sábado, 14 de fevereiro de 2015

Exemplo de manifestação é banalizado

O mais importante manifesto do ano, democrático e pacífico, mereceu apenas o noticiário negativo dos jornalões. O fato de fechar a ponte Rio-Niterói foi o "pecado" dos funcionários da Alumini, uma das empresas envolvidas na construção do Comperj e investigada na Lava-Jato. Ousaram os operários, com salários atrasados, impedir o tráfego e afrontar a proibição de não se poder no local andar a pé.
“Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir”
 (Construção, Chico Buarque)

Seguiram ordeiros, com motoqueiros, gente como eles, guardando a retaguarda. Sob o sol e o calor de 40°, marcharam por seus direitos, por sua dignidade, por suas famílias, pelo pão e para cumprir seus débitos.

Caminharam até a sede da Petrobras, no Centro, sem um tumulto, sem um vandalismo. Era o povo brasileiro na rua reclamando seus direitos. Mas não receberam da imprensa o respeito a que tinham direito. Eram apenas um fato que atrapalhou o tráfego, que mereceu injúrias dos motoristas, dos passageiros, dos que confortavelmente assistiam o transtorno no trânsito engarrafado pela televisão.

O movimento popular, digno e democrático, não mereceu o devido aplauso, porque saiu na contramão. As redes da mídia não destinaram a ele o mesmo espaço infinito com que dispensam às manifestações de black blocs, que nada mais fazem do que desestimular protestos democráticos.

Quebrar vidraças e bancos faz parte da propaganda contra você se manifestar, aderir a movimentos. Aos violentos e baderneiros, as câmeras, os flashes, os números do ibope; aos operários pacíficos, quase um silêncio, quando não um palavrão por atrapalharem o tráfego. Eis a democracia à brasileira.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

À escolha

Em nossos dias, resta ao homem uma escolha: ser um otimista que chora ou um pessimista que ri
Albert Camus

Em plena crise, grandes consumidores são premiados

Há 500 grandes consumidores de água da Sabesp que pagam preços excepcionalmente bons. Eles têm um contrato que premia o consumo, quanto maior ele for, menor será o preço pago por litro de água. É a lógica contrária à aplicada ao restante dos usuários. Mimar os melhores clientes é uma estratégia comum no mundo empresarial, exceto pelo fato de que São Paulo atravessa a pior crise hídrica em 84 anos.

Nessa lista, com data de dezembro de 2014, há condomínios de luxo, bancos, hospitais, shoppings, igrejas, indústrias, supermercados, colégios, clubes de futebol, hotéis e entidades como a Bolsa de Valores de São Paulo, a concessionária da linha 4 do Metrô, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos ou a SPTrans.

Alguns clientes [consultar lista], como o shopping Eldorado, consomem por mês cerca de 20.000 m3, o mesmo que mais de 1.200 famílias de quatro membros juntas, considerando que cada indivíduo gasta 130 litros por dia. O shopping, que recebe 1,8 milhões de visitantes por mês, não é o maior consumidor, e há quem gasta até três vezes mais, como a fábrica de celulose Viscofan no Morumbi, a campeã de consumo na lista à qual teve acesso EL PAÍS.

Mas o consumo mensal desses clientes premium pode ser ainda maior porque o levantamento, que foi enviado pela Sabesp à CPI que investiga os contratos da companhia com a Prefeitura, está incompleto. Na lista, que contempla 294 clientes que assinaram seus contratos a partir de junho de 2010, há poucas indústrias. Alvo principal desses contratos, o setor industrial responde por cerca de 40% do consumo de água no Estado, conforme os dados do Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE).

O atrativo dos contratos é que todos estes clientes pagam menos do que o valor de tabela aplicado para as atividades comerciais e industriais que desempenham. Para o shopping Eldorado, por exemplo, cada mil litros de água custam 6,27 reais, enquanto para os clientes do setor comercial que não assinaram esse contrato pagam 13,97 reais. Um desconto de mais de 55%. Já a Viscofan se beneficia de um desconto de 75%, pois a tarifa aplicada é de 3,41 reais para cada mil litros, quando, caso não tivesse o contrato, deveria pagar 13,97 reais.

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Negócios ocultos

Na república dos companheiros, os grandes negócios não são feitos na arena do mercado, mas nos meandros da política subterrânea
Demétrio Magnoli 

O mandingueiro do Planalto

Os governantes antigos consultavam os oráculos; faziam oferendas macabras aos deuses. Esse recurso de apelar às forças sobrenaturais vem de antigos tempos mas nem por isso deixaram de ser utilizados. Pode-se não mais se consultar oráculos, que ficaram lá atrás, sem qualquer força hoje. Mas estão aí as oferendas, a que nem mesmo os não religiosos recusam.Tanto que a presidente pretende despejar do Planalto uma catinga de bode sobre a população.

Será mais uma das poções preparadas no caldeirão de Pai Santana, ministro sem pasta responsável pelas mandingas de descarrego da presidente. Por sinal, muito necessitada de banhos de limpeza da sujeira que fez por quatro anos.

O encontro, que se revela um dos maiores escândalos republicanos de se abrir um palácio para receber mandingueiro presidencial, está marcado com antecedência para esta sexta-feira, 13. (Será que dá azar?)

Pai Santana deve apresentar a lista dos ingredientes do novo despacho, que como sempre será pago pelo contribuinte, e não deve ser barato, coisa de se colocar na encruzilhada. Será da pesada, fortificado com muito dinheiro (do povo). O ingrediente principal, como de costume, não será galinha, mas um saco gigantesco de mentira para deixar diabo envergonhado.

Em desespero de causa, porque nada está dando certo neste novo mandato - um mês e pouco só de gol contra -, Dilma se socorre nas mezinhas de Santana. Como sempre, quem teme tem que se precaver. Sem encontrar saída para o labirinto em que se meteu - ou melhor, meteu o país, a presidente resolve apelar aos santos do marketing para ficar livre de tanto mau olhado.

O caso de Dilma até faz lembrar que não é a primeira a procurar socorro em magia. Se ateia por convicção, recorre ao marqueteiro, o ex Collor abria as portas para Mãe Cecília das Alagoas, que nunca frequentou gabinete. O marketing de então era muito mais barato e não tão confiante quanto os poderes da mãe de santo. Agora só trocamos a religião pela mentira em papel celofane.

Tempestades daqui não são como de lá

Enquanto os Estados Unidos, e outros países, se preparam para enfrentar os obstáculos ecológicos, nós fazemos chacota dos caprichos da natureza
Nos Estados Unidos, as preparações para enfrentar as tempestades de neve previstas para ocorrerem no final do mês de janeiro, começaram logo após a virada do ano. O sinal amarelo acendeu devido a uma nevasca precoce em Buffalo, NY, em novembro de 2014.

O interessante foi assistir a reação brasileira à ação norte-americana. Não de Dilma ou dos políticos, mas a nossa reação mesmo, dos meros mortais. Enquanto a tal tempestade não vinha no Hemisfério Norte, as redes sociais aqui do Hemisfério Sul eram inundadas de memes zoando os gringos. Exagero, gasto de tempo e de dinheiro, foram algumas das críticas ao comportamento das autoridades de lá.

Os moradores de Nova Iorque aguardaram a neve em casa, devidamente abrigados, aquecidos e alimentados, ao mesmo tempo em que nós, habitantes do Sudeste brasileiro, já enfrentávamos a nossa própria tragédia, em forma de seca, histórica. Uma seca que ainda pode deixar dezenas de milhões de pessoas sem água, luz e alimentos (sim, a agricultura depende de muita água, mas pouco se tem falado nisso.)

Como a zueira não pode parar, os memes nas redes continuam, ora caçoando do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin ora, mais recentemente, do prefeito Eduardo Paes, que ousou avisar a população sobre a possível chegada de um ciclone no Rio. Virou piada. Muita piada.

A verdade é que a situação da região, especificamente de São Paulo, já é de calamidade. As medidas, ao contrário, são poucas, fracas. Há uma recompensa aqui ou ali pela diminuição no uso da água, além da ameaça de multa por consumo elevado. Só isso.

Percebam a diferença: uma matéria da revista Época desta semana, conta que, na Califórnia, no final do ano passado, foi decretado estado de catástrofe e adotadas medidas extremas para a redução do consumo hídrico. Isto porque os reservatórios do estado estavam com prazo de 360 a 540 dias. Pois, em São Paulo, o prazo é de apenas 50 dias!

Resta a quem está mais preocupado com a situação, rezar por mais chuva. Afinal, alguns dias de temporais seguidos ultimamente fizeram o nível dos reservatórios paulistas subirem um pouco e adiaram o racionamento. Alívio geral. Até quando? Culpa dos políticos? Não somente. Esta situação é produto direto da sociedade em que vivemos. É resultado da nossa democracia de interesse próprio.

Democracia de interesse próprio é aquela que entende a ideia da democracia, da civilização e do coletivo, mas tem o seu próprio interesse acima de todos os outros.

No caso da crise da água, isso é fato. O governador Alckmin se recusou a falar sobre o assunto até passar a eleição, ou melhor, até ele próprio ser reeleito. A presidente Dilma também só distribuiu recursos ao estado depois que terminou a disputa, para não beneficiar o seu adversário nacional, que era do partido do governo local, oposição ao partido dela.

Mais triste ainda é perceber que o interesse próprio não move apenas quem vive de voto, mas também os cidadãos, que se recusam a diminuir o consumo de água, ou culpam os governantes, sem reconhecer sua própria responsabilidade.

Enquanto os Estados Unidos, e outros países, se preparam para enfrentar os obstáculos ecológicos, nós fazemos chacota dos caprichos da natureza, e nos comportamos como uma nação de reação. Desta vez, a reação à falta de água virá tarde demais. E, infelizmente, não vai ter graça nenhuma. Pra ninguém.

Jornalismo, alma e rigor

Sem jornalismo público, independente e qualificado, o futuro da democracia é incerto e preocupante. O jornalismo precisa recuperar a vibração da vida, o coração e a alma

Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos. Lá estavam as nossas lembranças, os nossos registros afetivos, a nossa saudade. Muitas vezes abríamos o álbum e a imaginação voava. Era bem legal.

Agora, fotografamos tudo e arquivamos compulsivamente. Nosso antigo álbum foi substituído pelas galerias de fotos de nossos dispositivos móveis. Temos overdose de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a curtição daqueles momentos.

Fica para depois. E continuamos fotografando e arquivando. Pensamos, equivocadamente, que o registro do momento reforça sua lembrança, mas não é assim. Milhares de fotos são incapazes de superar a vivência de um instante. É importante guardar imagens. Mas é muito mais importante viver cada momento com intensidade.

Algo análogo, muito parecido mesmo, ocorre com o consumo da informação. Navegamos freneticamente no espaço virtual. Uma enxurrada de estímulos dispersam a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e sensibilidade crítica.

A fragmentação dos conteúdos pode transmitir certa sensação de liberdade. Não dependemos, aparentemente, de ninguém. Somos os editores do nosso diário personalizado. Será? Não creio, sinceramente.

Penso que há uma crescente nostalgia de conteúdos editados com alma, rigor, critério e qualidade técnica e ética. Há uma demanda reprimida de reportagem. É preciso reinventar o jornalismo e recuperar, num contexto muito mais transparente e interativo, as competências e a magia do jornalismo de sempre.

Jornalismo sem alma e sem rigor. É o diagnóstico de uma doença que contamina inúmeras redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto. As empresas precisam repensar os seus modelos e investir poderosamente no coração.

É preciso dar novo brilho à reportagem e ao conteúdo bem editado, sério, preciso, isento. As melhores pautas estão nas encruzilhadas da vida. O prestígio de uma publicação não é fruto do acaso. É uma conquista diária.

A credibilidade não se edifica com descargas de adrenalina. É preciso contar boas histórias. Com transparência e sem filtros ideológicos. O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história.

A crise do jornalismo está intimamente relacionada com a perda de qualidade do conteúdo, com o perigoso abandono de sua vocação pública e com sua equivocada transformação em produto mais próprio para consumo privado.

É preciso recuperar o entusiasmo do “velho ofício”. É urgente investir fortemente na formação e qualificação dos profissionais. O jornalismo não é máquina, tecnologia, embora se trate de suporte importantíssimo. O valor dele se chama informação de alta qualidade, talento, critério, ética, inovação.

Sem jornalismo público, independente e qualificado, o futuro da democracia é incerto e preocupante. O jornalismo precisa recuperar a vibração da vida, o cara a cara, o coração e a alma.

Carlos Alberto Di Franco 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Da violência

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem

Bertold Brecht

Então, eu acho que...


Depois da eleição de Renan Calheiros para presidir o Congresso Nacional, o melhor candidato para presidir a Petrobras é o senhor Eike Batista. Ou vice-versa...

Dona Dilma falsificou o orçamento e, para acertar o balanço, acabou com a Lei de Responsabilidade Fiscal... Foi fácil: o que era déficit passou a ser superávit. E fica assim. Não foi ela, foi o governo, que, sendo pessoa jurídica de direito público interno, não tem alma... é como qualquer bucéfalo.

O Brasil não poderia estar pior: o patriotismo desapareceu, o povo encontra-se “desorgulhoso” e parece que não há homens dispostos a acabar com essa coisa que nos prende como moscas em papel de grude.

Assim como no mensalão, em que quase todos foram condenados – ou mais ou menos condenados, uma vez que os políticos condenados estão mais ou menos presos e também existem aqueles que estão mais ou menos doentes –, os artistas do petrolão também não sabem de nada, ninguém assume que comeu bola, e alguns estão até sendo homenageados, como o tal de Vaccari, tesoureiro nacional e homem da mala do PT.

Pela internet, assisti a uma entrevista em que Dona Dilma fala da Petrobras, no tempo em que era ministra de Minas e Energia: “Essa história de falar que a Petrobras é uma caixa-preta pode ter sido em 1997, 1998, até 2000. A Petrobras de hoje é uma empresa com nível de contabilidade das mais apuradas do mundo... Até porque, caso contrário, os investidores não a procurariam para investir. Investidor não investe em caixa-preta desse tipo”. Também penso assim, mas acontece que existem investidores que só investem quando têm informações privilegiadas, de fontes fidedignas, o que me parece o caso.

Falou bonito e em tom professoral a ministra, não? Ela era, nessa época, ministra de Minas e Energia e falava para os cocos, pois foi justamente nesse tempo que os ratos atacaram a queijeira... E tem mais: ela, Dona Dilma, era a presidente do Conselho de Administração da Petrobras, composto por nove membros, entre eles o notório Palocci, Jacques Wagner, Sergio Gabrielli, presidente da empresa, e gente importante como os megaempresários Fábio Barbosa, presidente do Grupo Abril, Cláudio Haddad, Gleuber Vieira, Jorge Gerdau, presidente do Grupo Gerdau, todos ganhando mais de R$ 80 mil por mês, que assentiu na compra da famosa refinaria de Pasadena, que, só ela, deu um “prejuizinho” à Petrobras de US$ 792 milhões, como atesta o Tribunal de Contas da União (TCU). Por que não ouvir esses importantes conselheiros que, supõe-se, votaram com os fundos?

De acordo com Nestor Cerveró, ex-diretor da área Internacional, o parecer sobre o assunto emitido pelo Conselho da Petrobras, presidido por Dona Dilma, foi negligente e cometeu uma “grave falha” ao aprovar a compra da referida refinaria nos Estados Unidos.

Acho que Dona Dilma é responsável, no mínimo, por tudo e torço por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre os Fundos de Pensão e o BNDES, e aí, sim, o povo vai ver e saber o que é “bom pra tosse”. 

Pouco sobra


O ditador e o prefeito,que a imprensa não vê

O prefeito, a mulher Zeidan, agora deputada,
e Lurian Silva, filha de Lula no desfile na Sapucaí
Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, de 72 anos, ditador há 35 anos da Guiné Equatorial, o chefe de Estado há mais tempo no poder na África, e o oitavo governante mais rico do mundo, segundo a revista “Forbes”, injetou R$ 10 milhões no carnaval da Beija-Flor de Nilópolis. Aconteceu, virou manchete dos jornalões.

O enredo “Um griô (homem sábio) conta a História: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade” vai festejar um pequeno país localizado na África Ocidental, formado por duas ilhas e um pedaço estreito de continente, e habitado por escassas 700 mil pessoas. O povo país miserável de lá vai pagar, é claro, o capricho. Como aqui se paga a pré-campanha de certos candidatos.

Arregalam-se os olhos para essa monstruosidade com todos os pontos de exclamação possíveis. O caso vira destaque e a esquerdocracia, com memória curta ou aparelhada, cai de pau no ditador. A própria imprensa pisa na bola por olhar tanto para o próprio umbigo. E como não tem memória, ou a esquece quando lhe interessa, deixa fatos na poeira.

A aberração de Mbasogo teve antecedente que não mereceu uma linha. Também graças ao petróleo, como o ditador, no ano passado, Quaquá, prefeito de Maricá e presidente regional do PT, patrocinou a Grande Rio com quase a mesma quantia. Ainda por cima distribuiu fartamente material de encarte carnavalesco, muito bem feito e caro, além de CDs com o samba enredo, para todo o município.

Foi um derrame de dinheiro de um município arrasado sem água, sem saneamento, com hospital conhecido como "Hotel da Morte", covil do comissariado petista fluminense. Apesar da situação precária do município, nenhum jornalista, naquele Carnaval, divulgou a farra brasileira e petista.

Será que acham ser Teodoro Obiang pior do que o gonçalense Quaquá, que explora um município brasileiro para manter no poder a mulher e companheiros? O patrocínio da Grande Rio foi a grande jogada para promover a candidatura da mulher à Alerj e ninguém deu um pio. Os coleguinhas também vacilam quando protegem a petecracia.

O mais estarrecedor é que essa mesma rede de comunicação tão pronta a criticar a doação do ditador da Guiné Equatorial desde 2012 silencia sobre o descaso no município, em todos os seus meios. Incrivelmente é que há um silêncio desde que a Prefeitura contratou uma das maiores empresas de marketing do país. Estranho?

Uma caçada de porcos


Naquela noite, tive um sonho.
Sonhei que o Brasil estava sendo comido por uma gigantesca vara de porcos do mato e que eles, conversando entre si, diziam (confirmando Lima Barreto) que a nossa carne tinha a forma e o gosto de um presunto.
Meio século e pouco depois, vejo que cometi uma transgressão matando demais e descobri ter tido um sonho premonitório. Pois o que é essa imensa corrupção governamental senão um incesto? Um abominável autocanibalismo?
Leia mais o artigo de Roberto DaMatta 

PT, 35 anos, um pesadelo


O mundo está desabando sobre a cabeça dos petistas, com os níveis de aprovação da presidente indo para o ralo. Mesmo assim Lula faz cara de paisagem

Três décadas e meia após sua fundação, o Partido dos Trabalhadores, que prometia sonhos e veio a luz para “ser diferente de tudo o que está aí”, passou a entregar pesadelos.

Aquele militante que vendia estrelinhas, distribuía panfletos na rua e gritava “Lula lá” evaporou-se. Foi substituído por uma massa amorfa e acrítica. Ou foi cooptado, usufruindo hoje das delícias do poder.

O sonho transformador deu nisso. Em doze anos no Planalto, o PT agarrou-se à máquina do Estado. Tornou-se uma força retrógrada que tudo faz, e fará, para não perder seus privilégios.

A democracia interna deu lugar a um sistema caudilhesco de poder.

Até aqui estamos apenas diante de um processo de envelhecimento precoce de quem se pretendia diferente. E é hoje um partido pobre de ideias e com as piores práticas possíveis, que se alimenta do patrimonialismo e do clientelismo.

O processo de transmutação do Partido dos Trabalhadores foi muito maior do que isto.

Institucionalizou a corrupção, comprou partidos e parlamentares e se apropriou do patrimônio dos brasileiros. Deu uma interpretação própria ao mote “o petróleo é nosso”.

Para se perpetuar no poder, os petistas promoveram o maior estelionato eleitoral do país. Como se vivessem num mundo de conto de fadas, fizeram vistas grossas para a tempestade que se formava. Resultado: jogaram o país numa gigantesca crise política, moral e econômica.

Coletivizaram o pesadelo. A inflação invadiu o lar dos brasileiros que já começam a sofrer as consequências da “quimioterapia” aplicada pelo novo ministro da Fazenda, escalado para tentar consertar os danos causados nos governos Lula e Dilma.

A crise da Petrobras está longe - e põe distância nisso - de chegar ao fundo do poço.

O mundo está desabando sobre a cabeça dos petistas, com os níveis de aprovação da presidente indo para o ralo. Mesmo assim Lula faz cara de paisagem, puxa a orelha dos outros e produz novas pérolas, como dizer que, na dúvida, deve se confiar no “companheiro Vacari”. Ou afirmar que o xis do problema foi a transformação do PT “em um partido igual aos demais”.

São as manjadas táticas do líder petista que procura sempre nivelar todos por baixo. Não, os outros partidos não são iguais ao PT. Não consta, por exemplo, que a Rede de Marina Silva, o PSB de Eduardo Campos ou o PSDB de Aécio Neves, Mário Covas, FHC, Geraldo Alckmin ou José Serra tenham feito da roubalheira um método de governo.

E generais petistas de dez estrelas oferecem soluções mágicas. Proliferam teorias conspiratórias. De seu blog de legalidade duvidosa, José Dirceu prega a formação de uma frente para “defender a Petrobrás” e combater o “centrão” que estaria se formando no parlamento. E Tarso Genro repete a tese da “refundação do PT”.

Como diz o pensador italiano Giordano Bruno: “Que ingenuidade pedir a quem tem poder para mudar o poder”.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Melhor que Lula lidere uma grande reforma do Estado

Há momentos históricos em que o melhor é que cada força política ou social se esqueça por um momento de ser Governo ou oposição
Seria interessante saber o que o carismático ex-presidente Lula da Silva pensa sobre o momento crítico vivido pelo Brasil e como está disposto a agir. O melhor para ele seria tentar voltar ao Governo? Com ele, especialmente em seu primeiro mandato, o país se tornou objeto da inveja mundial. O Brasil era um sonho atingível.

Uma vez Lula teve razão com seu mantra “nunca neste país”, porque era verdade que o Brasil nunca tivesse estado mais visível sob as luzes do mundo, transpirando esperança e possibilidades.

O que sentiria Lula vendo que aquele Brasil, que não deixa de ser uma potência econômica por seus recursos naturais e humanos, com uma posição central no continente, vive momentos de desencanto e desinteresse pela política, começando pelo seu próprio partido, o Partido dos Trabalhadores (PT), que, em frase sua, fundou “para ser diferente” e que hoje vive sua maior crise de credibilidade, sendo igual ou mais que qualquer outro em relação a deslizes éticos? Será verdade que já pediu para que ponha em marcha a máquina de sua reeleição?

É fácil atribuir a Lula coisas que ele provavelmente não diz nem pensa. A prova dos nove seria saber, por exemplo, quais são suas autênticas relações com sua discípula, Dilma Rousseff, a qual hoje querem apresentar como alçando voo sem necessidade do sopro de seu criador, e até contra ele.

Há quem tenha chegado a dizer com certa graça que é possível que nem mesmo Lula saiba o que pensa de Rousseff, nem o que gostaria dela neste momento, se transformá-la no bode expiatório de toda esta inquietação que agita os brasileiros ou se seria melhor ajudá-la a não fracassar, para que não se pudesse um dia dizer que ele errou ao apresentá-la como a “melhor candidata” e sucessora sua, como “a mãe que cuidaria do Brasil”.

Difícil também saber o que Lula pensa sobre a renovação ou refundação do PT, já que sempre se disse que o partido não existiria sem ele, nem ele sem o partido. Isso continua a ser verdadeiro?

O ex-presidente se tornou — ou foi tornado — no contrário do bode expiatório, papel esse que cabe mais a Dilma.

O ex-sindicalista continua sendo visto, com razão ou sem ela, como o curinga, a carta mestre que permite ganhar qualquer aposta. Daí o movimento “Volta Lula”, lançado não apenas pelo PT, mas por milhões de eleitores que seguem vendo-o como salvador da pátria.

Difícil saber se é correta a notícia publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, segundo a qual Lula já teria dado sinal verde aos seus para lançarem sua candidatura, sem que se diga que foi ele que deu a ordem.

Se o Governo Rousseff fracassar e se fizerem necessárias novas eleições antes de 2018, não há dúvida de que o grito “Volta Lula” se fará mais forte. Lula é muito Lula e mantém ainda forte credibilidade e grande poder de mobilização, em especial nas classes menos escolarizadas do país, e paradoxalmente, também entre empresários e banqueiros e outros integrantes das chamadas elites.
Leia mais o artigo de Juan Arias 

Favelas poderiam servir de modelo para cidades do futuro


Uma cidade em que as pessoas caminhem mais e dirijam menos. Uma cidade em que a vontade da comunidade seja respeitada e considerada no planejamento urbano. Parece um sonho distante?

Para um dos ambientalistas mais respeitados da Grã-Bretanha, esses elementos já estão presentes em favelas brasileiras e poderiam ser um exemplo para as cidades-verdes do futuro.

"Precisamos ser mais sensíveis à forma como as comunidades querem viver junto", diz o físico britânico (nascido na África do Sul) sir David King, presidente do grupo de inovação urbanística Future Cities Catapult.

"É um processo de construir comunidades, não destruí-las. Construir um ambiente em que as pessoas encontrem seus vizinhos, trabalhem com eles em projetos comunitários", afirma ele, em entrevista à BBC Brasil.

Mas isso não significa que as favelas sejam um modelo em todos os sentidos. O que King defende é a adoção de duas de suas mais desejáveis características: a forma de auto-organização das comunidades, evitando o planejamento "de cima para baixo", e distâncias que podem ser vencidas a pé.

King também traça um paralelo entre as favelas e as cidades medievais. Ele defende que uma cidade planejada "do zero" a partir do modelo de favelas e cidades medievais se aproximaria de Barcelona - e seria o oposto da capital econômica do Texas, Houston.

'Estou aqui pra quê? Pra derrubar FHC'


Foi esse o grito de guerra golpista que varreu a Esplanada nos Ministérios, em Brasília, em abril de 1997. O PT – e suas sublegendas, como os jurássicos PC do B, a UNE (alguém ainda se lembra dela?) e o MST – continuavam sem aceitar o resultado do primeiro turno das eleições de 1994.

Os mais velhos ainda se lembram: Lula e seus “petelhos” alegavam que o Plano Real não passava de um estelionato eleitoral.

Lula e seus “petelhos”, que denunciam hoje o golpismo, foram os que mais defenderam a derrubada da Constituição durante os oito anos do mandato de FHC. Nem os gorilas mais reacionários do golpe de 1964 chegaram a tanto.

Dois meses depois, ainda em 1997, Gilmar Mauro, outro comissário do povo do MST, insistia: “Tem que derrubar o presidente, o vice e uma tropa de safados que está lá em Brasília.”

Um mês depois, José Rainha Jr. garantia: “Se o governo não tomar jeito, cai.” Em seu delírio, ele jurava que as Forças Armadas não teriam coragem de atirar “quando todo mundo for para as ruas”.

Também em julho de 97, outro celerado do MST, João Pedro Stedile, surtaria e confundiria o Planalto com o Palácio de Inverno, na Petrogrado de 1917: “É preciso descobrir bandeiras mágicas para mobilizar o povo e rebelá-lo contra o governo, como fizeram os bolchevistas com pão, paz e terra’ que implantaram o comunismo na URSS.”

Mas foi o comissário do povo Tarso Genro que iniciou a pregação aberta do golpismo, em janeiro de 1999, quando propôs que Fernando Henrique renunciasse e enviasse emenda constitucional ao Congresso, convocando nossas eleições presidenciais.

Ele repetiria essa proposta em outro artigo na imprensa e teria apoio do comissário Lula: “Se FHC não pode cuidar do desemprego e não pode fazer o país voltar a crescer, que peça as contas”.

Em sua coluna em O Globo, Márcio Moreira Alves registraria as lamúrias de uma insuspeita viúva do golpismo, o líder do PC do B, deputado Haroldo Lima. Segundo eles, os militares “deveriam encontrar uma maneira democrática e urgente de, sem golpe, defender a pátria ameaçada”.

O jornalista encerrou sua coluna com esta afirmação: “No passado, sempre foram os políticos de extrema-direita que bateram às portas dos quartéis. Agora, as vivandeiras são comunistas. É um sinal lamentável de podridão ideológica”.

Foi em meados de 1999 que a proposta golpista saiu às ruas: Lula, os “petelhos” e suas sublegendas anunciaram a Marcha dos 100 Mil sobre Brasília com o lema “Fora já, fora daqui, o FHC e o FMI”.

Isso levou o hoje senador Aloysio Ferreira Nunes a perguntar: “Fora FHC? O que é isso? É interromper um mandato popular legitimamente conquistado com uma diferença de 15 milhões de votos.”

Em setembro de 1999, a esquizofrenia da oposição “petelha” chegou ao auge. Sem estar dentro de uma camisa de força, Gilmar Mauro do MST, vomitou: “Pela nossa vontade, teria que fazer uma limpa e convocar eleições gerais imediatamente. Fecha o Congresso, fecha a Presidência e convoca eleições”.

Já em setembro, o Grito dos Excluídos, em Aparecida, proclamava: “Ou o governo muda a política econômica ou nós mudamos o governo.”

Candidato a vice-presidente, junto com Lula, nas eleições de 98, Leonel Brizola enlouqueceria em janeiro de 2000: “Se fosse juiz num tribunal que julgasse Fernando Henrique, numa luta, num confronto entre esquerda e direita, votava por passar fogo nesse sujeito.”

Paradoxalmente, foi um, até então, respeitável jurista, Fábio Konder Comparato que revelou sua vocação para ser o Pol Pot tupiniquim. Em março de 2001, numa entrevista para o jornal do MST, ele propôs a formação de “tribunais populares” para julgar o governo FHC. Só não falou em pelotões de fuzilamento e em campos de trabalho forçado.

Como negam hoje o que pregaram ontem, Lula e os “petelhos” denunciam agora o golpismo contra Dilmandona Ruimsseff. 
Tadeu Afonso

A Petrobras não é o governo


O objetivo dos eleitores deveria ser defender a Petrobras, protegê-la da mera instrumentalização política
A popularidade da presidente Dilma Rousseff (PT) despencou nos últimos dois meses: o número dos que consideram seu governo ruim ou péssimo saltou de 24% para 44%, revelou a mais recente pesquisa do Instituto Datafolha.

Nem mesmo durante os protestos que abalaram o país em 2013, a popularidade da presidente atingiu um nível tão baixo. Isso mostra como o auge que atingiu a crise da Petrobras – com desvio de recursos bilionários, segundo investigações ainda em andamento conduzidas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal – está sendo vinculado à figura da presidente.

Especula-se até a possibilidade de impeachment de Dilma Rousseff por improbidade administrativa. O espaço que tais especulações têm ganhado na mídia brasileira pode levar à interpretação errônea de que se trata de um passo lógico no saneamento da empresa que o brasileiro tanto identifica com seu país.

Afinal, o eleitor sabe que a saída de Graça Foster e de cinco diretores do comando da estatal não é suficiente para resolver os problemas da Petrobras. Será preciso muito mais para recuperar a credibilidade perdida.

O novo presidente, Aldemir Bendine, até então presidente e membro do Conselho de Administração do Banco do Brasil, não poderá fazer simplesmente tabula rasa. Em época de desaquecimento econômico internacional e de baixo preço do petróleo, ele terá ainda que sanar os problemas na gestão dos contratos denunciados pelas investigações anticorrupção. Ou seja: nem a Petrobras tem como recomeçar do zero, nem a conjuntura é propícia a uma rápida recuperação.

Contudo, reduzir o saneamento da Petrobras à dimensão política seria um erro, tanto para o Brasil como democracia quanto para a Petrobras como empresa.

De fato, estatais frequentemente são exploradas para atender a fins políticos; e seus tomadores de decisões sabem que, em caso de emergência, o dinheiro público estará lá para cobrir as perdas.

Para os críticos, uma ocasião oportuna para retomar o velho argumento de que a solução para a Petrobras seria uma privatização completa.

Mas isso seria simplificar demais o problema. Da mesma forma como seria errado instrumentalizar a crise da estatal para explorá-la apenas politicamente. Não resolveria o problema de ninguém.

Naturalmente é salutar o simples fato de um esquema de corrupção tão pérfido e nocivo vir à tona e ser investigado, e de seus acusados serem julgados e condenados. Também é perfeitamente correto cobrar da líder do Executivo que comunique tudo o que sabe, assim como incentivar que faça uso de seu poder como instância de controle. Isso deveria ser evidente.

Porém, como disse a própria presidente, é preciso punir as pessoas, não a empresa. Só assim seria feita justiça aos milhares de profissionais capacitados que transformaram a Petrobras em uma das maiores empresas petroleiras do mundo, atuante em 17 países, e com uma receita anual de mais de 300 bilhões de reais.

O objetivo dos eleitores deveria ser defender a Petrobras, protegê-la da mera instrumentalização política. Só assim ela será capaz de executar as mais que urgentes reformas, necessárias para tirá-la da lama ideológica em que se encontra.

Rodrigo Rimon Abdelmalack, editor-chefe da DW Brasil

Na falta de água, não falta cara de pau


O ilusionismo das palavras não vivifica a terra crestada no fundo das represas
Os governos agora, só agora, vão tomar medidas contra a escassez hídrica, popularmente conhecida como seca. Anuncia-se um festival de obras e consequentemente dinheiro saindo pelo ladrão no superfaturamento. Com a torneira fechada na Petrobras, eis aí uma boa cisterna para se recolher uns milhõezinhos de trocado como compensação. Enquanto não armam os canteiros de obras, se vire o mundo que nenhum deles é Raimundo.

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, até revelou a grande novidade de se fazer "parcerias republicanas", pomposo nome tirado de cartolas de marketing, para dar água ao povo. Está se vendo pela expressão que os governos não pouparão esforços para engambelar mais uma vez; tirar o deles da reta e mandar que reclamem com São Pedro, esse Cristo da politicagem.

Os governos assim prometem que serão abertas as bicas dos cofres públicos para jorrarem bilhões para os mananciais de sempre: as empreiteiras e bolsos políticos. Até lá, quando Deus quiser e os governos deixarem, haverá enfim água a custo bem mais elevado para o usuário pagar com juros astronômicos. Até lá, quando enfim serão inauguradas as tais obras, o povo que se dane.

Folhear o noticiário é um bom exercício para se livrar da culpa que mídia e governos querem impingir ao usuário, o eterno réu dos crimes dos governos. Ninguém é mais perdulário por ficar uns minutinhos a mais no banho, não escovar os dentes com apenas um copo de água, nunca pensar em recolher a água de chuva, ou não reutilizar a água da máquina de lavar para limpeza geral. As medidas que querem impor ao usuário, como castigo ou punição sem crime, são as que os governos nunca se impuseram por mero desinteresse.

Há 22 anos não se constroem reservatórios no Sudeste, região que produz 23% do PIB brasileiro. Esse novo polígono da seca seria a segunda maior economia da América do Sul só perdendo para o Brasil. Dinheiro nunca faltou, e para roubalheira nem se fala.

Sabiam há 12 anos, segundo especialistas, que haveria um grande período de seca, afetando reservatórios de abastecimento e hidrelétrico. Nada se foi pensado, pois não existe plano B, nenhuma medida tomada, porque racionamento é impopular, tira votos. Deu no que deu.

Nem ao menos fizeram o dever de proteger a população, obrigando as empresas a usarem sistemas de reuso - na quase totalidade não o fazem -, nem que proibido que fosse tirada água dos rios à vontade pelas indústrias. A lista é grande do que poderiam fazer, e não fizeram. Só na Assembleia de Minas (veja aqui) serão arquivados 45 propostas de contenção ao desperdício e conservação da água no Estado, apresentadas nos últimos quatro anos. A maior parte referente à economia a ser feitas por lava-jatos, postos de combustível e estacionamentos, indústrias e até mineradoras brigadas a implantar um sistema de bombeamento que permitiria o retorno para o território mineiro de, no mínimo, 50% do volume de água utilizado no processo de transporte do minério.

Os governos brasileiros, em particular do Sudeste, neste caso, são culpados de omissão, imperícia, negligência e imprudência, que estão no código jurídico. Sem falar na roubalheira para pintarem que estão fazendo o que nunca fizeram nem nunca farão.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Melancolia brasileira no Carnaval


O que sentem neste momento os trabalhadores decentes e sacrificados ao ver desfilar esta procissão de políticos emplumados saqueando o país?
Em menos de dois meses os brasileiros parecem ter passado da euforia ao desengano. É o que revelam os números de pesquisa do Datafolha, que mostram uma tomada de consciência nova e surpreendente do momento político e econômico vivido pelo país. Os cidadãos negam sua confiança na presidenta da República, Dilma Rousseff, e em seu Governo, reduzindo-a a 23%, meses apenas depois de a terem reeleito. Cerca de 70% já não se sentem próximos a nenhum partido.

Há momentos na história de um país — neste caso, o Brasil — em que é difícil analisar um processo de transformação tão rápido porque nele se misturam diferentes fatores e imponderáveis. E é nessas circunstâncias que substantivos e adjetivos se tornam insuficientes para expressar o que arde no coração das pessoas. Precisamos recorrer mais que nunca à semântica, porque as palavras, já banalizadas e despojadas de seu significado original, não bastam.

Dizer que o Brasil vive uma crise é dizer pouco ou talvez nada. Ressaltar que os brasileiros, depois de seus dias de glória, estão hoje preocupados com todo este rosário de notícias negativas, oferecidas a cada momento pelos meios de comunicação, como os escândalos de corrupção, a crise econômica, a perda de confiança nos governantes e a desilusão com a classe política em geral, também não diz tudo.

Que palavra extrair do dicionário para explicar o que palpita neste momento na maioria dos brasileiros, que começam a ver, incrédulos, como são fustigados pela falta de água, de energia, de esperança no futuro, pelo medo de perder o que têm e até o emprego?

Como definir o que sente a grande massa dos trabalhadores honrados, das pessoas e famílias decentes, dos que ainda não perderam os valores essenciais da vida e desejam inculcá-los em seus filhos, enquanto veem desfilar a trágica procissão de corruptos de alto coturno, os que até ontem se acreditavam intocáveis e para quem a mentira é somente um jogo permitido aos grandes?

Em rápida sondagem entre amigos e desconhecidos pertencentes a diferentes classes sociais, e depois de ter lido por estes dias centenas de cartas dos leitores enviadas aos jornais, tanto em papel quanto digitais, e dezenas de análises de cientistas políticos e sociólogos, atrevo-me a dizer que os brasileiros neste momento, mais que raiva e rebeldia, sentem este tipo de tristeza, já analisada por gregos e romanos, chamada melancolia, que Freud analisou como um “processo de luto sem a perda do objeto”.

A melancolia, analisada ao longo do tempo, é um vocábulo polissêmico, com muito significados, mas todos eles giram em torno de um mesmo conceito, que engloba de uma vez tristeza, cansaço, amargura, falta de entusiasmo e também desinteresse.

E tem um gosto amargo como a bile, à qual os antigos se referiam para descrever o estado de ânimo melancólico.

Até quase nada de tempo os brasileiros estavam convencidos de que sua vida iria melhorar. De repente se deparam com um futuro incerto, com anúncio de recessão econômica e com uma indústria em crise, demitindo milhares de trabalhadores.

O confisco da verdade


Quem disse: “(A recente campanha eleitoral foi) a mais suja. Aquela em que nossos adversários utilizaram as piores armas para tentar nos derrotar. Tentaram fraudar a vontade política da maioria, usando todos os seus recursos de comunicação para manipular, distorcer e falsear”?

Aécio Neves? Fernando Henrique Cardoso? Dilma? Lula?

Claro, Lula, no aniversário de 35 anos do PT. Quem mais ousaria tanto?

A metamorfose ambulante, como um dia Lula se apresentou, teve a cara de pau de dizer mais. Do tipo:

- O PT nasceu para ser diferente. A verdade é que foi o governo deles que tentou destruir a Petrobrás. E foi o nosso governo que a resgatou, retomou os investimentos que levaram à descoberta do pré-sal e fizeram da Petrobrás a maior produtora mundial de petróleo entre as empresas de capital aberto.

Sobre a corrupção na Petrobras, nem um pedido de desculpas.

Como a vingança veio a galope, Lula, Dilma e o PT foram obrigados a amargar, um dia depois de se reunirem em Belo Horizonte, os resultados da primeira pesquisa de opinião pública aplicada, este ano, pelo Datafolha.

Leia mais o artigo de Ricardo Noblat

Lula diz que há um golpe em marcha para depor Dilma. Bobagem!
O golpe já foi dado. Por ele, Dilma e o PT ao encenarem a farsa eleitoral do ano passado.

O 40° do covil

Perde é quem não sabe bater. A política é ao mesmo tempo a sublimação e o exercício da violência
João Santana, marqueteiro-mor do Planalto

A espada de Dâmocles que ameaça os brasileiros

O Brasil dos nossos dias vive como Dâmocles, personagem da mitologia grega que, homenageado pelo imperador Dionísio em um banquete, viu, ao olhar para cima, que uma espada pendia sobre sua cabeça, sustentada por um fio de seda. Apavorado, devolveu o lugar de honra que ocupava ao imperador. Mas aquele fio não era frágil como parecia: era o fio da responsabilidade, que arrebentaria quando a autoridade não a tivesse mais. E o cara era assim como um ex-Luiz ou Dona Dilma…

Nós, brasileiros, estamos por um fio. Vejo-me e a todos nós como passageiros de uma escuna invadida e dominada por piratas que saqueiam nossas riquezas, e nós, tomados de ira, reagimos apenas votando ferozmente… Sei não, mas acho que está passando da hora de quebrar o pau… Mas como? Na unha? Sim, enquanto as temos… E não me venham com essa história de que estou atiçando fogo. Se pudesse, eu não atiçaria, tacava… E, assim, talvez corresse o risco de ser presidente, mesmo sendo alfabetizado.

Gente, o pior dos cegos é aquele que não quer enxergar. Depois de mensalão e petrolão, histórias que não terão fim, virá coisa pior neste crescendo de desgraças que nos acomete. Parece que a natureza mostra que alguma coisa não está certa. Agora até água nos falta. E o Velho Chico sendo transposto, o que pode ser uma provocação tipo eleição de Renan, que o PT, às vezes, o tem como “o bom ladrão”…

E Dona Dilma, que não se assusta com a situação que ela mesma criou? E quem comprou ação da “roubobrás” com dinheirinho do Fundo de Garantia? Isso é perversidade… E os servidores públicos, que só deixarão pensão integral se morrerem até dia 28 de fevereiro? E a água? Sim, a água vai faltar porque ninguém fez nada para guardá-la, armazená-la.

juscelino fez Três Marias, mas, depois dele, não fizeram a barragem do rio Formoso 12 km a montante de Pirapora como programado. E ficou assim. Agora nem tico nem taco, nem água para gerar energia, muito menos, ou nada, para regularizar o leito do rio.

Aqui, em Minas Gerais, no governo de Francelino Pereira, quando o ex-deputado Carlos Eloy era secretário de Estado de Obras Públicas e a Copasa estava vinculada à secretaria, formou-se uma grande equipe dirigente da empresa, presidida pelo competente engenheiro Willian Penido, para equacionar o abastecimento de água da nossa capital e da região metropolitana. Tivesse tido sequência esse estudo de ampliação da captação do rio das Velhas e do rio Manso, não estaríamos sujeitos a morrer de sede.

Naquele tempo, foi realizada, apenas, a primeira etapa do rio Manso, cuja água passaria pelo anel hidráulico da Copasa e, juntamente com o ribeirão Serra Azul entrariam através de Betim e Contagem. O rio das Velhas viria para Belo Horizonte através dos bairros de Lourdes, Savassi, Centro etc. O problema é que, hoje, a Copasa só quer saber de lucro, água é problema de São Pedro, que, parece, anda puxando um ronco, assim como o povo brasileiro.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Adereço para o Brasil


Falência geral


Toda imprensa repercute pesquisa veiculada pela “Folha de S. Paulo” dizendo que a popularidade da presidente Dilma caiu de 42% em dezembro para 23% nessa semana. Atribuem tal retrocesso de sua popularidade às investigações do rombo na Petrobras e outros escândalos menores, onde foi mais tímido o produto do furto. Associam também essa baixa à mudez temporária da presidente. Desde que assumiu seu segundo mandato, Dilma Rousseff encastelou-se e tem evitado a imprensa ou qualquer outra forma de exposição, em razão da consciência que tem de sua inabilidade na expressão e no trato das relações políticas.

Somam-se os problemas que se acumularam num mesmo momento, muito acima da conta e para os quais sua equipe parece não ter ainda remédios disponíveis. A Dilma que venceu as eleições contra tudo e contra todos desabou-se em pouco mais de três meses. Quase foi à lona.

O Brasil está absolutamente perdido e sem direção de qual modelo econômico poderá se valer para alavancar sua manutenção. Fala-se em manutenção da máquina, do que já está aí a postos. Propor-se desenvolvimento seria um luxo, diante de tantos desacertos que comprometeram nossas perspectivas para os próximos anos. As opções disponíveis nos garantirão ficar de pé. Já não bastam os expedientes ou medidas menores, que funcionaram em períodos passados e que agora seriam paliativos sem qualquer efeito.

O sentimento demonstrado nas pesquisas divulgadas pela imprensa, ampliado pelos grupos derrotados nas últimas eleições e pelo interesse de alguns setores da produção, tudo isso conjugado, vem ajudando a consolidar nossas dificuldades. Ninguém quer passar uma borracha nesse quadro de escândalos, de corrupção, de roubalheira que vitimou a maior empresa brasileira e uma das maiores petroleiras do mundo, a Petrobras.

Ninguém em sã consciência espera que as grandes empreiteiras e fornecedores que alimentaram esse processo não sejam punidos, tenham seus diretores processados, julgados e presos se assim for a decisão da Justiça. Todos queremos o desfecho que se dará a esses processos, mais ou menos previsível se não acontecerem desvios de conduta ou manobras muito bem engendradas pela defesa desses que se apoderaram de tanto dinheiro. Espera-se ainda que a delação premiada não absolva de culpa os corrompidos, aqueles que decidiram em função da paga dos que os corromperam. São ladrões e como tal têm que ser tratados.

Dizer que a presidente conhecia completamente o que passava na Petrobras parece um exagero. O Brasil e seus problemas são muito grandes, diante inclusive da gigante Petrobrás. Nossas dimensões são continentais e o que precisamos de empreender, com a notória e absoluta falta de controles da máquina e dos recursos públicos, é transferir à iniciativa privada o máximo de responsabilidades que o Estado brasileiro hoje acumula. A corrupção, somada à ineficiência e precariedade gerencial do setor público, é tamanha que temos que reconhecer isso como saída. Não temos capacidade de gestão. O Estado, o público no Brasil são a “casa da mãe Joana”.

A corrupção vai seguir existindo, vigorosa, haja vista a participação que tiveram grandes grupos econômicos no custeio das últimas campanhas políticas, de todos os candidatos importantes, independentemente das posições que ocupavam esses mesmos candidatos. A prestação de contas oficial feita à Justiça Eleitoral é pública; é só ver. E, dizem, ainda tem o “por fora” de cujos montantes ninguém fala. Nenhum candidato recebeu tais somas para não devolver em favores, obras, interesses.

Temos que mudar o jogo enquanto é tempo. Já se furtou muito. Estamos atrasados.

A culpa é de todos nós com mandato

Se quiserem falar em impeachment devem propô-lo para todos que têm cargo eletivo, sem exceção. Se alguns merecem por ação e erro, outros por omissão ou incompetência

As forças no governo não estão dando a atenção devida aos riscos da insatisfação geral e crescente falando em impeachment. Continuam cometendo erros depois de erros, paralisando o País e irritando a população que já demonstrou estar no limite da insatisfação.

Mas aqueles que defendem impeachment, antes mesmo de haver razão clara para isso, não estão dando atenção ao que aconteceria: não pensam nos meses do processo, nem na radicalização que ocorrerá nas ruas de um lado e do outro, não olham quem tomará o lugar da presidente e quais seriam os conselheiros do novo presidente, não levam em conta o sentimento de desconfiança dos eleitores na democracia, ao saberem que o voto deles não tem mandato certo, pela segunda vez em 24 anos.

Pior, os que estamos descontentes e temos cargos de liderança e responsabilidade pública percebemos os riscos, sabemos das dificuldades de mais quatro anos à deriva e não queremos os riscos da interrupção do mandato, mas parecemos alheios, omissos ou impotentes para influenciarmos nas necessárias mudanças que permitam ao País retomar o rumo e a democracia, esperar a data certa para mudar dirigentes dentro dos prazos eleitorais vigentes.

Por esta nossa incompetência ou conivência, se quiserem falar em impeachment devem propô-lo para todos que têm cargo eletivo, sem exceção. Se alguns merecem por ação e erro, outros merecem por omissão ou incompetência.

O certo é que aqueles no governo, especialmente a presidente, dialoguem com seus críticos, percebam seus erros e busquem novo rumo para o País, e os que lhe opõem aceitem que ela tem um mandato, ofereçam e exijam alternativas. Mas se isso não acontecer, e a tormenta popular ocorrer, que sejam interrompidos todos os mandatos.

Como senador, vou continuar tentando influenciar na reorientação do País, mas se fracassar não tenho porque ser poupado. Embora a culpa seja de apenas alguns que estão no poder, especialmente a presidente, seus conselheiros, o PT e demais partidos próximos, a responsabilidade é de todos nós que temos mandato e responsabilidade.

Atual há 70 anos


5 de maio de 1945

Qualquer partido pode realizar qualquer programa, se as circunstâncias o permitem. Se não, não. Nenhum faz a felicidade do povo. Qualquer permite realizar o “progresso” social, se tal for possível, independente da colaboração partidária. A sociedade continua a mesma: uma caverna de ladrões, ou por outra, uma minoria privilegiada vivendo a expensas de uma maioria espoliada.
A espoliação da maioria, levada livremente a cabo, favorecida até pelos poderes públicos e em grande parte realizada por esses mesmo poderes, toca ao auge no Brasil deste momento. O afã de lucro, a ânsia de enriquecer de um dia para o outro, não deixa o mínimo escrúpulo na consciência dos industriais, açambarcadores, câmbio-negristas, advogados administrativos, capitalistas em geral e toda a caterva desumana da minoria gatuna que medra sob a proteção das leis. É com verdadeiro sadismo que essa corja espolia e rouba a pobre, a paupérrima população brasileira, talvez a de mais baixo padrão de vida em todas as civilizações.
Eduardo Frieiro (1889-1982)

Balançam as estruturas do poder público



Os números são trágicos e não só para o governo e sua chefe, destacando-se o mais contundente deles: em dois meses a popularidade de Dilma Rousseff caiu de 42 para 24%. O precipício ficará mais fundo se acrescentarmos que 77% dos consultados pelo Datafolha opinaram que a presidente sabia dos escândalos na Petrobras.

Importa, mais do que as causas, prospectar as consequências. A queda determinará mudanças no comportamento da presidente e do governo? Parece que não, pois certamente os baixos índices de avaliação de Dilma já eram detectados faz mais do que sessenta dias. Longe de ir adaptando posturas, conceitos e programas, ela nada fez, como não fará, em termos de alteração de posturas e de rumos. O diabo é que se mantiver as diretrizes rejeitadas pela opinião pública, mais despencará. A forma imperial de dirigir o país, julgando-se dona de todas as verdades e instância decisória única, é a responsável maior pela débâcle.

Como, pelo jeito, nada vai mudar, vale concluir que a rejeição agora constatada se transformará em repúdio. Depois, em indignação. Menos pela hipótese de imediatas manifestações virulentas nas ruas, mais pelo sentimento de desprezo da sociedade diante de quem deveria conduzi-la – o lógico é aguardar a ruptura. Continuam atuais as palavras do então presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro, às vésperas da defenestração de Fernando Collor da presidência da República: “O que o povo quer, esta casa acaba querendo”.

Vai crescer no Congresso e fora dele a proposta do impeachment de Dilma, possibilidade cada vez menos distante, ainda que por enquanto inviável. Uma fagulha que seja, por exemplo causada pela lista do procurador-geral, poderá acender o rastilho até o barril de pólvora.

O grave na última pesquisa do Datafolha está na extensão até outras instituições do repúdio à presidente Dilma e ao seu governo. Ainda mais na iminência da divulgação do nome de deputados e senadores, mesmo os não reeleitos, mais ex-governadores, ex-ministros, empresários e altos funcionários acusados de envolvimento na lambança da Petrobras. Balançam as estruturas do poder público, como efeito da pesquisa que atingiu a presidente e seu governo, julgados ruins ou péssimos por 44% dos cidadãos ouvidos. Tivesse a consulta chegado a todos os governadores e prefeitos, não apenas a Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, os resultados seriam quase os mesmos. Do Congresso, nem se fala. Sequer o Judiciário escaparia, apesar de mais preservado desde o mensalão e frente às expectativas do petrolão. Mesmo assim, o conjunto da obra dos tribunais e juízos inferiores não parece edificante. Sobram o Ministério Público e a Polícia Federal, insuficientes para sustentar as estruturas do poder público.

Carlos Chagas

domingo, 8 de fevereiro de 2015

E ninguém mais fala

Os fundos de pensão estão no centro da corrupção na política brasileira. O governo Lula descobriu os fundos de pensão. Em vez de demolir o núcleo de corrupção ali já existente, decidiu usá-lo
Roberto Mangabeira Unger, em 2005, mas depois seria ministro de Lula e agora de Dilma

Jamais visitou um poço de petróleo


Vamos que na véspera de uma decisão qualquer, o Neymar se contunda ou até se negue a entrar em campo. Caberá ao Dunga encontrar um substituto à altura, mas como reagirá a torcida caso ele convoque o Marcelinho, craque do basquete sem a menor intimidade com o futebol?

É o que acontece com a presidente Dilma no papel de técnico. Para presidir a Petrobrás, foi buscar Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil. É claro que como no basquete e no futebol, joga-se com uma bola, mas são diversas as regras e características dos dois esportes. No mínimo, o Marcelinho vai querer jogar com as mãos e estranhará o tamanho do gol quando se aproximar da área adversária…

A substituição de Graça Foster na presidência da Petrobrás evidencia, uma vez mais, o descontrole, a falta de critério e a incapacidade do nosso Dunga do palácio do Planalto. Dilma não consegue formar uma equipe, e quando anuncia alguma escalação, deixa óbvia a confusão. Bendine por ser bom na aquisição de bancos estrangeiros, até mesmo na facilitação de crédito para os fregueses do Banco do Brasil, mas, em matéria de petróleo, confunde pré-sal com salamaleque. Terá carta-branca para que? De que forma irá recuperar a imagem da esfrangalhada empresa estatal, se jamais visitou um poço de petróleo?

Mais esse episódio mostra o pantanal em que o governo se meteu sem a menor possibilidade de recuperação. Afunda cada vez mais nas próprias contradições, primeiro comprimindo, depois aumentando preços e impostos. Suprime direitos trabalhistas, entrega-se à chantagem dos partidos e colhe derrotas no Congresso.

Dona das verdades absolutas, a presidente imagina-se imperatriz da nação, instância suprema de todas as decisões. Não consegue dialogar com os sindicatos nem com o empresariado. As bases de seu partido encontram-se em franca rebelião, ao tempo em que as forças aliadas comportam-se como adversárias. A inflação sobe, o PIB desce, ao tempo em que a fatura dos desatinos vai para onde sempre foi: as massas e a classe média. A sombra do racionamento de água e de energia só não assusta mais do que o desemprego. Convenhamos, algo necessita ser feito, mas o quê?

O exemplo do que fazer talvez venha do Vaticano. Diante da inoperância de um Papa sem condições de exercer suas funções, mas sem ânimo para enviá-lo ao Criador mais cedo do que dispõe os Sagrados Desígnios da Providência, os cardeais decidiram eleger outro. Ambos convivem, ainda que apenas um venha tentando, até com sucesso, recolocar a Igreja em seu caminho.

Não há provas?


Querem criminalizar o dinheiro honesto que o partido arrecadou. Não há nenhuma prova contra o partido
Lula, ex-presidente do Brasil

Errar calado e por calar-se

Avaliação negativa saltou de 24% em dezembro para 44% em fevereiro 
Um sintoma inconteste da impopularidade de uma pessoa é a impopularidade de suas atitudes. Um amigo comentou recentemente que esse é o quadro atual de Dilma, com um agravante: se fez assim, está errada; se fez assado, também; e erra ainda que deixe de fazer.

O momento de pôr em curso decisões impopulares é agora, não só porque a conjuntura pede, mas também porque é começo de mandato. Se as coisas melhorarem depois de 2016, terá valido a pena no cômputo eleitoral.

Reclamar da incoerência com o que se vendeu durante a campanha do ano passado é inútil. Compensa mais chorar abraçado ao travesseiro para ver se se conquistam alguns pontos na escala da tosca maturidade política.

Acontece que a situação da presidente está difícil até jogando em casa. Da parte dos tucanos e amigos, que se recusaram ao diálogo e a oferecer a outra face, era de se esperar a postura crítica tão firme como superficial: “Dilma não mudou? Avisamos que as preferências dela tendem a afundar o país”. “Dilma mudou? Estão vendo como ela mentiu na campanha?”

Já do seio petista vem o jato de impopularidade mais importante. A escolha de ministros como Joaquim Levy e Kátia Abreu abriu feridas no partido, somando-se a esses perfis pouco afeitos aos companheiros a decisão de pôr o pessoal do Lula para fora do Planalto. Foi Marta quem pôs a boca no mundo e expôs o cisma.

Na economia, o fato de Levy ser e agir como um “Chicago Boy” de pedigree não surpreende, assim como a repercussão de sua ortodoxia dentro do “PT de raiz”. Novidade é termos um ministro da Fazenda com, aparentemente, autonomia para além de mero agente da “chefa”. A que distância irá essa corda?

Entre os petistas que andam torcendo o nariz, Levy é comparado à gestão Palocci no primeiro ano do governo Lula. Quando 2003 ainda estava pela metade, foram lançados livros, artigos e manifestos de intelectuais e militantes insatisfeitos com a condução da Fazenda e frustrados diante das imensas expectativas inspiradas pela ascensão do líder operário. A diferença para a situação de agora é que, na circunstância passada, as esperanças eram realmente enormes. Já hoje a falta de expectativas é que pode sentenciar um futuro menos próspero.

O que Dilma precisa para que alguma coisa que faça seja encarada como positiva é se comunicar. Quando ela venceu, em 26 de outubro, discursou pregando a reconciliação. Parecia o primeiro passo para um novo ciclo, uma transição da gerente para a estadista. Ficou só parecendo, e a impressão só se esmaece.

O país enfrentará dias difíceis, de racionamento, escassez, talvez de desemprego. É papel do chefe de Estado vir a público nesses casos e falar, justificar suas escolhas, explicar por que um passo supostamente para, trás é o melhor caminho para dar dois a frente depois. Se ela não fizer isso, mais do que a suspeita de soberba, estará confirmada sua inaptidão em fazer política aos melhores modos republicanos.

João Gualberto Jr.

'Na dúvida, fique com o companheiro'

Lula busca reabilitar lealdades valendo-se do credo que sempre inspirou o PT. Nele, os companheiros pairam acima de tudo. Da verdade, da Justiça, do país
A prática não começou na Presidência da República. Desde sempre, ainda quando o voo de alcance máximo eram as prefeituras, o PT tratou o Estado como uma ação entre amigos. No Planalto, a coisa descambou: ampliou-se a rede de companheiros, multiplicaram-se os esquemas de financiamento, pulou-se de milhares para milhões.

Sem o charme de outrora e vendo tudo desmoronar, o partido agarra-se ao desgastado chavão do perseguido. Difícil que dê certo diante do poço sem fundo de lama em que se meteu.

Nem Lula garante o êxito da estratégia.

Ainda que encante o público interno com a sua fala sempre sedutora, Lula não consegue mais transformar água em vinho.

Transfere para os adversários os pecados cometidos pelos governos petistas e repete a ladainha de atribuir denúncias que enojam o país e escancaram os métodos espúrios do partido a uma tentativa da mídia de criminalizar o PT. Na comemoração dos 35 anos da legenda, chegou ao desplante de indicar um “ritual” da mídia contra o partido: na quinta-feira, boato; na sexta, denúncia; no domingo, massacre.

Fala como se a delação premiada de ex-diretores da Petrobras indicados por seu governo, dando conta de que o PT abocanhou nada menos de US$ 200 milhões da estatal, fosse invenção da imprensa. Como se partisse da mídia a negativa de auditores externos de assinar o balanço da petroleira, tamanho o rombo. Como se os condenados no Mensalão fossem inocentes.

Nega fatos como o crescimento do país perto de zero - até negativo no caso da indústria - ou a inflação de 7,14% nos últimos 12 meses. Meras invencionices de jornalistas.

Sem qualquer pudor, Lula compara medidas duras que terão de ser tomadas para tirar o país da UTI à quimioterapia e radioterapia às quais foi submetido. Como se a doença da economia não tivesse sido provocada pelo governo Dilma Rousseff, mas por um câncer de origem desconhecida.

A galera vai ao delírio. Mas Lula e o PT precisam mais do que isso. Necessitam da mágica, do condão que o ex não mais tem.