sábado, 12 de dezembro de 2015

Fábula dos gatos

Um fazendeiro plantava milho e o armazenava no paiol. Com o milho, o fazendeiro alimentava as galinhas, os cavalos, as vacas, e todos os outros bichos da fazenda. Os bichos da fazenda, por sua vez, garantiam ao fazendeiro o seu sustento.

Os ratos insistiam em roubar o milho armazenado no paiol. Quem cuidava do paiol era um cachorro. Um cachorro preto e grande. Quem cuidava do paiol antes do cachorro cuidar do paiol era o pai do cachorro e, antes do pai do cachorro, quem cuidava do paiol era o avô do cachorro. E sempre foi assim, a família do cachorro cuidando do paiol, e não deixando que os ratos comessem todo o milho.

Era um trabalho duro: os ratos não acabavam nunca e, chovesse ou fizesse sol, lá estavam para roubar uma espiga aqui, outra ali. O cachorro não tinha folga e para fazer frente à rapidez dos ratos, mantinha os músculos em forma e os reflexos ligeiros. Em compensação, o cachorro adorava o seu trabalho. Afinal, se não fosse por ele, os ratos já teriam há muito tempo comido todo o milho e acabado com a comida dos demais bichos. Em reconhecimento ao seu trabalho, a bicharada elegeu o cachorro o presidente da fazenda.

E claro que o mando do presidente não era perfeito, discussões surgiam, a insatisfação aparecia. Mas, de uma coisa todos podiam ter certeza: quem trabalhasse, ganhava o seu quinhão.

Um dia, apareceu na fazenda um gato. Um gato magro e bigodudo. Tão bigodudo que, se tivessem barba os gatos, esse poderia ser um gato barbudo. O cachorro, como todo cachorro que se preza, ciente da sua função e do valor do seu trabalho, latiu para o gato, quis que o gato fosse embora. O cachorro sentia que aquele bicho de ar debochado, malicioso, sem muito gosto para o trabalho, não poderia ser grande coisa. O fazendeiro não ouviu o que o cachorro quis dizer, e o gato foi ficando, foi ficando, foi ficando...

O gato, que não trabalhava (que, aliás, nunca tinha trabalhado), tinha bastante tempo para conversar com os outros bichos da fazenda. E chegava de mansinho junto da bicharada, magrinho, fraquinho, e começava a miar. Os outros bichos, muito bonzinhos, paravam para escutar o que o gato tinha para dizer:

- Miau, miau, ai, ai. O que vai ser de mim. Não existe lugar nesta fazenda para um bichinho como eu, tão injustiçado, tão fraquinho! Veja, não posso trabalhar, o sistema é tão injusto! Só por que não nasci forte como o senhor, Seu Cavalo, só por que não posso dar leite como Dona Vaca, não posso trabalhar!

O Seu Cachorro, o dono do poder, não avalia essas contingências históricas e me mantém mergulhado nessa penúria...

- Mas, Seu Gato, e aquele trabalho que lhe ofereceram na casa, como guardião da dispensa?

- Não aceitei, Seu Cavalo. Na verdade, prefiro continuar minha luta por condições mais dignas!

No fim, depois de tanta ladainha, os bichos começaram a acreditar no gato. A sentir pena do gato. E o gato, que se dizia injustiçado. E se fazia passar por vítima. Que era explorado pelo sistema e, principalmente, pelo cachorro que lhe negava tais milhos. Conquistou a simpatia dos bichos. E fez com que os bichos acreditassem que ele, tão sofrido, tão maltratado, iria garantir a todos melhores condições de vida.

Tanto miou, tanto fez, que um dia os bichos revoltados com a situação de absoluta miserabilidade do gato e com a injustiça social reinante na fazenda, resolveram destituir o cachorro.

E de nada adiantou o cachorro insistir que cuidar do paiol não era para qualquer um. Que ele havia treinado muito para assumir essa função. Que os ratos não eram mole, e não dariam trégua assim tão fácil.

Afastaram o cachorro e, por unanimidade, colocaram no seu lugar o gato. Os bichos sabiam que o gato dantes nunca havia trabalhado. Que não tinha sequer se preparado para assumir a função mais importante na fazenda.

Mas acreditaram que o gato, por ter sofrido mais do que ninguém com a política do cachorro, traria ordem e moralidade à administração do paiol.

No começo, tudo foi festa: no lombo de Seu Cavalo, viajava o gato para outros sítios e fazendas, falando sobre a sua conquista. Contava aos outros bichos que agora a fazenda vivia uma nova realidade. Tanta era a festa, tanta era a euforia, tanta era a esperança, que os bichos não perceberam que mais e mais gatos não paravam de chegar.

Gatos de todos os jeitos. Gatos vindos de todas as partes. Gatos, que em comum com o gato-presidente, nunca tinham trabalhado na vida. E o gato-presidente, que curiosamente chamava todos os demais gatos de "cumpanheiros", precisava arranjar uma função para aquela gataiada.

Então, um dia, quando Seu Cavalo apareceu para puxar o arado, percebeu que, no seu lugar, um bando de gatos ocupava os arreios. E Dona Vaca, que produzia o melhor leite da região, foi expulsa da estrebaria pelos companheiros do gato-presidente. E as galinhas, no galinheiro não moravam mais: nos poleiros, gatos e mais gatos fingiam estar botando ovos.


E o gato-presidente remunerava prodigamente todos os seus companheiros. Afinal, um trabalho em prol da coletividade desempenhavam...Como era de se esperar, o gato-presidente (nunca havia trabalhado) não conseguia cuidar do paiol. Os ratos logo perceberam a situação: atacavam, como nunca haviam feito, o milho da fazenda.

Tão complicada ficou a situação que o gato-presidente precisou conversar com o seu conselheiro. Um gato de óculos, que miava de um jeito esquisito, puxando demais os "erres":

- Miarr, presidente. A coisa tá feia. Em nome da governabilidade da fazenda, temos que nos aliar aos ratos!

- Cumpanheiro, os fins justificam os meios! Devemos passar aos demais bichos uma imagem de ordem e tranqüilidade! E os gatos fizeram um pacto com os ratos: os ratos fingiam que não roubavam o milho, os gatos fingiam que caçavam os ratos.

Dessa forma, a bicharada acreditava que os ratos estavam sendo combatidos, e os ratos, que por baixo do pano recebiam suas espiguinhas, mantinham os gatos no poder.

Entretanto, o milho foi acabando. E os bichos, que haviam acreditado na conversa do gato-presidente, com fome, começaram a ficar insatisfeitos. E foram todos reclamar com o gato-presidente.

Tarde demais. O paiol já estava infestado de ratos, ratos por toda parte, ratos em tudo. Ratos e gatos, gordos, barbudos, aproveitando tranqüilamente o que havia sobrado de milho no paiol enquanto o resto da bicharada, os bichos que sabiam trabalhar, que davam duro, ficaram sem comida. Sem comida, e traídos que se sentiram, o maior tesouro de todos: a esperança de dias melhores.

Eu votei no Lula. Como grande parte dos brasileiros, acreditei que o governo petista compensaria a sua inexperiência e despreparo com ética e moralidade.

Dei ao PT o que passei a chamar de "chance ética". Sinto-me traído. Sinto-me decepcionado. Não só temos tido um presidente fraquíssimo do ponto de vista administrativo como temos vivido uma fase de imoralidade pública, de improbidade como nunca se viu na história desse País.

Isso sem contar os compromissos ideológicos jogados na lata de lixo!

Não votarei novamente no PT. Não acredito mais em gatos ou em ratos... Não acredito no Lula.

Palavras voadoras

A inteligência voltada para o mal é pior do que a burrice, dizia o psicanalista Hélio Pellegrino, e a máxima é mais atual do que nunca, embora a burrice honesta, bem intencionada e incompetente, quando no poder, tenha se mostrado igualmente devastadora, como na administração Dilma Rousseff. Eduardo Cunha é o melhor exemplo do pior caso: sua inteligência ágil e sem escrúpulos multiplica sua malignidade e sua capacidade destrutiva de reputações, responsabilidades e instituições.

O que mais irrita em Dilma e seus assessores não é só mentir deslavadamente sobre todos os temas, mas imaginar que alguém possa acreditar naqueles disparates, que zombam da inteligência alheia. Imagino que eles já saibam que ninguém vai acreditar, mas, como é preciso responder a perguntas irrespondíveis, as palavras voam. Vai que cola?

Não há brasileiro vivo ou morto que acredite que daqui pra frente tudo vai ser diferente com Dilma e Temer, como no clássico de Roberto e Erasmo Carlos, que eles vão aprender a ser gente, e seus orgulhos não valerão nada. Quem vai acreditar que eles terão uma relação profícua e fértil enquanto seus partidários se matam uns aos outros?

Mas quem escreve uma carta daquelas, com palavras escolhidas para permanecer, não pode em 24 horas simular uma reconciliação de araque, depois de cinco anos de desprezo, traições, sabotagens e desconfianças mútuas, como se nada tivesse acontecido. E uma pessoa que recebe uma carta daquelas, com aquelas acusações, precisa ter pouca vergonha na cara ou excesso de espírito público, ou de medo do impeachment, para receber o missivista e fingir que eram só palavras ao vento.

Durante cinco anos Temer não apitou nada, mas também não reclamou, só agora descobriu que era decorativo e que ele e seu partido não mandavam nada no governo e na formulação de políticas, só na partilha de cargos e boquinhas. Dá para acreditar num cara assim?

Dilma e Cunha, já se sabe, são mentirosos contumazes, e 70% da população não acreditam em nada que eles dizem e querem vê-los longe do poder.

Quem vai ganhar a guerra de palavras, Dilma, Cunha ou Temer? O perdedor é certo: o Brasil e todos nós.

Nelson Motta

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Charge O Tempo 11/12

Brasileiros à beira de um ataque de nervos

Não são todos, naturalmente. Por exemplo, o vice-presidente da República, Michel Temer, mantém com classe e elegância um domínio completo sobre si mesmo.

Seu segredo é um só: teve educação e instrução. E é essa mistura que anda fazendo muita falta ao Brasil.

Não basta ser instruído, ter vários diplomas, ser doutor nisso e naquilo. É preciso ser bem educado, ter boas maneiras, saber se comportar à mesa e fora dela. Mas também não basta ser somente polido. Nisso, Fernando Collor era um príncipe: sabia se comportar como um grande de Espanha. Mas faltam-lhe outras qualidades e não é doutor...

Tenho 78 anos. Já pendurei as chuteiras. Mas, como boa namoradeira que fui, venho aqui comunicar à dona Kátia Abreu que a mim o senador José Serra não ofendeu. Namorar é bom, faz bem, dá vida e alegria e gostar de namorar é muito saudável.

Namoradeira não é ofensa. Temos em nosso rico artesanato a figura da namoradeira, mocinha esperta que ficava na janela para melhor flertar com os rapazes.

Quando o namoro pegava, o rapaz era recebido pela família, sentavam os dois numa 'namoradeira', sofá de dois lugares próprio para os namorados conversarem, darem-se as mãos e... quando a mamãe ia buscar o cafezinho, dar uns beijinhos.

O namoro dentro de casa há muito saiu de moda, a namoradeira saiu da janela, namorar tem um sentido mais amplo em nossos dias, mas daí a ser ofensa, vai um longo caminho!

Acontece que o vai dar, não vai dar impeachment, está deixando os políticos com os nervos em frangalhos. Alguns chegam a confundir o plenário da Câmara dos Deputados com um ringue de boxe.

Charge 10-12-2015
O Brasil está tão espandongado que foi inaugurada uma nova temporada: lavar nossa roupa suja no exterior! Dona Dilma já usou microfones lá fora para se queixar da vida e agora foi o Lula, essa entidade que não quer largar o osso, que resolveu, em Berlim, dizer o que não devia. Eduardo Cunha é uma figura assustadora. Dele podemos esperar sempre o pior. Mas isso não é problema dos alemães.

Eles estão é apavorados. O medo de ser impedida de continuar na presidência mexeu com a cabeça de dona Dilma. Num texto intitulado “SOS internacional para derrotar o impeachment”, Ricardo Noblat nos informa que desde que o pedido de impeachment foi acolhido, dona Dilma já falou ao telefone com alguns chefes de Estado para lhes dizer que está sofrendo uma injustiça, fruto de uma vingança, de uma tentativa de ‘golpe institucional’.

O que será que ela espera com isso? Que os EUA, por exemplo, enviem para cá a 4ª Frota para salvá-la de seu algoz?

Na Conferência Internacional do Congresso do Partido Social-Democrata Alemão, Lula, ao se apoderar do microfone, o que fez? Discorreu sobre a Social-Democracia, falou da História desse partido nos diversos países onde tem voz e vez? Não, o grande palestrante achou melhor lavar nossos trapos, imagino eu que numa tentativa de despertar a simpatia dos alemães para com a pobre menina Dilma perdida entre os lobos devoradores aqui nesta selva brasileira.

Isso sim nos ofende e humilha, ver o Brasil ser citado como um país sem lei nem grei pelo ex-presidente da República, que é o patrocinador da atual presidente: ambos sabem muito bem que a campanha de 2014, por si só, já seria motivo, em países sérios, para destituir quem foi eleito baseado em inverdades.

Agora está tudo nas mãos do STF. Espero que os Meritíssimos delineiem sem mais delongas o rito que julgam ser o melhor para a passagem do processo de impeachment pelo Congresso. Não creio que o Brasil aguente muito mais tempo na situação em que está, destituído de ordem e progresso e com o governo rolando rampa abaixo.

Alguém precisa dizer à dona Dilma: 'É a economia, estúpída!'

A vida é cheia de surpresas e a política, mais ainda. Na virada do milênio, se alguém dissesse que o Brasil em breve teria uma mulher na Presidência e o nome dela não seria Roseana Sarney nem Yeda Crusius, ninguém acreditaria. E se insistisse em dizer que a “presidenta”, como infantilmente se autointitularia, seria uma mulher totalmente desconhecida, que jamais disputara uma eleição e que tinha um passado de guerrilheira na ditadura militar, sem a menor dúvida o cidadão seria imediatamente internado num manicômio, envolvido numa camisa-de-força.

Na política estas surpresas realmente podem acontecer, como na Bolívia, onde um “cocalero” (plantador de coca) chegou a Presidência e de lá não sai nem dopado. E não interessa se a pessoa escolhida pelo destino tenha ou não vocação e capacidade para governar. No caso do boliviano Evo Morales, por exemplo, trata-se de um ferrenho nacionalista que não tem se saído mal – pelo contrário.

Morales tomou posse em janeiro de 2006. No período anterior, de 1997 a 2005, o país cresceu, em média, 3,2% ao ano. Em seus dois mandatos, a Bolívia cresce a uma taxa média de 5,5% ao ano e o PIB per capita boliviano triplicou durante sua estatizante administração, vejam como a política é uma atividade complexa.

Enquanto isso, no Brasil, a presidenta Dilma Rousseff pegou um PIB crescendo 7,5% em 2010 e está fechando este ano com uma recessão de 4,5%, que já se transformou em estagflação, pois a inflação acaba de chegar a dois dígitos (10%), e em viés de alta, uma vergonha internacional.

Como todos sabem, a governanta brasileira está sendo abalada por um pedido de impeachment, que obteve aprovação da Assessoria Jurídica da Câmara dos Deputados, por estar bem fundamentado.

Ao invés de se defender, por meio da apresentação de argumentos técnicos que possam desfazer as bases jurídicas do pedido, Dilma Rousseff se comporta de forma ridícula e patética, afirmando que é honesta e não cometeu nenhum crime. Diz que sua declaração de renda não omitiu nada e não possui contas no exterior. Por fim, alega que os crimes a ela atribuídos também foram praticados pelos presidentes FHC e Lula. Está e a defesa dela.

Mas até aí morreu Neves, como se dizia antigamente, sem qualquer alusão ao célebre dr. Tancredo. A sra. Dilma Rousseff não consegue entender que está sendo supliciada simplesmente porque não sabe governar.

Como diria Orson Wells, pode ser tudo verdade o que Dilma diz. O pedido de impeachment realmente está fundamentado em erros/crimes que já foram cometidos pelos presidentes FHC e Lula. Mas acontece que os deslizes anteriores ocorreram em proporção infinitamente inferior, na casa dos milhões de reais, enquanto Dilma Rousseff resolveu operar na casa das dezenas de bilhões de reais. E é isso que faz a grande diferença, sem sutilezas.

Se o governo dela tivesse dado certo, como aconteceu com Morales, nada disso estaria acontecendo. O Brasil é um dos países potencialmente mais ricos do mundo, com a quinta maior extensão territorial, a sexta população, a maior reserva de água doce no solo e no subsolo, as mais extensas terras agricultáveis do planeta, em condições excepcionais de luminosidade, possibilitando até três safras por ano, com uma indústria avançada, que produz computadores e aviões de última geração, possuindo múltiplas reservas minerais de capacidade ainda não totalmente estimada, mesmo assim Dilma Rousseff derreteu a economia brasileira e deixou a dívida pública e a inflação fugirem ao controle.

O fato é que Dilma Rousseff parece meio insana. Naquele seu dialeto próprio, insiste em simplificar a questão, dizendo que foi eleita e seu mandato vai até o final de 2018. E não aparece nenhum ministro ou assessor para lhe dizer: “É a economia, estúpida!”, repetindo a célebre frase do consultor político James Carville, ao garantir que o então candidato Bill Clinton poderia ganhar a eleição em 1992.

Quanto mais Dilma Rousseff fica no Planalto/Alvorada, tirando uma onda de poderosa e fingindo governar, mais a economia se derrete. Se ela não sair logo, ninguém sabe o que pode acontecer, se é que vocês me entendem, como dizia o genial jornalista Maneco Müller.

Hora de aprender

Enquanto o interlúdio democrático por aqui se desenvolve aos socos e pontapés, além de alguns puxões de cabelos e taças de vinho atiradas em direção a insuspeitados galanteadores extemporâneos, a sábia lição que condensa nossa crise em poucas e curtas palavras vem do oráculo de sempre: o eterno presidente Lula, que resume a sapiência brasileira acumulada ao longo de cinco séculos.
Em uma de suas andanças pelo exterior, deixando aqui ao desamparo a sua criatura entretida na batalha diária contra a sintaxe e o impeachment, Lula disse ao jornal “El País” que não teme que aqueles que, segundo ele, deixaram de ser pobres durante o seu governo, voltem à pobreza por causa da crise econômica.

“Não voltarão”, disse. “É como se disséssemos que, em vez de comer carne todos os dias, vão comer arroz. Isso é passageiro”.

Uma metáfora? Uma parábola?

O ex-presidente não parou ai:

“Quando cheguei ao poder, tinha medo de terminar como o ex-presidente (polonês) Lech Walesa. Eu dizia aos meus companheiros: não posso falhar, por que, se falhar, jamais outro trabalhador será presidente”.

Quando o repórter do jornal espanhol perguntou a Lula se ele será candidato a presidente, ele disse “nem que sim, nem que não".

"Eu gostaria que fosse outro. Mas, se tenho que me apresentar para evitar que alguém acabe com a inclusão social conseguida nesses anos, farei isso”.

Lula, como Jesus Cristo, está disposto a fazer o supremo sacrifício de candidatar-se de novo, se necessário for, para cuidar da nossa Redenção. Haverá alguém mais santo?

Quanto ao panorama desolador do País sob a direção da “mãe Dilminha”, que ele nos impingiu com tanto fervor, nenhuma palavra. A mãe do PAC e a mãe de todos, só foi lembrada en passant, numa referência ao processo de impeachment que ela enfrenta. Sem problemas, nos garantiu do alto de sua sabedoria jurídico- constitucional, porque o processo “não tem nenhuma base legal ou jurídica"

Este certamente não é o mesmo Lula que pedia o impeachment de Collor, de Itamar, de Sarney, de FHC e de todos que aparecessem pela frente, nem o mesmo que aquele dizia que “o povo que elege tem o direito de tirar”. Uma metamorfose ambulante, como ele mesmo se define.

É bem verdade que, pelos sortilégios da política, o mais conveniente, para Lula, seria que a sua criatura tropeçasse nos próprios cadarços e deixasse o caminho livre para a sua volta triunfal de redentor. Por isso ele apoia o ajuste fiscal, que sabe ser necessário e indispensável, e ao mesmo tempo manipula sua tropa para ir à rua xingar Joaquim Levy.

Ele se sente à vontade no papel daquele que investe contra tudo e contra todos na janela, mas na intimidade da sala de estar deixa todos os móveis arrumadinhos como Palocci e Henrique Meirelles mandam e o mercado aplaude.

Enquanto Lula joga sua grande cartada sebastianista para 2018, o Brasil econômico e político se desmancha diante de uma recessão cada vez mais profunda e uma degradação política galopante.

O populismo de Kirchner e Maduro, sustentado pelo olhar e pela omissão benevolente do Brasil, foi duramente golpeado nas duas eleições recentes. Isso quer dizer que um modo de governar está se esgotando na América Latina.

O Brasil, num espaço de tempo relativamente curto, terá a chance de mostrar se aprendeu a lição ou não.

Ouviu, Dilma?

O Brasil é um país normal, o anormal é o Governo Ex-ministro Delfim Netto

O 'modus vivendi' na educação


Mais que o processo de impeachment aberto contra Dilma Rousseffpor um Congresso desacreditado, liderado por dois políticos investigados pelo Supremo Tribunal Federal —os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha, ambos filiados ao PMDB—, para mim o confuso e lamentável ano que agoniza deixará como marcas o definitivo atolamento do PT na lama da corrupção e a explicitação da face arrogante e autoritária do PSDB. A primeira se transforma pouco a pouco em dolorosa lembrança do que poderia ter sido e não foi; a segunda, cicatriz que lateja quando nos lembramos do acidente.

Sobre a derrocada petista, já muito me ocupei aqui neste espaço: melancólica, irreversível, patética. Então, tratemos de recordar omodus operandi tucano que, por reiterado, pode ser compreendido como padrão. Não bastassem os humilhantes índices alcançados pelos estudantes brasileiros nas provas de avaliação internacional —sempre listados entre os últimos lugares— em pelo menos dois dos nossos mais ricos estados (São Paulo e Paraná), governados respectivamente por Geraldo Alckmin e Beto Richa, lideranças ascendentes do PSDB, a educação pública é tratada como caso de polícia.

Em setembro, Alckmin anunciou o projeto de reorganizar a rede de escolas do Estado de São Paulo em três segmentos (1º ao 5º ano, 6º ao 9º ano e ensino médio), o que implicaria no remanejamento, no ano que vem, de cerca de 310.000 alunos e o fechamento de 94 unidades. A essa decisão autoritária —os principais atingidos pela medida, professores, funcionários e pais de alunos, não foram sequer consultados— seguiu-se outra, alicerçada na arrogância, de desprezar os protestos que engrossavam dia a dia, com ocupação de escolas e mobilização dos estudantes. Com baixo índice de popularidade —apenas 28% do eleitorado paulista classifica sua administração como ótima ou boa, segundo pesquisa Datafolha— e após a polícia reprimir de forma violenta as manifestações, inclusive com uso de bombas de efeito moral, o governador anunciou a suspensão da medida, prometendo “aprofundar o diálogo” em 2016.

Sete meses antes, os arredores da Assembleia Legislativa do Paraná, em Curitiba, haviam se transformado em uma praça de guerra: a Polícia Militar, empregando gás lacrimogêneo, balas de borracha, spray de pimenta e bombas de efeito moral, dispersou um protesto de professores da rede pública, deixando um saldo de 213 feridos. A truculência da ação acirrou a greve da categoria, que se arrastou por quase 50 dias, e derrubou o comandante-geral da PM e os secretários da Segurança e da Educação, além de causar um enorme estrago na imagem do governador Beto Richa.

Como explicar esse tipo de deplorável atitude? Alguém pode evocar como argumento a nossa ainda incipiente familiaridade com as regras da democracia, mas é incompreensível uma autoridade pública tentar impor de maneira despótica decisões que afetam de forma irreversível a vida dos cidadãos, até mesmo com aplicação da força bruta, para só depois, experimentada a resistência, admitir a possibilidade do diálogo. Isso, para mim, apenas demonstra o viés intolerante do caráter nacional, acirrado quando a ele se alia a soberba, particularidade da nossa elite.

Estranhamente, educação não parece ser prioridade para os tucanos —a bem da verdade, para nenhum governante de qualquer ideologia até agora. Mas, no caso do PSDB, esse descaso é imperdoável, já que o partido tem como maior liderança o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, professor universitário e intelectual internacionalmente respeitado. Durante cinco de seus oito anos de mandato nenhum professor de ensino superior foi contratado e os salários permaneceram congelados, e por todo o período não foi criada nenhuma nova universidade federal. A única expansão ocorreu com o número de estudantes universitários, a custo do acelerado crescimento da rede privada: os filhos dos ricos estudam de graça em instituições que oferecem ensino de boa qualidade, enquanto os filhos dos pobres pagam caro para frequentar escolas de qualidade duvidosa... Fórmula, aliás, ampliada nos governos Lula e Dilma...

Tem que piorar mais?

A relação é direta: toda vez que aumenta a chance de Dilma ser afastada do poder, sobem as ações das empresas brasileiras, aqui e em Nova York. Disparam especialmente as ações da Petrobras. São apostas, claro, mas há uma lógica nisso. Entende-se que, primeiro, o governo Dilma não tem mais jeito, mesmo que sobreviva ao impeachment. E, segundo, acredita-se que o provável sucessor em caso de afastamento, Michel Temer com uma outra reunião de partidos, embora com o PMDB de sempre, não tem como ser pior. Não que vá resolver os dilemas econômicos estruturais, mas seria pelo menos um governo neutro — do tipo que não atrapalha mais. Levaria o barco até 2018. E aí, das eleições presidenciais desse ano, quem sabe saia uma maioria política em torno das reformas que recoloquem o Brasil na trilha do crescimento.

Esta é uma visão realista. Há uma mais otimista: um eventual governo Temer, se montado com nomes de respeito nacional e com uma equipe econômica forte, pode ter um ganho de confiança e assim encaminhar algumas reformas.

Mais esperança do que experiência?

Pode ser, mas quem imaginava que o Plano Real poderia nascer no governo Itamar?

De todo modo, não se trata apenas de trocar o governo ou de tirar o PT, embora isso seja peça essencial no processo. Vamos falar francamente: Lula e Dilma conduziram o país para uma crise sem precedentes. Dois anos de recessão profunda, desemprego em alta com inflação acima de 10% ao ano, juros na lua, estatais aparelhadas e destruídas (conseguiram quebrar os Correios e a Petrobras!), sem contar a corrupção. É preciso reconhecer: um desastre inigualável no mundo.

Ainda assim, o buraco é maior.

A sociedade brasileira sofre com uma perversa combinação de crises, na fase mais aguda de duas doenças crônicas. Na economia, a questão central pode ser assim resumida: o gasto público cresce mais que o Produto Interno Bruto (PIB). Na política, o presidencialismo de coalizão impede a formação de uma maioria sólida para aplicar uma reforma do Estado.

No imediato, é preciso lidar com os déficits primários que o governo Dilma cavou meticulosamente, completando um trabalho iniciado no período Lula. Desastres assim não se fazem da noite para o dia.

No segundo mandato, Dilma tentou cobrir o buraco com um nadinha de corte de gasto e um tantão de impostos e dívida. Mesmo que consiga pagar as contas do dia, estará aprofundando o problema estrutural: o setor público não cabe no PIB. Gasta demais, toma impostos demais, deve em excesso e atrapalha as pessoas e empresas que querem ganhar dinheiro honestamente.

Não há saída sem uma nova onda de reformas estruturais, como aquelas que foram feitas nos governos FH e no Lula 1. Mas, de novo, não há consenso ou maioria política para fazê-las.

O exemplo perfeito é a Previdência do INSS, o maior buraco das contas públicas. Gasto e déficit explodiram neste ano e vão piorar no ano que vem por causa da recessão. Com desemprego e a forte redução das vagas com carteira assinada, caiu a arrecadação do INSS, enquanto a despesa sobe inexoravelmente, por causas estruturais: pensões e aposentadorias precoces e generosas, decisões políticas, mais o envelhecimento da população.

Há anos se discute a reforma da Previdência. Todas as alternativas estão na mesa, estudadas e aprofundadas. Todo mundo sabe que o Brasil é o único país importante que não tem idade mínima para aposentadoria. Diversos quebra-galhos têm sido implantados, como o fator previdenciário ou a fórmula 85/90, tudo para driblar o ponto essencial: as pessoas terão que trabalhar mais, contribuir mais e se aposentar mais tarde, com pensões menores.

Percebam o impasse político: o ministro Joaquim Levy disse que a presidente Dilma, para se defender do impeachment, deveria lançar uma agenda positiva de reformas, a começar pela idade mínima de aposentadoria e pela mudança das regras de exploração do pré-sal, reduzindo a participação da Petrobras.
Impossível. Com isso, a presidente perderia a única base com que ainda conta, centrais sindicais e movimentos sociais.

Aliás, este ponto mostra também a dificuldade de um governo pós-PT que tente as reformas. Vai enfrentar tremenda oposição comandada por Lula.

Quer dizer que o Brasil está perdido, condenado a uma economia medíocre por muitos anos?

Esta é uma possibilidade concreta, ainda mais quando se considerada a cultura brasileira de buscar tudo no Estado e achar que o dinheiro público é infinito.

As pessoas, como as sociedades, mudam por virtude ou necessidade. No nosso caso, parece que será pela via mais difícil e demorada. Parece que tem de piorar muito para que se perceba a necessidade de reformas estruturais.

Carlos Alberto Sardenberg

A dissolução das instituições


Solução ética, mesmo, seria a dissolução do Conselho de Ética da Câmara. Depois de seis adiamentos, troca de relator, manobras variadas para poupar o presidente Eduardo Cunha, só faltava, mesmo, uma cena de pugilato entre dois deputados. No caso, José Geraldo, do PT do Pará, contrário a Cunha, e Wellington Roberto , do PR da Paraíba, defensor de Cunha. No final da baixaria, nada de novo. Ontem de manhã, pela sexta vez, o Conselho de Ética permaneceu em branco, sem votar sequer a admissibilidade de processo contra o presidente da Câmara por quebra do decoro parlamentar, empurrada para o próximo ano.

Da ética, essas reuniões passaram longe, aliás, muito semelhantes às que o plenário da Câmara vem realizando, plenas de manobras, lambanças e, também, troca de socos. Tudo acontecendo em volta da mesma figura mefistofélica de Eduardo Cunha, que até agora não perdeu nenhum entrevero e permanece no exercício de suas funções, com seus pezinhos de cabra movimentando-se em todas as direções.

Fosse realizado um plebiscito para saber se a população aprovaria a dissolução do Conselho de Ética e do Congresso, fatalmente a imensa maioria digitaria favoravelmente.

Nem o Executivo escaparia, pois na noite de quarta-feira, num jantar de congraçamento natalino na casa do senador Eunício Oliveira, a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, arremessou um copo de vinho na careca do senador José Serra.

Convenhamos, permanece valendo a máxima de que, no Brasil, o dia seguinte sempre consegue ficar um pouquinho pior do que a véspera. Vale aguardar o que nos reserva o dia de hoje, apesar de tratar-se de uma sexta-feira, quando Suas Excelências escafedem-se para seus estados.

Por mais triste que seja, o país vai chegando à conclusão de necessitar de ampla, geral e irrestrita limpeza. As instituições encontram-se em frangalhos, a economia mergulhou nas profundezas e poucos escapam da condenação. A dissolução só não se tornaria um anseio comum pela certeza de que a alternativa seria pior. Até porque as investigações sobre a corrupção aproximam-se de seu ponto de ebulição, chegando à família do ex-presidente Lula. A presidente Dilma perde votos diante de uma hipotética manifestação pelo impeachment, que algum dia virá.

Em suma, vale corrigir a primeira afirmação lá de cima: não seria melhor dissolver tudo e começar de novo?

Pedaladas bancaram mais empresários do que programas sociais

A presidente Dilma Rousseff voltou a defender as chamadas pedaladas fiscais como necessárias para o pagamento de programas sociais, como o Minha Casa, Minha Vida. No entanto, como o Contas Abertas já divulgou, a maior parcela dos recursos oriundos das manobras foi destinada ao subsídio para as grandes empresas, por meio do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) do BNDES, e empréstimos para empresas do agronegócio, por meio do Banco do Brasil.


A versão de Dilma já havia sido usada pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. A nova defesa aconteceu em discurso durante a entrega de casas do programa Minha Casa Minha Vida. A presidente afirmou que uma das razões para estar sendo julgada é porque “eles acham” que parte dos recursos não deveria ser usada para o programa.

“É o que eles chamam de ‘pedaladas fiscais’. O governo federal é dono da Caixa Econômica Federal. Quando o governo federal passa o dinheiro para a Caixa, a Caixa paga a empresa e, através da escolha pública, o apartamento vai para vocês. Não há nesse processo nenhum desvio, não é essa a questão que levantam contra nós”, declara Dilma Rousseff, presidente da República.

De acordo com o relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) a “omissão dos passivos da União decorrentes de atrasos nos repasses de recursos federais impactaram as contas da dívida pública em cerca de R$ 40 bilhões no exercício de 2014”. O TCU apontou que o Bacen não computou, no cálculo da Dívida Líquida do Setor Público, passivos da União junto ao Banco do Brasil, ao BNDES e ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

Do total de “pedaladas”, R$ 12,16 bilhões são referentes ao montante da equalização de taxa de juros devido pela União ao BNDES no âmbito do PSI. O programa foi criado para estimular a produção, aquisição e exportação de bens de capital e a inovação. O grande empresariado não só gostou, como fez fila para pegar recursos do PSI.

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Eles se acham donos do Brasil

Uma das razões para que eu esteja sendo julgada hoje é porque uma parte deles acham que nós não gastamos, nós não devíamos ter gastado da forma que gastamos para fazer o Minha Casa Minha Vida. Uma das razões é essa. É o que eles chamam de pedaladas fiscais.
A gente, o governo federal, é dono da Caixa Econômica Federal, nós somos os únicos donos, o governo federal. Quando a gente paga a Caixa, o governo federal passa o dinheiro para a Caixa, a Caixa paga a empresa e, através da escolha pública, o apartamento vai para vocês. Não há nesse processo nenhum desvio. Não é essa a questão que levantam contra nós. (…)
 Quando eu digo que eu não cometi nenhuma ação incorreta é que toda ação questionada para mim não é uma ação porque o governo desviou dinheiro, não é uma ação porque nós usamos dinheiro indevido, é uma ação porque eles discordam da forma pela qual nós contabilizamos o gasto. Não há nenhum delito, nenhum crime apontado contra nós.

Pelo estilo inconfundível, vocês já devem saber quem pronunciou o discurso acima. Sim, ela mesma, a Vossa Presidenta, em solenidade ocorrida no último dia 09, em Roraima. É com esse tipo de argumento que ela tem, sistematicamente, se defendido das acusações de crime de responsabilidade, notadamente em relação às famigeradas “pedaladas fiscais”.

As poucas palavras acima são um resumo perfeito, dito no dialeto presidencial, evidentemente, de como Dilma e o PT enxergam a coisa pública. Logo de cara, dá para notar que eles confundem Estado com governo, e governo com partido. Ao dizer que o governo federal é o único dono da Caixa Econômica Federal e, por isso, não vê qualquer problema em manter uma espécie de “conta corrente” com aquele banco, aportando e retirando dinheiro de acordo com as suas conveniências, e não como a lei determina que seja feito, Dilma expõe todo o seu desprezo pela legalidade. Legal, na sua maneira de ver as coisas, é aquilo que ela considera legítimo, e não o que determina a lei.

Gastar dinheiro com o programa “Minha Casa Minha Vida” ou com o “Bolsa Família”, não importa de onde venham os recursos, seria plenamente justificável porque, afinal, tratam-se de programas voltados para os pobres. Os fins justificam quaisquer meios. O voluntarismo totalitário dos petistas não deve ser bloqueado ou freado pela lei, que eles consideram coisa de burguês, elaborada com o único propósito de impedir que os bem intencionados atuem em prol dos menos favorecidos.

Dona Dilma “explica” que, se não houve “desvio”, não há crime. Segundo esse raciocínio, leis orçamentárias, leis de responsabilidade fiscal, etc., são meras baboseiras, sem qualquer utilidade prática. Desde que o presidente seja honesto, como ela diz ser, e não tenha embolsado dinheiro público indevidamente, tudo é possível. Assim, se o governo está sem dinheiro, nada mais natural que utilizar temporariamente os recursos do banco estatal, mesmo que isso seja terminantemente proibido por lei. Afinal, o “governo é o único dono da Caixa Econômica Federal”, e ela, provavelmente, se sente a dona provisória do governo.

Dilma e sua equipe não se importam de, por exemplo, enviar uma proposta de orçamento para o Congresso contendo um superávit primário de 30 bilhões e, no final do ano, apresentar um déficit de 120 bilhões, desde que o gasto não autorizado pelo legislativo tenha sido empregados em benefício dos pobres. Nesse sentido a tal Lei de Responsabilidade Fiscal nada mais representa para ela e seu partido que letra morta.

Madame Dilma finge não entender que leis orçamentárias e fiscais existem justamente para que a sociedade, através dos seus representantes, possa exercer alguma fiscalização sobre os gastos de dinheiro público, que, afinal, nada mais é do que dinheiro extraído a força dos pagadores de impostos.

Madame Dilma também finge não compreender que, embora o Estado brasileiro (e não o governo da hora) seja o único acionista da Caixa Econômica, a maior parte dos recursos nela depositados pertence aos seus correntistas, poupadores e, principalmente aos trabalhadores brasileiros, obrigados a manter bilhões em depósitos no FGTS (rendendo ridículos 3% a.a) naquela instituição.

Madame Dilma finge ainda desconhecer que a legislação que proíbe as tais “pedaladas” foi idealizada justamente porque no passado existiu uma verdadeira orgia financeira entre governos (principalmente estaduais e municipais) e bancos públicos, o que levou muitos deles à falência durante os últimos vinte anos do século passado, prejudicando não só seus correntistas, mas também os cofres públicos, leia-se: os pagadores de impostos.

Madame Dilma finge descaradamente não saber que os crimes até então imputados a ela não estão previstos no Código Penal, mas na lei 1.079, que regulamenta os crimes de responsabilidade do presidente da república, em especial aqueles relacionados no artigo 10º, que trata dos crimes contra a lei orçamentária, muitos dos quais já foram sobejamente comprovados pelo TCU.

Enfim, será preciso fazer a Madame (ou será Madama?) compreender, por bem ou por mal, que dinheiro público não é capim, que precisa ser usado com parcimônia, cautela e estritamente nos termos da lei. Ou melhor, ela precisa entender que, como ensinou Margareth Thatcher, “não existe dinheiro público, mas somente dinheiro dos pagadores de impostos”.

Damos exemplos

A maioria dos tiranos, déspotas e ditadores está sinceramente convencida de que seu governo é benéfico para o povo e que eles governam para o povo
Ludwig von Mises

O descaso e o mosquito

Confirmam-se tristemente as calamidades atribuídas ao mosquito Aedes aegypti. Originário da África, se insinuou nas zonas urbanas do Brasil facilitado pelo descaso público e pela fragilidade de seu enfrentamento. Seria suficiente eliminar acúmulos de água limpa, que é o ambiente onde pode reproduzir-se o mosquito. A inconsistência das medidas para erradicá-lo transformou o país num campo devastado pelo mosquito. Além do medo da violência, do desemprego, hoje se soma o medo do contágio, que pode se insinuar em qualquer ambiente a qualquer momento e fazer vítimas inocentes.

Ao mosquito é suficiente água limpa, sem matéria orgânica em decomposição e, portanto, sais que lhe confeririam características ácidas inutilizando os ovos depositados. Para ter condições de se desenvolver, precisa ainda de sombra, que evita a exposição excessiva aos raios solares. Para se alimentar ou realizar sua hematofagia (sugar sangue através da pele de seres humanos e animais), o mosquito pode percorrer até 2.500 metros. É vetor de doenças graves, como a dengue, febre amarela, zika vírus e chikungunya, e, por isso mesmo, é assunto de extrema importância para a saúde pública. As doenças que ele dissemina debilitam, contaminam, matam. Já perderam a vida milhares de pessoas nos últimos anos, e muitos ainda a perderão enquanto ele não for erradicado.


Mais recentemente acabou sendo detectada a relação entre as doenças disseminadas pelo mosquito com a microcefalia infantil, que se constatou em recém-nascidos de mulheres que sofreram contágio. A microcefalia vem se manifestando com maior intensidade exatamente nos municípios do Nordeste, que, além de clima propício à reprodução do Aedes aegypti, enfrentam o pior IDH do país. Quanto maior é o abandono de entulhos, resíduos sólidos, mais mosquitos se encontram e mais avançado é o estado de gravidade do controle das doenças relacionadas ao Aedes aegypti.

Com isso se dá sinal à reprodução nas acumulações de água pluvial. Quem permite essa condição é culpado de uma imperdoável conduta prejudicial e antissocial.

Mesmo com as exaustivas campanhas para disseminar o conhecimento das condições de reprodução do “mosquito da dengue”, ainda existem milhões de pessoas que não absorveram o recado. Não entenderam que apenas um esforço de todos ao mesmo tempo poderá enfrentar o drama, o sofrimento e a perda de vidas humanas.

Continua-se a abandonar em áreas o que serve ao mosquito para se reproduzir. Sua difusão representa a esta altura o menosprezo do ser humano com sua espécie.

Para piorar o quadro, chegou agora a crise econômica, que determina aos municípios cortes de despesas. Nessa conjuntura, as ações de limpeza se enfraqueceram ainda mais. Nota-se, como nunca, que as áreas urbanas são tomadas de entulhos, descartes domésticos, coisas sem utilidade e valor. Os canteiros se transformaram em depósitos de milhões de toneladas de lixo, que monumentalizam a falta de maturidade geral.

Existe, desde 2010, a Lei 12.305, que dispõe sobre a responsabilidade dos resíduos sólidos. Quer dizer responsabilidade com a recuperação do material, evitando degradação ambiental, e, sempre que possível, o reúso ou a reciclagem do material.

A lei fica mofando, pela falta de vontade política. Apenas com a retirada de pneus e seu reúso na forma de matéria-prima se implantaram ações, mas para inglês ver, pois na beira das estradas o acúmulo de pneus é assustador.

Além dos pneus, que na prática demoram dezenas de anos, se somam hoje as carcaças de veículos. Existem no país milhares de desmanches, que retiram as peças e as revendem, largando e empilhando as carcaças, últimos resíduos de alto custo de fragmentação.

Apenas na região metropolitana de Belo Horizonte existem cerca de 20 mil carcaças ao relento, resultado de desmonte e abandono. Nos municípios que registram os piores índices de contágio provocado pelo Aedes aegypti, os carros mais velhos acabam rodando seus últimos quilômetros para serem, em seguida, depenados e reduzidos a carcaças que não têm qualquer viabilidade econômica. Custa mais fragmentá-las com meios artesanais de quando se consegue com a venda a peso desses restos.

Enquanto não se realizar uma ação pública em larga escala e em todo o território nacional, o mosquito continuará a se reproduzir em pneus e carcaças de veículos, devastando a saúde de milhões de pessoas.

Recentemente elaborei uma proposta e um projeto de lei que ofereci ao governo. Nele se gera a premiação, com recursos financeiros, às prefeituras que recolherem carcaças de carros e de pneus e os encaminharem a centros de reciclagem. Certamente cada cidadão tem que assumir suas responsabilidades, mas, enquanto não determinar um plano de enfrentamento, o avanço das doenças (e das malformações) continuará a aumentar sem qualquer controle.

Não há tempo a perder.
Vittorio Medioli

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A crise está com aqueles que violam a lei, não com quem a respeita

A política brasileira está cheia de coelhos do Bambi que gritam desarvorados: “Fogo, fogo na floresta”. Aliás, não só na política. Na imprensa também, especialmente no colunismo.

Alguns lobos velhos da imprensa, desdentados de tanto rancor, veem golpe até na própria sombra. É alguém ameaçar Dilma e o Planalto com a lei, com a Constituição, com as instituições, e eles tossem suas ignomínias: “Golpe… Cof, cof, cof… Golpe!”.

Alguns estão mais para vampiros com sede de sangue. Sangue do povo nas ruas.


E, no entanto, não há golpe nenhum. Aliás, precisamos é de autoridades que ponham a bola no chão para dar continuidade ao jogo, não de irresponsáveis que veem crise institucional onde há exercício da legalidade.

Michel Temer, vice-presidente, veio a público e deu a seguinte declaração:

“A Câmara dos Deputados tomou uma deliberação ontem no exercício legítimo da sua competência. E posteriormente, em face de medida judicial, o Supremo suspendeu temporariamente e preliminarmente esta medida, para o exame posterior pelo plenário. Isso revela exatamente que nós vivemos num regime de normalidade democrática extraordinária. As instituições estão funcionando, e nós devemos preservar aquilo que as instituições estão fazendo e revelar, com isto, a democracia plena do país”.

Eis aí. Entre outras coisas, é disto que o país precisa: de alguém que seja capaz de fazer baixar as tensões em vez de elevá-las.

Não faltará quem sustente que a fala de Temer não diz nada. Diz, sim! A Câmara tomou uma decisão legítima, ao contrário do que gritam os petistas. E o STF concedeu uma liminar contra a forma de votação, também no exercício de sua competência — que será ou não referendada pelo pleno. Fim da papo.

Onde está a crise?

Não está no exercício legítimo das atribuições da Câmara.

Não está no exercício legítimo das atribuições do Supremo.

A crise está na economia, com a inflação furando a estratosfera dos 10%. A crise é política: o Planalto não dispõe de interlocutores competentes e não entende o exercício da democracia — além, claro, de ver alguns de seus protagonistas no mar de lama.

A crise está com aqueles que pretendem apelar a manobras espúrias para suspender o recesso.

Também a imprensa precisa começar a distinguir a crise da solução.

Reinaldo Azevedo

'O governo demorou 8 meses para agir'

Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arbovirose, acredita que o Governo errou ao não agir antes contra o vírus da zika. A doença, transmitida pelo Aedes aegypti, mesmo vetor de quatro tipos de de dengue e da chikungunya, tem relação com o aumento dos casos de microcefalia no Brasil, segundo o Ministério da Saúde: já foram 1.761 neste ano -no ano passado, 147 bebês nasceram com o problema.
Ele afirma que o Governo já devia ter desenvolvido um exame capaz de detectar a infecção em larga escala, como existe para a dengue e que, sem isso, não é possível nem saber qual a taxa de grávidas que contraiu zika e desenvolveu a microcefalia. "A situação é dramática", afirma ele.

Não há, de fato, dúvidas, de que os casos de microcefalia são causados por zika?

Não há a menor dúvida. Só não posso dizer ainda qual a real dimensão desse problema, mas o que nós temos visto e discutido com vários colegas de todo o Brasil é que a situação é dramática.

O que leva a tanta certeza, já que não há casos no resto do mundo?


Em 1952 saiu já um trabalho, em fetos de camundongos fêmeas, que mostrava que o zika tinha uma afinidade pelo tecido neurológico desses ratinhos. Deixou-se essa informação armazenada e publicada na literatura médica, mas não se deu grande relevância porque não havia casos humanos. Esses casos humanos começaram a ser descritos em 2006 e 2007, em epidemias esporádicas nas regiões da floresta de Zika, na Uganda, onde o vírus havia sido descoberto na década de 1940. Em 2009, houve uma epidemia bem maior na Polinésia Francesa. Aqui no Brasil, no ano passado a gente já suspeitava que o vírus estava circulando, mas foi somente em abril deste ano que confirmaram 16 casos: oito em Natal e oito em Recife. Em agosto, colegas de Pernambuco começaram a notar o crescimento absurdo de casos de microcefalia. Eram dois, três casos diários. Ao mesmo tempo, um outro médico de Salvador começou a ver um número excessivo de casos de uma síndrome neurológica chamada Guillain-Barré.

Logo se supõe que pudesse ser o zika porque em um grande percentual dessas crianças que nasceram com microcefalia, as mães apresentaram no início da gravidez uma doença que parece dengue: dores no corpo, dores de cabeça, manchas no corpo e faziam o exame de dengue, dava negativo, faziam o exame de chikungunya, dava negativo, e aí os dois com muita perspicácia pensaram: há mais vírus que o mosquito transmite, que é o zika. Já há dois casos de mulheres, de duas grávidas, com fetos com microcefalia cuja pesquisa do líquido amniótico deu positivo para zika. Há pesquisas já de positivo para vírus em pessoas com Guillain-Barré, e acho muito importante de salientar é que na Polinésia, nessa epidemia de 2009, teve um aumento nos casos de microcefalia, mas eles não tinham relatado porque não tinham feito a associação.

Leia mais a entrevista de Artur Timerman

Confusões a quilo

A política brasileira virou um buffet de confusões a quilo. Há fartura de pratos para todos os gostos 24 horas por dia. Nunca foi tão atual a boutade do ex-governador mineiro Magalhães Pinto: “Política é como nuvem: uma hora está de um jeito; outra, quando a gente olha de novo, está de outro”. Com o upgrade do PT, a mudança não é de hora em hora, e sim em tempo real.

Tudo começa com o cruzamento da incapacidade do governo de reagir à mais profunda crise com as revelações impactantes da Operação Lava-Jato, extraordinários vetores do nó cego político que debilita o país. É como se toda a energia, inteligência e trabalho tivessem sido vampirizadas ao longo dos últimos 12 meses.


De sobremesa temos fragmentação partidária, destruição da economia, lideranças anêmicas, judicialização da política, crise fiscal e uma profunda falta de criatividade e de coragem.

Sobram ainda num canto do salão fartas doses de omissão do empresariado não atingido pela Lava-Jato, que reclama mas nada propõe. Nem se mobiliza frente ao afundamento dramático de uma economia de maus resultados – inflação superior a dois dígitos em 12 meses, arrecadação em parafuso, PIB na UTI e o espantalho do desemprego.

Mais assustador ainda: o acaso aparece de tempos em tempos no trem-fantasma do parque. Seja no inesperado sucesso de um plano de governo – “Uma ponte para o futuro” –, bem recebido por uma sociedade que produz um partido por mês sem programa nem ideologia, seja pelo impacto causado pelo vazamento de uma carta pessoal de Michel Temer para Dilma Rousseff.

No Buffet Brasil, tudo pode acontecer. Inclusive ficarmos um bom tempo marinando na crise, chocando a serpente. Com refinados ingredientes à disposição do chef, estão asseguradas as mais eletrizantes emoções. As vezes até com um japonês batendo à porta às 6 horas da manhã.

O tempo não para. 2014 não acabou, 2015 não aconteceu e 2016 já está em campo. À espera de lideranças que nos guiem para fora da crise.

O impeachment caminha para se tornar realidade

O comentarista Néllio Jacob, que é mestre em exercitar o poder da síntese, conseguiu dar uma lição a grande número de analistas e cientistas políticos que ainda não conseguiram se situar em relação à gravíssima crise que o país atravessa. Em poucas palavras, Jacob deu um recado que não pode sofrer contestação:
“Quando um paciente tem duas doenças, os médicos dão atenção primeiro à mais grave. No caso de Dilma e Eduardo Cunha, qual dos dois é mais prejudicial ao país? O que for considerado mais nocivo ao Brasil deve ser o primeiro a ser atacado e condenado. Enquanto o processo contra Cunha não definir se ele é culpado ou não, continuará sendo presidente da Câmara. Da mesma forma, a senhora Dilma continuará a ser presidente enquanto não for considerada culpada e sofrer o impeachment. Se Eduardo Cunha não é digno de presidir a Câmara dos Deputados, em contrapartida, Dilma Rousseff também não é digna de presidir a nação. É uma briga entre o roto e a esfarrapada, mas por bom senso deve-se prestar atenção no ditado que diz: dos males o menor”.
Não há dúvida de que Eduardo Cunha é um crápula, esta conceituação é consensual. Mas o fato mais importante é que Dilma Rousseff não sabe governar e está levando o país a um abismo absoluto e não aparece um assessor com o mínimo de inteligência para lhe dizer: “É a economia, estúpida!”.

Aguentar mais três anos de Dilma significa uma punição que os brasileiros, decididamente, não merecem. Tudo o que ela faz dá errado. Pegou o país com o PIB em alta, subindo 7,5% em 2010, e quatro anos depois vai encarar uma queda de 4,5%, o que significa que já ela derrubou a economia em exatos 12%.

Ia entrar na História como a primeira mulher a presidir o Brasil, mas vai ficar conhecida como a governante (ou governanta, se usarmos seus critérios linguísticos) que fez a pior administração de todos os tempos. Como se dizia antigamente, não é para qualquer um, não.

A votação secreta para definir a Comissão Especial do Impeachment não dá margem a dúvidas. Dos 513 deputados, 272 se mostraram claramente a favor de afastá-la do governo e 199 se manifestaram a favor do governo de Dilma Rousseff.

Acontece que esta votação foi secreta. Muitos deputados que mamam nas tetas do governo puderam se manifestar com total segurança. Foram 199, repita-se, e ela só precisa de 171 no total de 512, porque o presidente da Câmara não tem direito a voto. Ou seja, aparentemente, Dilma teve 28 votos a mais, estaria com o mandato garantido.

Mas o cálculo não pode ser feito assim tão prosaicamente. A votação do impeachment é aberta. Cada deputado terá de se apresentar ao microfone do plenário e proclamar seu voto, como aconteceu no impeachment de Collor, que na última hora perdeu votos que considerava absolutamente certos.

Já dissemos aqui na Tribuna da Internet que o tempo conspira contra Dilma, porque a cada dia surgem novas revelações sobre corrupção na Petrobras e em outras estatais. Como se viu esta quarta-feira, as investigações chegam cada vez mais perto da família Lula da Silva e de pessoas diretamente ligadas a Dilma Rousseff, como o executivo Valter Cardeal, diretor da Eletrobras, que está envolvido em falcatruas. É um nunca-acabar de escândalos e o senador Delcídio Amaral decidiu fazer delação premiada.

A votação da Comissão Especial, com 199 votos a favor do governo, mostra que Dilma hoje até conseguiria escapar do impeachment, mas acontece que ela está em viés de baixa, vai perdendo apoio com o passar do tempo.

Esta quarta-feira, discursando em Rondônia, a presidente mostrava o desgaste que vem sofrendo. Por baixo da pesada maquiagem, as olheiras escuras e o abatimento eram perceptíveis. Parecia uma mulher à beira de um ataque de nervos. E foi nessa condição que ela pegou o Aerolula e voltou a Brasília, para se encontrar com o vice Michel Temer e fazer a derradeira tentativa de convencê-lo a se posicionar contra o impeachment. É claro que não foi bem sucedida. Temer já mandou fazer o terno da posse e está escolhendo os principais nomes de seu ministério.

Pose do cappo

Lula na Alemanha
Há uma doença mental no meu país de que é preciso destruir o Lula, senão ele vai querer voltar em 2018

Depois do mosquito, o brasileiro é o animal mais mortífero do mundo

Todo o mundo está sujeito a sofrer algum tipo de violência nesta vida, mas nós, brasileiros, corremos mais riscos do que o resto do mundo. No Brasil, as coisas se resolvem na porrada, e nenhum homem ou mulher, nenhum jovem ou idoso, nenhuma travesti ou outra minoria do momento escapará disso. Minorias e maiorias, das mais diversas cores, estarão sujeitas ao rigor biliário brasileiro. Aquele que não corre este risco só pode estar morto; e mesmo aos mortos não é garantido o sossego debaixo da terra. A grande maioria de nós atravessará a vida como quem atravessa a rua quando vê uma pessoa suspeita. Viver no Brasil é estar em constante estado de alerta para tentar perceber quem vem vindo na nossa direção.

Se os vinhos e queijos são a marca da França; se as folhas de coca e as touquinhas de lã são a marca da Bolívia, a nossa marca é a de tiros de fuzil na lataria do carro. Diria até que a violência é a força motriz que move o país - a tal da praxeologia de que os austríacos falavam. Aqui, toda a ação humana se manifesta através da violência física por atos menos ou mais brutais do que um chute na altura dos rins.

Para uma pessoa habituada a sair de casa - e sempre me espanta o entusiasmo com que as pessoas saem de suas casas - a rua não é dos lugares mais agradáveis. Esta pessoa estará sempre sujeita a sofrer algum tipo de violência e, com frequência, sofrerá.

Em nenhum campo de atuação poderá contar com o mínimo de segurança ou se verá livre de assaltos. Mesmo se você for um juiz, com direito a escolta armada, correrá o risco de ser perseguido e assassinado de madrugada. Se você denunciar algum escândalo de corrupção em seu município, poderá aparecer morto nas semanas seguintes. Se você protestar contra o Estado, os agentes deste tratam de silenciá-lo na porrada. Se você dirigir um carro preto, correrá o risco de apanhar; se você for passageiro desse carro preto, também. Não importa a sua orientação sexual, classe econômica ou o assento que ocupa no carro. Se você for juiz ou médico, dentista ou doméstica.

Portanto, nunca entendi a frequente pergunta: Por que o Brasil é o país onde mais se mata tal e tal minoria? Em vez disso, a pergunta que devia ser feita é: Por que tudo é motivo de violência neste país?

Há muito que intelectual brasileiro e seus discípulos barbudos expressam indignação sofrida apenas por um ou outro grupo específico. E, a partir daí, propõem uma solução. É como alguém que tivesse lepra e fosse tratando das feridas no corpo enchendo-se de band-aids.

Uma por uma, todas aquelas tolices baseadas na afirmação de que o brasileiro é amigável e cordial precisam cair. Esta afirmação é uma estupidez sem tamanho. E só atrapalha. A cada dez homicídios que ocorrem no planeta, um acontece no Brasil. Depois do mosquito, o brasileiro é o animal mais mortífero do mundo.

E, mesmo assim, ainda há essa mania esdrúxula de tentar desvendar as violências todas por aqui com explicações sociais e fobias. Qualquer explicação que não fale da maldade e da moralidade, em país onde dentista é queimada viva e criança de cinco anos é morta na frente dos pais, não pode estar certa. Se intelectual e seus discípulos barbudos não percebem isso, nenhuma solução apropriada poderá surgir daí.

O governo acabou, viva quem?

O governo Dilma Rousseff acabou nesta semana.

Dilma foi eleita em uma coligação formal com o PMDB, tanto que o vice-presidente (Michel Temer) é do PMDB, aliás presidente do partido. Temer rompeu com Dilma, em uma carta mesquinha, embora ele negue que se trate de rompimento.

Fatos posteriores, no entanto, evidenciam a separação: primeiro, os votos que peemedebistas deram para a chapa oposicionista na comissão que vai decidir se dá ou não andamento ao processo de impeachment.


Vamos combinar que a mais elementar lógica manda dizer que quem votou na lista da oposição quer defenestrar Dilma. Quem votou na outra chapa é contra o impeachment.

Como se sabe, o resultado foi 272 votos na oposição (pelo impeachment, por tabela) e apenas 199 na chapa governista.

É aí que se dá a morte política do governo: perdeu claramente a maioria na Câmara dos Deputados, maioria que sempre foi escorregadia, mas, agora, escorregou de vez.

Mas a morte política do governo não veio acompanhada de sua morte jurídica: a oposição precisa de 342 votos na Câmara para aprovar o impeachment. Como teve, na votação para a comissão, apenas 272, tem-se que lhe faltam 70 deputados para poder afastar Dilma.

Resultado do imbróglio: nem o governo tem maioria para poder tocar a vida, nem a oposição tem a maioria qualificada para poder decapitar o governo que perdeu a maioria.

Bem que o "Financial Times", tempos atrás, avisou que o Brasil parecia um filme de horror. O diabo é que será, salvo surpresas, uma película de longuíssima duração. Três anos exatos de agonia para reconstituir um governo que funcione.

Claro que sempre pode acontecer de a oposição capturar os 70 votos que à primeira vista lhe faltam para afastar Dilma.

Se a lama que escorre abundantemente da Lava Jato chegar ao Palácio do Planalto; se as ruas se encherem de gritos de "fora, Dilma"; se a delação premiada de Delcídio do Amaral trouxer revelações que comprometam a presidente, ela pode perder o emprego.

Se, no entanto, nada disso acontecer, a alternativa é Dilma recompor algum governo para substituir o que morreu com o afastamento do PMDB.

Como? Não faço a mais remota ideia nem creio que haja alguém no Brasil que tenha uma resposta.

Recompor a aliança com o PMDB? Michel Temer, o presidente do partido, deixou claro que quer o lugar de Dilma e, portanto, não pode ser condescendente com ela.

Tanto é assim que forçou a saída do líder peemedebista na Câmara, Leonardo Picciani, por ser considerado "dilmista".

Foi o terceiro sinal, depois da carta e depois dos votos na comissão do impeachment, de que a aliança se rompeu.

A única maneira de eventualmente recompô-la é formar um governo que seja peemedebista de corpo e alma, o que significaria alijar o PT de postos-chave.

O PT não iria para o impeachment, mas tenderia a negar maioria à presidente.

Se todo esse formidável "quilombo", como dizem os argentinos, já seria assustador em céu de brigadeiro, é puro terror em meio a uma baita crise.

Confissão de 'inocente'

Durante os 12 anos em que governei o país nunca ouvi dizer que havia corrupção na Petrobras

O cruel teatro de horrores no qual sucumbem os brasileiros

Aconteceu o que já se esperava: o acolhimento, pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do 35º pedido (34 foram por ele arquivados) de impeachment contra a presidente Dilma. E aconteceu não porque confiávamos nele, mas porque sempre desconfiamos dele. Assinado pelos juristas Miguel Reale Júnior (ex-ministro de FHC), Hélio Bicudo (fundador do PT) e Janaína Paschoal (professora), o pedido, de 200 páginas, foi lido em sessão do Congresso na última quinta-feira.

Instantes depois, a presidente Dilma Rousseff falou ao país e, com a costumeira arrogância, fez sérias acusações contra o presidente da Câmara, que, no todo ou em parte, serão, certamente, confirmadas. Ele, por sua vez, logo depois, em entrevista coletiva, afirmou que a presidente mentiu quando disse que o seu governo não barganha votos.

A afirmação de Cunha trouxe à baila o ministro Jaques Wagner, da Casa Civil: “Quem mentiu foi ele”, disse, referindo-se a Cunha, quando este afirmou que um aliado seu se encontrara com a presidente. E, depois, foi mais matreiro ainda: “O vice-presidente Michel Temer tem longa trajetória de democrata e constitucionalista. Como nós, Temer não vê nenhum lastro para esse processo de impeachment”. Mas o vice desmentiu o ministro carioca/baiano: “Não disse isso em momento algum da minha conversa com a presidente”.

Entre mentiras e verdades (as mentiras fazem parte do cotidiano da nossa prática política), o que de fato sobra é apenas isto: a presidente Dilma, reeleita para um segundo mandato em novembro de 2014, terá que responder a um processo de impeachment, cujas consequências, que serão sempre graves, ainda não estão claras.

A tentativa do governo de transformar o acolhimento do pedido de impeachment numa guerra particular entre o bem (Dilma) e o mal (Cunha) não ajuda em nada. É de um cinismo que brada aos céus.

As declarações de Lula e Dilma, mais cínicas ainda, de que impeachment é golpe são chorumelas. Impeachment é preceito constitucional, que exige razões políticas e jurídicas. Desmemoriados, não se lembram do que o PT fez a Collor, com Lula à frente do cordão, a Itamar e a Fernando Henrique? A política, então, não requer um mínimo de coerência, honestidade intelectual e respeito à história deste país?

A tentativa do governo de agilizar o processo com a suspensão do recesso parlamentar (que até tem razões de sobra para que seja defendida) não passa de manobra e levanta uma suspeita – a de que o pânico tomou conta da presidente, do PT e dos que a rodeiam.

O PMDB tem, nas mãos, uma oportunidade histórica nesse jogo macabro e podre da política brasileira. Já imaginou, leitor, se a chance fosse do PT? Certamente, a agarraria com unhas e dentes! Eis o dilema do PMDB: ou colabora com a defenestração da presidente, que, se ficar, não salvará o país de uma grande debacle, ou a ajuda a formar um governo de união nacional, no qual sua presença seria só figurativa.

É realmente triste ver e ouvir o que diz a presidente em sua defesa. Quanto mais se defende, mais se acusa. Poupem-nos, marqueteiros em ação: retirando-a do vídeo, a sua imagem ficará melhor.

A carta de Temer a Dilma foi ruim para ambos, mas definiu o perfil humano da presidente. Já pensou, leitor, como deve tratar os súditos? E diga-me: como foi mesmo que ela se elegeu presidente? Ah, Lula, se arrependimento matasse!

A solidão do abismo

Mais do que outros fatores, a crise econômica teve o condão de isolar politicamente o PT. É nessa lógica que está sendo construída a alternativa do impeachment. É nessa lógica que a presidente Dilma Rousseff amarga a solidão à beira do abismo, à espera do golpe fatal que vai destrona-la. Vive a solidão dos que precisam ser expulsos do poder. A carta divulgada pelo vice-presidente da República, Michel Temer, apenas confirma seu isolamento político.

A arrogância com que Dilma Rousseff se diplomou para o segundo mandato contrasta com o que aconteceu a partir da posse. A nova legislatura ficou ainda mais hostil do que aquela que a acompanhou no governo anterior. Seu partido, o PT, ficou francamente minoritários e, por isso, teve que arquivar sua preciosa agenda legislativa no rumo da revolução cultural. Foi o primeiro sinal de fraqueza. Antes, duelou com o PMDB e perdeu, tendo que engolir como presidente da Câmara de Deputados Eduardo Cunha. Passou a conviver com o inimigo declarado.


A evolução dos acontecimentos mostrou que o isolamento ficou crescente, com Eduardo Cunha impondo uma agenda legislativa contrária aos interesses da presidente da República. A carta do Michel Temer confirmou que o PMDB é agora oposição e quer encabeçar o processo de impeachment. Como partido com maior número de deputados e senadores, o PMDB pode liderar o desfecho fatal e o fará.

Em paralelo, vimos que a crise econômica se instalou com toda a contundência, em profundidade antes insuspeitável. Ela, sozinha, é capaz de colocar a opinião pública a favor do impeachment. Os índices anêmicos de popularidade da presidente são o sintoma claro do agravamento das condições econômicas. Inflação e desemprego caminham de mãos dadas para flagelar a clientela preferencial do PT, a população mais pobre. Os mais ricos, por outro lado, há muito deixaram o PT órfão. A crise moral com o petrolão atingiu em cheio sua representatividade no chamado PIB.

As eleições municipais do ano que vem já têm seu resultado desenhado e será uma acachapante derrota do partido governante. Não creio que o processo de impeachment espere fechar as urnas, todavia. O desfecho inexorável acontecerá bem antes.

Dilma Rousseff está sentada à beira do abismo, seduzida pela profundidade e o anseio de jogar-se no vazio. Como diria Nietzsche, mesmo o menor dos abismos precisa ser transposto e esse é gigantesco. Não tem mais volta: será apeada do poder.

Quem viver verá.

Só falta marcar a saída!

Cinco dias perdidos

Faltava o Judiciário. Agora não falta mais. Também o Supremo Tribunal Federal, melhor dizendo, um de seus ministros, acaba de deixar dúvidas sobre suas obrigações constitucionais. Edson Fachin, alta noite de terça-feira, concedeu liminar para interromper o processo de impeachment da presidente Dilma. Claro que dependendo da concordância da maioria de seus companheiros, em sessão plenária marcada para a próxima quarta-feira. Se não havia certeza para sua decisão, por que mandou interromper tudo? Por que não sugeriu que as coisas se resolvessem na sessão de ontem, também quarta-feira? Adiou por cinco reuniões o início da questão que vem paralisando os demais trabalhos da Câmara e deixando o governo imobilizado para cumprir seu dever de governar.

Acresce a hipótese de a liminar ter caracterizado a interferência de um dos poderes da União sobre outro. No caso, o Judiciário atropelando o Legislativo. E sem a certeza de ter a iniciativa sido tomada de acordo com a Constituição e as leis, tanto que Edson Fachin submeteu sua sentença preliminar à opinião dos dez outros ministros. E em especial, não anulou a votação já realizada para compor a comissão encarregada de decidir se a presidente Dilma deve ou não responder a processo de impeachment. Se 272 deputados optaram que deve, e 199 que não, tratou-se de um ato da economia interna da Câmara. Os derrotados apelaram ao Supremo menos para dirimir a dúvida sobre voto secreto e voto aberto, mais para estender por mais tempo a tertúlia que pode atingir o mandato de Madame. Entenderam, esses derrotados, que muitos colegas deixariam de votar pela condenação caso obrigados a botar o pescoço de fora. Uma suposição não comprovada, mas suficiente para adiar por uma semana a decisão que imobiliza Brasília e pelo jeito o Brasil.

Promover votações no âmbito de suas atribuições parece ser prerrogativa dos deputados, mesmo havendo verdadeira batalha campal entre eles, relativa ao voto secreto ou aberto.

Até a próxima quarta-feira todos os braços estarão cruzados, ainda que, vale repetir, a votação não tenha sido anulada, mesmo secreta. Salvo melhor juízo e com todo o respeito, o plenário da mais alta corte nacional de justiça poderá contrariar a opinião do ministro Fachin. O resultado então ficará limitado à perda de cinco sessões, ou seja, cinco dias sem novos capítulos nessa novela de horror encenada na Praça dos Três Poderes.

Quanto ao péssimo espetáculo de violência explícita oferecido por razoável número de deputado e deputadas, entre socos, cabeçadas, palavrões e depredações, fica apenas a saudade de outros tempos. Também, fazer o quê os que aplaudiram Ulysses Guimarães e agora assistem Eduardo Cunha?

PT e o esgoto


Emir Simão Sader (72), sociólogo e cientista político, é autor da seguinte louvação a deus: "Lula se projetou como o líder popular mais importante no mundo, mais universal, cujo som do nome passou a remeter a justiça social, a dignidade, a um mundo melhor e mais humano". É compreensível que despeje essa tão límpida declaração contra Michel Temer, bem digna do baixo calão petista
 

Dilma quer ficar no berro e na canelada


A baixaria a que se assistiu nesta terça na Câmara dos Deputados, promovida por petistas e esquerdistas ainda mais rombudos, evidencia o DNA dessa gente. Dado o risco de perderem as mamatas, dado o risco de serem derrotados pelo Estado de Direito; dado o risco de terem de se defrontar com a verdade, eles podem, sim, partir para o tudo ou nada.

Muita gente tem dúvida se petistas e comunistas associados tentarão promover a desordem no país caso sejam derrotados no processo de impeachment ou percam as eleições. A resposta, obviamente, é “sim”.

E o fariam por vários motivos: 1) porque não respeitam a democracia e não a têm como um valor inegociável; 2) porque acreditam na função redentora da violência; 3) porque se consideram monopolistas da virtude; 4) porque querem esconder seus crimes; 5) porque o crime se tornou seu meio de vida.

A truculência da base governista na Câmara nesta terça — e olhem que estamos falando de parlamentares que estão submetidos ao decoro — é a evidência de sua falta de limites. Aliás, suas franjas nas ruas, como MST e MTST, o demonstram à farta, não é mesmo?

Sim, senhores! Definida a votação secreta — e os fanáticos queriam que fosse voto aberto porque, assim, os parlamentares poderiam ser pressionados pelo Palácio —, governistas tentaram impedir seus colegas de chegar às urnas.

Jorge Solla (PT-BA) foi um deles. Atenção! Os companheiros adeririam ao ludismo explícito: duas urnas foram quebradas — tiveram suas respectivas telas arrancadas —, e duas outras foram desligadas. Quem acompanhou a cena diz que Afonso Florence (PT-BA) foi um dos responsáveis pelo estrago.

O dado quase cômico é que, enquanto, o pau comia, José Guimarães (PT-CE), líder do governo na Câmara, proclamava aos brados a sua saudade dos tempos de Ulysses Guimarães, como se a arruaça não fosse protagonizada por sua turma.

Mas o espetáculo de truculência circense serve para esconder uma outra, mais grave. Renan Calheiros (PMDM-AL), presidente do Senado, aquele que gritava aos quatro cantos que o partido se apequenou quando Michel Temer assumiu a coordenação política do governo — afinal, ele estava “de mal” de Dilma —, bradava nesta terça que o recesso tem de ser suspenso porque, disse ele, os congressistas não “podem cruzar os braços nessa hora”.

Vale dizer: o objetivo é votar tudo a toque de caixa, bem distante dos olhos da população. Mas também essa convocação não vai ser fácil. Estabelece o Artigo 57 da Constituição:

§ 6º A convocação extraordinária do Congresso Nacional far-se-á:

I – pelo Presidente do Senado Federal, em caso de decretação de estado de defesa ou de intervenção federal, de pedido de autorização para a decretação de estado de sítio e para o compromisso e a posse do Presidente e do Vice-Presidente- Presidente da República;

II – pelo Presidente da República, pelos Presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal ou a requerimento da maioria dos membros de ambas as Casas, em caso de urgência ou interesse público relevante, em todas as hipóteses deste inciso com a aprovação da maioria absoluta de cada uma das Casas do Congresso Nacional.

7º Na sessão legislativa extraordinária, o Congresso Nacional somente deliberará sobre a matéria para a qual foi convocado, ressalvada a hipótese do § 8º deste artigo,

8º Havendo medidas provisórias em vigor na data de convocação extraordinária do Congresso Nacional, serão elas automaticamente incluídas na pauta da convocação.

Em qualquer desses casos, é preciso contar com a concordância de metade mais dos deputados e dos senadores.

Renan pensa em dar uma ajuda para o governo com uma manobra descarada: deixar de votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, o que impediria o Congresso de entrar em recesso.

Em suma: quando eles não estão quebrando urnas, estão tentando quebrar as regras. Tudo isso para garantir o mandato de Dilma Rousseff nas condições em que vemos.

Essa gente não está se dando conta do tamanho da crise e está fazendo um esforço enorme para que as coisas não terminem bem.

Estão confundindo a realidade com a versão vendida por seus pistoleiros na subimprensa. Digamos que Dilma consiga os 171 (ou 172) votos de que precisa para permanecer no cargo. Isso não é ponto de chegada, mas de partida.

E depois? Vão quebrar o quê? As pernas do povo?

A doce persistência no erro

O maior medo dos socialistas sempre foi o predomínio e o êxito das ideias liberais clássicas, do liberalismo econômico, do neoliberalismo ou de qualquer outro padrão análogo que conseguisse comprovar que quanto menor o papel do estado, melhor e mais qualificada a vida da sociedade organizada através de seus próprios meios e regramentos. Adam Smith foi quem introduziu a expressão “mão invisível”, ao entender e preconizar que a inexistência de uma “entidade” que comandasse os interesses das nações não significaria o caos, mas sim um sistema que se autorregulasse de modo espontâneo através da interação de indivíduos.

Em paralelo, a instabilidade social e a derrocada econômica criadas e reiteradas por modelos insustentáveis de gestão com inspiração socialista, vêm a comprovar e a consagrar o maior pesadelo que pode acometer a uma doutrina rica em teoria, mas miserável em suas práticas. Ainda pior do que isto, salvo raras exceções, o socialismo apresenta-se como um modelo que não aprende com o passar do tempo, não se nutre do valioso ensinamento que os fracassos proporcionam e que, ao tentar reedições de teses sem respaldo na realidade, não coleciona o bom senso, a prudência e a tão importante responsabilidade social, para com a coisa pública e o erário.

O contemporâneo de Smith, o conservador pensador irlandês Edmund Burke, era um sujeito bem mais polêmico do que o primeiro e se posicionava como crítico das ideias que inspiraram a Revolução Francesa. A Constituição Britânica, para Burke em especial, era a fonte maior de inspiração, pois continha as experiências produzidas por séculos de costumes, conceitos e instituições, capazes de livrar a sociedade dos vícios, da decadência implícita no recém lançado modelo revolucionário francês.

Tudo isto apenas para dizer que, em se falando de modelos, nossas opções enquanto sociedade persistem em navegar entre os péssimos e os ruins, entre os ineficientes e os insustentáveis, sempre refutando a afluência econômica do pensamento liberal e a segurança do conservadorismo. Ao contrário, nossa precária autoestima e ignorância nos tornam presas fáceis dos discursos e práticas efêmeras, desleais e improváveis do socialismo, cuja adoção redunda na erosão de valores adquiridos e na inexorável e recidiva pobreza.

Não carecemos de experiências, mas sim de aprendizado. Temos história, mas não contemplamos a memória e, ao refugar o aprendizado que poderia atuar a nosso favor, optamos por refazer a história sem lembranças. A inflação, por exemplo, é um fenômeno que pode ser evitado ou minimizado, muitas vezes, apenas pela reedição de medidas conservadoras e pragmáticas já testadas e exitosas. O mesmo com focos de corrupção. A insistência em não aprender com os traumáticos episódios envolvendo bilhões roubados revela a intenção da reedição, o descaso para com a punição e a vontade de persistir no crime. Este é o problema que vem com o socialismo precário e que pode ser resolvido de modo mais célere com práticas que levaram outras sociedades a situações bem mais favoráveis do que a nossa. Desta foram, não insistiríamos em fazer como na Venezuela, quando deveríamos colecionar boas práticas inglesas ou americanas. Não cometeríamos erros como os da Argentina, recusando os legados chilenos ou australianos.

Este é o momento ideal para pensarmos em melhorar práticas, repelir modelos ineficientes, adotar sistemas e regras mais fluidas e eficazes. O ocaso do modo socialista deve servir não para sepultá-lo, mas para adiá-lo sine die. O caos político e econômico brasileiro tem de gerar aprendizado e promover o amadurecimento de um país que está sem governo não porque adotou um modelo híbrido, com toques liberais, mas porque foge da polícia, da hora em que acorda à hora em que volta, temeroso, a dormir.

Este é o principal motivo pelo qual este governo tem de acabar
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Carta aos brasileiros

É extremamente grave o fato da mamulenga, na ânsia de mostrar o verdadeiro caráter de seu vice, Michel Temer, tenha revelado ao Brasil o conteúdo de uma missiva particular por ele escrita. É um tiro que sai pela culatra. Mais um. Pelo conteúdo, podemos inferir mais um pouco da estranha língua falada nos interiores dos palácios onde se governa por aqui. Por ela sabemos quem é quem e podemos comparar a “liturgia” de governo de ambos.

Enquanto a dona é uma guerrilheira de araque, sempre pronta a encontrar um inimigo de estimação para lhe imputar as agruras, seu vice é um gentleman até nos piores momentos. Pontos para ele. Se havia alguma dúvida de como se sairia de uma saia justa – das tantas que irá enfrentar quando assumir a presidência – a dúvida está sanada; ele tem meu voto. É o “presidente possível” no momento. Para mim basta.

Na atual conjuntura, qualquer balsa que se apresente para nos dar sobrevida neste naufrágio é bem-vinda. Os peemedebistas, hoje mais do que nunca, deveriam “acordar de ladinho”. Levantar os olhos e entender finalmente a origem e a extensão dessa crise, escolhendo se querem ficar ao lado do Brasil que ainda presta  ─ e é hostilizado dessa maneira pela quadrilha aboletada no poder – ou preferem ir afundando lentamente nessa lama, até que não restem vestígios de suas presenças no governo.

Não deixa de ser irônico que este projeto de roubalheira instalado no poder tenha começado por uma carta – a tal “carta aos brasileiros”, que sedimentou essa farsa que até hoje no governa – e termine com esta missiva pessoal e intransferível, que mostra os intestinos podres de uma gente rumbeira, que atrasou a história do país em fatídicos e cabalísticos 13 anos. É o fim, dona.


A situação está se tornando tão insustentável que ficar na cadeira pelo prazer da sentada já começa a desenhar nas ruas e nos gritos uma feroz retaliação por todos os engodos que fomos obrigados a engolir até hoje. Mirem-se na Venezuela. A sociedade não quer mais essa mulher na presidência da república. Não quer mais ser empulhada. Não quer mais conviver com essa ideologia manca e oportunista. Não aguenta mais essas demonstrações de selvageria, incompetência e, principalmente, essa imensa inadequação que ela demonstra para o cargo que ocupa. Admitam que o golpe deu errado. Que a cooptação não foi ampla, geral e irrestrita. Que não houve dinheiro público para calar todo mundo.

Ao usar a cadeira presidencial para a briga e para o enfrentamento, quer a dona criar uma ambiente hostil, que só existe na cabeça dela e de sua claque de famélicos. O povo está lá fora, reunido. Deveria receber esta carta do Michel Temer como recebeu aquela outra e encerrar o ciclo. Virar a página. Retomar o país. Quem assina embaixo? O que os demais peemedebistas estão esperando para seguir o Eliseu Padilha?
Vlady Oliver