domingo, 15 de fevereiro de 2015

Impeachment, uma ideia discutível


Acho inteiramente equivocada essa onda de impeachment. Dilma Rousseff é uma das pessoas mais incompetentes a ocupar a presidência, mas foi eleita pela maioria dos votos válidos. Se os seus eleitores foram incapazes de enxergar além das imagens enganosas da propaganda, se caíram no discurso petista de ódio e de desconstrução dos adversários, se o seu marqueteiro era melhor do que o do Aécio ou o da Marina, se genuinamente acham a “presidenta” a pessoa ideal para o cargo, azar (de fato) o nosso.

Não há nada que não se saiba hoje que já não se soubesse antes.

Sim, Dilma disse uma coisa na campanha e fez outra após a reeleição; mas isso é surpresa? Ela já havia dito, com todas as letras, que em campanha faz-se o diabo; pois fez. Esperavam outra coisa de uma pessoa que falsifica currículo Lattes?

Sim, ela está metida até os cabelos no escândalo da Petrobras, seja por omissão, seja (mais uma vez) por incompetência pura e simples: o tempo dirá. Mas qual é a novidade? Ou seus eleitores maiores de idade, alfabetizados e vacinados não sabiam disso?

É claro que, se estiver ativa e diretamente implicada na roubalheira, a coisa muda de figura; corrupção é crime com o qual não se deve ter contemplação, e aí impeachment é o mínimo que se espera. Mas, até aqui, não existem provas reais do seu envolvimento.

O impeachment é uma péssima ideia por muitos motivos. Ao contrário do que pregam os governistas aos quatro cantos, ele não é uma ruptura do tecido democrático; é uma das suas ferramentas essenciais. Ou alguém consegue imaginar um processo de impeachment contra Kim Jong-Un ou Raúl Castro?

Mas o que é que o país tem a ganhar nesse momento com um eventual impeachment? Michel Temer na presidência? Novas eleições, ainda por cima num clima de total instabilidade política? Com a militância petista em grau de histeria máxima e o MST cumprindo a promessa de parar o país, chantagem que já havia sido explicitada quando Marina disparou nas pesquisas? Para quê?

Ninguém vai conseguir consertar o Brasil de uma hora para outra. A inflação não vai diminuir por passe de mágica, as crises de água e de energia não vão desaparecer, o estado não vai encolher, ou no mínimo se “desaparelhar” do dia para a noite. Tudo isso vai tomar tempo, e a conta vai ser alta para todos nós; mas vai ser alta, sobretudo, para quem quiser sanear o governo.

Se Dilma for defenestrada, seu sucessor, ou sucessora, vai amargar as consequências do que ela plantou, enquanto o PT posará como vítima de golpe em mais um 3 x 4 photoshopado para a História.

Não haverá melhor cenário para a reeleição de Lula em 2018. Até lá, tudo o que estiver dando errado no país será culpa de quem estiver no lugar de Dilma, a Incompreendida.

Que ela termine o mandato que recebeu dos eleitores, e que a conta metafórica da sua incompetência vá para quem de direito. A conta real já estamos pagando.

Brasília abandonada


Caso desembarcasse em Brasília neste Carnaval, o ET tomaria o poder, podendo ancorar o seu disco-voador no palácio do Planalto, no Congresso ou no prédio do Supremo Tribunal Federal. Faria da Esplanada dos Ministérios pista para as aeronaves de apoio e palco para uma exposição sobre as excelências do governo alienígena em substituição aos três poderes da União, ausentes da capital federal desde sexta-feira.

A presidente Dilma refugiou-se na Base Naval de Aratu, na Bahia, disposta a não atender telefones nem dedilhar as diabólicas maquininhas capazes de conectá-la com o mundo exterior. O vice-presidente Michel Temer permanece em São Paulo.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, viajou para o exterior sem informar qual o país, e o presidente do Senado, Renan Calheiros, aproveita o sol da praia da Barra de São Miguel, em Alagoas. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, passeia entre a Itália e a Espanha. Dos ministros palacianos sabe-se encontrarem-se em seus estados de origem, assim como os demais integrantes da equipe governamental, até os da área econômica. Deputados e senadores descansam em suas bases, fora os convidados para os desfiles no Sambódromo, no Rio. Até os tradicionais colunistas dos principais jornais escafederam-se.

Brasília, sede dos poderes da União, está deserta. Abandonada, até por parte de sua população. Vivêssemos os tempos bicudos da ditadura e o palco estaria armado para a eclosão de mais um golpe dentro do golpe, já que os soldados permanecem nos quartéis. Como o regime é democrático, fica apenas o vazio, sempre propício aos inusitados, mesmo os indesejados.

O singular nessa constatação é que não se fala nas malvadas medidas de ajuste financeiro e supressão de direitos trabalhistas. Nem da progressiva alta de preços. Sequer no perigo da inflação ou de novos lances do escândalo na Petrobras. Apesar da ausência de chuva, a crise hídrica e a falta de energia deixaram de preocupar. Nem a vergonha do mau funcionamento da saúde pública merece as referências de sempre. Como as escolas e universidades estão fechadas, vale o mesmo para as carências do ensino.

Convenhamos, Brasília abandonada parece tranquilizar o resto do país. A inexistência do governo federal em nada prejudica a vida de 200 milhões de habitantes. O diabo é se a moda pega e a experiência frutifica. A menos, é claro, que o ET se disponha a desembarcar… 

A vaca no brejo - e tossindo

A política brasileira, na Era PT, ganhou novos cenários: tribunais, camburões, carceragem da Polícia Federal, Papuda. Nenhum governista dorme hoje tranquilo

O PT reage à hipótese de impeachment, em curso, dentro e fora do Congresso, com argumentos de pretenso fundo moral, os mesmos que desprezou quando na oposição. O partido, que teve protagonismo no impeachment de Collor, tentou reeditá-lo, sem êxito – e sem fundamento -, no início do segundo mandato de FHC.

Hoje, prova do próprio veneno.

No caso Collor, não teve o monopólio da causa, bem-sucedida porque fundamentada e com apoio na sociedade. No caso de Fernando Henrique – o inacreditável “Fora, FHC!”, de 1999 -, pretendeu impugná-lo com base em acusações ideológicas. Não havia um só fato concreto – e não encontrou ressonância.

Hoje, o partido, que protagoniza o maior escândalo financeiro de que se tem notícia, o Petrolão, alega que o impeachment não passa de manobra golpista. Não é: o instituto está na Constituição, que prevê seu rito e circunstância; acioná-lo, portanto, é ato legítimo, que não fere as regras do jogo.

Se não houver consistência, a parte questionada tem meios para reverter a situação e dela até sair fortalecida. Há dias, o senador Lindbergh Faria (PT-RJ) chamou a atenção, em tom perplexo, para o fato de que, tendo o governo menos de dois meses de empossado, não pode ser submetido a tal cobrança.

Ora, o “Fora, FHC!” teve início aos vinte e cinco dias do mandato do presidente reeleito. Tarso Genro, cabeça coroada do partido, em artigo publicado na Folha de S. Paulo, no dia 25 de janeiro de 1999, propôs não o impeachment, mas a deposição pura e simples do presidente e novas eleições.


O uso ilegal da máquina administrativa – como no caso dos Correios em Minas Gerais, que não distribuiu o material de campanha da oposição, postado e pago, e usou gratuitamente os estafetas da empresa como garotos-propaganda do PT – é suficiente para impugnar uma eleição.

Reconhecia não haver tal demanda na sociedade – que, no entanto, dizia ele, precisava “superar o estupor e a letargia e desencadear um amplo processo de articulação” -, nem os meios legais, o que o impelia a conclamar o Congresso a que votasse emenda à Constituição para depor o presidente recém-reeleito. Nem ousava propor o impeachment, por sabê-lo plenamente descabido. Aquilo, sim, seria golpe.

Apenas um argumento de então, com relação a prazos, aplica-se ao que hoje ocorre. A reeleição impõe ao novo mandato a responsabilidade pelo anterior, já que se trata de continuidade. Nesse caso, Dilma não está sendo cobrada pelos dois meses atuais, mas também pelos quatro anos anteriores.

A rigor, não apenas: sendo herdeira do governo Lula, responde não por quatro, mas por 12 anos e dois meses de gestão – período em que vigeu o Petrolão -, cujo teor ético faz com que seu governo ocupe hoje mais as páginas policiais que as de política.

A política brasileira, na Era PT, ganhou novos cenários: tribunais, camburões, carceragem da Polícia Federal, Papuda. O Congresso tornou-se caixa de ressonância daqueles ambientes. É o que lá acontece que hoje move as peças do tabuleiro de xadrez (sem trocadilho) da política. A nomeação de ministros passa pelo exame das chances de que não venha a ser imputado criminalmente. Nenhum governista dorme hoje tranquilo.

Enquanto o “Fora FHC” alegava, para sustentar a deposição do presidente, um suposto “estado de ingovernabilidade do país” – e o acusava de transferir “a responsabilidade constitucional de governar” para “os gestores dos organismos financeiros das grandes potências e para os especuladores internacionais” – Dilma vê-se diante de questões bem mais concretas e palpáveis.

Leia mais o artigo de Ruy Fabiano

Todo mundo de preto

A troika governamental que se reelegeu. ou a Turma da Escuridão
O sustento nababesco dos companheiros com dinheiro público é uma das poucas instituições realmente sólidas no Brasil
Depois do carnaval, Dilma Rousseff fará um pronunciamento à nação, em cadeia nacional de rádio e TV, para defender a Petrobras. Providência oportuna. A maior estatal brasileira está afundando, e isso é grave.

Como se sabe agora, uma boa fatia do dinheiro que ajuda o PT a ficar para sempre no poder é sugada da Petrobras. É o orçamento da revolução companheira que está em jogo — e com isso não se brinca.

Em defesa da Petrobras, Dilma deveria começar sua fala aos brasileiros condenando esse absurdo, esse descalabro que é a ação da polícia e da Justiça.

De forma golpista e neoliberal, os homens da lei insistem em tentar sabotar o duto entre a estatal do petróleo e o Partido dos Trabalhadores.

O sustento nababesco dos companheiros com dinheiro público é uma das poucas instituições realmente sólidas no Brasil do século 21 — e esses invejosos são assim mesmo, não podem ver nada funcionando direito que já querem melar.

Só falta exigirem que os guerreiros do povo brasileiro devolvam as centenas de milhões de dólares que ganharam da Petrobras com o suor dos seus rostos e das suas mãos ágeis. Dilma não pode permitir esse golpe da elite branca.

No seu pronunciamento pós-carnavalesco, a presidenta mulher e oprimida precisa denunciar o preconceito. Como se não bastasse o trauma do mensalão, lá vêm as vozes reacionárias perseguir novamente as estrelas do proletariado.

Será que o Brasil, esse insensível, não se lembra do sofrimento imposto ao nosso Delúbio, só porque o tesoureiro zelava pela segurança das transferências do Banco do Brasil para os cofres da revolução?

Não, não se lembra. Senão não estaria impondo a mesma tortura a Vaccari. Só pode ser preconceito contra a categoria dos tesoureiros.

Agora está aí, nas manchetes da imprensa burguesa: João Vaccari e José Dirceu recebiam pessoalmente parte da propina da Petrobras destinada ao PT, segundo a investigação da Lava-Jato. Prezado brasileiro, você não está desconfiando de nada?

Não percebe que são sempre os mesmos personagens implacavelmente perseguidos, só porque dão ao dinheiro do contribuinte a honra de financiar a rave deles no Palácio do Planalto?

Chega de discriminação contra o governo popular, chega de humilhar essa gente sofrida e milionária. Se vocês querem saber, seus conspiradores, os heróis do PT nem precisam desse dinheiro.

Como acaba de ser revelado, o partido criou e oficializou a propina por dentro. Está dito e confirmado pelas testemunhas do petrolão: o suborno requerido aos fornecedores da Petrobras era convertido em doação legal ao PT. Propina oficial – com recibo, à luz do dia, tudo direitinho. Parem de perseguir quem está roubando honestamente.

Leia mais o artigo de Guilherme Fiuza

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Pátria educadora é com a Xuxa

Selfie publicado no perfil oficial do ministro da Educação, Cid Gomes, rendeu críticas ao dirigente da pasta. A foto teve mais de 14.300 curtidas e mais de 3.600 compartilhamentos. Na rede social, o ministro escreveu: "Estive com a Xuxa hoje. Ela tem produzido excelentes materiais para o Ensino Infantil e se dispôs a colaborar com dois importantes projetos do Governo Federal: o Mais Creches e o Pacto Nacional de Alfabetização na Idade Certa".

O ministério, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que o encontro foi no MEC, em Brasília. A apresentadora teve uma audiência, na quarta-feira, com o ministro "para apresentar a sua Fundação, que tem 25 anos, e também seu último trabalho: o DVD "Xuxa só para Baixinhos 13".
 
OBS: Ministro tirar foto com Xuxa e afirmar que a apresentadora "tem produzido excelentes materiais para o ensino infantil" é simplesmente ridicularizar o programa Pátria Educadora de Dilma e ainda gozar com a inteligência do brasileiro.

O perigo da crítica e o reconhecimento do erro


Escrever é meritório para ajudar as pessoas. Sempre que escrevo, e quando escrevo, mesmo com críticas, procuro colocar no meu GPS mental essas coordenadas. Reconheço que esqueço e cometo erros, escrevo muito, e os planetas rodam em volta lançando suas tendências, sempre variadas. No fundo, porém, existe uma convicta vontade de procurar o melhor.

Os erros geram atrasos. Eliminá-los é a coisa melhor. São complicadores nessas circunstâncias o orgulho e a vaidade de quem erra. Isso é um grave fator que anula a oportunidade de serenamente enxergar a via da superação.

Assimilar a crítica é bem melhor que defender o erro. É preciso bastante coragem para expor à luz do sol o que está submerso. Tarefa ingrata quando poderosos, acostumados apenas a escutar elogios e neles se acomodar, são atingidos. O ouvido de um poderoso repousa a escutar um bajulador e pode se irritar em escutar a crítica.

A figura do bajulador, normalmente, se importa apenas em tirar vantagem para si de qualquer situação e já sabe que, quando a sorte do poderoso definhar, voltará suas atenções para outro. Ele aumenta a incompreensão, defende e atiça o revanchismo e lança pétalas de rosas sobre o bajulado.

O desatento perde, assim, a oportunidade de tirar proveito e de seguir adiante com a lição assimilada.

O erro, afinal, é como um tumor que, extirpado no início, será curado. A boa crítica é o diagnóstico do erro. A melhor crítica vem acompanhada de um receituário de cura.

O ser humano desapegado, tendencialmente sensato, aproveita-se da crítica, reconhece os enganos dos bajuladores, livra-se deles e vê o lado positivo do aconselhamento, como o do bisturi, que dói, corta, mas cura. O apegado, ao contrário, se considera diminuído e recorre à vingança. Nero mandou Sêneca, seu professor que o criticou, cortar suas veias para escapar da espada. A vingança fica esculpida e dolorosamente volta para cobrar a conta.

Pior que o erro é defender o erro, como defender um tumor que já se sabe ser fatal. Desperdiça-se uma vida que poderia chegar a alturas maiores.

País errado


Muita sede

Neste verão, “caminhar sedento” deixou de ser uma metáfora para quem corre atrás de suas paixões e virou a hipérbole perfeita para uma realidade a que teremos de nos acostumar cedo ou tarde durante o ano de 2015. A crise hídrica bateu na porta, nossa sede este ano será mesmo sede, será aquela vontade física mesmo, necessidade pura, simples e natural de água, não será sede de conhecimento, de amor, sede de carinho, nada disso. Importante será a água, deixemos para depois o abraço, a reflexão, a piada, o beijo, tratemos de cuidar da sobrevivência.

Somos nós o ex-país da fartura. Ruiu o deslumbramento com a terra brasileira, sentimento muito nosso, ligado ao privilegiado regime de chuvas que sempre caíram do querido céu azul, alimentando os campos verdes, as bacias das hidrelétricas, inundando nossa alma. Parece que a fonte secou e o sudeste deste país pode enfim congraçar sem preconceitos com os cidadãos do nordeste, galera que sabe tudo de como sobreviver na estiagem. Durante anos vivemos em festa sem notar como éramos afortunados, sabemos hoje, os anos de água na alma se foram e podem demorar para retornar.

O pessoal que governa por aqui anda batendo perna atrás dos riachinhos da cidade, fazem de conta que vão resolver o problema da crise hídrica. Quem vai resolver é o povo, tenho que dizer. Lavar carro com mangueira, tomar banho demorado, esquecer de consertar a pia que pinga vão ser problema depois deste verão, capaz de os palacianos inventarem uma multa. Dinheiro para eles nunca é problema.

Fico imaginando qual seria o papel de um cronista em uma terra seca com chance fatal de sede. Minha sede na alma, o que diria? Escrever seria falar de uma população hostil e louca por cravar os dentes nos que se arriscassem nas ruas sem a proteção de guarda-costas saciados. O que um cronista diria da vida em um território assim? Cadê as ruas mais ou menos seguras para onde lançar o meu olhar apalermado? Tenho certeza de que seria capturado por uns sedentos que chupariam meus olhos e cravariam meu crânio no centro de um poço artesiano.

E a seca no mundo… alguém em sã consciência acredita que sobreviveria ao caos de um planeta em conflito constante por causa da falta de água? Nós não, outros talvez, nossos avós sem dúvida, e nossos filhos não, nossos netos pode ser, poderão herdar as cidades secas e se darem bem, terão que ganhar a vida sob o jugo de corporações dessalinizadoras e clãs proprietários de poços vagabundos. Ruim, mas ainda assim uma vida.

Por enquanto a gente se defende. Um apocalipse desta ordem está totalmente descartado, dizem as autoridades. Mas saibam que no caso de uma seca mais grave quem pode, pode, e poderá sempre comprar passagens para Miami e desfrutar por lá de uma caipirinha gelada.

Os cronistas que se danem, dirão.

Os sedentos também.

Obs.: Enquanto reviso esta crônica, chove a cântaros por aqui. Água, água, água, já posso caminhar sedento.

Mas piorou


Carybé
Em todo caso, piorar não podia. O Brasil “estava à beira do abismo”. Frase retórica, mas verdadeira.
- É deixá-lo cair! É deixá-lo cair! Deve ser muito engraçado o Brasil no fundo do abismo…
Gargalharam.

Jorge Amado, "País do Carnaval"

Exemplo de manifestação é banalizado

O mais importante manifesto do ano, democrático e pacífico, mereceu apenas o noticiário negativo dos jornalões. O fato de fechar a ponte Rio-Niterói foi o "pecado" dos funcionários da Alumini, uma das empresas envolvidas na construção do Comperj e investigada na Lava-Jato. Ousaram os operários, com salários atrasados, impedir o tráfego e afrontar a proibição de não se poder no local andar a pé.
“Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir”
 (Construção, Chico Buarque)

Seguiram ordeiros, com motoqueiros, gente como eles, guardando a retaguarda. Sob o sol e o calor de 40°, marcharam por seus direitos, por sua dignidade, por suas famílias, pelo pão e para cumprir seus débitos.

Caminharam até a sede da Petrobras, no Centro, sem um tumulto, sem um vandalismo. Era o povo brasileiro na rua reclamando seus direitos. Mas não receberam da imprensa o respeito a que tinham direito. Eram apenas um fato que atrapalhou o tráfego, que mereceu injúrias dos motoristas, dos passageiros, dos que confortavelmente assistiam o transtorno no trânsito engarrafado pela televisão.

O movimento popular, digno e democrático, não mereceu o devido aplauso, porque saiu na contramão. As redes da mídia não destinaram a ele o mesmo espaço infinito com que dispensam às manifestações de black blocs, que nada mais fazem do que desestimular protestos democráticos.

Quebrar vidraças e bancos faz parte da propaganda contra você se manifestar, aderir a movimentos. Aos violentos e baderneiros, as câmeras, os flashes, os números do ibope; aos operários pacíficos, quase um silêncio, quando não um palavrão por atrapalharem o tráfego. Eis a democracia à brasileira.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

À escolha

Em nossos dias, resta ao homem uma escolha: ser um otimista que chora ou um pessimista que ri
Albert Camus

Em plena crise, grandes consumidores são premiados

Há 500 grandes consumidores de água da Sabesp que pagam preços excepcionalmente bons. Eles têm um contrato que premia o consumo, quanto maior ele for, menor será o preço pago por litro de água. É a lógica contrária à aplicada ao restante dos usuários. Mimar os melhores clientes é uma estratégia comum no mundo empresarial, exceto pelo fato de que São Paulo atravessa a pior crise hídrica em 84 anos.

Nessa lista, com data de dezembro de 2014, há condomínios de luxo, bancos, hospitais, shoppings, igrejas, indústrias, supermercados, colégios, clubes de futebol, hotéis e entidades como a Bolsa de Valores de São Paulo, a concessionária da linha 4 do Metrô, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos ou a SPTrans.

Alguns clientes [consultar lista], como o shopping Eldorado, consomem por mês cerca de 20.000 m3, o mesmo que mais de 1.200 famílias de quatro membros juntas, considerando que cada indivíduo gasta 130 litros por dia. O shopping, que recebe 1,8 milhões de visitantes por mês, não é o maior consumidor, e há quem gasta até três vezes mais, como a fábrica de celulose Viscofan no Morumbi, a campeã de consumo na lista à qual teve acesso EL PAÍS.

Mas o consumo mensal desses clientes premium pode ser ainda maior porque o levantamento, que foi enviado pela Sabesp à CPI que investiga os contratos da companhia com a Prefeitura, está incompleto. Na lista, que contempla 294 clientes que assinaram seus contratos a partir de junho de 2010, há poucas indústrias. Alvo principal desses contratos, o setor industrial responde por cerca de 40% do consumo de água no Estado, conforme os dados do Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE).

O atrativo dos contratos é que todos estes clientes pagam menos do que o valor de tabela aplicado para as atividades comerciais e industriais que desempenham. Para o shopping Eldorado, por exemplo, cada mil litros de água custam 6,27 reais, enquanto para os clientes do setor comercial que não assinaram esse contrato pagam 13,97 reais. Um desconto de mais de 55%. Já a Viscofan se beneficia de um desconto de 75%, pois a tarifa aplicada é de 3,41 reais para cada mil litros, quando, caso não tivesse o contrato, deveria pagar 13,97 reais.

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Negócios ocultos

Na república dos companheiros, os grandes negócios não são feitos na arena do mercado, mas nos meandros da política subterrânea
Demétrio Magnoli 

O mandingueiro do Planalto

Os governantes antigos consultavam os oráculos; faziam oferendas macabras aos deuses. Esse recurso de apelar às forças sobrenaturais vem de antigos tempos mas nem por isso deixaram de ser utilizados. Pode-se não mais se consultar oráculos, que ficaram lá atrás, sem qualquer força hoje. Mas estão aí as oferendas, a que nem mesmo os não religiosos recusam.Tanto que a presidente pretende despejar do Planalto uma catinga de bode sobre a população.

Será mais uma das poções preparadas no caldeirão de Pai Santana, ministro sem pasta responsável pelas mandingas de descarrego da presidente. Por sinal, muito necessitada de banhos de limpeza da sujeira que fez por quatro anos.

O encontro, que se revela um dos maiores escândalos republicanos de se abrir um palácio para receber mandingueiro presidencial, está marcado com antecedência para esta sexta-feira, 13. (Será que dá azar?)

Pai Santana deve apresentar a lista dos ingredientes do novo despacho, que como sempre será pago pelo contribuinte, e não deve ser barato, coisa de se colocar na encruzilhada. Será da pesada, fortificado com muito dinheiro (do povo). O ingrediente principal, como de costume, não será galinha, mas um saco gigantesco de mentira para deixar diabo envergonhado.

Em desespero de causa, porque nada está dando certo neste novo mandato - um mês e pouco só de gol contra -, Dilma se socorre nas mezinhas de Santana. Como sempre, quem teme tem que se precaver. Sem encontrar saída para o labirinto em que se meteu - ou melhor, meteu o país, a presidente resolve apelar aos santos do marketing para ficar livre de tanto mau olhado.

O caso de Dilma até faz lembrar que não é a primeira a procurar socorro em magia. Se ateia por convicção, recorre ao marqueteiro, o ex Collor abria as portas para Mãe Cecília das Alagoas, que nunca frequentou gabinete. O marketing de então era muito mais barato e não tão confiante quanto os poderes da mãe de santo. Agora só trocamos a religião pela mentira em papel celofane.

Tempestades daqui não são como de lá

Enquanto os Estados Unidos, e outros países, se preparam para enfrentar os obstáculos ecológicos, nós fazemos chacota dos caprichos da natureza
Nos Estados Unidos, as preparações para enfrentar as tempestades de neve previstas para ocorrerem no final do mês de janeiro, começaram logo após a virada do ano. O sinal amarelo acendeu devido a uma nevasca precoce em Buffalo, NY, em novembro de 2014.

O interessante foi assistir a reação brasileira à ação norte-americana. Não de Dilma ou dos políticos, mas a nossa reação mesmo, dos meros mortais. Enquanto a tal tempestade não vinha no Hemisfério Norte, as redes sociais aqui do Hemisfério Sul eram inundadas de memes zoando os gringos. Exagero, gasto de tempo e de dinheiro, foram algumas das críticas ao comportamento das autoridades de lá.

Os moradores de Nova Iorque aguardaram a neve em casa, devidamente abrigados, aquecidos e alimentados, ao mesmo tempo em que nós, habitantes do Sudeste brasileiro, já enfrentávamos a nossa própria tragédia, em forma de seca, histórica. Uma seca que ainda pode deixar dezenas de milhões de pessoas sem água, luz e alimentos (sim, a agricultura depende de muita água, mas pouco se tem falado nisso.)

Como a zueira não pode parar, os memes nas redes continuam, ora caçoando do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin ora, mais recentemente, do prefeito Eduardo Paes, que ousou avisar a população sobre a possível chegada de um ciclone no Rio. Virou piada. Muita piada.

A verdade é que a situação da região, especificamente de São Paulo, já é de calamidade. As medidas, ao contrário, são poucas, fracas. Há uma recompensa aqui ou ali pela diminuição no uso da água, além da ameaça de multa por consumo elevado. Só isso.

Percebam a diferença: uma matéria da revista Época desta semana, conta que, na Califórnia, no final do ano passado, foi decretado estado de catástrofe e adotadas medidas extremas para a redução do consumo hídrico. Isto porque os reservatórios do estado estavam com prazo de 360 a 540 dias. Pois, em São Paulo, o prazo é de apenas 50 dias!

Resta a quem está mais preocupado com a situação, rezar por mais chuva. Afinal, alguns dias de temporais seguidos ultimamente fizeram o nível dos reservatórios paulistas subirem um pouco e adiaram o racionamento. Alívio geral. Até quando? Culpa dos políticos? Não somente. Esta situação é produto direto da sociedade em que vivemos. É resultado da nossa democracia de interesse próprio.

Democracia de interesse próprio é aquela que entende a ideia da democracia, da civilização e do coletivo, mas tem o seu próprio interesse acima de todos os outros.

No caso da crise da água, isso é fato. O governador Alckmin se recusou a falar sobre o assunto até passar a eleição, ou melhor, até ele próprio ser reeleito. A presidente Dilma também só distribuiu recursos ao estado depois que terminou a disputa, para não beneficiar o seu adversário nacional, que era do partido do governo local, oposição ao partido dela.

Mais triste ainda é perceber que o interesse próprio não move apenas quem vive de voto, mas também os cidadãos, que se recusam a diminuir o consumo de água, ou culpam os governantes, sem reconhecer sua própria responsabilidade.

Enquanto os Estados Unidos, e outros países, se preparam para enfrentar os obstáculos ecológicos, nós fazemos chacota dos caprichos da natureza, e nos comportamos como uma nação de reação. Desta vez, a reação à falta de água virá tarde demais. E, infelizmente, não vai ter graça nenhuma. Pra ninguém.

Jornalismo, alma e rigor

Sem jornalismo público, independente e qualificado, o futuro da democracia é incerto e preocupante. O jornalismo precisa recuperar a vibração da vida, o coração e a alma

Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos. Lá estavam as nossas lembranças, os nossos registros afetivos, a nossa saudade. Muitas vezes abríamos o álbum e a imaginação voava. Era bem legal.

Agora, fotografamos tudo e arquivamos compulsivamente. Nosso antigo álbum foi substituído pelas galerias de fotos de nossos dispositivos móveis. Temos overdose de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a curtição daqueles momentos.

Fica para depois. E continuamos fotografando e arquivando. Pensamos, equivocadamente, que o registro do momento reforça sua lembrança, mas não é assim. Milhares de fotos são incapazes de superar a vivência de um instante. É importante guardar imagens. Mas é muito mais importante viver cada momento com intensidade.

Algo análogo, muito parecido mesmo, ocorre com o consumo da informação. Navegamos freneticamente no espaço virtual. Uma enxurrada de estímulos dispersam a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e sensibilidade crítica.

A fragmentação dos conteúdos pode transmitir certa sensação de liberdade. Não dependemos, aparentemente, de ninguém. Somos os editores do nosso diário personalizado. Será? Não creio, sinceramente.

Penso que há uma crescente nostalgia de conteúdos editados com alma, rigor, critério e qualidade técnica e ética. Há uma demanda reprimida de reportagem. É preciso reinventar o jornalismo e recuperar, num contexto muito mais transparente e interativo, as competências e a magia do jornalismo de sempre.

Jornalismo sem alma e sem rigor. É o diagnóstico de uma doença que contamina inúmeras redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto. As empresas precisam repensar os seus modelos e investir poderosamente no coração.

É preciso dar novo brilho à reportagem e ao conteúdo bem editado, sério, preciso, isento. As melhores pautas estão nas encruzilhadas da vida. O prestígio de uma publicação não é fruto do acaso. É uma conquista diária.

A credibilidade não se edifica com descargas de adrenalina. É preciso contar boas histórias. Com transparência e sem filtros ideológicos. O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história.

A crise do jornalismo está intimamente relacionada com a perda de qualidade do conteúdo, com o perigoso abandono de sua vocação pública e com sua equivocada transformação em produto mais próprio para consumo privado.

É preciso recuperar o entusiasmo do “velho ofício”. É urgente investir fortemente na formação e qualificação dos profissionais. O jornalismo não é máquina, tecnologia, embora se trate de suporte importantíssimo. O valor dele se chama informação de alta qualidade, talento, critério, ética, inovação.

Sem jornalismo público, independente e qualificado, o futuro da democracia é incerto e preocupante. O jornalismo precisa recuperar a vibração da vida, o cara a cara, o coração e a alma.

Carlos Alberto Di Franco 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Da violência

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem

Bertold Brecht

Então, eu acho que...


Depois da eleição de Renan Calheiros para presidir o Congresso Nacional, o melhor candidato para presidir a Petrobras é o senhor Eike Batista. Ou vice-versa...

Dona Dilma falsificou o orçamento e, para acertar o balanço, acabou com a Lei de Responsabilidade Fiscal... Foi fácil: o que era déficit passou a ser superávit. E fica assim. Não foi ela, foi o governo, que, sendo pessoa jurídica de direito público interno, não tem alma... é como qualquer bucéfalo.

O Brasil não poderia estar pior: o patriotismo desapareceu, o povo encontra-se “desorgulhoso” e parece que não há homens dispostos a acabar com essa coisa que nos prende como moscas em papel de grude.

Assim como no mensalão, em que quase todos foram condenados – ou mais ou menos condenados, uma vez que os políticos condenados estão mais ou menos presos e também existem aqueles que estão mais ou menos doentes –, os artistas do petrolão também não sabem de nada, ninguém assume que comeu bola, e alguns estão até sendo homenageados, como o tal de Vaccari, tesoureiro nacional e homem da mala do PT.

Pela internet, assisti a uma entrevista em que Dona Dilma fala da Petrobras, no tempo em que era ministra de Minas e Energia: “Essa história de falar que a Petrobras é uma caixa-preta pode ter sido em 1997, 1998, até 2000. A Petrobras de hoje é uma empresa com nível de contabilidade das mais apuradas do mundo... Até porque, caso contrário, os investidores não a procurariam para investir. Investidor não investe em caixa-preta desse tipo”. Também penso assim, mas acontece que existem investidores que só investem quando têm informações privilegiadas, de fontes fidedignas, o que me parece o caso.

Falou bonito e em tom professoral a ministra, não? Ela era, nessa época, ministra de Minas e Energia e falava para os cocos, pois foi justamente nesse tempo que os ratos atacaram a queijeira... E tem mais: ela, Dona Dilma, era a presidente do Conselho de Administração da Petrobras, composto por nove membros, entre eles o notório Palocci, Jacques Wagner, Sergio Gabrielli, presidente da empresa, e gente importante como os megaempresários Fábio Barbosa, presidente do Grupo Abril, Cláudio Haddad, Gleuber Vieira, Jorge Gerdau, presidente do Grupo Gerdau, todos ganhando mais de R$ 80 mil por mês, que assentiu na compra da famosa refinaria de Pasadena, que, só ela, deu um “prejuizinho” à Petrobras de US$ 792 milhões, como atesta o Tribunal de Contas da União (TCU). Por que não ouvir esses importantes conselheiros que, supõe-se, votaram com os fundos?

De acordo com Nestor Cerveró, ex-diretor da área Internacional, o parecer sobre o assunto emitido pelo Conselho da Petrobras, presidido por Dona Dilma, foi negligente e cometeu uma “grave falha” ao aprovar a compra da referida refinaria nos Estados Unidos.

Acho que Dona Dilma é responsável, no mínimo, por tudo e torço por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre os Fundos de Pensão e o BNDES, e aí, sim, o povo vai ver e saber o que é “bom pra tosse”. 

Pouco sobra


O ditador e o prefeito,que a imprensa não vê

O prefeito, a mulher Zeidan, agora deputada,
e Lurian Silva, filha de Lula no desfile na Sapucaí
Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, de 72 anos, ditador há 35 anos da Guiné Equatorial, o chefe de Estado há mais tempo no poder na África, e o oitavo governante mais rico do mundo, segundo a revista “Forbes”, injetou R$ 10 milhões no carnaval da Beija-Flor de Nilópolis. Aconteceu, virou manchete dos jornalões.

O enredo “Um griô (homem sábio) conta a História: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade” vai festejar um pequeno país localizado na África Ocidental, formado por duas ilhas e um pedaço estreito de continente, e habitado por escassas 700 mil pessoas. O povo país miserável de lá vai pagar, é claro, o capricho. Como aqui se paga a pré-campanha de certos candidatos.

Arregalam-se os olhos para essa monstruosidade com todos os pontos de exclamação possíveis. O caso vira destaque e a esquerdocracia, com memória curta ou aparelhada, cai de pau no ditador. A própria imprensa pisa na bola por olhar tanto para o próprio umbigo. E como não tem memória, ou a esquece quando lhe interessa, deixa fatos na poeira.

A aberração de Mbasogo teve antecedente que não mereceu uma linha. Também graças ao petróleo, como o ditador, no ano passado, Quaquá, prefeito de Maricá e presidente regional do PT, patrocinou a Grande Rio com quase a mesma quantia. Ainda por cima distribuiu fartamente material de encarte carnavalesco, muito bem feito e caro, além de CDs com o samba enredo, para todo o município.

Foi um derrame de dinheiro de um município arrasado sem água, sem saneamento, com hospital conhecido como "Hotel da Morte", covil do comissariado petista fluminense. Apesar da situação precária do município, nenhum jornalista, naquele Carnaval, divulgou a farra brasileira e petista.

Será que acham ser Teodoro Obiang pior do que o gonçalense Quaquá, que explora um município brasileiro para manter no poder a mulher e companheiros? O patrocínio da Grande Rio foi a grande jogada para promover a candidatura da mulher à Alerj e ninguém deu um pio. Os coleguinhas também vacilam quando protegem a petecracia.

O mais estarrecedor é que essa mesma rede de comunicação tão pronta a criticar a doação do ditador da Guiné Equatorial desde 2012 silencia sobre o descaso no município, em todos os seus meios. Incrivelmente é que há um silêncio desde que a Prefeitura contratou uma das maiores empresas de marketing do país. Estranho?

Uma caçada de porcos


Naquela noite, tive um sonho.
Sonhei que o Brasil estava sendo comido por uma gigantesca vara de porcos do mato e que eles, conversando entre si, diziam (confirmando Lima Barreto) que a nossa carne tinha a forma e o gosto de um presunto.
Meio século e pouco depois, vejo que cometi uma transgressão matando demais e descobri ter tido um sonho premonitório. Pois o que é essa imensa corrupção governamental senão um incesto? Um abominável autocanibalismo?
Leia mais o artigo de Roberto DaMatta 

PT, 35 anos, um pesadelo


O mundo está desabando sobre a cabeça dos petistas, com os níveis de aprovação da presidente indo para o ralo. Mesmo assim Lula faz cara de paisagem

Três décadas e meia após sua fundação, o Partido dos Trabalhadores, que prometia sonhos e veio a luz para “ser diferente de tudo o que está aí”, passou a entregar pesadelos.

Aquele militante que vendia estrelinhas, distribuía panfletos na rua e gritava “Lula lá” evaporou-se. Foi substituído por uma massa amorfa e acrítica. Ou foi cooptado, usufruindo hoje das delícias do poder.

O sonho transformador deu nisso. Em doze anos no Planalto, o PT agarrou-se à máquina do Estado. Tornou-se uma força retrógrada que tudo faz, e fará, para não perder seus privilégios.

A democracia interna deu lugar a um sistema caudilhesco de poder.

Até aqui estamos apenas diante de um processo de envelhecimento precoce de quem se pretendia diferente. E é hoje um partido pobre de ideias e com as piores práticas possíveis, que se alimenta do patrimonialismo e do clientelismo.

O processo de transmutação do Partido dos Trabalhadores foi muito maior do que isto.

Institucionalizou a corrupção, comprou partidos e parlamentares e se apropriou do patrimônio dos brasileiros. Deu uma interpretação própria ao mote “o petróleo é nosso”.

Para se perpetuar no poder, os petistas promoveram o maior estelionato eleitoral do país. Como se vivessem num mundo de conto de fadas, fizeram vistas grossas para a tempestade que se formava. Resultado: jogaram o país numa gigantesca crise política, moral e econômica.

Coletivizaram o pesadelo. A inflação invadiu o lar dos brasileiros que já começam a sofrer as consequências da “quimioterapia” aplicada pelo novo ministro da Fazenda, escalado para tentar consertar os danos causados nos governos Lula e Dilma.

A crise da Petrobras está longe - e põe distância nisso - de chegar ao fundo do poço.

O mundo está desabando sobre a cabeça dos petistas, com os níveis de aprovação da presidente indo para o ralo. Mesmo assim Lula faz cara de paisagem, puxa a orelha dos outros e produz novas pérolas, como dizer que, na dúvida, deve se confiar no “companheiro Vacari”. Ou afirmar que o xis do problema foi a transformação do PT “em um partido igual aos demais”.

São as manjadas táticas do líder petista que procura sempre nivelar todos por baixo. Não, os outros partidos não são iguais ao PT. Não consta, por exemplo, que a Rede de Marina Silva, o PSB de Eduardo Campos ou o PSDB de Aécio Neves, Mário Covas, FHC, Geraldo Alckmin ou José Serra tenham feito da roubalheira um método de governo.

E generais petistas de dez estrelas oferecem soluções mágicas. Proliferam teorias conspiratórias. De seu blog de legalidade duvidosa, José Dirceu prega a formação de uma frente para “defender a Petrobrás” e combater o “centrão” que estaria se formando no parlamento. E Tarso Genro repete a tese da “refundação do PT”.

Como diz o pensador italiano Giordano Bruno: “Que ingenuidade pedir a quem tem poder para mudar o poder”.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Melhor que Lula lidere uma grande reforma do Estado

Há momentos históricos em que o melhor é que cada força política ou social se esqueça por um momento de ser Governo ou oposição
Seria interessante saber o que o carismático ex-presidente Lula da Silva pensa sobre o momento crítico vivido pelo Brasil e como está disposto a agir. O melhor para ele seria tentar voltar ao Governo? Com ele, especialmente em seu primeiro mandato, o país se tornou objeto da inveja mundial. O Brasil era um sonho atingível.

Uma vez Lula teve razão com seu mantra “nunca neste país”, porque era verdade que o Brasil nunca tivesse estado mais visível sob as luzes do mundo, transpirando esperança e possibilidades.

O que sentiria Lula vendo que aquele Brasil, que não deixa de ser uma potência econômica por seus recursos naturais e humanos, com uma posição central no continente, vive momentos de desencanto e desinteresse pela política, começando pelo seu próprio partido, o Partido dos Trabalhadores (PT), que, em frase sua, fundou “para ser diferente” e que hoje vive sua maior crise de credibilidade, sendo igual ou mais que qualquer outro em relação a deslizes éticos? Será verdade que já pediu para que ponha em marcha a máquina de sua reeleição?

É fácil atribuir a Lula coisas que ele provavelmente não diz nem pensa. A prova dos nove seria saber, por exemplo, quais são suas autênticas relações com sua discípula, Dilma Rousseff, a qual hoje querem apresentar como alçando voo sem necessidade do sopro de seu criador, e até contra ele.

Há quem tenha chegado a dizer com certa graça que é possível que nem mesmo Lula saiba o que pensa de Rousseff, nem o que gostaria dela neste momento, se transformá-la no bode expiatório de toda esta inquietação que agita os brasileiros ou se seria melhor ajudá-la a não fracassar, para que não se pudesse um dia dizer que ele errou ao apresentá-la como a “melhor candidata” e sucessora sua, como “a mãe que cuidaria do Brasil”.

Difícil também saber o que Lula pensa sobre a renovação ou refundação do PT, já que sempre se disse que o partido não existiria sem ele, nem ele sem o partido. Isso continua a ser verdadeiro?

O ex-presidente se tornou — ou foi tornado — no contrário do bode expiatório, papel esse que cabe mais a Dilma.

O ex-sindicalista continua sendo visto, com razão ou sem ela, como o curinga, a carta mestre que permite ganhar qualquer aposta. Daí o movimento “Volta Lula”, lançado não apenas pelo PT, mas por milhões de eleitores que seguem vendo-o como salvador da pátria.

Difícil saber se é correta a notícia publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, segundo a qual Lula já teria dado sinal verde aos seus para lançarem sua candidatura, sem que se diga que foi ele que deu a ordem.

Se o Governo Rousseff fracassar e se fizerem necessárias novas eleições antes de 2018, não há dúvida de que o grito “Volta Lula” se fará mais forte. Lula é muito Lula e mantém ainda forte credibilidade e grande poder de mobilização, em especial nas classes menos escolarizadas do país, e paradoxalmente, também entre empresários e banqueiros e outros integrantes das chamadas elites.
Leia mais o artigo de Juan Arias 

Favelas poderiam servir de modelo para cidades do futuro


Uma cidade em que as pessoas caminhem mais e dirijam menos. Uma cidade em que a vontade da comunidade seja respeitada e considerada no planejamento urbano. Parece um sonho distante?

Para um dos ambientalistas mais respeitados da Grã-Bretanha, esses elementos já estão presentes em favelas brasileiras e poderiam ser um exemplo para as cidades-verdes do futuro.

"Precisamos ser mais sensíveis à forma como as comunidades querem viver junto", diz o físico britânico (nascido na África do Sul) sir David King, presidente do grupo de inovação urbanística Future Cities Catapult.

"É um processo de construir comunidades, não destruí-las. Construir um ambiente em que as pessoas encontrem seus vizinhos, trabalhem com eles em projetos comunitários", afirma ele, em entrevista à BBC Brasil.

Mas isso não significa que as favelas sejam um modelo em todos os sentidos. O que King defende é a adoção de duas de suas mais desejáveis características: a forma de auto-organização das comunidades, evitando o planejamento "de cima para baixo", e distâncias que podem ser vencidas a pé.

King também traça um paralelo entre as favelas e as cidades medievais. Ele defende que uma cidade planejada "do zero" a partir do modelo de favelas e cidades medievais se aproximaria de Barcelona - e seria o oposto da capital econômica do Texas, Houston.

'Estou aqui pra quê? Pra derrubar FHC'


Foi esse o grito de guerra golpista que varreu a Esplanada nos Ministérios, em Brasília, em abril de 1997. O PT – e suas sublegendas, como os jurássicos PC do B, a UNE (alguém ainda se lembra dela?) e o MST – continuavam sem aceitar o resultado do primeiro turno das eleições de 1994.

Os mais velhos ainda se lembram: Lula e seus “petelhos” alegavam que o Plano Real não passava de um estelionato eleitoral.

Lula e seus “petelhos”, que denunciam hoje o golpismo, foram os que mais defenderam a derrubada da Constituição durante os oito anos do mandato de FHC. Nem os gorilas mais reacionários do golpe de 1964 chegaram a tanto.

Dois meses depois, ainda em 1997, Gilmar Mauro, outro comissário do povo do MST, insistia: “Tem que derrubar o presidente, o vice e uma tropa de safados que está lá em Brasília.”

Um mês depois, José Rainha Jr. garantia: “Se o governo não tomar jeito, cai.” Em seu delírio, ele jurava que as Forças Armadas não teriam coragem de atirar “quando todo mundo for para as ruas”.

Também em julho de 97, outro celerado do MST, João Pedro Stedile, surtaria e confundiria o Planalto com o Palácio de Inverno, na Petrogrado de 1917: “É preciso descobrir bandeiras mágicas para mobilizar o povo e rebelá-lo contra o governo, como fizeram os bolchevistas com pão, paz e terra’ que implantaram o comunismo na URSS.”

Mas foi o comissário do povo Tarso Genro que iniciou a pregação aberta do golpismo, em janeiro de 1999, quando propôs que Fernando Henrique renunciasse e enviasse emenda constitucional ao Congresso, convocando nossas eleições presidenciais.

Ele repetiria essa proposta em outro artigo na imprensa e teria apoio do comissário Lula: “Se FHC não pode cuidar do desemprego e não pode fazer o país voltar a crescer, que peça as contas”.

Em sua coluna em O Globo, Márcio Moreira Alves registraria as lamúrias de uma insuspeita viúva do golpismo, o líder do PC do B, deputado Haroldo Lima. Segundo eles, os militares “deveriam encontrar uma maneira democrática e urgente de, sem golpe, defender a pátria ameaçada”.

O jornalista encerrou sua coluna com esta afirmação: “No passado, sempre foram os políticos de extrema-direita que bateram às portas dos quartéis. Agora, as vivandeiras são comunistas. É um sinal lamentável de podridão ideológica”.

Foi em meados de 1999 que a proposta golpista saiu às ruas: Lula, os “petelhos” e suas sublegendas anunciaram a Marcha dos 100 Mil sobre Brasília com o lema “Fora já, fora daqui, o FHC e o FMI”.

Isso levou o hoje senador Aloysio Ferreira Nunes a perguntar: “Fora FHC? O que é isso? É interromper um mandato popular legitimamente conquistado com uma diferença de 15 milhões de votos.”

Em setembro de 1999, a esquizofrenia da oposição “petelha” chegou ao auge. Sem estar dentro de uma camisa de força, Gilmar Mauro do MST, vomitou: “Pela nossa vontade, teria que fazer uma limpa e convocar eleições gerais imediatamente. Fecha o Congresso, fecha a Presidência e convoca eleições”.

Já em setembro, o Grito dos Excluídos, em Aparecida, proclamava: “Ou o governo muda a política econômica ou nós mudamos o governo.”

Candidato a vice-presidente, junto com Lula, nas eleições de 98, Leonel Brizola enlouqueceria em janeiro de 2000: “Se fosse juiz num tribunal que julgasse Fernando Henrique, numa luta, num confronto entre esquerda e direita, votava por passar fogo nesse sujeito.”

Paradoxalmente, foi um, até então, respeitável jurista, Fábio Konder Comparato que revelou sua vocação para ser o Pol Pot tupiniquim. Em março de 2001, numa entrevista para o jornal do MST, ele propôs a formação de “tribunais populares” para julgar o governo FHC. Só não falou em pelotões de fuzilamento e em campos de trabalho forçado.

Como negam hoje o que pregaram ontem, Lula e os “petelhos” denunciam agora o golpismo contra Dilmandona Ruimsseff. 
Tadeu Afonso

A Petrobras não é o governo


O objetivo dos eleitores deveria ser defender a Petrobras, protegê-la da mera instrumentalização política
A popularidade da presidente Dilma Rousseff (PT) despencou nos últimos dois meses: o número dos que consideram seu governo ruim ou péssimo saltou de 24% para 44%, revelou a mais recente pesquisa do Instituto Datafolha.

Nem mesmo durante os protestos que abalaram o país em 2013, a popularidade da presidente atingiu um nível tão baixo. Isso mostra como o auge que atingiu a crise da Petrobras – com desvio de recursos bilionários, segundo investigações ainda em andamento conduzidas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal – está sendo vinculado à figura da presidente.

Especula-se até a possibilidade de impeachment de Dilma Rousseff por improbidade administrativa. O espaço que tais especulações têm ganhado na mídia brasileira pode levar à interpretação errônea de que se trata de um passo lógico no saneamento da empresa que o brasileiro tanto identifica com seu país.

Afinal, o eleitor sabe que a saída de Graça Foster e de cinco diretores do comando da estatal não é suficiente para resolver os problemas da Petrobras. Será preciso muito mais para recuperar a credibilidade perdida.

O novo presidente, Aldemir Bendine, até então presidente e membro do Conselho de Administração do Banco do Brasil, não poderá fazer simplesmente tabula rasa. Em época de desaquecimento econômico internacional e de baixo preço do petróleo, ele terá ainda que sanar os problemas na gestão dos contratos denunciados pelas investigações anticorrupção. Ou seja: nem a Petrobras tem como recomeçar do zero, nem a conjuntura é propícia a uma rápida recuperação.

Contudo, reduzir o saneamento da Petrobras à dimensão política seria um erro, tanto para o Brasil como democracia quanto para a Petrobras como empresa.

De fato, estatais frequentemente são exploradas para atender a fins políticos; e seus tomadores de decisões sabem que, em caso de emergência, o dinheiro público estará lá para cobrir as perdas.

Para os críticos, uma ocasião oportuna para retomar o velho argumento de que a solução para a Petrobras seria uma privatização completa.

Mas isso seria simplificar demais o problema. Da mesma forma como seria errado instrumentalizar a crise da estatal para explorá-la apenas politicamente. Não resolveria o problema de ninguém.

Naturalmente é salutar o simples fato de um esquema de corrupção tão pérfido e nocivo vir à tona e ser investigado, e de seus acusados serem julgados e condenados. Também é perfeitamente correto cobrar da líder do Executivo que comunique tudo o que sabe, assim como incentivar que faça uso de seu poder como instância de controle. Isso deveria ser evidente.

Porém, como disse a própria presidente, é preciso punir as pessoas, não a empresa. Só assim seria feita justiça aos milhares de profissionais capacitados que transformaram a Petrobras em uma das maiores empresas petroleiras do mundo, atuante em 17 países, e com uma receita anual de mais de 300 bilhões de reais.

O objetivo dos eleitores deveria ser defender a Petrobras, protegê-la da mera instrumentalização política. Só assim ela será capaz de executar as mais que urgentes reformas, necessárias para tirá-la da lama ideológica em que se encontra.

Rodrigo Rimon Abdelmalack, editor-chefe da DW Brasil

Na falta de água, não falta cara de pau


O ilusionismo das palavras não vivifica a terra crestada no fundo das represas
Os governos agora, só agora, vão tomar medidas contra a escassez hídrica, popularmente conhecida como seca. Anuncia-se um festival de obras e consequentemente dinheiro saindo pelo ladrão no superfaturamento. Com a torneira fechada na Petrobras, eis aí uma boa cisterna para se recolher uns milhõezinhos de trocado como compensação. Enquanto não armam os canteiros de obras, se vire o mundo que nenhum deles é Raimundo.

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, até revelou a grande novidade de se fazer "parcerias republicanas", pomposo nome tirado de cartolas de marketing, para dar água ao povo. Está se vendo pela expressão que os governos não pouparão esforços para engambelar mais uma vez; tirar o deles da reta e mandar que reclamem com São Pedro, esse Cristo da politicagem.

Os governos assim prometem que serão abertas as bicas dos cofres públicos para jorrarem bilhões para os mananciais de sempre: as empreiteiras e bolsos políticos. Até lá, quando Deus quiser e os governos deixarem, haverá enfim água a custo bem mais elevado para o usuário pagar com juros astronômicos. Até lá, quando enfim serão inauguradas as tais obras, o povo que se dane.

Folhear o noticiário é um bom exercício para se livrar da culpa que mídia e governos querem impingir ao usuário, o eterno réu dos crimes dos governos. Ninguém é mais perdulário por ficar uns minutinhos a mais no banho, não escovar os dentes com apenas um copo de água, nunca pensar em recolher a água de chuva, ou não reutilizar a água da máquina de lavar para limpeza geral. As medidas que querem impor ao usuário, como castigo ou punição sem crime, são as que os governos nunca se impuseram por mero desinteresse.

Há 22 anos não se constroem reservatórios no Sudeste, região que produz 23% do PIB brasileiro. Esse novo polígono da seca seria a segunda maior economia da América do Sul só perdendo para o Brasil. Dinheiro nunca faltou, e para roubalheira nem se fala.

Sabiam há 12 anos, segundo especialistas, que haveria um grande período de seca, afetando reservatórios de abastecimento e hidrelétrico. Nada se foi pensado, pois não existe plano B, nenhuma medida tomada, porque racionamento é impopular, tira votos. Deu no que deu.

Nem ao menos fizeram o dever de proteger a população, obrigando as empresas a usarem sistemas de reuso - na quase totalidade não o fazem -, nem que proibido que fosse tirada água dos rios à vontade pelas indústrias. A lista é grande do que poderiam fazer, e não fizeram. Só na Assembleia de Minas (veja aqui) serão arquivados 45 propostas de contenção ao desperdício e conservação da água no Estado, apresentadas nos últimos quatro anos. A maior parte referente à economia a ser feitas por lava-jatos, postos de combustível e estacionamentos, indústrias e até mineradoras brigadas a implantar um sistema de bombeamento que permitiria o retorno para o território mineiro de, no mínimo, 50% do volume de água utilizado no processo de transporte do minério.

Os governos brasileiros, em particular do Sudeste, neste caso, são culpados de omissão, imperícia, negligência e imprudência, que estão no código jurídico. Sem falar na roubalheira para pintarem que estão fazendo o que nunca fizeram nem nunca farão.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Melancolia brasileira no Carnaval


O que sentem neste momento os trabalhadores decentes e sacrificados ao ver desfilar esta procissão de políticos emplumados saqueando o país?
Em menos de dois meses os brasileiros parecem ter passado da euforia ao desengano. É o que revelam os números de pesquisa do Datafolha, que mostram uma tomada de consciência nova e surpreendente do momento político e econômico vivido pelo país. Os cidadãos negam sua confiança na presidenta da República, Dilma Rousseff, e em seu Governo, reduzindo-a a 23%, meses apenas depois de a terem reeleito. Cerca de 70% já não se sentem próximos a nenhum partido.

Há momentos na história de um país — neste caso, o Brasil — em que é difícil analisar um processo de transformação tão rápido porque nele se misturam diferentes fatores e imponderáveis. E é nessas circunstâncias que substantivos e adjetivos se tornam insuficientes para expressar o que arde no coração das pessoas. Precisamos recorrer mais que nunca à semântica, porque as palavras, já banalizadas e despojadas de seu significado original, não bastam.

Dizer que o Brasil vive uma crise é dizer pouco ou talvez nada. Ressaltar que os brasileiros, depois de seus dias de glória, estão hoje preocupados com todo este rosário de notícias negativas, oferecidas a cada momento pelos meios de comunicação, como os escândalos de corrupção, a crise econômica, a perda de confiança nos governantes e a desilusão com a classe política em geral, também não diz tudo.

Que palavra extrair do dicionário para explicar o que palpita neste momento na maioria dos brasileiros, que começam a ver, incrédulos, como são fustigados pela falta de água, de energia, de esperança no futuro, pelo medo de perder o que têm e até o emprego?

Como definir o que sente a grande massa dos trabalhadores honrados, das pessoas e famílias decentes, dos que ainda não perderam os valores essenciais da vida e desejam inculcá-los em seus filhos, enquanto veem desfilar a trágica procissão de corruptos de alto coturno, os que até ontem se acreditavam intocáveis e para quem a mentira é somente um jogo permitido aos grandes?

Em rápida sondagem entre amigos e desconhecidos pertencentes a diferentes classes sociais, e depois de ter lido por estes dias centenas de cartas dos leitores enviadas aos jornais, tanto em papel quanto digitais, e dezenas de análises de cientistas políticos e sociólogos, atrevo-me a dizer que os brasileiros neste momento, mais que raiva e rebeldia, sentem este tipo de tristeza, já analisada por gregos e romanos, chamada melancolia, que Freud analisou como um “processo de luto sem a perda do objeto”.

A melancolia, analisada ao longo do tempo, é um vocábulo polissêmico, com muito significados, mas todos eles giram em torno de um mesmo conceito, que engloba de uma vez tristeza, cansaço, amargura, falta de entusiasmo e também desinteresse.

E tem um gosto amargo como a bile, à qual os antigos se referiam para descrever o estado de ânimo melancólico.

Até quase nada de tempo os brasileiros estavam convencidos de que sua vida iria melhorar. De repente se deparam com um futuro incerto, com anúncio de recessão econômica e com uma indústria em crise, demitindo milhares de trabalhadores.

O confisco da verdade


Quem disse: “(A recente campanha eleitoral foi) a mais suja. Aquela em que nossos adversários utilizaram as piores armas para tentar nos derrotar. Tentaram fraudar a vontade política da maioria, usando todos os seus recursos de comunicação para manipular, distorcer e falsear”?

Aécio Neves? Fernando Henrique Cardoso? Dilma? Lula?

Claro, Lula, no aniversário de 35 anos do PT. Quem mais ousaria tanto?

A metamorfose ambulante, como um dia Lula se apresentou, teve a cara de pau de dizer mais. Do tipo:

- O PT nasceu para ser diferente. A verdade é que foi o governo deles que tentou destruir a Petrobrás. E foi o nosso governo que a resgatou, retomou os investimentos que levaram à descoberta do pré-sal e fizeram da Petrobrás a maior produtora mundial de petróleo entre as empresas de capital aberto.

Sobre a corrupção na Petrobras, nem um pedido de desculpas.

Como a vingança veio a galope, Lula, Dilma e o PT foram obrigados a amargar, um dia depois de se reunirem em Belo Horizonte, os resultados da primeira pesquisa de opinião pública aplicada, este ano, pelo Datafolha.

Leia mais o artigo de Ricardo Noblat

Lula diz que há um golpe em marcha para depor Dilma. Bobagem!
O golpe já foi dado. Por ele, Dilma e o PT ao encenarem a farsa eleitoral do ano passado.

O 40° do covil

Perde é quem não sabe bater. A política é ao mesmo tempo a sublimação e o exercício da violência
João Santana, marqueteiro-mor do Planalto

A espada de Dâmocles que ameaça os brasileiros

O Brasil dos nossos dias vive como Dâmocles, personagem da mitologia grega que, homenageado pelo imperador Dionísio em um banquete, viu, ao olhar para cima, que uma espada pendia sobre sua cabeça, sustentada por um fio de seda. Apavorado, devolveu o lugar de honra que ocupava ao imperador. Mas aquele fio não era frágil como parecia: era o fio da responsabilidade, que arrebentaria quando a autoridade não a tivesse mais. E o cara era assim como um ex-Luiz ou Dona Dilma…

Nós, brasileiros, estamos por um fio. Vejo-me e a todos nós como passageiros de uma escuna invadida e dominada por piratas que saqueiam nossas riquezas, e nós, tomados de ira, reagimos apenas votando ferozmente… Sei não, mas acho que está passando da hora de quebrar o pau… Mas como? Na unha? Sim, enquanto as temos… E não me venham com essa história de que estou atiçando fogo. Se pudesse, eu não atiçaria, tacava… E, assim, talvez corresse o risco de ser presidente, mesmo sendo alfabetizado.

Gente, o pior dos cegos é aquele que não quer enxergar. Depois de mensalão e petrolão, histórias que não terão fim, virá coisa pior neste crescendo de desgraças que nos acomete. Parece que a natureza mostra que alguma coisa não está certa. Agora até água nos falta. E o Velho Chico sendo transposto, o que pode ser uma provocação tipo eleição de Renan, que o PT, às vezes, o tem como “o bom ladrão”…

E Dona Dilma, que não se assusta com a situação que ela mesma criou? E quem comprou ação da “roubobrás” com dinheirinho do Fundo de Garantia? Isso é perversidade… E os servidores públicos, que só deixarão pensão integral se morrerem até dia 28 de fevereiro? E a água? Sim, a água vai faltar porque ninguém fez nada para guardá-la, armazená-la.

juscelino fez Três Marias, mas, depois dele, não fizeram a barragem do rio Formoso 12 km a montante de Pirapora como programado. E ficou assim. Agora nem tico nem taco, nem água para gerar energia, muito menos, ou nada, para regularizar o leito do rio.

Aqui, em Minas Gerais, no governo de Francelino Pereira, quando o ex-deputado Carlos Eloy era secretário de Estado de Obras Públicas e a Copasa estava vinculada à secretaria, formou-se uma grande equipe dirigente da empresa, presidida pelo competente engenheiro Willian Penido, para equacionar o abastecimento de água da nossa capital e da região metropolitana. Tivesse tido sequência esse estudo de ampliação da captação do rio das Velhas e do rio Manso, não estaríamos sujeitos a morrer de sede.

Naquele tempo, foi realizada, apenas, a primeira etapa do rio Manso, cuja água passaria pelo anel hidráulico da Copasa e, juntamente com o ribeirão Serra Azul entrariam através de Betim e Contagem. O rio das Velhas viria para Belo Horizonte através dos bairros de Lourdes, Savassi, Centro etc. O problema é que, hoje, a Copasa só quer saber de lucro, água é problema de São Pedro, que, parece, anda puxando um ronco, assim como o povo brasileiro.