Mas atrás das palavras e dos gestos impulsivos, às vezes desmentidos e logo após reafirmados, numa dança de passos desconcertantes, há muitas coisas que derivam de uma lógica bem construída. Enquanto o governo nos confunde com os seus movimentos erráticos, temos o recurso de acessar as ideias de alguns de seus intelectuais associados que trazem clareza ao debate. Dois artigos publicados nestes últimos dias jogam muita luz sobre o que está na mente do governo. Se colocados em prática vão promover uma mudança radical na ordem econômica internacional e afetar muito a vida do Brasil, embora aparentemente o governo e o Parlamento brasileiro não pareçam incomodados.
O primeiro artigo foi publicado no New York Times e é de autoria de Robert Lighthizer, Representante do Comércio no primeiro governo Trump e autor de diversos livros sobre o tema. O autor afirma que os Estados Unidos são vítimas das regras do comércio internacional, que resultam em grandes superávits para países como a China e a Alemanha e grandes déficits para os americanos. Os números parecem lhe dar razão: a China obteve em 2024 um superávit de um trilhão de dólares, enquanto os Estados Unidos incorreram em um déficit de 918 bilhões de dólares. A razão é apenas aparente, pois o que isto significa é simplesmente que os americanos consumem muito mais do que produzem, ao contrário da China e da Alemanha.
A solução que ele sugere, e que parece estar implícita nos movimentos do governo, é a criação de um novo regime de comércio no qual coexistam duas camadas de países. Os países amigos e parceiros dos Estados Unidos (ou será os que se conformam com o princípio da América em primeiro lugar?) formariam um grupo que praticaria entre si tarifas comerciais baixas, com o compromisso de manter no médio prazo o equilíbrio dos respectivos balanços de pagamento. Os demais formariam um segundo grupo, sobre o qual o primeiro grupo aplicaria altas tarifas e outras ferramentas para impedir a formação de superávits sistemáticos. ´Será o fim do livre comércio, que para ele não existe de fato, e da globalização como a conhecemos. Em que grupo estaria o Brasil nesta nova ordem?
O outro artigo, na Foreign Affairs, vai até mais longe em priorizar a primazia americana. Seus autores são Geoffrey Getz e Emily Kilcrease, ambos com passagem no Departamento de Estado e no Conselho de Segurança Nacional. Eles propõem que a segurança econômica seja o princípio organizador da ordem econômica internacional e que o comércio seja regulado por acordos bilaterais ou regionais que promovam a segurança nacional dos países envolvidos e assegurem a coordenação entre eles para enfrentar seus rivais, especialmente a China.
Este é um pequeno sumário das ideias em formação no entorno do governo Trump e que estão destinadas a encontrar reação e resistência da maior parte dos países. São ideias disruptivas que não devem ser subestimadas, dado o tamanho e o poder dos Estados Unidos e a natureza da atual liderança do país. Já passou da hora de nos preocuparmos com tudo isto e principalmente nos prepararmos para as pressões que se abaterão sobre nós. Será que nesta hora teremos um país unido ou até mesmo nisso continuaremos divididos?
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