segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A quem serve o judiciário brasileiro?

Uma ação contra o deputado estadual Barros Munhoz (PSDB) prescreveu em abril, depois de três anos inativa no Tribunal de Justiça. Mesmo destino devem ter os processos do “mensalão tucano”, remetidos pelo Supremo Tribunal Federal à Justiça mineira. A peça contra Eduardo Azeredo, por exemplo, ainda aguarda distribuição.

Graças a decisões do STF, o inquérito dos cartéis metroviários paulistas isentou políticos do PSDB, mesmo os citados em depoimentos dos réus. O Ministério Público de Minas Gerais pediu o arquivamento da investigação sobre o aeroporto que o governo de Aécio Neves construiu nas terras de sua família.

Ignorando as evidências de que os esquemas da Petrobrás começaram antes, a Operação Lava Jato investigou a estatal apenas a partir de 2003. Deixou de lado, assim, um contrato fraudulento, assinado no governo FHC e denunciado pela Comissão de Valores Mobiliários, que movimentou cerca de R$ 56 milhões.

Os episódios acima têm três características chocantes: a ausência de punições a políticos do PSDB, a simultaneidade dessa lacuna com o rigor aplicado contra petistas e as semelhanças (quando não os elos operacionais) entre processos que tomaram rumos tão diferentes.

É cômodo minimizar tais fatos atacando a frágil hipótese conspiratória usada por setores da esquerda para defini-los. Também soa ingênuo ver neles uma simples disputa entre “linhas-duras” e “garantistas”, como se fosse probabilisticamente aceitável que a cada facção sempre coubesse julgar o mesmo flanco partidário.

Não podemos, obviamente, arriscar generalizações em torno de um universo amplo e heterogêneo como o Poder Judiciário. Mas as estatísticas são eloquentes demais. Existem modelos de absolvição (para uns) e punição (para outros) no tratamento judicial a políticos, ainda que suas motivações tenham origens variadas e desconexas.

Esses padrões se reproduzem, com tendências semelhantes, pelos demais campos de interesses oposicionistas. A blindagem a tucanos espelha o respaldo das cortes à mídia que os apóia, nos processos por calúnia, difamação e crimes eleitorais. Os veículos de comunicação retribuem legitimando o partidarismo dos magistrados que materializam a caçada moral contra seus inimigos comuns.

Um sintoma da coesão ideológica da teia de favores é o radicalismo antipetista que ela assume em público. O desempenho performático de certos magistrados e procuradores possui teatralidade conclamativa típica de palanques eleitorais, com discursos messiânicos semelhantes aos repetidos pelo colunismo sectário de direita.

A retórica salvacionista ajuda a naturalizar a imagem positiva da injustiça. Quem critica o viés tendencioso das investidas judiciais contra o PT costuma ser acusado de propor uma inversão dessa parcialidade. Em outras palavras, que os petistas recebam o beneplácito dado a seus opositores. Afinal, a punição de criminosos é necessária independentemente de “contrapartidas” de isonomia.

Há um vício grave nesse raciocínio, que resulta na equiparação entre repudiar a impunidade de alguns e defendê-la para todos. Mas seu grande problema é conferir a qualquer justiciamento uma essência positiva, como se conduzisse necessariamente a avanços institucionais e civilizatórios.

A necessidade da equivalência encontra-se tanto nas bases formais da Justiça quanto nos seus “princípios substanciais”. Como o estado de Direito, por definição, se apoia no pressuposto da chamada reciprocidade moral, o tratamento díspar a cidadãos diferenciados pelo perfil partidário afronta a legalidade vigente. Viola, portanto, os tais preceitos republicanos.

A prática também contraria a natureza saneadora das punições. Poupados pelas cortes e pela imprensa, os criminosos perpetuam-se nos cargos administrativos. E fortalecem suas artimanhas, já que a certeza da impunidade favorece o agravamento dos delitos. Resultam inócuos os efeitos positivos das sanções aplicadas aos petistas, já que eles serão substituídos, nas mesmas estruturas, por delinquentes protegidos.

Eis a face tenebrosa do combate à corrupção no Brasil: parte relevante do Judiciário fornece guarida para a hegemonia de uma casta delimitada por afinidades ideológicas, levando a retrocessos constitucionais e ao fortalecimento do crime. Com o apoio da mídia corporativa, esse predomínio adquire uma força institucional de alcance tirânico.

Admitindo que o partidarismo judicial não passa de outro vetor entre os demais que influenciam as agendas decisórias, a solução talvez seja quebrar a redoma protetora e confortável que separa as cortes das pressões populares. Se os magistrados assumiram prerrogativas de interferência nos rumos do país, que forneçam contrapartidas equivalentes à sociedade. Que enfrentem, portanto, o ônus de fazer política.

Bate em mulher e pede voto

De duas, uma.

Ao dizer que descarta a ideia de trocar seu secretário Pedro Paulo Carvalho por outro nome que concorra à prefeitura do Rio em 2016, Eduardo Paes apenas ganha tempo para encontrar um novo candidato.

Ou então: apesar da enrascada em que Pedro Paulo se meteu, Eduardo, de fato, não abre mão de ser sucedido por ele, amigo de fé, parceiro há 18 anos, camarada.

O plano de Eduardo de disputar em 2018 o governo do Rio ou a vaga de Dilma passa pela eleição de Pedro Paulo para prefeito.

Só que o futuro de Pedro Paulo já não pertence ao prefeito, mas aos cariocas que começam a reagir, indignados, contra o que ele fez. Especialmente as cariocas, chocadas com a descoberta de que Pedro Paulo espancou sua ex-mulher duas vezes.

“Eu acho que aconteceu uma coisa de casal, que só interessa a eles”, disparou Eduardo afinado com Pedro Paulo e desafinado com as ruas.

“O que deve valer para o eleitor é tentar compreender quais são as propostas dele para a cidade. É preparado? Que realizações tem? É disso que se trata a eleição”.

Não é só disso. E espanta que o prefeito de uma cidade cosmopolita como o Rio pense assim.

O que aconteceu com Pedro Paulo e Alexandra somente caberia a eles se Pedro Paulo não fosse um homem público.

Os eleitores têm o direito de conhecer como os aspirantes a governá-los se comportam longe dos refletores.

A Pedro Paulo não se pode negar o direito ao arrependimento. Mas tampouco aos eleitores o direito de julgá-lo pelo que fez de bom ou de ruim.

Não existem duas morais, uma pública e outra privada. Exige-se do homem público que seja coerente com o que prega.

Se para atrair votos ele condena a violência, não pode na intimidade da família ou dos amigos agredir quem quer que seja.

“Eu me descontrolei”, desculpou-se Pedro Paulo, orientado por especialistas em crises de imagem que o treinaram para mentir melhor.

Chamar de “descontrole” o ato de bater em uma mulher é debochar da nossa inteligência. É uma confissão de ignorância abissal dos meios mais civilizados de se resolver conflitos entre humanos.

No limite – quem sabe? -, pode ser também uma forma de disfarçar um possível traço de misoginia sempre tão comum entre aqueles que levam uma vida dupla, obrigados a mentir o tempo todo.

Há um mês, quando a VEJA revelou que em 2010 ele surrara Alexandra no apartamento do casal na Barra da Tijuca, Pedro Paulo negou.

E distribuiu um documento assinado por Alexandra aonde ela negava que tivesse apanhado. O documento era falso.

Ouvida pelo Ministério Público, Alexandra confirmou tudo o que registrara em delegacia, na época.

Fora traída pelo marido com uma mulher que parecia um travesti. E ao cobrar satisfações, Pedro Paulo respondeu com socos e chutes que a deixaram coberta de marcas.

Um dos socos arrancou-lhe um dente.

Confrontado com o que dissera Alexandra, só restou a Pedro Paulo apelar novamente para a mentira: “É importante dizer que foi um episódio único na minha vida”. Não foi!

Na semana passada, soube-se que ele espancara Alexandra na noite do Natal de 2008, e diante da filha do casal, Manuela, de 10 anos.

O ato final da humilhação de Alexandra ocorreu na quinta-feira. Forçada pelo ex-marido a defendê-lo, Alexandra jurou que só apanhou dele duas vezes. “Pedro nunca foi um cara agressivo”, recitou.

Agressivo, mentiroso e egocêntrico, Pedro pede seu voto para governar o Rio.

Mar de lama

Faz tempo que a gente se acostumou com ela. Foi entrando na vida diária. Subindo pelas canelas até chegar ao pescoço. Até que ninguém mais achou estranho. A vista ficou complacente. O nariz já não registrou o cheiro ruim. A lama virou mar. O mar virou lama. Não sei. Difícil saber.

Já faz muito tempo que lama é arma retorica. É matéria prima de discursos vazios ditos por gente que, sem se importar com nada, fala qualquer coisa. É arremessada livremente em todas as direções. Sem critério ou mesmo compromisso com a realidade. A lama tingiu a superfície. Igualou a todos. Mas pelo menos ainda ficava somente na metáfora. Não mais.

Depois de anestesiar os sentidos, a lama invadiu o mundo real. Ganhou existência. Virou concreta, tangível, visível a olho nu. Impossível de ser ignorada. Virou mar. Rompeu barragem. Formou tsunami. Destruiu cidades. Poluiu rios. Impactou o ambiente. Matou gente.

A metáfora virou realidade. E a realidade, metáfora. Tudo, agora, é lama. Da mesma cor. Com o mesmo cheiro. Invadindo e dominando a existência. Em mar onde navegam corpos e pensamentos em travessia aparentemente interminável.

Tanta lama não se forma por acaso. Requer esforço (ou falta de). Toma tempo. Vai embrutecendo sentidos, sentimentos e ideias. Vira descaso, desilusão, acomodação, negligencia impunidade. Invade corações e mentes. Corrompe a alma, enfim.

O mar de lama começou na alma de cada um. Sem limpar a alma, não existe futuro possível. Não é o drama presente o mais grave sintoma. A escuridão do futuro assunta mais. A ausência de perspectivas, de objetivos, de sentido para todo este sofrimento. As almas estão, enfim, poluídas, desencantadas.

Antes de tomar a realidade de assalto, a lama invadiu a alma. Apodreceram valores, sonhos, ideias e ideais. Tornou almas desinteressadas, mesquinhas, enlameadas. Pequenas mesmo. E se a alma é pequena, nada vale a pena.

A morte de um rio

Há algo de errado no mundo quando caçar um animal silvestre pode levar uma pessoa para a cadeia, mas destruir toda uma bacia hidrográfica, provocar a morte de mais de uma dezena de pessoas, assorear rios caudalosos, extinguir espécies inteiras, deixar meio milhão de pessoas sem água potável é punido só com multa. O problema, obviamente, não é o tipo de punição dada ao caçador.

Charge O Tempo 16/11

O desastre ambiental provocado pela mineradora Samarco em Mariana, no coração de Minas Gerais, e que esparramou uma onda com toneladas de rejeito de minério, entulho e lama por centenas de quilômetros ribanceira abaixo até chegar ao mar não tem precedente na história do Brasil. Sufocar um rio do tamanho do Doce de uma só vez e em tão curto espaço de tempo era inimaginável. Chamar de acidente ou fatalidade é zombaria. “Nenhuma barragem se rompe por acaso. Temos que identificar qual foi a causa, se a má operação da empresa ou falha no monitoramento. Não podemos encarar como acidente um fato deste tamanho”. As palavras são do promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, em entrevista ao jornal O Estado de Minas. Não podemos.

Por mais necessárias e urgentes que sejam as indenizações financeiras para tentar minorar o drama das populações afetadas, não parece justo que um desastre dessas proporções seja punido exclusivamente com multas. Seria o mesmo que dizer às empresas com capacidade de provocar impacto tão profundo no meio ambiente e na vida das pessoas que tudo bem, acidentes acontecem.

A causa não foi um terremoto, não foi uma tempestade, nem sequer uma chuva. Na melhor hipótese, foi inépcia. Na pior, descaso. É assustador imaginar que isso seja possível em uma empresa fruto da parceria entre a maior e a quinta maior mineradoras do mundo. Na verdade, não foi a primeira vez que isso acontece com uma megaempresa. Há outros exemplos de desastres ambientais de magnitude semelhante e que acabaram em acordo financeiro.

A contaminação maciça provocada no Golfo do México pelo vazamento ao equivalente a 4,2 milhões de barris de petróleo de uma plataforma da British Petroleum em 2010 terminou com um acordo judicial, 15 anos depois, em que a empresa aceitou pagar US$ 18,7 bilhões ao governo dos EUA. E negócios à frente.

Quem sabe, em meio ao desastre, não surja da Justiça alguma esperança. Um juiz destemido, um grupo de procuradores interessados em investigar o caso a fundo e responsabilizar quem merece ser responsabilizado - sem caça às bruxas, usando apenas instrumentos legais dentro do que estabelece a legislação. Se não vier do Judiciário, não parece que virá de outros Poderes.

As primeiras reações dos políticos, de ministros a senadores, não inspiram confiança de que a punição para o desastre acabe em algo além de uma repreensão acompanhada de algum desembolso. Por enquanto fala-se em R$ 250 milhões. É uma ninharia, para empresas desse porte. É menos do que a Vale - uma das sócias da Samarco - gastou financiando campanhas de políticos nacionais e locais ao longo de tantas eleições no Brasil. Mas, obviamente, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Espera-se. Tampouco deixa de ser uma mistura de tragédia e ironia que a Vale, após eliminar o Rio Doce do próprio nome, esteja, mesmo que indiretamente, implicada no assoreamento desse mesmo vale.

'A caixinha da mamãe'

Em junho deste ano, a Operação Lava-Jato atingiu o coração da maior empreiteira do país. Por decisão do juiz Sergio Moro, a Polícia Federal prendeu executivos da Odebrecht - entre eles, o próprio Marcelo Odebrecht, presidente e dono da construtora. A empresa foi parceira preferencial do governo Lula, quando fechou contratos bilionários com a Petrobras. Ela também manteve a parceria com Lula mesmo depois de ele deixar o cargo. 0 ex-presidente recebeu 4 milhões de reais da empresa, oficialmente como pagamento por palestras. As entranhas da relação entre Lula e a Odebrecht são um dos mais bem guardados segredos do Brasil. Marcelo Odebrecht e seus subordinados presos recusaram-se até agora a admitir, perante os procuradores, terem sido autores de qualquer ato irregular. A negação completa das acusações, mesmo perante evidências altamente reveladoras, faz parte da estratégia da Odebrecht de não comprometer o nome da empresa no exterior - de onde ela aufere cerca de 50% de sua receita anual.

Os advogados da empreiteira atuam com o objetivo de demonstrar aos executivos encarcerados que para eles não seria vantajoso colaborar com o Ministério Público e a Polícia Federal. Eles são constantemente lembrados por Marcelo de que a empresa trabalha para livrá-los das acusações e não mede despesas na ajuda direta a seus parentes.

Uma demonstração de apoio em troca do silêncio foi batizada de "caixinha da mamãe". Parentes dos executivos da Odebrecht presos foram convidados a depositar em uma caixa de papelão as contas relativas às despesas da família -escola dos filhos, academia de ginástica, supermercado, cartões de crédito. A empresa prometeu saldar os débitos. Três executivos da construtora continuam presos e calados sobre os eventos que culminaram no prejuízo de 7,1 bilhões de reais que, segundo a Lava-Jato, a empreiteira deu aos cofres da Petrobras. Perto desse valor, a "caixinha da mamãe" é um preço muito baixo a pagar pela conivência dos executivos presos.

Rezem por Paris, mas não virem as costas ao Brasil e ao povo

O que está acontecendo no Rio Doce é pior do que a soma dos piores desastres ambientais ocorridos no Brasil dos últimos 30 anos. Vamos lembrar Algodões, Camará, Macacos, os três rompimentos de Cataguases ocorridos em 2003, 2007 e 2009 respectivamente e pode ser incluído nesse bolo Itabirito no ano passado. Por qualquer critério disponível, seja extensão ou volume de rejeitos, essa soma não se compara ao que ocorreu com o Rio Doce.


Não houve qualquer tentativa de impedir o avanço dos rejeitos após o incidente, a Samarco e o governo Brasileiro assistem a chegada de 62 bilhões de litros de uma lama impregnada de metais até o litoral do Espirito Santo de braços cruzados. Sem contar que o rejeito – pela presença do ferro – está cimentando (Isso mesmo) diversas partes do rio. E estamos falando da mais importante bacia hidrográfica dentro da Região Sudeste. Sentiu o problema?

Toda a solidariedade aos civis que perderam suas vidas na capital francesa, mas o nosso Estado Islâmico tem CNPJ, endereço e responsáveis nominais. Que a tragédia em Paris não nos faça esquecer disso.

Rezem por Paris, Beirute, Síria e Nigéria, mas não virem as costas para o Brasil e para o nosso povo!

'Lama de Mariana pavimentou rios por onde passou'

Homem carrega caixão de Emanuele, 5 anos, vítima da tragédia. RICARDO MORAES (REUTERS)

A avalanche de rejeitos gerada em Minas Gerais pelo rompimento de duas barragens da mineradora Samarco, controlada pela Vale e a australiana BPH, causou danos ambientais imensuráveis e irreversíveis. Apesar da lama não ter um teor tóxico, ela pavimentou os mais de 500 km por onde passou devastando, com impacto ainda difícil de calcular completamente para grande parte do ecossistema da região. “Podemos dizer que 80% do que foi danificado lá é perda, não há como pensar em um plano de recuperação ambiental”, explica Marcus Vinícius Polignano, coordenador do Projeto Manuelzão. O projeto ambiental, da Universidade Federal de Minas Gerais, monitora a atividade econômica e seus impactos ambientais nas bacias hidrográficas e trabalha com a revitalização dos principais rios mineiros.
Leia a entrevista

Quem vê da televisão não tem dimensão da real situação do que foi essa situação. Esses danos são irreversíveis. Podemos dizer que 80% do que foi danificado lá é perda, não há como pensar em um plano de recuperação ambiental.

domingo, 15 de novembro de 2015

A velinha no bolo da República

Sinfonia de ladrões

Bilhões roubados da que já foi uma das dez maiores petroleiras do mundo, outros bilhões surrupiados de projetos do setor elétrico; sabe-se lá quantos para favorecer uns e outros amigos do governo. Cifras indecifráveis para a maioria dos brasileiros afanados, os mesmos que pagam as contas dos larápios. E que ainda têm de ouvir explicações esdrúxulas, fantasiosas, e até cômicas dos bandidos, além de pregações diversionistas dos orquestradores da rapinagem.

Nessa seara, o emaranhado de invencionices do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para se safar das contas na Suíça, não se difere das pregações da cartilha do PT, que culpa as investigações da Lava-Jato, Justiça e imprensa pelos dissabores que o Mensalão, e agora, o Petrolão, provocam à legenda.

Ambos – PT e Cunha – apostam no diversionismo, tática que os petistas, a começar pelo chefe-maior Lula, conhecem bem. Cunha domina outras tantas artimanhas, mas nessa só imagina ser bom aprendiz.

Lula é imbatível na técnica. Sabe como ninguém criar fatos, mudar o rumo do noticiário. Na semana passada, depois de ver novamente a si e sua prole metidos em encrencas, revirou sua baqueta para reavivar a ode que silenciara dias atrás contra o ministro Joaquim Levy. 

Um factoide extraordinário. As páginas dos jornais passaram a dedicar espaços generosos a Henrique Meirelles, o preferido de Lula, detestado por Dilma Rousseff. Organizou-se o absurdo Levy versus Meirelles, como se algum deles fosse capaz de imprimir personalidade à correção fiscal em um governo que não pretende e nem quer fazer isso.

Uma celeuma falsa, coisa para boi dormir, ganhar tempo e enganar trouxa. Tal como as mentiras de Cunha e a cartilha do PT.

Todos. Lula, Dilma, PT, gente do mercado e fora dele sabem que Levy e Meirelles rezam o mesmo evangelho. Tanto faz ser um ou outro o responsável pelo aperto que o necessário ajuste fiscal exige.

Mas o safo Lula explora ao máximo o disse-me-disse sobre a substituição de um ministro da Fazenda, especialmente quando a troca é de seis por meia dúzia, não causa tumulto no mercado e lhe rende tempo. Algo precioso. Antes de tudo, desvia – como já vem ocorrendo – o noticiário de pegar no seu pé e puxá-lo (ele e os seus) para o fundo da lama.

Ainda que nem sempre em sintonia, Dilma, Lula, PT e companhia, Cunhas e Renans compartilham a mesma partitura. Unem-se na tentativa de evitar danos. Protegem-se contra cassações de mandato, processos internos e da Justiça. Desprezam o país e cuidam de si com esmero. A ponto de querer que cada brasileiro reponha o cofre que eles arrombaram ou deixaram arrombar.

E não é coisa de pouca monta. Bilhões e bilhões que nem no imaginário encontram guarita. Que superam os números das maquininhas de calcular, que transbordam a piscina do Tio Patinhas.

E se repetem como imitação barata de um Bolero de Ravel.

Só na Petrobras, a Polícia Federal aponta o surrupio de mais de R$ 42 bilhões, R$ 12 bilhões a mais de tudo aquilo que o governo Dilma imagina arrecadar em todo o ano de 2016 caso a CPMF seja aprovada. Ou seja, mais de um terço do que os 0,20% da movimentação financeira de todo o país em um ano. Mais de 600 mil casas populares de dois quartos, 420 vezes o maior prêmio de loteria já pago. Isso, só na Petrobras.

Acredita-se que o mesmo esquema foi reproduzido em outras estatais. Algo que já se comprovou no setor elétrico, mas que, em desafino, o Supremo preferiu desvincular das investigações da Lava-Jato.

Difícil crer que o país suporte a mesma toada de explicações inexplicáveis, acobertamento de corrupção, inépcia e desgoverno até 2018. Mas não basta desautorizar Lula, destituir ou substituir Dilma.

Além de outro maestro, o país reivindica outra sinfonia
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República imprevidente

A comemoração de mais um aniversário da República Brasileira coloca em evidencia o momento atual e sua imprevidência diante da conjuntura e seus reflexos em todos os campos da vida nacional. Ninguém, em sã consciência, dúvida que perdemos o contato com os países desenvolvidos e hoje, mais do que nunca, os blocos econômicos prevalecem, fazendo acordos de trilhões de dólares, enquanto derrapamos na longa encruzilhada do Mercosul.

Bem mais tenebroso do que isso somente ver a tempestade perfeita que nos carcome, dentre os quais as inaceitáveis taxas de corrupção e falta de planejamento em quase todos os setores. O acidente acontecido recentemente em Minas Gerais, na cidade de Mariana, é um exemplo que não nos permite livrar das costumeiras tragédias, porque a licença ambiental estaria vencida e os órgãos de fiscalização não fizeram absolutamente nada.

Com a moderna tecnologia de satélites e seu monitoramente seria possível observar os deslocamentos, somados ao aumento inadmissível de dejetos jogados na velha estrutura da barreira que se rompeu. Alicerça-se ao triste fato as consequencias ambientais mais deprimentes e danosas. O resultado negativo de quase quatro bilhões da ex maior estatal nacional é preocupante e revoltante para seus acionistas, não fosse a sensação de absoluto desmando e completo estado de insolvabilidade.

A se acreditar na velha ou na nova república instaurada por motivos políticos, e depois de mais de século passado ainda engatinhamos nos verdadeiros conceitos da coisa pública. As instituições do Brasil vivem um total desacerto e descontrole, notadamente executivo e legislativo, acordos e mais acordos, denuncias diárias, corrupção saindo pelo ladrão, ao passo que o Judiciário tenta conter os desastrosos efeitos dessa balburdia por meio de investigações, prisões e decisões condenatórias.

Muito embora seja considerada uma Nação democrática, aqui se vota para tudo, desde o sindico, até o representante do corpo de segurança do prédio no qual se trabalha, até cargo máximo de presidente da república. No entanto, não é formada uma democracia apenas pelo sentimento do direito livre e soberano do voto, mas pela transparência, decência e acima de tudo ética com moralidade dos governantes.

O STF encontra centena de processos em andamento contra políticos e fica a beira de um colapso porque não foi concebido para resolver esse tipo de pendenga - mas sim causas maiores de características constitucionais relevantes. O fato se espalha para o STJ com milhares de processos, e se o juízo de admissibilidade permanecer na corte então a explosão e demora serão proporcionais.

As esperanças de um novo cenário Brasil passam pelo momento de dor e sofrimento para limpar as metástases dos desvios de conduta e comportamento. Algo para se comemorar no festejo de mais um aniversário da República, sim é claro: Ou reformamos tudo que está em descompasso com ela, lançando as razões fundantes de um novo modelo, ou nos encastelamos na mesmice das notícias cotidianas que nos afundam a cada segundo numa republiqueta de bananas - cuja fruta é a mais amarga de todas e rara jabuticaba para ser vista urbi et orbe.

Nosso Guia está fritando a doutora Dilma

A fritura de Joaquim Levy mudou de qualidade. Habitualmente, presidentes fritam ministros, mas, no caso do doutor, um ex-presidente (Lula) está fritando ao mesmo tempo o ministro da Fazenda e a inquilina do Planalto (Dilma Rousseff).

Quando circula a informação de que Nosso Guia sondou Henrique Meirelles para o cargo e que ele pediu carta branca para assumir o cargo, a coisa muda inteiramente de figura. Quem está sendo frita é a doutora Dilma. Neste caso surge uma novidade: seu impeachment pelo PT.


Isso tudo poderia ser fabulação, mas o ex-presidente do Banco Central soprou o fogo ao dizer que não recebeu um convite "concreto". O que vem a ser um convite abstrato, só ele pode explicar.

Certo mesmo é que Levy ainda não chamou o caminhão da mudança, como fez Mário Henrique Simonsen em 1979, porque não quer ser responsável pelo pandemônio que provocaria.

Com Lula convidando ministros e o seu preferido admitindo cripticamente que há algo no ar além aviões de carreira, os escrúpulos de Levy tornam-se despiciendos. O pandemônio já está criado.

Lula disse na Colômbia que sente "um cheiro de retrocesso político na América Latina e na América do Sul" e pediu à plateia que não acreditasse "nas bobagens da imprensa". Nosso Guia tinha ao seu lado o ex-presidente do Uruguai, José Mujica.

Certamente não são as notícias sobre a honorabilidade de Pepe Mujica, um ex-guerrilheiro que presidiu seu país de 2010 até março passado e elegeu seu sucessor. Ele não teve mensalón, nem petrolón. Continuou morando na mesma casa, com o mesmo carro e a mesma cachorra Manuela. Ao assumir, anunciou que doaria 70% de seu salário para a construção de casas para os pobres. Segundo a Transparência Internacional, o Uruguai, junto com o Chile, têm os menores índices de corrupção da América Latina.

Talvez Lula esteja falando das "bobagens da imprensa" em relação à Argentina, que vai eleger seu novo presidente no dia 22. Lá, 14 anos de domínio do casal Nestor e Cristina Kirchner levaram a economia para o buraco e a família da presidente para a fortuna. O país tornou-se conhecido pelos escândalos envolvendo as relações do governo e seus amigos com empreiteiros, petrogatunos e exportadores.

Uma banda da esquerda latino-americana acumula duas marcas sinistras. Tem a mais longeva das ditaduras em Cuba e os dois países mais corruptos do continente: a Venezuela narcobolivariana, seguida pela Nicarágua sandinista da família Ortega. A Bolívia, Equador e Argentina têm índices de corrupção piores que o Brasil.

O que há por aí não é um cheiro de retrocesso político, mas a verificação de que existem países assolados pela corrupção e têm governos que se dizem de esquerda. O Chile e o Uruguai estão na outra ponta.

Bolivarianos, sandinistas e petistas chegaram ao poder com a bandeira da moralidade. O que há no ar não é um cheiro de retrocesso político, mas de repúdio aos pixulecos.

Roubalheira não tem ideologia. O general Augusto Pinochet tinha o apoio de grande parte da população chilena enquanto torturava e matava opositores. Quando se descobriu que ele e sua família tinham US$ 15 milhões em 125 contas secretas, a direita chilena jogou sua memória no mar.

Quando o filho da presidente chilena Michelle Bachelet foi apanhado em traficâncias, ela demitiu-o e disse que enfrentava "momentos difíceis e dolorosos como mãe e presidente". Não culpou a elite nem viu conspiração, muito menos "retrocesso político". Viu apenas realidade: Seu filho metera-se numa roubalheira.

A tragédia mineira

Depois do desastre, de gravidade sem precedentes, que devastou o município de Mariana e todo o Vale do Rio Doce, instala-se naturalmente o processo para se encontrarem as causas e se determinarem responsabilidades.

O descarte de minério descendo em avalanche decretou a morte de dezenas de pessoas, a extinção de povoados históricos, arruinou centenas de famílias, de propriedades rurais, a fauna e a flora que povoavam a região, símbolo dos primórdios de Minas.

O estrago revolta até o olhar mais insensível. Os danos difíceis de se quantificar, a recuperação impossível e irreparável, atingindo diretamente grande parcela da população do Estado, chocaram o mundo inteiro. E a pergunta: como é possível que um Estado de vocação extrativa, que já teve vários desastres decorrentes da mesma causa, volte a protagonizar um espetáculo tão avassalador?


Os dejetos da mineração, acomodados numa bacia de contenção da Samarco, são resultado da produção ininterrupta de minério de ferro, ao longo de 40 anos de extração. A bacia foi estudada inicialmente com segurança para abrigar as sobras não comercializáveis da extração, sofreu seguidas expansões de capacidade determinando a elevação do nível para conter camadas originadas pela crescente produção de pelotas de minérios que são levadas por minerodutos até o mar.

Os últimos anos fizeram da Samarco, controlada pela Vale, a principal fornecedora de pelotas de minério do mundo. Evidentemente, foram subestimados o risco representado pela elevação da cota e a condição em que se estabilizariam milhões de toneladas de resíduos.

Abaixo da barragem não foram erguidas barreiras suplementares de contenção que pudessem atenuar um possível rompimento ou dar vazão a uma emergência. Confiou-se que a barragem fosse sólida e suficiente por si mesma.

Para atenuar responsabilidades, foram apresentadas hipóteses, como a de abalos detectados por sismógrafos em Brasília na hora do rompimento das duas barragens. A região de Mariana, entretanto, é considerada estável e sem terremotos. A informação pode, assim, ser interpretada em duplo sentido. O primeiro deixa entender que um tremor de terra de intensidade de 1,5 grau na escala Richter gerou a quebra da barragem, coincidindo com o horário da falência da encosta. Mas também deixa livre a interpretação de que o movimento de milhões de toneladas provocado pelo estouro da represa se gerou concomitantemente com a avalanche ocorrida no local. A descrição dada pelos sismógrafos certamente pode esclarecer o ponto de origem, se foi proveniente do subsolo ou da avalanche e de sua queda sobre o vale.

A intensidade de 1,5 grau do abalo registrado não representa, via de regra, impacto suficiente para abalar uma estrutura elástica como uma barragem.

A falha mais plausível recai nos projetos de ampliação, que poderiam ter elevado em excesso o nível da sedimentação dos dejetos. Quanto mais alta, mais crítica ficou a barragem, numa cota muito elevada em relação a sua base.

Nos últimos 15 anos a extração se acelerou, ditando novas ampliações para acolher descartes da extração mineral. A Samarco passou do ponto de segurança, entrou numa faixa de risco elevadíssima, com autorização e fiscalização públicas. A responsabilidade não só é de quem executa, mas de quem autoriza e fiscaliza.

Num Estado em que os empreendimentos agrícolas e agroindustriais recebem tratamentos de controle ambiental pontualmente burocráticos e punitivos, apesar da ausência de riscos, eles se arrastam por anos e passam por etapas inconsequentes. Não dá para entender como, ao contrário, as bilionárias mineradoras têm seus projetos aprovados ao arrepio da lei, a toque de caixa, deixando no rastro estragos que se repetem com imperdoável frequência.

Dilmanta

É muito difícil trabalhar quando todos os problemas que você precisa corrigir foram criados por sua chefe
Arminio Fraga 

O Lava Democracia

No rastro dos escândalos da Lava Jato, foi revelado que um ex-deputado teria recebido o auxílio de US$ 120 mil para a sua campanha eleitoral. Através de gravações telefônicas, troca de e-mails, ficou clara a mecânica dessas contribuições. O candidato ao Congresso se queixa ao candidato presidencial de que está sem verba para azeitar a campanha, recebe a promessa de uma ajuda, dias depois o tesoureiro da campanha presidencial discute o "quantum" e estabelece as prestações, fazendo uma única exigência: o destinatário deverá telefonar a um empresário de uma empreiteira agradecendo a colaboração, mas sem entrar em "detalhes".

Tudo foi feito a risca, o candidato agradeceu os dólares e os recebeu a tempo de lubrificar a campanha. Ficou a dúvida: o candidato recebeu apenas US$ 120 mil, mas agradeceu a colaboração "sem entrar em detalhes", onde a suspeita: ele poderia ter agradecido a doação de um milhão de dólares embora só tenha recebido 120 mil.


Mas, de repente, com pequenas variantes de "detalhes", verifica-se que todos os candidatos, de todos os partidos e em todas as épocas assim agiram. Os partidos são pobres: em suas sedes esquálidas, os telefones são desligados por falta de pagamento. Contudo, durante a campanha eleitoral, os candidatos gastam fortunas e precisam gastar cada vez mais.

Sabemos que as eleições presidenciais têm campanhas bem acima das possibilidades das burras partidárias. Já foi dito que todos os regimes políticos são ruins e que a democracia é apenas o menos ruim. O processo eleitoral que forma e formaliza o regime democrático tem um aleijão inamovível.

Ser eleito presidente é façanha que custa muito dinheiro dos outros. E esses "outros", mais cedo ou mais tarde, de uma forma ou outra, exigem pagamento.

Reflexões sobre a mania errônea de rotular pessoas

Ao consideramos que fulano seja “de esquerda” e sicrano “de direita”, estaremos sendo induzidos ao erro, manipulados, pois nos esquecemos da incrível capacidade humana de fingir, conforme o Lula fez durante décadas! As pessoas devem ser rotuladas entre as que nascem para destruir e as que nascem para construir, as que nascem para propiciar sorrisos e as que nascem para produzir lágrimas, as que nascem para distribuir e as que nascem para acumular e saquear.

Se prestarmos atenção, veremos que assim procederam as grandes figuras da História Humana. Independente da ideologia ou da religião, podemos ver esses dois tipos básicos de seres humanos espalhados nos mais distantes rincões do planeta.

Alguns, conscientes do seu pequeno tamanho no universo e da brevidade da vida, usam parte dos seus “cem míseros anos de existência” que terão, antes de virar pó, para ajudar os necessitados.

Outros, se adjetivando “O Grande” e se achando um deus, imortal e melhor do que os outros, usam parte desses mesmos “cem míseros anos de vida” para matar, roubar e distribuir choro e lágrimas antes de virar o mesmo pó.

Hoje todos estão mortos! E o que restou deles? Apenas as obras dos que construíram alguma coisa para o bem da humanidade e que, aos poucos, suplantarão a destruição do outro grupo.

Mas até “aquela parede” que o modesto pedreiro construiu, ainda está lá, substituindo a que fora demolida antes pelo bombardeio ordenado por aquele importante ditador
 Francisco Vieira

O Brasil desarrumado

O Brasil não atravessa apenas uma crise: vivemos uma desarrumação de que, se não cuidarmos, vai nos levar para uma decadência.

Nos últimos 12 meses, a moeda brasileira desvalorizou cerca de 50% em relação ao dólar, e os preços internos cresceram a 10%. A visão técnica chama isso de desvalorização e inflação; na verdade, é uma profunda desarrumação nacional. Desestrutura o sistema de trocas: os empresários aumentam os preços; os salários caem, os trabalhadores fazem greves; a economia entra em uma ciranda caótica, e todo o sistema de relações da economia se desarruma, como véspera do caos.

A economia brasileira está desarrumada pelo tamanho da dívida e os consequentes juros exorbitantes, pela falta de regras jurídicas estáveis, pela escassez de mão de obra qualificada, pela baixa capacidade de inovação, pela falta de perspectiva e planejamento no médio e longo prazos, pelo alto custo derivado da infraestrutura obsoleta e ineficiente, pelo atraso em relação à economia do conhecimento. Uma desarrumação que levará à decadência.

O Estado brasileiro é um exemplo de desarrumação: no caos da política, na generalização e profundidade da corrupção, na desorganização, burocracia, política salarial sem critério, salvo como resposta às pressões corporativas. As finanças públicas de União, estados e municípios, como das estatais, estão totalmente desarrumadas.

A violência domina as ruas de nossas cidades, desarrumando a vida urbana: o número de mortos, o medo de ir às escolas e aos restaurantes, de tomar o ônibus são provas de algo mais profundo do que a simples afirmação de insegurança. As ruas das cidades do Brasil estão desarrumadas também pelo trânsito caótico, a pobreza, o transporte público ineficiente.

A democracia convive com greves. Mas quando elas se sucedem com frequência e se espalham por todos os setores e demoram longamente, o país vive uma desarrumação. O sistema educacional brasileiro, especialmente o público, está desarrumado pelo quadro quase permanente de violência dentro das salas de aula, a desmotivação dos professores, a falta dos equipamentos necessários, a desatenção dos alunos, o descuido dos pais e dos governos.

O sistema de saúde pública do Brasil está desarrumado. Não é uma questão de falta de recursos financeiros, é desordem gerencial, descumprimento de obrigações.

O papel de um novo governo será arrumar o Brasil para criar as bases de seu futuro como nação eficiente e justa no mundo da economia e da sociedade do conhecimento; corrigindo o desajuste fiscal, acabando com a corrupção e criando e respeitando o marco jurídico, montando as infraestruturas física, educacional, cientifica e tecnológica que o futuro exige. Mas o caos da desarrumação não nos permite esperar: desde já é preciso que as lideranças nacionais, independentemente de partido e de cálculos eleitorais, se encontrem, com o propósito de arrumar o Brasil.

Cristovam Buarque

Mariana, a dependência da mina que paga pouco à região que devastou

A tragédia de Mariana trouxe à tona novamente os riscos da mineração para as áreas do entorno das minas ao mesmo tempo que evidenciou a lógica de dependência econômica dessas cidades que contam com a atividade como principal fonte de renda dos municípios. O rompimento das duas barragens da Samarco, que contabiliza ao menos 7 mortos, 18 desaparecidos e causou danos incalculáveis, também deixou claro que o retorno econômico que a mineradora dá a cidades, como Mariana, se torna muito pequeno diante dos estragos gerados pela atividade.

No ano passado, a Samarco, controlada pela Vale e pela australiana BHP, pagou em royalties pela exploração em Minas Gerais cerca de 54 milhões de reais, sendo que desse total 20 milhões ficaram em Mariana. O valor que a cidade recebeu não chega a 1% do lucro líquido da mineradora em 2014, que chegou a 2,8 bilhões de reais. A quantia repassada, no entanto, está dentro da lei. Segundo a legislação atual, as mineradoras são obrigadas a repassar até 2% do seu faturamento líquido de Compensação Financeira pela Exploração de Recursos (CFEM), dos quais 65% fica com o município da mina, 23% com o Estado e 12% vai para a União. A proporção é criticada por prefeitos de cidades mineradoras que cobram uma compensação maior.

"Os valores são muito pequenos, irrisórios quando você avalia os vários problemas que chegam junto com as mineradoras. São cidades bastante castigadas pelo impacto das minas. Por isso queremos tanto que o novo marco legal, discutido há anos, seja aprovado o mais rápido possível no Congresso", explica o presidente da Associação dos Municípios Mineradores de Minas (AMIG) e prefeito de Congonhas, José de Freitas Cordeiro (PSDB), o Zelinho. O projeto prevê que as mineradoras paguem o dobro do percentual atual: os royalties passariam de até 2% para 4%. Em comparação com outros países, os percentuais estão bastante defasados. Na Índia, por exemplo, a alíquota do setor pode chegar a 10%.

Saber zangar-se

O que me parece é que as pessoas, em geral, como que deixaram de saber zangar-se. Deixaram de saber zangar-se com aquilo que consideram errado – e, pior ainda, deixaram de saber dizê-lo na cara umas das outras. A não ser, naturalmente, que haja uma agenda.
Ainda nos zangamos muito, é verdade. Mas zangamo-nos mal. Com a maior das facilidades nos zangamos contra inimigos abstractos, como "o Governo", "o capitalismo selvagem" ou mesmo apenas "a crise". Com a maior das facilidades nos zangamos com aqueles que entendemos como nossos subordinados, no trabalho e na vida em geral (afinal, os nossos «superiores» acabam de pôr-nos a pata em cima. alguém vai ter de pagar a conta). Com aqueles que estão, de alguma forma, em ascendente sobre nós, já não nos zangamos: amuamos, que é a forma mais cobarde de nos zangarmos. Aos nossos iguais simplesmente não dizemos nada: engolimos e tornamos a engolir, convencendo-nos de que do outro lado está, afinal, um pobre diabo, tão pobre que nem sequer merece uma zanga – e, quando enfim nos zangamos, é para dar-lhe um tiro na cabeça, como todos os dias nos mostram os jornais. 

A impressão com que eu fico é que tudo isto vem dessa mania das social skills e do team building e dos demais chavões moderninhos que os gurus dos livros de Economia nos enfiaram pela garganta abaixo, na intenção de nos automatizarem de vez. Resultado: andamos todos a rebentar por dentro, impossibilitados de rebentar para fora – e, quando enfim explodimos, já não há nada a fazer. No essencial, os que nos rodeiam nunca são apenas homens, com valências e lacunas, com cobardias e actos de coragem: ou são anjinhos ou são tremendos filhos da puta (assim mesmo, sem meio termo). «Não respondas», aconselham-nos os sábios. Não dês troco. Não ligues. Não percas a cabeça. Tens de ser superior. E, inevitavelmente, viramos todos uns diplomatazinhos de esquina, sem capacidade para dar um grito e a seguir fazer as pazes. Tornamo-nos ainda mais hipócritas do que aquilo a que a nossa contraditória condição já nos obrigava. E transformamo-nos, claro, em bombas-relógio.

Pois eu prefiro um homem que parte a loiça a um choninhas que sublima tudo e, no final, ainda me passa a mão pelo pêlo. Quem não é capaz de zangar-se também não é capaz de uma gargalhada – e, se nos zangamos com ele, o primeiro argumento racional que utiliza é: "Não sejas assim". Mas que diabo é isso, "não sejas assim"? "Assim" capaz de assistir a um automóvel que se encaminha para uma ravina sem dar um grito a acordar o motorista? "Assim" capaz de ver uma relação pessoal deteriorar-se sem dar um murro na mesa para tentar salvá-la? É "assim" que gostavam que nós fôssemos todos, cheios de competências sociais e. porém, completamente desprovidos de frontalidade, de coragem e de zelo? Não contem comigo. Só isso: não contem comigo.

Joel Neto, cronista português in 'Banda Sonora para um Regresso a Casa'

Sonho ditatorial de Dilma: 'Cala a boca, jornalista!'

A 30 de abril de 2009, sete dos 11 ministros do STF derrubaram a Lei de Imprensa, datada de 1967, por considerá-la um resquício da ditadura.

Que pena: a Lei de Imprensa me ajudou muito. Por quê? Porque apesar de ter uma pegada totalitária, a de impor um direito de resposta, ela ajudava o jornalista.

A finada Lei de Imprensa tinha um período de decadência (tempo que se pode processar o jornalista, após a publicação) de 2 anos. E, digamos assim, impunha “multas” impostas ao jornalista, que não passavam de 200 salários mínimos.


Ninguém usava mais a Lei de Imprensa. Há mais de 14 anos virou moda processar jornalista por dano moral. Não há praticamente limites para se pedir indenização pecuniária nessa categoria. E o período de decadência do processo por dano moral chega a 20 anos. Ou seja: posso te processar após 20 anos da publicação da reportagem.

Sabe-se que, ainda hoje, o número de ações indenizatórias contra os órgãos de imprensa no Brasil é praticamente igual ao número de profissionais que eles empregam em suas redações.

Esse número surgiu pela primeira vez em 2007, levantamento inédito do jornalista Márcio Chaer (http://www.conjur.com.br/2007-mai-31/aumenta_valor_medio_indenizacoes_imprensa?pagina=1)

E uma ONG internacional, com base nele, provou que o Brasil era o país que mais processava jornalista sob dano moral ( http://www.conjur.com.br/2007-out-15/jornalistas_sao_levados_justica_frequencia)

Depois dessa divulgação, as maiores empresas de mídia do Brasil vetaram a veiculação dos números de ações civis que sofriam – sob a alegação que isso poderia prejudicar o valor de suas ações no mercado de capitais.

Pois bem: com uma rapidez armagedônica, o Congresso resolveu trabalhar e realizou um dos sonhos de Dilma: o direto de resposta.

A rapidez se explica: como muita gente em Brasília está envolvida nas investigações da Lava Jato, precisavam de um cala-boca técnico na jornalistada.

O projeto de lei que regulamenta o direito de resposta é um retorno à ditadura.

É um sossega-leão para tentar coibir quem cobre a Lava Jato.

Confira a nota emitida hoje pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (www.abraji.org.br) e que repele o direito de resposta aprovado pelo Congresso:
“O projeto de lei que regulamenta o direito de resposta, aprovado no Congresso na quarta-feira (4.nov.2015), parece ter sido desenhado para garantir que meios de comunicação não possam recorrer de decisões de primeira instância. O texto estabelece prazos exíguos para contestação e permite que o juiz de primeiro grau determine a veiculação da resposta antes mesmo de ouvir a empresa.
Segundo o disposto no artigo 6º, o juiz tem 24 horas após receber a ação para citar a empresa que veiculou a ofensa. O inciso I do mesmo artigo dá as mesmas 24 horas para a empresa apresentar as razões por que não veiculou a resposta extrajudicialmente, e o inciso II dá três dias para a contestação do pedido.
Esses prazos são mais curtos do que o normal: em ações cautelares com pedido de urgência, por exemplo, o prazo para contestação é de 5 dias.

Segue: o art. 7º determina que o juiz conheça do pedido até 24 horas após a citação da empresa e que, a partir daí, possa fixar condições e data (em até 10 dias) para a veiculação da resposta. Ou seja: antes mesmo de a empresa apresentar as razões e formular a contestação, a sentença pode ser proferida e a resposta, publicada.
Para piorar, o projeto torna quase impossível recorrer da decisão. Segundo o artigo 10, apenas a decisão de três desembargadores pode suspender a veiculação da resposta até que seja julgado um recurso em segundo grau. Esta seria a primeira lei a exigir uma decisão colegiada prévia para o efeito suspensivo: normalmente, as liminares são expedidas por apenas um magistrado.
Mais: o art. 4º estabelece que a resposta terá a mesma dimensão ou duração da matéria que a ensejou. Na prática, quem se sentir ofendido por uma linha de uma longa reportagem poderá pleitear o espaço de toda a matéria para responder ou retificar a informação contestada.
A Abraji considera que o projeto de lei põe em risco a liberdade de expressão e nega a empresas de mídia e comunicadores independentes o direito à defesa. Embora seja tarde para corrigir todas as falhas, a supressão de alguns dispositivos pode reduzir o potencial danoso do projeto. A Abraji defende que a presidente Dilma Rousseff vete o inciso I do art. 6º (que dá 24 horas para o veículo oferecer explicação) e o art. 10 (que exige decisão colegiada prévia para concessão de efeito suspensivo).
Os vetos não afastarão, no entanto, o risco de condenação sumária prevista no art. 7º, especialmente para blogueiros independentes e empresas sem estrutura jurídica"”

Pescadores convocam 'Arca de Noé' para salvar peixes


Cerca de 400 famílias de trabalhadores sofrem isoladas às margens do rio Doce, entre Minas Gerais e o Espírito Santo, graças à enxurrada de lama que escoa das duas barragens rompidas em Mariana (MG) na quinta-feira, 5 de novembro.

O empenho destes pescadores em salvar sua única fonte de sustento é tamanho que eles decidiram convocar mutirões para tentar transferir os peixes do rio contaminado para lagoas de água limpa. Batizada como "Operação Arca de Noé", a força-tarefa voluntária operará em locais que ainda não foram atingidos pelo "tsunami de lama" que desce o rio Doce desde o dia 5.

Dourados, surubins, pacus, tucunarés, pintados e outras espécies afetadas pelos resíduos de mineração da Samarco, empresa controlada pela brasileira Vale e pela anglo-australiana BHP, estão escapando da morte dentro de caixas d'água, caçambas e lonas plásticas; tudo "no improviso", segundo moradores.

Analistas ouvidos pela reportagem da BBC Brasil estimam que a passagem da lama e produtos químicos tenha reduzido o oxigênio do rio Doce a níveis próximos a zero, levando milhares de peixes e outros animais aquáticos à morte por asfixia.

Questionada sobre a situação dos pescadores, a Samarco disse, em nota, que "adotará as ações necessárias para identificação e mitigação dos impactos e reportará aos órgãos ambientais competentes".

A mineradora diz ainda que vai "priorizar a assistência à população afetada pelo acidente" e que "está executando um sistema emergencial de monitoramento da qualidade de água no Rio Doce", com "pareceres técnicos imparciais, de equipe multidisciplinar renomada". A empresa não informou, no entanto, quando o estudo estará pronto, nem quem faz parte desta equipe.

sábado, 14 de novembro de 2015

Armas brasileiras abastecem guerra no Iêmen

O Iêmen é a nova Síria. Desde o início do ano, o país passa por uma guerra civil provocada pela disputa entre duas facções pela legitimidade do governo. Para complicar, células da Al-Qaeda e do chamado Estado Islâmico intensificaram suas operações e já controlam grandes extensões do território iemenita. Constantes ataques aéreos estão transformando as cidades históricas em ruínas.

O custo humano do conflito é assustador. Os confrontos já causaram pelo menos 2.577 mortes de civis -— 86% de todas as mortes relacionadas aos combates no primeiro semestre de 2015 — e 5.078 feridos. Provocaram também o deslocamento interno de cerca de 1,5 milhão de pessoas e milhares de refugiados em Omã, Djibuti e Somália. A Organização das Nações Unidas estima que pelo menos 13 milhões de pessoas estejam sem acesso a água limpa.


O Iêmen é considerado fundamental para a estabilização do Oriente Médio, além de ser um importante canal para a chegada de ajuda humanitária ao Chifre da África. Muitos Estados, entre os quais o Brasil, condenam o aumento da violência no país. O governo brasileiro fez um apelo para que as partes em conflito parassem com a violência na região e entrassem em diálogo. Recentemente, o Brasil assinou acordos com o Iêmen para a promoção de segurança alimentar, desenvolvimento agrícola e programas escolares.

A crise vai muito além da mera tentativa de controle da capital, Saná. O país está no meio de uma guerra bem maior: de um lado, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita e apoiada pelos Estados Unidos que defende o governo deposto de Hadi; de outro, a milícia Houthi, que tem apoio do Irã e hoje controla Saná.

O que alimenta essa tragédia é o grande suprimento de armas. E potências como os Estados Unidos, a Arábia Saudita, o Irã e seus parceiros não são os únicos fornecedores. O Brasil, um país com pouca tradição de interferência no Oriente Médio, também está indiretamente envolvido. Na semana passada, foram encontradas armas de fragmentação não detonadas produzidas pela empresa brasileira Avibras Indústria Aeroespacial. Os foguetes brasileiros teriam sido utilizados pelas forças da coalizão saudita.

Os detalhes técnicos são importantes. Os foguetes, SS-60 e SS-80 (ou submunições), foram lançados com um sistema de lançamento múltiplo chamado Astros. A Avibras alega que as armas deveriam se "autodestruir" com o impacto, mas fotografias feitas no local local provam que isso nem sempre acontece. Por não discriminar alvos, e nem sempre explodir assim que entram em contato com o solo, elas representam uma grande ameaça para civis inocentes.

Esse tipo de munição é proibida pelas leis internacionais. Cerca de cem Estados já baniram a fabricação, a estocagem e o uso. O Brasil, a Arábia Saudita e os Estados Unidos não fazem parte dessa lista.

Ao verem as fotos mostradas pela Anistia Internacional, representantes da Avibras admitiram que os artefatos "lembram" seus produtos. A empresa declarou que vai investigar o incidente.

Não seria a primeira vez que a Avibras vende armas a países com antecedentes de violação aos direitos humanos. Em 2012, a empresa vendeu 36 lançadores de mísseis para a Indonésia, que foram entregues em 2014 a um custo 400 milhões de dólares. Embora a crise econômica brasileira esteja afetando o setor de defesa, a Avibras relatou um lucro de mais de 25 milhões de dólares no ano passado, e espera superar os 250 milhões em vendas em 2015.

O Brasil não é novo no mercado mundial de armas. Desde a década de 1980, o país vem fornecendo armas para a Arábia Saudita, o Irã, a Líbia e outros países do Oriente Médio e da África. Quase sempre, as críticas internas direcionadas aos subsídios governamentais e incentivos fiscais que favorecem a produção de armas de fragmentação são ignoradas. O Ministério da Defesa chegou aintervir para garantir a solvência de empresas como a Avibras, sem mostrar muito interesse pelo destino das armas.

Essa situação não é mais sustentável. O Brasil é atualmente osegundo maior produtor de armas de pequeno porte e munições do hemisfério ocidental, e o quarto do mundo. A Avibras está negociando contratos estimados em 2 bilhões de dólares com a Arábia Saudita e o Catar para o fornecimento de armas. Ao mesmo tempo, o país se orgulha de promover a paz e a segurança no cenário internacional, além de defender o cumprimento dos mais altos padrões de respeito aos direitos humanos. É uma contradição clara.

Por um lado, o Brasil foi um dos primeiros a assinar o Tratado sobre o Comércio de Armas (TCA), em 2013. O tratado proíbe que os Estados vendam armas convencionais a países que possam cometer crimes contra a humanidade, violações de leis humanitárias e violência contra crianças. Esse é exatamente o caso do Iêmen. O país se vangloria por ter assinado o TCA. Os diplomatas brasileiros defendem que "o Brasil é a favor de um instrumento internacional vinculante que discipline o comércio lícito de armas convencionais, armas de pequeno porte e suas munições". E conclamam os Estados a limitar a posse de armas a situações de "autodefesa individual ou coletiva". Esse posicionamento é bastante bem-vindo, já que a política de exportação do país ainda é regulada por um obscuro decreto da época da ditadura militar.

Por outro lado, o discurso infelizmente não corresponde aos atos. O país ainda não assinou a convenção que proíbe armas de fragmentação e o próprio TCA ainda não foi ratificado pelo país. O processo está parado na Câmara dos Deputados e, mesmo se aprovado pela Casa, ainda precisaria ser endossado pelo Senado e pela Presidência. São mínimas as perspectivas de ratificação em curto prazo. Até que isso aconteça, lançadores de mísseis, armas de pequeno porte e munições de fabricação brasileira vão continuar a causar estragos no Iêmen — e em outras guerras ao redor do mundo.

Robert Muggah

A teoria do rabo preso

Sem deixar de ser o fenômeno que os primeiros viajantes estrangeiros já tinham observado e que mais tarde o sociólogo francês Roger Bastide consagrou no livro “Terra de contrastes”, o Brasil continua sendo também o país dos absurdos, o reino do surrealismo feito de “hipocrinismo”, uma mistura pós-moderna de hipocrisia e cinismo. A cada dia temos mostras disso e, como exemplo, já não cito mais nem o escandaloso caso do presidente da Câmara, que, pelo jeito, para ser condenado, talvez tenha que ser despachado para a Suíça. Enquanto isso, os deputados Chico Alencar e Jean Willys estão na mira do Conselho de Ética por quebra de decoro. O autor de uma das representações é o deputado João Rodrigues, do PSD de Santa Catarina. Para quem não se lembra, é aquele parlamentar que, durante a votação da reforma política, foi flagrado assistindo a um vídeo pornô no plenário. “Temos que moralizar a Câmara dos Deputados”, justificou seu pedido de punição. Quando lhe perguntaram se ele mesmo não teria quebrado o decoro ao ficar praticando aquele ato solitário em meio a uma sessão tão importante, ele entregou parte de seus colegas: “Se fosse crime, metade dos deputados não estaria na Câmara”. A revelação reforça a teoria do rabo preso, que procura explicar também por que Eduardo Cunha, apesar das evidências, recebe tanto apoio parlamentar. Seria graças à poderosa medida cautelar do “hoje sou eu, amanhã pode ser você”.

Com a greve dos táxis, o Rio deu sua contribuição ao festival de absurdos que assola o país. Não é fácil entender um movimento em que 800 pessoas lideradas por um motorista sem autonomia e com três passagens pela polícia foi capaz de impedir o trabalho de milhares de colegas profissionais, parando o trânsito com gigantescos engarrafamentos e fechando vias e túneis. O resultado é que trajetos que normalmente levam 20/30 minutos para serem percorridos demoraram até duas horas de carro ou de ônibus. Em vez de enfrentar a concorrência melhorando seus serviços, os grevistas agrediram com ovos os colegas que não tinham aderido e os motoristas do Uber, um aplicativo cujo funcionamento foi autorizado pela Justiça. Outro aspecto sem sentido desse episódio foi a posição das autoridades municipais, recusando-se a punir os grevistas da cidade no momento em que o governo federal baixou uma MP multando os caminhoneiros que fizeram o mesmo na estrada. Cientistas políticos atribuem a omissão ao fato de que os “taxistas são cabos eleitorais importantes”, com os quais o provável candidato oficial teria naturalmente o compromisso de toma lá, dá cá, ou seja, o rabo preso.

Zuenir Ventura

Uma lei bolivariana

O Congresso Nacional aprovou e a presidente Dilma sancionou um projeto de lei que, nas circunstâncias atuais do país, parece ter sido concebido em reunião conjunta com o cubano PCC e com o PSUV (partido da ditadura venezuelana). A legislação brasileira já regula e penaliza, como deve, a calúnia, a injúria e a difamação. A nova lei acrescenta uma extraordinária facilidade para a obtenção do direito de resposta, por determinação judicial, já nas primeiras 24 horas da solicitação, tenha ou não havido tempo para contraditório ou ampla defesa.

Parece desnecessário explicar que a nova lei, com data de anteontem, 11 de novembro, não foi pensada, redigida e rapidamente aprovada tendo em vista a proteção do cidadão comum ou das instituições privadas. Quem, em primeiríssimo lugar, buscava resguardo de imagem eram os próprios legisladores que aprovaram o projeto e a chefia do governo que sancionou a lei. Na perspectiva de uns e outros, o que está a exigir providências não é o insignificante e pouco digno papel que desempenham perante a crise moral, política, econômica e social do país, mas a rejeição nacional a esse tipo de protagonismo.

Fico a me perguntar o que esperam os ilustres cavalheiros e as distintas damas que a sociedade faça? Que os corteje com aplausos e reconhecimentos? Que exclamemos - "Como vai bem o ilustre parlamentar quando defende o governo! Que gestos! Que eloquência!". Ou então: "Os 81 senhores senadores receberam carros novos. Que atenções e medidas lhes poderão exigir as remotas províncias enquanto desfrutam o fugaz odor da novidade?". Ou ainda: "Que mais pode fazer um governo em hora de crise, além de zelar por si mesmo?". O país? Ora, o país! O que é ele, diante dos cargos e recursos do poder?

Por questão de formação, cuido de ser civilizado nas minhas críticas, que raramente são pessoais. Por isso, não temo incorrer nas vedações da lei. Mas é forçoso reconhecer que ela inibe a crítica política. Decisões a esse respeito dependerão exclusivamente do entendimento imediato dos juízes a quem couberem (a lei exige urgência nas decisões relativas à matéria). Os julgadores podem considerar que não há distinção entre honra objetiva e subjetiva, ou seja, o reclamante pode ser um canalha condenado e preso, mas tem o direito de não ser chamado de canalha ou (como li num artigo jurídico) "não ser totalmente canalha".

Doravante, desonrados lutarão bravamente em defesa da própria honra, em breves e exitosos duelos jurídicos, apadrinhados pela nova lei.

Nada é tão ruim que não possa piorar

Sempre com maior intensidade, é esse o sentimento que domina o país: vai ficar pior. Prevalece a máxima décadas atrás lembrada por mestre Helio Fernandes, de que “no Brasil o dia seguinte sempre consegue ficar um pouquinho pior do que a véspera”.

A Câmara acaba de aprovar projeto anistiando todo vigarista que tenha mandado dinheiro podre para o exterior,caso se disponha a repatriá-lo. Nenhuma punição sofrerá por haver lesado a Receita Federal, muito menos em se tratando de recursos provenientes do crime, da corrupção, dos cofres públicos ou do tráfico de drogas.


Ao mesmo tempo, mais se enrola o deputado Eduardo Cunha em seus desmentidos que apenas confirmam participação nas remessas e na movimentação de milhões de reais em contas secretas na Suíça e outros paraísos fiscais.

O presidente da Câmara mantém-se no exercício de suas funções, auxiliado pelo governo, em troca de protelar decisões sobre pedidos de impeachment da presidente Dilma. Líderes dos partidos comprometem-se por escrito a sustentar quem os vem sustentando faz muito, através de benesses e favores variados.

O ajuste fiscal dorme nas gavetas parlamentares enquanto a crise econômica se adensa, prevalecendo apenas a redução de direitos trabalhistas, o aumento de impostos, taxas e serviços públicos, elevando-se o custo de vida e reduzindo-se o valor dos salários. Sucedem-se as greves sem que as reivindicações das diversas categorias sejam atendidas, ao tempo em que se discute se Joaquim Levy sai e Henrique Meirelles entra, ambos preparados para impor mudanças que só prejudicarão o trabalhador, beneficiando as mesmas elites de sempre. O desemprego se multiplica sem que se tenha ouvido uma palavra, sequer, do ministro do Trabalho, ao tempo em que a recessão se amplia.

Em meio à inação do Executivo e do Legislativo, quem melhor definiu o impasse atual foi o senador Cristóvam Buarque, esta semana.Da tribuna, denunciou a impossibilidade de o país sobreviver envolto na ânsia do lucro, na ganância, na improvisação, na corrupção e na avidez do consumo.

O lucro estimula o desenvolvimento, desde que não atropelado pela ganância, que gera a improvisação e deságua na corrupção, fator a estimular o consumo desmedido. Uma cadeia de fatores cujo resultado será a desagregação nacional. Vale aguardar o dia de amanhã para saber o que de pior vem por aí, na certeza dessa progressão ser inexorável.

Propagandas de guerra

Somos doces, quase melados. É, dizem, nossa herança portuguesa. Caetano Veloso e João Pereira Coutinho duelam sobre Israel/Palestina. Aparentemente, divergem em tudo, menos nos bons sentimentos. De fato, estão de acordo sobre o ponto crucial: partindo de premissas simétricas, descartam a paz pela partilha da Terra Santa em dois Estados. Fazem propaganda de guerra. Suavemente.

Na sua crítica, Coutinho (Folha, 10.nov) explica que é inviável trocar terra por paz pois "a parte árabe sempre recusou essa troca". Como prova, oferece uma visita cuidadosamente truncada à história do conflito, que poderia ser subscrita por Netanyahu. Lá estão o Plano de Partilha da ONU, o Nasser dos "Três Nãos" e o Hamas. Mas, nela, desaparece a pulsão expansionista do sionismo, tão antiga quanto o rejeicionismo árabe-palestino.

Do mapa de Israel comissionado por Ben Gurion, em 1949, que apagava os nomes árabes da topografia da Terra Santa, aos manuais escolares israelenses, que exibiam os palestinos como nômades do deserto, desenrola-se uma etapa dessa história. Das colônias judaicas nos territórios ocupados à anexação da porção árabe de Jerusalém, e dali à incorporação dos arautos do Grande Israel aos gabinetes de Netanyahu, desdobra-se a segunda etapa. Dizer que "a parte árabe" sempre recusou a partilha é tão verdadeiro (ou falso) quanto retrucar que "a parte israelense" sempre a recusou.

Desde 2000, quando Sharon oficiou as exéquias dos acordos de Oslo, Israel congelou as negociações, alegando a ausência de interlocutores legítimos. "Os palestinos são terroristas" –o álibi de Netanyahu emerge na invocação de Coutinho sobre "o que aconteceu em Gaza". Mas a retirada de Gaza não era um passo no rumo da paz pela partilha. Sharon, não tão cândido quanto Coutinho, jamais ocultou que sua iniciativa unilateral era o componente inicial de uma "paz dos vencedores" baseada na anexação de Jerusalém e de vastas áreas da Cisjordânia. Sharon fazia política, falando para israelenses; Coutinho faz propaganda, falando para brasileiros.

Caetano (Folha, 8.nov) usa as vozes de outros para narrar a sua própria conversão. No início, ele está com o Breaking the Silence, que contesta a ocupação; no fim, adere ao BDS, que contesta a existência de Israel. A violência da ocupação aparece, no começo, como expressão das políticas israelenses; depois, como o fruto envenenado da própria natureza do Estado judeu. Na conclusão, o texto celebra a memória de Yeshayahu Leibowitz –mas de um modo ligeiro, que o reinventa como pioneiro do BDS. O Leibowitz real, um judeu puritano, um libertário inflexível e um sionista de primeira água, alertava sobre os efeitos desastrosos da ocupação sobre a democracia israelense para pedir uma paz em dois Estados. Já o Leibowitz caetanizado detectou "aspectos nazistas na política do país" e traçou o "paralelo Israel/África do Sul" para sustentar um adeus definitivo a Israel.

"Apartheid", "nazismo". Caetano reprova as "formas altivas de intolerância" dos "garotos militantes" do BDS, mas salpica seu adeus com as senhas que eles utilizam. Ele conta que, entre shows e ensaios, "redobrou as pesquisas" sobre o conflito na Terra Santa, mas parece nunca ter acessado os documentos do BDS, disponíveis na internet. Se tivesse feito a lição de casa, saberia que a erradicação de Israel é, realmente, o objetivo político do movimento, não um boato difundido por sindicalistas brasileiros ultraesquerdistas. Mas, nesse caso, sua peça de propaganda seria menos persuasiva.

A propaganda eficaz é uma espécie singular de mentira, erguida com os tijolos da verdade. Coutinho e Caetano completam-se mutuamente. Lendo um, tenho vontade de concordar com o outro –e vice-versa. Eles não precisam polemizar: no fim do arco-íris, abraçam-se na rejeição à única fórmula de paz em Israel/Palestina.

É a política, idiota

Do que adianta a fórmula econômica por mais brilhante que a seja se no cenário não há liderança politica confiável a lhe assegurar um rumo seguro?

O povão entende tanto assim de economia quanto se mostra entendedor de futebol?

O que se sabe nesta atual conjuntura é que o povão está detestando o Governo e odiando os políticos. O desprezo próximo a 100% está, assim, quase total.



E como, no brocardo, araruta tem seu dia de mingau também na politica como de resto na vida todo sabido tem o seu dia de bobo.

É bem possível que o Lula nem tenha atinado para o grande risco quando à maneira do antigo dedaço dos mexicanos benzeu a Dilma proclamando-a sucessora.

Sem saber ao certo como seria mesmo a Dilma Presidente, o Lula não deve ter pensado que o PT sendo na origem um partido revolucionário no formato do mexicano PRI fosse desistir do projeto, - aliás, muito comum a quase todos que chegam ao poder neste lado de baixo do Equador, - de ter nas mãos o Estado e suas instituições, aparelhando-os para um domínio de, pelo menos, 20 anos, o que seria até muita modéstia se comparados aos 70 anos de mandonismo sucessivo e absoluto do Partido Revolucionário Institucional, o PRI do México.

Todos que se aproveitaram da democracia querendo o poder do Estado para em seguida, valendo-se da mistificação das massas pela propaganda politica, suprimir por inteiro a pluralidade democrática, não alcançaram, felizmente para nós democratas, o seu desiderato final.

Lula teve a boa sorte, todos o sabemos, de no primeiro mandato manejar sua equivocada politica econômica mais focada no crédito fácil e no consumo do que na produção e investimentos em saúde, educação, ciência e tecnologia. Foi usufrutuário e esmerilador da herança bendita do Plano Real legado do Itamar e do FHC.

No segundo mandato, o apagão moral, as afrontas à ética e o descalabro da nova classe politica, trazendo à tona o mensalão e seus artífices e beneficiários a indicarem o rastilho aos propinodutos bilionários do petrolão resultante da diabólica aliança entre a ganancia de empreiteiros poderosos e donos de partidos políticos que à custa do dinheiro público atuam como pequenas em grandes negócios.

Por mais que estejamos cansados de saber, é sempre bom lembrar que foi o Lula quem inventou a Dilma. Não tem do que reclamar. Nós, o Povo em geral, fomos traídos quando o PT nos fez acreditar que tudo ia muito bem e que o criador e sua criatura se somavam numa coisa só como gente do bem.

No ultimo ano da Dilma, o “Volta Lula” se irradiava do PT aos outros partidos aliados. Ninguém sabe o que a Dilma disse em particular ao Lula para ele desistir rapidamente da candidatura poucas horas antes da reunião do PT em que ela se anunciou candidata à reeleição. A Dilma não gosta de politica, mas deu um nó daqueles num especialista como o Lula.

O primeiro quadriênio da Dilma já se revelara uma catástrofe política. Sobre economia quase nada se falou na campanha. Houve nos dois lados muita omissão, quer dizer, mentira que se disfarça em silencio. O tubarão da politica – aquele que se não come estraga - já fizera na economia grandes estragos.

Agora o Lula, que tem sob sua batuta a Casa Civil e a Coordenação Politica do Governo, cuida de desestabilizar o Levy, Ministro da Fazenda, querendo o lugar para o Meireles.

Ou seja, a intuição do Lula nos faz intuir que no Brasil hoje aquela advertência de James Carville, decisiva para Bill Clinton ganhar o primeiro mandato de Presidente dos Estados Unidos – “é a economia, estúpido” , – tem agora outra versão – “é a politica, imbecil”.

Edson Vidigal

FHC só invejaria Lula se sonhasse desde menino com a falência do Brasil

O ex-presidente Lula confirmou nesta quarta-feira que jamais se livrará da assombração que lhe confisca o sono desde o século passado. “Fernando Henrique Cardoso tem inveja do meu sucesso”, repetiu o palanque ambulante castigado por rachaduras que anunciam o desabamento inevitável. O embusteiro em seu ocaso não consegue esquecer o homem que o surrou nas urnas. Duas vezes, ambas no primeiro turno.

“É só comparar meu governo com o dele para saber por que o FHC não se conforma com um operário que deu certo na Presidência”, delirou o parteiro da conjunção de crises que ameaça o país com a falência política, econômica e moral. “Vejam o que eles fizeram e o que nós fizemos”. Se a oposição fosse menos inepta e mais altiva, teria aceitado há muito tempo o confronto proposto pelo recordista mundial de bravata & bazófia.

A mirada no retrovisor refletiria as incontáveis abjeções que escurecem a trajetória do PT, conduzido desde sempre pelo sinuelo desprovido do sentimento da vergonha. Em novembro de 1984, por não enxergar diferenças entre Paulo Maluf e Tancredo Neves, o partido optou pela abstenção no Colégio Eleitoral que escolheria o primeiro presidente civil depois do ciclo dos generais. Em janeiro de 1985, os deputados federais Airton Soares, José Eudes e Bete Mendes votaram em Tancredo. Foram expulsos do PT por ordem do comandante.

Em 1988, a bancada do PT na Constituinte recusou-se a assinar o texto da nova Constituição. No mesmo ano, num discurso em Aracaju, o deputado federal Luiz Inácio Lula da Silva informou que o presidente José Sarney era “o grande ladrão da Nova República”. Lula e Sarney não demoraram a descobrir que haviam nascido um para o outro, Hoje são amigos de infância.

Na campanha presidencial de 1989, o candidato do PT acusou Fernando Collor de “filhote da ditadura”. Depois do impeachment, “corrupto” foi a palavra mais branda que usou para qualificar o inimigo. Collor revidou com dois adjetivos no fígado (“ignorante” e “cambalacheiro”) e uma frase no queixo: “Lula é incapaz de distinguir uma fatura de uma duplicata”.

As duas almas gêmeas saberiam que também dividiam a paixão pela fortuna súbita que precede a vida perigosamente mansa. No momento, o senador do PTB de Alagoas e o chefão do partido que virou bando são colegas de Petrolão. Fora o resto, estiveram juntos no esquema que esvaziou os cofres da estatal. Poderão juntar-se de novo na traseira do mesmo camburão.

Em 1993, a ex-prefeita Luiza Erundina, uma das fundadoras do partido, aceitou o convite do presidente Itamar Franco para participar do ministério. Foi empurrada para fora do PT. Em 1994, ainda no governo Itamar Franco, os parlamentares petistas lutaram com ferocidade para impedir a aprovação do Plano Real. No mesmo ano, transformaram a revogação da mudança que erradicara a praga da inflação na bandeira principal da campanha presidencial.

Entre o começo de janeiro de 1995 e o fim de dezembro de 2002, a bancada do PT votou contra todos os projetos, medidas, sugestões ou ideias encaminhados ao Legislativo pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Todos, sem exceção. Uma das propostas mais intensamente combatidas foi a que instituiu a Lei de Responsabilidade Fiscal. Desde a ressurreição da democracia, a ação do PT oposicionista foi permanentemente subordinada a sentimentos menores, interesses mesquinhos, objetivos sórdidos e sonhos liberticidas.

Em janeiro de 1999, mal iniciado o segundo mandato, o deputado Tarso Genro propôs a deposição do presidente reeleito e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. O lançamento da campanha com o mote “Fora FHC!” evocou acusações que Tarso enfeixou num artigo publicado pela Folha. Trecho: “O presidente Fernando Henrique está pessoalmente responsabilizado por amparar um grupo fora da lei, que controla as finanças do Estado e subordina o trabalho e o capital do país ao enriquecimento ilegítimo de uns poucos. Alguns bancos lucraram em janeiro (evidentemente, por ter informações privilegiadas) US$ 1,3 bilhão, valor que não lucraram em todo o ano passado!

Depois da eleição de 2002, FHC impediu que a inflação fosse ressuscitada pelo medo decorrente da ascensão do PT. Entre o começo de novembro e o fim de dezembro, FHC comandou a primeira transição civilizada da história republicana e entregou a casa em ordem. Um surto de juízo aconselhou o sucessor a entregar a direção do Banco Central a Henrique Meirelles, eleito deputado federal pelo PSDB de Goiás. Três meses depois da posse, o oportunista de nascença começou a costurar a fantasia repulsiva da “herança maldita”.

O reizinho malandro finalmente está nu. O vigarista que prometia moralizar o país é o padroeiro de quadrilhas insaciáveis. O oposicionista que ignorou a mão estendida por Tancredo Neves passou a confraternizar com qualquer caso de polícia. A vestal de bordel institucionalizou a roubalheira impune. Meteu-se até o pescoço nos maiores escândalos registrados desde a chegada das caravelas. E ensinou os filhos a fazer o que fazem.

A nação enfim acordou, e entendeu que o inventor do Brasil Maravilha era o disfarce do farsante boquirroto. O milagreiro de araque recebeu de FHC um país pronto para o ingresso no mundo civilizado. Com a ajuda do poste que instalou no Planalto, reaproximou o Brasil do tempo das cavernas. É ele o pai da verdadeira herança maldita. Mas nem fica ruborizado ao recitar que FHC sempre quis ser Lula quando crescesse.

“É inveja”, esbraveja o marechal do que o ministro Celso de Mello qualificou de projeto criminoso de poder. O espelho berra o contrário. Nenhum homem culto prefere ser ignorante. Gente civilizada despreza a tribo dos primitivos. Um estadista honrado quer distância de um politiqueiro fora da lei.

Sobretudo, o vencedor não tem motivos para invejar um vencido que também sucumbiu à espécie de ressentimento para o qual não há remédio — e o tempo não cura.