sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

A estratégia de Trump é mais sistemática do que parece

Desde reformas radicais na imigração até o desmantelamento do Estado Profundo, Donald Trump busca transformar radicalmente os Estados Unidos sem se preocupar com oposição. Mas essa abordagem tem precedentes históricos, de acordo com o cientista político Thomas Greven, do Instituto Kennedy da Universidade Livre de Berlim, que a compara ao presidente Franklin D. Roosevelt e seu New Deal de 1933.

Roosevelt implementou uma enxurrada de leis e decretos para garantir que o governo federal liderasse a recuperação econômica, rompendo com as políticas de seus antecessores. Sua proposta enfrentou forte resistência da Suprema Corte, que bloqueou algumas de suas reformas.

Ao contrário de Roosevelt, Trump não enfrenta uma Suprema Corte hostil, tendo conseguido lotá-la de juízes conservadores que apoiam sua agenda. No entanto, o fator tempo é fundamental. Segundo Greven, Trump tem dois anos para implementar mudanças profundas antes das próximas eleições de meio de mandato. "Se as instituições democráticas continuarem a funcionar em 2026 ou 2028, é provável que haja uma correção, ou pelo menos a possibilidade de o eleitorado rejeitar sua agenda", prevê o cientista político.


Por enquanto, Trump tem forte apoio popular, beneficiando-se do desencanto com a democracia, um fenômeno que Greven diz não ser exclusivo dos EUA. A frustração surge porque constituições, tribunais e burocracia limitam o espaço de manobra dos governos eleitos. "Estamos vendo um apoio crescente a um modelo de democracia hipermajoritária, onde as barreiras institucionais ao poder executivo (os chamados freios e contrapesos nos Estados Unidos) são eliminadas", disse Greven.

Segundo o especialista, Trump busca desmantelar os controles democráticos para estabelecer estruturas autoritárias. A questão é até que ponto isso será possível.

Para levar adiante sua agenda, Trump usa uma tática conhecida como "inundar a zona com merda", conforme definido por seu ex-assessor Steve Bannon. Consiste em saturar o espaço midiático com uma avalanche de anúncios, declarações e escândalos, dificultando a reação da oposição.

Diante dessa estratégia, os democratas optaram por não cair em todas as provocações de Trump e, em vez disso, concentrar seus esforços na arena judicial. "Os democratas decidiram não responder a todos os ataques, pois isso enfraqueceria sua estratégia. Em vez disso, eles estão confiando na justiça e em uma possível correção eleitoral em 2026", explica Greven.

Trump está apostando em decretos executivos maximalistas, que incluem cláusulas de salvaguarda para que, mesmo que algumas partes sejam derrubadas na justiça, o restante permaneça em vigor.

O presidente republicano está se concentrando nas prioridades clássicas do partido: reduzir a burocracia, endurecer as políticas de imigração e fortalecer o controle de fronteiras. O que não tem precedentes, no entanto, é o radicalismo com que ele tenta implementar essas mudanças.

Segundo Sascha Lohmann, especialista norte-americano da Fundação Ciência e Política (SWP) em Berlim, essa abordagem visa promover uma transformação estrutural do país. "Trump não quer apenas reformas, mas uma revolução reacionária que enfraqueça os mecanismos de controle democrático e estabeleça um sistema mais autoritário", alerta Lohmann.

O resultado da estratégia de Trump dependerá não apenas dos tribunais, mas também da dinâmica política dos próximos anos. Um exemplo semelhante ocorreu na França, quando o ex-presidente Nicolas Sarkozy lançou uma série de reformas simultâneas em 2007 para superar seus oponentes.

No entanto, a tática criou confusão e muitas reformas ficaram inacabadas ou foram revertidas. A questão é se a agenda de Trump seguirá o mesmo destino ou se alcançará uma transformação duradoura e estrutural da democracia americana.

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