sábado, 6 de agosto de 2016

A raça da mediocridade

O enorme Leviatã, que é a humanidade dos medíocres, ostenta o seu vasto traseiro, tão pesado que quase não pode se mexer; quando a ponta da bota o atinge, ressalta com um ruído surdo. Às vezes, quando os pontapés são mais violentos e melhor dirigidos que habitualmente, o monstro se mexe ligeiramente. São essas modificações que, de há uma centena de anos para cá, o bom-tom convencionou denominar: progresso
Aldous Huxley

O ex-presidente Lula e o triste fim de Policarpo Quaresma

Desde que o ex-presidente Lula assumiu o mais alto cargo da hierarquia brasileira e, em consequência, ficou muito mais visível do que antes, seu narcisismo congênito se mostrou em tonalidade muito mais forte. Vencido por incontrolável vaidade, patenteou-se a pretensão de mostrar-se como o melhor governante que dirigiu o Brasil através dos tempos.

Atacado por impiedosa frivolidade, não poupou autoelogios e, assim, passou a utilizar qualquer oportunidade para externar o elevado conceito que faz de si mesmo, notadamente na condição de chefe de Estado acumulada com a de chefe do governo, com a qual o regime presidencialista costuma premiar o detentor das funções presidenciais.

Parecia que uma energia estranha e irrefreável o movia na autoglorificação, como se fora algo doentio. Foi por esse tempo, já um tanto distante, que suas hipérboles foram consolidando o conceito que passei a fazer do então presidente, acendendo-me a desconfiança, cada vez mais sólida, da sua peculiar personalidade.

O fato mais curioso extraído de meu senso crítico foi a vinculação do chefe do governo com o personagem do grande escritor mulato Lima Barreto, desde então famoso, com o nome de Policarpo Quaresma, ao qual coube um triste fim.

Vejamos quem era o curioso protagonista do romance do escritor carioca e sua trajetória. Patriota era sua qualificação mais vigorosa. Portador de um patriotismo exaltado aos que o conheciam, não obstante fosse alvo de respeito dos vizinhos, causou estranheza o excesso de amor à pátria; como se esse traço não bastasse, cismou nosso bravo herói com o violão que não sabia tocar. Para afastar a frustração, contratou Ricardo Coração dos Outros para ensinar-lhe o instrumento, que logo aprendeu. Além de exímio instrumentista, também estudava e conhecia o tupi-guarani, sob o argumento de que tal língua era a melhor e mais radical expressão de um Brasil bem brasileiro.

Na segunda parte do livro, tem uma experiência na agricultura: compra um sítio no Nordeste, dá-lhe o nome de Sossego, mas não dá certo: a terra, que Policarpo, nacionalista de escol, considerava a melhor do país, era um fracasso; os contratempos se tornaram tantos que, desanimado, pensou numa reforma agrária, porém muito aquém de seus desejos de progresso para o Brasil.

Na terceira parte, Policarpo volta para o Rio, se envolve com Floriano Peixoto e mete-se na revolta listado de major. Termina esta, e o então oficial inexplicavelmente é levado para a prisão. Inconsolável, Quaresma não compreende o que fizeram, logo a ele, patriota de todas as horas. É quando Olga, sua sobrinha, vai visitá-lo. Ao chegar e ouvir que o padrinho é um traidor, decide que o melhor é deixá-lo morrer com seu orgulho, como um herói.

Lima Barreto para por aí e transfere a morte do personagem à imaginação do leitor. E daí, é de inquirir qual a ligação entre Lula e o grande herói. Nenhuma, exceto que Policarpo vestiria a mortalha por sua pátria e, se vivo fosse, lutaria até a última gota de sangue de inocente para desbaratar a formidável gangue formada por empreiteiros, partidos políticos, parlamentares e governo para dilapidar a Petrobras e muitas outras empresas públicas e saciar os donos de um poder ilegal e ilegítimo, porque são bens do povo.

E Lula? Na melhor hipótese, refugia-se na omissão, enquanto a nação arde em fogo diante dos bilhões abocanhados. Mas ainda há juízes no Brasil do quilate de Sergio Moro, capazes, altaneiros e independentes, de julgar e punir com justiça.

As senzalas do mundo civilizado

Dia desses, contemplando a movimentação dos navios de carga que chegam e saem do porto de Vitória, fiquei a pensar no quão importante é o transporte de mercadorias. Está ali, nas costas daquelas imensas embarcações, o coração da talvez mais importante atividade humana: o comércio.

A tamanha importância deveria corresponder igual preocupação com a segurança - daí minha surpresa ao descobrir que a cada 4,6 dias um daqueles imponentes navios afunda em algum lugar deste planeta. Mais de um por semana!

Parece incrível, mas para que o comércio mundial funcione razoavelmente bem quase três marinheiros perdem a vida a cada dia só por conta desses naufrágios - em 2012, por exemplo, foram 981 mortes.

Mas, pensando bem, mais incrível ainda é que ninguém fala nisso. Se, para fins de comparação, a cada cinco dias caísse um avião de passageiros carregando crianças para férias na Disney, matando umas quinze delas, acredito que a segurança dos aviões seria alvo de inquéritos, estudos, denúncias, protestos, ocupações e tudo o mais.

Como, no entanto, estamos a falar de pobres marinheiros se afogando por conta de navios claramente inadequados para os rigores dos oceanos, tudo acaba resumido a estatísticas, e não se fala mais nisso.

Há também o caso dos mineiros. São eles os responsáveis finais pela extração de minérios os mais preciosos e indispensáveis ao bem-estar de toda a população. Imaginem, por um instante que seja, um mundo com escassez de carvão, de cobre etc.

Não seria demais imaginar que tão importante atividade fosse cercada dos devidos cuidados, em respeito aos profissionais que passam suas vidas percorrendo buracos cada vez mais profundos.

Mas que nada! A cada ano morrem soterrados, pelo mundo afora, nada menos que doze mil mineiros. Isso dá uns 32 deles a cada dia. E, também aqui, ninguém fala sobre isso. Um escândalo dessas proporções acaba virando estatística, e fica tudo por isso mesmo.

Fico a pensar em uma pintura de Georges Rochegrosse magistralmente descrita pelo escritor português Albino Forjaz de Sampaio: "É um quadro que representa a vida. No primeiro plano muitas criaturas erguem o braço para chegar mais alto. Homens de casaca tão corretos como se fossem para um baile. Homens condecorados e homens banais, velhos e moços, misturam-se e empurram-se, disputando-se numa agonia pavorosa, num combate sem nome. Aquele monte é a ambição de subir na vida. Atrás, pela riba acima, numa escalada vertiginosa, aparece uma maré cheia de cabeças ululantes, estranguladas pela ambição, correndo, empurrando-se, pisando os que ficam. Todos daquela multidão ávida querem ser os primeiros. O lugar é disputado a soco, a murro, a dente. O caminho que leva ao triunfo é uma cena medonha que mais parece a fuga duma derrota".

E prossegue o escritor lusitano: "Não há trégua, não há descanso. Cada um vigia sempre o seu vizinho, espreita se ele cai, e tripudia, espreita se ele sobe, e inveja-o. Trava-se um combate em que o mais cruel, o mais forte, o mais canalha, é que triunfa. Nada de piedade nem de compaixão. Se não esmagares, serás esmagado. Não há tempo de olhar, nem de pensar sequer. Avançar seja como for, custe o que custar".

Não há necessidade de se ir a museu algum para olhar este quadro de Rochegrosse - basta pensar nos marinheiros, mineiros e tantos outros profissionais que, por conta do mundo como ele é, perdem a vida tentando ganhá-la.

Pedro Valls Feu Rosa

Medalha de ouro para empreiteiras

Com a Olimpíada, as vísceras e os vícios do Brasil estão expostos ao mundo inteiro: lentidão, falta de espírito prático, mau planejamento, gestão incompetente, mania de improviso e desperdício de dinheiro público. Mas nem sempre fomos assim. O país que construiu sua capital em três anos agora não consegue erguer uma vila em quatro sem precisar de reparos de última hora.

Brasília começou a ser construída em março de 1957 numa região totalmente deserta, sem água encanada, sem eletricidade, iluminação à base de gerador, a mais de mil quilômetros do Rio de Janeiro, máquinas e materiais transportados por caminhão em precárias estradas de terra (às vezes avião), chuvas diárias no mínimo quatro meses ao ano.

No dia da inauguração, 21 de abril de 1960, estavam prontos os principais palácios, com arquitetura sofisticada, o Congresso Nacional, a maioria dos ministérios, quase três mil apartamentos de alto padrão, um canal de TV, um lago artificial, 17 viadutos, duas escolas, um hospital, clubes, restaurantes, dois grandes hotéis, bancos, linha telefônica, aeroporto, 300 quilômetros de energia elétrica subterrânea. E, ao mesmo tempo, se organizou a mudança de parlamentares e milhares de funcionários públicos.


Quase 50 anos depois, em outubro de 2009, o Brasil foi escolhido para sediar a Olimpíada. As obras ficaram a cargo das construtoras mais experientes no país, equipadas com tecnologia de ponta e modernas máquinas de construção pesada, todos os materiais disponíveis, facilidade de transporte, dinheiro à vontade e sete anos de prazo para construir tudo.

Às vésperas do início dos Jogos, faltam acabamentos numa vila olímpica (quatro anos em obras) com 31 prédios comuns de 17 andares, um mercadinho e um refeitório. Inaugurou-se um velódromo (dois anos de obras) inacabado. A linha do metrô (seis anos de obras), com 16 quilômetros de extensão, não está pronta, apesar de o custo ter quase dobrado, de R$ 5 bilhões para quase R$ 10 bilhões.

Na Copa do Mundo não foi diferente. Além dos atrasos injustificáveis, os conselhos regionais de Engenharia e Agronomia constataram má qualidade no acabamento e falhas técnicas em estádios, aeroportos, meios de transporte. Sem falar das obras inacabadas e abandonadas, após bilhões de reais gastos.

É estarrecedora a quantidade de obras públicas mal planejadas e mal executadas no Brasil, descumprindo normas técnicas fundamentais. Os resultados são defeitos visíveis dias após a inauguração: rachaduras e infiltração em moradias do Minha Casa Minha Vida, buracos no Elevado do Joá, defeito na cobertura do Engenhão, rachaduras em asfalto com pouco tempo de uso, desabamento de ciclovia por falta de previsão do impacto das ondas, que já existiam ali muito antes da chegada de Estácio de Sá. Provavelmente, a qualidade das obras da Vila Olímpica também é ruim. Pior para quem for morar lá depois.

É uma estranha mistura de incompetência e esperteza. A má qualidade das obras se deve à incompetência e ao uso de materiais baratos, para se lucrar mais. O atraso nos prazos costuma ser deliberado para se embutirem nos contratos os famigerados aditivos que aumentam o valor final. A licitação e contratação costumam ser feitas por critérios mais políticos que técnicos.

Mas a responsabilidade cabe também ao poder público, que terceirizou a fiscalização a partir do Regime Diferenciado de Contratações, vigente desde 2011. A própria empreiteira que executa uma obra é responsável pelo projeto e pela fiscalização, uma tarefa que deveria ser feita pelo poder público ou entidades independentes.

Por essas e outras, a engenharia brasileira ganharia no máximo uma medalha de bronze numa Olimpíada de obras públicas. E lá no céu, Juscelino Kubitschek deve dar boas gargalhadas quando ouve Lula em sua egotrip dizer que foi o melhor presidente brasileiro de todos os tempos.

Jason Tércio

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Abaixo essas instituições!

Morre-se sem hospital, o desemprego engata meio milhão por semestre, a quebradeira está só começando mas tudo que o “governo de salvação nacional” salvou foi o funcionalismo por mais quatro anos. “A condição para estabelecer um teto”, diz ele, é arrombar o teto que há. R$ 60 bi pros federais, R$ 50 bi pros estaduais, nada de contrapartidas. E ainda faltam os municipais. Como em Brasília todos os passarinhos são verdes e no Brasil quem elege é “a máquina”, não o eleitor, a dança de acasalamento é a única que se dança por lá. O país que coma bolos…

Ha algo de muito torto na lente com que o Brasil se vê. As reações não combinam com as ações. É preciso empurrar o pânico que grassa aqui fora pra dentro daquele mundinho sem pressa que fabrica as crises mas está dispensado de vivê-las. Nossa pauta política é estranhamente colonizada. Não discutimos nossos problemas, nossas urgências, nossas prioridades. Compramos as dos americanos, dos alemães, dos dinamarqueses, muito mais “modernas” e “progressistas”. Vivemos aos trambolhões mas só falamos dos mais refinados passos de balé. Não nos decidimos nunca a bater a água e a farinha do bolo mas temos tudo a dizer sobre as coberturas que ele poderia ter se existisse. Não temos a comida e a integridade física garantidas mas baixamos uma lei por minuto para prevenir que quem venha a sobreviver a esse nosso olímpico descaso para com o principal incorra no risco de pensar ou sentir “incorretamente”. O massacre é amplo, geral e irrestrito, maior que o de todas as sírias, mas “indignação” mesmo só para com os pedacinhos dele que alimentem considerações “modernas” sobre a raça ou o gênero das minorias identificáveis na pilha dos 57 mil assassinados de cada ano.

Segurança pública pra valer (e mobilidade, transporte, acesso e o mais…) só quando inglês vier. Depois, de volta ao dilúvio…

Nós copiamos o “jeitão” das democracias e trabalhamos feito loucos pelo aplauso de quem a pratica. Mas, pra brasileiro mesmo, nada. A constituição americana, com 227 anos de idade, tem sete artigos e 27 emendas. A nossa última, com 28, nasceu com 250 artigos e já tem mais de 80 emendas. A deles define os sete pilares da democracia, quantos bastam para o povo mandar nos seus governantes e não mais se deixar roubar. A nossa também os inclui, mas soterrados em 330 exceções que garantem que fique afastado das “excelências” o cálice da submissão à lei.

A função da Corte Suprema deles é garantir as sete regras; a da nossa é impor as 330 exceções. E isso faz de tudo o mais o inverso do que parece. Consagramos o “federalismo” mas vivemos a ditadura tributária centralizadora do Executivo. Instituímos “poderes independentes” mas, com tudo e mais alguma coisa transformado em “norma constitucional”, base por definição de qualquer pretensão exigível nos tribunais, o Judiciário e, no fim, o Supremo, tudo pode decidir ou “desdecidir”. Tudo acaba sempre nos onze e dos onze bastam seis…

“As instituições estão funcionando”?

Sim! Desgraçadamente! Enquanto forem as que são “abandonai toda a esperança, ó vós que estais dentro”. É claro que fora do rito institucional é a selva e que é dentro dele que temos de desmanchar essa confusão fabricada. Essa história de que é inconstitucional desconstitucionalizar o que quer que tenha sido constitucionalizado um dia é um truque barato. Até burro dá marcha-a-ré para não despencar no abismo. Para além do rito tudo tem de ser refeito. E o caminho para isso, testado e aprovado, existe.

A raiz do câncer é a “representação” subornada imposta à sociedade. Desde Getúlio come solta a metástese sindical. Desde 88 come também a partidária. Continuam “deles” as estatais, estoque de feudos a serem distribuídos aos barões que sustentarão o rei da vez. É isso que garante que tudo apodreça antes de amadurecer. Não ha quem não saiba; não ha quem não veja. Mas é proibido dizer. Vamos em frente esmurrando a faca, “proibindo” no papel que se produzam na vida real as consequências obrigatórias das causas que nos recusamos a remover.

Não dá mais. Batemos no osso. Agora é física a impossibilidade de levar a vida “arrecadando”. A alternativa para o certo é o errado. Não ha meias medidas. Ou mudamos pra valer, na raiz, ou nos arrebentamos todos. A corrupção não é “causa” de nada. É só a pior consequência da falta de democracia. Puni-la, apenas, não resolve coisa alguma. O que a nossa situação extrema requer é uma dose cavalar de democracia.

O Brasil não é imune à democracia. Apenas não tem ideia do que ela é. Desenhar instituições – democráticas ou antidemocráticas – é encadear dependências. É isso que determina o jogo. O nosso é mais explícito a cada ato. Na ordem institucional, como na vida, manda quem tem o poder de demitir. Você está sendo demitido, mesmo fazendo tudo certo, porque “eles” não podem ser demitidos mesmo fazendo tudo errado. Nem quando a Republica sucedeu o Império, nem nas idas e voltas das ditaduras, jamais mudou a nossa maneira antidemocrática de encadear dependências.

Descarte-se os bandidos para efeito de raciocínio. Democracia é o povo no poder, nem mais, nem menos. Mas nem os nossos “liberais” nem os nossos “desenvolvimentistas” mais bem intencionados contemplam a sério a ideia de por o povo no poder e submeter-se à vontade dele. Criticam-se mutuamente as “intenções” mas só reivindicam uns o lugar dos outros no controle das mesmas alavancas.

É isso que tem de mudar. Revoluções só acontecem de baixo para cima e, no limite em que estamos, nós vamos ter uma logo, controlada ou não. O “recall” é a chave comutadora. Dá ao povo o poder de demitir e reformar Estado adentro e o voto distrital permite que essa revolução aconteça com segurança e sem dor. Plantadas nos municípios essas sementes da saúde já invertem irreversivelmente a cadeia das dependências e, com ela, a das lealdades. Daí em diante o desmonte da doença acontece sozinho, pedaço por pedaço.

Disputa interna que agita o Supremo é mais empolgante do que Olimpíada

É um segredo de Polichinelo, que todo mundo sabe, mas ninguém comenta. O clima no Supremo Tribunal Federal entrou em crescente tensão, porque se aproxima o momento de o ministro Ricardo Lewandowski deixar a presidência e antes disso ele pretende pautar nos próximos dias o julgamento das ações que contestam a possibilidade de prisão para réus cujos processos ainda não tenham sido julgados em última instância, ou seja, no próprio STF.

Como terá de transmitir a presidência do tribunal à ministra Cármen Lúcia no dia 10 de setembro, Lewandowski quer deixar concluído seu dever de casa, digamos assim, mas está encontrando forte resistência.

Com a adesão de Dias Toffoli, que em julho se viu obrigado a libertar seu amigo pessoal Paulo Bernardo e subitamente passou a apoiar a obrigatoriedade do “trânsito em julgado”, o placar agora é de 6 a 5 no Supremo. Ou seja, se apenas mais um ministro acompanhar Toffoli nessa metamorfose ambulante, muitos criminosos de alto nível serão automaticamente soltos, como o ex-senador Luiz Estevão, e a operação Lava Jato terá um encontro marcado com o fracasso.


O clima no Supremo já havia esquentado na quarta-feira, quando os sites da grande mídia divulgaram a palestra do ministro Luís Roberto Barroso na CEUB, maior universidade particular de Brasília. No evento, ele simplesmente anunciou a falência operacional do STF.

Com total conhecimento de causa, o ministro enumerou, um a um, os gravíssimos problemas que entravam o funcionamento do tribunal, para então revelar que não há a menor condição de serem realizados os numerosos inquéritos que envolvem parlamentares e autoridades com foro privilegiado. E desabafou: “Não é possível que só eu esteja aflito com isso. Eu durmo pensando nisso, acordo pensando nisso”.

Foi um choque para os outros ministros, mas nenhum deles fez o menor comentário, nem mesmo os boquirrotos Marco Aurélio Mello e Gilmar Mendes, que estão em campos separados. Foi um silêncio assustador. E o clima não esfriou, muito pelo contrário.

Na quinta-feira, a temperatura aumentaria ainda mais, porque o ministro Edson Fachin desautorizou o presidente Lewandowski e mandou prender novamente o prefeito de José Vieira da Silva, de Marizópolis (PB), condenado por corrupção e fraude em licitações. Durante o recesso de julho, Lewandowski estava de plantão e concedeu um habeas corpus ao prefeito, alegando que a condenação ainda não transitara em julgado. Mas o relator Fachin não engoliu essa intromissão e colocou as coisas em seus devidos lugares, aumentando a tensão ambiente.

Nesta sexta-feira, não há sessão em plenário, mas os ministros estão excitadíssimos, trocando mensagens entre si. Ninguém sabe o que pode acontecer em meio a uma crise de tamanha gravidade, que atinge o Supremo como instituição. É uma disputa interna que caminha para uma final mais emocionante do que os Jogos Olímpicos. Embora o assunto seja importantíssimo, a grande mídia finge que nada está acontecendo. E se não houvesse a internet, ninguém saberia de nada.

O preço do legado do Parque Olímpico

O cidadão já sabe quanto custou a construção das instalações esportivas da Olimpíada do Rio de Janeiro – R$ 7 bilhões, segundo a quarta e última atualização da matriz de responsabilidades feita pela Autoridade Pública Olímpica (APO). Mas a conta não termina aí. Assim como o brasileiro ainda paga a Copa do Mundo, por causa da manutenção dos estádios usados pela Fifa, o carioca ainda vai pagar por muito tempo pelos equipamentos deixados pelos Jogos Olímpicos. Só o Parque Olímpico da Barra, o coração do evento, vai custar pelo menos R$ 1,3 bilhão até 2041 para a prefeitura.

Há mais de um legado em eventos como a Olimpíada. A mobilidade urbana, o ambiental. Aqui nos concentramos apenas no esportivo.

A prefeitura do Rio dividiu o legado do Parque Olímpico em dois pacotes. O primeiro tem tudo o que vai dar dinheiro – edifícios comerciais e residenciais serão construídos em 40% da área, valorizada pela nova infraestrutura e pelo acesso facilitado pelo novo BRT (corredores exclusivos de ônibus). O segundo tem tudo o que só gera gasto: a Via Olímpica, o Live Site (um gramado circular à beira da lagoa) e as arenas olímpicas. A ideia do prefeito Eduardo Paes (PMDB) era privatizar os dois pacotes para consórcios.

A primeira privatização atraiu interesse. Odebrecht, Andrade Gutierrez e Carvalho Hosken formaram o consórcio Rio Mais,participaram da licitação e assinaram o contrato em abril de 2012. O consórcio foi o único a concorrer. Na construção, a prefeitura cedeu terrenos avaliados em R$ 850 milhões e investiu R$ 385 milhões nas obras das instalações esportivas para os Jogos. As empreiteiras tomaram R$ 1,4 bilhão emprestados com a Caixa e tocaram a construção. Assim que os Jogos acabarem, o município colocará mais R$ 150 milhões para ajudar na manutenção. As construtoras fazem dinheiro com os empreendimentos imobiliários por 15 anos, pagam gastos e tentam lucrar tanto quanto puderem por 15 anos.

A segunda privatização ainda não saiu. O edital dela foi lançado só em julho de 2016. Nela, a prefeitura é mais generosa. Ela calcula que as instalações esportivas – o Velódromo, o Centro Olímpico de Tênis, a Via Olímpica, o Live Site e as Arenas Cariocas 1, 2 e 3 – custarão em média R$ 37,2 milhões em cada um dos próximos 25 anos. Eduardo Paes quer que um parceiro privado assuma a operação desse segundo pacote, mas, ciente de que o interesse por ele é menor, promete bancar a maior parte dos custos com dinheiro público – R$ 32,8 milhões anuais. Isso blinda uma eventual concessionária contra prejuízos, como os registrados por todos os estádios públicos da Copa. O resultado da concorrência ainda não saiu. O processo estava previsto para ser concluído nesta sexta-feira (4), mas a prefeitura o adiou porque o edital ainda passa por análise do Tribunal de Contas do Município (TCM-RJ).

O plano de negócios montado pela prefeitura prevê que a concessionária desse segundo pacote arrecadará, no período da concessão, cerca de R$ 30 milhões por ano com as instalações esportivas. O dinheiro viria de naming rights (o direito de rebatizar um equipamento esportivo com uma marca), patrocínios e bilheterias. A julgar pelos resultados das arenas da Copa, inferiores aos projetados por órgãos públicos e privados em todas as praças, é prudente não supor que arenas olímpicas vão gerar tanta receita.

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Abadia de Westminster

Personagens de uma decadência sem estilo

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O conjunto da obra é tragicômico. Tem seu lado trágico porque personagens que já tiveram certa grandeza — hoje todos heróis de si mesmos — estão sendo severamente punidos pela realidade em razão de seu excesso de ambição. E a situação não deixa de ter a sua graça porque se mostram uns notáveis trapalhões. De certo modo, cada um deles articula a sua própria solidão, simulando um poder que não tem e emprestando à própria atuação a grandiloquência de uma farsa. É triste de ver.

A obra de referência aqui deve ser o magnífico filme “Sunset Boulevard”, dirigido por Billy Wilder, conhecido entre nós como “Crepúsculo dos Deuses”. Os personagens centrais deste drama cômico não viram o tempo passar. Estão todos mortos, mas ainda aspiram a uma grandeza e a um glamour que hoje só existem na memória e na vontade.

Falando a Natuza Nery, na Folha, Dilma, abandonada pelo PT, recebe versões e mais versões de uma carta em que vai anunciar seu apoio a um plebiscito. A população seria consultada sobre a conveniência de novas eleições.

Que importa que a proposta seja, sob qualquer ponto de vista que se queira, inviável? Há muito Dilma rompeu os fios que a ligavam à realidade. Tal uma Norma Desmond, a protagonista de “O Crepúsculo dos Deuses”, magnificamente interpretada por Gloria Swason, ela segue se comportando como estrela, ainda que tudo à sua volta já tenha ruído e só a irrelevância a aguarde, com seus enormes e terríveis tentáculos.

No dia 31 de agosto, mais tardar 1º de setembro, Norma deixará o Palácio da Alvorada e se mudará para lugar nenhum. Ocupará o rodapé da história como a presidente deposta que chamou o cumprimento da Constituição de golpe.

Enquanto ela insistia na tese do plebiscito, Rui Falcão, o presidente do PT, sustentava justamente o contrário. O partido não quer saber dessa história. Para todos os efeitos, continuará a advogar a volta de Dilma. Sabendo que isso não vai acontecer, Falcão já antecipa: a legenda fará uma espécie de memorial exaltando a obra de Lula e dará todo o suporte para o chefão do PT defender o seu legado. Ou por outra: o partido impichou Dilma da sua história antes que o Senado a tenha impichado do governo.

E Lula? Ah, este resolveu lançar candidaturas à Prefeitura em Cubatão e Santos. Mal tocou no nome do Dilma — também ele já se cansou desse assunto. Aquele que se imaginava uma espécie de reencarnação de Buda com Jesus Cristo foi flagrado sugerindo a meia-dúzia de petistas em Cubatão que não votem em senadores que forem favoráveis ao impeachment… Para que isso fizesse ao menos algum sentido teórico, seria preciso que a maioria da população fosse contrária ao impedimento de Dilma. Ocorre que é a favor.

Arre! Essa gente tem de sair logo de cena e nos deixar em paz! Em uma coisa, a turma jamais lembrará “O Crepúsculo dos Deuses”: sua decadência não tem estilo; é de uma assombrosa vulgaridade
.

O combate ao crime compensa, mas as autoridades não sabem

Um dos sintomas mais significativos da decadência de uma nação é seu povo não poder andar com segurança pelas ruas. Em um encontro com o ex-presidente argentino Fernando de la Rua (1999-2001), durante sua campanha eleitoral, disse-lhe que sua prioridade deveria ser garantir que os argentinos pudessem andar sem medo pelas belas ruas de Buenos Aires.

Contei-lhe a dramática situação do brasileiro, que, nas grandes cidades, perdera a tranquilidade para caminhar. Naquela época, as reportagens na TV ainda não mostravam a selva atual – à luz do dia, nas ruas do Brás, em São Paulo, punguistas avançam como animais sobre as pessoas, suas presas, para arrancar-lhes bijuterias baratas do pescoço.

Fatos como esse embutem vários significados, a começar pela brutal degradação dos costumes. O simples fato de alguém decidir roubar o outro é uma prova de grave perda de valores. E a perda de valores não tem nada a ver com pobreza ou riqueza. Nem é uma questão de falta de educação formal, e sim de falta de princípios e de educação doméstica.

O segundo significado reside na ineficiência no trato do problema por parte das autoridades. Não há recursos suficientes nem competência. Falta investimento em inteligência e tecnologia para desbaratar o crime organizado e prever sua ocorrência nas zonas de maior incidência. No Rio de Janeiro, as UPPs foram um alento no princípio, mas já começam a perder energia, engolfadas por outro traço cultural de nosso sistema: a corrupção endêmica.

O terceiro significado é a miopia do próprio crime organizado, que deveria, antes de mais nada, evitar problemas para a população. Os criminosos deveriam seguir o exemplo dos antigos barões do jogo do bicho, que não permitiam criminalidade nas cercanias de suas bancas.

Outro ponto importante é que a maior das motivações da bandidagem é o tráfico de drogas. O consumo de certas drogas deveria, então, ser legalizado, regulamentando-se sua venda, como já acontece em alguns países. Nos anos 30, nos Estados Unidos, a Lei Seca funcionou apenas para estimular o comércio ilegal de bebidas. A questão poderia ter sido tratada de outra forma.

Duas atitudes devem ser adotadas. Uma, com relação aos meios de comunicação. Nossa comunicação de massa denuncia o crime; todavia, pouco contribui para orientar o cidadão sobre o problema. Uma segunda atitude seria a criação de uma agência de inteligência destinada a trabalhar para a obtenção de informações e abastecer as autoridades policiais. Devemos ter nosso DEA voltado para questões específicas, como o tráfico de drogas e de armas.

A nova agência trabalharia em conjunto com a Abin e o DPF, bem como com as polícias militares e civis e as Forças Armadas. Seria um organismo subordinado diretamente ao ministro da Justiça ou ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, com estrutura e recursos próprios. Com mais inteligência e recursos, as ruas poderiam voltar a ser mais seguras.

Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York que ficou conhecido por sua política de “tolerância zero” com o crime, ensinou certa vez: “É preciso enfatizar muito o policiamento, mas ele deve ser seguido por condenações judiciais, muito frequentemente por encarceramento, e envolver uma melhoria na comunidade”.

Ou seja, o combate ao crime implica estratégia – remoção dos criminosos (principalmente traficantes) das ruas, programas contra a violência doméstica (em geral contra as mulheres) e contra os pequenos crimes, para que estes não se transformem em grandes. Além do uso de tecnologia com o objetivo de identificar que crimes são praticados, de que tipo, onde, a que horas etc. Ou seja, é muito trabalho pela frente. Você acha que esse tipo de enfrentamento da violência está sendo praticado no Brasil?

Nossas autoridades precisam aprender que combater o crime compensa.

Todo mundo sente o cheiro

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A crise no Brasil é talvez a pior da história. É uma crise de estado, social, econômica. Existem desafios na saúde, no meio ambiente. Em todos os lugares que você olha, existe uma crise profunda
Thomas Bach, o presidente do COI

Como no Rio, Vila dos Atletas de Tóquio vai privilegiar luxo em vez de moradia social

A exemplo do que está planejado nos Jogos do Rio de Janeiro, a Vila dos Atletas da Olimpíada de Tóquio, daqui a quatro anos, também deverá ser transformada em condomínio de luxo, sem espaço para moradias sociais.

Segundo Masa Takaya, diretor de comunicações do Comitê Tóquio 2020, a ideia é transformar o complexo em uma "região icônica da vida urbana de Tóquio", voltada a "apartamentos de luxo, como no Rio de Janeiro".

Nos Jogos de Londres de 2012, parte dos apartamentos foi reservada para população de baixa renda após o final da competição.

A Vila dos Atletas, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, vem sendo alvo de polêmica nos Jogos do Rio por obras inacabadas e críticas das delegações. Antes, o projeto já havia sido criticado por não prever uma cota de moradias sociais.

O empreendimento é chamado "Ilha Pura", com apartamentos que devem ser vendidos por até R$ 1 milhão .

"Cada cidade tem um planejamento diferente", disse Takaya à BBC Brasil. "Nosso plano é diferente daquele de Londres, realizado em 2012. No Japão a Olimpíada prevê um projeto de renovação da região da baía de Tóquio, onde será construída a Vila dos Atletas, que após os Jogos se transformará em um condomínio residencial", diz.

Área da Vila japonesa deve dar lugar a condomínio
de luxo com vista para a baía de Tóquio
Takaya diz que a diferença entre o que está vendo agora no Rio e o que viu há dois anos, em sua primeira visita, é "impressionante".

"Esta é nossa última oportunidade de observar uma Olimpíada antes dos Jogos de Tóquio. Tenho trabalhado em parceria com meus colegas no Comitê Rio 2016 e posso dizer que tudo parece pronto. É impressionante o que fizeram no Rio nos últimos dois anos", diz.

Questionado sobre problemas específicos que poderiam trazer lições para Tóquio, o diretor prefere a diplomacia. "Cada cidade enfrenta seus próprios desafios, tem seu próprio planejamento. O que estamos levando como inspiração é a grande dedicação do Comitê Rio 2016 na organização destes Jogos."

Apesar de ressaltar que cada Olimpíada é um caso diferente, com planejamento e desafios específicos, Takaya comentou sobre dois temas comuns aos Jogos nas últimas décadas.

Como no Rio, onde milhares de famílias foram removidas de suas casas para construção de obras olímpicas, o processo em Tóquio também deve ocorrer, mas em escala menor, pois muitos dos locais de competição e infraestrutura já estão prontos.

"Algumas famílias terão que deixar suas casas para a construção do novo estádio nacional, e a Prefeitura de Tóquio está providenciando novos apartamentos para eles", diz.

Sobre a possibilidade de os Jogos de 2020 extrapolarem o orçamento apresentado ao Comitê Olímpico Internacional (COI) no processo de candidatura, como tem ocorrido nas Olimpíadas recentes, Takaya diz que os organizadores japoneses "não estão otimistas".

"A Prefeitura de Tóquio e o governo do Japão têm se reunido com o Comitê Tóquio 2020 para revisar responsabilidades e papéis que cada um deve assumir com relação aos custos. Não estamos otimistas, mas uma vez que isso for concluído, poderemos identificar exatamente o que cada um deve fazer."

No Rio de Janeiro, a expansão da linha 4 do Metrô, que liga a Zona Sul à Barra da Tijuca, obra mais cara e mais importante da Olimpíada, havia sido orçada inicialmente em R$ 5,4 bilhões, mas já consumiu R$ 10,4 bilhões, praticamente o dobro da estimativa.

A obra corresponde a um quarto dos R$ 39,1 bilhões gastos com os Jogos e há estações inacabadas que deverão consumir mais recursos no futuro.

Brasil tem sede, embora seja dono de 20% da água do mundo

Se o Brasil tem quase um quinto das reservas hídricas do mundo, por que as notícias sobre falta de água se tornaram tão comuns em todo o país nos últimos anos? Há muitas respostas para a pergunta, passando pela diferença na maneira como a água se distribui geograficamente e a degradação das áreas em volta das bacias hidrográficas, até mudanças climáticas e infraestrutura de abastecimento deficiente.

Para aumentar a complexidade do tema, os setores que mais contribuem para a economia são também os mais dependentes. Por exemplo, 62% da energia do Brasil é gerada em usinas hidrelétricas. A água também é essencial na agricultura. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), a irrigação usa 72% dos recursos hídricos disponíveis para consumo.

Tamanha dependência significa que, em tempos de crise – como a vivida por São Paulo em 2014 e 2015 –, a produtividade de diversos setores econômicos pode ser ameaçada.

Esses e outros temas são discutidos no novo Diagnóstico Sistemático de País (SCD, na abreviatura em inglês), que mostra como os recursos naturais podem contribuir para o desenvolvimento econômico do país.


“Em São Paulo, por alguns meses, não ficou claro se as indústrias, como a de alumínio, grande consumidora de água, poderiam continuar produzindo no ritmo anterior à crise hídrica”, lembra Gregor Wolf, líder do programa de desenvolvimento sustentável do Banco Mundial no Brasil.

O estudo inclui alguns pontos importantes sobre a forma como o Brasil vem gerenciando seus recursos hídricos e, embora não aponte soluções, discute os principais obstáculos que devem ser enfrentados a fim de estabelecer um modelo sustentável e inclusivo.

Diante das provas científicas cada vez mais fortes da conexão entre desmatamento, degradação das florestas e mudanças nos padrões de chuva em todo o Brasil, o documento adverte: crises hídricas como a de São Paulo podem se repetir ao longo das próximas quatro décadas, afetando o abastecimento de água, a produção agrícola e a geração de energia, entre outras atividades. O estudo também destaca a redução do desmatamento na Amazônia (em 82%) e a criação de regulamentações como o Código Florestal, que ajuda a proteger os recursos naturais dos terrenos rurais. Trata-se de conquistas recentes depois de décadas de devastação e é necessário controle constante para que não se percam.

O Brasil é o segundo maior exportador de alimentos do mundo. No país em que a agricultura e o agronegócio respondem por 8,4% do PIB, a área de terras irrigadas aumentou em ritmo acelerado na última década e tudo indica que o consumo hídrico deve seguir crescendo. Atualmente, menos de 20% das terras irrigáveis têm acesso a irrigação. Já na área de geração de energia, mesmo com a diversificação das fontes prevista para as próximas duas décadas, as usinas hidrelétricas continuarão entregando 57% da eletricidade usada no Brasil.
O setor mais poluente

A indústria ainda é uma das principais causadoras da degradação ambiental no Brasil. Segundo o SCD, pesquisadores encontraram efluentes industriais, incluindo metais pesados e hidrocarbonetos, nos cursos d’água de diversas regiões metropolitanas. Tais poluentes são descarregados sem qualquer tratamento prévio. Em cidades como São Paulo e Recife, isso significa que os rios circundantes não são mais seguros para fornecimento de água potável, forçando as cidades a obter água de poços ou bacias cada vez mais distantes. O crescimento de novos complexos industriais, particularmente no Nordeste, também pode resultar em impactos ambientais de longo prazo, como poluição e competição por recursos naturais (principalmente água).
Desigualdades no acesso a água e saneamento

Entre os 40% mais pobres do país, o percentual de domicílios com um vaso sanitário ligado à rede de esgoto aumentou de 33% em 2004 para 43% em 2013. No entanto, o acesso ainda é menor do que entre os mais ricos. Outra diferença marcante é a que existe nas coberturas nacionais de água (82,5%), esgoto (48,6%) e tratamento real de esgoto (39%). A falta de tratamento de esgoto faz com que poluentes sejam jogados diretamente na água ou processados em tanques sépticos desregulados, com graves consequências na qualidade dos recursos hídricos, assim como no bem-estar da população.

Muitas empresas de abastecimento ainda sofrem com grandes perdas de água (37%, em média), excesso de pessoal e custos operacionais elevados. O financiamento do setor é baseado em tarifas e subsídios cruzados, com uma estrutura tarifária ultrapassada, incapaz de gerar serviços mais eficientes e sustentáveis. Resultado: elas não têm capital suficiente para aumentar a cobertura e tornar a infraestrutura mais resistente a eventos climáticos extremos (como secas e inundações).

O estudo acrescenta que a qualidade de vida dos brasileiros mais pobres está fortemente relacionada com a gestão da água e de outros recursos naturais, e, portanto, as políticas de preservação são cada vez mais necessárias.

Mariana Kaipper Ceratti

Carta aberta aos dirigentes do COI: Vão embora de vez

Senhores membros do Comitê Olímpico Internacional. Em congresso realizado ontem aqui no Rio, os senhores fizeram duras críticas ao Comitê Rio-2016 relacionadas a problemas da organização dos Jogos, poluição das águas, fila intermináveis na entrada do Parque Olímpico, transporte, trânsito pesado, falta de decoração das arenas e muitas outras reclamações. “Há muitos questionamentos sobre poluição da água, na lagoa e na baía. Gostaria de saber onde estamos nessa situação”, resmungou Albert, o príncipe de Mônaco.

“Faltando apenas dois dias para os Jogos, apenas 15% do look dos Jogos (visual) foi colocado. O que podemos esperar?”, reclamou Camiel Eurlings, representante da Holanda. Não adiantaram nem os apelos de Thomaz Bach, presidente do COI, para que os membros do Comitê fossem mais amenos. Sá faltaram xingamentos explícitos. O clima foi pesadíssimo.


Como cidadão brasileiro, carioca e advogado, tenho o dever de defender meu país e meu povo. E começo a defesa com um pedido a todos vocês: vão embora. O Brasil e a Cidade do Rio de Janeiro não lhes pertencem. Não aceitamos avacalhação. Temos sentimento e muito brio. Os senhores são estúpidos e não estão em suas casas, mas na casa do povo brasileiro.

Os senhores sempre souberam, de antemão, que nenhuma cidade brasileira teria condições de sediar uma Olimpíada. E mesmo assim aceitaram a arriscada candidatura do Rio para sediá-la em 2016. E após muitas visitas do Comitê de Avaliação, decidiram em 2009 escolher a minha cidade natal para sediar este grandioso evento.

Uma pessoa muito rica e poderosa que contrata com outra que sabe não ter condições de cumprir o pactuado, caso não esteja cometendo o crime de exploração de vulnerável, pratica, no mínimo, repugnante gesto de maldade. Os agiotas, usurários e vigaristas agem assim. Se prevalecem da fraqueza e da condição social e econômica do próximo para tirar proveito econômico.
Não venham agora nos repreender, nos desmoralizar, nem nos dar “um chute no traseiro”, como recomendou o tal Jerôme Valcke da FIFA, porque nós não aceitamos e repudiamos.

Sabem os senhores que a Olimpíada Rio-2016, cuja cerimônia de abertura se dará amanhã, no Estádio do Maracanã, será o evento mais rentável da história de todas as olimpíadas e de todo do Comitê Olímpico Internacional, o COI, desde sua inauguração. Os senhores ganharão fortunas de euros e de dólares. Terão mão de obra graciosa, que são os voluntários. E a exemplo da vestal e honestíssima FIFA, os senhores também estão isentos do pagamento da pesada carga de impostos que todos nós brasileiros pagamos.

O Brasil editou duas leis para beneficiar os senhores, a Lei 12.780/2013 e a Lei 13.284/2016. Os senhores não pagarão nenhum centavo de imposto. O lucro é inteiro. A dinheirama vai nas malas. Ou por transferência bancária, sem ônus, sem desconto, sem gasto algum. Os senhores também não gastaram um vintém para realizar a Olimpíada aqui no Rio. E os senhores ainda dizem que o COI é uma instituição sem fim lucrativo!

E os senhores ainda se acham no direito de nos desmoralizar e diminuir nosso povo, nossa gente. Esse ataque desferido contra o Comitê Rio-2016, mesmo que se trate de uma instituição elitista e que não representa o povo brasileiro nem a população da cidade do Rio, foi um soco em todos nós, cariocas e brasileiros.

Não é de agora que os senhores sabem que a cidade do Rio de Janeiro não tem condições e estrutura para receber Jogos Olímpicos. Quando o Rio se candidatou à Olimpíada de 2004, foi criado aqui um tal Comitê Rio-2004. Chegaram até eleger um “embaixador”, Ronaldo César Coelho, que viajou a Lausanne e entregou a documentação necessária à candidatura.

Eu também criei um comitê que dei o nome Comitê Rio-Real. Sem contar com o apoio da mídia do Rio, mas tão somente com o Jornal dos Sports e a Folha de São Paulo, fui avante, sozinho. E elaborei um relatório em francês, anexando mais de 100 sentenças da Justiça do Rio condenando o Estado e o Município do Rio por mortes nos presídios, por mau atendimento hospitalar, falta de medicamentos, erros médicos, retardo e ausência na prestação de serviços públicos essenciais e indispensáveis… Também anexei muitas fotos.

E com dinheiro do meu próprio bolso também fui a Lausanne e entreguei os cinco quilos de relatório, documentos e fotos na sede no COI.

Meses depois, quando uma comissão de avaliação aqui esteve, fui chamado a comparecer no hotel Copacabana Palace. E lá os senhores me garantiram que o Rio não seria a cidade escolhida para sediar a Olimpíada de 2004. O próprio Thomas Bach estava lá e me recebeu. Me foi dito que o meu dossiê pesou. Me foi pedido que eu guardasse sigilo e não contasse a ninguém a notícia. Eu prometi. Cumpri. Guardei silêncio durante todos esses anos e que somente agora quebro e divulgo.

Saibam os senhores, que na reunião congressual do COI realizada ontem aqui no Rio, quando nosso país e nosso povo foram humilhados, que a cidade do Rio não recebe legado algum do Comité Olímpico Internacional. Legado quem recebe são os senhores e a instituição que dirigem, o COI, e ao término desta olimpíada estarão todos muito mais arquimilionários do que já são.

Nós, a população do Rio, é quem pagará a estrondosa dívida que fica e que vai custar muito caro até que seja inteiramente quitada. Isso, sim, é que é um “Fardo Legado Olímpico”.

Senhores dirigentes do COI, peguem seus aviões e vão embora daqui. Nós os consideramos “persona non grata.” Livrem-nos de suas nefastas presenças. E nos deixem sozinhos para apreciar a beleza dos Jogos Olímpicos.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Indagações

Fiz 80 anos. Entrei na evitada e almejada “melhor idade” ou, como se dizia quando éramos politicamente incorretos, na “velhice”. Minha mente (que não tem idade) só acende bem-aventuranças. Meu calendário fica menor, mas há o alívio de não ter que fazer prova de matemática! Agora, todo ano se repete e não perco mais nenhuma aula, porque fui expulso da escola. Depois de uma certa idade, somos nós mesmos que nos avaliamos. Agora, eu não vou mais ser; eu sou!

Um mago consultado diz que, aos 80, a alma fala com a consciência, os neurônios com o cérebro. Desta plataforma, eles mandam bilhetinhos para a mente, que telegrafa ao espírito.

É normal!, diz-me o bruxo fumando um baseado. Coriscos e relâmpagos intrusivos cruzam-se num permanente, mas nem sempre explícito, diálogo do “eu” consigo mesmo, pois o “eu” não está só. Ele é assolado de fora e de dentro por afrontas, notícias e algum terrorismo – além de velhos desejos e fantasias. Esse fluxo incessante faz um carnaval. A realidade tem muitas fantasias.

Foi assim que acumulei, ao longo da semana, estranhamentos e indagações um tanto incompatíveis com a idade calhada a sabedora e a bíblica quietude – aquele conformismo próprio dos velhinhos bondosos e puros. O que não é, definitivamente, o meu caso.

Mas não tem sido sempre assim, quando eu esperava a “barca” a ligar Niterói com o mundo? Na enorme fila, eu já não sentia a ansiedade do que chamamos de vida consciente, ali aguçada pela perspectiva da jornada no balanço do mar? Não era essa travessia o modelo das escolhas profissionais que a casa e a sociedade me obrigavam a fazer, quando casualmente perguntavam: o que você vai ser – ou seja: o que será de você?

– Por que não és um ricaço? Os ricos não esperam! – ainda diz um sujeito inconformado dentro da minha cabeça. Mal pacifico essa impertinência, ouço uma outra indagação trivializada nestes tempos de roubos do Brasil pelo Brasil: por que não fostes um político cunhado na frieza, na ambição, no conhecimento dos regulamentos que ninguém lê e na desonestidade? Além de milionário, tal senda faria de ti um poderoso protagonista no labirinto do teatro nacional.

Será que eu não teria ido mais longe ou “me arrumado”, se tivesse escolhido um outro caminho? Em vez de livros; dinheiro? Em vez de individualidade; uma turma e um cartão partidário? Quem sabe a marquetagem teria resolvido minha inveja, meu narcisismo e – eis a questão – a minha vergonhosa conta bancária?

Mas qual...

Infelizmente, escolhi não uma “ciência exata”, daquelas que explicam o mundo, mas uma disciplina meio histórica e literária, que desiste dos números, tem como centro a comparação por contraste e, por isso, recusa o trivial. Diferentemente das outras “ciências sociais”, a antropologia que pratico revela muitos modos de vida. Todos equivalentes e todos com o potencial de serem dignos e indignos, honrados ou execrados. Além desse deslocamento da contemporaneidade, que confundimos com “avanço” e modernidade, seu método é um oximoro: a chamada “observação participante”.

Porque o observar e analisar, usando a própria consciência como instrumento, impede o participar. E o participar, com seus afetos, gozos e nojos, impede o observar. Pode-se atacar uma feijoada ou o amor, tomando notas? Não é impossível, mas não é para qualquer um.

O “observar/participando” não é inútil, mas é uma contradição em termos tipo “inteligência militar”, “político honesto”, “profundidade jornalística” ou “radicalismo equilibrado”.

Guardando as devidas proporções, é como compreender por que o Brasil foi roubado por seus mais amados governantes. Pois como decifrar o populismo lulo-petista sem passar pelo triste capítulo do acordo com os ricos para roubar os pobres, que o elegeram e dos quais foi esperança? Eis o grande programa ideológico do genial Bertolt Brecht virado pelo avesso. Eis o mistério pateticamente trazido à luz por uma Other-Brecht, a qual transformou a ópera dos vinténs num infame jogo de bilhões.

Mas voltando ao microbalanço dessa caminhada de 80 vezes 365, devo dizer que eu não trocaria esses dias de espinhos, rosas e algum uísque, angústia e muito amor e música de Sinatra – por coisa alguma. Podemos sair de um papel, conforme temos visto envergonhados nos jornais, quando descobrimos figuras públicas como ladrões. Mas – como ensinava Shakespeare – só saímos de nossas vidas quando deixamos o palco.

Por outro lado, sabemos que o morto é uma entidade sem papéis. Na morte, viramos tudo o que os outros querem e, depois disso, somos esquecidos.

Mas, do ponto de vista da terra do nada, tudo o que vivemos é mágico e maravilhoso. Mesmo o dia mais infeliz é uma realização, mesmo o abandono e a solidão mais punitiva, é parte da magia da saudade. Essa palavra que esses 80 me presenteiam, pois, como aprendi com Joaquim Nabuco, ela – a saudade – está nos túmulos e nas cartas de amor.

Vocação para o crime

O Lula lutou para que o antigo PFL desaparecesse do mapa político. O partido se reinventou e transformou-se no DEM. Hoje, preside a Câmara com Rodrigo Maia e tem uma bancada de 27 deputados. Maia é o presidente da república de plantão na ausência de Temer, o titular. O ex-presidente amaldiçoou os antigos pefelistas enfurecido com a oposição que eles faziam ao seu governo. Enquanto o DEM ascende ao poder, Lula assiste o PT definhar. Dos 69 deputados eleitos, restam 59 que evitam os lugares públicos para não serem hostilizados

Nessas eleições, os petistas, envergonhados, tentam alianças para formar chapas de prefeitos nas cidades, mas encontram dificuldades porque os partidos rejeitam coligação com os candidatos do Lula. A vitrine do PT, Fernando Haddad, em São Paulo, não consegue alcançar os dois dígitos nas pesquisas que viabilizem a sua reeleição. É o pior avaliado entre todos os prefeitos do país. Deve sentir inveja de ACM Neto em Salvador que vai encarar a reeleição com mais de 80% de aprovação. Pois é, o ACM é do então PFL, o partido que o Lula queria destruir por decreto como faziam os ditadores de plantão no regime militar.


O DEM sobreviveu, deu a volta por cima e, no momento, assiste de camarote o seu carrasco pedir ajuda da ONU para não cair nas garras do juiz Sérgio Moro. Anunciar o fim de um partido de oposição em um regime democrático é uma aberração, uma atitude arrogante de quem achava que podia tudo do alto do poder. Achava-se tão soberano que cometeu o maior erro da história política do país ao escolher a Dilma para sucedê-lo.

Lula escondeu dos brasileiros por muito tempo os seus dotes antidemocráticos, só revelados quando chegou à presidência. Ao tomar conhecimento do artigo “Ato de bebericar do líder brasileiro se torna preocupação nacional”, do correspondente do New York Time Larry Rohter, logo mostrou-se um déspota. Pediu que o ministério da Justiça providenciasse a expulsão do jornalista que ofendia a sua honra de chefe de estado. O tempo mostrou que o repórter estava certo ao escrever que ele se mantinha sob o efeito do álcool mesmo nos dias de trabalho. A matéria não inibiu que Lula continuasse saboreando uma cachacinha no seu dia a dia.

Outro atributo petista, que o Lula conseguiu disfarçar ao longo do tempo, foi a vocação para o crime. Lá atrás, com a morte de Celso Daniel, o Ministério Público investigou o envolvimento de militantes do PT na trama para assassinar o prefeito de Santo André. Mas Lula logo chegou ao poder e o caso foi abafado nos tribunais. Nem bem tomou posse, viu seu governo envolver-se no primeiro escândalo: o assessor do Zé Dirceu aparece em um vídeo sendo subornado pelo Cachoeira, o contraventor goiano que virou um próspero empresário graças ao seu relacionamento com a cúpula petista. Os primeiros experimentos com a gatunagem já apontavam para uma formação de quadrilha no futuro.

De lá pra cá, o Lula nunca mais deixou de se envolver em escândalos, negando-os todos quando era questionado, até virar réu. O mais grave até então foi o do mensalão que levou à cadeia os seus parceiros mais próximos, inclusive o Zé Dirceu, artífice da sua vitória eleitoral. Nem bem os petistas tinham cumprido parte da pena surgiu a Lava Jato que acabou por descobrir os tentáculos da organização criminosa que se instalou no país sob a coordenação da dupla Dilma e Lula.

O PT, que hoje está se desmilinguido, é aquele mesmo partido que começou a fazer política denunciando os “picaretas da Câmara” e defendendo intransigentemente a ética como princípio partidário. Dez anos depois, o povo brasileiro assiste a Polícia Federal rasgar o manto da honestidade que cobria muitos dos seus delinquentes hoje na cadeia. Os abutres petistas devoraram as empresas públicas e transformaram o Brasil em um país desacreditado, com a economia sucateada, só comparado aos mais corruptos e devassos do mundo.

O povo agora torce para que o PT chafurde e desapareça na lama e da história do Brasil. A futura geração deveria ser poupada de conhecer um grupo político tão nocivo à ética e aos bons costumes.

Previdência, esta velha senhora

É inescapável a análise de longo prazo quando se pensa em mudar regras de aposentadoria. Por se tratar de um sistema que transita por 30/40 anos, tempo em que o ser humano poupa enquanto trabalha para garantir renda na velhice, projeções e previsibilidades sobre o futuro precisam estar contempladas nas regras e nos números para a conta fechar equilibrada, sem rombos (e de rombo nossa Previdência entende: o déficit do INSS somou R$ 60,44 bilhões no primeiro semestre e pode chegar a R$ 147 bilhões até dezembro e a R$ 183 bilhões em 2017. Daí a urgência em buscar uma solução). O dilema surge quando se parte para definir dois itens: 1) com qual valor e por quanto tempo é necessário poupar; e 2) qual a idade de acesso à aposentadoria.

Barbosa anuncia projeto de reforma da Previdência em 2016 - http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/barbosa-anuncia-projeto-de-reforma-da-previdencia-em-2016/:

Embora pouco se saiba dos detalhes, é óbvio que a proposta de reforma em gestação no governo vai focar esses dois itens e (a parte mais difícil) o quebra-cabeça nele inserido: definir as regras de transição de acordo com a idade e o tempo de contribuição do candidato a se aposentar. O resto são penduricalhos e privilégios que se acumularam ao longo dos anos e que precisam ser removidos para garantir direitos iguais a todos, entre eles acabar com regimes especiais para professores, militares e policiais que se aposentam mais cedo e isenção fiscal para entidades que nada têm de filantrópicas. E, ainda, definir se o trabalhador rural passará ou não a contribuir para o INSS (hoje ele é isento) e se as novas regras serão ou não aplicadas ao funcionalismo público, o que deixaria governadores e prefeitos felizes.

Quem cuida do assunto no governo tem repetido à exaustão: não haverá ajuste fiscal sem reformar a Previdência. O presidente interino Michel Temer já acertou com as lideranças do Legislativo e, tão logo seja aprovado o impeachment, a reforma da Previdência vai tramitar em regime de urgência. Que a urgência é necessária não há dúvida, mas os responsáveis pela proposta precisam ter cuidado em suas projeções, análises e definição das novas regras para evitar erros e injustiças no futuro. Mais uma vez, a análise de longo prazo é fundamental no sentido de não permitir que a necessidade do momento atropele decisões que devem ser tomadas olhando anos à frente e seu reflexo no futuro – método próprio dos sistemas previdenciários.

Vou citar, aqui, dois erros desse tipo que serviram para cavar ainda mais fundo o buraco da Previdência.

O primeiro aconteceu na China. Pressionado por uma população que não parava de crescer e já ultrapassava 1 bilhão de habitantes, o governo chinês adotou a lei do filho único em 1979, punindo pais que se aventurassem a ter um segundo filho. Como freio da explosão demográfica a decisão teve resultado: 30 anos depois 400 milhões de nascimentos haviam sido evitados. Mas os chineses passaram a conviver com outro ameaçador problema: a população envelheceu, o padrão familiar migrou para a equação “4-2-1” (4 avós aposentados, apoiados por 2 pais trabalhadores, que serão sustentados por só 1 filho no futuro). Ruinoso para a Previdência.

Resultado: em outubro de 2015 a China permitiu o segundo filho, mas a crise econômica não animou as chinesas a engravidar e o déficit da Previdência só vai crescer nos próximos anos. Em Previdência é assim: decisões surtem efeitos 30 anos depois.

O segundo erro aconteceu entre nós, mais exatamente em 2011, primeiro mandato de Dilma Rousseff. No açodamento desarvorado e inconsequente de fazer a economia girar à força, Dilma decidiu substituir a contribuição previdenciária de 56 setores econômicos por um imposto sobre o faturamento das empresas. Trocou 100 por 10 e a arrecadação ao INSS desabou no precipício, enquanto despesas com aposentadorias e pensões dispararam e o rombo da Previdência foi à lua. Em setembro de 2015 o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy corrigiu a burrada em parte, elevando as alíquotas do imposto de 1% e 2% para 2,5% e 4,5%. O jeito, agora, é a reforma revogar a burrada. Novamente, decisões de conjuntura aplicadas à longeva Previdência só podem mesmo dar em fiasco.

Suely Caldas

Imagem do Dia

Alessandro Gottardo 

Ministro denuncia falência do Supremo, e ninguém diz nada

É certo que vivemos em um mundo virtual, em que as pessoas acima da faixa de pobreza passaram a viver acopladas a seus computadores ou celulares, em conexão a alguma rede e trocando informações incessantemente. À primeira vista, essa nova situação social poderia indicar que está a ocorrer um aprimoramento intelectual da sociedade. Afinal, se existe essa facilidade de comunicação e troca de informações, é claro que a transmissão do conhecimento também teria de se ampliar. Mas as aparências sempre enganam. Na verdade, é mais provável que esteja acontecendo um retrocesso intelectual, a partir da robotização e idiotização da sociedade automatizada, conforme anteviu o genial escritor inglês George Orwell (que nasceu na Índia e se chamava Eric Arthur Blair), em sua obra “1984”.


Vejam bem o que está ocorrendo no Brasil e tirem suas conclusões. Na terça-feira à noite, o ministro Luís Roberto Barroso, com total conhecimento de causa, anunciou publicamente a falência operacional do Supremo Tribunal Federal, mas os jornais publicaram a notícia sem maior destaque, nenhum deles abriu manchete e houve até sites e portais que preferiram dar mais importância ao possível aumento salarial dos ministros do STF, vejam a que ponto de esculhambação e omissão chegamos.

É como se a denúncia de Barroso não tivesse importância, fosse apenas mais um comentário despretensioso sobre assuntos internos do Judiciário, que interessam exclusivamente aos magistrados e não têm maior interesse para os demais brasileiros. Ou seja, a grande mídia não percebe que a falência do Supremo significa a própria derrocada da Justiça em nosso país.

Além da modesta cobertura da imprensa para tão grave notícia, a repercussão do fato nos três Poderes da República simplesmente não existiu. O presidente da República não fez qualquer comentário, porque a grande preocupação no Planalto nesta quarta-feira foi a presença da primeira-dama Marcela Temer em sua primeira cerimônia oficial em palácio.

No Congresso, também não houve repercussão. Foi como se nada tivesse acontecido. Tanto assim que o líder do governo no Senado, Aloysio Nunes, preferiu tratar da questão do aumento salarial dos ministros do Supremo, ao invés de colocar em discussão a falência operacional da mais importante corte do país.

E no Supremo a denúncia de Luís Roberto Barroso também passou despercebida. Não houve nota oficial do presidente Ricardo Lewandowski e nenhum dos outros ministros se animou a comentar a gravidade da crise do tribunal.
O que se esperava, num país minimamente sério, é que as autoridades dessem importância à denúncia e passassem imediatamente a discutir um projeto de emergência, destinado a restabelecer as condições operacionais do Supremo, no mais curto espaço de tempo.

O ministro Barroso até adiantou o que precisa ser feito e que depende de emenda constitucional ou lei complementar: 1) acabar com o foro privilegiado; 2) atribuir ao Superior Tribunal de Justiça o julgamento final das ações penais, liberando o Supremo dessa obrigatoriedade.

Outras providências sugeridas por Barroso dependem do próprio Supremo, como a edição de “repercussões gerais” (orientações técnicas aos outros tribunais). Atualmente, há 320 repercussões gerais à espera de decisão do plenário do STF, que só conseguiu julgar 11 no primeiro semestre deste ano.

“Fiz a conta apressadamente: faltam 14 anos e meio para julgar todo o estoque. Jurisdição que é prestada em 14 anos é evidentemente negação de jurisdição. Não é possível que só eu esteja aflito com isso”, disse Barroso.
Não adianta alegar que a denúncia do ministro trata de questões já conhecidas. O fato concreto é que o Supremo entrou em colapso operacional. Para se ter uma ideia da situação, basta dizer que o decano Celso de Mello leva, em média, 679 dias para publicar os acórdãos que relata. Isso significa que o Supremo precisa urgentemente estabelecer prazo fatal de publicação dos acórdãos, para que enfim possam ser cumpridos. De que adianta julgar e não cumprir? Esta situação é inaceitável.

A denúncia do ministro Barroso tem a máxima importância, porque demonstra que está garantida a impunidade da maioria dos parlamentares envolvidos na Lava Jato. Como o Supremo não tem condições de conduzir o grande número de inquéritos e processos, a tendência é de que esses políticos corruptos continuem se elegendo, porque o Supremo não conseguirá julgá-los e seus crimes acabarão prescritos, como recentemente aconteceu com o senador Jader Barbalho.

Não há dúvida de que esse direito à impunidade, garantido pela letargia do Supremo, é um dos mais graves problemas do país. Barroso cumpriu seu dever, ao fazer a denúncia. Mas quem se interessa? Que país é esse, Francelino Pereira?

'Novo mundo', mas não para os pobres

O legado da Rio 2016 trará poucos benefícios para a população mais carente - esse é o tom de diversas reportagens críticas sobre a Rio 2016 que circulam na imprensa internacional nesta terça-feira.

Já um outro artigo sobre os "brasilionários" olha para um lado menos conhecido das obras realizadas no contexto dos Jogos: a relação entre as empreiteiras e as poderosas famílias que as controlam e os recentes escândalos de corrupção.

O britânico Guardian dedica a capa de seu caderno 2 a uma coletânea de diários escritos ao longo de um ano por três jovens moradores das favelas do Alemão, Rocinha e Maré. Uma das frases destacadas é: "Espero que os Jogos Olímpicos terminem logo, porque o único legado será a repressão, a militarização e a guerra."

Em seus textos, os jovens relatam um cotidiano de violência, mortes nas mãos de policiais e traficantes, negligência e abandono.

No site da rede de TV americana ABC, uma reportagem dá voz a ativistas de direitos humanos segundo os quais a proximidade dos Jogos trouxe um "aumento alarmante" no número de mortos pela polícia carioca.

Para a organização Anistia Internacional, os policiais estão fazendo uma "limpeza" antes do evento que colocará a capital fluminense sob os holofotes do mundo nas próximas semanas.

Citando uma reportagem da BBC no ano passado, a rede ABC observa que associações de policiais também apontam para o alto número de policiais mortos.

O também americano Washington Post traz uma reportagem sobre as 20 famílias que obtiveram o direito de permanecer no local da antiga Vila Autódromo, favela destruída para dar lugar ao Parque Olímpico na Barra da Tijuca.

"O slogan da Rio 2016 é Um Novo Mundo. Mas do lado de fora do Parque Olímpico, esse novo mundo não tem lugar para os pobres", escreve o correspondente do jornal, citando um morador.

Autoridades ouvidas em anonimato pelo repórter dizem que as 800 famílias relocadas tiveram opção de se mudar para moradias sociais, mas os entrevistados pela matéria alegam ter sido intimidados.
'Brasilionários'

Já os leitores do britânico Daily Telegraph foram apresentados a outro lado da Olímpiada pouco conhecido do público estrangeiro: os "ultrarricos" por trás de "escândalos olímpicos" e que "dominam o Rio".

A reportagem traça o histórico de famílias detentoras de empreiteiras, como Odebrecht e Camargo Corrêa, enfatizando seu papel nos atuais escândalos de corrupção e conectando os benefícios que obtiveram desde a ditadura militar até os dias atuais - inclusive durante o governo petista de esquerda.

"Assim como a Copa do Mundo de 2014, os Jogos Olímpicos se encaixam em uma abordagem pragmática de desenvolvimento", escreve o repórter Alex Cuadros, autor de um livro sobre os bilionários brasileiros.

"Os dois eventos tinham a cara de prêmios políticos, permitindo ao PT distribuir fundos entre seus aliados e ao mesmo tempo criar transporte público para o cidadão comum."

"À medida que a economia se deteriorava e o dinheiro se esgotava, porém, os bilhões de dólares gastos em infra-estrutura esportiva terminaram beneficiando empresários e líderes políticos bem-conectados acima de tudo."

Não vivemos sob o império da lei

Um dos ideais de um regime democrático é que o império da lei seja efetivamente exercido perante todos os cidadãos. A lei valendo para todos de forma igual e uma justiça efetiva é o que devemos almejar para o País. Não é o que ocorre no Brasil.

Vivemos sob o peso de mais de 150 mil leis e normas, intermediadas por mais de 800 mil advogados. Temos mais advogados que médicos em um sistema em que a lei vale mais, ou menos, de acordo com a capacidade de o cidadão enfrentar o sistema judiciário e se aproveitar de suas brechas e sua lentidão.

Gunduz Agayev 
Para sustentar todo o aparato judiciário, gastamos 1,8% do PIB. Juízes e promotores são muito bem pagos, até mesmo comparando-se com padrões internacionais. Temos a Justiça mais cara do planeta, mas a prestação do serviço para a cidadania está longe de ser adequada.

O emaranhado legal sufoca o País. Paralisa os negócios. Não valoriza as vontades nem os contratos.

A produtividade do sistema baixa frente ao quadro de regras e leis vigentes. Outras vezes, o ativismo judicial faz a subjetividade ou a preferência do juiz valer mais que a lei.

Acordos de vontade entre partes e empregados que poderiam vitalizar o emprego são sabotados por uma visão arcaica do trabalho. Por outro lado, a morosidade na prestação do serviço jurisdicional nos leva, erroneamente, a saudar decisões que atropelam direitos e garantias.

Temos ainda excesso de casos indo para as cortes superiores. O Supremo Tribunal Federal recebe mais de 60 mil processos por ano.

Nos Estados Unidos, a Suprema Corte recebe pouco mais de oito mil anualmente. Existe algo de muito errado em nosso sistema. Lamentavelmente, o debate sobre o Poder Judiciário ainda é inconsistente e obstruído pelo corporativismo, por nossa imaturidade cívica e pela crise da política. A Justiça, como um todo, precisa de um choque de gestão e de transparência.

Devemos ainda buscar reduzir, dramaticamente, o número de leis por meio de um amplo programa de revogação e de desburocratização. Acordos entre as partes e a arbitragem devem ser estimulados. Infelizmente, falta um longo caminho para vivermos sob o devido império da lei.

Lula discursa em meio ao caos em Natal pensando só no seu umbigo

Com Luiz Inácio Lula da Silva, a política atinge o seu estado de miséria. É impressionante!

Natal, a capital do Rio Grande do Norte, está vivendo sob o signo do terror, imposto pelo crime organizado. Ônibus são incendiados. Delegacias de Polícia estão sendo atacadas. A pedido do governador, Robinson Faria (PSD), o governo federal mandou à cidade homens da Força Nacional de Segurança.


Alheio a tudo, Lula resolveu fazer um, como dizer?, comício na cidade nesta terça-feira. Estava lá para defender o candidato do partido à Prefeitura da Capital, Fernando Mineiro. Era pretexto.

Na prática, já cuidava de sua campanha à Presidência da República.

Enquanto a população de Natal vive sob o signo do terror, Lula disse estar numa boa. Afirmou: “Eu estou aqui tranquilo. Se eles pensam que vão acabar com Lula, estão enganados”.

Que coisa!

Não parou por aí. Atacou Robinson Faria e seu filho, o deputado Fábio Faria, também do PSD, que votou em favor do envio da denúncia contra Dilma para o Senado. Disse: “O dia em que ele votou contra Dilma, eu tentei ligar para ele, ele não atendia. Eu pedi para o [Fernando] Mineiro ir no gabinete dele, ele não me atendeu. Eu queria falar com o filho dele, não me atendeu”.

Eis Lula!

A violência nas regiões Norte e Nordeste teve um crescimento brutal nos anos em que o PT esteve à frente do governo federal. O fato desafia o saber convencional das esquerdas, não é? Afinal, o Nordeste cresceu a taxas superiores ao resto do país.

O lulo-petismo ignorou solenemente o fato. Não se pensou uma única ação específica para entender e combater o fenômeno. Ao contrário: a companheirada preferia atacar a política de segurança pública de São Paulo, Estado governado pelos tucanos.

Que importa a Lula e ao PT o sofrimento objetivo da população quando algo muito mais importante está em pauta, que é a sua própria sorte e a do partido?

É por isso que, com exemplar desfaçatez, esse senhor escolhe discursar numa cidade que vive, na prática, sob o toque de recolher da bandidagem, submetida a ações que podem ser consideradas, sem favor, verdadeiramente terroristas.

Lula preferiu ignorar a onda de violência que atinge Natal e, na prática, se juntou ao crime organizado para atacar o governador.

Eis a moral profunda de Luiz Inácio Lula da Silva.

Demagogia no pódio


O legado olímpico é para os pobres
Eduardo Paes, prefeito "olímpico"

Legado olímpico é enganação contra o povo, que aceita, aplaude e sente orgulho

“Legado Olímpico” ou “Legado da Olimpíada” é uma expressão mentirosa mas que desperta um sentido, uma espécie de “presente”, que aqueles que estão no poder incutem na população do Rio, goela abaixo, e o povo acredita. E, por ingenuidade, chega a sentir orgulho. Quanta enganação! Torpe e maldosa ilusão. É muita patifaria! Legado Olímpico não existe. Legado é um bem ou conjunto de bens, materiais ou imateriais, certos e determinados, que integram o patrimônio de uma pessoa que os deixa, como herança e por testamento, para uma ou mais pessoas e constitui ato de liberalidade “causa mortis” (em razão do falecimento).

Quem lega chama-se legador. Quem recebe o bem, legatário. E o bem deixado denomina-se legado. Há, portanto, e necessariamente, três ou mais elementos: o legador, o legado e o(s) legatário(s).

Daí a pergunta: desde quando alguém pode constituir como legado um bem que foi construído ou obtido com o dinheiro do próprio legatário, ou seja, daquele designado para receber a herança? É o que acontece com esse mal falado “Legado Olímpico” ou “Legado da Olimpíada”.


Todas as obras, viadutos, túneis, estádios (agora chamados de “arenas”), dezenas de edificações residenciais, vias expressas, vila olímpica e tudo mais foi feito com o dinheiro do povo. Logo, ao povo pertence. Nunca foi, não é, nem jamais será legado.

Seria legado se o Comitê Olímpico Internacional (COI) junto com o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) construíssem as obras e benfeitorias para receber os Jogos Olímpicos e, após, as deixassem para o povo do Rio. Aí, sim, seria um legado. Mas não é isso que acontece. E também não foi assim na Copa do Mundo de Futebol de 2014. Não foi com o dinheiro do COI e do COB, muito menos com o dinheiro da FIFA e da CBF, que os dois eventos mundiais tiveram o Brasil e têm a Cidade do Rio de Janeiro como palco.

Muito pelo contrário. O honorabilíssimo COI escolhe uma cidade e a honorabilíssima FIFA, um país. Depois, dizem, autoritariamente: “Arrumem a casa de vocês, façam embelezamentos e obras nos padrões que nós queremos, mandamos e determinamos que sejam feitos, porque vamos realizar a Olimpíada e a Copa do Mundo aí e depois pegamos todo o lucro com os eventos e caímos fora e as dívidas ficam por conta de vocês”. É isso. É assim. É a realidade.

Este “oba-oba” olímpico tem prazo curto. Há uma espécie de entorpecimento do povo que, empolgado e sem que os meios de comunicação alertem e mostrem a realidade, tudo aceita, aplaude e acha “excelente”. O pior virá depois: o endividamento monstruoso. Vai faltar dinheiro para tudo.

O município e o Estado do RJ (ou o governo federal) não têm receita, muito menos caixa suficiente para realizar tantas obras, de afogadilho, sem o posterior desfalque financeiro em prejuízo dos serviços que lhes cumprem prestar à população. A começar pelo pagamento do funcionalismo, dos ativos e inativos, atendimento médico-hospitalar, segurança pública, conservação e manutenção dos meios de mobilização urbana…

O povo do Rio só vai a sentir os efeitos desses danos a partir de setembro próximo e por longos anos.

Para quem acredita no senador Crivella, saibam o que disse ele anteontem na convenção do PRB que o lançou à prefeitura do Rio: “A prefeitura carioca desembolsou R$ 40 bilhões com obras executadas por empreiteiras envolvidas com a Lava-Jato. E após a Olimpíada do Rio, a Odebrecht e a Andrade Gutierrez, com a Carvalho Hosken, receberão sem ônus o terreno do antigo Autódromo de Jacarepaguá, para fazer um megaempreendimento” (O Globo, 1.8.2016, página 4).

É discurso de candidato, sabemos disso. Mas a denúncia é gravíssima. E não veio desmentido de parte alguma. A prefeitura não pode doar, permutar, vender, emprestar ou praticar qualquer ato de despojamento de bens públicos sem prévia autorização legislativa, seguida de prévia avaliação e licitação. A prefeitura também não pode enganar a população.

“Legado Olímpico” ou “Legado da Olimpíada” é mentira. Não existe. Ninguém pode legar a si próprio um bem que lhe pertence.

A barata e os ratos na retórica do impeachment

A Comissão do Impeachment encerra seus trabalhos nesta quinta-feira com a aprovação do relatório em que Antonio Anastasia (PSDB-MG) recomenda a deposição de Dilma Rousseff. A essa altura, a comissão acumula perto de 240 horas de debates. Há pouco por dizer. Na sessão da véspera, os senadores Humberto Costa (PT-PE) e Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) esgotaram o repertório de provocações numa troca de farpas que injetou no debate o que faltava: uma barata, inseto ortóptero, da família dos batídeos; e os ratos, roedores da família dos murídeos.

Ex-líder de Dilma no Senado, Humberto Costa pressionou uma vez mais a tecla preferida do petismo. “Estamos vivendo um golpe”, ele reiterou. Insinuou que a eventual confirmação do afastamento de Dilma pelo plenário do Senado banalizará o instituto do impeachment. A pretexto de reforçar seu argumento, Humberto construiu uma analogia inusitada. Deixou Dilma em posição, digamos, kafkiana:

— Como era necessário tirar um governo do qual eles não gostavam, com o qual eles não concordavam, vale até incendiar o apartamento para matar a barata. Essa é a realidade que nós temos no nosso país hoje. Por que é golpe? A principal razão está aí, no que a gente vê no dia a dia. Eles não aceitam que o Brasil possa dar tratamento social diferente ao seu povo.

Líder do PSDB, Cássio Cunha Lima como que dobrou a meta, para utilizar expressão ao gosto de Dilma. Incluiu na prosa outras fúnebres criaturas.

— Não me venham falar em defesa dos pobres, porque quem defende os pobres não rouba os pobres. Quem defende os menos favorecidos não monta uma organização criminosa para assaltar um país em nome de um projeto de poder. […] Aqui não se tentou matar uma barata incendiando o edifício. O que se tenta aqui é afastar os ratos que danificaram o país no trato da coisa pública. Chega, basta! Ninguém aguenta mais o que o Brasil está vivendo.”

A certa altura, Cássio mencionou “as delações e mais delações que confirmam na Lava Jato que a campanha de Dilma Rousseff foi financiada com dinheiro do petrolão.” O petista Lindbergh Farias (RJ), destacado membro da infataria de Dilma, interveio:

— E o que falam do PSDB nas delações, senador Cássio, Vossa Excelência esqueceu?

Os jornais do dia traziam a notícia sobre o suborno de R$ 10 milhões que o ex-senador tucano Sérgio Guerra, já morto, recebera para sufocar uma CPI da Petrobras em 2009, época em que era presidente do PSDB federal. Cássio não se deu por achado:

— Aqueles que cometeram crimes nos partidos A, B ou C que paguem pelos seus crimes. Que possamos encerrar esse processo, que possamos dar cabo desse julgamento. Quanto mais esticarmos isso, mais o país vai ficar nessa situação de instabilidade.


Baratas e ratos não são privilégios feios do Brasil. São universais. A diferença é que, nessa terra de palmeiras, por muitos anos, os personagens que se comportavam como legítimos representantes das famílias dos batídeos e dos murídeos continuavam atuando na política como se nada tivesse sido descoberto sobre seus hábitos. De raro em raro, quando as luzes acendiam, essas criaturas ziguezagueavam e escapavam. Não havia vassourada que as alcançasse.

A Lava Jato interrompeu um ciclo. A despeito de suas sensíveis hastes e do seu couro cascudo, a oligarquia política e empresarial migra gradativamente dos gabinetes do poder, das colunas sociais e da editoria de política para a cadeia. Num futuro próximo, a força-tarefa de Curitiba pode figurar nos livros de história como um ponto fora da curva. Mas, por ora, o brasileiro está achando tudo o maior barato.

Embora Dilma e o PT abominem a expressão “conjunto da obra”, madame será enviada mais cedo para casa justamente porque, sob sua fama de gerente impecável, proliferaram a ruína econômica e a desfaçatez ética. Beneficiário direto da conjuntura, Michel Temer governa com a tranquilidade de quem dança um minueto à beira do precipício.

A Lava Jato já não permite que o PMDB e assemelhados sejam indultados por um surto qualquer de amnésia combinada. Enquanto prepara o “tchau” de Dilma, Brasília vive a neurose do que está por vir depois que os investigadores extraírem a derradeira gota de suor do último dedo da Odebrecht.