segunda-feira, 23 de abril de 2018

Na volta de Deus

Quando Deus voltou ao mundo,
Para castigar os infiéis,
Deu ao Egito gafanhotos
E ao Brasil deu bacharéis...

A maioridade de um aís

Hoje lembramos os 518 anos da chegada de uma frota portuguesa à costa da atual Bahia. Outrora adoravam discutir se o episódio seria intencional ou acidental. Há argumentos para os dois lados. Querendo ou não, achando ou descobrindo (ou os termos mais quinhentistas, achamento ou invenção), o fato era que a prioridade lusitana estava no lucro das Índias que despejariam especiarias sobre Lisboa e fariam a beleza do mosteiro dos Jerônimos. Portugal e Argentina compartilham esse sentimento de apogeu já vivido. O Brasil na bancarrota ou em certa prosperidade sempre foi, como disse Stefan Zweig, “o país do futuro”.

Traço marcante dos brasileiros fictícios como Policarpo Quaresma (na obra de Lima Barreto) ou dos reais como o monarquista Afonso Celso (Porque me Ufano do Meu País – 1900): somos um país de imensas possibilidades no horizonte por atingir. Aliás, na frota do almirante Cabral já viajava o homem fundador da tradição. Pero Vaz de Caminha olhou para a Terra de Santa Cruz com o olhar profético de que ali, naquela terra graciosa, tudo germinaria por força das águas.

Da visão do escrivão até nossa esperança contemporânea no aquífero Guarani ou no petróleo do pré-sal, somos o país das terras, recursos e esperanças infindas.

Por que ainda não saímos do leito eterno e esplêndido?

Há um argumento sobre nossas origens que merece ser revisitado. Já afirmei, em mais de uma ocasião, que a corrupção é ambidestra e que, em nosso cotidiano, praticamos pequenos atos imorais, antiéticos e francamente corruptos. Seja em Raymundo Faoro, a quem citei no mês passado, seja na controversa série O Mecanismo, a ideia de que existe uma elite corrupta que nos subtrai atavicamente desde o século 19 (ou desde os tempos coloniais) é frequente. No seriado, a busca da origem genética de um Estado patrimonialista e corrupto localiza Elias António Lopes, um traficante de escravos luso-brasileiro que doou sua casa na Quinta da Boa Vista para o regente. Em troca da “generosidade”, virou cavaleiro da Ordem de Cristo, ganhou cargo em Paraty e em São João del-Rei (atual Tiradentes) e obteve a oportunidade de cobrar impostos em várias localidades. Comerciantes ou empreiteiros; traficantes de escravos de antigamente ou os de drogas do século 21; empresários e latifundiários sempre miraram o poder arrecadatório do Estado para obter vantagens. 


É realmente inegável que havia conúbio incestuoso entre Estado e outros setores da sociedade em 1808 ou nos tempos de Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal. A questão que se põe é outra. O chamado Antigo Regime era baseado nisso. Era perfeitamente legítimo e esperado que houvesse favorecimentos, apadrinhamentos e um toma lá dá cá entre a monarquia e os amigos do rei. As capitanias hereditárias foram a perfeita simbiose entre o interesse particular dos donatários e o poder da coroa. Um dono de uma concessão próspera como Pernambuco era, ao mesmo tempo, a empreiteira e o partido no poder. D. João no Rio de Janeiro estreitaria esses laços fraternos em corrente de aço: o doador da Quinta da Boa Vista não realizou a transferência da propriedade por lealdade aos Braganças ou a algum diáfano sentimento nacionalista. Fez por interesse e anseio de retribuição.

No século 18, certo discurso republicano de matriz iluminista passou a criticar essas práticas. Era necessário separar os poderes, ter transparência, criar uma imprensa livre, treinar burocracias técnicas, probas e eficazes, eleger representantes do povo (ainda que a ideia de povo, 250 anos atrás, fosse completamente diferente da de hoje). Houve revoluções e novas formas políticas surgiram tentando pôr em prática essas ideias novas. Ao fazê-lo, incorporaram muito do patrimonialismo do Antigo Regime. Nosso país não foi exceção. Aliás, em um continente republicano, optamos pela manutenção da fórmula monárquica por todo o século 19.

As observações anteriores parecem conduzir a alguns sentimentos paralisantes. O primeiro é “sempre foi assim”, o imobilismo histórico. O segundo é “todo mundo faz assim”, o imobilismo sociológico. A crença em estruturas deterministas e anteriores é problemática. Seu oposto, a ideia de que tudo é derivado da vontade e ação humanas, é pouco científico. Os homens fazem a História, porém não do jeito que gostariam, lembrava um filósofo alemão. Um país nasce de opções concretas, diárias, individuais e coletivas. Mas tais opções são moldadas por uma forte tradição herdada do passado. Não é fácil, mas tudo pode ser mudado, até mesmo para pior. Não existe um destino ou um miasma natural brotando do solo. Dentro das possibilidades do presente, tudo é ação ou omissão dos agentes históricos: nós.

Assim como no passado, o povo de Pindorama ainda anseia por um futuro brilhante no horizonte. Permanece o desejo por um D. Sebastião a quem delegaremos a tarefa de refazer a mítica terra sem males. As águas continuam infindas e ainda há milhares de motivos para nosso ufanismo.

Parabéns ao país no qual moramos. Ele é jovem e forte, antigo e frágil, haja vista que sobrevive a seus governos ao mesmo tempo que naufraga em suas utopias. Sim, eu e você, querida leitora e estimado leitor, teremos de escolher alguém no ano em curso para recolocar o velho sonho de Caminha em outros trilhos.

Teremos de nos virar com o que temos, com o que nos legaram e com o que deixaremos para o amanhã. Aos 518 anos, já somos grandinhos: não dá para debitar tudo na conta de ex-colônia portuguesa.

domingo, 22 de abril de 2018

O outubro de nossas preocupações

O script é difícil e o elenco deixa a desejar. Essa a proposição dominante a respeito da eleição presidencial e de seus efeitos na recuperação econômica do País. Dela podemos derivar uma conclusão provisória: em 2019 o quadro pode melhorar um pouco ou piorar muito.

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Sobre o script não precisamos alongar-nos muito. O governo Temer conseguiu evitar o desastre iminente que se delineou durante o segundo mandato de Dilma Rousseff e chegou a aprovar alguns projetos importantes no Congresso Nacional. Mas ao entrarmos no ano eleitoral as coisas tornaram-se mais difíceis, o tsunami da corrupção pôs toda a classe política em xeque e as relações do Executivo com o Legislativo tornaram-se escorregadias, para dizer o mínimo. Não passamos nem a reforma da Previdência, com o que a questão fiscal continuará a pairar sobre o País como uma espada de Dâmocles, premonição de um possível retrocesso.

Mas a variável-chave, como comecei a dizer, é o elenco. Temos aí uma dúzia e meia de candidatos ou quase candidatos, todos por enquanto muito débeis, nenhum que arrebate os corações e as mentes. O aspecto mais curioso – para não dizer patético – é a óptica pela qual os analistas e observadores tentam decifrar esse caleidoscópio. A maioria se contorce para tentar encaixá-los na dicotomia esquerda x direita. Poucos se dão conta de que esse esquema já deu o que tinha para dar. Os augures (adivinhos) da Antiguidade provavelmente chegariam mais perto da realidade, pois se contentavam em examinar o voo de certas aves ou as entranhas de certos animais, e aí diziam qualquer coisa, o que lhes viesse à mente. Os príncipes ficavam contentes e iam ou não à guerra conforme a “previsão” que lhes era passada.

Os termos esquerda e direita, como se recorda, provêm da Revolução Francesa; surgiram como indicativos das posições ocupadas na Assembleia Nacional pelos jacobinos e girondinos. Assumiram, desde então, pelo mundo inteiro, inúmeros significados, adaptando-se aos interesses políticos das forças em confronto em cada país. Tentar entendê-los por meio de uma análise rigorosa de seus conteúdos é perda de tempo, pois eles variam no tempo e de país para país. Funcionam como totens tribais. Esquerda é o totem dos que se arrogam uma maior sensibilidade social, um conhecimento mais preciso dos meios necessários para aliviar o sofrimento dos pobres e o caminho que leva ao paraíso terrestre – a “sociedade sem classes”. Direita são aqueles que, arrogando-se também os dois primeiros pontos, descartam o terceiro como uma fantasia (ou uma falcatrua intelectual) e conferem importância decisiva à estabilidade social, à segurança, à lei e à ordem. Desde o advento das pesquisas de opinião por amostragem, após a 2.ª Guerra Mundial, inúmeros levantamentos foram feitos sobre essa questão. Em dezenas de países, instados a informar o que entendiam pelos termos esquerda e direita, a maioria dos eleitores nem sequer conseguia oferecer definições genéricas como as que enunciei acima. Tanto nos países mais escolarizados do norte da Europa quanto naqueles, como o Brasil, onde a maioria é quase analfabeta, o porcentual que conseguia tal proeza sempre ficou entre 15% e 20%.

Não creio que algum pesquisador sério conteste essa afirmação. Portanto, na eleição de outubro, é fácil adivinhar que pelo menos uma dúzia dos candidatos tratará simplesmente de encontrar um “nicho” discursivo desocupado onde se possam abrigar: à direita, à esquerda, acima ou abaixo, como disse certa vez o prefeito Kassab ao lançar um novo partido, o PSD.

Considerando, pois, a anemia analítica da dicotomia esquerda x direita, haverá a esta altura algo útil que possamos dizer sobre a eleição e seus efeitos econômicos putativos? Creio que sim. Ao menos por ora, penso que o problema não é o perfil – de esquerda, centro ou direita – dos candidatos mais cotados, mas a dinâmica que vai predominar na campanha: polarização entre um “esquerdista” e um “direitista” exaltados ou uma tendência “centrista”, com a maioria do eleitorado convergindo para um ou mais candidatos de perfil moderado.

A contragosto, dado o raciocínio que venho de expor, tento identificar alguns nomes. O mais fácil é o totem esquerdista, ou seja, o candidato ungido por Lula, admitindo-se que este conseguirá transferir para ele uma grande quantidade de votos. Fala-se em Fernando Haddad, mas aqui surge uma indagação. Haddad não tem perfil incendiário. Nesse cenário, teremos, então, os Stédiles e os Rainhas da vida, que já falam abertamente em “guerra civil”, e talvez o próprio Lula, pressionando um candidato de índole centrista a assumir um papel radical. No polo oposto, com os dados hoje disponíveis, temos Bolsonaro – e outra indagação. Oriundo das Forças Armadas, Bolsonaro presumivelmente atrairá sobretudo eleitores aflitos com a segurança e quiçá adeptos de um modelo econômico nacional-estatizante; mas Paulo Guedes, o economista incumbido de elaborar seu programa de governo, abomina tal modelo.

Dada a manifesta inconsistência dos extremos, é plausível especular que o “centro”, por ora anêmico, venha a se fortalecer. Nesse nicho, o nome óbvio é Geraldo Alckmin, que tem a seu favor uma longa experiência de governo no Estado de São Paulo e um temperamento afável. O problema, além dos modestos índices que ostenta nas pesquisas, é que a recuperação econômica dificilmente atingirá um ritmo suficiente para reverter a sede de sangue que se disseminou em grande parcela da sociedade.

A título de conclusão, devemos, pois, voltar à segunda das duas proposições que enunciei no início. Dependendo da dinâmica eleitoral e do presidente eleito, a situação do País poderá melhorar um pouco, ou piorar muito. Chato é pensar que esse “piorar muito” poderá ser quase uma recaída na era das cavernas.

Dependendo das eleições, a situação do País pode melhorar um pouco ou piorar muito.

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O exército de Pinóquios

“Estão entregando dinheiro na mão de terrorista!”, dizia o vídeo publicado no dia 26 de janeiro pelo site Gospel Prime, um portal de notícias focado no público evangélico com média de quase 2,8 milhões de leitores ao mês. De acordo com a denúncia do site, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o presidente Michel Temer estavam tentando desviar dinheiro de uma obra, por meio de uma Medida Provisória de ocasião, para financiar terroristas palestinos. No Facebook, o líder da bancada evangélica na Câmara dos Deputados, o pastor Takayama (PSC-PR), gravou outro vídeo com um comentário que teve cerca de 4 mil visualizações. “Estão nos comunicando que muito do que é enviado para a Palestina é para patrocinar terrorismo”, disse, grave.


Há uma Medida Provisória que busca liberar, sim, dinheiro para a Palestina. Mas a doação visa reformar quatro das 50 colunas da Basílica da Natividade, igreja construída sobre o ponto considerado local de nascimento de Jesus, que consta como patrimônio histórico mundial na lista da Unesco. Se é apropriado ou não gastar dinheiro público em tal iniciativa, é uma discussão longa. O intrigante era por que o próprio Takayama — que já havia até pedido vista do projeto quando este foi examinado por uma comissão do Congresso — replicava uma notícia errada, falsa e inventada envolvendo dois potenciais candidatos à Presidência em ano eleitoral.

O Ministério das Relações Exteriores publicou uma nota desmentindo a informação, mas o Gospel Prime manteve a postagem no ar. Incluiu o comunicado no pé da página e insistiu no texto original mentiroso, sem errata ou pedido de desculpas. Procurado, Takayama não quis se pronunciar sobre o caso.

A empresa Prime Comunicação Digital, responsável pelo Gospel Prime, tem endereço registrado na pacata Criciúma, em Santa Catarina, cuja população cabe em menos de três estádios do tamanho do Maracanã. Metade do 2o andar do prédio amarelo com pastilhas marrons de dois andares, onde está registrado o CNPJ da firma, pertence à empresa de contabilidade Atual. Subindo as escadas, chega-se a um espaço amplo, mas simples, com móveis e paredes de cores claras. Indagado, o recepcionista informou que a Prime funciona em outro endereço, mas é uma das clientes da empresa. Ele contou que David Gregório, o dono da Prime, trabalha a partir de casa, um apartamento próximo ao estádio Majestoso, casa do time que leva o nome da cidade: “É perto, mas não sou autorizado a te dar o endereço”. Ele anotou um número de telefone em um Post-it e disse que mais informações não poderiam ser passadas sem autorização do patrão.

Telefonei para Gregório e disse estar fazendo uma pesquisa acadêmica sobre sites de mídia alternativa. Sem muito perguntar, ele passou a dar detalhes de seu negócio. Confirmou trabalhar de casa e afirmou ter abandonado o emprego como gerente de posto de gasolina há seis anos, quando o site, criado em 2008, começou a render R$ 300 por mês. Hoje, segundo ele, rende de R$ 10 mil a R$ 20 mil por mês, valor que seria dividido entre seus quatro integrantes fixos. Nesses dez anos, Gregório conta ter se formado em publicidade, mas que aprende muito “pela internet mesmo”. Afirma que todo conteúdo publicado no site passa por sua aprovação.

Foi ele quem puxou o assunto sobre a reportagem que acusava o governo brasileiro de destinar recursos para uma obra que já havia sido concluída com o objetivo de financiar terroristas palestinos: “Dois dias depois que a gente publicou o texto dizendo que a obra estava acabada, que tudo já estava pronto, os camaradas trocaram a placa na Palestina”, disse animado. “Eu tenho certeza de que isso foi uma reação ao que publicamos.” A placa mencionada por Gregório e citada na reportagem estava na porta da Basílica da Natividade, mostrando o prazo da primeira fase da reforma, que acabou em dezembro de 2017. Ela foi trocada, obviamente, quando a reforma entrou na fase dois. O curioso é que Gregório menciona a troca da placa pelo telefone, mas essa informação não consta nas publicações de seu site.

Ele defendeu seu trabalho e seu ponto de vista como uma “cosmovisão”: “Tudo que eu publico, se tiver minha cosmovisão, se tiver meu modo de olhar esse mundo, desse fato, pode ser chamado de fake news, porque não está na mídia mainstream”. Emendando uma frase na outra, ele disse que não quer ser o MBL, o movimento de direita conservadora. “Os diários que eles inventam têm realmente uma cara de fake news. Sabemos que algumas coisas que a gente publica também podem causar estranhamento, mas é porque a gente está vendo um ponto que a grande mídia não olha.” Ele contou ainda que o vídeo com o complô terrorista foi feito por Roberto Grobman, um dos quase 80 colunistas que escrevem para o site gratuitamente. “Essas pessoas acham que o Gospel Prime vai ser a vitrine do pensamento delas.” A equipe fixa, segundo Gregório, é formada por ele e mais três pessoas, das quais somente duas são formadas em jornalismo. Nenhum teve experiência prévia com a profissão.

Perguntei se parlamentares já ofereceram dinheiro para que reportagens a seu favor fossem publicadas. Ele fez uma longa pausa e retomou: “Olha, sempre tem, mas não é interessante para nós”. Finalizou a conversa sem dar mais detalhes e afirmou que “tenta” não se envolver financeiramente com políticos.

Não é bem assim. Seis notas fiscais emitidas pelos gabinetes dos deputados Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) e Geovania de Sá (PSDB-SC), ambos da bancada evangélica, mostram que os parlamentares usaram dinheiro da cota parlamentar para pagar por textos publicados no Gospel Prime entre 2015 e 2016. Cada um custou R$ 250. Os conteúdos eram elogiosos ou visavam repercutir falas polêmicas dos congressistas. “Sóstenes Cavalcante é o deputado mais atuante do RJ” foi publicada em julho de 2015. “Bolsa Família não deveria tornar beneficiários dependentes, diz Geovania de Sá” é de abril de 2016.

Segundo Gregório, o faturamento do Gospel Prime vem de plataformas de propagandas on-line: “Ganhamos com publicidade do Google. A gente tem uma empresa que gerencia a publicidade, também vendemos publicidade direta, mas é pouco. É mais a publicidade que o próprio Google faz a negociação”. De fato, há anúncios dispostos no site por meio da plataforma de publicidade da gigante de tecnologia.

Ele se refere à corrida do ouro digital chamada clickbait (em português, “caça-clique”). Redes como Google e Facebook monitoram os interesses de seus usuários a partir do que cada um curte, compartilha, segue ou busca. Usando os dados disponíveis nas redes, nos computadores e nos smartphones, as plataformas conseguem filtrar os internautas por grupos de interesse. Quanto mais afunilados os filtros — por exemplo, selecionar apenas pessoas que pesquisaram ou curtiram um clube de futebol específico —, maior a garantia de efetividade do investimento em publicidade. Além desse filtro, essas empresas também fazem a ponte entre os anunciantes e os donos de sites onde esse tipo de publicidade será exposta. O pagamento é feito por clique no hiperlink, daí vem o nome caça-clique. Seguindo essa lógica, sites de fake news se inscrevem em plataformas de venda de anúncios e, em busca do maior número de cliques possível, fazem manchetes e textos sensacionalistas de forma a atrair o leitor desavisado.

Ter páginas nas redes sociais é importante para fidelizar a audiência. Uma vez criado o perfil na rede, esses sites se conectam a pessoas reais populares, que compartilham seu discurso levando o link a novos leitores, dessa vez com uma chancela dada pela figura pública reconhecida. Exatamente como, no caso do Gospel Prime, o deputado Takayama fez em seu vídeo.

A criação de redes entre sites e perfis divulgadores de fake news dá ao internauta a falsa impressão de que o assunto está sendo repercutido, quando, na verdade, muitas vezes é o mesmo autor ou o mesmo e pequeno grupo de autores trocando a bola entre si. Isso, aliado à estratégia de publicar um vasto material verídico com uma informação errada misturada no meio, traz uma falsa sensação de credibilidade, que leva a pessoa a confiar — e clicar — mais naquele site. O Gospel Prime, por exemplo, não publica única e exclusivamente informações falsas, mas, de vez em quando, solta pérolas como a dos terroristas palestinos ou a de um cientista que colocou em xeque a Teoria da Evolução (que, na realidade, acabou demitido).
Helena Borges

O ativismo político do STF

O Supremo Tribunal Federal tornou-se fator de instabilidade político-institucional. Deveria ser o contrário, caso cumprisse o papel que lhe cabe, de guardião da Constituição e da lei. Mas não cumpre: tem sido, sobretudo, uma Corte política e legislativa.

As questões que lhe são encaminhadas podem ter seu desfecho antevisto dependendo do perfil político do ministro ou da turma que as examinará. Se, por exemplo, tratar-se de habeas corpus a um político e couber à segunda turma, integrada por Toffoli, Lewandowski e Gilmar Mendes, é improvável que seja rejeitado.


Se couber à primeira turma, é quase certo que ocorrerá o contrário. Cada ministro é, bem mais que um juiz, um militante.

Mas não é só isso. Ignora-se, por exemplo, o prazo de validade de uma jurisprudência, que, em tese, deve orientar o público e viger com força de lei. Não pode, pois, mudar ao sabor dos ventos.

Mas é o que tem ocorrido. Agora mesmo, por exemplo, anuncia-se que o ministro Marco Aurélio voltará a colocar em exame a prisão em segundo grau, recém-definida quando da rejeição ao habeas corpus do ex-presidente Lula.

Será a terceira vez em um ano e meio – e a segunda em menos de um mês. As ações declaratórias de constitucionalidade (ADC) anteriores, do Partido Ecológico Nacional (PEN) e da OAB, tiveram da parte de ambos requerida sua retirada de pauta.

Não as queriam vinculadas à causa de Lula, já que encaminhadas em outro contexto. Mas eis que o PCdoB ingressou com outra e idêntica ADC, que manteve o tema em pauta.

Em circunstâncias normais (algo há muito ausente do país), a Corte nem deveria recebê-la. O ex-ministro Carlos Ayres Brito costuma dizer que o STF é uma porta que só se abre por dentro. Isto é, nem tudo o que lhe encaminham deve ser recebido.

Se não há cabimento, rejeita-se liminarmente. É o caso dessa ADC, tendo em vista a recentíssima definição do tema. A própria ministra Rosa Weber, contrária à prisão em segundo grau, resignou-se a aceitá-la tendo em vista a vontade soberana do colegiado.

Mesmo não tendo mudado sua convicção, a ministra argumenta – e com razão – que uma jurisprudência não se muda de uma hora para outra, ainda que a composição da Corte mude.

A isso se chama segurança jurídica, outro produto em falta no país. E isso decorre em parte do ativismo político da Justiça. Os ministros Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes, embora arqui-inimigos, estão de acordo num ponto: a Corte é política mesmo e deve exercer essa prerrogativa. A lei, nesses termos, é secundária.

Barroso, inclusive, acusou Gilmar de “não ter uma ideia, uma causa”. Ora, a “causa” de uma Corte judicial, sobretudo a Suprema, é a Constituição – e nada mais. Mas o STF legislou reiteradas vezes em questões eleitorais, comportamentais e tem em pauta temas que não lhe cabem como Poder: entre outros, legalização das drogas e do aborto, prerrogativas do Poder Legislativo.

O argumento é de que tais temas, pela controvérsia que provocam na sociedade, são evitados pelo Congresso. Mas o papel do Congresso é exatamente este: auscultar a sociedade e só viabilizar aquilo que nela encontre aceitação. O do Judiciário é se ater àquilo que virou lei. Se alguém lá, como Barroso e Gilmar Mendes, achar a lei ruim, que busque um mandato parlamentar para mudá-la.

Ruy Fabiano

É bife ou não é?

O Impossible Burger, primeiro produto do gênero a ser vendido em grande escala numa grande rede de fast food americana, a White Castle que começou a oferece-los nas suas 140 lojas de Nova York, New Jersey e Chicago esta semana, não contém carne mas tem o gosto, cheira e sangra como a coisa verdadeira.

Qual é o ingrediente secreto?

Neurociência.

Nada a ver com os hamburgueres vegetarianos que andam por aí ha tempos. Essa mistura de trigo, óleo de coco, batata e um composto vegetal que contém muito ferro nunca chegaria ao que chegou não fosse o intrincado processo de alta tecnologia que permitiu à Impossible Burguer “enganar o cérebro humano”, por assim dizer, para fazer tudo nessa massa “soar” como carne para cada um dos nossos sentidos (veja como no video).

Mas essa ainda não é a grande revolução.

O que vai mudar o mundo mais uma vez – e com todas as alegrias e tristezas que mudanças desse calibre trazem – são as carnes cultivadas em bioreatores a partir de células-tronco de fibras musculares e de gordura mergulhadas em caldos de nutrientes. Os hambúrgueres que “crescem” assim já existem. O gosto ainda é um problema porque não é fácil reproduzir tudo que um organismo vivo consome e processa para produzir as carnes que conhecemos, mas Sillicon Valley jura que acabará chegando lá (startupsisraelenses e européias também disputam a ponta nessa corrida).

Em 2013 desenvolver 1 quilo dessa carne custava 2,5 milhões de dólares. Desde então esse custo caiu 99% mas ainda é muito mais alto que o da carne animal. O gargalo é um ingrediente essencial: o soro fetal bovino extraído dos fetos ainda dentro das vacas prenhes. É isso que desencadeia a reprodução out ou in vitro das células. Controlar a mistura certa de carne e gordura ao longo desse processo também não é simples, mas a “carne limpa” definitivamente vem aí e é pra já.

2020 é o ano de consenso para ela ultrapassar a faixa da viabilidade comercial. Será também o ano que marcará o início do fim final da cultura boiadeira/cauboy, com todos os dramas implicados, e o início da devolução de vastas porções de terra roubadas à natureza para a criação de gado e do grande tsunami econômico que tudo isso vai provocar.

Então, para além da alegria de vermos os 2ésleys quebrarem a cara e a lavanderia gigante do PT minguar, teremos de amargar a culpa por termos destruído florestas que tecnologia nenhuma será capaz de replicar que vieram da eternidade até aqui incólumes, às vésperas disso se confirmar como um desperdício ainda mais insano e sem sentido do que já parece hoje.

Fernão Lara Mesquita, matéria condensada da Quartz

Paisagem brasileira

Ipê, Luiz Pinto

Não tem nem mas, nem meio mas

Porém, no entanto, todavia, contudo, não obstante. Horas que as letrinhas adversativas chegam apenas para mascarar. Essa mania nacional de pensar claudicante e de pouca firmeza em opiniões pode nos levar a um buraco muito mais fundo do que aquele em que já estamos. Eu não sou isso, aquilo, mas… não cabe nesse momento. Ou é ou não é. Ao menos assumam. Respeitem nossa inteligência. Nada de votos envergonhados

Já começou a temporada do “Eu não sou…, mas” – e lá vem defesa do indefensável. Tenho reparado que essa praga volta com força máxima e logo agora que tanto precisamos de opiniões e atitudes certeiras, decididas. É igual a usar excessivos gerúndios, que estou convencida que é um vício que “pegou” porque é apenas uma forma, um jeitinho, de ir levando, ir fazendo, ir ganhando tempo, de não fazer é nada, como combina com o caráter nacional. Acabemos com isso, enquanto é tempo. Não é hora para covardes vindos de nenhumas das várias pontas da questão Brasil.

Direto ao ponto, para ser mais clara. Um candidato à eleição presidencial vem se fazendo apenas (até porque não tem outras qualidades) em cima de polêmicas absurdas, despreparo, atraso, manipulação de informações e do desespero de brasileiros em várias áreas, em especial a violência. Ele não é novo, não é exótico; é apenas uma besta. Estou falando, claro, de Jair Bolsonaro, que, pior ainda, tem filhotinhos bolsonarinhos. Pronto, já deixo claro aqui o que eu acho desse nome: traz as trevas, não tem a menor condição, é mais uma palhaçada que se criou nesse ambiente doente e árido em que vivemos. Eu acho isso. Respeito, embora não há argumentos que possam justificá-lo, quem admite de forma desenvolta que ficará com ele.

Mas já irrita profundamente, e as tenho encontrado com alguma insistência, especialmente nas redes sociais, pessoas que escancaram um “Eu não sou Bolsonaro, mas…” seguido de uma série de argumentos favoráveis a essa angustiante opção. Esse tipo de sentimento gerou Malufs, Cabrais entre outros insolentes que acabaram no poder. E acabaram com o país e com o nosso crédito na política.
Do outro lado: “eu não sou petista, mas…” tem impressionado muito, porque precisa ter capacidade, ou um bom pagamento de soldos, para vir a público defender, não só o Lula, mas toda a corja que se formou dentro do partido que era a esperança, e virou um verdadeiro e escancarado lixo, para dizer o mínimo. Gosta dele, Lula, quer vê-lo fora da cadeia? Ok. Bárbaro. Hashtag para você também. Mas por favor, pare aí. Não venha com lamúrias, ousar dizer que não houve julgamento, sendo que passou por todas as camadas, esferas e estratosferas. Fora que esse processo que corre mais lépido é apenas um entre outros muito mais cabeludos. Muito mais.

Entendo e admito que no meio de mais de uma dezena de opções absolutamente atemorizantes se definindo como candidatos, nossa cabeça esteja mais para biruta de aeroporto. Mas há de haver detalhes inegociáveis. O respeito aos direitos individuais, à liberdade de expressão, aos mecanismos democráticos de controle, ao Estado Laico.

Dentro disso tudo, repito, não tem nem mas, nem meio mas…Não pode ter.
Não sou racista, mas… Respeito as mulheres, mas… Não tenho nada contra gays, mas… É muito covarde e gera atos tão covardes quanto. Não acredito em bruxas, mas…

Podemos usar o tal mas em outras formas, nas quais denota defeito. Por exemplo: Lula é um líder, mas deixou rastros e provas de ter se beneficiado pessoalmente; Bolsonaro surgiu, mas sua incapacidade intelectual e gênio o tornam inábil e perigoso. Eles, entre outros nomes que se apresentam nas esferas estaduais e federais, são a personificação do mas, em sua terceira opção, a da dificuldade, porque são a própria negação, o embaraço, o obstáculo, o inconveniente, a objeção. Mas é adversidade, e não aguentamos mais tantas delas.

Apelo: “mas” enquanto conjunção sempre ligará duas orações. Aproveito: que assim seja, Deus nos livre deles! – mas se eles insistirem será preciso combatê-los. Com firmeza.

Crime com CPF e identidade

Não é que o crime não compensa. A questão é que, quando ele compensa, muda de nome. Passa a se chamar Paulo Maluf. No momento, uma legião de malufes se esforça para derrubar no Supremo a jurisprudência que permite a prisão de condenados na segunda instância

Prerrogativas seletivas

Leonardo Boff, ao apelar para que lhe fosse permitido visitar o ex-presidente Lula, declarou: “Eu que sou velho amigo de Lula vim em uma missão espiritual. Como uma lei divina pode ser negada por uma juíza terrena?”. Modesto o ex-frade, não é? Sua missão espiritual seria uma lei divina?

Lula desrespeitou as leis terrenas, as leis de seu país. Desrespeitou também as leis de Deus. Deve mesmo precisar receber consolo espiritual, o mesmo que todos precisamos ao passar por sofrimentos de qualquer natureza. Estou segura que se ele disser ao guarda de sua cela que precisa se confessar, a Polícia Federal de Curitiba providenciará um padre para lhe ouvir. Um padre que reze missas na Catedral de Curitiba poderia ouvi-lo e lhe dar a comunhão, caso Lula pedisse após se confessar.


Boff, assim como senadores e deputados, acha que essa é uma prerrogativa dele, que não precisa passar pela Justiça, que é a guardiã de Lula. Quantas vezes Boff usou dessa prerrogativa para visitar e consolar presos em nossas prisões? Quantas vezes comissões de senadores e deputados fizeram inspeção nas prisões em seus estados? E quais foram as conclusões a que chegaram? E quais foram as medidas que tomaram para melhorar a situação dos encarcerados?

De repente, muitas pessoas acharam ser fundamental uma visita ao Lula. Por quê? Certeza não tenho, mas parece que estão usando o ex-presidente para se promover. O senador que falou em nome de seus pares ao encerrar a visita declarou que a cela estava em boas condições, que Lula estava bem, apenas solitário. Queriam que o juiz o enviasse para uma cela coletiva? Será que o Lula ia ficar mais sossegado, mais feliz, se dividisse uma cela com seus ex-companheiros de governo? Se for esse o caso, sugiro que ele aguarde uns dias, logo, logo José Dirceu irá para Curitiba e aí os dois vão poder trocar umas ideias. Quer dizer, se prevalecer a tese de que o Lula não quer ficar solitário.

Outra coisa, essa ainda mais curiosa: com que intuito Adolfo Perez Esquivel tentou visitar o Lula? O jornalista Ricardo Kotscho, em seu site Balaio de Gatos, criticou a decisão de não ser permitido ao Nobel argentino visitar Lula. Kotscho, jornalista sério que se expressa num português excelente, acha que esse gesto autoritário foi um vexame internacional e cobra do Itamaraty alguma providência. Fiquei decepcionada… Será que Kotscho não reconhece que existe ao menos uma possibilidade de estar enganado? Que Lula errou? Que jogou fora a oportunidade de fazer Bem ao Brasil?

Querem porque querem convencer o mundo que Lula é um preso político. Francamente! Preso político condenado por tribunais com sessões transmitidas ao vivo? Preso político com processo correndo na Suprema Corte de seu país? Preso político com imprensa livre?

Sabem de uma coisa? Quem quiser que conte outra…
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Gente fora do mapa

London was blitzed heavily in the war, and the resulting damage was catastrophic for its social and economic climate. But for children that weren't evacuated, many bore the brunt of war's wrath.

Aceitação da fraude

Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: Se formos enganados durante muito tempo, temos tendência a rejeitar qualquer prova de fraude. Deixamos de estar interessados em descobrir a verdade. A fraude apanhou-nos.
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É demasiado doloroso reconhecer, nem que seja para nós mesmos , que fomos levados à certa. Uma vez que damos a um charlatão poder sobre nós mesmos, quase nunca o recuperamos. Por conseguinte, as velhas fraudes têm tendência a persistir, ao mesmo tempo que surgem outras novas
Carl Sagan

O poder de dividir

De tudo o que aconteceu em abril do ano passado durante a palestra do deputado Jair Bolsonaro no clube Hebraica do Rio de Janeiro, o mais estarrecedor não foi nem o que ele disse e que levou a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, a pedir há pouco ao STF sua condenação a três anos de prisão e multa de R$ 400 mil pelos crimes de racismo contra quilombolas, indígenas, refugiados, mulheres e gays. Afinal, não havia nada de novo no que foi dito, era apenas uma parte da conhecida folha corrida de Bolsonaro, da qual constam homofobia, xenofobia, misoginia. Além disso, ele já era réu em duas ações que tramitam no Supremo — uma por apologia ao crime de injúria e outra por incitação ao estupro, ambas relacionadas ao episódio em que ofendeu a deputada Maria do Rosário, dizendo que ela não merecia ser estuprada porque era feia.

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O que na verdade mais chocou na Hebraica foi a reação da plateia. Estavam ali umas 300 pessoas que, certamente, sabiam pela História ou por relato de algum parente, amigo ou conhecido o que foi o Holocausto, o maior genocídio do século XX, quando seis milhões de judeus foram conduzidos às câmeras de gás como animais levados ao matadouro — apenas por serem judeus.

Pois aquelas pessoas deram boas risadas quando ouviram o palestrante contar sua visita a um quilombo. “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”, ele disse, provocando inacreditáveis gargalhadas. “Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador servem mais”. Outras tantas risadas. Depois, gritos de “mito, mito”. Ouça a gravação na internet e veja se descobre o motivo de alguém achar graça em tamanho desprezo pelo gênero humano — apenas por serem negros.

Houve protestos contra a presença na Hebraica de quem “tem ideias como as que causaram o Holocausto”. Do lado de fora, um grupo que não pôde entrar (era só para convidados) gritou palavras de ordem e exibiu cartazes como “sionista não apoia fascista”.

Mas, por outro lado, houve também um abaixo-assinado da Associação Sionista Brasil-Israel, com mais de sete mil signatários, em defesa de quem, segundo o documento, “tem se mostrado o maior amigo do Estado de Israel”.

Só que esse manifesto foi considerado “apócrifo” pela Fierj. Em nota, ela reafirma sua condição de “única entidade” que representa os judeus no Rio. “A Fierj ratifica o desconhecimento da existência da autointitulada Associação Sionista Brasil-Israel e repudia qualquer manifestação em nome de seus representados em relação ao tema ali tratado”.

No STF ainda não há previsão para o julgamento da denúncia na Primeira Turma. Mas qualquer que seja o resultado, Bolsonaro conseguiu um nada invejável feito: dividir a comunidade judaica.

O mundo livre

Dia desses fiquei a lembrar do mundo que vi quando criança. Havia a "Cortina de Ferro", ou o "Império do Mal", no qual a repressão do Estado era impiedosa. Em contraste, o "lado de cá" era o "Mundo Livre". Palavras como "privacidade", "direitos humanos" e outras de idêntico valor, sagradas para o "lado de cá", não existiam nos dicionários do "lado de lá".

Recordo-me dos filmes daquela época. As cenas "do lado de lá" eram sempre cinzentas, pálidas, quase sem cor, mostradas sob trilhas sonoras capazes de deprimir o mais renitente dos otimistas. Já as do "lado de cá" destacavam-se pelo colorido intenso, compondo, com músicas sempre alegres, uma mensagem de amor pela liberdade.

Minha infância, assim como o "lado de lá" e o "lado de cá", acabou. Trombeteia-se, sobre os escombros do Muro de Berlim, a vitória do "Mundo Livre".

Enquanto todas estas coisas maravilhosas vão acontecendo, um jornalista da BBC, retornando para seu hotel de madrugada, teve a infeliz ideia de atravessar, fora da faixa, uma rua deserta da cidade de Adelaide, na Austrália - acabou submetido por nada menos que quatro zelosos policiais. Descobri que, naquele país, quem perturba um casamento pode acabar condenado a dois anos de prisão.


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Nos EUA, é proibido alimentar mendigos - quem o fizer passará uma temporada em alguma cela. Na França, em Calais, terá igual destino quem doar comida para imigrantes famintos - que sequer de banheiros dispõem, já que a polícia ameaçou carregar voluntários que instalavam alguns.

Na Europa, descobriram que as salas utilizadas pelas delegações da União Européia em Bruxelas estavam "grampeadas". No Reino Unido, denunciou-se que 25% das informações recolhidas pelo governo sobre a população violam direitos constitucionais básicos. Nos EUA, descobriram que uma só agência governamental armazenou nada menos que 151 milhões de registros telefônicos em 2016.

Não nos esqueçamos, finalmente, daquela "cultura de segurança" que empurra-se pela goela abaixo da população, no mais das vezes para mascarar os pecados dos Estados. Foi assim que aquelas "sinistras barreiras policiais" do "lado de lá" se transformaram em "blitz" do "lado de cá" - cujos alvos, tanto "lá" como "cá", são quase sempre pacatos cidadãos.

Que estranho! Será que, ao final das contas, o "Mundo Livre" perdeu?

Pedro Valls Feu Rosa

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Democracia de verdade

É preciso continuar a acreditar na democracia, mas numa democracia que o seja de verdade. Quando eu digo que a democracia em que vivem as actuais sociedades deste mundo é uma falácia, não é para atacar a democracia, longe disso. É para dizer que isto a que chamamos democracia não o é. E que, quando o for, aperceber-nos-emos da diferença.
Aula de democracia. #quadrinhos #tirinha
Nós não podemos continuar a falar de democracia no plano puramente formal. Isto é, que existam eleições, um parlamento, leis, etc. Pode haver um funcionamento democrático das instituições de um país, mas eu falo de um problema muito mais importante, que é o problema do poder. E o poder, mesmo que seja uma trivialidade dizê-lo, não está nas instituições que elegemos. O poder está noutro lugar
José Saramago

Ganhar ou perder

As pesquisas mostraram que há muitos candidatos à Presidência, mas ainda poucos votos. Conheço quase todos os candidatos pessoalmente, incluído Levy Fidelix, cuja campanha documentei em 2015, assim como outros considerados nanicos na época. Discutir suas qualidade e seus defeitos é um esforço válido, mas não é isso que farei em 2018. O que posso fazer apenas é ajudá-los a ganhar ou perder votos, lembrando grandes temas para a sociedade, nos quais nem sempre eles se fizeram presentes.

Poucos dos mais votados falaram, por exemplo, de duas questões muito discutidas no momento: a prisão em segunda instância e a revisão do foro privilegiado. É compreensível que mantenham uma certa distância. Abraçar esses temas e ampliá-los com uma perspectiva de combate à corrupção não é bem visto entre os políticos. Muitos candidatos são discretos nesse ponto porque não querem perder o apoio dos seus pares, muito menos arriscar-se a um confronto com o Congresso, em caso de vitória.

Como em todas as eleições, assumir uma linha política nem sempre representa apenas mais votos. É sempre um jogo de ganha e perde.

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A própria esquerda será chamada a se definir, mas hoje, por uma questão de coerência, ela associa a prisão após segunda instância à presença de Lula na cadeia. E certamente terá de adotar a posição mais leniente, que prevê prisão após o trânsito em julgado.

É uma posição defensável, em nome da liberdade individual, sobretudo se omitir suas terríveis consequências, como a sobrevivência do sistema de impunidade, que tanto contribuiu para arruinar o País. Seria assim uma posição ultraliberal, defensável apenas num regime burguês, já que os regimes de esquerda não conhecem essa história de trânsito em julgado: muitos deles prendem sem contemplação, até inocentes.

Mas é importante prever um espaço para a esquerda, sobretudo para o candidato indicado por Lula. Mais da metade dos eleitores de Lula votariam nele.

Se existe um problema de ganha e perde votos, hoje, esse problema é o medo nas cidades brasileiras. Bolsonaro adiantou-se alguns meses, propondo armamento, defendendo a tese de que bom policial é o que mata, e mais alguns componentes que o aproximam de uma política de tolerância zero com o crime.

É isso mesmo, ou existe alguma alternativa? Nesse caso, não vale apenas dizer apenas que é preciso haver empregos, educação e tudo mais. É necessário mostrar que existem escolhas mais eficazes, apresentar uma política específica de segurança pública.

O crime organizado é uma realidade nacional. Ele domina as cadeias e todas as redes de tráfico de drogas no País. Numa cidade como o Rio de Janeiro, as milícias, por exemplo, controlam territórios onde moram 2 milhões de pessoas.

Tudo isso é um desafio para os candidatos. Eles têm de mergulhar no tema e dizer alguma coisa – ganhar ou perder votos, isso é do jogo.

Esse perde e ganha se transporta também para a base. Todos prometem crescimento econômico. Mas que tipo de crescimento? Vão entulhar as ruas de carros individuais? Lembrem-se de 2013.

Os candidatos hoje em dia são aconselhados a evitar alguns temas, escolher apenas o que as pesquisas recomendam. Mas quando alguns temas dominam a cena e os candidatos são protagonistas distantes, sempre vai haver pouco voto.

Mesmo sem esquecer que há um segundo turno, o ideal seria que os candidatos já expressassem grandes correntes. No passado, isso era canalizado pelos dois grandes partidos. Mas PT e PSDB vivem cada um o seu inferno com a Lava Jato.

O PT perdeu seu candidato e o PSDB, embora se afaste de Aécio, não conseguiu dar o passo fora do círculo. Geraldo Alckmin sentiu um alívio porque o inquérito sobre as doações da Odebrecht foi para a Justiça Eleitoral. Sua grande vitória: ter-se livrado da Lava Jato.

É um equivoco. Em primeiro lugar, porque fortalece o discurso de que a Justiça persegue uns e protege outros. Em segundo lugar, se é inocente e está tudo bem, nada melhor do que ser investigado pela Lava Jato, que acumula grande capacidade técnica, até para inocentar. Para um candidato à Presidência, fugir da Lava Jato não é bom esporte neste outono.

Numa corrida em que tudo pode acontecer, a sociedade, que já se desapontou com os grandes partidos, precisa de salvaguardas. Um delas é trazê-los para o debate dos temas que lhe interessam de fato. É sempre possível argumentar que os políticos têm uma linguagem escorregadia e, além disso, nunca cumprem exatamente o que prometem.

Mas não se pode pensar em eleições como se fossem as mesmas sempre. Ainda não é o ideal, mas nunca se teve tanta transparência, nunca se esteve tão atento aos caminhos da política.

Dizem que os 11 ministros do STF são tão conhecidos como a seleção nacional de futebol. Não tenho elementos para contestar ou validar. Sei apenas que muita gente se esforça para escalar aquela muralha de palavras difíceis, citações, para se aproximar do que realmente interessa: saber qual o placar do jogo, se há esperanças no combate à corrupção.

Ainda é muito cedo para prever, mas tudo indica que a indignação não é o único elemento. As pessoas sabem mais do que no passado. Sabem porque conheceram o declínio do sistema político-partidário e sabem porque se dotaram de meios técnicos superiores.

Não vai adiantar muito ficar meio escondido no debate, nem se proteger com um exército de robôs multiplicando fake news. Esta é uma eleição singular no Brasil, depois de tudo o que vivemos. A grande personagem é a sociedade que emergiu de todos esses traumas. Sua atuação é imprevisível. Conheceu a fragilidade humana dos seus líderes e, no mínimo, vai buscar os melhores mecanismos de controle.0

Levado a sério, um programa de governo é um deles.

Imagem do Dia

Arroyuelo

STF privilegiou a ética quatro vezes em 14 dias

Os bons costumes começaram a prevalecer no Supremo de forma surpreendente. Nos últimos 14 dias, de cinco decisões da Suprema Corte apenas uma premiou a falta de ética. O tribunal empurrou Lula para a cadeia, manteve Palocci preso, converteu Aécio em réu e negou a Maluf um recurso —embargo infringente— que reabriria o debate sobre sua condenação. A moralidade só não ficou invicta porque a Segunda Turma ressuscitou o ficha-suja Demóstenes Torres, permitindo que ele se recandidate ao Senado.

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É importante registrar cada vitória da ética porque certas decisões e opiniões de magistrados dão ao Supremo a aparência de um órgão muito distante, uma Justiça lá longe. O que é angustiante num país como o Brasil, onde o crime é tão perto. Além do impacto que essas decisões mais recentes tiveram nos casos concretos, elas têm reflexos sobre o esforço anticorrupção.

Com Lula, o Supremo reafirmou a regra da prisão na segunda instância. E reaproximou José Dirceu do xadrez. Com Palocci, avalizou as prisões preventivas da Lava Jato. Com Aécio, feriu a invulnerabilidade do tucanato. Com Maluf, agora um preso domiciliar, o Supremo restringiu a hipótese de recursos aos larápios. Tudo foi obtido aos trancos —em geral pelo magro placar de 6 a 5. Uma evidência de que ainda há no Supremo quem se disponha a ser flexível com o roubo. O grande problema é que o brasileiro prefere não ser roubado.

O que a imprensa transpira

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É impossível percorrer uma qualquer gazeta, seja de que dia for, ou de que mês, ou de que ano, sem aí encontrar, em cada linha, os sinais da perversidade humana mais espantosa, ao mesmo tempo que as presunções mais surpreendentes de probidade, de bondade, de caridade, a as afirmações mais descaradas, relativas ao progresso e à civilização.

Qualquer jornal, da primeira linha à última, não passa de um tecido de horrores. Guerras, crimes, roubos, impudicícias, torturas, crimes dos príncipes, crimes das nações, crimes dos particulares, uma embriaguez de atrocidade universal.

E é com este repugnante aperitivo que o homem civilizado acompanha a sua refeição de todas as manhãs. Tudo, neste mundo, transpira o crime: o jornal, a muralha e o rosto do homem.

Não compreendo que uma mão pura possa tocar num jornal sem uma convulsão de asco.

Charles Baudelaire, "Diário Íntimo"

A locomotiva e o trilho

A autodenominada “esquerda” continuou amarrada a ideias superadas pela realidade e ficou defensora de interesses arraigados em setores privilegiados, tanto de capitalistas quanto de trabalhadores. As surpreendentes transformações na realidade construíram um mundo diferente daquele que servia de base às formulações da esquerda tradicional. A globalização desestruturou a lógica do nacionalismo; a automatização e a inteligência artificial retiraram o protagonismo revolucionário da classe de trabalhadores; o esgotamento de recursos naturais eliminou a utopia do consumismo para todos.

A crise consequente, de entendimentos e de propostas, deixou de ser apenas do capitalismo e passou a ser da civilização industrial por inteiro. Essa nova realidade exige uma nova percepção e postura no papel do Estado na economia. Ao perder a sintonia com o avanço das ideias e compromissos com as reformas necessárias, a esquerda ficou reacionária.

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A partir de agora, os que defendem o progresso social e econômico deverão entender que ao Estado cabe definir e construir o trilho para o futuro, mas a locomotiva deve estar nas mãos da sociedade: seus trabalhadores, empresários, organizações sociais. Ao Estado cabe estabelecer regras e fazer investimentos que permitam a estabilidade política e jurídica; a construção de um sistema educacional que ofereça o máximo aproveitamento de todos os cérebros da população e garanta a mesma chance para cada indivíduo desenvolver seu talento pessoal e, com isso, construir uma sociedade eficiente, rica e justa, com a renda bem distribuída.

Além disso, administrar serviços públicos e de assistência social com qualidade e eficiência; garantir o respeito ao equilíbrio, tanto ecológico quanto monetário, para dar sustentabilidade ao progresso e ao bem-estar social; adotar firme compromisso com as regras necessárias para que a economia funcione eficientemente, de maneira a gerar os recursos necessários à construção de uma sociedade justa; entender que a justiça social não pode ser construída sobre uma economia ineficiente. A esquerda precisa compreender que eficiência no uso dos recursos não é um conceito burguês, mas uma condição necessária ao progresso.

A sociedade brasileira tem hoje a percepção de que os partidos que se dizem de esquerda não cumpriram o compromisso moral de governar com ética; mas ainda não percebeu a corrupção deles nas ideias, ao abandonarem o compromisso com a verdade e com a formulação de propósitos justos e viáveis para o futuro. A autodenominada “esquerda” continua com a visão nostálgica de quando a dinâmica econômica e o bem-estar social decorriam da intervenção governamental. Com isso, perde sintonia com o espírito do tempo: não defende a ética na política, não luta pelas reformas necessárias, deixa de ser vetor do progresso, fica de direita.

Daqui para a frente, o Estado faz o trilho da história, e a sociedade move a locomotiva por onde o povo e a nação vão ao futuro desejado.

Paisagem brasileira

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Liberdade de imprensa sob tiroteio

Está curso em Portugal uma polémica sobre a transmissão, pela televisão, de excertos de interrogatórios de denunciados na Operação Marques,que envolve 28 arguidos, 19 pessoas e nove empresas, entre elas o ex-primeiro ministro José Sócrates. Embora ainda se discuta o tema no Brasil, este tipo divulgação não constitui novidade para os brasileiros. Já assistimos, algumas vezes, o Juiz Sérgio Moro interrogando prisioneiros da Lava Jato , delatores e testemunhas. Mas em Portugal, sem permissão do Judiciário e dos denunciados,configura-se o crime de desobediência, ainda que o inquérito não esteja sob segredo de Justiça, caso deste mediático processo.

A restrição não colabora para o fortalecimento da democracia e tem servido, muitas vezes, para proteger criminosos. É o que pensa também boa parte da imprensa portuguesa .Jornais e revistas desafiam a proibição e divulgam o que julgam importante a opinião pública conhecer. Esta semana, o canal da televisão SIC Notícias iniciou uma série de reportagens sobre a Operação Marquês, apresentando documentos, gravações telefónicas, vídeos e outros indícios de prova, além de cenas dos interrogatórios de Sócrates, do ex-Presidente do Banco Espírito Santo,Ricardo Salgado e dos ex-gestores Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, da Portugal Telecom, aqueles das trapaças com a Vivo e a Oi.

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As reportagens são o assunto do momento no país, incendiando discussões nos bares,cafés,restaurantes e sobretudo entre famosos causídicos e personalidades da vida nacional. A Procuradora-geral da República,Joana Marques Vidal, menos assertiva que Raquel Dodge, disse ter ficado “ desagradada” com o fato. O Ministério Público vai abrir inquérito para a apurar o caso. Os advogados, a OAB local , a Associação Sindical dos Advogados Portugueses e aliados dos denunciados bradam aos quatro ventos contra os jornalistas. É a liberdade de imprensa sob tiroteio.

Se há segredo de justiça, deve ser protegido, mas apenas em determinadas circunstâncias, quando prejudica a investigação ou há risco de exposição pública e de questões privadas do investigado ou réu. Não é o caso dos lava-jatos portugueses. Tradicionalmente, o segredo de justiça tem servido não só para proteger a investigação, como os arquivamentos e as prescrições .Mas é difícil ser contra a ideia de que o acesso a fatos políticos, económicos e sociais relevantes, ainda que sob investigação criminal, colabora para o fortalecimento da cidadania.

A liberdade de informação se baseia em conceitos relativos aos direitos dos cidadãos, que são informar, se informar e ser informado. Não constitui abuso , no exercício da liberdade de imprensa , noticiar atos Executivo, Legislativo ou Judiciário. A imprensa pode e tem o dever de divulgar todas as informações sobre a atuação criminosa desses poderes ,que precisam ser acompanhadas e compreendidas pela opinião pública para que possa apoiar as investigações e a punição dos seus crimes. Faz parte da demoraria.

Foi importante para os portugueses assistirem aos interrogatórios. Socrátes,que já amargou cerca de 10 meses na cadeia e responde em liberdade a um pacote de processos, foi o mais agressivo. Em vários momentos perdeu as estribeiras e se exaltou , gesticulando histericamente enquanto atirava papéis sobre a mesa. Gritou e destratou o procurador que o interrogava, Rosário Teixeira, a quem acusou de estar mentindo. Se fosse com Sérgio Moro, teria levado um cala-boca daqueles e sido enquadrado, mas Rosário tentou contra-argumentar com Sócrates e ficou mal na fotografia.

Como é público e notório,Sócrates é amigo do peito do ex-presidente Lula, que em 2013 autografou seu livro “ A Confiança no Mundo-Sobre a Tortura em Democracia-“,cujo lançamento no Museu da Electricidade (leia-se EDP)foi prestigiado pela elite da sociedade local, entre conhecidos políticos, advogados e banqueiros.Hoje,a maioria torce-lhe a cara. Em seguida, foram homenageados com banquete oferecido pela Odebretch no Palácio Nacional da Ajuda, dos mais emblemáticos do Patrimônio Nacional.

Melhor sorte não teve o “ Dono disso Tudo”,como era conhecido o Presidente do Banco Espírito Santo,Ricardo Salgado, acusado de vários crimes, entre corrupção ,lavagem de dinheiro e outros delitos comuns no mundo das finanças. Com a falência do seu banco, levou milhares de depositantes à miséria, mas sua passagem pelo xadrez foi rápida, sendo transferido para prisão domiciliar na sua linda mansão no Estoril, onde vive a maioria dos milionários de Lisboa. Quem sabe,talvez seus defensores sejam mais influentes.

Seu interrogatório também foi transmitido pela SIC,mas ele não perdeu a pose. Destronado do seu império financeiro, deve ter algum muito bem guardado para pagar os melhores advogados do país, como de resto a maioria dos denunciados pela Lava Jato no Brasil e em Portugal.Como será que o dinheiro chega aos seus advogados?Fazem-lhe companhia no processo e no roteiro televisivo da SIC, Zeinal Bava, eleito o melhor gestor do ano na Europa, e Henrique Granadeiro,ex-presidentes da Portugal Telecom, aqueles das trapaças da Vivo e da OI.

Em comum, todos cantaram a mesma ladainha, igualzinha a dos acusados pela Lava Jato no Brasil.Com o ar angelical de meninos de coro da igreja, juraram inocência. Nunca cometeram crime algum, as acusações são infundadas, não há provas, são vítimas de perseguições, da inveja de inimigos,não sabiam de nada,não conhecem fulano nem sicrano e vão provar inocência. Além do destempero de Sócrates, chamou a atenção os risos e tentativas de ironia dos ex-gestores da Portugal Telecom. Quem não está habituado ao discurso de acusados, pode até ter se impressionado com a performance dos dois.

Há uma teoria indicando que de tanto repetir a mesma mentira o ser humano acaba acreditando nela. Estudo recente desenvolvido pela University College de Londres, publicado na revista Nature Neurosciente,descobriu que mentir em benefício próprio diminui a reacção do cérebro à desonestidades. E, dessa forma, mente-se cada vez mais. Os pesquisadores apresentaram fortes argumentos para uma percepção que muitas pessoas já terão sobre a mentira. Elas se habituam a mentir, começam com as pequenas e resvalam facilmente para mentiras cada vez maiores.

Os investigadores perceberam que quando o participante da experiência podia extrair algum proveito da situação, ele não só era desonesto como mentia cada vez mais. Enquanto a desonestidade aumentava, a reacção no cérebro caia, o que foi constatado por ressonâncias magnéticas ,procurando-se a resposta da região das amígdalas (associada às emoções) ao comportamento demonstrado. Quem sabe se possa adoptar o método nos interrogatórios. Mas só funcionará, é claro, para quem ainda possui amígdalas.

Estado brasileiro se tornou um espelho obscuro da sociedade

Viciado que sou na leitura de jornais (quatro por dia, só um pouco menos que as xícaras de expresso), não posso dizer que tenha sido surpreendido pela notícia publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo acerca do fato de os magistrados do Rio Grande do Norte terem se concedido licença-prêmio retroativa desde 1996, prebenda que poderia resultar em pagamentos de até R$ 300 mil para os beneficiários da generosidade dos desembargadores para com seus semelhantes, se não tivessem recuado depois da divulgação.

Como aprendi com Pedro Fernando Nery, a tal licença foi criada em 1952 para beneficiar servidores que não faltavam ao trabalho (o que em si já é revelador da mentalidade nacional: premiar um comportamento que deveria ser padrão) com folga de 90 dias a cada cinco anos, ou seu uso em dobro para a contagem de tempo até a aposentadoria.

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A lei 9.527/97, porém, acabou com o privilégio, mantendo apenas uma possibilidade: em caso de morte do servidor que não o houvesse usufruído, seus dependentes poderiam receber um complemento na pensão por morte. Independentemente da lei, contudo, órgãos com autonomia financeira continuaram a pagar para quem se aposentasse sem usar a licença-prêmio.

A Procuradoria-Geral da República, contudo, decidiu que nem sequer seria necessário esperar a aposentadoria, interpretação que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte tentou emplacar.

Obviamente não falta quem defenda a legalidade do pagamento, que, diga-se, por ser considerado indenização, não entra na base de cálculo do Imposto de Renda, ou contribuição previdenciária, nem para fins de determinação do teto de vencimentos.

Nem esse evento, nem o pedido da ex-ministra Luislinda Valois para somar a seu salário também o valor que recebia como aposentada (superando em muito o teto constitucional), nem várias outras instâncias de órgãos da administração pública acumulando vantagens são casos isolados. Ao contrário, revelam que há muito o setor público foi capturado por interesses privados, tema que explorei em coluna publicada no fim do ano passado.

De acordo com estimativas do Tesouro Nacional, os três níveis de governo do Brasil desembolsaram em 2015 R$ 2,5 trilhões (37,5% do PIB) referentes às suas despesas primárias. Naquele ano, pouco mais de metade delas (R$ 1,3 trilhão, ou 19% do PIB) foi destinada à remuneração de empregados e ao pagamento de pensões e aposentadorias do setor público, segmento que insere, com sobra, na parcela mais rica da população.

Não temos ainda os dados detalhados no que se refere às pensões e às aposentadorias para 2017, mas noto que no ano passado a parcela referente à remuneração do funcionalismo aumentou, sugerindo situação ainda mais grave nos dois últimos anos.

Na verdade, para o período para o qual dispomos de dados, o que se observa é um aumento persistente dessas despesas relativamente ao produto, enquanto o investimento governamental perde fôlego, assim como os gastos associados mais diretamente à prestação de serviços públicos.

O Estado brasileiro se tornou um espelho obscuro da sociedade, instrumento para grupos privilegiados se apropriarem de parcelas crescentes da renda. Apesar disso, ou cegos, ou anestesiados, nada fazemos para alterar o processo que, a se manter o status quo, em poucos anos se tornará insustentável.

Alexandre Schwartsman

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Desânimo com a política

A Lava Jato deve continuar, disseram nada menos que 84% dos entrevistados na última pesquisa do Datafolha. Mesmo entre os eleitores de Lula, ampla maioria de 77% apoia a operação de anti-corrupção. Como, por outro lado, 31% dos entrevistados votariam em Lula para presidente, é obrigatório concluir que muitos brasileiros apoiam, ao mesmo tempo, a Lava Jato e a candidatura de Lula.

O que isso quer dizer?

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Especulações: parte dos eleitores não sabe que ele foi apanhado justamente pela Lava Jato; ou sabe, mas entende que a operação, neste caso, está equivocada (o PT diz algo assim); ou sabe e entende que, sendo a corrupção generalizada, não faz mal que Lula esteja no rolo.

Antes de tentar decidir qual a especulação mais provável, convem consultar outros número expressivos.

Por exemplo: 57% dos entrevistados apoiam a prisão em segunda instância e 54% acham justa a prisão do ex-presidente. Dados muito parecidos, não é mesmo?

Indicam, pelo avesso, que entre os apoiadores da Lava Jato muitos não topam a condenação em segunda instância e, pois, consideram errada a decisão de mandar Lula para a cadeia.

Faz sentido.

Por outro lado, e há muitos lados nesta situação, nada menos que 51% dos entrevistados acham que a corrupção continuará a mesma depois da Lava Jato.

E apenas 37% acham que vai diminuir.

Como a corrupção e a situação política são apontadas como principais problemas brasileiros, encontra-se aqui evidente desânimo e falta de confiança nos governos, nas lideranças e nas instituições. Para a maioria, fica tudo na mesma porcaria. E se é assim, segue a especulação, por que penalizar quem foi apanhado pela Lava Jato?

Há outros sinais de falta de confiança. Os dados reais mostram que a economia brasileira deixou a recessão para trás, voltou a crescer no ano passado e acelerou na passagem de 2017 para 2018. Sim, trata-se de uma recuperação moderada, a criação de empregos vai devagar, mas é evidente que a situação melhorou. Inflação baixa (inclusive com queda nos preços de alimentos) preserva os salários reais. Há mais crédito concedido para pessoas e empresas e os juros, embora elevados, estão mais baixos que um ano atrás, por exemplo.

Como notou o FMI no seu último Panorama Global, o Brasil está entre os países que registram melhora mais intensa nos cenários para este e o próximo ano.

Voltemos ao Datafolha. O país, principalmente a economia, vai piorar, dizem 29% dos entrevistados. Vai melhorar para apenas 26%. E os demais acham que fica na mesma, que não é boa coisa.

Quando as perguntas tratam de pontos específicos - como inflação e juros - as pessoas, na maioria, tem uma visão negativa. Desaprovam mesmo políticas que estão obviamente funcionando, como a derrubada de juros básicos promovida pelo Banco Central.

Isso é pura falta de confiança tanto no governo quanto nas oposições. O governo Temer é uma contradição viva. A equipe econômica faz verdadeiros milagres. Já conseguiu pontos importantes - como o teto de gastos, a mudança na gestão das estatais, algumas concessões, a arrumação dos bancos públicos, controle de gastos e, claro, a queda dos juros - e ainda encaminha uma agenda no Congresso, como o cadastro positivo e a independência do Banco Central.

Do outro lado do governo, o político propriamente dito - e vamos dizer francamente - está todo mundo de algum modo enrolado na Lava Jato e ações paralelas, do presidente a ministros e assessores, soltos ou presos.

Na oposição, o PT, nem é preciso dizer, está destruído. E o PSDB conseguiu se danar tentando fazer de conta que não havia nada demais com Aécio, com Azeredo (ambos ex-presidentes do partido, já apanhados) e com outras lideranças das quais a Lava Jato se aproxima.

Deveriam adotar o padrão japonês e alemão. Apareceu uma denúncia? Uma dúvida razoável? Ou o alvo cai fora ou é tirado, vai cuidar de seu problema e segue a política.

Não sendo assim, fica a desconfiança geral.

O que atrapalha a própria recuperação econômica. O mundo vai bem, diz o FMI. Todos os principais países mostram bom ritmo de crescimento sincronizado, isso há dois anos e devendo continuar pelo menos até 2019. Logo, há mais comércio, mais negócios, mais investimentos.

Tivesse o Brasil arrumado suas contas públicas, estabilizado as finanças, afastado a corrupção, e o país poderia estar decolando.

Que mesmo nesse ambiente haja uma recuperação, é sinal da vitalidade da economia privada. O que significa que há esperanças. Já saímos de piores.

Mas as eleições são mesmo um grande teste de passagem.

Gente fora do mapa

Rene Burri.  ‘Coconut plantation, Kerala’  India
Kerala (Índia), Rene Burri

A radicalização política é a grande adversária do regime democrático

Não há dúvida de que vivemos tempos perigosos. A radicalização política, se prevalecer nas eleições de outubro próximo, só servirá para enfraquecer nosso incipiente regime democrático, que exige reformas urgentes e profundas. A político-eleitoral é essencial ao surgimento de novas lideranças. Sem ela, o país continuará sem saída. 

Tanto os governos do PSDB (dois mandatos de FHC) quanto os do PT (dois de Lula e um e meio de Dilma) perderam oportunidades históricas. Reformistas em seus programas, além de defensores intransigentes da democracia e (no início) da ética na política, na prática desperdiçaram todas as chances de imprimir novo rumo ao país. Em nome da sobrevivência, os três buscaram alianças fisiológicas, obviamente descomprometidas com os reais interesses do povo. À parte os acertos de um e de outro, continuaram com o mesmo modelo de governo. Isso só poderia desaguar no mensalão e, depois, na Lava Jato.

Ao contrário do que afirmou o juiz Sergio Moro, em Harvard, na última segunda-feira, durante painel sobre crimes do colarinho-branco, nossas instituições democráticas vivem hoje crise realmente grave. Ainda incipientes, mas conquistadas a duras penas há três décadas, vivem momento desafiador. Se não soubermos preservá-las, ruirão diante dos duros testes que virão por aí. Como sempre, as ameaças partem tanto dos radicais da direita quanto da esquerda, ambos os grupos dominados pela intransigência, pela intolerância e, pior ainda, pelo ódio.

Algumas vozes se levantam timidamente contra isso. Elas, todavia, não estão dando conta de enfrentar esse clima hostil que se manifesta em qualquer roda de conversa, por mais tolerante que seja.

O jornalista Nelson Motta tem sido uma dessas vozes. Com bom humor, o clima de intolerância e ódio que tomou conta da política foi outra vez abordado por ele, na semana passada, em sua coluna “Tolerância é quase amor”, no jornal “O Globo”. Referiu-se a um caso que, com certeza, é “mais que uma lição de tolerância e respeito pelo outro”. Trata-se do que ocorreu na campanha presidencial norte-americana de 1982, entre o democrata James Carville, marqueteiro do candidato Bill Clinton, e Mary Matalin, chefe da campanha do republicano George Bush. Os dois adversários, que antes se odiavam, se apaixonaram e estão casados há 25 anos; hoje, são pais de duas filhas. Diz Motta: “Conto essa história de amor e tolerância na esperança de que inspire os amigos que vejo brigando e se defendendo por políticos que não valem um abraço”.

Em depoimento recente a dois amigos (Miguel Darcy de Oliveira e Sérgio Fausto), transformado em livro, o ex-presidente Fernando Henrique chama a atenção para o risco que corre o país: “Estamos diante de uma encruzilhada: ou bem seremos capazes de reinventar o rumo da política, ou cedo ou tarde a indignação popular explodirá nas ruas, sabe-se lá contra quem e a favor de quê. Ou, o que é pior, o reacionarismo imporá ordem ao que lhe parecerá o caos”.

Em 2019, o país será o resultado de nossas escolhas. Não tenho receita nem fórmula mágica, mas apenas a certeza de que não podemos eleger quem represente o aprofundamento desse racha odiento que divide a sociedade brasileira. O populismo que boa parte das esquerdas defende ou o retorno ao autoritarismo, fardado ou não, que deseja a direita radical, qualquer deles só nos levará ao caos. E é disso, leitor, que deveremos tratar nas eleições que se aproximam.

Assim os algoritmos perpetuam a desigualdade social

Cathy O’Neil é uma matemática de cabelo azul que dedica todos os seus esforços a abrir os olhos das pessoas sobre os algoritmos que dominam o mundo. Desde os que indicam ao banco se você é apto ou não a receber uma hipoteca, até os que decidem quem merece uma vaga de trabalho. Um sistema que pode perpetuar as desigualdades existentes no mundo se não começarmos a ser críticos, defende a cientista. “Estamos dando poder a mecanismos sem nos perguntar se realmente funcionam, isso é uma falha como sociedade”, explica de Nova York ao outro lado do telefone.


O’Neil, em seu livro Armas de Destruição Matemática, mostra alguns exemplos para colocar essa teoria em termos reais. Viaja em algumas de suas páginas a Reading, uma pequena cidade da Pensilvânia (Estados Unidos) que em 2011 tinha um nível de pobreza superior a 41%, o mais alto de todo o país. Com um efetivo reduzido pela crise, o chefe de polícia investiu em um programa de predição de crimes chamado PredPol que funciona com big data. O aplicativo divide a cidade em quadrantes e determina em qual deles é mais possível que se cometa um crime baseando-se no registro histórico da polícia. No leque de dados estão desde crimes mais leves como perturbação da ordem pública (beber na rua, por exemplo), até homicídios.

Quanto maior for o número de agentes enviados aos pontos indicados pelo programa, mais prisões ocorrem e assim se entra em um círculo vicioso que enche as prisões de gente, em sua maioria, acusada de crimes menos graves. A maioria dos detidos é de negros e hispânicos. “O mapa da delinquência gerado desse modo traça na realidade um rastro de pobreza”, diz a autora. “Continuamos prendendo negros por coisas pelas quais não prendemos brancos, mas agora já não o dizemos abertamente e disfarçamos de ciência porque o fazemos com o PredPol. Continuamos com o ciclo, porque continuamos prendendo gente de um bairro e os dados nos dizem que precisamos voltar a esse bairro, dessa forma a injustiça policial continua”, afirma na entrevista.

Continuamos prendendo negros por coisas pelas quais não prendemos brancos, mas agora já não o dizemos abertamente e disfarçamos de ciência
Vários estudos já indicaram que estamos cedendo o controle a mecanismos automáticos que perpetuam a discriminação. Do algoritmo do Google que identificou um negro como um gorila em uma foto, até a máquina que relaciona estar na cozinha com uma mulher, ou o algoritmo do Facebook que mostrava anúncios de casas à venda somente a usuários brancos. “Os engenheiros pensam em termos de otimização dos recursos, o que é preciso é diversidade nas equipes que escrevem os algoritmos para que incluam pessoas que pensem nas violações dos direitos humanos e na forma como esses códigos irão afetar a sociedade: sociólogos, advogados, psicólogos...”, afirma.

A matemática afirma que já é tarde para se preocupar pelo fato de que nossos dados estejam disponíveis, que agora é preciso perguntar às empresas e gigantes tecnológicos o que estão fazendo com eles. “Não nos damos conta na maioria das vezes que nos analisam, especialmente na Internet. Quando somos conscientes de que recebemos uma pontuação de acordo com nossos dados, a primeira coisa que precisamos fazer é pedir explicações, que nos mostrem o processo pelo qual fomos qualificados, se é algo importante como uma hipoteca e um trabalho, até mesmo utilizando mecanismos legais. As vezes em que não percebemos, são os Governos europeus e o dos Estados Unidos que precisam estabelecer normas que indiquem que a cada vez que recebemos essa pontuação precisamos saber”, diz O’Neil.

O’Neil apagou sua conta do Facebook há um ano (e a do Twitter também não está disponível há algumas semanas), logo depois das eleições vencidas por Donald Trump e que agora estão sendo investigadas pelo uso dos dados de milhões de usuários do Facebook. O escândalo levou seu criador, Mark Zuckerberg, a dar explicações no Senado dos Estados Unidos. “É preciso obrigar empresas como o Facebook a explicar o que estão conseguindo com produtos, em vez de assumir que estão fazendo o melhor. Já temos a suspeita de que o Facebook ajudou a divulgar notícias falsas, a influenciar o resultado de votações, a fazer com que as pessoas acreditassem em teorias da conspiração. Por que não temos as provas reais, por que não as mostram?”, pergunta a especialista.

O que acontece nos países menos desenvolvidos? São mais vulneráveis? “Lamentavelmente não acho que têm a oportunidade de tomar o controle porque as empresas norte-americanas e chinesas estabelecerão suas regras mais rápido do que as próprias pessoas”. Os dados variam, mas a Africa 2.0 International Foundation dizia em uma conversa há um ano que no continente africano existem 800 milhões de terminais, quando há 50 anos só existiam 40.000 telefones. Esses dispositivos, com Internet ou sem, já são uma fonte inesgotável de dados às empresas.

A matemática se mostra otimista, porque pelo menos os algoritmos fazem parte do debate atual, e não se cansa de alertar sobre a confiança cega no big data: “Se você só usa dados do passado, está condenado a repeti-lo. É preciso se perguntar aonde você quer chegar, em vez de se limitar a analisar de onde você vem. Se estivéssemos orgulhosos de nosso sistema, poderíamos querer usar esses dados para manter tudo igual, mas não é o caso”.

Se deixarem, cela vira sucursal do Instituto Lula

De todos os flagelos brasileiros o mais imutável e constrangedor talvez seja a calamidade do sistema penitenciário. Mas a humanização das cadeias nunca foi propriamente uma prioridade dos congressistas. Ignora-se o tema porque a barbárie é popular. O Datafolha revelou em 2015 que 50% dos brasileiros concordam com a tese segundo a qual bandido bom é bandido morto. Ou seja: metade dos brasileiros acha bom quando os presidiários brigam, matando-se uns aos outros dentro das penitenciárias.

De repente, surgiu no Congresso a bancada da cadeia. Integram-na senadores e deputados companheiros. Curiosamente, ainda não acordaram para o cenário de século 19 que vigora nas cadeias do país. Estão preocupados com as condições carcerárias de Lula, recolhido à única cela em todo o território nacional onde se respira um aroma de século 21.


Nesta quarta-feira, ao negar pedido do Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel para inspecionar a “sala de Estado Maior” em que Lula cumpre a pena de 12 anos de cana, a juíza que cuida da execução penal em Curitiba, Carolina Moura Lebbos, manifestou uma estranheza: no intervalo de duas semanas, formularam-se três pedidos de inspeção na Superintendência da Polícia Fedeal de Curitiba, que hospeda o preso mais ilustre da Lava Jato.

“A repetida efetivação de tais diligências, além de despida de motivação, apresenta-se incompatível com o regular funcionamento da repartição pública e dificulta a rotina do estabelecimento de custódia. Acaba por prejudicar o adequado cumprimento da pena e a segurança da unidade e de seus arredores.”

Alheios à manifestação da doutora, dez deputados formaram na Câmara uma “comissão externa” para inspecionar o cárcere especial de Lula nesta quinta-feira. Na terça, com autorização da juíza, 11 integrantes da Comissao de Direitos Humanos do Senado passaram duas horas com o preso. Atestaram a fidalguia e a qualidade dos serviços da hospedaria federal. Mas avaliam que Lula merece mais regalias.

O senador Joao Capiberibe (PSB-AP) prepara um relatório. Nele, dirá que Lula precisa ser tratado como “um preso político”, pois as pesquisas informam que ele dispõe de “35% de preferência do eleitorado.” A Comissão de Direitos Humanos do Senado vai solicitar que Lula passe a receber outros visitantes além dos familiares.

Nas palavras de Capiberibe, “Lula tem 72 anos e é um homem muito interativo”. Hummmm. “Passava os dias conversando, discutindo, trabalhando, e hoje ele está muito isolado.” Heimmmm?!? “Esse isolamento é uma grande preocupação da comissão.” Ai, ai, ai…

Petistas e companheiros ainda não notaram. Mas Lula é um corrupto com sentença de segunda instância. Sua candidatura presidencial virou ficção. Sempre desrespeitoso com as autoridades judiciárias, ele recebe um tratamento respeitoso. Algo compatível com sua condição de ex-presidente. Mas não se pode permitir que confundam deferência com privilégio, coisa muito comum em qualquer casta.

É hora de levar o pé a porta da cadeia. Se as autoridades boberarem, o PT e seu séquito acabam transformando a cela especial de Curitiba numa sucursal do Instituto Lula em Curitiba. Ou coisa pior. O que não falta no país é presidiário precisando de atenção de congressista. Desnecessário lembrar que 40% da comunidade carcerária brasileira mofa atrás das grades sem sentença.