Não só existe, como conheci essa rara figura. Aliás, raríssima, de dar inveja (data venia) aos mais nobres magistrados. Não sei se era religioso; talvez sim, mas com uma generosa pitada de agnosticismo, que é o sal do niilismo moderno.
Sei que era francês. Eu o conheci nos meus primeiros dias de Paris, no inverno tenebroso de 1978. Passamos uma tarde inteira e uma parte da noite num café da rue Fouarre. Que magistrado incrível! Que exemplo de juiz de instrução, ainda mais neste tempo de privilégios, que há séculos é o tempo brasileiro.
Morávamos no mesmo bairro, onde ele nascera no século 19, quando a miséria em Paris saltava aos olhos, e os salteadores não davam trégua a ninguém: aristocratas decadentes, pequeno-burgueses e novos-ricos da burguesia.
Mal tomei o primeiro gole de café, percebi que a vaidade não era a paixão dominante do juiz. Mas essa modéstia é apenas uma entre muitas grandezas morais do velho senhor. Numa época remota, de guerras e extrema penúria, ele fora nomeado presidente de uma comissão para socorrer os indigentes e inválidos do nosso bairro. E então, o grande jurisconsulto, o percuciente criminalista cuja superioridade moral e profissional parecia aos colegas uma aberração, percebeu as verdadeiras causas dos resultados judiciários.
Contou que depois de ver tanta miséria e refletir sobre as cruéis necessidades que conduzem gradualmente os pobres a ações reprováveis, avaliou a longa luta pela sobrevivência de seus conterrâneos. Foi, enfim, acometido pela compaixão. Tornou-se uma espécie de São Vicente de Paula de crianças órfãs, de homens e mulheres que esmolavam e dormiam em calçadas, de famílias que procuravam abrigo ou um prato de sopa. Não entendia por que alguns colegas mandavam prender mães paupérrimas que furtavam ovos e pães para dar aos filhos famintos.
“Um juiz pode ser inflexível e, ao mesmo tempo, caridoso”, sentenciou. “Em alguns casos, a caridade deve contrariar a letra da lei, que é sempre fria, e não raramente ambígua, senão estúpida. De tanto confrontar a letra da lei com o espírito dos fatos, acabei percebendo o desacerto de aplicações violentas e espontâneas.”
Jean-Jules começou a exercer funções gratuitamente, sem qualquer ostentação. Agia em várias frentes: prevenia o crime, arranjava trabalho aos desempregados, distribuía com discernimento uma parte de seus próprios recursos. Dedicava o período matutino aos pobres, o vespertino aos criminosos, e o noturno aos trabalhos judiciários. Ninguém, no Tribunal do Sena nem em Paris, conhecia essa vida secreta do juiz Jean-Jules. Por não ser intrigante, muito menos bajulador e carreirista, era alheio às lutas internas do tribunal e ao “esprit de corps”, que ele julgava um mal maior.
“O esprit de corps dos três poderes republicanos é a desgraça do povo, meu jovem. Se você for advogado, lembre-se disso. Se for apenas cidadão, jamais se esqueça disso.”
Memorizei outras frases notáveis da nossa longa conversa, na verdade um monólogo. “Há ingratidões forçadas, jovem. Mas nenhum coração pode considerar-se grande semeando o bem para colher a gratidão.”
Ele falou durante mais de três horas, sem sucumbir à meia garrafa de poire gelado. Anoitecia no La Ruse, um café silencioso do quinto distrito. Talvez nem exista mais. A memória da voz, sim, sobreviveu. Citou um punhado de moralistas franceses, depois exaltou os iluministas, Rousseau à frente, e não sei quantos outros atrás.
Na luz baça do La Ruse via seus olhos acesos, suas imensas orelhas de abano, seu rosto sacerdotal, seu pescoço taurino que sustentava uma cabeça de bezerro, insípida de tão terna. A solidão no La Ruse e na vida nos deixara tête-à-tête. Ele parecia um fantasma vestido à moda antiga, olhando o poire na taça de cristal. E eu era apenas um jovem arquiteto expatriado, com poucas ilusões, e sem cinco francos para pagar uma dose de conhaque. Ah, grande e nobre magistrado: não fosse minha timidez, terias pago três, cinco, dez doses de conhaque. Uma garrafa inteira! Pagaste o café e um croissant, e eu ainda recebi de graça uma inesquecível aula de ética.
Na semana passada, quando bateu uma saudade do velho juiz Jean-Jules Popinot, reli a história dele na novela escrita por Balzac: A Interdição.
Um magistrado assim, tão exemplar, compassivo, só existe na ficção?
Em todo caso, leiam A Interdição, moços e moças de direito! Leiam vocês também, jovens e velhos juízes e procuradores. Há ficções, como O Processo, que valem mais do que mil códigos e tratados nesse mar de misérias e crueldades. Mas se lerem a noveleta de Balzac, já será alguma coisa. E se não apreciarem o livrinho, direi, como o Bruxo do Cosme Velho: “Pago-lhes com um piparote, e adeus”.
domingo, 6 de maio de 2018
Um bico de pena para corações fortes
Quando digo “as pessoas” não me refiro a toda a sociedade e certamente não às camadas de menor renda e escolaridade. Estas padecem de severas limitações no tocante à compreensão das informações que recebem. Desse ponto de vista, não existe e nunca existiu uma sociedade homogênea e é por isso que as camadas médias e altas têm de arcar com uma parcela maior de responsabilidade no que diz respeito à manutenção de padrões razoáveis de racionalidade social. Afirmar o contrário, como diuturnamente fazem aqueles que se arvoram em críticos do “elitismo”, é mera demagogia. Mesmo os cidadãos mais informados e lúcidos às vezes se esquecem de que a destruição do que acabamos de construir pode ser rápida, mormente quando causada por erros palmares na condução da economia e dos negócios do Estado, como ocorreu no período de governo da sra. Dilma Rousseff.
Nas ciências humanas, uma constatação central na evolução do conhecimento histórico durante o século 20 foi a de que qualquer país, mesmo os mais adiantados, pode sucumbir a retrocessos gravíssimos (preciso lembrar o caso alemão?). Nos países que ainda se debatem com o desafio de criar condições aceitáveis de renda para a maioria da população, essa constatação assumiu um sentido simétrico: nada garante que progrediremos de forma natural e indefinida. Não chegaremos ao patamar social que almejamos nem mediante um sistema de planificação macroeconômico nem por obra e graça de uma mão invisível infinitamente benigna. Não há um bom porto previamente construído, pronto para nos dar as boas-vindas; haverá, talvez, se o soubermos construir, passo a passo, ou seja, operando para que a sociedade em que vivemos não se afaste demasiadamente de um padrão médio de racionalidade. Para nos convencermos disso, como antecipei, precisamos não só aspirar a um futuro melhor, mas também a aprender a temê-lo, quando começamos a perder até os elementos básicos da comunicação social, a linguagem da política, e todo senso de realidade.
Nosso poeta maior, Carlos Drummond, escreveu que no meio do caminho havia uma pedra. O Brasil não tem uma, tem muitas pedras, e pelo menos três delas deveriam estar bem nítidas em nosso radar coletivo: o impacto da corrupção no sistema político e os consequentes embates entre a Lava Jato e o STF; a natureza do PT e do lulismo como entidades políticas, responsáveis principais pelo rancor que vem corroendo até os fundamentos linguísticos do debate público; e, não menos importante, os ventos malignos que a caixa de Pandora da eleição presidencial tem o potencial de liberar.
Além de sua escala espantosa, a teia de corrupção desvendada nos últimos anos evidenciou, acima de qualquer dúvida, dois aspectos de nossa estrutura institucional que percebíamos, mas talvez não quiséssemos identificar em toda a sua crueza. De um lado, a desagregação praticamente total da organização partidária, que a esta altura não cumpre papel algum, nem mesmo o de prover ao público uma elementar sinalização das posições que se manifestarão na eleição de outubro. Há pesquisas indicando que metade do eleitorado não se dispõe a votar e a outra metade votará muito mais com os pés que com a cabeça, procurando o candidato ou candidata que melhor expresse sua cólera sobre tudo o que tem acontecido. E dado que a política abomina o vácuo, a “judicialização da política” atingiu níveis virtualmente impensáveis. Não só pela debilidade dos partidos e do Legislativo, claro, também pelo impacto da Lava Jato; mas como desgraça pouca é bobagem, o que estamos a presenciar diariamente é um STF ao mesmo tempo intervencionista e causticamente dividido internamente. Quatro ou cinco ministros parecem menos interessados em colocar a instituição na altitude arbitral que a Constituição lhe atribui do que em bloquear os avanços logrados no combate à corrupção.
O segundo ponto a considerar é a natureza do PT e do lulismo dentro de nossa história democrática e de nossa presente engrenagem institucional. Não se requer mais que um simples retrospecto dos 37 anos de existência do partido para concluir que ele se alimenta de uma ambiguidade constitutiva em relação à democracia representativa. Põe um pé dentro dela e outro fora, trocando-os conforme suas táticas e conveniências. Carece por completo de uma fundamentação doutrinária inteligível: tanto podemos qualificá-lo de marxista como de anarcossindicalista (segundo as Reflexões sobre a Violência, de Georges Sorel), como de uma agremiação que cultiva a política na forma dual recomendada pelo teórico pré-nazista Carl Schmitt: o “nós” contra “eles”, ou o amigo contra o inimigo. Esses traços já seriam graves, mas é preciso acrescentar que a inspiração soreliana implica uma paixão incontível pela ação direta, pelo desrespeito às instituições, na contestação das normas constitucionais vigentes, como temos visto seguidamente nos bloqueios de vias públicas e estradas e num persistente esforço de erosão das normas do convívio social.
Por último, mas não menos importante, a eleição de outubro, cujos contornos se apresentam nebulosos. O resultado, qualquer que seja o presidente escolhido, afetará profundamente o processo de recuperação econômica, podendo mesmo (queira Deus que não!) revertê-lo. Os melhores prognósticos que os economistas têm aventado para o quatriênio indicam um crescimento anual medíocre do PIB (2% talvez) e a dívida bruta do setor público chegando a 90% do PIB em 2021. E esse, entendamo-nos, é o mínimo necessário para podermos pensar num desempenho aceitável a partir daquela data.
Bolívar Lamounier
Além de sua escala espantosa, a teia de corrupção desvendada nos últimos anos evidenciou, acima de qualquer dúvida, dois aspectos de nossa estrutura institucional que percebíamos, mas talvez não quiséssemos identificar em toda a sua crueza. De um lado, a desagregação praticamente total da organização partidária, que a esta altura não cumpre papel algum, nem mesmo o de prover ao público uma elementar sinalização das posições que se manifestarão na eleição de outubro. Há pesquisas indicando que metade do eleitorado não se dispõe a votar e a outra metade votará muito mais com os pés que com a cabeça, procurando o candidato ou candidata que melhor expresse sua cólera sobre tudo o que tem acontecido. E dado que a política abomina o vácuo, a “judicialização da política” atingiu níveis virtualmente impensáveis. Não só pela debilidade dos partidos e do Legislativo, claro, também pelo impacto da Lava Jato; mas como desgraça pouca é bobagem, o que estamos a presenciar diariamente é um STF ao mesmo tempo intervencionista e causticamente dividido internamente. Quatro ou cinco ministros parecem menos interessados em colocar a instituição na altitude arbitral que a Constituição lhe atribui do que em bloquear os avanços logrados no combate à corrupção.
O segundo ponto a considerar é a natureza do PT e do lulismo dentro de nossa história democrática e de nossa presente engrenagem institucional. Não se requer mais que um simples retrospecto dos 37 anos de existência do partido para concluir que ele se alimenta de uma ambiguidade constitutiva em relação à democracia representativa. Põe um pé dentro dela e outro fora, trocando-os conforme suas táticas e conveniências. Carece por completo de uma fundamentação doutrinária inteligível: tanto podemos qualificá-lo de marxista como de anarcossindicalista (segundo as Reflexões sobre a Violência, de Georges Sorel), como de uma agremiação que cultiva a política na forma dual recomendada pelo teórico pré-nazista Carl Schmitt: o “nós” contra “eles”, ou o amigo contra o inimigo. Esses traços já seriam graves, mas é preciso acrescentar que a inspiração soreliana implica uma paixão incontível pela ação direta, pelo desrespeito às instituições, na contestação das normas constitucionais vigentes, como temos visto seguidamente nos bloqueios de vias públicas e estradas e num persistente esforço de erosão das normas do convívio social.
Por último, mas não menos importante, a eleição de outubro, cujos contornos se apresentam nebulosos. O resultado, qualquer que seja o presidente escolhido, afetará profundamente o processo de recuperação econômica, podendo mesmo (queira Deus que não!) revertê-lo. Os melhores prognósticos que os economistas têm aventado para o quatriênio indicam um crescimento anual medíocre do PIB (2% talvez) e a dívida bruta do setor público chegando a 90% do PIB em 2021. E esse, entendamo-nos, é o mínimo necessário para podermos pensar num desempenho aceitável a partir daquela data.
Bolívar Lamounier
Os pobres ricos
Do outro lado do Oceano Atlântico, na sisuda Alemanha, autoridades policiais divulgaram a ocorrência de 391.000 casos de furtos praticados em lojas ao longo de 2014, totalizando US$ 2,4 bilhões em prejuízos. Apurou-se, segundo as autoridades, que este é o perfil médio dos culpados: "crianças, adultos, idosos ou quem você quiser".
No Reino Unido, inicio pelo caso de David Davies. Aos 68 anos de idade, este senhor teve um ataque cardíaco. Foi carregado às pressas para um hospital. Enquanto as equipes de emergência tentavam ressuscitá-lo, seu relógio foi furtado! Vem daquele país, também, o caso de Harry Hankinson, sentenciado a 16 meses de prisão após ter cometido seu furto de número 521! Sim, foram 521 furtos cometidos em estabelecimentos os mais diversos. Há também o registro de duas crianças de três anos de idade surpreendidas furtando em lojas - uma prática que, no total, sangra a economia em robustos US$ 4 bilhões a cada ano.
Na Noruega, o padre John Olav Hodne teve sua carteira e celular furtados dentro da igreja de Melhus, enquanto lá realizava uma missa. Algo parecido aconteceu em Portugal, onde uma jovem fiel foi surpreendida afanando a caixa de doações de uma igreja. Em outro templo, no Japão, a vítima foi uma imagem de Buda. Na Bulgária furtaram um banheiro de uma rodovia - enquanto que na Rússia carregaram toda a pavimentação de outra. Na Turquia, uma ponte inteira. Na Jamaica, toda uma praia.
Vejam que só citei sociedades educadas e de bom nível econômico - estão fora os "furtos famélicos" praticados em comunidades miseráveis. No entanto, os números e exemplos chocam! Como explicá-los, em um mundo no qual é politicamente correto dizer-se que "o crime é fruto da pobreza"? Sim, como explicá-los diante destes pobre ricos?
Pedro Valls Feu Rosa
A morte dos invisíveis
Penso nisto enquanto acompanho a tragédia que se abateu sobre os sem-teto no centro de São Paulo. O incêndio, que começou na madrugada de terça (1/5), levou à implosão do prédio e de vidas.
O fogo durou algumas horas, de maneira tão avassaladora que comprometeu a estrutura do edifício. Em poucos segundos, tudo foi ao chão. Paredes e sonhos. Tijolos e histórias. Moradias e memórias.
Ninguém sabe, ao certo, quantas vidas foram perdidas.
É a tragédia dos invisíveis.

O drama daqueles que sobrevivem com o mínimo – de moradia, de alimento e de dignidade. São aqueles que queremos esquecer que existem.
Não aparecem em nossa realidade virtual, nas nossas páginas do Facebook e Instagram, porque queremos mesmo que sejam imperceptíveis. Queremos que não poluam nossas fotos porque, assim, só mostramos o que é lindo, agradável e harmonioso.
Daí, em um dia de maio qualquer, eles surgem. Escancaram a nossa realidade. Mostram nosso lado feio, egoísta, indiferente. Mostram a vida como ela é. A vida real.
Mais de 140 famílias viviam no prédio paulistano que pertencia à União. Apesar de ter sido invadido, pagavam aluguel a um sujeito responsável por manter o imóvel em ordem. Óbvio que nada era feito.
Imagine o estado de degradação do prédio para implodir em segundos. Imagine o estado de vida precário dos moradores diante dos possíveis problemas que lá havia. O lixo excessivo, por exemplo, é considerado um dos fatores para o alastramento do fogo.
Mas eles seguiam suas vidas anônimas, sobrevivendo diante do impensável, até que viraram notícia para mostrar quem somos. A tragédia fala dos sem-teto. Isso é óbvio. Mas fala também de nós.
A catástrofe aconteceu em São Paulo. Poderia ser Minas Gerais, no Rio de Janeiro, em Mato Grosso. Cerca de 6 milhões de brasileiros não têm onde morar, espalhados por todos os estados do Brasil. Certamente, vivem expostos ao perigo, em situação tão ou mais precária que os sem-teto da capital paulista.
Num dia qualquer de outono, os invisíveis surgem. De invisíveis, viram apenas números, estatísticas. Continuam sem identidade nem dignidade. Continuam sem rosto nem afeto. Continuam não sendo gente.
E nós, quando vamos olhar para o tipo de gente que somos?
sábado, 5 de maio de 2018
Normalidade da gestão: Temer faz mal ao Brasil
Pense por um instante na rotina de Temer. Ele conversa diariamente com ministros denunciados por corrupção. Dois, Eliseu Padilha e Moreira Franco, são seus amigos e cúmplices. O ministro Blairo Maggi, da Agricultura, acaba de ser denunciado pela Procuradoria. De novo, corrupção. E Temer o manteve no cargo. O aliado Ciro Nogueira, já atolado na Lava Jato, teve a casa varejada pela Polícia Federal. Mas Temer faz questão de manter o partido dele, o PP, no comando de dois ministérios e da Caixa Econômica Federal.
O Brasil é presidido pela anormalidade. Mas o país vai se acostumando com o inaceitável. A economia reduz a marcha, o desemprego recrudesce e Temer finge ser candidato à reeleição. Mas o que se vê ao redor é um Congresso anestesiado, um Judiciário titubeante, uma sucessão com quase duas dúzias de candidatos a estorvo e uma sociedade à espera da Copa do Mundo. Essa normalidade irradiada pelo governo Temer faz mal ao país. O presidente ri do Brasil. Banalizou-se a perversão.
De que serve discutir ideologias?
Para compreendermos o homem e as suas necessidades, para o conhecermos naquilo que ele tem de essencial, não precisamos de pôr em confronto as evidências das nossas verdades. Sim, têm razão. Têm todos razão. A lógica demonstra tudo. Tem razão aquele que rejeita que todas as desgraças do mundo recaiam sobre os corcundas. Se declararmos guerra aos corcundas, aprenderemos rapidamente a exaltar-nos. Vingaremos os crimes dos corcundas. E, sem dúvida, também os corcundas cometem crimes.
A fim de tentarmos separar este essencial, é necessário esquecermos por um instante as divisões que, uma vez admitidas, implicam todo um Corão de verdades inabaláveis e o inerente fanatismo. Podemos classificar os homens em homens de direita e em homens de esquerda, em corcundas e não corcundas, em fascistas e em democratas, e estas distinções são incontestáveis.
Mas sabem que a verdade é aquilo que simplifica o mundo, e não aquilo que cria o caos. A verdade é a linguagem que desencadeia o universal.
Newton não «descobriu» uma lei há muito disfarçada de solução de enigma, Newton efetuou uma operação criativa. Instituiu uma linguagem de homem capaz de exprimir simultaneamente a queda da maçã num prado ou a ascensão do sol. A verdade não é o que se demonstra, mas o que se simplifica.
De que serve discutir as ideologias? Se todas se demonstram, também todas se opõem, e semelhantes discussões fazem duvidar da salvação do homem. Ainda que o homem, por todo o lado, à nossa volta, revele as mesmas necessidades.
Antoine de Saint-Exupéry, "Terra dos Homens"
A fim de tentarmos separar este essencial, é necessário esquecermos por um instante as divisões que, uma vez admitidas, implicam todo um Corão de verdades inabaláveis e o inerente fanatismo. Podemos classificar os homens em homens de direita e em homens de esquerda, em corcundas e não corcundas, em fascistas e em democratas, e estas distinções são incontestáveis.
Mas sabem que a verdade é aquilo que simplifica o mundo, e não aquilo que cria o caos. A verdade é a linguagem que desencadeia o universal.
Newton não «descobriu» uma lei há muito disfarçada de solução de enigma, Newton efetuou uma operação criativa. Instituiu uma linguagem de homem capaz de exprimir simultaneamente a queda da maçã num prado ou a ascensão do sol. A verdade não é o que se demonstra, mas o que se simplifica.
De que serve discutir as ideologias? Se todas se demonstram, também todas se opõem, e semelhantes discussões fazem duvidar da salvação do homem. Ainda que o homem, por todo o lado, à nossa volta, revele as mesmas necessidades.
Antoine de Saint-Exupéry, "Terra dos Homens"
A sobrevida do PT

O Partido dos Trabalhadores (PT) vem se destruindo por dentro, forçado pelas circunstâncias a servir de milícia para seu encalacrado líder máximo, Lula da Silva. O lulismo é hoje a única expressão autorizada do petismo, o que limita drasticamente o raio de atuação do partido. Somando-se ainda todas as vicissitudes petistas nos últimos anos – o impeachment da presidente Dilma Rousseff, os escândalos de corrupção, o legado trágico na economia e a desmoralização das instituições –, nada mais natural do que esperar um profundo desgaste do PT. E no entanto essa legenda surgiu como a detentora da maior bancada da Câmara dos Deputados depois do troca-troca partidário permitido até a primeira semana de abril. Ademais, recente pesquisa de opinião mostrou que o PT, mesmo depois da prisão de seu líder por corrupção e lavagem de dinheiro, continua a ter o maior porcentual de simpatizantes, muito à frente dos demais partidos.
Esse fenômeno pode ser explicado muito menos pelas imaginárias virtudes dos petistas e muito mais pela incapacidade de partidos programáticos, notadamente o PSDB, de ocupar o espaço político que a crise do PT começa a deixar.
O PSDB emprestou hesitante apoio ao governo do presidente Michel Temer no momento em que este mais precisava de suporte para aprovar as reformas de que o País necessitava, e ainda necessita. Além disso, quando Temer foi alvo de uma denúncia inepta da Procuradoria-Geral da República, metade da bancada tucana na Câmara votou contra o presidente. Tal comportamento revelou claramente que faltou aos tucanos naquele momento perspectiva histórica e demonstrou que muitos deles pareciam ter aderido às deletérias práticas do chamado “centrão”, o que decerto prejudicou seu patrimônio eleitoral.
A força institucional de um partido está principalmente em sua capacidade de sustentar uma mensagem, um princípio. No caso do PSDB ou do MDB, não se sabe que mensagem é essa. O MDB, partido do presidente Michel Temer, por exemplo, foi um dos principais responsáveis pelas derrotas mais importantes sofridas pelo governo. Se há uma mensagem aí, é a de que o MDB não é um partido, mas uma federação de interesses privados de seus integrantes, e muitos destes não se sentiram na obrigação de defender Temer e de ajudá-lo a aprovar as reformas. Assim, hoje, o eleitor que escolhe alguma dessas legendas não é capaz de dizer o que espera delas.
Não faz diferença, portanto, votar nesses partidos ou no Partido Progressista (PP), expressão mais bem-sucedida do tal “centrão” fisiológico, e que, por esse motivo, emergiu da janela de infidelidade como o segundo maior partido da Câmara, empatado com o MDB.
Já o eleitor do PT sabe muito bem no que está a votar. A mensagem é direta e cristalina: vota-se hoje no PT para sustentar o lulismo, cuja essência é a promessa do paraíso do consumo de bens e serviços, a que os intelectuais petistas e seu demiurgo chamam, cinicamente, de “justiça social”. Está deliberadamente ausente do discurso lulopetista a necessidade de respeitar as instituições democráticas. Ao contrário: quando estas se interpõem no caminho do lulismo, tolhendo-lhe os movimentos, são imediatamente consideradas “golpistas”.
Ainda assim, a despeito de manter esse vigor militante e de formar a maior bancada da Câmara, o PT diminui a olhos vistos. Na eleição de 2016, o partido caiu de mais de 600 prefeituras para 250, e nenhuma delas é de uma grande cidade. No mesmo ano, foi defenestrado do governo federal. Com a substancial perda de capilaridade municipal e sem a máquina federal, o desempenho petista nas urnas em outubro dependerá basicamente da capacidade de seu chefão, Lula da Silva, de conseguir traduzir em votos o calvário que ora encena na cadeia em Curitiba.
Em condições normais, portanto, seria previsível mais uma acachapante derrota do PT, talvez a definitiva. Mas, em se tratando do atual cenário partidário, em que a mediocridade parece prevalecer, o PT, movido a lulismo, conserva força suficiente para continuar a causar problemas ao País.
Terrorista virtual
Sob a perspectiva do Estado, o cidadão se transformou em um terrorista virtual. Do contrário, não se explica o acúmulo de câmeras que nos vigiam em todas as partes. Somos tratados como criminosos virtuais. O cidadão é um suspeito, numerado, como em Auschwitz, onde cada deportado tinha seu númeroGiorgio Agamben
O caso do morto vivo
O advogado português Álvaro Dias, 56 anos, foi condenado por falsificar sentenças. Em 18/11/2016. Tendo ainda, nas costas, numerosos processos. Tantos que temia passar todos os seus anos restantes na prisão. Para piorar, depois daquela condenação e antes de ser preso, aconteceu-lhe algo muito desagradável. Ele morreu. Na luxuosa quinta que tinha em Benavente (Santarém), a Herdade da Mata do Duque. No dia de Natal! Esmagado por seu Rolls-Royce Silver Shadow III. O jornal regional O Mirante, reconstituindo o acidente, descreve que o carro “começou a descer em marcha-atrás”. Porque o “travão de mão não fora acionado”. Ao perceber que iria se chocar com as árvores, o condutor “tentou voltar a entrar no veículo para o travar, mas embateu numa árvore, depois de ter conseguido abrir a porta e acabou por ser atropelado”.
Ocorre que “um enterro é a procissão algébrica das dúvidas” (Rosa, Os Chapéus Transentes). Dando-se que, pouco depois, uma denúncia anônima chegou ao juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal (Lisboa). A de que Álvaro Dias havia contratado um cadáver substituto.
Nas investigações sobre a denúncia dessa morte que não houve foram encontrados, nas gavetas de seu escritório, “documentos falsos, em número de dezenas”. E muitos indícios suspeitosos: a “agência funerária sita em localidade muito distante dos locais de residência da vítima”; “ligação entre o médico-legista, outrora aluno do advogado e a vítima”; e a “invulgar celeridade na autópsia e na cremação”. As aspas são da Visão portuguesa. Novos exames apontaram 23 outras falhas na comprovação dessa morte. E nosso Álvaro Dias corre o risco de ter tido tanto trabalho pra nada. “Quem fala muito, dá bom dia a cavalo” (Rosa, Minha Gente). Que a polícia está indo à sua procura.
Mas afinal, dirão apressados leitores, que isso tem a ver com nosso Brasil? Duas coisas, meus senhores. Uma, o juiz do feito é o senhor doutor Carlos Alexandre. O Sérgio Moro de Portugal. Responsável por julgar, na Operação Marquês, o ex-primeiro ministro José Sócrates. Num processo do PT de Portugal que envolve Lula, José Dirceu e a Odebrecht. Todos muito conhecidos nossos. Em despacho, ele declarou que “a comprovar-se a veracidade das suspeitas, isso transporta as instituições portuguesas para o nível do absurdo”. Os olhos são, mesmo, “a porta do engano” (Rosa, O Espelho).
A outra razão é o lugar para onde teria fugido, e hoje viveria bem, o tal Álvaro Dias. Quem apostou no Brasil, ganhou fácil. Tanto lugar no mundo e tinha que vir logo para cá. Pobres de nós. Pensando bem, pobre dele. Na ilusão de que, por aqui, ainda se pode ter grandes fazendas, sítios, apartamentos e dinheiro em malas, com a esperança de não ir parar nunca na cadeia. Quando, considerando os últimos acontecimentos, não dá para ter tanta certeza assim.
José Paulo Cavalcanti Filho
Dimensão simbólica da terra
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| Valdsom Braga |
Transpareceu, naquele momento, a dimensão simbólica da terra para quem vive e trabalha nela. Isso ultrapassa a esfera econômica, constituindo razão para resistir aos apelos do mundo urbano ou à sedução de empréstimos bancários, porque se exige a propriedade como garantia.
O agricultor tradicional manifesta, permanentemente, orgulho por seu terreno, que é a principal referência de sua vida. Há relação afetiva, porque ela proporciona alimentação farta e moradia permanente. Assim, não é apenas instrumento de produção. Ter a propriedade de uma área suficiente para a agricultura de subsistência representa a diferença entre ser cidadão e ser miserável, porque ela confere segurança, dignidade e autonomia. O dono nunca será um zé-ninguém, sempre escorraçado em espaços alheios.
Aquele senhor não iria integrar-se ao mercado, porque o ambiente urbano faz muitas exigências, incluindo qualificação profissional e uso constante da moeda. Preferiu, então, permanecer em sua fazendinha, que seria sempre uma barreira material e simbólica entre ele e a miséria.
Desde meados do século XX, houve intenso fluxo migratório para a cidade, em busca de escola, assistência médica, previdência e trabalho menos penoso. No entanto, a maioria não estava preparada para o espaço urbano, fixando-se em favelas e submetendo-se ao subemprego e à marginalização social.
Os lavradores que resistiram em seu torrão sabiam que não seriam automaticamente integrados ao contexto moderno e perderiam suas sólidas referências como gente do campo. Queriam continuar livres, sem aproximação de quem poderia humilhá-los. Rejeitavam também financiamento bancário, porque se lembravam de amigos que perderam sua terra e se tornaram boias-frias espoliados por “gatos” e pelo agronegócio, enquanto puderam trabalhar. Viraram, depois, mendigos em cidades grandes.
A diferença entre o agricultor tradicional e o empresário rural está não na dimensão da propriedade, mas em seus vínculos com ela. Quem tem, entre outros negócios, uma fazenda não cria afeição por ela, que é apenas um instrumento de produção para propiciar lucro. Enquanto isso, os que vivem em contato direto com a terra desenvolvem atitude diferente, porque perdê-la não é apenas um prejuízo. Trata-se da destruição de seu modo de vida com o rompimento da barreira que os protege da miséria.
Atualmente, os pequenos proprietários rurais têm sofrido ataques violentos de bandidos. Estão também expostos a diversas formas de manipulação política. Alguns agentes podem ensejar imenso potencial de conflito, abrindo caminho para a interferência de grupos extremistas nos dois polos, sem considerar seu futuro, sua dignidade e seu bem-estar.
Gilda de Castro
sexta-feira, 4 de maio de 2018
Outro lado dos problemas
Todos os demais problemas e desafios do Brasil passam por duas pontas.
O emprego só será criado se, de um lado, a economia fizer investimentos; mas emprego de qualidade exige educação do candidato. O aumento da riqueza nacional depende da retomada do crescimento econômico, mas, sem educação, a produtividade não se eleva e a pobreza social continua; e, se a educação não for de qualidade para todos, o problema da concentração da renda continuará. Hoje, temos o oitavo PIB do mundo, mas por falta de educação a produtividade é baixa. Estamos no 81º lugar na renda per capita e temos a décima pior concentração de renda. Graças sobretudo à educação, a Coreia do Sul tem o 14º PIB, mas é o 30º em renda per capita e tem a décima melhor distribuição de renda entre 157 países. O desemprego, a pobreza, a concentração de renda são problemas com duas pontas; a educação é uma delas.
A violência precisa ser enfrentada com polícia, justiça e cadeia, mas isso não resolverá o problema. Há 30 anos Darcy Ribeiro dizia: “Ou fazemos escolas hoje, ou teremos de fazer cadeias amanhã”. Só por meio da educação para todos será possível oferecer as mesmas oportunidades a cada brasileiro, sem necessidade de artifícios de sobrevivência fora da lei. A corrupção, que é praticada por doutores instruídos, precisa ser combatida com o fim do foro privilegiado e da impunidade para os eleitos, mas o mundo mostra que a corrupção cai substancialmente nos países onde todos os eleitores têm acesso à boa educação.
Todo problema tem duas pontas, e uma delas é a educação. Nisso está a dificuldade: porque o problema da educação também tem duas pontas. A ponta dos educadores, como fazer a escola ideal; e a ponta educacionista, como fazer todas as escolas com a mesma qualidade. Para cuidarmos do problema da educação, os eleitores e eleitos precisam antes ser educados. Esse paradoxo – para educar o Brasil é preciso que o Brasil já esteja educado – só será resolvido quando for eleito um presidente-estadista, capaz de ser educador de todo o nosso povo, transmitindo convicentemente a mensagem de que a solução de cada problema passa pela educação; convencendo o povo a aceitar fazer, ao longo de décadas, o esforço nacional necessário para garantir educação de qualidade para todos os brasileiros.
O Carandiru é aqui
A defendê-los, não. A defender Lula e Gleisi. Esqueceu Paulo Bernardo. Nada falou sobre Palocci e Odebrecht. Aproveitou para malhar Dodge, acusando-a de produzir uma denúncia sem provas, e de tentar sabotar os festejos de 1º de Maio marcados para dar hoje em Curitiba um pouco de alento a Lula.
Dodge já representou uma esperança de salvação para o PT e os demais partidos que apoiaram sua escolha para Procuradora-Geral da República. Afinal, fora indicada para o cargo por gente como Renan Calheiros, José Sarney e Michel Temer. Teve até a benção do ministro Gilmar Mendes. E era adversária de Rodrigo Janot, a quem sucedeu.
A julgar pelo que dizem todos os suspeitos, acusados e condenador por corrupção, mas não só, este país é um imenso Carandiru. Ali, como observou certa vez o médico Dráuzio Varela, não havia um único culpado. Todos eram inocentes, simplesmente inocentes, manifestamente inocentes, vítimas de perseguição e da cegueira da Justiça.
Ricardo Noblat
Aquele momento fatal
Lula sempre mandou no partido, nas executivas, nos diretórios, nas assembleias, em Dirceu, mas reinava principalmente nos comícios, insuperável com sua inteligência, seu histrionismo, sua malandragem política e suas bravatas que incendiavam a militância. Que partido não gostaria de ter um líder com o carisma e a personalidade de Lula?
O lado ruim de ter um líder carismático absoluto, cultuado e incontestável é depender de suas decisões pessoais, de acordo com as suas conveniências de momento.
Ao indicar no “dedaço” Dilma Rousseff para presidenta, enfrentando profundas e fundadas resistências no partido, afinal o DNA dela era brizolista, assumiu o seu maior risco — e conquistou a sua maior vitória. Depois, para eleger Fernando Haddad prefeito de São Paulo, chegou a fazer uma aliança e posar ao lado de Maluf, para estupor dos petistas de todas as correntes. E, cheio de orgulho e certeza, cunhou uma de suas grandes frases: “De poste em poste vamos iluminando o Brasil”.
Se houvesse democracia interna no PT, com convenções para escolher candidaturas, em 2014 Lula teria sido aclamado pelo partido para a sucessão de Dilma e massacraria Aécio Neves. Mas, assim como a havia escolhido imperialmente, Lula teria que discutir com a rainha, só com ela, a sua sucessão.
Aquela meia hora decisiva em que os dois se trancaram em uma sala, e Lula saiu abatido e Dilma candidata à reeleição, mudou o rumo do PT e a História do Brasil. No momento em que sua força, sua experiencia e sua inteligência foram mais necessários, Lula piscou. E Dilma ganhou no grito, rompendo o acordo de o poste devolver-lhe o trono depois de quatro anos.
O resto é história, com as consequências funestas que teve para o Brasil, para o PT e para Lula, porque um grande líder popular quase religioso e infalível falhou num momento fatal.
Grande problema, grande cidade
Passei uma semana no centro de São Paulo, antes da queda do prédio de 24 andares no Largo do Paiçandu. Meu foco era a Cracolândia, mas não deixei de registrar a grande presença de moradores de rua, cerca de 25 mil na cidade, e os prédios ocupados pelos movimentos de sem-teto.
Um deles me impressionou. Tinha 20 andares, a pintura encardida e cortinas rosa, vermelhas, verdes, algumas improvisadas com papelão. A imagem me levou a alguns minutos de contemplação.
Um funcionário da Secretaria de Habitação me informou que havia negociações em curso para comprá-lo e achar uma saída, antes que as coisas ficassem mais graves. Um prédio com as mesmas características pegou fogo e desabou. Havia negociações em curso.
Como entendo pouco do tema, procurei saber algo mais com os atores envolvidos. Supunha que divergências ideológicas estivessem travando soluções de consenso. Saí de São Paulo com uma sensação de que o problema é tão complexo que o ideal seria definir pontos de convergência e tentar algumas soluções, inclusive para a Cracolândia.
Não deixa de ser ingênuo desejar que as pessoas deixem a rigidez ideológica na porta e discutam de uma forma madura medidas pragmáticas. Os que se apoiam na ideologia e dependem do conflito para mobilizar precisam experimentar também pequenas realizações para descobrir que não se cresce só brigando, mas também fazendo acordos.
Existem setores que vão resistir. Na Cracolândia, por exemplo, o crime organizado está presente e quer manter as coisas como estão. Como explicar a invasão e o saque aos prédios populares que eram a vitrine do governo Alckmin naquela região?
Os moradores do prédio no Largo do Paiçandu pagavam entre R$ 200 e R$ 500 de aluguel. O movimento político que administrava a invasão tem interesses materiais no status quo. Pelo que pude observar, examinando propostas do governo e dos intelectuais de esquerda que fizeram o projeto de renovação dos Campos Elísios, algumas casas populares estavam nos planos de ambas as partes.
Apesar do grande desastre no Largo Paiçandu, o que senti nas ruas de São Paulo é que os moradores de rua estavam vivendo um momento favorável, se é possível dizer isso. Foram dias de sol e o verão abriu lugares menos hostis. Eu os vi na lateral da Prefeitura e do outro lado da rua. São muitas as ONGs e igrejas que procuram alimentá-los. No inverno as coisas ficam mais difíceis – 25 mil pessoas ao relento equivalem à população de muitas cidades do interior. Como agasalhá-los ou mesmo prevenir doenças e morte? A isso se soma o fato de que mais de 1 milhão de pessoas vivem em condições precárias de habitação.
Ao observar o que se passa na Cracolândia e no centro, outro ângulo me preocupou: a segurança biológica. Vivemos tempos difíceis e o próprio Bill Gates ao lado de um grupo de cientistas advertiu sobre o perigo das epidemias, que podem ser devastadoras. É preciso incluir essa dimensão no planejamento urbano, evitar a vulnerabilidade de parte da população porque, em tese, o destino de todos está em jogo.
Minha viagem a São Paulo foi uma introdução à gravidade do problema. Ele não acontece por acaso: milhares de pessoas deixam suas cidades em busca de uma chance na metrópole.
Mas São Paulo é maior que esse problema. Isso não significa que não se viva aqui um dos grandes dramas nacionais. O prédio desabado, por exemplo, era do governo federal.
Os candidatos a presidente poderiam fazer uma visita ao centro de São Paulo. Mesmo que isso não os motive, pelo menos conheceriam um importante aspecto do país que pretendem governar.
Mencionei a Cracolândia e o centro num artigo na semana passada, desejando aprender com as soluções e torcendo por elas. Concluí que se a sensação de urgência não prevalecer sobre a rigidez da visão ideológica, corremos o risco de tornar o Brasil ingovernável.
A queda de um edifício de 24 andares no centro da maior e mais rica cidade do Brasil é algo forte demais para ser um episódio perdido no tempo. Para mim, o lugar é uma espécie de marco zero. Não só o terror devasta, mas também anos de indecisão e descaminhos.
Soluções amplas para problemas dessa dimensão precisam de dinheiro. Se puder vir de todas as fontes, melhor. O governo federal tem uma secretaria de drogas. Não é possível que não tenha uma política para a Cracolândia, onde o drama se mostra sem máscara.
Uma renovação desse território é tão desafiadora que até o seu êxito pode criar novos problemas: uma política bem-sucedida com a população de rua, em tese, pode atrair mais gente para a metrópole.
Casas populares numa área economicamente forte podem originar o que os ingleses chamam de gentrificação. Elas se valorizam, os moradores as vendem para gente de mais poder aquisitivo. Mas é melhor tratar com eles do que com o fracasso. Na verdade, as coisas estão mudando na região, mas num ritmo ainda lento.
Um hospital será construído na Cracolândia, o Pérola Byington. A base policial montada no Largo Coração de Jesus é elogiada pelos moradores. Embora os soldados não cheguem até o chamado fluxo, a concentração de usuários de crack, eles garantem uma segurança no entorno.
Três postos do governo acolhem usuários e moradores de rua em espaços onde podem comer, tomar banho, dormir, obter documentos e até fazer terapia musical. Comparando imagens que fiz agora com as do passado, cheguei à conclusão de que houve uma redução, um progresso territorial que afastou de uma praça e alguns outros pontos a concentração de usuários.
Tomara que a queda do edifício ajude também a apressar os passos dados, desatar longas negociações. Por que tragédias num lugar que pode ser um dos mais atraentes da metrópole?
Um deles me impressionou. Tinha 20 andares, a pintura encardida e cortinas rosa, vermelhas, verdes, algumas improvisadas com papelão. A imagem me levou a alguns minutos de contemplação.
Um funcionário da Secretaria de Habitação me informou que havia negociações em curso para comprá-lo e achar uma saída, antes que as coisas ficassem mais graves. Um prédio com as mesmas características pegou fogo e desabou. Havia negociações em curso.
Como entendo pouco do tema, procurei saber algo mais com os atores envolvidos. Supunha que divergências ideológicas estivessem travando soluções de consenso. Saí de São Paulo com uma sensação de que o problema é tão complexo que o ideal seria definir pontos de convergência e tentar algumas soluções, inclusive para a Cracolândia.

Existem setores que vão resistir. Na Cracolândia, por exemplo, o crime organizado está presente e quer manter as coisas como estão. Como explicar a invasão e o saque aos prédios populares que eram a vitrine do governo Alckmin naquela região?
Os moradores do prédio no Largo do Paiçandu pagavam entre R$ 200 e R$ 500 de aluguel. O movimento político que administrava a invasão tem interesses materiais no status quo. Pelo que pude observar, examinando propostas do governo e dos intelectuais de esquerda que fizeram o projeto de renovação dos Campos Elísios, algumas casas populares estavam nos planos de ambas as partes.
Apesar do grande desastre no Largo Paiçandu, o que senti nas ruas de São Paulo é que os moradores de rua estavam vivendo um momento favorável, se é possível dizer isso. Foram dias de sol e o verão abriu lugares menos hostis. Eu os vi na lateral da Prefeitura e do outro lado da rua. São muitas as ONGs e igrejas que procuram alimentá-los. No inverno as coisas ficam mais difíceis – 25 mil pessoas ao relento equivalem à população de muitas cidades do interior. Como agasalhá-los ou mesmo prevenir doenças e morte? A isso se soma o fato de que mais de 1 milhão de pessoas vivem em condições precárias de habitação.
Ao observar o que se passa na Cracolândia e no centro, outro ângulo me preocupou: a segurança biológica. Vivemos tempos difíceis e o próprio Bill Gates ao lado de um grupo de cientistas advertiu sobre o perigo das epidemias, que podem ser devastadoras. É preciso incluir essa dimensão no planejamento urbano, evitar a vulnerabilidade de parte da população porque, em tese, o destino de todos está em jogo.
Minha viagem a São Paulo foi uma introdução à gravidade do problema. Ele não acontece por acaso: milhares de pessoas deixam suas cidades em busca de uma chance na metrópole.
Mas São Paulo é maior que esse problema. Isso não significa que não se viva aqui um dos grandes dramas nacionais. O prédio desabado, por exemplo, era do governo federal.
Os candidatos a presidente poderiam fazer uma visita ao centro de São Paulo. Mesmo que isso não os motive, pelo menos conheceriam um importante aspecto do país que pretendem governar.
Mencionei a Cracolândia e o centro num artigo na semana passada, desejando aprender com as soluções e torcendo por elas. Concluí que se a sensação de urgência não prevalecer sobre a rigidez da visão ideológica, corremos o risco de tornar o Brasil ingovernável.
A queda de um edifício de 24 andares no centro da maior e mais rica cidade do Brasil é algo forte demais para ser um episódio perdido no tempo. Para mim, o lugar é uma espécie de marco zero. Não só o terror devasta, mas também anos de indecisão e descaminhos.
Soluções amplas para problemas dessa dimensão precisam de dinheiro. Se puder vir de todas as fontes, melhor. O governo federal tem uma secretaria de drogas. Não é possível que não tenha uma política para a Cracolândia, onde o drama se mostra sem máscara.
Uma renovação desse território é tão desafiadora que até o seu êxito pode criar novos problemas: uma política bem-sucedida com a população de rua, em tese, pode atrair mais gente para a metrópole.
Casas populares numa área economicamente forte podem originar o que os ingleses chamam de gentrificação. Elas se valorizam, os moradores as vendem para gente de mais poder aquisitivo. Mas é melhor tratar com eles do que com o fracasso. Na verdade, as coisas estão mudando na região, mas num ritmo ainda lento.
Um hospital será construído na Cracolândia, o Pérola Byington. A base policial montada no Largo Coração de Jesus é elogiada pelos moradores. Embora os soldados não cheguem até o chamado fluxo, a concentração de usuários de crack, eles garantem uma segurança no entorno.
Três postos do governo acolhem usuários e moradores de rua em espaços onde podem comer, tomar banho, dormir, obter documentos e até fazer terapia musical. Comparando imagens que fiz agora com as do passado, cheguei à conclusão de que houve uma redução, um progresso territorial que afastou de uma praça e alguns outros pontos a concentração de usuários.
Tomara que a queda do edifício ajude também a apressar os passos dados, desatar longas negociações. Por que tragédias num lugar que pode ser um dos mais atraentes da metrópole?
Pode invadir
Hoje em dia o governo do estado, a prefeitura municipal, o Ministério Público e a Justiça de São Paulo (e de muitos outros lugares por este Brasil afora) autorizam quase que oficialmente as invasões de edifícios em desuso ou terrenos com problemas de escritura. No momento, para se ter uma ideia do tamanho do buraco, há na cidade mais de 200 imóveis invadidos. Muitas vezes, na verdade, o Ministério Público proíbe que se tome qualquer medida para expulsar os invasores ─ mesmo quando há sentença judicial ordenando a reintegração de posse, a polícia se vê impedida de agir, ou não recebe ordens do governo do estado para cumprir a decisão da Justiça. De qualquer forma, não há a menor hipótese de acontecer o que deveria ser a coisa mais normal deste mundo: indiciar em inquérito os organizadores da invasão e abrir uma ação penal contra eles. Podem botar na cadeia, condenado a doze anos, até um ex-presidente da República. Mas um líder dos “sem teto”? Nem pensar. O máximo que as autoridades permitem é que seja feita uma “negociação”. No caso do prédio que foi ao chão em São Paulo, a prefeitura e os chefes dos “movimentos sociais” já tinham feito seis reuniões.
Num país em que muita gente boa acredita que os jornalistas praticam um vigoroso “jornalismo investigativo” (a começar por eles próprios, os jornalistas) é realmente uma surpresa constatar que a mídia não faz nenhum esforço minimamente sério para investigar as gangues que exploram a invasão de imóveis nas grandes cidades brasileiras. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, como na Bíblia, do que encontrar nos jornais, rádio e televisão uma única reportagem que aponte, por exemplo, a responsabilidade dos “movimentos sociais” (e do seu candidato presidencial) num caso como o do prédio que desabou em São Paulo. Cobranças iradas foram dirigidas pela mídia ao prefeito Bruno Covas, ao governo do estado, “ao Temer”, ao Corpo de Bombeiros, aos equipamentos anti-incêndio e até à “estrutura mista” de concreto e ferro do edifício. Mas mal se ouviu alguma referência ao MTST e grupos do mesmo ramo de negócio ─ e menos ainda a seu sócio-proprietário, entretido naquele momento em fazer barulho pela “libertação de Lula” em Curitiba. Ao contrário: ele só apareceu no papel de homem público indignado, cobrando das autoridades a “rigorosa apuração dos fatos”, etc., etc. Jornalismo investigativo é isso aí.
Sem foro, políticos alvejam a regra sobre prisão
Ao limitar o foro privilegiado aos crimes cometidos por parlamentares durante o mandato e por fatos relacionados ao cargo, o Supremo deu uma contribuição para atenuar a impunidade no país. Muita gente não tem ideia da importância dessa decisão. Mas a Lava Jato ajuda a explicar. Nessa operação, os corruptos sem mandato estão em cana —inclusive Lula. Os réus com mandato, continuam impunes depois de quatro anos de investigação. O primeiro privilegiado a ser julgado, em sessão marcada para o próximo dia 15 de maio, será um deputado do baixíssimo clero: Nelson Meurer, do PP.
A decisão do Supremo, tomada por maioria de votos, depois de dois pedidos de vista que retardaram o veredicto por quase um ano, é uma vitória. Mas convém não baixar a guarda. O inimigo continua na trincheira. Nas próximas semanas, será necessário acompanhar o filtro que os ministros do Supremo adotarão para selecionar os processos que descem para a primeira instância e os que permanecem em Brasília.
Venceu-se mais uma batalha. Mas a guerra está longe de acabar. E os larápios que se escondem atrás de mandatos já esboçam uma reação. Vão elevar a pressão para que o Supremo volte atrás na regra que permitiu a prisão de condenados na segunda instância. Isso seria um prêmio para todos os políticos que terão seus processos enviados para a primeira instância. Os que recebessem punições duras poderiam continuar recorrendo em liberdade não apenas à segunda instância, mas até a terceira e a quarta instância. Os processos se arrastariam por anos a fio. E tudo morreria novamente no Supremo, com direito a prescrição e impunidade.
A decisão do Supremo, tomada por maioria de votos, depois de dois pedidos de vista que retardaram o veredicto por quase um ano, é uma vitória. Mas convém não baixar a guarda. O inimigo continua na trincheira. Nas próximas semanas, será necessário acompanhar o filtro que os ministros do Supremo adotarão para selecionar os processos que descem para a primeira instância e os que permanecem em Brasília.
Venceu-se mais uma batalha. Mas a guerra está longe de acabar. E os larápios que se escondem atrás de mandatos já esboçam uma reação. Vão elevar a pressão para que o Supremo volte atrás na regra que permitiu a prisão de condenados na segunda instância. Isso seria um prêmio para todos os políticos que terão seus processos enviados para a primeira instância. Os que recebessem punições duras poderiam continuar recorrendo em liberdade não apenas à segunda instância, mas até a terceira e a quarta instância. Os processos se arrastariam por anos a fio. E tudo morreria novamente no Supremo, com direito a prescrição e impunidade.
'Quadrilhão' supremo
O crime organizado da corrupção, que tem como instrumento os partidos políticos, construiu um arcabouço de leis em causa própria e de apropriação criminosa de recursos do Tesouro que assegura aos nossos atuais “representantes” – todos bandidos – a reeleição para os mesmos ou para outros cargos em 2018.
O ‘quadrilhão do STF’ é o braço armado do crime organizado da corrupção, que, desafiando a sociedade, pretende continuar lutando pela restauração plena dos corruptos na direção do nosso país. Cabe aos ilustres e respeitados ministros decentes daquela Corte, em maioria, resistir às investidas cavernosas de seus colegas do quadrilhão, cada vez mais ousados na defesa, proteção e liberação dos bandidos da classe política e do empresariadoModesto Carvalhosa
Está cada vez mais difícil saber o que é verdadeiro ou falso
No último ano da faculdade surgiram as primeiras máquinas de calcular portáteis. Foi uma revolução. A gente ainda usava réguas de cálculo, engenhosas, mas que nem sempre funcionavam com a precisão exigida nas provas. A novidade custava caro, principalmente para aquele bando de duros que frequentavam o Fundão. Os poucos privilegiados eram olhados com inveja, mal sabendo que, num intervalo histórico bem curto, qualquer camelô venderia a máquina por ninharia. As revoluções tecnológicas são assim mesmo. No início, o espanto. Em seguida, a popularização. Finalmente, a busca pela ultrapassagem, num ciclo interminável. Hoje em dia, cada uma dessas etapas envelhece com rapidez crescente.
Ontem, vi um anúncio de iPhone que alardeia velocidade de processamento dez vezes maior do que os modelos existentes no mercado. Quem precisa de tanta pressa? Aonde vai parar essa obsessão pelo novo? Que preço (ambiental, social, político) pagamos por isso?
Subprodutos das redes sociais, o ultramoderno que não filtra procedências e seriedade das fontes, as fake news renovam a cada dia a pergunta: o que é verdade? Em agosto de 1964, o governo americano simulou um ataque vietnamita a navios de guerra no golfo de Tonkin. Em tom indignado, o presidente Johnson foi à TV denunciar o “incidente” e garantir que não ia deixar barato. E não deixou mesmo. A agressão, cuja falsidade gravações e documentos comprovaram mais tarde, foi o pretexto para o início da escalada bélica no sudeste asiático. O imperialismo queria “jogar aqueles caras de volta à Idade da Pedra”.
Os bombardeios maciços contra populações civis (mesmo quando se negociava um armistício em Paris, no início dos anos 70) e o uso intensivo de armas químicas (desfolhantes que dizimaram áreas verdes e mutilaram milhares de pessoas, e bombas de napalm, produto químico em forma de gel, que, inflamado, provoca ferimentos terríveis e mortes dantescas) não dão margem a dúvidas. Tudo baseado num acontecimento fabricado. O imperialismo é a demonstração prática da fábula do lobo e a ovelha.
Exemplo mais recente é o desempenho patético de Colin Powell na ONU, “provando” a existência de armas de destruição em massa no Iraque, sob o aplauso da claque da morte (Tony Blair et caterva). As armas nunca foram encontradas, ninguém se desculpou pela mentira e, no meio do caminho, um país inteiro praticamente deixou de existir. O ex-presidente do Federal Reserve, Allan Greenspan, confirmou que a verdadeira razão para invadir o Iraque foi a defesa das reservas de petróleo no Oriente Médio. Deve ter sido banido dos coquetéis na Casa Branca.
Nas redes sociais, a tecnologia da mentira se sofistica e é cada vez mais difícil se informar em sites e plataformas “confiáveis”. No final do ano passado, o Washington Post publicou matéria que transita entre o cômico e o aterrador. Um restaurante falso em Londres liderou o ranking de qualidade num site de viagens. O jornalista britânico Oobah Butler inventou um restaurante virtual, associou-o a uma página na web, combinou resenhas favoráveis com amigos e, surpreendentemente, começou a receber pedidos de reserva. Claro que ele as negava, alegando que o local estava lotado.
O site divulgava um menu baseado em “emoções” (parte da cultura gourmet, praga que vende “experiências”), conceito que, de acordo com o jornalista, é “bobo o bastante para enfurecer seu pai”. Ilustrava o cardápio com belas fotos… produzidas com produtos domésticos, como tabletes de cloro e creme de barbear.
A curiosidade gerada por uma casa tão “exclusiva” (ninguém conseguia lugar para comer lá) se espalhou e pedidos de reserva começaram a chegar do mundo todo ! O telefone não parava de tocar. O TripAdvisor elevou o restaurante ao primeiro lugar das indicações em Londres, quase 90 mil pessoas visitavam o site do restaurante fake todos os dias.
O que nos ensina este delírio coletivo, pendurado em nada? Bem, comparado com o que conto em seguida, Butler é um inocente brincalhão.
Supasorn Suwajanakorn (o nome é esse mesmo, nada fake), pesquisador do Google Brain, desenvolveu um software que permite produzir vídeos falsos com toques de realidade. Um exemplo. Numa palestra, projetou quatro versões diferentes de um mesmo discurso do ex-presidente Obama. Perguntou à plateia: qual delas era a versão falsa? A resposta: todas eram falsas. Em 14 horas, o programa manipulou fotos e vídeos pré-existentes de Obama, criando uma realidade paralela.
O software estará, em breve, disponível para uso através de navegadores da internet. Alguém consegue dimensionar o alcance disso? A tecnologia, que está dando os primeiros passos, será certamente aperfeiçoada. Chegará um momento, tenho certeza, em que não será mais possível diferenciar real de virtual. Não será mais possível acreditar em imagem alguma. Aí, então, os filósofos fritarão os miolos para definir a neoverdade, aquela cozinhada em algoritmos e modelos em 3D.
É, meninos, estamos próximos de protagonizar um episódio tardio do Twilight zone. Pena que Rod Serling está morto, a imaginação não está no poder e não existe garantia de happy end. Câmbio e desligo.
Ontem, vi um anúncio de iPhone que alardeia velocidade de processamento dez vezes maior do que os modelos existentes no mercado. Quem precisa de tanta pressa? Aonde vai parar essa obsessão pelo novo? Que preço (ambiental, social, político) pagamos por isso?
Subprodutos das redes sociais, o ultramoderno que não filtra procedências e seriedade das fontes, as fake news renovam a cada dia a pergunta: o que é verdade? Em agosto de 1964, o governo americano simulou um ataque vietnamita a navios de guerra no golfo de Tonkin. Em tom indignado, o presidente Johnson foi à TV denunciar o “incidente” e garantir que não ia deixar barato. E não deixou mesmo. A agressão, cuja falsidade gravações e documentos comprovaram mais tarde, foi o pretexto para o início da escalada bélica no sudeste asiático. O imperialismo queria “jogar aqueles caras de volta à Idade da Pedra”.
Exemplo mais recente é o desempenho patético de Colin Powell na ONU, “provando” a existência de armas de destruição em massa no Iraque, sob o aplauso da claque da morte (Tony Blair et caterva). As armas nunca foram encontradas, ninguém se desculpou pela mentira e, no meio do caminho, um país inteiro praticamente deixou de existir. O ex-presidente do Federal Reserve, Allan Greenspan, confirmou que a verdadeira razão para invadir o Iraque foi a defesa das reservas de petróleo no Oriente Médio. Deve ter sido banido dos coquetéis na Casa Branca.
Nas redes sociais, a tecnologia da mentira se sofistica e é cada vez mais difícil se informar em sites e plataformas “confiáveis”. No final do ano passado, o Washington Post publicou matéria que transita entre o cômico e o aterrador. Um restaurante falso em Londres liderou o ranking de qualidade num site de viagens. O jornalista britânico Oobah Butler inventou um restaurante virtual, associou-o a uma página na web, combinou resenhas favoráveis com amigos e, surpreendentemente, começou a receber pedidos de reserva. Claro que ele as negava, alegando que o local estava lotado.
O site divulgava um menu baseado em “emoções” (parte da cultura gourmet, praga que vende “experiências”), conceito que, de acordo com o jornalista, é “bobo o bastante para enfurecer seu pai”. Ilustrava o cardápio com belas fotos… produzidas com produtos domésticos, como tabletes de cloro e creme de barbear.
A curiosidade gerada por uma casa tão “exclusiva” (ninguém conseguia lugar para comer lá) se espalhou e pedidos de reserva começaram a chegar do mundo todo ! O telefone não parava de tocar. O TripAdvisor elevou o restaurante ao primeiro lugar das indicações em Londres, quase 90 mil pessoas visitavam o site do restaurante fake todos os dias.
O que nos ensina este delírio coletivo, pendurado em nada? Bem, comparado com o que conto em seguida, Butler é um inocente brincalhão.
Supasorn Suwajanakorn (o nome é esse mesmo, nada fake), pesquisador do Google Brain, desenvolveu um software que permite produzir vídeos falsos com toques de realidade. Um exemplo. Numa palestra, projetou quatro versões diferentes de um mesmo discurso do ex-presidente Obama. Perguntou à plateia: qual delas era a versão falsa? A resposta: todas eram falsas. Em 14 horas, o programa manipulou fotos e vídeos pré-existentes de Obama, criando uma realidade paralela.
O software estará, em breve, disponível para uso através de navegadores da internet. Alguém consegue dimensionar o alcance disso? A tecnologia, que está dando os primeiros passos, será certamente aperfeiçoada. Chegará um momento, tenho certeza, em que não será mais possível diferenciar real de virtual. Não será mais possível acreditar em imagem alguma. Aí, então, os filósofos fritarão os miolos para definir a neoverdade, aquela cozinhada em algoritmos e modelos em 3D.
É, meninos, estamos próximos de protagonizar um episódio tardio do Twilight zone. Pena que Rod Serling está morto, a imaginação não está no poder e não existe garantia de happy end. Câmbio e desligo.
quinta-feira, 3 de maio de 2018
Bruxaria
O dicionário vai dizer de onde vem a palavra bruxo ou bruxa. Mas nenhum vai informar sobre o seu significado profundo.
Quem fez isso foram os antropólogos que, a partir de 1934, com a publicação do livro de E. E. Evans-Pritchard sobre os Azande (um povo do sul do Sudão) revelaram como a “bruxaria” é um idioma destinado a explicar infortúnios e acidentes, exibindo suas causas finais. O “porquê” do desastre foi ocorrer justamente com os nossos filhos e não com os dos nossos vizinhos ou desafetos.
A aceitação do acaso como um fenômeno não intencional é um problema no universo humano obcecado com equilíbrios, retribuições e motivos moralmente ancorados. Afinal, o tamanho do infortúnio deve ter alguma relação com a pessoa afetada. Se existe responsabilidade nas nossas vidas, por que não haveria também nos acidentes?
Se o pai é superior a ele, em contrapartida, tem mais deveres e muito mais culpa como doador de rumos e exemplos do que o filho. É o tal domínio do fato que a teoria dos papéis sociais desvenda em socioantropologia.
Diante do desastre somos levados ao doloroso processo de suspeitar o inocente da inocência; ou procurar o bruxo produtor da feitiçaria que coloca em dúvida a plausibilidade moral do mundo.
Nas sociedades tribais, as relações sociais são múltiplas porque todos são filhos, irmãos, primos, cunhados, tios e sobrinhos do chefe, do curador, do profeta ou do rei. Nelas, a bruxaria estaria ligada a essa multiplicidade de elos sociais que nem sempre funcionam em harmonia e conduzem aos conflitos de interesse que — pasmemos todos! — pela primeira vez, estamos tendo que lidar seriamente no mundo público nacional.
A bruxaria denuncia como o coração humano tem, parafraseando Pascal, razões que o próprio coração desconhece. E que Freud situou na dinâmica entre o coletivo (o superego ou o todo), o individualizado (o ego ou a parte) e o Id (o “isso”, o desejo) que a consciência se vê obrigada a reprimir e esconder. Seja o amor secreto pela irmã, o desejo pela exclusividade amorosa dos pais ou o êxito do cunhado.
Contradições entre motivos nos levam a buscar o feiticeiro ou o analista (significativamente chamado de “encolhedor de cabeça” nos EUA). Recolhidos ambos em seus consultórios e cobrando pelos segredos íntimos que lhes contamos, eles — como os confessores — têm em comum um relativo abandono do mundo. O poder oracular decorre do se olhar distanciado. Usando cartas (que não mentem), búzios, veneno e galinhas (como fazem os Azande), eles teriam a capacidade “objetiva” de dar intencionalidade ao acaso e ao malefício.
Os papéis sociais que nos envolvem são (para desengano dos tiranos) sempre limitados. O papel de presidente tem como complemento o de povo; o de rico tem no de pobre o seu chão. O de adulto é complementado pelo de criança, o de vivo tem no morto sua contraparte; e o de professor tem no aluno sua fonte de legitimidade. Note que os papéis de um pai bancando um filho produz doença ou anomia — essa bruxaria tão nossa conhecida. Nestes casos, um papel não existe sem o outro e eles são regidos por ética e não por lei. Aqui, invocação da lei é sinal de crise.
Mas tudo se transforma com a invenção do “estado” e da soberania centrada num território exclusivo. Agora os papéis sociais fundados na reciprocidade da casa e na aldeia, começam a competir com os “cargos” administrativos cujo centro não é mais o “sangue”, mas a coletividade e as ambições políticas. A passagem da casa para a rua — como tenho revelado na minha obra — é complicada.
A necessidade de atribuir intenções, sem as quais não há moralidade ou sociabilidade, continua, só que ela se complica com o “estado”. Agora o bruxo não é mais o egoísta frustrado e fechado em si mesmo e na sua sovinice, como o Scrooge de Dickens, mas o ocupante de um cargo público obtido por competição livre, cujo alvo é o bem estar nacional. Há uma severa e – como mostra a crise da crise brasileira – uma perversa divisão. De um lado, o bruxo prestes a virar “político” pensa na sua tribo e casa mas; de outro, ele é forçado a honrar novas e amplas lealdades com o seu partido e eleitores. Essas lealdades podem, numa democracia, ser usadas umas contra as outras.
As antigas lealdades de aldeia produziam bruxarias, as novas lealdades políticas nacionais e internacionais produzem contradições. O bruxo vira o político e a bruxaria se transforma num conjunto de opiniões legais paradoxais que só o bom senso (e haja bom senso!) pode resolver. Nesse caso, bruxaria é propina — esse laço entre o tribal e o nacional que fez com que o Brasil fosse vendido e comprado.
Quem fez isso foram os antropólogos que, a partir de 1934, com a publicação do livro de E. E. Evans-Pritchard sobre os Azande (um povo do sul do Sudão) revelaram como a “bruxaria” é um idioma destinado a explicar infortúnios e acidentes, exibindo suas causas finais. O “porquê” do desastre foi ocorrer justamente com os nossos filhos e não com os dos nossos vizinhos ou desafetos.
A aceitação do acaso como um fenômeno não intencional é um problema no universo humano obcecado com equilíbrios, retribuições e motivos moralmente ancorados. Afinal, o tamanho do infortúnio deve ter alguma relação com a pessoa afetada. Se existe responsabilidade nas nossas vidas, por que não haveria também nos acidentes?
Se o pai é superior a ele, em contrapartida, tem mais deveres e muito mais culpa como doador de rumos e exemplos do que o filho. É o tal domínio do fato que a teoria dos papéis sociais desvenda em socioantropologia.
Diante do desastre somos levados ao doloroso processo de suspeitar o inocente da inocência; ou procurar o bruxo produtor da feitiçaria que coloca em dúvida a plausibilidade moral do mundo.
Nas sociedades tribais, as relações sociais são múltiplas porque todos são filhos, irmãos, primos, cunhados, tios e sobrinhos do chefe, do curador, do profeta ou do rei. Nelas, a bruxaria estaria ligada a essa multiplicidade de elos sociais que nem sempre funcionam em harmonia e conduzem aos conflitos de interesse que — pasmemos todos! — pela primeira vez, estamos tendo que lidar seriamente no mundo público nacional.
A bruxaria denuncia como o coração humano tem, parafraseando Pascal, razões que o próprio coração desconhece. E que Freud situou na dinâmica entre o coletivo (o superego ou o todo), o individualizado (o ego ou a parte) e o Id (o “isso”, o desejo) que a consciência se vê obrigada a reprimir e esconder. Seja o amor secreto pela irmã, o desejo pela exclusividade amorosa dos pais ou o êxito do cunhado.
Contradições entre motivos nos levam a buscar o feiticeiro ou o analista (significativamente chamado de “encolhedor de cabeça” nos EUA). Recolhidos ambos em seus consultórios e cobrando pelos segredos íntimos que lhes contamos, eles — como os confessores — têm em comum um relativo abandono do mundo. O poder oracular decorre do se olhar distanciado. Usando cartas (que não mentem), búzios, veneno e galinhas (como fazem os Azande), eles teriam a capacidade “objetiva” de dar intencionalidade ao acaso e ao malefício.
Os papéis sociais que nos envolvem são (para desengano dos tiranos) sempre limitados. O papel de presidente tem como complemento o de povo; o de rico tem no de pobre o seu chão. O de adulto é complementado pelo de criança, o de vivo tem no morto sua contraparte; e o de professor tem no aluno sua fonte de legitimidade. Note que os papéis de um pai bancando um filho produz doença ou anomia — essa bruxaria tão nossa conhecida. Nestes casos, um papel não existe sem o outro e eles são regidos por ética e não por lei. Aqui, invocação da lei é sinal de crise.
Mas tudo se transforma com a invenção do “estado” e da soberania centrada num território exclusivo. Agora os papéis sociais fundados na reciprocidade da casa e na aldeia, começam a competir com os “cargos” administrativos cujo centro não é mais o “sangue”, mas a coletividade e as ambições políticas. A passagem da casa para a rua — como tenho revelado na minha obra — é complicada.
A necessidade de atribuir intenções, sem as quais não há moralidade ou sociabilidade, continua, só que ela se complica com o “estado”. Agora o bruxo não é mais o egoísta frustrado e fechado em si mesmo e na sua sovinice, como o Scrooge de Dickens, mas o ocupante de um cargo público obtido por competição livre, cujo alvo é o bem estar nacional. Há uma severa e – como mostra a crise da crise brasileira – uma perversa divisão. De um lado, o bruxo prestes a virar “político” pensa na sua tribo e casa mas; de outro, ele é forçado a honrar novas e amplas lealdades com o seu partido e eleitores. Essas lealdades podem, numa democracia, ser usadas umas contra as outras.
As antigas lealdades de aldeia produziam bruxarias, as novas lealdades políticas nacionais e internacionais produzem contradições. O bruxo vira o político e a bruxaria se transforma num conjunto de opiniões legais paradoxais que só o bom senso (e haja bom senso!) pode resolver. Nesse caso, bruxaria é propina — esse laço entre o tribal e o nacional que fez com que o Brasil fosse vendido e comprado.
Síntese do Brasil
O prédio que pegou fogo e desabou em São Paulo sintetiza o Brasil: somos um país caindo aos pedaços, com um monte de gente pobre manipulada pela esquerda e convenientemente invisível aos olhos de quem ocupa regularmente o governoO Antagonista
A banalização do mal
A tragédia acabou politizada. O esforço maior foi apontar o dedo para os adversários e encontrar culpados do que compreender a dinâmica social que leva milhares de pessoas a viver em locais como aquele. Culpou-se administrações atuais e anteriores, movimentos sociais sem-teto e urbanistas. Sem provas ou maiores elementos, houve ex autoridade que afirmou que o local servia de abrigo ao PCC — mas não disse o que fez a respeito.
Como se vê, não faltou quem desse bom dia a cavalos; houve até quem se culpasse os próprios pobres por não ter moradia (sic). Ora, ora… Mas, o fato é que, na política, somente notícias boas encontram padrinho. Não faltam oportunistas para assumir a paternidade de uma obra bacana, de um bom plano, da distribuição de recursos. Já no momento ruim ninguém se apresenta. Infelizmente, isso é normal.
Mas, o que não se discute — ou se prefere esquecer — é que o Estado, no Brasil, entrou em colapso. Seja porque não consegue estimular a economia, criar emprego e distribuir riqueza. Seja porque é incapaz de abrigar o povo pobre, sem-teto, miseráveis em situação de rua. Seja porque não consegue evitar ocupações em prédios vazios ou, diante do déficit de moradias inibir a especulação com imóveis ociosos.
Não se implementa políticas públicas inovadoras que estimulem a ocupação legal desses imóveis, que sejam capazes de incluir a população pobre. Por melhor elaborados e mais bem-intencionados que sejam, planos diretores acabam relegados à condição de letra morta da lei, em virtude da falta de recursos e ou de interesse.
Simplesmente, o Estado não existe. Não é porque seja pequeno e insuficiente, nem porque seja mastodôntico e perdulário. Na realidade cheia de paradoxos que é o Brasil, o Estado consegue ser ao mesmo tempo isso tudo: pequeno e insuficiente para o que é necessário e inescapável; mastodôntico e perdulário na má alocação de recursos, na sua apropriação por grupos corporativos, superprotegidos.
Culpa de quem? Provavelmente, culpa de todos. Inclusive, da sociedade que se omite.
O Brasil é um país acostumado a conviver com a miséria, com pessoas dormindo sob marquises, com crianças nos faróis; com pessoas comendo do lixo que recolhem. É também habituado à criminalidade e à violência e nada mais parece escandalizar, tudo se fez banal. Sem açúcar, sem sal, sem indignação. Apenas normal. Banaliza-se o mal.
Pois parece normal que seres humanos, famílias inteiras, tenham que ocupar pardieiros sem luz, sem água, sem sol, sem segurança, sem perspectiva e sem ar. Assim, como parece natural que surjam pessoas que se aproveitam disso. Parece normal que a prefeitura diga que o problema é federal; que o governo, em Brasília, esteja distante, que o presidente da República seja vaiado. Que governantes e ex governantes, depois de décadas de poder, assistam a tudo com ar blasé.
Nas redes sociais, no conforto de seus sofás, na modorra do feriado, os tais internautas se manifestaram informando estarem bem (sic). Marcaram-se como seguros, distantes de um lugar por onde, todos sabem, jamais passariam. Seria cinismo, desaviso ou melancolia por não estrem em Nova York, lugar de atentados terroristas? O terror, no Brasil, se manifesta a seu próprio modo.
Outros tantos, como sempre, preferiram, mais uma vez, demonizar inimigos. Surgiram milhares — talvez milhões — de especialistas, prontos a atirar pedra, capazes de discorrer sobre a questão urbana, o problema da moradia, das drogas, da segurança, da especulação imobiliária; do direito de propriedade, da banditização dos movimentos sociais.
Vem à minha cabeça Max Weber, num trecho de sua ''A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo'' — não, não se trata de um comunista. Diz ele que ''…neste último estágio de desenvolvimento cultural, seus integrantes poderão ser chamados de ‘especialistas sem espírito, sensualistas sem coração, nulidades que imaginam ter atingido um nível de civilização nunca antes alcançado’”. Esquecem que mesmo feio, todo o filho sempre terá seu pai. E, nesse caso, somos nós.
Carlos Melo
Dizer de mim
A minha vida não serve de exemplo para ninguém, a não ser para mim próprio.Um homem é o que para os outros foi ou é, e, também, aquilo que o não deixaram ser. A minha vida permitiu-me acumular experiências, e tive a sorte de trabalhar, em dois diários, com grandes, extraordinários, profissionais. Os jornais, esses, acabaram e de forma triste e desamparada. Aos jornalistas, a esses, recordo-os sempre com estima e afeição. Sou um produto deles, e eles sempre olharam por mim com o cuidado suscitado pela amizade. Não exagero: o pulsar do meu coração não falha, quando leio ou assisto, pelas televisões, nos jornais, a reportagens que marcam o sobressalto daquilo que sinto. Esses sentimentos prolongo-os até hoje, numa memória constante que, amiúde, se confunde com o meu próprio destino.
Às vezes, apetece-me dizer estas coisas. Inspirações momentâneas, surgidas do que observo ou leio. Mas também desejo encorajar todos aqueles que, nos jornais ou nas televisões, têm sentido a frustração dos dias, a estranha paragem do tempo, a dor secreta da velhice. Nunca me queixei, nunca levei para casa a dor profunda e secreta do que me faziam. Fui fazendo. Algumas vezes disfarçando, nas frases, o sofrimento que ocultava com um riso só feliz na aparência. Tenho andado a remoer e a mastigar, com o esquecimento forçado e o sorriso aberto, as dores com as quais fui envelhecendo.
Tenho a cabeça e os sentimentos que nela se ocultam, sem se apagar, numerosos factos e histórias, afinal comuns a quem fez da vida um caudal de palavras e de frases. O culpado sou só eu. Mas só escrevo aquelas que não podem magoar ninguém. Sei que se chama a isto ter carácter. Salvei- -me do recurso à canalhice, e tudo concorria para que assim não fosse. A minha vida não serve de exemplo para ninguém, a não ser para mim próprio, e só a escrevo em minúsculos episódios, como este, agora, e devo-o não só a mim, mas, sobretudo, àqueles que de mim gostam. Até já.
Assim é a 'sopa de plástico' que asfixia o mundo
“Os oceanos cobrem 71% da superfície da Terra, e existe a crença errônea de que só há ilhas de plástico flutuando por aí (…), quando o certo é que ele está por toda parte: em terra, mar e ar. Sua acumulação e fragmentação são tamanhas que os danos derivados do plástico superam seus benefícios”, afirma Roscam Abbing. Especialista em meio ambiente e membro da Fundação Sopa de Plástico (Amsterdã), ele cita um exemplo visual para ilustrar uma luta que é de todos – produtores, Governos e consumidores. É a famosa imagem do cavalo-marinho com a cauda enroscada em um cotonete, que delata a responsabilidade mal compartilhada. Foi feita pelo fotógrafo Justin Hoffman, morador do Canadá, enquanto mergulhava na Indonésia, e aparece entre as ilustrações do Atlas. “Poderia ter sido evitado”, diz o escritor. “Os cotonetes plásticos vão para a privada e então diretamente para as águas superficiais e as praias. Sendo que o fabricante poderia fazê-los de cartolina ou madeira. Mas são mais caros.”

No texto, mostra-se que numa praia qualquer do Reino Unido há em média 24 cotonetes a cada 100 metros. Outros dados: nos Estados Unidos, são jogadas no lixo 2,5 milhões de garrafas de plástico por hora; a cada minuto, usa-se no mundo um milhão de sacolas desse material. E, o pior de tudo, na sua opinião: as embalagens pequenas, fabricadas com diversos tipos de plástico, e usadas uma só vez. “Nos países em desenvolvimento a publicidade do xampu costuma ser assim, porque as pessoas têm uma poder aquisitivo diferente. Acumulam-se em grandes quantidades, e poderia ser incentivado outro tipo de fabricação e um consumo mais responsável, por parte da própria empresa, com embalagens reutilizáveis”. Quanto ao pão, “perdeu-se o costume de levar as tradicionais sacolas de tecido, e são colocados em bolsas de plástico, destinadas ao lixo”, acrescenta.
Uma boa ideia para reduzir a fabricação e uso dos plásticos é a tatuagem a laser na casca de frutas e verduras. “É seguro e sustentável, mantém a etiquetagem obrigatória e foi aprovada pela União Europeia. A Espanha é pioneira nessa tecnologia (Laserfood, de Valência) e economiza pacotes porque a informação essencial é impressa na casca.” Com fotos dessa poluição em lavouras, no fundo dos mares, em redes pluviais e qualquer outro meio ou superfície imaginável, o Atlas recorda que todos os plásticos se degradam. Suas partículas, impossíveis de recolher, são ingeridas por humanos e animais. “Um perigo enorme: entram em organismos vivos e ignoramos seus efeitos”. De qualquer forma, embora a produção responsável, o manejo sustentável de terras e águas e a reciclagem e a cooperação entre o setor público e privado sejam essenciais, a sopa de plástico supera as barreiras nacionais. E há uma lacuna jurídica. “Nada menos que a falta de um tratado internacional no âmbito das Nações Unidas dedicado a conter a própria sopa”, é o conselho que fecha o Atlas.
Preso, Lula virou candidato por correspondência
Neste 1º de Maio, Gleisi Hoffmann leu mais uma carta de Lula. Deu-se no encerramento do ato que reuniu em Curitiba as principais centrais sindicais do país. O missivista do cárcere declarou-se triste, porque “nossa democracia está incompleta”. Comparou os tempos bicudos da era Michel Temer —“O desemprego cresce e humilha”— à pujança de sua época —“Vocês se lembram da prosperidade do Brasil naqueles tempos…”
Embora faltassem a Gleisi a rouquidão e a desenvoltura de palco, o timbre eleitoreiro saltou, indisfarçável, do texto ditado para os advogados. “Sabemos que esse Brasil é possível. Mais do que isso, já vivemos nesse Brasil há muito pouco tempo atrás”.
Tomado pelos termos da carta, Lula deve ter sido picado na cela especial de Curitiba pelo mosquito que transmite uma febre causadora de amnésia. O sumiço da memória apagou da carta do presidiário petista a companheira Dilma Rousseff.
A gestão de Temer revela-se perversa. Mas a ruína econômica que espalhou desemprego e desesperança é consequência direta do desastre gerencial produzido por Dilma —um poste que Lula elegeu e que teve Gleisi como uma cultuada chefe da Casa Civil.
A correspondência do cárcere ataca Temer da boca para fora. No íntimo, o missivista agradece aos “golpistas”. Depois de fazer a sucessora duas vezes, Lula estava sendo desfeito por ela. Sem o impeachment, não haveria um Michel Temer para chutar.
Com Dilma em casa, o missivista do cárcere pode exercitar livremente sua mania de confundir memória com consciência limpa. Os devotos não se incomodam. O importante é manter em pé a hipotética candidatura. ''Se alguém falar em Plano B para vocês, não acreditem'', disse a ré Gleisi para a plateia.
Triste primeiro de maio
Vale recordar que a chamada reforma trabalhista entrou em vigor em 11 de novembro de 2017. Seus promotores anunciavam que seus efeitos “benéficos” sobre o mercado de trabalho começariam a ser sentidos a partir do primeiro trimestre de 2018. Henrique Meirelles chegou a dizer que seriam gerados mais de 6 milhões de novos postos de trabalho. Como se vê, isso não aconteceu. Mesmo que novas vagas tivessem surgido, a partir das novas modalidades de contratações precárias, era de se presumir que a renda do brasileiro não aumentaria, fato que agora se confirma. Aliás, tivemos até, como assinalei acima, um pequeno retrocesso na nossa capacidade de consumo. Isso sem considerarmos os nefastos impactos sobre o FGTS e a Previdência Social que os novos tipos de ajustes laborais provocam, com o rebaixamento da base de cálculo das contribuições. Apenas para ilustrar, segundo a Receita Federal, a arrecadação do INSS em março de 2018 foi 0,53% menor que a do mesmo mês no ano passado.

O tema me é muito caro. A ele me dediquei na universidade e no início do primeiro governo Lula. Gostaria de destacar que a precarização das relações laborais se dá – ao lado da terceirização e do trabalho intermitente – de uma forma bastante peculiar, que consiste na chamada “pejotização” do trabalhador. O Simples virou “simplérrimo” ou “empreendedor de si mesmo”: quem só tem a sua força de trabalho e a vende de maneira não-eventual a quem determina o quê, como, quando e onde deve fazer algo jamais pode ser considerado um empresário que exerce a livre iniciativa. Trata-se de fraude grotesca da relação de emprego, cujo único objetivo é reduzir as contribuições sociais e tributárias, tão necessárias à implementação de políticas públicas em prol do próprio trabalhador, de sua família e da sociedade como um todo.
O mais triste é ver que, apeado do governo, o PT que denuncia Temer não se dá conta do quanto as suas gestões também contribuíram para que chegássemos a esse estado de coisas. Da terceirização selvagem nas estatais federais Lula e Dilma nunca reclamaram. E quando o Congresso Nacional aprovou a Lei 12.441/2011, que legitimou a “pejotização” de trabalhadores mais qualificados, as bancadas do PT na Câmara e do Senado não fizeram objeção alguma e a presidente Dilma Rousseff a sancionou sem nenhum drama de consciência. Os petistas insistem na velha conduta que não comporta autocrítica: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.
Sandra Starling
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