Sem reforma ambiciosa de nosso atual sistema educacional, dos 2,5 milhões de brasileiros que nasceram em 2024, no máximo 500 000 concluirão a educação de base, em 2042, medianamente alfabetizados para o mundo contemporâneo, com o mapa para buscar sua felicidade pessoal e as ferramentas necessárias para construir o país que desejamos. Portanto, 2 milhões ficarão para trás.
Os políticos de direita consideram que educação deve ser tarefa das famílias conforme a renda de que dispõem; os de esquerda consideram que não há necessidade de reformas, bastariam mais investimentos e atender às reivindicações dos sindicatos de professores, sem preocupação direta com os alunos, com a qualidade e, ainda menos, com a equidade. Com essas lógicas, a direita reduz gastos e a esquerda investe sem compromisso com os resultados, chegando a apoiar greves em escolas estatais, o que reduz a pouca qualidade e amplia a desigualdade em relação às escolas privadas, imunes a paralisações.
A orfandade da educação está também na submissão da lógica assistencial, ao transformar o Bolsa-Escola em Bolsa Família, a Poupança Escola em Pé-de-Meia, o programa de Certificação Federal dos Professores Municipais no programa Pé-de-Meia do Professor. O apoio à promoção automática mesmo sem aprendizado em escolas que atendem alunos de famílias pobres também é prova da orfandade da educação em nome do assistencialismo social, aceitando que a educação de base deve ser desigual conforme a renda da criança.
As pesquisas mostram que a educação é, ainda, órfã da opinião pública, razão pela qual a busca de qualidade é relegada entre as prioridades dos eleitores, e a ideia de equidade nem ao menos é considerada como propósito nacional. Os líderes não mostram que as prioridades mais urgentes — segurança, emprego, pobreza, sustentabilidade, distribuição de renda — dependem da educação de base com qualidade para todos.
O ensino superior trata a educação de base como mero degrau para a universidade, como se fosse um mal necessário, daí a promessa de “universidade para todos” sem um programa “todos os brasileiros alfabetizados”, ainda menos “todos alfabetizados para a contemporaneidade”.
Por ser a principal causa de quase todos os nossos problemas, atalho para a pobreza, a orfandade da educação condena o país ao declínio: ao deixar nossas crianças com a educação sem pai nem mãe no presente, o Brasil pavimenta um triste futuro, porque se deve enxergar o amanhã pela cara da escola de hoje.
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