maior marca de imagem desta pessoa era um bastão que o apoiava no andar, como se de um velho mago se tratasse. Ele sempre me fascinou durante a minha infância, mas ninguém me dizia nada sobre ele e eu nada sabia dele. Eu devia ter oito anos, ou talvez nove ou dez, na realidade não sei bem situar-me no tempo.

Naquela altura, em criança, não percebia bem estas coisas da pobreza e da riqueza. Sabia que os meus vizinhos da frente, do lado e do outro lado eram todos ricos, pois tinham umas casas grandes, ao contrário da minha. Sabia que as crianças do orfanato perto da minha casa eram pobres, pois não tinham família e vestiam roupa usada. E depois havia esse homem que nem casa nem nome tinha. Na minha pouca sabedoria de criança, decidi que o queria ajudar! Assim fui ter com a minha mãe e disse:

- "Mãe quero ajudar aquele senhor."

- "Filho, podes levar comida."

Comida. Isso mesmo! Levar comida, pois ele precisa de comer, deve ter fome! Enchi um saco de pão e levei. Corri ferozmente pela rua como se tivesse encontrado o sentido da vida. Quando lá cheguei, parei e fiquei a olhar para ele, como um anão olha para um gigante. O sentido da vida estava assim mais para o congelado.

- Que queres, disse ele num tom rouco e forte.

- Aah, trago comida...

- É pão?

- Sim...

- Então deixa aí (no mesmo tom rouco e com o olhar desviado).

Deixei o saco de pão e corri para casa como se tivesse ganho um bilhete de regresso à realidade. Qual sentido da vida? Perdi-o logo! O pior é que não tinha percebido nada daquilo e no caminho vim a pensar que aquele homem não queria pão. Essa era uma imagem tão forte na minha cabeça que rapidamente se transformou numa pergunta: "Mas o que quereria ele?". No fim de tudo isto e mais do que tudo, mais do que ajudá-lo, mais do que sentir que fui útil, mais do que qualquer grandeza, senti que o humilhei, dando-lhe aquele pão seco.

Não sei quando vi essa pessoa pela última vez. Talvez dias depois, talvez nunca mais, mas o sentimento acompanhou-me ao longo da minha vida até ao dia em que escrevo este texto. É muito fácil humilharmos as pessoas mesmo com a melhor vitalidade solidária. Mas não há nenhuma dignidade na pobreza nem numa caridade desempoderadora (a chamada "caridadezinha"), ainda muito presente em nós e nas nossas organizações. Os pobres são como que adotados nesta caridade que lhes retira, muitas vezes, qualquer réstia de identidade. Por vezes nem o nome sabemos e se o sabemos pronunciamos com um tom condescendente e infantil. E quando alguém almeja mais do que uma sopa e um canto para dormir, é pobre e mal-agradecido, dizemos com facilidade.

Esta expressão ainda ecoa bem na nossa consciência coletiva enquanto sociedade e quando confrontados com pessoas que, apesar da sua situação de pobreza, ainda querem ser alguém, querem ter escolhas e mostram que tem desejos, como eu e o leitor. É bom ter desejos e sonhos, mostrar que os temos e lutar por eles. É bem mais importante isso do que o pão seco que eu pensava dar àquele homem todos os dias. É isso que nos tira da pobreza.

Então, e por fim, respondendo à questão "o que quereria ele?", encontrei a resposta perguntando a mim mesmo "o que quero eu para mim".

Duarte Paiva

Será isso Pátria?


Brasil na lama e em ruínas

Faz mais de cinco anos, a gente tem a impressão de que o Brasil está em ruína progressiva. O sabor político do sentimento depende do gosto ideológico do freguês. Quanto ao sentido literal da expressão “ruína”, há sinais e sintomas evidentes de que o país está caindo aos pedaços.


Por exemplo, qualquer pessoa sensata vai se perguntar como é possível que se repita em três anos um horror como esse das barragens de Minas Gerais, essa desgraça revoltante na represa de lixo da Vale. Mas a coisa já ia longe.

A gente está com a pulga atrás da orelha de uma cabeça com cabelos em pé, aqui em São Paulo. Há notícias em série sobre o mau estado das pontes e dos viadutos da capital do estado mais rico e mais cheio de universidades de ponta do país.

No final do ano passado, um viaduto da marginal do Pinheiros cedeu e foi interditado. Na semana que passou, foi a vez de um viaduto que liga a marginal do Tietê à Via Dutra.

Oito pontes e viadutos vão passar por vistoria de emergência, entre eles duas pontes sobre a marginal do Tietê.

As marginais são uma das duas grandes vias de circulação expressa e de saída da cidade. Se param, a cidade não consegue chegar nem na breca.

Problema local? Hum.

O investimento do setor público, a despesa em “obras”, afunda mais que viaduto paulistano. Na soma dos gastos dos governos federal, estaduais e municipais, o investimento médio de 2015 a 2017 baixou 36,6% em relação à média dos anos “bons” de 2004 a 2013.

Baixou em termos relativos, em proporção do PIB, um desastre (estas contas são baseadas nas séries de investimento calculadas pelos economistas Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti, do Ipea).

O investimento é insuficiente para manter e reparar a infraestrutura, segundo os especialistas (é menor que a depreciação). A baixa é brutal nos governos estaduais, o dobro da queda relativa do investimento feito pelo governo federal e pelos municípios.

Em português claro, isso quer dizer que não há dinheiro suficiente para manter, que dirá melhorar, estradas, pontes, viadutos, açudes, barragens etc. O país está apodrecendo fisicamente.

Para piorar, sem obras novas ou consertos, a economia demora a se recuperar. A construção civil foi o grande setor mais desgraçado da economia durante a recessão. Parou de piorar, mal e mal, apenas no ano passado.

Além da falta de dinheiro, escassearam vergonha na cara e competências. Convém lembrar que as maiores empreiteiras eram comandadas por gângsteres, máfias que compravam governos, leis etc. Sabe-se lá mais o que aprontaram.

Desconhece-se o motivo da nova desgraça mineira, mas sabemos de algumas coisas:

1) leis ambientais rigorosas não faltam; há baderna ou coisa pior na fiscalização;

2) muita gente e negócios estão no rastro possível do vômito letal dessas barragens que se esboroam;

3) não há meios de avisar essa gente que fica no caminho do mar de lama tóxica ou modo de tirá-las de lá a tempo. Quando acontece um desastre, por acidente ou incompetência criminosa (a ver), as pessoas morrem como vítimas de bala perdida nos tiroteios das metrópoles brasileiras. Isso é descaso.

Incúria, corrupções, burrices e ignorâncias brasileiras básicas e, ainda pior agora, a falta de dinheiro devem nos deixar mais alertas. Alguém ainda se lembra da desgraça, da tristeza infinita, do Museu Nacional? A queima da memória brasileira, a ponte que caiu ou a lama da mineração podem ser sintomas de coisa pior.

Palhaçada de lá para palhaços de cá

Tenho a impressão de que ainda não perceberam a seriedade do que é exercer um cargo, a seriedade do momento que a gente está atravessando, a expectativa que o País colocou em cima dessas pessoas.
 
Não foi uma eleição como outra qualquer. Foi uma eleição que veio depois de um sofrimento. E esse pessoal está com palhaçada. É muito grave. Eu não tenho como dizer que não estou preocupada
Janaína Paschoal, deputada PSL-SP 

'Aqueles que governam baseados no medo se valem de ideias retrógradas'

Quando criança, me mudei algumas vezes de Havana. Meu pai era diplomata e vice-ministro de Fidel Castro. Em 1979, depois de morar em Paris, Líbano e Panamá, voltamos para Cuba. Mas meu ativismo começou mesmo quando fui morar em Chicago, em 2001. Descobri a rica história ativista daquela cidade e, ao ver que todos lutavam por seus direitos, entendi o verdadeiro sentido de uma manifestação pública, porque em Cuba o governo se apropriou do ativismo e o converteu em subserviência.


Meu trabalho artístico sempre foi um ato de rebeldia contra o que me parecia injusto e uma maneira de conectar passado e presente. Em 2009, criei uma instalação na Bienal de Havana em que deixava um microfone aberto para que qualquer pessoa pudesse exercitar ali seu direito de liberdade de expressão. O governo cubano fechou minha instalação, e foi quando me dei conta do poder ativista que a arte poderia ter.

Foi também quando comecei a ser perseguida pelo governo sistematicamente. A primeira prisão ocorreu em 2014. Fazíamos uma manifestação pública, e fui detida e solta três vezes. Depois, fui presa novamente em 2015. Agora, em dezembro do ano passado, foram quatro prisões em quatro dias. Era presa de manhã e solta à noite. Esta é a tática do governo cubano: fazer detenções de curto prazo, para que não possam ser registradas como prisões, de acordo com a lei. E então o governo pode dizer nas Nações Unidas e em outros organismos internacionais que não houve prisões em Cuba por motivos políticos. Não importa se você ficou dez dias entrando e saindo da cadeia. Não importa se sua família não sabe onde você está ou que a delegacia negue que você está detida quando lhe procuram.

Foi assim que me prenderam quatro vezes em quatro dias no mês passado. Na primeira detenção, eles me pegaram na esquina de casa. Um grupo de artistas havia decidido ir para a porta do Ministério da Cultura protestar contra o Decreto 349, uma regulamentação do governo cubano que prevê, em resumo, que as obras de arte sejam aprovadas pelo Ministério da Cultura antes de ser expostas ou antes de entrar em circulação. Nós todos sabemos que o que é autorizado em Cuba passa pelo filtro político, e as autorizações são dadas aos que estão alinhados com as políticas oficiais. Há uma longa história de censura de artistas em Cuba, e o Decreto 349 legaliza isso. Pois resolvemos nos manifestar contra isso, mas, naquele primeiro dia de protestos, eu decidi que não iria até o Ministério da Cultura. Queria que o ato desse visibilidade para aqueles que estavam na campanha antes de mim. Mas fui pega já na esquina de casa, e não adiantou dizer que não iria ao protesto. Eles me colocaram dentro de um carro e me detiveram até tarde da noite.

Quando me soltaram, perguntei se havia outros na prisão. Não me responderam, porque sabem que, para mim, uma ativista, é inaceitável saber que há outro ativista preso. Naquela mesma noite, já em casa, liguei para um contato na imprensa e confirmei que havia outros prisioneiros. Na manhã seguinte, vesti a camiseta impressa com a frase “Não ao 349” e fui para o Ministério da Cultura sozinha. Quando cheguei, um grupo de pessoas, vestidas em trajes civis, estava me esperando, e uma delas tinha um grande pano para cobrir a mensagem da minha camiseta. Duas mulheres me agarraram violentamente, e pedi que não houvesse violência, já que eu não estava resistindo. Mas me tiraram o celular, me revistaram como a um criminoso comum e me colocaram em um carro da polícia.

Sempre que sou detida, deixo de comer ou beber água. Da primeira vez, isso aconteceu espontaneamente: eu estava tão chateada com a injustiça que sofríamos que comer não passava por meu pensamento. Foi quando eu percebi que a injustiça tem uma manifestação física, não é apenas uma ideia, um conceito, mas algo a que todo o seu corpo responde. Sei que para muitos é difícil entender e que alguns até rejeitam (a greve de fome),mas, quando você não tem nenhum amparo da lei, é a única maneira de comunicar que suas ideias são mais importantes do que qualquer outra coisa em sua vida.

Em Cuba, você não tem direito a um advogado quando é preso. E, pior, quando você pede um, eles respondem com grande sarcasmo que “você vê muitos filmes americanos”. Também não permitem que você faça chamadas telefônicas. Essa é a parte mais angustiante, porque a gente sabe que é um momento difícil para a família, que ela sofre mais. Você está de fato disposto a fazer tudo por suas ideias, mas a família, mesmo que as apoie, não quer lhe perder.

Depois de um tempo trancada na viatura, quase sem ar, dois coronéis das Forças Armadas chegaram e, fazendo o papel de “policiais bons”, tentaram me convencer de que tudo ficaria bem. Foi um pouco irônica a primeira frase que eles disseram: “Você viu como nós mudamos?”.

É algo que os agentes do governo dizem agora, com a intenção de indicar que há uma democracia em Cuba. “Você pensa do seu jeito, e nós pensamos do nosso jeito”, continuaram, ao que eu respondi: “Mas estou neste carro com dois coronéis do Estado e não posso sair justamente por causa de meu modo de pensar. Seu argumento é um pouco ridículo dadas as circunstâncias”. Eu percebi que o mais ridículo é que eles e as pessoas do governo acreditam que basta mencionar a palavra “democracia” para que ela exista, ou melhor, para que todos pensem que existe uma democracia em Cuba.

Democracia não é uma palavra, é uma forma de agir e ser e inclui, por exemplo, o direito ao protesto pacífico. Tenho uma carreira artística de 25 anos, que o governo cubano sempre “esquece” de contar, ao me apresentar como uma artista “improvisada”, alguém que apareceu de repente. Mas não conseguem. Sigo fazendo minha arte e tento exigir dela o mesmo que exijo da política: que transgrida.

Há alguns anos, um movimento artístico independente vem crescendo e já é muito forte. Hoje, o maior número de filmes cubanos apresentados ao Festival de Cinema foi feito de forma independente. Espaços privados para a arte proliferam, e os artistas preferem expor lá do que em instituições oficiais. Há mais de uma companhia de dança e teatro que fazem seus trabalhos sem pedir espaço ou permissão do governo. Essa é a verdadeira razão pela qual o Decreto 349 foi criado, porque o Ministério da Cultura falhou em sua missão de controlar artistas.

A relação entre arte e governo está em constante diálogo desde o triunfo da Revolução Cubana. Nos anos 60, a arte manifestou a esperança de uma nova sociedade e, portanto, houve uma grande experimentação formal e de conteúdo que se moveu entre realidade e utopia, com grande fervor. Uma revolução é um ato de criatividade inebriante, onde quer que aconteça, e atrai quem a vive e quem a observa. Nos anos 70, a arte tornou-se uma arma da revolução, e a criação parecia servir de propaganda. A censura aberta começou a funcionar contra qualquer arte que não servia aos propósitos do governo. Nos anos 80, surgiu um novo grupo de artistas, com autoconfiança. A perestroika chegou e os influenciou, e a constante censura fez com que deixassem o país em massa. Foi o maior êxodo de artistas de todas as manifestações em Cuba em tão pouco tempo. Nos anos 90, jovens artistas já conheciam o preço da rebelião, e, simultaneamente, o governo introduziu o mercado de arte como analgésico. Então a censura foi substituída pela autocensura: tudo parecia correr bem porque quem protestava ou fazia arte crítica era uma minoria fácil de ridicularizar, considerada pobre, nostálgica, tola. Nos anos 2000, artistas se dedicaram a produzir mais fora do país do que dentro, como numa autocensura para não perder privilégios. Agora, os mais jovens, conhecendo a história da luta por seus direitos, sabem que é o Decreto 349 que vai defini-los.

Desde a morte de Fidel, a única transformação de fato em Cuba é que o governo se apropriou das palavras “mudança” e “democracia”. É o governo quem define o que esses conceitos significam. É uma grande ironia que nós, que trabalhamos por mudanças, acreditamos na democracia e que durante anos fomos proibidos de falar sobre essas questões, continuemos não tendo o direito de tratar disso, porque se tornou um território que os que estão no poder usam para construir sua imagem pública e internacional.

Às vezes eu me sinto cansada. São 25 anos de carreira e de ativismo. Sinto que, desde que Trump assumiu o poder nos Estados Unidos, tenho um cansaço crônico, porque não só vejo as desumanidades que ele comete, mas vejo que sua doutrina de medo, polarização e autoritarismo está se espalhando pelo mundo. Rapidamente, perigosamente. Hoje, quantos presidentes autoritários existem no mundo? Erdogan, Duterte... Quantos são ligados aos que apoiaram ditaduras anteriores? Bolsonaro, Macri... O mundo está nauseabundo com tanto ódio e irracionalidade. Aqueles que governam baseados no medo fazem isso se valendo de ideias retrógradas. São tempos de definições, sem nuances. A realidade e as leis estão radicais. Nós, artistas, precisamos ser radicais.

Pensamento do Dia


'Tecnologia permite destruir Amazônia mais rápido do que fizemos com a Mata Atlântica'

Em 2005, então recém-formado na faculdade de Biologia da USP, o botânico Ricardo Cardim teve a ideia de percorrer áreas desflorestadas da Mata Atlântica atrás de árvores gigantes que haviam sobrevivido isoladas no meio de plantações e pastagens.

A pesquisa ganhou corpo ao longo dos últimos 13 anos e se transformou numa das maiores investigações sobre a história da destruição de uma das regiões mais biodiversas do planeta.

Em "Remanescentes da Mata Atlântica: As Grandes Árvores da Floresta Original e Seus Vestígios" (ed. Olhares), livro lançado em novembro, Cardim documenta a vertiginosa expansão econômica sobre o bioma, que, em pouco mais de um século, o fez perder 90% de sua vegetação original e dividiu as áreas sobreviventes em 245 mil fragmentos.

Ao lado do fotógrafo Cássio Vasconcellos e do botânico Luciano Zandoná, Cardim também elaborou um inventário de tesouros que resistiram às derrubadas - entre os quais exemplares centenários de figueiras, perobas e paus-brasil, retratados em expedições por seis Estados das regiões Sul, Sudeste e Nordeste.

A árvore mais alta identificada, numa antiga fazenda de cacau em Camacã (BA), foi um jequitibá com 58 metros de altura e tronco com 13,6 metros de circunferência - dimensões extraordinárias, mas aquém das árvores gigantes do bioma no passado, como um jequitibá na região de Campinas (SP) cujo caule alcançava 19,5 metros de circunferência no início do século 20.

Em entrevista à BBC News Brasil, Cardim diz que as condições que permitiram o desenvolvimento das árvores gigantes da Mata Atlântica não existem mais. Compartimentadas e cercadas por lavouras, muitas áreas de floresta sobreviventes se despovoaram de animais - essenciais para a renovação das plantas - e sofrem com a invasão de espécies exóticas e alterações climáticas.

Ele diz acreditar, porém, que as próximas gerações conseguirão reconectar os fragmentos da floresta e trazer os bichos de volta, garantindo a sobrevivência do bioma, ainda que sem a mesma riqueza original.

Cardim não nutre o mesmo otimismo em relação à Amazônia - que, segundo ele, vive hoje, passo a passo, o mesmo roteiro da destruição da Mata Atlântica. Segundo o botânico, enquanto o desflorestamento da Mata Atlântica parece ter sido contido, a Amazônia sofre com a ação "de um arco de aventureiros que são incontroláveis" e fragmentarão o bioma antes que a sociedade se conscientize sobre sua importância. "Hoje a tecnologia permite que a gente faça a destruição da Amazônia com a mesma velocidade, ou até mais rápido, do que fizemos na Mata Atlântica. Com nossas estradas, caminhões, motosseras, o ganho de escala é absurdo".

BBC News Brasil - O livro mostra que, ao contrário do que muitos pensam, a destruição da Mata Atlântica foi um processo bem recente. Como o bioma foi aniquilado tão rapidamente?

Ricardo Cardim - Até 1890, o que estava mexido no Brasil era um pedacinho de Pernambuco, por causa do ciclo do açúcar no século 17, e do Rio de Janeiro, por causa das fazendas de café. O resto era mata fechada, com índios dentro.

Parece incrível, mas a destruição da Mata Atlântica se deu mesmo no século 20. A grande cobiça era pelos húmus que fertilizaram o solo da Mata Atlântica ao longo de milênios. A madeira era muito mais um empecilho do que um benefício. Só no final do processo, quando já tínhamos muito caminhão e transporte facilitado pelas ferrovias, que a madeira começou a ser aproveitada. Mesmo assim, o índice de aproveitamento da madeira foi de cerca de 3% de tudo o que foi derrubado.

A ordem era "limpa logo para a gente começar a colher o ouro verde", que era o café. Fizemos como aquele cara que herda uma fortuna e na mesma noite vai gastar tudo em farra, e acorda pobre. Demoramos milhares de anos para formar aquele solo, criar aquelas condições perfeitas, e em cinco ou dez anos, aquilo não existia mais. Os solos que a gente cultiva hoje só são cultiváveis por causa da tecnologia, porque já foram exauridos.

BBC News Brasil - Você destaca no livro a destruição das matas de araucárias, na porção sul da Mata Atlântica. O que houve de peculiar nesse processo?

 A velocidade com que ocorreu. Essa é uma floresta que passa do século 19 ao 20 praticamente intacta. Brincava-se que era possível atravessar os Estados do Paraná e de Santa Catarina nos galhos das araucárias, de tão grudadinhas que elas estavam.

Até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o Brasil importava madeira - o que era surreal para um país que estava destruindo florestas adoidado para plantar café. Mas, quando a Primeira Guerra impede esse comércio, o mercado começa a lembrar a araucária - um pinheiro maravilhoso, muito fácil de cortar. Começa um saque da floresta voltado para a madeira como se nunca viu.

A araucária vira uma grande divisa. Todo mundo que quer ficar rico vai para a floresta de araucária montar sua serrraria. Isso chega no auge nos anos 1950 e 1960. Cortavam tanta madeira que boa parte dela apodrecia antes de ser escoada para o mercado. Nos anos 1970, a floresta acabou. Houve uma quebradeira geral nas serrarias. Famílias que eram riquíssimas ficaram pobres.

A araucária simplesmente acabou. O que temos hoje são araucárias rebrotando, pequenas. O que sobrou hoje é uma sombra.

BBC News Brasil - O quão virgem era a Mata Atlântica antes de 1500?

(O antropólogo) Darcy Ribeiro falava que havia entre 4 e 6 milhões de índios vivendo aqui no território. Acho possível, mas não acho que o impacto deles na floresta foi tão grande quanto o historiador americano Warren Dean falou em "A ferro e fogo: a história da devastação da Mata Atlântica brasileira" (1996). Ele diz que não existia floresta intocada, porque os índios já tinham cortado aquilo pelo menos uma vez em um milênio.

Eu acredito que os índios tinham capacidade de alterar o meio, mas com ferramentas muito primitivas - machados de pedra, fogo -, e também tinham populações muito pulverizadas. As coivaras que eles faziam para queimar e plantar roças não eram suficientes para gerar uma extensa derrubada. Acho que os índios deixavam as árvores grandes no meio da coivara e plantavam embaixo delas. E não acho que tenham conseguido trabalhar todo o território a ponto de alterá-lo.

A jaula que lhe cabe


Todos vivemos em uma espécie de jaula. Pode ser de ouro e bonita, mas é a jaula que cabe a cada um
Haruki Murakami

Almas e demônios

Entenda-se a metáfora com espírito aberto e generosidade: governos costumam ter alma. Os melhores caracterizam-se por ter uma consistente, que lhes dá força, coesão e audácia nos campos político e administrativo. Os piores, ao contrário, vivem sem eixo.

Como não são integrados por anjos, mas por homens, mulheres e partidos, com suas paixões, suas idiossincrasias e seus apetites, governos sempre tendem a se dividir em pedaços, pequenas almas que competem entre si pelas luzes da ribalta, pelos aplausos do público, pelos mimos do chefe. Somente uma alma que se destaque e se imponha – uma anima magister – consegue domar os demônios que brotam do cotidiano governamental. Tem sido assim em todos os governos, dentro e fora do Brasil.

O Estado e, sobretudo, a sociedade sofrem quando são governados por governos desprovidos de alma: sem um programa, um núcleo coordenador, um partido ou uma liderança inconteste, qualificada para fazer que prevaleça uma direção. Por não saberem que rumo tomar, governos sem alma agem por impulso, por espasmos, ao sabor dos interesses parciais que nele preponderam e nem sempre coabitam. Deixam assim de poder cumprir a missão que deles se exige. No limite, vivem em turbulência, aos solavancos, espalhando crises por todos os lados. Natural que, nessa situação, tudo o que acontece de problemático em seu interior reverbere no exterior, desgastando-lhes ainda mais a imagem.

Passados 26 dias de sua posse, o governo Bolsonaro não mostrou ter uma alma. Falta-lhe quase tudo: programa, projeto de País, discurso, comunicação, temperança, conhecimento do terreno, prudência, capacidade de articulação, quadros técnicos e políticos competentes. Exceção feita às áreas da Economia, da Justiça e de Infraestrutura, o restante é um amontoado de figuras menores, com mentalidade provinciana, que falam pelos cotovelos, mas dizem pouco, como se tivessem, repentinamente, caído do céu para realizar uma tarefa que desconhecem e para a qual não foram treinadas. A improvisação dá o tom.

Os ataques ao “globalismo” feitos em nome de uma “Pátria soberana” que abaixa a cabeça para os poderosos do mundo são acompanhados de um esforço contumaz para desmontar os pilares institucionais, éticos e políticos da política externa brasileira. Desprezam as perspectivas que trabalham pela construção de um sistema internacional mais cooperativo e sustentável, livre de muros e barreiras ideológicas. O presidente disse em Davos que praticará uma política econômica de abertura e acima de ideologias, ao passo que seu ministro do Exterior se derrama em pregações ideológicas e fala em fechar o País aos “globalistas”. É uma dentre várias dissonâncias.

Entoar a cantilena autoritária da “caça aos marxistas” nas escolas só serve para ocultar a falta de um plano de ação que se dedique a recuperar o sistema escolar. A política educacional desponta com um vezo moralista e conservador que ignora as graves deficiências que minam a educação brasileira. Há, também, falas ministeriais despropositadas, sem pés nem cabeça, feitas como se estivessem referidas a outro tempo histórico e a um País datado.

Estão a ser rasgados importantes mapas de navegação, que poderiam dar ao governo alguma direção. Desprezam-se tradições consolidadas, práticas administrativas bem-sucedidas e atitudes políticas que contribuíram de forma decisiva para erguer o Brasil moderno que conhecemos e, no momento inaugural de um novo governo, serviriam de base operacional e fator de equilíbrio. Submete-se assim a máquina governamental a um estresse perigoso, fazendo-a funcionar com uma bomba-relógio amarrada ao corpo, a marcar o estouro da próxima crise.

A população torce para que o novo governo acerte. É a maior interessada em que isso se concretize e sabe que é preciso dar tempo ao tempo, não atropelar as coisas, não pedir o impossível. Mas o governo não se ajuda. Como será quando o jogo começar para valer, daqui a poucos dias, com o novo Congresso devidamente empossado e funcionando a todo vapor? A articulação política e o desempenho técnico que não existiram no primeiro mês serão ainda mais indispensáveis e o governo precisará encontrar, em seu interior, uma dinâmica que o auxilie a modelar sua alma e a domar seus demônios.

Não é por acaso que setores do governo, incentivados, ao que parece, pelos generais e pelo vice-presidente Mourão, começam a se mexer para blindar o presidente das estripulias de seus filhos e dos efeitos do caso Flávio Bolsonaro e para reforçar a agenda positiva na Economia e na Justiça, as únicas áreas que demonstram ter, até agora, capacidades executivas. Procuram assim emprestar uma alma ao governo, no mínimo para lhe fornecer um mínimo de capital político para lidar com o Congresso e a opinião pública.

A extrema direita que sustenta o governo parece por ora imune aos conflitos e tensões que espocam no seu interior. Demonstra tanta autoconfiança que se dá ao luxo de descuidar do fundamental. Continua em campanha, quando precisa governar. O excesso de confiança, nesse caso, produz arrogância e exagero nas relações com o poder, rei de todos os demônios.

O governo ainda tem tempo, pode aproveitar a lua de mel dos primeiros meses. Mas o bloco que o sustenta parece ter uma solidez mais aparente que real. Beneficia-se, em boa medida, da inoperância oposicionista, ainda sofrendo as dores da derrota do centro-esquerda em outubro, que desbaratou e desorientou seus grupos e partidos. É um quadro que não se prolongará no tempo. No momento em que a vida política recuperar o fôlego e os democratas liberais e progressistas voltarem a se movimentar com desenvoltura, será, então, a hora de ver quanto o governo avançou ao encontro de si próprio, modelando uma alma que o guie e oriente, ou se permanecerá atormentado pelos demônios de que não consegue se livrar.

Procure lembrar

“Tente esquecer em que ano estamos.”
De vez em quando, ouço Luiz Melodia, que sempre me apoiou nas campanhas claramente perdidas, antes mesmo do começo. O verso foi escrito num contexto amoroso, no qual os amantes se esquecem do mundo. Infelizmente, não posso seguir o amigo, nesse verso de “Pérola negra”.

Minha tarefa é exatamente procurar lembrar em que ano estamos. Não é fácil. Para quem viveu longamente, muitos anos disputam o lugar de modelo, referência para compreender o que se passa. Pouco servem diante da singularidade de 2019.

A chegada de um novo grupo ao poder trouxe consequências imprevistas. 


O novo chanceler Ernesto Araújo escrever que o aquecimento global é uma invenção do marxismo global.

Não conheci Osvaldo Aranha, embora tenha visitado seu túmulo no Sul. 

Entrevistei, ainda jovem, Augusto Frederico Schmidt, leio constantemente sobre a trajetória de Afonso Arinos, San Tiago Dantas. E há ainda os grandes diplomatas de carreira. Nenhum desses homens, creio, seria capaz de se antepor tão ousadamente às evidências científicas colhidas pela humanidade.

Araújo é um intelectual. Fiquei até agradecido por aconselhar a leitura de Clarice Lispector. Não sei bem o que ela estava fazendo no seu discurso. 

Mas é sinal de bom gosto. A própria Clarice ficaria perplexa como se estivesse diante de um búfalo ou de uma galinha.

Realmente, tenho de me esforçar muito para entender a política ambiental de Bolsonaro. Antes de partir para Davos, aprovou para o Serviço de Florestas um homem que quer liberar a caça de animais silvestres no Brasil.

Esforço-me por entender o universo ético da família do presidente. Flávio Bolsonaro apegou-se ao foro privilegiado para enfrentar denúncias de movimentação financeira atípica. Em seguida, soube-se que ele empregou em seu gabinete a mulher e a mãe de um matador ligado às milícias.

Sua posição sobre as milícias admite que são vantajosas porque expulsam os bandidos. Isso só pode ser entendido na linha do tempo.

A defesa das milícias nos dias de hoje não pode ignorar que controlam o gás, parte do comercio imobiliário, do transporte coletivo e até do tráfico de drogas. E matam muito.

O tempo torna mais aceitável a posição de Flávio. O desconcertante é que a mulher e a mãe do bandido trabalharam até 2018 no seu gabinete. E isso num período em que ele já estava na cadeia.

Minha perplexidade aumentou com o decreto de Mourão autorizando funcionários de segundo escalão a classificar os documentos como secretos. O projeto deles, com apoio da maioria, era o de combater a corrupção. O decreto enfraquece precisamente a melhor arma contra esse crime: a transparência.

Qualquer movimento de volta à opacidade serve apenas para levantar suspeitas de concentração de poder. Ou de riqueza. A história recente no Brasil deixou nas mãos da sociedade escaldada pelo menos um instrumento de defesa, que é a transparência.

O fato de haver muitos militares no governo para mim não tem conotação negativa. Considero-os uma força moderadora. Mas qualquer recuo na transparência fica parecendo um enfoque militarizado do governo.

Mourão afirmou que o decreto já estava pronto no governo Temer. 

Levamos anos discutindo essa lei de acesso. Se o decreto tinha mesmo uma justificava racional, por que não discuti-lo?

Estou muito velho para ficar desapontado, reclamando de governos. Mas nem tanto para iniciar um leve combate agora que estou com a carteira praticamente vencida.

Por que conciliar com a ignorância humana que pode arruinar nossos recursos naturais? Por que aceitar um recuo na lei da transparência que ajudei a construir na Câmara?

Espero que os eleitores de Bolsonaro não fiquem muito zangados. Nada contra eles. O que penso sobre milícias, transparência e aquecimento global não depende tanto de eleições. A ideia não é conhecer a verdade e se libertar através dela? A minha é essa: milicianos são criminosos, o planeta está se aquecendo, e não há nada mais suspeito do que golpear a transparência.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Brasil de mentirinha

Todos sabem quais são os culpados, inclusive Fernando Pimentel que agiu criminosamente

O maior problema do país, na essência, é o apodrecimento da Justiça. Esta afirmação pode parecer estranha e até inusitada, mas é absolutamente verdadeira. Todos percebem que o Brasil enfrenta uma gravíssima crise institucional, em que os três Poderes da República não cumprem suas obrigações constitucionais de trabalhar em prol do interesse público.

Como no final todos os problemas desembocam na Judiciário, fica claro que nele reside a falha principal, o defeito de origem. Porque, se a Justiça realmente funcionasse em defesa do bem comum, Executivo e Legislativo teriam de se enquadrar. Esta é a equação que nos interessa hoje.

O caso de Brumadinho exibe bem nitidamente essa situação. Neste sábado, a procuradora-geral Raquel Dodge esteve na região para avaliar os danos e afirmou que não se pode apontar os culpados, porque é preciso haver antes uma ampla investigação.

Como se vê, nada mudou em relação à tragédia anterior em Mariana e nada vai mudar. Naquele acidente, a Vale deixou claro seu descaso com a responsabilidade social que é exigida no ramo da mineração. Morreram 19 pessoas, cujas famílias até hoje não foram indenizadas, junto com as demais vítimas.

O mais incrível é que ninguém foi responsabilizado. Não houve culpados. E em novembro de 2016, exatamente um ano depois da tragédia de Mariana, o então governador petista Fernando Pimentel sancionou uma lei estadual (nº 2.946) afrouxando a fiscalização ambiental, ao invés de reforçá-la.

E foi justamente esta lei que agora, em dezembro de 2018, possibilitou reduzir o nível de risco da Mina do Feijão de 6 para 4 e lhe deu licenciamento por mais 10 anos, com aumento da produção de minério, sem reforço da barragem.

A empresa Vale, que reluta em indenizar as vítimas, realmente não se preocupou em fortalecer suas barragens depois do rompimento em Mariana. Pelo contrário, pediu e conseguiu licença para aumentar a produção em Brumadinho, onde a administração da mina e o refeitório funcionavam a jusante da barragem, eram mortes anunciadas. Mesmo assim, segundo a procuradora Raquel Dodge, ninguém sabe quem são os culpados.

Já dissemos aqui na “Tribuna da Internet” que alguém precisa informar à chefe do Ministério Público Federal que omissão deliberada é crime, e sua gravidade é proporcional ao número de vítimas – no caso, cerca de 300 mortes anunciadas.

Mas as autoridades judiciais e judiciárias não estão acostumadas a agir com rigor contra representantes das elites. Inquéritos e processos vão tramitar naquela velocidade que todos conhecem, pois nada mudou e é preciso mudar.

O pesquisador Silver Singer, do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), explicou por que não foi possível evitar um segundo acidente: “O país não aprendeu nada, ou quase nada. As empresas de mineração aprenderam a gastar fortuna com advogados para se defender e as leis foram feitas sob influência do lobby da mineração. O novo marco regulatório do setor, aprovado no ano passado, favorece a impunidade e transforma o Estado em menos responsável ainda. Já houve tempo suficiente para discutir responsabilidades mínimas, mas não foi o que vimos”.

Quem se deu bem no lobby da mineração, em 2017, foi o então ministro Edison Lobão, representante da quadrilha de Temer. Mas o atual governo foi eleito para limpar o país. Eis uma boa oportunidade de demonstrar que essa prioridade será alcançada. Como diz o advogado Jorge Béja, basta o presidente Bolsonaro cassar a concessão da Vale na mina de Brumadinho, um simples decreto, poucas linhas, coisa simples.

E falta também prender preventivamente o responsável principal, o presidente da Vale, Fábio Schwartzman, pelo conjunto da obra e, mais especificamente, por permitir que a administração e o refeitório da mina funcionassem a jusante da barragem, provocando as cerca de 300 mortes.

Somos a primeira pessoa do plural

Estamos tão perto uns dos outros. Somos contemporâneos, podemos juntar-nos na mesma frase, conjugarmo-nos no mesmo verbo e, no entanto, carregamos um invisível que nos afasta. Ouvimos os vizinhos de cima a arrastarem cadeiras, a atravessarem o corredor com sapatos de salto alto, a sua roupa molhada pinga sobre a nossa roupa a secar; ouvimos a voz dos vizinhos de baixo, dão gargalhadas, a nossa roupa molhada pinga sobre a roupa deles a secar; cheiramos as torradas dos vizinhos do lado, ouvimo-los a chamar o elevador e, no entanto, o nosso maior problema não é apenas não nos reconhecermos na rua. O nosso problema grande é estarmos convencidos que os problemas deles não nos dizem respeito. A nossa tragédia é acharmos que não temos nada a ver com isso.


Há três ou quatro anos, caminhava com um conhecido no aeroporto. De repente, ouviu-se um estalido. Ele agarrou-se ao peito com as duas mãos, caiu de joelhos e, pálido, esperou por morrer. Não morreu. Tinha-lhe rebentado um isqueiro no bolso da camisa. Aliviado, encostado a um balcão, a beber um copo de água, explicou que esse ardor repentino e esse susto pareceram-lhe um ataque cardíaco. Nunca tinha tido um ataque cardíaco antes, por isso confiou em descrições vagas, a que nunca tinha realmente prestado muita atenção.

Há alguns anos também, talvez um pouco mais do que três ou quatro, tinha acabado de participar num jantar cordial, reconfortante. Toda a gente estava bem disposta, à porta dos anfitriões, longa despedida, graças, à espera de táxi. De repente, tocou o telefone de um senhor com quem tinha estado a conversar durante todo o serão. Ninguém reparou nesse telefonema até ao momento em que o senhor começou a chorar convulsivamente. Ficámos todos a olhar sem saber como chegar até ele. Tínhamos braços, estendíamo-los na sua direcção, mas continuavam distantes.

Irritamo-nos com a existência uns dos outros. Fazemos sinais de luzes àquele homem com setenta anos, num carro dos anos setenta, que anda a setenta quilómetros por hora na auto-estrada. Contrariados, esperamos por aquela pessoa que atravessa a passadeira, enchemos as bochechas de ar e sopramos. Impacientes, batemos no volante. Daí a minutos, depois de estacionarmos o carro, somos essa pessoa a atravessar a passadeira. Da mesma maneira, daqui a algum tempo, não muito, seremos esse homem com setenta, dos setenta, a setenta. O tempo passa. Se deitarmos lixo para o chão, alguém o apanhará.

Um amigo que teve um AVC, que passou por uma reabilitação profunda, que enfrentou a morte e a paralisia, depois de anos de fisioterapia, depois de esforço gigante e sofrimento gigante, falou-me da forma como esse susto muda tudo. Passa-se a apreciar aquilo que realmente importa. A imensa maioria das preocupações transformam-se em luxos ridículos, desprezíveis, alimentados pela cegueira. Após essa experiência de quase morte, ganha-se uma nitidez invulgar, que, no entanto, esteve sempre lá. Para percebê-la, bastava levar a sério a promessa de transitoriedade de tudo e, também, levar a sério essa palavra, esse planeta: o amor. Ao ouvi-lo, fui capaz de entender aquilo que dizia. Depois, também fui capaz de entender quando me disse: mas, sabes, ao fim de algum tempo, esquecemo-nos, voltamos a tomar tudo por garantido e voltamos a cometer os mesmos erros.

Repito para mim próprio: estamos tão perto uns dos outros. Não há nenhum motivo para acreditarmos que ganhamos se os outros perderem. Os outros não são outros porque levam muito daquilo que nos pertence e que só pode existir sendo levado por eles. Eles definem-nos tanto quanto nós os definimos a eles. Eles são nós. Eles somos nós. Se tivermos essa consciência, podemos usar todo o seu tamanho. Mesmo que pudéssemos existir sozinhos, de olhos fechados, com os ouvidos tapados, seríamos já bastante grandes, mas existe algo muito maior do que nós. Fazemos parte dessa imensidão. Somos essa imensidão que, vista daqui, parece infinita.
José Luís Peixoto

O Brasil não merece Tom Jobim, a moça de Pompeia e a vaca atolada

Antonio Carlos Jobim nasceu num 25 de janeiro. Se fosse vivo para ter completado 92 anos nesta sexta, estaria morto. De vergonha, de tristeza. Morto de Brasil, porque este país mata. São mais de 60 mil pessoas assassinadas todo ano, além das 19 que o desastre de Mariana levou em 2015, além das que sucumbem diariamente aos descasos públicos e privados.

O Brasil não merece Tom Jobim. Águas de março , composição de 1972, é “o samba mais bonito do mundo”, na definição de Chico Buarque. É a lama, a lama do bem, da promessa de vida no teu coração. Há alegria, e não metáfora, quando se canta “o fim do caminho”, “o fim da picada”, “o fim da canseira”, “o fim da ladeira”. Mas, nesta terra que não merece Tom Jobim, a ladeira não dá samba nem tem fim.

A cada Mariana, a cada Brumadinho, perguntamos: agora chega, certo? Mas não. O Brasil é um país que não chega.

O Brasil não merece a vaca que, nas imagens do desastre, está coberta de uma lama que varia do rosa ao marrom, uma pasta fim-de-mundo. O brejo foi até ela. Símbolo do desmatamento, porque matas são queimadas para a pecuária passar, a vaca atolada é bovinamente inocente. Calhou de pastar no país errado.


Outras imagens mostram bombeiros corajosos – e, muito provavelmente, mal remunerados – salvando pessoas transformadas em figuras de Pompeia. A cidade do Império Romano foi destruída no ano 79 pela erupção do vulcão Vesúvio. No século XVIII, escavações chegaram até corpos que permaneciam na posição em que tinham sido atingidos pelas cinzas e pela lama. O inimigo de Pompeia era uma avassaladora força da natureza. O Brasil não precisa disso. Nós somos o nosso próprio Vesúvio.

As histórias dessas esculturas vivas – e das outras também – serão contadas pela imprensa. Saberemos, por exemplo, quem é a moça de cabelo rabo-de-cavalo que tem o braço esquerdo puxado por um bombeiro e, assim, é resgatada. Voltarão à lama os repórteres que cobriram a tragédia de Mariana e vinham denunciando, nos últimos três anos, que nada estava sendo feito para evitar outro desastre. E veremos imagens que, com a ingenuidade das vacas, achávamos possível não ver de novo.

Antes das imagens, costumam chegar as palavras. E estas também se repetem, sadicamente, a cada desastre.

O presidente da Vale, Fabio Schvarstman, disse estar consternado com o rompimento da barragem e que a hora é de socorrer as vítimas. A empresa pouco se preocupou com as consequências do desastre de Mariana e a destruição da vida das famílias da região. Preferiu gastar fortunas com advogados que protegessem seus lucros – e não seus próprios funcionários, agora atingidos em Brumadinho. Para o “mercado”, a ex-estatal Vale é símbolo de uma privatização bem-sucedida. É símbolo, antes de tudo, do capitalismo à brasileira.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu “providências firmes das instituições”. Seu retrospecto no cargo não lhe confere muita credibilidade.

O vice-presidente Hamilton Mourão elegeu uma prioridade: “Essa conta não pode vir para o nosso governo”. Realmente não pode. E louve-se a informação de que Jair Bolsonaro decidiu com rapidez sobrevoar a área. Em 2015, Dilma Rousseff levou sete dias para fazer o mesmo.

O problema, general Mourão, é que são muitas e antigas as ladeiras por onde a lama brasileira desce. Nossa legislação é construída por políticos sustentados por empresas de mineração, pelo agronegócio, por fabricantes de armas e munições, por impérios religiosos. O resultado são barragens rompidas, florestas destruídas, indígenas mortos em suas terras, brasileiros (civis e militares) mortos aos magotes por armas legalizadas, mulheres mortas em clínicas de aborto clandestinas, gays mortos a pancadas, militantes assassinadas com tiros na cabeça e depois assassinadas de novo por políticos que violentam sua memória... E muitos desses políticos e desses interesses estão representados no novo governo federal.

Mas não tem nada, não. Este é o país do futuro. O Brasil acima de tudo. E Tom Jobim longe disso. Ele não mereceria.