sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025
Trump x Trans
Mas, nesta, ele pode se dar mal. A perseguição aos trans ameaça atingir uma instituição cara ao povo americano: a vida íntima de alguns de seus amados heróis dos quadrinhos e do cinema. Durante décadas, eles exerceram uma sexualidade ambígua, que as pessoas desconheciam. Com a estupidez de Trump, no entanto, ela pode sair do armário, e já não será sem tempo.
Quem diria, por exemplo, que Minnie Mouse, a rata de Walt Disney, é Mickey Mouse em travesti? É só observar: Minnie é Mickey de vestido de bolinhas, fita no cabelo e cílios postiços. As luvas de ambos têm quatro dedos e eles nunca aparecem juntos no mesmo quadrinho. E se o pato Donald não for um pato, mas um marreco, e, aliás, uma... marreca? Os patos têm uma membrana vermelha no bico, que Donald não tem. E só as marrecas têm aquele rabicho ondulante de Donald. Como se explica?
Fácil. Nos anos 1940, Walt era detestado pelos empregados de seu estúdio. Mau patrão, recusava-se a dar o crédito aos verdadeiros criadores de seus personagens para que todos pensassem que era ele quem os desenhava. O Mickey travesti pode ter sido uma vingança de seu desenhista, Ub Iwerks; o Donald-marreca, de Carl Barks.
E a Chita do Tarzan? O personagem era fêmea, mas o macaco-ator era macho. O bravo Rin-Tin-Tin era uma cadela e a doce Lassie, um cachorro. O que dirá o transfóbico Trump ao saber que Mickey, Minnie, Donald, Chita, Rin-Tin-Tin e Lassie pertencem ao grupo LGBTQIA+?
A estratégia de Trump é mais sistemática do que parece
Roosevelt implementou uma enxurrada de leis e decretos para garantir que o governo federal liderasse a recuperação econômica, rompendo com as políticas de seus antecessores. Sua proposta enfrentou forte resistência da Suprema Corte, que bloqueou algumas de suas reformas.
Ao contrário de Roosevelt, Trump não enfrenta uma Suprema Corte hostil, tendo conseguido lotá-la de juízes conservadores que apoiam sua agenda. No entanto, o fator tempo é fundamental. Segundo Greven, Trump tem dois anos para implementar mudanças profundas antes das próximas eleições de meio de mandato. "Se as instituições democráticas continuarem a funcionar em 2026 ou 2028, é provável que haja uma correção, ou pelo menos a possibilidade de o eleitorado rejeitar sua agenda", prevê o cientista político.
Por enquanto, Trump tem forte apoio popular, beneficiando-se do desencanto com a democracia, um fenômeno que Greven diz não ser exclusivo dos EUA. A frustração surge porque constituições, tribunais e burocracia limitam o espaço de manobra dos governos eleitos. "Estamos vendo um apoio crescente a um modelo de democracia hipermajoritária, onde as barreiras institucionais ao poder executivo (os chamados freios e contrapesos nos Estados Unidos) são eliminadas", disse Greven.
Segundo o especialista, Trump busca desmantelar os controles democráticos para estabelecer estruturas autoritárias. A questão é até que ponto isso será possível.
Para levar adiante sua agenda, Trump usa uma tática conhecida como "inundar a zona com merda", conforme definido por seu ex-assessor Steve Bannon. Consiste em saturar o espaço midiático com uma avalanche de anúncios, declarações e escândalos, dificultando a reação da oposição.
Diante dessa estratégia, os democratas optaram por não cair em todas as provocações de Trump e, em vez disso, concentrar seus esforços na arena judicial. "Os democratas decidiram não responder a todos os ataques, pois isso enfraqueceria sua estratégia. Em vez disso, eles estão confiando na justiça e em uma possível correção eleitoral em 2026", explica Greven.
Trump está apostando em decretos executivos maximalistas, que incluem cláusulas de salvaguarda para que, mesmo que algumas partes sejam derrubadas na justiça, o restante permaneça em vigor.
O presidente republicano está se concentrando nas prioridades clássicas do partido: reduzir a burocracia, endurecer as políticas de imigração e fortalecer o controle de fronteiras. O que não tem precedentes, no entanto, é o radicalismo com que ele tenta implementar essas mudanças.
Segundo Sascha Lohmann, especialista norte-americano da Fundação Ciência e Política (SWP) em Berlim, essa abordagem visa promover uma transformação estrutural do país. "Trump não quer apenas reformas, mas uma revolução reacionária que enfraqueça os mecanismos de controle democrático e estabeleça um sistema mais autoritário", alerta Lohmann.
O resultado da estratégia de Trump dependerá não apenas dos tribunais, mas também da dinâmica política dos próximos anos. Um exemplo semelhante ocorreu na França, quando o ex-presidente Nicolas Sarkozy lançou uma série de reformas simultâneas em 2007 para superar seus oponentes.
No entanto, a tática criou confusão e muitas reformas ficaram inacabadas ou foram revertidas. A questão é se a agenda de Trump seguirá o mesmo destino ou se alcançará uma transformação duradoura e estrutural da democracia americana.
Extrema-direita: o retorno ao neandertal
Outra hipótese frequentemente considerada é a de que o consumismo descontrolado, estimulado pelo capitalismo moderno, turbinado pelo uso das redes digitais sem fronteiras nem pudores, teria criado uma geração de pessoas fúteis, com princípios rasos e portadoras de uma espécie de conservadorismo anarquista. Essa geração, menos atenta à realidade, seria mais suscetível às ideias retrógradas da extrema direita que julgávamos superadas.
Já no campo da política conservadora tradicional há uma resistência à opinião comum de que essa extrema direita no estilo Trump e Bolsonaro seja farinha do mesmo saco que a direita histórica da francesa Marine Le Pen ou do Partido Novo aqui no Brasil, por exemplo. Ou seja, não misturar a direita limpinha com os seguidores do marketeiro Steve Benon e do astrólogo Olavo de Carvalho. Deixemos de fora o Javier Milei que parece ser um caso à parte, levando-se em conta uma certa sintomatologia que envolve as atitudes e gestos do argentino.
Contudo, para quem enxergar alguma semelhança entre essas lideranças desvairadas da direita de hoje em dia e os homens das cavernas, não seria exagero considerar uma possibilidade alternativa, com fundamentação antropológica. Estudos biológicos avançados detectaram recentemente que não existe homo sapiens puro entre nós, que somos humanos modernos! Ao mapearem a composição genética de fósseis humanos, cadáveres recentes e pessoas vivas de diferentes partes do mundo, os cientistas estão descobrindo que o tipo europeu, de pele branca, com olhos e cabelos claros, ainda preserva até 2% de DNA neandertal. Ou seja, quando o homo sapiens (o hominídeo mais desenvolvido) migrou da África para outras regiões, encontrou os neandertais que se originaram nas áreas mais geladas do planeta, como a Europa, e houve cruzamento entre as duas espécies.
Os neandertais eram mais fortes fisicamente do que o homo sapiens e, também, mais resistentes ao frio e às grandes altitudes. Porém, apesar de já disporem de algumas armas, ferramentas e vestuário rudimentar, a espécie neandertal pura foi extinta há uns 40 mil anos. O homo sapiens tinha maior sociabilidade, raciocínio mais complexo e maior resistência a determinadas doenças.
Sendo assim, no mais puro interesse da compreensão do atual cenário político mundial, e sem querer estimular nenhum tipo de supremacismo racial moreno (o que seria um racismo às avessas), fica aqui uma boa pergunta para os mais curiosos fazerem ao ChatGPT ou ao DeepSeek: Será que essas pessoas de mente pré-histórica, terraplanistas, antivacina, neofascistas, homofóbicas, misóginas e antidemocráticas estão nesse grupo de humanos brancos agalegados que detém maior percentual de DNA neandertal em sua genética? A questão é puramente científica.
Trump e os 12 trabalhos do autocrata
1. O autocrata e o Povo. Induza confusão entre vitória eleitoral e mandato ilimitado. A identificação existencial entre povo genuíno e líder eleito apaga a distinção entre maiorias e minorias. Estas, ou se aliam, ou são excluídas. Não há diversidade: "povo" de um lado contra os moralmente depravados de outro.
2. O autocrata e a Verdade. Estigmatize e inviabilize instituições de produção de informação, ciência e imaginação crítica. Ataque universidades, vigie salas de aula, intimide cientistas, professores, jornalistas. Invoque intenções maliciosas no que fazem.
3. O autocrata e Deus. Explore o poder religioso. O líder não é só encarnação messiânica do povo, mas se relaciona com a vontade de Deus. De um Deus.
4. O autocrata e o Tempo. Administre a velocidade. Saiba os benefícios da tempestade ("shock and awe") e o momento de desacelerar. Alterne avalanche e calmaria para desnortear. Invente um passado e dali tire seu plano de futuro.
5. O autocrata e a Lei. Da lei se imponha como último intérprete. A linguagem jurídica oferece potente ferramenta de autolegitimação. Formal e informalmente, inunde cortes e as desafie a controlar seus atos ("shock and law"). Ignore ou desobedeça a ordens judiciais. Desgaste capital político de cortes e, na hora certa, capture juízes e juristas.
6. O autocrata e a Palavra. Bagunce a semântica, descole as palavras de seus conceitos enraizados. Torne as ideias de liberdade, democracia e direitos o seu contrário. Esvazie a possibilidade da comunicação a partir de conceitos compartilhados.
7. O autocrata e a Força. Demonstre ser um sujeito de força e explore a exibição de força. Militares, policiais e milícias sectárias são extensão de suas mãos. Infalíveis no combate a inimigos, não devem satisfação à lei, apenas à sua pessoa.
8. O autocrata e a Burocracia. Combata expertise e autonomia, rejeite atos de governo baseados em razão e evidência. Estigmatize burocratas profissionais e os substitua por lealistas e apologistas.
9. O autocrata e a Política. Quase todas as dimensões da vida devem se politizar. Combata instituição imparcial. Todo indivíduo e instituição deve assumir lado, critério primário de autoidentificação pública e privada.
10. O autocrata e o Poder Econômico. Não deixe de trazer a oligarquia para o governo.
11. O autocrata e o Estrangeiro. Em nome da soberania, rejeite governança supranacional dos direitos humanos, da segurança internacional, sanitária e climática. E se credencie no consórcio global contra a democracia.
12. O autocrata e inimigos imaginários. Fabrique pânico moral permanente e legitime violência contra os grupos mais vulneráveis. Associe imigrantes, transgêneros, negros, indígenas, militantes sociais ao crime.
Na mitologia grega, o rei Euristeu impôs 12 missões a Hércules. Tarefas como matar o leão de Nemeia e roubar o cinturão de Hipólita. Parecia impossível aos cientistas políticos da época. Hércules foi lá e fez.
Trump e Bolsonaro se familiarizaram com a cartilha no primeiro mandato. Trump veio mais afiado e bem assessorado para efetivá-la no segundo.
Inversão é uma força poderosa
— Você deve estar só... — disse em seguida, com voz tranquilizadora porque sabia o que significava estar sem o outro que nos ama, ajuda e desentorta...
O pai de um amigo foi internado com ataque cardíaco. Aos 88 anos, ele sofre de Alzheimer e foi socorrido num hospital público desenhado para mal atender pobre e preto. Depois dos rituais que Erving Goffman chamou de degradação e despersonalização, ficou ansioso e agressivo. Quando arrancou os acessos colocados em seus braços e tentou fugir, pois imaginou que havia sido preso, foi preciso amarrá-lo na cama — o que, obviamente, confirmou sua fantasia. Fantasia que se explicava porque a internação é uma poderosa inversão. Exige o controle e a neutralização dos elos emocionais rotineiros, produzindo o mesmo sentimento de vestir uma roupa pelo avesso. Não é banal substituir pessoas amadas por médicos e enfermeiros impessoais, que olham a doença mais que o doente, numa — reitero — poderosa inversão. A doença, como certos rituais de passagem, nos leva a um comportamento invertido.
Agitadíssimo, o pai de meu amigo ficou por três dias na emergência tentando escapar e dando imenso “trabalho” à mulher e aos filhos. Mas, quando sua única filha veio substituir os irmãos, ela promoveu um drama e apaziguou as aflições do pai que se considerava prisioneiro. A moça não usou remédio ou oração. Usou um poderoso mecanismo ritual que sociólogos comparativos como Goffman, Turner e Lévi-Strauss conhecem e estudam: a inversão que usa o isolamento obrigatório como agente de mudança, cura e transformação.
Assim que chegou ao quarto, a filha comunicou ao aflito pai que ela — e não ele — era a doente aprisionada e ele o livre visitante!
— Veja, papai. Estou amarrada depois do tombo que tomei. Sou grata por ter você ao meu lado, cuidando de mim...
O poder dos avessos — triviais nos ritos de passagem e nos cerimoniais de reversão político-social como o carnaval, conforme estudei em meu livro “Carnavais, malandros e heróis”, de 1979 — serve como solução para estados de angústia ou perigo, como revelam a literatura, o drama e os ritos.
Assim foi a noite dessa família aqui em Niterói. O mundo, entretanto, treme com as inversões de Donald Trump. Como um poderoso bruxo autocrático ranzinza, ele focaliza o lado perigoso e ambíguo das trocas. Pois, como revelou Marcel Mauss, trocar implica três, e não apenas as duas fases de dar e receber. Na reciprocidade de que tanto se fala sem saber, trocas de todo tipo implicam dar, receber e retribuir. Essa é a base da solidariedade que, paradoxalmente, nos obriga a retribuir os favores e obséquios que formam as cordas mais profundas da vida social. Dar, receber e retribuir com justiça constituem o cerne das sociabilidades e dessas misteriosas imposições do todo sobre as partes; da moralidade, do bem-estar e daquilo que chamamos de paz sobre a ansiedade, o primitivismo e a arrogância. Esses valores têm caracterizado as ações do presidente americano.
A brutalidade irmã de sangue da burrice, prima da ignorância e mãe do narcisismo promove a regressão ao isolamento num planeta interligado que sofre os efeitos da hiperconectividade. Brincar de transformar comércio em guerra acaba em guerra.
No nosso Brasil, que os políticos e juristas recriam dia a dia, a maior, a mais visível e a mais rotineira inversão é ficar rico, poderoso, isento de cumprir leis, dedicando-se ao santificado projeto político de cuidar dos pobres.
Atitudes de Trump atingem os pilares da ordem internacional
Analistas da política norte-americana se esforçam para distinguir, na enxurrada de decretos executivos expelidos pelo presidente Donald Trump, o que é para valer e o que é apenas para obter —pela intimidação— acordos mais vantajosos.
Seja qual for a intenção, o desastre é monumental e fere não apenas os habitantes do país, cuja grandeza passada o novo ocupante da Casa Branca prometeu ressuscitar —seja lá o que ele quis dizer.
No plano externo, palavras e atos do presidente atingem igualmente pilares da chamada ordem internacional baseada em regras —ou ordem liberal. Obra lapidada do Ocidente democrático, depois da Segunda Guerra Mundial, seu objetivo era reduzir o risco de novos conflitos generalizados e estabelecer limites à pura política de poder e ao exercício da força bruta nas relações entre países. Além de buscar soluções negociadas para problemas que ignoram fronteiras —como a crise ambiental ou as pandemias. Seu instrumento foram os numerosos organismos e arranjos multilaterais que se multiplicaram em torno das Nações Unidas e de entidades como o FMI e o Banco Mundial.
Eis por que as primeiras decisões de política externa de Trump foram a retirada dos EUA do Acordo de Paris e da Organização Mundial da Saúde. O primeiro, a duras penas, visa construir um caminho comum para lidar com as mudanças climáticas. O segundo, integrado ao sistema da ONU, sempre ficou aquém dos desafios criados pelas epidemias globais e pela abissal desigualdade de recursos entre nações, malgrado sua gritante importância.
Logo a seguir vieram as decisões de retirar a América do Conselho de Direitos Humanos da ONU; do Tribunal Penal Internacional; e do Conselho Interamericano de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos). Sem dúvida, a parte mais vulnerável do sistema internacional baseado em regras, pelas dificuldades de fazer cada país cumprir suas decisões, esses organismos expressam também suas aspirações mais elevadas de um mundo respeitoso da dignidade das pessoas e da sua proteção contra toda forma de violência.
O abandono dessas organizações multilaterais soma-se aos golpes ao livre comércio, às ameaças de anexação de territórios, como a Groenlândia, ou de ocupação, como no monstruoso projeto para Gaza. Em conjunto, anunciam uma concepção que faz lembrar a política de áreas de influência e de equilíbrio de poder características das grandes potências europeias no século 19, às quais os estudiosos atribuem a instabilidade internacional que teria desembocado na Grande Guerra de 1914.
É obvio que, hoje, o mundo é outro e a existência mesma de entidades multilaterais é disso uma prova —e, felizmente, um obstáculo ao agressivo nacionalismo de Trump, que, de resto, também enfrentará resistências internas. Mas não há dúvida de que suas políticas de caos e destruição aumentam a crise pré-existente das regras do jogo internacional e o risco de catástrofes globais.
"O velho mundo está morrendo e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros." A frase é do notável pensador italiano Antonio Gramsci, falecido em 1937 depois de oito anos nos cárceres fascistas. Nunca pareceu tão atual.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025
A primeira coisa é entender o Trumpismo
Em 1979, o thatcherismo chegou ao poder, um marco eleitoral que abriu as portas para um mundo cujos vestígios agonizantes ainda habitamos. Em um ensaio publicado na época, intitulado O Grande Espetáculo da Direita , Stuart Hall abordou o estado de desorientação em que a esquerda britânica se encontrava diante da primeira tempestade neoliberal. Esse texto continha duas frases que, embora talvez óbvias, se colocam como guias estratégicos de enorme relevância: “se quisermos ser eficazes, isso só poderá ser feito com base numa análise rigorosa das coisas como elas são, não como gostaríamos que fossem”. Além disso, Hall observou, “devemos denunciar as satisfações obtidas pela aplicação de esquemas analíticos simplificadores a eventos complexos”. O fenômeno Thatcher foi além das coordenadas políticas até então vigentes: para enfrentá-lo, era necessário, antes de tudo, entender as razões mais profundas do seu sucesso.
Algo semelhante está acontecendo hoje com o trumpismo, a herança bastarda da Dama de Ferro. Durante seu surgimento, houve muitas análises focadas em notícias falsas e desinformação. Lutar contra Trump era, então, desmascarar a “pós-verdade” que ele trazia consigo . Pouco depois, analogias históricas comparando o movimento MAGA ao fascismo entre guerras começaram a ressurgir. Esses discursos retoricamente evocativos mostraram-se politicamente estéreis: os apelos ao combate ao fascismo não impediram o seu regresso; A proliferação da verificação de fatos e sua contrapartida — “os dados matam a narrativa”, gritavam em todos os lugares — dificilmente contribuíram para a resistência. Ninguém disse que seria fácil: em meados do século passado, Theodor Adorno já alertava para a natureza “intrinsecamente antiteórica” e ilusória da reação.
Agora, no início de um segundo governo Trump, o novo fetiche por análise está se mudando para o Vale do Silício. Hoje, entender os pontos fortes e as novidades do Trumpismo significa falar em “tecnocasta”, “broligarquia”, “tribunal tecnológico”. Não é uma mudança trivial, claro: a imagem dos grandes chefões da tecnologia na primeira fila da coroação de Trump constitui um salto qualitativo com consequências inegáveis. Agora, o desafio, como Hall estipulou, é focar em diagnósticos complexos que permitam estratégias eficazes, e nunca o contrário.
Na dimensão estritamente teórica, há muitas objeções à abordagem da tecnocasta e sua tese subjacente: a suposição de que já vivemos em uma realidade “tecno-feudal”, na qual grandes empresas de tecnologia, agindo como senhores feudais, acumulam poder e riqueza controlando informações e dados. Como Evgeny Morozov aponta, rotular essas corporações como rentistas ignora a dimensão produtiva e criativa de seus modelos de negócios. Além de simplista, essa visão nos concebe como “servos digitais”, desprovidos de agência ou capacidade de ação. Por outro lado, é essencial reconhecer o papel do Estado na ascensão dessas empresas: o iPhone ou o mecanismo de busca Google não existiriam sem o investimento estatal.
Mas não estou preocupado com a falta de rigor em si, com a auto referencialidade da teoria. Minha obsessão pelo diagnóstico, assim como a de Hall, é fundamental: entender bem Trump e seus acólitos não é um bem em si; é uma condição para a possibilidade de uma estratégia política que possa enfrentá-los. Se a abordagem das notícias falsas tivesse ajudado a diluir o fenômeno dos magnatas de Nova York, isso teria sido bem-vindo. Meu medo, então, é que encontremos subterfúgios estilísticos para ignorar o fato de que o trumpismo politiza e dá sentido a um mal-estar real. Ernst Bloch cunhou a ideia de “fraude de execução” para descrever o fascismo: era sua maneira de levar muito a sério os desejos e anseios que ele explorava, mesmo que não conseguisse fornecer uma solução. Não é muito diferente do que vemos hoje.
Na verdade, minhas dúvidas sobre a designação de “tecnocasta” são suspeitas sobre sua eficácia: concentrar o debate na figura de Elon Musk desativa a possibilidade de questionar o sistema que o gerou? Será que isso torna invisíveis outras características essenciais do novo trumpismo, como o retorno ao expansionismo territorial de outrora, a subordinação da Groenlândia, do Panamá, do Canadá e até de Gaza? Estamos diante de uma sucessão de falsas dicotomias? Acredito que essas são as perguntas que devemos nos fazer antes de confiar no discurso da “tecnocasta” como antídoto para Trump.
Também em 1979, a milhares de quilômetros de distância, dois estudantes da Duke University criaram a Usenet, a “Arpanet para os pobres”: uma estrutura descentralizada baseada em servidores distribuídos, que facilitava discussões temáticas abertas, promovia a livre troca de ideias, com acessibilidade e horizontalidade, sem algoritmos ou hierarquias empresariais. Este exemplo é relevante porque hoje, em meio à privatização e à captura oligárquica das redes sociais, carecemos de comunidades de software livre como a Usenet.
Assim, nosso contexto, além do necessário antagonismo com a oligarquia tecnológica, exige novas ideias, propostas e criatividade. Em um de seus últimos artigos, Marta Peirano destacou três palavras que deveríamos ouvir com mais frequência: infraestrutura pública digital. Promover uma arquitetura tecnológica à escala europeia permitiria colocar a inteligência artificial ao serviço do bem comum, melhorar os serviços públicos, garantir a transparência algorítmica e ter voz própria num quadro geopolítico turbulento. Também deveríamos falar mais sobre como tornar redes horizontais como Bluesky ou Mastodon, as melhores alternativas ao X, mais parecidas com a Usenet; para evitar a sua ensitificação —a sua deterioração gradual, a sua conquista pelos trolls— .
Essas conversas já estão acontecendo. Em uma entrevista recente, Sam Altman, criador do ChatGPT, afirmou que “toda a estrutura social estará aberta ao debate e à reconfiguração”, prescrevendo “mudanças no contrato social”. Altman está certo. Este é o cerne da questão: reconstruir o contrato social diante da transformação digital e climática. A questão é, naturalmente, que direção essa remodelação toma: se ela aprofunda o desmantelamento oligárquico da nossa vida em comum; ou se a expande para democratizar todas as esferas da vida cotidiana, incluindo as redes sociais.
1979 marcou o início do mundo contemporâneo, com suas luzes —a promessa emancipatória da Internet— e suas muitas sombras —o primeiro triunfo do neoliberalismo—; um mundo que, em 2025, testemunhará seus últimos e agonizantes sofrimentos. Tenho plena consciência de que este texto suscita mais perguntas do que respostas, numa época em que a certeza é um desejo coletivo; Entretanto, como Hall demonstrou, a dúvida é a chave que abre a porta para todo o resto. Nossa tarefa agora é resistir às tentações retóricas, fazer as perguntas certas, construir ferramentas políticas eficazes e delinear horizontes desejáveis de transformação.'
Cabeças no Congresso
Daqui a um mês, estaremos completando quatro décadas de democracia, resultado das cabeças de centenas de parlamentares liderados por Ulysses Guimarães. Na época, não havia necessidade de usar bonés para passar o sentimento de que os parlamentares pensavam, articulavam, convergiam e mudavam o país. Graças àquelas cabeças no Congresso, o Brasil saiu pacificamente de 21 anos de ditadura, libertou os presos políticos, trouxe os exilados, acabou a censura, fez uma nova Constituição. Os atuais parlamentares precisam lembrar o que foi feito para transformar ditadura em democracia, e criar rede de proteção social com o SUS, o Bolsa-Escola/Bolsa Família/Auxílio Brasil/Bolsa Família, realizar dois impeachments, vencer o vício de inflação.
No lugar de bonés, as atuais cabeças que substituíram aquela geração precisam debater com o povo brasileiro quais foram as conquistas do país nestas quatro décadas e o que não fizemos neste período para construir um Brasil eficiente, justo, democrático, sustentável. Pensar no que ainda não fizemos e no que fazer nos próximos anos. Debater por que o Brasil continua preso à armadilha da renda média baixa, estagnada há décadas. Formular caminhos para aumentar nossa produtividade e colocar a renda per capita no padrão de países que nestes 40 anos nos ultrapassaram.
Enfrentar a guerra civil que conflagra nossas ruas, especialmente nas grandes metrópoles. Equacionar a questão militar para incorporar os militares no corpo das instituições democráticas, no lugar de deixá-los como um poder separado que faz tremer todos os oito presidentes civis. Parar a banalização da corrupção que a democracia aumentou, trazer ética à política e, com isso, dar credibilidade e respeito aos representantes eleitos. Quebrar a promiscuidade entre políticos, juízes, sindicalistas, empresários com seus interesses misturados.
Eliminar a vergonha de privilégios e vantagens que fazem a República democrática dar mais benefícios aos seus dirigentes do que o Império oferecia a sua nobreza. Abolir a apartação social que nos divide em condomínios e favelas, escolas senzala e escolas casa grande. Adotar uma estratégia de distribuição que nos tire a vergonha do título de campeões em concentração de renda. Entender o esgotamento do Estado e buscar formas de compor os setores público e estatal, o planejamento e o empreendedorismo, com responsabilidade fiscal.
Erradicar o analfabetismo que se mantém no mesmo nível de 1985, acima de 10 milhões de adultos, por causa do fracasso da democracia para promover a educação de nossas crianças com excelência e equidade. Formular estratégia para implantar sistema educacional com máxima qualidade e total equidade, independentemente da renda e do endereço da criança. Definir estratégias para a abolição da pobreza, determinando um prazo para que nossa população não mais dependa do assistencialismo por transferências de renda sob a forma de bolsas. Assegurar estabilidade jurídica, livrando o país do caos legislativo e judicial.
Em novembro, o Brasil vai sediar a COP30 em um momento crítico para a humanidade. As cabeças do Congresso precisam mostrar que, além de bonés por fora, usam o cérebro para retomar no Senado a Comissão do Futuro, manter a Comissão do Meio Ambiente ativa e concentrada na formulação de propostas do Brasil para o mundo. Pelos próximos nove meses, o parlamento deve estar presente no debate sobre sugestões e exemplos do Brasil para enfrentar os problemas mundiais. Debater o que devemos levar ao mundo para evitar as mudanças climáticas que ocorrem e serão agravadas. Tomar posição sobre a perda de credibilidade do Brasil no caso de decidirmos explorar petróleo na margem equatorial da Amazônia.
O Congresso precisa debater como, no atual cenário geopolítico-ecológico, devemos assumir a posição de pedaço do mundo com seus êxitos e fracassos e com uma democracia de parlamentares ativos. O Brasil precisa comemorar sua democracia fazendo-a avançar social e economicamente com sustentabilidade, sem ilusões marqueteiras.
Ultradireita 'pauta' debate político na Alemanha
O horror a Merz, que levou manifestantes a trocarem o já tradicional grito "todos odeiam a AfD" por "todos odeiam a CDU", aconteceu porque o parlamentar aceitou, no mês passado, o apoio da AfD para tentar aprovar um pesado pacote anti-imigração. E falhou. Isso causou escândalo no país, já que o chamado "cordão sanitário", um pacto que significa que os partidos do centro democrático não fazem qualquer tipo de acordo com a ultradireita, teria sido "quebrado" com esse ato do conservador.
Entre os críticos a Merz estava também seu principal adversário político no momento: o chanceler federal Olaf Scholz, cujo partido ocupa o terceiro lugar nas pesquisas, com entre 15% a 17% das intenções de voto. Ele, inclusive, agradeceu nas redes sociais aos manifestantes que foram para as ruas "defender nossos valores e a democracia".
Os dois nunca se deram bem e já trocaram acusações pesadas no parlamento alemão.
Foi nesse clima nada ameno que os candidatos se encontraram para um debate eleitoral considerado um duelo e transmitido ao vivo no horário nobre do domingo pelos dois principais canais públicos de TV do país, a ARD e a ZDF. O debate tinha tudo para "pegar fogo". Mas, seguindo a tradição alemã, o clima foi ameno diante de tanta discordância. Quase chato, para quem gosta de debates eleitorais passionais.
Mas em tempos de tanto ódio político, chega a ser surpreendente ver que os dois, após o debate, ao invés de trocarem ofensas, se comportaram como políticos profissionais, se disseram satisfeitos com o debate "democrático" e afirmaram que as discordâncias "fazem parte". Os tempos estão tão malucos, que não deixa de ser um alívio ver dois candidatos falando coisas que você pode discordar (e eu discordo de várias) se comportando como o que são: adultos.
Não estou exagerando. É só lembrar do jeito como Donald Trump tratava Kamala Harris na campanha e de uma certa cidade (oi, São Paulo) onde um debate acabou com um candidato dando uma cadeirada em outro.
Scholz e Merz, apesar de educados e polidos, deixaram o debate descer de nível ao passarem parte do tempo falando sobre uma das pautas mais queridas da extrema direita global, as medidas anti-imigração, enquanto poderiam falar mais de questões urgentes para o país, como a economia.
Problemas na Alemanha não faltam no momento: o país atravessa uma crise com baixo crescimento da economia, enfrenta problemas com o preço da energia, há uma guerra no continente (entre Rússia e Ucrânia)…
Ou seja, assuntos urgentes não faltam, mas os dois, apesar da educação, acabaram sendo "pautados" pela ultradireita e passaram parte do debate falando sobre imigração, uma das principais bandeiras da AfD.
Para os extremistas de direita (e também para muitos outros cidadãos da Alemanha), tudo é culpa dos imigrantes. Faltam escolas? "Culpa dos refugiados". Existe violência? "Culpa dos refugiados". Não concordo com isso de jeito algum, e os números também não comprovam essas teses. Mas é espalhando essa histeria anti-imigração e a xenofobia que a extrema direita cresce.
Assim como acontece em muitos países, inclusive no Brasil, os partidos do centro democrático vão na onda. Em busca de eleitores e querendo responder a uma opinião pública contaminada pelas ideias anti-imigração (um vírus que atinge, inclusive, imigrantes, por mais estranho que isso pareça), os dois candidatos passaram parte do debate discutindo esse tema.
E, claro, assim como toda a terra, a Alemanha precisa discutir com seriedade medidas para tentar frear as mudanças climáticas. O assunto passou em branco, o que também pode ser visto como um "ganho" da AfD, formada por negacionistas climáticos. "É relevante para os eleitores, um tema vital para o futuro governo para a Alemanha. E eles não fazem uma única pergunta sobre o clima. É inacreditável", reclamou a ativista do movimento Fridays for Future, Luisa Neubauer no X. É mesmo.´
terça-feira, 11 de fevereiro de 2025
Os interesses comerciais da família Trump no Oriente Médio
O foco de seu plano para Gaza é o potencial imobiliário do enclave palestino em vez de sua situação humanitária ou política. Depois de afirmar que os EUA "assumiriam a Faixa de Gaza" e "a possuiriam", Trump afirmou que os EUA teriam "a oportunidade de fazer algo que poderia ser fenomenal. A 'Riviera do Oriente Médio' poderia ser algo magnífico."
Com essa declaração, o presidente ecoou sentimentos expressos por Kushner em uma entrevista na Universidade de Harvard, em fevereiro de 2024, quando ele disse que as propriedades à beira-mar de Gaza poderiam ser "muito valiosa se as pessoas se concentrassem em construir meios de geração de renda". Ele acrescentou que, da perspectiva de Israel, o melhor seria "tirar as pessoas e depois limpar tudo".
Trump desde então dobrou a aposta. Em entrevista à emissora americana Fox News nesta segunda-feira (10/02), sugeriu que os palestinos não deveriam retornar a Gaza porque eles teriam "moradias muito melhores" em outro lugar, contradizendo autoridades de seu governo que argumentaram que ele estava apenas pedindo a realocação temporária da população.
"Construiremos comunidades seguras, um pouco longe de onde eles estão, de onde todo esse perigo está", disse Trump. "Nesse meio tempo, eu possuiria isso. Pense nisso como um empreendimento imobiliário para o futuro. Seria um lindo pedaço de terra. Não precisaria de muito dinheiro."
Esse é um lembrete de que, para Trump e sua família, o Oriente Médio é um interesse comercial como qualquer outro.
A região se tornou cada vez mais atraente para as Organizações Trump, o conglomerado imobiliário e de hotelaria da família atualmente administrado pelos filhos do presidente Eric e Donald Junior.
Nos últimos anos, o grupo fechou vários acordos com a empresa imobiliária saudita Dar Global, o braço internacional da Companhia de Desenvolvimento Imobiliário Dar Al Arkan da Arábia Saudita.
Um luxuoso hotel e resort de golfe da marca Trump está em fase desenvolvimento em Omã, e as Organizações Trump e a Dar Global anunciaram planos para a construção de dois edifícios Trump Tower em Jedá, na Arábia Saudita, e em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Uma outra Trump Tower em Dubai, que incluiria um hotel e apartamentos residenciais, havia sido anunciada em outubro de 2005, mas o projeto foi cancelado em 2011 devido à crise financeira global.
Trump já possui um clube de golfe em Dubai, inaugurado em 2017. O local foi construído em parceria com a Damac Properties, administrada por Hussain Sajwani. Em janeiro de 2025, Sajwani apareceu ao lado de Trump numa entrevista à imprensa para anunciar que a Damac investiria "pelo menos" 20 bilhões de dólares (R$ 115 bilhões) para construir novos centros de dados nos EUA.
Os novos acordos em Omã, Jedá e Dubai farão com que as Organizações Trump projetem, gerenciem e deem nome às torres e ao resort de luxo. Os acordos são principalmente sobre o uso da marca em vez de propriedade, rendendo milhões à família em troca do uso de seu nome.
Trump e membros de sua família, de Kushner a seus filhos, têm falado repetidamente sobre a relevância cada vez maior do Oriente Médio para seus interesses comerciais. "Definitivamente faremos outros projetos nesta região. Esta região tem um crescimento explosivo, e isso não vai parar tão cedo", disse Eric Trump ao jornal britânico Financial Times pouco antes do acordo de Jedá ser anunciado.
A Arábia Saudita, um importante aliado dos EUA no Oriente Médio, é cada vez mais fundamental para os interesses da família Trump na região.
Além da Dar Global, as Organizações Trump também colaboraram com o torneio de golfe LIV Golf, um dos investimentos esportivos mais badalados e controversos do reino saudita. A empresa dos Trump possui vários campos de golfe ao redor do mundo e foi paga pelo LIV para sediar várias partidas em suas instalações nos EUA.
Enquanto isso, a empresa de capital privado de Kushner, a Affinity Partners, que é separada das Organizações Trump, desenvolveu laços estreitos com a Arábia Saudita e seu fundo soberano, conhecido como Fundo de Investimento Público (PIF).
O PIF, que é presidido pelo príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, investiu 2 bilhões de dólares na Affinity. Vários outros grandes investidores do Golfo também despejaram dinheiro no projeto de Kushner, incluindo a Autoridade de investimentos do Catar (o fundo de investimentos catari) e a gestora de ativos Lunate, sediada em Abu Dhabi.
Kushner também tem investimentos substanciais em Israel, em especial na seguradora Phoenix Holdings e no Grupo Shlomo.
Há conflito de interesses?
Os extensivos interesses comerciais levaram a críticas de que poderia haver múltiplos conflitos de interesses envolvendo o presidente.
Embora Trump tenha renunciado a todos os cargos de gestão em seus negócios quando foi eleito pela primeira vez para a presidência dos EUA, em 2016, sua família desempenhou um papel proeminente em atividades políticas e campanhas eleitorais mesmo à frente dos negócios.
Kushner usou os contatos que fez durante sua função anterior de consultor no primeiro governo Trump para construir seu portfólio de investimentos no Oriente Médio. Isso foi alvo de críticas, em especial pelo seu relacionamento próximo com a família real saudita.
Ele se defendeu no início de 2024 numa entrevista ao site de notícias americano Axios, afirmando que "se você me perguntar sobre o trabalho que fizemos na Casa Branca, o que eu digo para meus críticos é: aponte uma única decisão que tomamos que não fosse do interesse dos Estados Unidos".
Gaza como potencial negócio imobiliário?
Trump e Kushner estão claramente interessados na ideia de desenvolver Gaza sob a perspectiva de um projeto imobiliário em vez de um lar para os mais de 2 milhões de palestinos que vivem no enclave.
"Pessoas do mundo todo viverão lá", disse Trump, na entrevista ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamim Netanyahu. "Fazer disso um lugar internacional, inacreditável. O potencial da Faixa de Gaza é inacreditável."
As declarações de Trump provocaram reações furiosas dos palestinos e foram condenadas imediatas por um grande número de governos. Há também grandes dúvidas sobre sua viabilidade em diversos aspectos.
No entanto, levando em conta os crescentes interesses comerciais imobiliários das Organizações Trump na região e os comentários inequívocos do próprio Trump e de seu genro, parece que eles estão levando essa ideia à sério.
Queremos homens ou meros cidadãos?
A insistência nas qualidades socialmente valiosas da personalidade, com exclusão de todas as outras, derrota finalmente os seus próprios fins.
O atual desassossego, descontentamento e incerteza de propósitos testemunham a veracidade disto. Tentámos fazer homens bons cidadãos de estados industriais altamente organizados: só conseguimos produzir uma colheita de especialistas, cujo descontentamento em não serem autorizados a ser homens completos faz deles cidadãos extremamente maus. Há toda a razão para supor que o mundo se tornará ainda mais completamente tecnicizado, ainda mais complicadamente arregimentado do que é presentemente; que graus cada vez mais elevados de especialização serão requeridos dos homens e mulheres individuais. O problema de reconciliar as reivindicações do homem e do cidadão tornar-se-á cada vez mais agudo. A solução desse problema será uma das principais tarefas da educação futura. Se irá ter êxito, e até mesmo se o êxito é possível, somente o evento poderá decidir.
Aldous Huxley, "Sobre a Democracia e Outros Estudos"
O homem
Tão difícil a vida e o seu ofício. E ninguém ao lado para receber a totalidade (ou parte) do fardo. Os analistas, caríssimos, e na maioria, um lixo: um lixo Freud considerava a totalidade dos seres humanos, isso nos últimos anos da sua vida sem muita ilusão. Ele não conheceu seus discípulos. E por acaso é com o analista que se comenta a fita na saída do cinema? O livro. O sabor do vinho, esse gosto meio frisante, hein? E esta pele e esta língua. A minha tiazinha falava muito na falta que lhe fazia esse ombro amigo, apoio e diversão, envelheceu procurando um. Não achou nem o ombro nem as outras partes, o que a fez choramingar sentidamente na hora da morte. Mas o que você quer, queridinha?! A gente perguntava. Está com alguma dor? Não, não era dor. Quer um padre? Não, não queria mais nenhum padre, chega de padre. Antes do último sopro, apertou desesperadamente a primeira mão ao alcance: “É que estou morrendo e não me diverti nada!"
Há alguma lógica nessa loucura
Mas atrás das palavras e dos gestos impulsivos, às vezes desmentidos e logo após reafirmados, numa dança de passos desconcertantes, há muitas coisas que derivam de uma lógica bem construída. Enquanto o governo nos confunde com os seus movimentos erráticos, temos o recurso de acessar as ideias de alguns de seus intelectuais associados que trazem clareza ao debate. Dois artigos publicados nestes últimos dias jogam muita luz sobre o que está na mente do governo. Se colocados em prática vão promover uma mudança radical na ordem econômica internacional e afetar muito a vida do Brasil, embora aparentemente o governo e o Parlamento brasileiro não pareçam incomodados.
O primeiro artigo foi publicado no New York Times e é de autoria de Robert Lighthizer, Representante do Comércio no primeiro governo Trump e autor de diversos livros sobre o tema. O autor afirma que os Estados Unidos são vítimas das regras do comércio internacional, que resultam em grandes superávits para países como a China e a Alemanha e grandes déficits para os americanos. Os números parecem lhe dar razão: a China obteve em 2024 um superávit de um trilhão de dólares, enquanto os Estados Unidos incorreram em um déficit de 918 bilhões de dólares. A razão é apenas aparente, pois o que isto significa é simplesmente que os americanos consumem muito mais do que produzem, ao contrário da China e da Alemanha.
A solução que ele sugere, e que parece estar implícita nos movimentos do governo, é a criação de um novo regime de comércio no qual coexistam duas camadas de países. Os países amigos e parceiros dos Estados Unidos (ou será os que se conformam com o princípio da América em primeiro lugar?) formariam um grupo que praticaria entre si tarifas comerciais baixas, com o compromisso de manter no médio prazo o equilíbrio dos respectivos balanços de pagamento. Os demais formariam um segundo grupo, sobre o qual o primeiro grupo aplicaria altas tarifas e outras ferramentas para impedir a formação de superávits sistemáticos. ´Será o fim do livre comércio, que para ele não existe de fato, e da globalização como a conhecemos. Em que grupo estaria o Brasil nesta nova ordem?
O outro artigo, na Foreign Affairs, vai até mais longe em priorizar a primazia americana. Seus autores são Geoffrey Getz e Emily Kilcrease, ambos com passagem no Departamento de Estado e no Conselho de Segurança Nacional. Eles propõem que a segurança econômica seja o princípio organizador da ordem econômica internacional e que o comércio seja regulado por acordos bilaterais ou regionais que promovam a segurança nacional dos países envolvidos e assegurem a coordenação entre eles para enfrentar seus rivais, especialmente a China.
Este é um pequeno sumário das ideias em formação no entorno do governo Trump e que estão destinadas a encontrar reação e resistência da maior parte dos países. São ideias disruptivas que não devem ser subestimadas, dado o tamanho e o poder dos Estados Unidos e a natureza da atual liderança do país. Já passou da hora de nos preocuparmos com tudo isto e principalmente nos prepararmos para as pressões que se abaterão sobre nós. Será que nesta hora teremos um país unido ou até mesmo nisso continuaremos divididos?
País órfão
Sem reforma ambiciosa de nosso atual sistema educacional, dos 2,5 milhões de brasileiros que nasceram em 2024, no máximo 500 000 concluirão a educação de base, em 2042, medianamente alfabetizados para o mundo contemporâneo, com o mapa para buscar sua felicidade pessoal e as ferramentas necessárias para construir o país que desejamos. Portanto, 2 milhões ficarão para trás.
Os políticos de direita consideram que educação deve ser tarefa das famílias conforme a renda de que dispõem; os de esquerda consideram que não há necessidade de reformas, bastariam mais investimentos e atender às reivindicações dos sindicatos de professores, sem preocupação direta com os alunos, com a qualidade e, ainda menos, com a equidade. Com essas lógicas, a direita reduz gastos e a esquerda investe sem compromisso com os resultados, chegando a apoiar greves em escolas estatais, o que reduz a pouca qualidade e amplia a desigualdade em relação às escolas privadas, imunes a paralisações.
A orfandade da educação está também na submissão da lógica assistencial, ao transformar o Bolsa-Escola em Bolsa Família, a Poupança Escola em Pé-de-Meia, o programa de Certificação Federal dos Professores Municipais no programa Pé-de-Meia do Professor. O apoio à promoção automática mesmo sem aprendizado em escolas que atendem alunos de famílias pobres também é prova da orfandade da educação em nome do assistencialismo social, aceitando que a educação de base deve ser desigual conforme a renda da criança.
As pesquisas mostram que a educação é, ainda, órfã da opinião pública, razão pela qual a busca de qualidade é relegada entre as prioridades dos eleitores, e a ideia de equidade nem ao menos é considerada como propósito nacional. Os líderes não mostram que as prioridades mais urgentes — segurança, emprego, pobreza, sustentabilidade, distribuição de renda — dependem da educação de base com qualidade para todos.
O ensino superior trata a educação de base como mero degrau para a universidade, como se fosse um mal necessário, daí a promessa de “universidade para todos” sem um programa “todos os brasileiros alfabetizados”, ainda menos “todos alfabetizados para a contemporaneidade”.
Por ser a principal causa de quase todos os nossos problemas, atalho para a pobreza, a orfandade da educação condena o país ao declínio: ao deixar nossas crianças com a educação sem pai nem mãe no presente, o Brasil pavimenta um triste futuro, porque se deve enxergar o amanhã pela cara da escola de hoje.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025
É preciso repensar a política em tempo de incerteza
Matsutake é o nome de um cogumelo aromático muito valorizado no Japão. Ele sobrevive em áreas devastadas pela indústria madeireira, como no Oregon, e reapareceu em Hiroshima depois da explosão atômica. Esse crescimento inesperado em áreas devastadas faz do matsutake uma inspiração para repensar a política de nossos tempos, marcados pela incerteza: mudanças climáticas, ascensão de Trump, precariedade do trabalho.
Os políticos continuam falando em emprego, estabilidade e progresso. Mas a realidade é de pessoas se virando para sobreviver em situação difícil, que costumam chamar de “o corre”.
No meio do século passado, alguns intelectuais reclamavam da estabilidade, como se fosse uma espécie de prisão. Alguns tinham uma perspectiva revolucionária. Não deixava de ser uma grande certeza sobre o futuro.
Observando a experiência dos catadores de matsutake, vemos como exploram as ruínas e a incerteza. Não deixa de ser também um grande aprendizado ecológico. A indústria explora um produto e, quando o esgota, vai embora deixando todo o resto para trás. Esse resto, na verdade, são vidas que, combinadas com a atividade humana, podem contribuir para uma sobrevivência coletiva.
Essa constatação não significa deixar de lutar para manter a floresta em pé. Mas abre uma grande possibilidade para aproveitar o que ficou para trás, buscar novas associações entre espécies, inventar novos caminhos.
Com essas duas ideias, creio que já poderia iniciar um diálogo em torno de uma nova política. Os partidos tradicionais pensam em crescimento, progresso e estabilidade. Relacionam-se com os trabalhadores precários prometendo emprego fixo. Acham que eles recusam porque estão envenenados pela ideia de empreendimento, de ser seus próprios patrões.
Pode ser que recusem simplesmente porque não acreditam que o sistema ofereça saída estável e que a precariedade seja a melhor forma de sobreviver. Seria preciso um partido do corre, que estudasse sua condição e oferecesse alternativas dentro da incerteza.
Da mesma forma, será necessário um trabalho amplo na área devastada no Brasil, para estudar o que restou, que possibilidade de arranjos produtivos essas formas de vida combinadas podem oferecer. Está cada vez mais difícil acreditar num progresso inclusivo. A tendência é acentuar as diferenças, no impacto da revolução digital. Por mais que se lute contra a destruição ambiental, estaremos sempre diante de terras devastadas, deixadas para trás pela indústria madeireira, pela mineração ou mesmo pela agricultura.
Pensar uma política da incerteza voltada, na economia, para os trabalhadores precários e, na ecologia, para as ruínas do capitalismo talvez seja um caminho realista. De qualquer forma, o livro de Anna Tsing descortina horizontes. Outras ideias podem brotar daí, e isso já é uma grande qualidade de “O cogumelo no fim do mundo”.
O discurso político clássico não pode deixar de prometer crescimento, progresso e estabilidade. Mas pode chegar um tempo em que essas palavras já não façam mais sentido para a maioria da população.
O interessante no trabalho de Anna Tsing é que ela — ao destacar formas de vida que sobrevivem ao capitalismo e suas combinações — não vê um tipo de futuro único, numa só direção:
— Como partículas virtuais num campo quântico, múltiplos futuros espoucam dentro e fora da possibilidade, e a terceira natureza (o que consegue sobreviver ao capitalismo) emerge dentro dessa polifonia temporal.
O progresso condiciona nossa forma de ver o mundo. Emaranhados de vida que sobrevivem à fúria industrial abrem pelo menos uma nova e interessante maneira de olhar para a frente.
Como Trump desorienta a oposição e a mídia
Até agora, a tática tem funcionado. Sempre que Trump ameaça anexar territórios estrangeiros, provoca uma previsível onda de indignação. Da mesma forma, o Partido Democrata passou dias, na semana passada, debatendo os riscos de tarifas sobre produtos do Canadá e do México. No fim, Trump recuou, mas conseguiu fazer a oposição perder tempo valioso que poderia ser usado para desenvolver uma estratégia coordenada.
O mesmo ocorreu com suas ordens executivas: Trump assinou mais decretos nos primeiros dez dias de mandato do que qualquer presidente recente em seus primeiros 100. Muitos serão desafiados na Justiça, mas cumprem seu propósito imediato e ilustram a dificuldade da oposição em responder a essa enxurrada de ações.
FUMAÇA. Talvez a maior prova de que a estratégia de Trump está surtindo efeito seja o sucesso do live feed que o New York Times incluiu em sua página principal para acompanhar suas ações. Embora útil, o recurso apresenta um problema fundamental: ao gerar uma cobertura contínua, não ajuda o leitor a diferenciar entre o que é realmente importante e o que é apenas “fumaça” de Trump. Assim, até as declarações mais absurdas ganham ares de urgência.
A ideia de anexar o Canadá, por exemplo, é chocante, mas extremamente improvável de se concretizar. No entanto, ignorar esse tipo de declaração não é uma opção. O impacto da retórica de Trump é real: suas falas inflamam o sentimento anti-EUA no Canadá e reduzem a confiabilidade americana entre aliados, com consequências potencialmente duradouras para a ordem global.
IMPACTO DOMÉSTICO. Embora a maioria das declarações mais polêmicas esteja relacionada à política externa, é provável que suas ações mais duradouras ocorram no cenário doméstico. O governo tem iniciado um amplo desmonte da burocracia federal. Isso inclui incentivos para a saída de servidores de carreira e mudanças estruturais que enfraquecem a capacidade administrativa do governo, envolvendo planos de redução do funcionalismo por meio de programas de demissão voluntária e exonerações direcionadas. Muitos desses programas levarão os quadros mais qualificados, com fácil inserção no setor privado, a saírem do serviço público. Além disso, a decisão de demitir inspetores-gerais responsáveis pela supervisão interna das agências federais sinaliza um movimento deliberado para enfraquecer mecanismos de controle e transparência.
Outro fator é o papel crescente de Elon Musk No governo. Apesar de não ter credenciais de segurança adequadas, Musk tem participado de reuniões estratégicas e influenciado decisões de alto nível. Sua proximidade com Trump levanta questionamentos sobre até que ponto interesses privados estão se sobrepondo à governança institucional, o que pode facilitar tentativas estrangeiras de influenciar processos decisórios internos.
DESAFIO. Apesar de essas questões atraírem menos atenção do que as manchetes diárias sobre declarações provocativas de Trump, seus efeitos podem ser mais profundos. Porém, será um desafio para o Partido Democrata mobilizar a opinião pública em torno dessas questões, vistas como excessivamente técnicas. Da mesma forma, a imprensa continua enfrentando o dilema central imposto pela estratégia de inundação de Trump: reagir imediatamente às provocações diárias ou focar no que realmente importa? O desafio será encontrar um equilíbrio entre resistir à distração proposital e monitorar os impactos concretos da administração. Tudo indica que essa será uma batalha constante ao longo dos próximos quatro anos.
Gaza: uma oportunidade de negócio ou um projeto de desapropriação?
Um amigo me mandou uma mensagem perguntando se eu tinha assistido à coletiva de imprensa entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu. “Felizmente, não assisti ao vivo”, respondi. Levei quase 24 horas para estar no estado de espírito certo para suportar assistir a duas figuras narcisistas no palco, esbanjando elogios uma à outra.
Enquanto eu ouvia atentamente os comentários iniciais de Trump, também percebi os movimentos furtivos dos olhos de Netanyahu em pontos-chave. Com uma expressão presunçosa no rosto, ele repetidamente lançava olhares furtivos para Ron Dermer, o Ministro de Assuntos Estratégicos de Israel, como se silenciosamente o reconhecesse por elaborar as palavras de Trump. Era evidente que o discurso de Trump trazia a marca inconfundível do ministro israelense.
Eu vi Netanyahu, um criminoso de guerra indiciado, explorar habilmente o narcisismo de Trump por meio de bajulação calculada. Suas interações não eram apenas estranhas; eram profundamente reveladoras. O elogio efusivo de Netanyahu foi um movimento calculado, projetado para manter Trump firmemente em seu canto e garantir apoio contínuo às políticas de Israel.
Trump, por sua vez, pareceu mais focado em se deleitar com a admiração do que em lidar com as realidades complexas da destruição israelense de Gaza e das vidas de mais de 2 milhões de seres humanos. Quando ele respondia a perguntas, suas frases eram frequentemente desconexas, cheias de divagações e desprovidas de percepção substancial, destacando sua preocupação com autoelogios.
Desde o momento em que Trump entrou na arena política, Netanyahu reconheceu uma oportunidade de cultivar um relacionamento que serviria aos interesses de Israel. A personalidade de Trump — marcada por um desejo de admiração, um ego frágil e um desejo insaciável de validação — o tornou excepcionalmente suscetível à bajulação. Netanyahu, um vigarista experiente, adaptou habilmente sua abordagem para apelar à vaidade de Trump.
Os comentários de Netanyahu na coletiva de imprensa foram particularmente reveladores. Embora tenha falado longamente sobre a importância do apoio dos EUA a Israel, ele não fez nenhuma menção ao povo palestino ou seus direitos. Esse apagamento não foi acidental; foi uma tentativa deliberada de contornar a ocupação, o deslocamento e o genocídio israelense.
Trump, por sua vez, ofereceu vagas platitudes sobre paz e prosperidade sem abordar qualquer reconhecimento dos palestinos como um povo distinto com direitos legítimos. Embora tenha expressado vaga simpatia pelo sofrimento, ele nunca menciona o direito palestino à autodeterminação, liberdade ou igualdade. A omissão não é acidental; é um movimento calculado para deslegitimar as aspirações palestinas e reforçar a narrativa de que sua situação é meramente uma questão humanitária e não política enraizada em décadas de ocupação e injustiça sistêmica.
O que mais chamou a atenção na coletiva de imprensa foi sua falta de substância. Enquanto a terrível situação em Gaza e na Cisjordânia se torna cada vez mais sombria, nenhum deles ofereceu nenhuma resposta coerente. Em vez disso, eles passaram a maior parte do tempo relatando “conquistas” passadas e reiterando seu comprometimento com um relacionamento que cada vez mais passou a simbolizar apoio unilateral às políticas israelenses.
Uma das propostas mais grotescas de Trump foi sua chamada visão para o futuro de Gaza. Ele falou em criar empregos a partir da destruição que Israel infligiu ao território sitiado, como se a obliteração completa de uma sociedade inteira fosse meramente uma oportunidade de negócios.
Alguém ousaria sugerir que a destruição de cidades europeias nas mãos dos “antigos nazistas” como uma oportunidade de criação de empregos? Que tal a oportunidade de reconstruir os campos de concentração na Polônia? Os sobreviventes teriam aceitado essa narrativa? No entanto, Trump quer que o mundo acredite que o genocídio de Gaza deve ser celebrado como uma chance de “reconstruir melhor” — só que sem as próprias pessoas cuja terra natal é.
Em vez de responsabilizar Israel por sua destruição, Trump quer recompensá-lo. Sua proposta não era sobre reconstruir Gaza pelo bem de seu povo, mas sobre terminar o trabalho que Israel não conseguiu terminar. Afinal, qual melhor maneira de disfarçar o deslocamento forçado do que vesti-lo como “renovação urbana”?
Trump vê Gaza não como uma catástrofe humanitária, mas como um projeto de gentrificação — como um prédio decadente na cidade de Nova York esperando que os incorporadores o invadam e o transformem para seu próprio benefício. A diferença, claro, é que isso não é sobre imóveis — é sobre a destruição sistemática de um povo, sua história e seu direito de existir.
A coletiva de imprensa Netanyahu-Trump foi mais do que apenas um espetáculo embaraçoso; foi uma lição sobre o que acontece quando a liderança é interesse próprio e política performática. Ambos os indivíduos são conhecidos há muito tempo por seu narcisismo e sua disposição de priorizar o ganho pessoal em detrimento do bem público, e o evento de hoje foi um encapsulamento perfeito dessas falhas.
A proposta de Trump não é reconstruir. Gaza não é um projeto de desenvolvimento econômico. Esta é a fase final de um genocídio em câmera lenta — envolto na linguagem dos negócios e da diplomacia.
A sugestão de Trump para novas oportunidades após uma guerra de destruição seria como catar migalhas em um aterro e chamar isso de festa. A ideia de que o genocídio de Gaza deve ser reformulado como uma oportunidade econômica não é apenas obscena — é o projeto final de desapropriação.
Jamal Kanj autor de “Children of Catastrophe" e ”Journey from a Palestinian Refugee Camp to America"
Estamos vivendo uma Nova Inquisição?
Mas o espetáculo de horror não para por aí. Entre as medidas mais assombrosas, está a instituição de um sistema de delações entre pesquisadores. A ordem é clara: se alguém ousar manter programas de diversidade ou usar “linguagem codificada” para esconder tais iniciativas, é hora de reportar. Caso contrário, as consequências podem ser severas.
Esse ambiente, que mais lembra uma caça às bruxas, tem provocado um efeito paralisante. Conferências canceladas, pesquisas interrompidas e cientistas temendo pela renovação de seus vistos. Até mesmo ensaios clínicos em andamento – que poderiam salvar vidas – estão ameaçados pela burocracia.
A ironia é escancarada: o país que se gaba de premiar o mérito, agora desmantela programas de inclusão e marginaliza a ciência em nome de uma suposta moralidade. Enquanto isso, o atraso na liberação de fundos e na condução de projetos compromete avanços no tratamento de doenças como câncer, diabetes, entre outras – tudo em nome de uma agenda que subestima a inteligência coletiva.
A delação, antes associada a regimes autoritários, basta lembrar do fascismo e do nazismo, agora veste o jaleco branco ou variações do tipo. E o preço dessa política não é apenas a erosão da confiança entre cientistas, mas a estagnação de avanços que poderiam beneficiar toda a humanidade. Num cenário desses, cabe perguntar: quem será o próximo a ser silenciado? Escreva e leia enquanto há tempo!






.jpg?itok=4F4-KEeB)











