segunda-feira, 20 de outubro de 2025

O discurso do ódio nas escolas públicas

Nunca, em outra altura da nossa carreira de quase quatro décadas enquanto professores da escola pública, o nosso papel foi tão importante para apaziguar o discurso do ódio que se sente, latente, dentro e fora da sala de aula.

Os tempos mudaram. E não foi para melhor. Numa altura em que o mundo parece desabar sobre as nossas cabeças, o discurso de promoção e incentivo ao ódio, ao preconceito e à violência contra pessoas singulares ou grupos específicos, cresce a olhos vistos. Se as famílias não colocarem como prioridade estabelecer limites a este fenómeno e se a escola pública e os seus professores não criarem, com caráter de urgênci,a um plano de ataque para esta problemática crescente, o quadro final será catastrófico.

Quem não viu ainda nos ecrãs da televisão ou, mais provável e frequentemente, nos grupos de whatsapp de alunos e pais, alguns vídeos que se tornam virais em poucos minutos com cenas com crianças e jovens a serem agredidos, gozados, humilhados perante um público que, em vez de agir de imediato, se limita a filmar? Basta deambular pelos corredores de uma escola multicultural como a minha para percebermos o quão fácil é, para um jovem adolescente, abrir a boca e humilhar, ofender, diminuir o outro, com base em características como a cor da pele, a religião, a orientação sexual, o estilo de vestuário, o corte de cabelo, o número de piercings e/ou tatuagens, entre outros.


No entanto, a escola não é o espaço embrionário para este tipo de discurso negativo contra grupos vulneráveis. Pelo contrário, ao longo dos últimos tempos, temos vindo a assistir a uma crescente aceitação do outro na escola pública. Em todas as turmas temos cada vez mais jovens marcadamente diferentes da maioria, quer pelo seu estilo alternativo, quer pela sua orientação sexual assumida sem medos. A normalização do discurso de ódio a que se vem assistindo surge de fora para dentro, impulsionado muitas vezes pela comunidade de onde estes jovens são oriundos e onde se integram (ou não). Por mais que opiniões desfavoráveis sobre determinados grupos ou indivíduos historicamente discriminados tenham vindo a surgir no discurso comum a que se assiste diariamente e, em grande parte, divulgados através de meios de comunicação social, a escola procura combater, de todos as formas possíveis, este tipo de discurso discriminatório.

A escola pública promove a educação em Direitos Humanos. Na minha disciplina, Português, surgem múltiplas oportunidades para este debate. Desde o profícuo debate a partir do estudo da epopeia lusitana aos vícios dos homens apresentados alegoricamente no Sermão de Santo António aos Peixes, passando pela mudança e pelo desconcerto do mundo presentes na lírica camoniana ou a falta de liberdade de expressão a partir do estudo da obra de Saramago, a língua materna permite múltiplos cenários de promoção dos Direitos Humanos. Mas acontecerá o mesmo nas outras disciplinas? Julgo mesmo que, em certos contextos, continuamos a agir como se o Holocausto não tivesse existido. E a escola deve trazer os Direitos Humanos para a agenda do dia, promovendo debates, criando experiências de inclusão e de solidariedade, incluindo-as no Plano de Atividades de todas as escolas, de todos os grupos disciplinares, de todas as áreas do saber, transversalmente alcançando todos, todos…

Como criar uma cultura de paz em escolas onde a diversidade étnica, religiosa, socioeconómica, de género, de estilo é tão gritante? Tenho na mesma sala de aula portugueses do bairro, membros de gangues, ciganos, negros, árabes, brasileiros de variadas vertentes religiosas e até uma aluna paquistanesa que usa hijab. Cada vez mais sinto a necessidade de ver fomentada na escola pública uma comunicação de respeito e de inclusão que promovam uma cultura de combate ao discurso de ódio que comece na sala de aula e se estenda, desta vez, ao exterior. Este é um desafio difícil mas urgente, uma vez que a onda de discursos de ódio está a alastrar-se e sai de casa para as ruas do bairro, para a cidade e para o mundo. Embora o Gabinete da Unesco para a Prevenção do Genocídio e a Responsabilidade de Proteger tenha desenvolvido um guia com algumas respostas educacionais, orientações e recomendações sobre a forma de fortalecer os sistemas educacionais para combater o discurso de ódio, estes parecem não ter sido divulgados pelas escolas, neste dias que correm, muito mais preocupadas com a sua diária burocracia estupidificante.

A publicação da Unesco, intitulada Enfrentar o discurso de ódio por meio da educação: um guia para formuladores de políticas (2023), aponta algumas soluções para prevenir e combater narrativas nocivas e discriminatórias na forma de xenofobia, racismo, antissemitismo, anti-islamismo e outros tipos de intolerância. Em consequência do rápido crescimento do número de utilizadores das redes sociais e da banalização de discursos populistas e extremistas por toda a Europa e pelo mundo, deve a escola através dos profissionais de ensino ajudar combater as narrativas de ódio. Neste sentido, a divulgação da Agenda Educação 2030 da Unesco, que faz parte de um movimento global para erradicar a pobreza através de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030, coloca a Educação como um desses objetivos fundamentais (Objetivo número 4).

O discurso de ódio contra grupos minoritários e/ou desfavorecidos, já por si marginalizados, pode agudizar situações de exclusão social ao promover a intolerância e o desrespeito pelo “outro”. A escola, através de uma educação inclusiva e equitativa, capacitando indivíduos de grupos marginalizados e, consequentemente, promovendo a sua inclusão social, pode ser um fator-chave na minimização deste tipo de discurso.

Como podem a escola e os seus professores combater esta forma de discriminação e criar uma cultura de paz num ambiente de respeito por todos e para todos? Contrariar narrativas prejudiciais e discriminatórias passará, entre outros aspetos, pela capacitação de professores e alunos sobre os valores e práticas a respeitar na relação com os cidadãos globais e digitais, pela adoção de abordagens pedagógicas e de toda a escola para fortalecer a aprendizagem social e emocional. Contudo, nada disto será verdadeiramente eficaz sem uma reformulação de alguns conteúdos curriculares, adequando-os culturalmente e incluindo conteúdos promotores da tolerância e do direito às liberdades fundamentais ao ser humano.

Numa altura em que a liberdade de expressão se revela cada vez mais necessária para as democracias e em que o discurso de ódio se propaga, é prioritário combater cenários de agressividade e de intolerância que ocorrem no dia a dia das nossas escolas, desenvolvendo na comunidade escolar um olhar crítico em relação a todo e qualquer tipo de discriminação.

Não é depois do discurso de ódio estar implementado que se deve agir. Este deve ser prevenido desde cedo através da construção permanente de diálogos sobre respeito pela diversidade, atividades que desenvolvam o pensamento crítico e promovam aprendizagens sociais e emocionais. Para que serve a escola, afinal, se não for para enfrentar os “desafios mundiais à paz, à justiça, aos direitos humanos, à igualdade de género, ao pluralismo, ao respeito à diversidade e à democracia?” (UNESCO)

Recordemos as palavras de Eduardo Sá, psicólogo clínico e psicanalista, num texto publicado no Observador (17/01/21): “O discurso do ódio, de que tanto se fala, é construído por nós, todos os dias. Não que o façamos de forma intencional, claro. Mas enquanto não educarmos para se saber escutar, para se pensar com aquilo que se sente, para se aprender com os outros, enquanto não se reeducar as pessoas para a palavra (…), menos os nossos filhos (e alunos) encontrarão na diversidade os argumentos com que apurem a singularidade.”

A escola, repito, joga neste tabuleiro um papel fundamental.

Ninguém quis ver o que aconteceu em Gaza

Existe uma resolução do Conselho de Segurança da ONU aprovada dez anos atrás que obriga os Estados-membros à proteção de jornalistas durante conflitos armados. Não só porque jornalistas integram a população civil de países, como pela função social específica que desempenham no mundo. Assinada por unanimidade em 27 de maio de 2015, a 2222 especifica que “jornalistas, profissionais de mídia e pessoal associado” na cobertura de guerras não podem ser considerados alvo militar. Outra resolução, bem mais recente (2730, de 2024), aborda especificamente “os princípios da distinção, proporcionalidade e precauções em conflitos armados”, de modo a proteger civis e pessoal humanitário. Contudo, ao longo dos últimos dois anos, até o frágil cessar-fogo instaurado em 10 de outubro, tudo isso e muito mais foi pulverizado pela ação das Forças de Defesa de Israel (FDI) na Faixa de Gaza.


Até aí nada de muito novo, visto que resoluções da ONU valem pouco dependendo da força política ou do apadrinhamento do país infringente. Inesperado, mesmo para os tempos atuais de escassez moral no mundo, foi a docilidade com que o chamado grande jornalismo profissional aceitou que seu papel de testemunha-chave da História fosse bloqueado. Diana Buttu, advogada palestino-canadense especializada em Direito Internacional, resumiu assim o noticiário inicial do conflito na imprensa ocidental:

— O mundo nos informa que nada pode justificar o 7 de Outubro (data em que grupos terroristas do Hamas irromperam no sul de Israel, trucidaram 1.219 pessoas em poucas horas e fizeram 251 reféns), mas tudo o que Israel fizer pode ser justificado pelo 7 de Outubro.

No início do feroz assalto das FDI, também pareceu compreensível que, por razões militares, Israel vedasse o enclave a todo e qualquer representante de mídia independente. Ninguém esperava poder voltar aos tempos áureos do jornalismo de guerra dos anos 1960 e 1970, quando os Estados Unidos, atolados no Vietnã, perderam o apoio da opinião pública graças à independência dos jornais, ao arrojo dos enviados ao front e à liberdade que tiveram para trabalhar arriscando a vida. Nas guerras seguintes, tanto contra o Iraque quanto no Afeganistão, o Pentágono domesticou os grandes órgão de mídia — transformou os enviados especiais em embedded journalists. Atrelados às forças invasoras, grande parte da cobertura foi feita em movimentos cerceados, e o envio de imagens ficou sob escrutínio. Mesmo assim, não foram poucos os jornalistas internacionais que abriram mão da sedução de poder cobrir uma guerra do interior de um tanque e se aventuraram a explorar o morticínio por conta própria.

Em Gaza, nem isso. O bloqueio foi, é e continua a ser irredutível e absoluto. Coube então ao jornalismo profissional e amador de Gaza vestir coletes e capacetes e mostrar o que ninguém queria ver. De início desacreditados pelas grandes mídias mundiais, ou suspeitos de ser meros propagandistas do Hamas, toda uma geração de repórteres, cinegrafistas, fotojornalistas, radialistas e blogueiros palestinos vivenciou e testemunhou a história da guerra. Foi alto o custo humano desse trabalho insano. Levantamento feito para o canal Al Jazeera identificou 278 jornalistas e pessoal de mídia (palestinos em sua imensa maioria) mortos em Gaza por ação de Israel. Foi somente em agosto deste ano, transcorridos 22 meses de blecaute total, que mais de 250 veículos de mídia de 50 países emitiram um protesto coletivo contra esse apagamento de vidas e da História. Mas notas de protesto não bastam. Soa infantil, mas uma flotilha encabeçada por The New York Times, The Economist, Financial Times, Le Monde, The Guardian, El País, Haaretz, The Wall Street Journal e outros pesos pesados poderia ter sido tentada para chamar a atenção do mundo para o bloqueio. Consórcios multinacionais de jornalismo de qualidade, que já provaram imensa capacidade de articulação e investigação com empreitadas como os Panama Papers, se mantiveram de mãos atadas. No Brasil, os mesmos jornais que no governo Jair Bolsonaro tiveram a ousadia de se organizar para contornar o bloqueio de dados nacionais sobre a Covid-19 não consideraram mover montanhas para acabar com o bloqueio da verdade em Gaza.

Quem apaga a luz teme o que possa ser visto. Chegará o dia em que o governo de Benjamin Netanyahu precisará entreabrir os portões da desumanidade. A imprensa mundial acorrerá e fará descrições caudalosas da desolação. Tarde demais. O que aconteceu em Gaza ninguém quis ver.

‘Pobreza não é fracasso pessoal’

A pobreza não é um fracasso pessoal, é uma falha sistêmica, uma negação da dignidade e dos direitos humanos. A afirmação feita pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17/10), diz muito sobre a realidade do povo brasileiro.

Pessoas negras (pretos e pardos) representam a maioria dos que se encontram em situação de pobreza no nosso país. Para se ter uma ideia, entre 2012 e 2023, mais de 60% dos negros tinham renda de no máximo um salário mínimo. Nesse período, a renda média nos domicílios com pretos e pardos foi menos da metade da auferida nos domicílios sem negros (Cedra).

No Brasil, a expectativa de vida de mulheres e homens negros chega a ser seis anos menor do que a dos brancos em razão de fatores decorrentes da pobreza, que expõe os mais pobres a doenças ligadas à falta de saneamento básico, à alimentação inadequada e à violência urbana.

Quem vive em situação de pobreza experimenta múltiplas privações que se conectam reforçando as carências e dificultando o acesso efetivo a direitos e garantias constitucionais. Um rol exemplificativo inclui o direito à moradia digna, nutrição adequada, trabalho decente, inclusão social, educação de qualidade e saúde.

Verdade que o país entrou num ciclo de redução da pobreza e da desigualdade nos últimos quatro anos, o que permitiu que quase 9 milhões de pessoas deixassem a chamada linha da pobreza (IBGE). Mas é muito importante lembrar que a pobreza é dinâmica, ou seja, as famílias muitas vezes entram e saem dessa condição de maneira cíclica.

Nesse sentido, impedir que as pessoas voltem para a pobreza é tão importante quanto tirá-las dessa condição.

E é aí que entram programas sociais de transferência de renda e políticas públicas de redução das desigualdades. O combate à pobreza abrange a promoção da equidade racial, o acesso à justiça e a inclusão racial. Afinal de contas, pobreza não é um fracasso pessoal.


Ana Cristina Rosa

Bem-vindos à era da 'nowstalgia'

Será que ainda controlamos as nossas vidas? Ou será que, sem darmos por isso, entregámos o leme a forças invisíveis – algoritmos que decidem o que vemos, mercados que ditam o valor do nosso trabalho, crises nacionais e internacionais que se sucedem como temporais sem fim? Vivemos num tempo em que o futuro deixou de ser um horizonte e se tornou uma ameaça. E, diante dessa ameaça, fazemos algo estranho: voltamo-nos para trás. Não para a História, mas para uma versão suavizada do passado recente – os anos 80, sobretudo – como se ali, entre sintetizadores, calças de ganga justas e videoclipes coloridos, tivéssemos perdido uma felicidade que agora nos escapa. É a isso que o sociólogo francês Gérald Bronner, professor na Universidade de Sorbonne, chama “nowstalgia”: a nostalgia do presente, ou, mais precisamente, a recusa de deixar o presente ir embora, porque o futuro já não nos pertence.

Mas por que falo dos anos 80? Porque essa década, em particular, se tornou o santuário emocional de uma geração que, em muitos casos, nem a viveu? Talvez porque os anos 80 pareciam prometer um futuro sem catástrofe. A Guerra Fria ainda pairava, mas o muro ainda não tinha caído – e, por isso, havia ainda um “depois” imaginável. A tecnologia era simples, tangível: um walkman, um telefone fixo, um ecrã de televisão que não nos vigiava. Havia crise, claro – mas também música alta, cor, movimento. Madonna dançava como se o mundo fosse seu. Prince cantava sobre o desejo e a liberdade como se fossem direitos naturais. O cinema falava de viagens no tempo, de heróis improváveis, de mundos melhores ao virar da esquina. Era um tempo de hedonismo consciente: gozar o agora, sim – mas com a certeza de que o amanhã ainda estava por escrever.


Hoje, o hedonismo mudou de rosto. Já não é celebração – é fuga. Consumimos o passado como se fosse um analgésico: ouvimos vinis não pelo som superior, mas por calor humano; vestimos roupa vintage não por estilo, mas por segurança simbólica; vemos séries ambientadas nos anos 90 não por nostalgia real, mas por saudade de um tempo em que o futuro parecia pertencer-nos. A “nowstalgia” é, assim, uma forma de autopreservação psíquica. Diante da perda de controlo sobre o ambiente, a globalização desenfreada, a aceleração tecnológica e a incerteza climática, preferimos congelar o tempo. Como escreve Bronner no seu livro À L’Assaut du Réel (2023), “o presente tornou-se tão compacto que o seu campo gravitacional absorve a nossa imaginação e desvitaliza o futuro”.

Mas e se essa fuga for, na verdade, uma rendição?

Perguntemo-nos: quem beneficia com o nosso desinteresse pelo futuro? Quem lucra com a nossa crença de que “nada pode mudar”? Não são os que detêm o poder? Não são os que querem manter o mundo exatamente como está – desigual, seletivo, predatório – mas com um verniz de normalidade? A “nowstalgia” é perigosa não por ser doce, mas por ser passiva. Transforma a política em estética, a memória em mercadoria, a esperança em playlist.

E, no entanto, há algo de profundamente humano nesse desejo de regresso. Porque a arte, a música, o cinema dos anos 80 não eram apenas entretenimento – eram formas de esperança. David Bowie reinventava-se a cada álbum como um ato de liberdade. Nina Simone cantava Mississippi Goddam (1965) com fúria e beleza, lembrando-nos de que a arte pode ser uma arma. Em Portugal, os anos pós-Abril foram também anos de efervescência cultural: Zeca Afonso, Sérgio Godinho, o Zé Mário Branco, GNR, os Heróis do Mar, Delfins, Xutos & Pontapés, o Rui Veloso – todos usaram a música para pensar o País, sonhar e celebrar a liberdade, exigir justiça. A felicidade que recordamos não estava só nas cores ou nos ritmos – estava na sensação de que o coletivo podia mudar o mundo.

Hoje, essa sensação rareia. Vivemos em bolhas algorítmicas, isolados mesmo quando conectados, ansiosos mesmo quando “bem-sucedidos”. O trabalho não dá dignidade – dá exaustão. A casa, o carro, não são lar nem movimento necessários – são investimentos. O amor não é paixão – é gestão de expectativas. E o futuro? O futuro é um fardo. Por isso, agarramo-nos ao passado como quem se agarra a um salva-vidas. Mas um salva-vidas não leva a lado nenhum – só impede que se afogue.

E é nesse vazio que floresce o veneno político. Enquanto idealizamos um passado que nunca existiu – um Portugal homogéneo, tranquilo, “sem conflitos” –, alimentamos discursos que trocam liberdade por ordem. A xenofobia avança disfarçada de defesa da identidade nacional, como se a nossa História não tivesse sido feita de cruzamentos desde os tempos dos fenícios. A misoginia regressa sob o manto dos “valores tradicionais”, como se a emancipação das mulheres não tivesse sido uma das conquistas mais profundas e belas da democracia portuguesa. E a extrema-direita cresce, não com fardas, mas com sorrisos bem-ensaiados, mentiras e promessas vãs de segurança – promessas que, na prática, exigem o sacrifício do outro: do imigrante, da mulher que decide sobre o seu corpo, do jovem que exige um planeta habitável, de todos nós.

Tudo isto prospera num clima de desespero silencioso. Um desespero que não se manifesta em barricadas, mas em olhares cansados, em casas vazias de aldeias desertificadas, em famílias que trabalham dois turnos e ainda assim não conseguem pagar uma renda. Esse desespero não pede revolução – pede alívio. E é aí que entra a ilusão: a ideia de que voltar atrás é a solução. Mas voltar atrás para onde? Para um tempo em que as mulheres precisavam da autorização do marido para abrir uma conta bancária? Para uma sociedade onde falar contra o regime podia levar à prisão? Onde escrever um artigo, um poema, poderia ser censurado pelo lápis azul? Para um País que via o diferente como ameaça?

A “nowstalgia”, nesse sentido, é uma traição à memória. Porque o povo que fez o 25 de Abril não era um povo de ressentimento. Era um povo de esperança ativa. Sabia que o futuro não caía do céu – tinha de ser construído, disputado, defendido. E hoje, quando tantos repetem que “não há alternativa”, esquecem-se de que a própria democracia foi, um dia, a alternativa impossível que se tornou real.

Essa esperança ativa tinha um nome concreto: bem-estar. Não o bem-estar do consumo, mas o bem-estar da dignidade. O direito a um emprego que não humilhasse, a uma casa que não fosse provisória, a uma escola democrática que abrisse horizontes, a um hospital que acolhesse sem perguntar quem se era. Como escreveu o filósofo Agostinho da Silva, numa das suas Lições de Filosofia, “o tempo é o espaço da liberdade” – e essa liberdade só tem sentido quando permite viver com plenitude. Essa plenitude inclui o amor, a paixão, a felicidade – não como estados privados, mas como possibilidades coletivas. Um País onde se pode amar quem se quer, onde se pode sonhar sem vergonha, onde se pode envelhecer com cuidado, onde se pode nascer sem medo.

Foi essa visão que inspirou a Constituição de 1976, com os seus artigos sobre o direito ao Trabalho (art. 58º), à Saúde (art. 64º), à Educação (arts. 73º-79º), à Proteção na Velhice e na Doença. Não eram promessas abstratas – eram respostas a décadas de exclusão. Hoje, porém, esses direitos são tratados como encargos, como luxos que o País “não pode pagar”. A educação é mercantilizada, a saúde é precarizada, o emprego é desvalorizado, a habitação tornou-se um privilégio. E enquanto isso acontece, a “nowstalgia” distrai-nos com vinis, séries rétro e discursos sobre “valores perdidos” – como se os verdadeiros valores não fossem precisamente os que estão a ser desmantelados sob os nossos olhos.

José Saramago, que sempre viu o futuro como responsabilidade, escreveu com clareza implacável: “O futuro não é o que será, mas o que fazemos dele.” A frase, proferida em múltiplas entrevistas e recolhida no seu Caderno de Viagem (Caminho, 2001), não é otimismo ingénuo – é um apelo ético. E o que estamos a fazer do futuro? Estamos a permitir que o medo defina os limites do possível. Estamos a aceitar que a solidariedade seja chamada ingenuidade, que a justiça social seja rotulada de utopia irrealista. Mas a utopia, como bem nos lembrou Saramago noutra ocasião, é o horizonte que nos faz caminhar. Sem ela, ficamos parados – e o presente, inchado de ansiedade, devora-nos.

Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, confessou com inquietude profética: “O futuro é aquilo que ninguém quer, mas que todos terão.” Talvez tenha razão. Mas há uma diferença crucial entre sofrer o futuro e habitá-lo com intenção. A liberdade, como escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen em O Nome das Coisas (Assírio & Alvim, 1977), é o espaço em que o homem pode ser justo. Não é um privilégio, nem um dado adquirido – é um campo de ação ética, que exige coragem, lucidez e compromisso com os outros.

Então, talvez a pergunta não seja “como voltar aos anos 80?”, mas “como recuperar a coragem que os anos 80, em parte, simbolizavam?” Não a inocência – essa nunca existiu –, mas a ousadia de imaginar. Porque a verdadeira felicidade nunca esteve no consumo do passado, mas na capacidade de construir um futuro comum.

Pensemos nos nossos filhos. Nos nossos netos. Nos nossos entes queridos. Que mundo estamos a legar-lhes? Um mundo onde o medo decide quem entra, quem fala, quem existe? Ou um mundo onde a liberdade – essa liberdade cara, conquistada com cravos e coragem – continua a ser um projeto vivo, exigente, interminável, eterno?

Chega de entregar o futuro à “nowstalgia” do medo. Chega de permitir que o presente, inchado de ansiedade e manipulação, devore o amanhã que os nossos avós sonharam e os nossos filhos merecem. O 25 de Abril não é uma fotografia emoldurada. É um compromisso. E esse compromisso chama-se: nunca mais!

Nunca mais haverá ditadura, mesmo que venha mascarada de normalidade. Nunca mais haverá racismo institucional, mesmo que se disfarce de “preocupação cultural”. Nunca mais mulheres caladas, nunca mais fronteiras fechadas à Humanidade, nunca mais um País que esquece que a sua força está na sua diversidade, na sua luta, na sua capacidade de sonhar coletivamente.

O futuro não é um destino. É uma responsabilidade. E essa responsabilidade começa agora – não na fuga, mas na presença. Não na “nowstalgia”, mas na ação consciente. Porque, como escreveu a Sophia de M. B. Andresen, a liberdade é o espaço em que o homem pode ser justo, repito – e esse espaço só existe se o construirmos, juntos, todos os dias.

N.B. Esta crónica é dedicada a todos os que ainda ouvem uma canção e sentem que o mundo pode mudar – porque, de facto, já mudou. Basta lembrar-mo-nos como.

sábado, 18 de outubro de 2025

Pensamento do Dia

 


A necessidade do Estado Palestino

A criação do Estado Palestino, juntamente com a segurança de Israel, são fundamentais para a pacificação e estabilização do Oriente Médio, e da política mundial. A maioria de nossos problemas atuais decorrem do Oriente Médio, berço de nossa civilização, com as suas divisões e anteposições, que até hoje perduram. O Acordo de Cessar Fogo obtido pelos Estados Unidos, nos moldes atuais, é instável e não soluciona o problema, onde a guerra irá voltar, brevemente ou a médio e longo prazo.

A criação de Israel remonta ao fim da Primeira Guerra Mundial. Em 1916, a Inglaterra, a França e a Rússia assinaram o Acordo Sykes-Picot, no qual, devido ao desmantelamento do Império Otomano a Palestina e a Jordânia ficariam sob o Mandato Britânico, e o Líbano e a Síria sob o Mandato Francês, até 1943.


Após a Segunda Guerra Mundial, diante do holocausto e na inexistência de Estado juridicamente constituído na Palestina, a Assembleia da ONU aprovou, em 3 de setembro de 1947, a formação dos Estados Judeu e Palestino por 33 votos, representando 72% dos países, contra 13 votos no total. Votaram a favor os Estados Unidos, União Soviética, França, Brasil, dentre outros; votaram contra a Síria, Líbano, Arábia Saudita, Egito, Iraque, Irã, dentre outros; a Inglaterra, a China, e outros oito países se abstiveram.

A fundação de Israel data de 14 de maio de 1948, com a sequência da Guerra da Independência. Seguiram-se, até hoje, o total de 11 guerras entre Israel e os países da região, com a estimativa de cerca de 170.000 mortos no total, sendo 70.000 em Gaza nestes últimos 2 anos.

Hoje, 157 dos 193 Estados membros da ONU, ou seja, 80% dos países, reconhecem o direito da constituição do Estado Palestino, incluindo a Inglaterra, França, Canada, Australia, México, Brasil, o Vaticano, Turquia, Rússia, China, Índia, Japão, dentre outros, com o veto dos Estados Unidos.

São dois os principais problemas entre Israel e os países Árabes da Região.

Do ponto de vista político, toda vez que três países, com culturas e interesses antagônicos, compartilham suas fronteiras, o modelo tende ao desequilíbrio. Ali, se confrontam hoje Cristãos, Mulçumanos e Judeus, em suas diferentes percepções. Segundo a Teoria dos Jogos, todo sistema tripartite conflitivo tende ao desequilíbrio, uma vez que quando duas partes se acertam a terceira não necessariamente concorda, gerando na instabilidade contínua.

Do ponto de vista econômico, o petróleo é a grande riqueza e problema da região. 51% das reservas mundiais de petróleo estão no Oriente Médio, Arábia Saudita 16%, Iran 9,5%, Iraque 9%, Kuwait 6%, Emirados Árabes 6%. Os Estados detêm 2% das reservas mundiais, com 19% do consumo, Israel sem reservas. Como disse Robert Kennedy Jr., atual Secretário da Saúde e de Serviços Humanos de Trump, em sua então pré-candidatura à Presidência dos Estados Unidos em 2024, “Israel é a nossa fortaleza. É quase como ter um porta-aviões no Oriente Médio. Se Israel desaparecer, os BRICS vão controlar 90% do petróleo do mundo e isso seria uma catástrofe para nossos interesses”.

Segundo as teorias sobre o terrorismo, como em Martha Crenshaw, David Rapoport, Robert Gurr, dentre outros, pode-se e se deve combater, mas é muito difícil derrotar o terrorismo pelas armas, uma vez que o terrorismo sempre se renova, em seus líderes, segundo os motivos que lhe geram. A melhor solução, além do combate, é a composição, mesmo que relativa, como ocorreu na Irlanda do Norte. Para o bem da pacificação, dos povos, e dos países.

O Acordo de Cessar Fogo é mais uma Proposta de Rendição do que um Acordo de Paz, momentaneamente oportuno para todas as partes.

A pacificação tem o seu preço.

Hollywood me enganou

Sou uma vítima de Hollywood. Algumas décadas assistindo a filmes de ação me fizeram crer que o amor pela liberdade, pela democracia e a rejeição à tirania estavam inscritos no DNA dos americanos. É claro que nunca comprei essas ideias pelo valor de face.

Acompanhei dezenas de intervenções dos EUA em outros países que não podem ser catalogadas como defesa da democracia. Mesmo as que podem foram muitas vezes marcadas por um escandaloso autointeresse de Washington.


Ainda assim, acho que é difícil negar que os EUA, em parte pelas preferências de seus cidadãos, foram uma peça-chave na construção da ordem mundial do pós-Guerra, indubitavelmente mais democrática do que todas as ordens mundiais que a antecederam. E as preferências dos americanos são em parte determinadas pela imagem que esse público projeta de si mesmo, o que tem a ver com Hollywood.

Nesse contexto, devo dizer que me surpreende a passividade com que os americanos estão aceitando a escalada autoritária de Trump. Até entendo que as maiorias republicanas na Câmara, no Senado e na Suprema Corte deem corda para o Agente Laranja, mas como explicar que universidades, escritórios de advocacia e empresários que até outro dia se proclamavam paladinos do liberalismo também estejam acedendo a exigências, às vezes claramente ilegais, do governo Trump?

O pragmatismo pode ser uma resposta. O poder que a Casa Branca tem de impor custos a seus desafetos é quase infinito. É sempre mais interessante deixar que os outros façam o combate. Também deve haver atores imaginando que Trump acaba constitucionalmente em 2029. Melhor esperar a tormenta passar sem se molhar.

Não digo que esses raciocínios estejam necessariamente errados, mas não dá para negar que envolvem um certo risco. Kim Il Sung foi escolhido como presidente da Coreia do Norte para um mandato de quatro anos e a ditadura já está na terceira geração. Vamos ver se os protestos anti-Trump convocados para este sábado mudam a dinâmica, mas não estou muito otimista.

Lenço de pano

Costumo carregar um lenço de pano no bolso de trás da calça. Prática antiga, minha tia-avó Helena, já falecida, conhecedora do hábito, reiteradamente me presenteava com caixas contendo três, nas datas importantes. Traziam, eu achava o máximo, a letra erre bordada, e vinham, titia nunca falhava, com as cores: branca, azul e rosa. Ainda me sobrou um deles, alvo, limpo e engomado, com a inicial floreada, na caligrafia bonita dos antigos. Sempre que lanço mão de um, em ocasiões mais ou menos frequentes de emoção, as pessoas em volta estranham. Quem usa lenço hoje em dia, meu Deus? Seria mais natural surpreenderem-se com o lacrimejar instantâneo, eu assim à flor da pele, mas é o objeto de pano que chama mais a atenção.

Os comentários, aliás, são em tais ocasiões os mais variados. Afirmam ser coisa de velho, haver pouca higiene em se armazenar aquela porcaria na algibeira, o mais saudável seria utilizar utensílios descartáveis de papel. Ofendo-me, é claro! Por que não devo manter alguma tradição em meus costumes? Já mudei tanto, aceitei novidades, modernizei-me, embora aos trancos e barrancos, sou hoje capaz de encarar o mundo estranho em que vivo sem importunar os viventes do entorno. Não custava nada haver alguma reciprocidade, respeitarem gostos inocentes trazidos de um passado que, para mim pelo menos, é recente, parece ter sido vivido ontem. Desejo poder enxugar minhas lágrimas com conforto.

E como tenho chorado!

O mundo se tornou insalubre demais. Se me distraio e abro inadvertidamente algum filme recebido no computador, entro em contato com eventos horríveis, traumatizantes, vejo o ser humano sofrendo injustiças inacreditáveis. Fico logo engasgado, com embrulhos no estômago, a dor me escorre pela face incontrolavelmente. Como ver um pai tentando acalmar um filho que chora com medo de bombas e não tremer de ódio ante o vil? Os dois aterrorizados, tudo em volta chacoalhando, clarões iluminando as janelas e estrondos assustadores. Levo logo a mão para trás, alcanço aquele que sempre esteve ali para me secar o pranto. Permaneço horas impressionadíssimo. Quem mandou ser capaz de sentir com tanta fúria a dor alheia?

Gaza.

Então vejo alguém recitando um poema do palestino Ahmad Assuq. Resultado de teclar inadvertidamente um link no celular. Na telinha surgem escritores judeus brasileiros. Eles revezam-se dizendo versos fortes e sofridos desse poeta tão jovem, apenas vinte e seis anos de luta:

Vamos colocar máscaras
Para não ter que perder
Estes rostos que já não
Reconhecemos

E constato que, embora Adorno tenha dito que a poesia não sobreviveria a Auschwitz, ela está ali sangrando meus olhos, umedecendo minhas mãos, preciso urgentemente do meu lenço.

Gaza.

Como respirar, sorrir, sentar-se à mesa para fazer refeições sabendo que há um massacre sendo realizado?

Como respirar, sorrir, sentar-se à mesa para fazer refeições sabendo que existem crianças com fome e apavoradas?

Não consigo sem meu lenço. Impossível!

Ricardo Ramos Filho

Reivindiquemos o dever dos nossos deveres

Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.

Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lhe permitem aquelas que efetivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.

José Saramago ao receber o Prêmio Nobel

Lucrando com a Casa Branca

Donald Trump cruzou muitas linhas vermelhas nestes nove meses de seu segundo mandato, mas em poucas áreas sua apropriação pessoal da autoridade política é tão evidente quanto em relação aos seus bens e aos de sua família. Ele não é o primeiro presidente dos EUA a vir do mundo empresarial, mas nenhum até agora obscureceu tanto a linha entre serviço público e lucro privado, uma fronteira fundamental para o funcionamento de qualquer sistema político democrático.

Desde que assumiu o cargo pela segunda vez em 20 de janeiro, Trump tem usado seu poder de forma tão agressiva que enfraqueceu o modelo de freios e contrapesos, a própria base da democracia americana. Ele também não hesitou em reprimir a dissidência e mobilizar todo o poder executivo para intimidar a imprensa, a sociedade civil e a oposição. Suas decisões de política externa estão redefinindo a estrutura para o uso da força e os limites do direito internacional. E deixaram claro para grandes corporações, oligarcas da tecnologia e qualquer estrangeiro interessado em fazer negócios nos Estados Unidos que tudo no Salão Oval tem um preço.


É difícil fornecer números concretos sobre o enriquecimento dos Trumps durante esse período, já que muitos de seus negócios não estão listados na bolsa de valores e a estrutura corporativa que eles criaram os torna difíceis de monitorar. Várias investigações estimam que sua riqueza, estimada em cerca de US$ 2,3 bilhões no final de 2024, pode ter se multiplicado por três ou até cinco vezes nos últimos meses. No entanto, há algumas evidências convincentes. O investimento da família no mercado de criptomoedas não existiria ou seria tão lucrativo sem as mudanças legislativas feitas por seu próprio governo, que excluiu o Federal Reserve e outras agências federais do negócio, que agora está exclusivamente em mãos privadas. Seus filhos estão fechando acordos com muitas petromonarquias pouco antes da visita oficial de Trump ao país em questão, e alguns desses governos estão autorizados a fazer negócios nos Estados Unidos — como a participação do fundo MGX de Abu Dhabi nas operações do TikTok USA — após depositar bilhões em uma startup de criptomoedas fundada pela família presidencial. Por sua vez, as empresas de tecnologia concordaram em pagar milhões em indenizações ao próprio Trump para encerrar os processos movidos pelo presidente.

O pior, porém, é que tal nível de monetização de cargos públicos carece da reação social e política que poderia ter provocado em outros tempos. Donald Trump rompeu muitos dos limites do que era considerado aceitável em um presidente, disfarçando preocupações éticas como questões partidárias. A polarização política também leva à erosão dos mecanismos de supervisão e responsabilização, permitindo que o presidente escape da responsabilidade perante seus eleitores. Sem uma resistência efetiva da sociedade e de instituições independentes, a deterioração de alguns dos princípios fundamentais da democracia americana pode ser irreversível.

Editorial do El País

Termo ‘empreendedorismo’ se vulgarizou

Volta e meia circulam aqui palavras, geralmente traduções do inglês, para nós aparentemente novas, mas que já eram antigas e usuais, com variantes de significado ao longo do tempo. De certo modo, palavras têm “biografia”. Se quisermos colocar a questão numa perspectiva mais abrangente que, no caso, é a policial, elas têm até “folha corrida”.

Quando fui pesquisador visitante da Universidade de Cambridge, na Inglaterra e, depois, professor catedrático, pagava minhas contas numa agência de famoso banco bem no centro da cidade. Uma placa indicava que ali tivera casa, na qual instalara o primeiro banco da localidade, John Murdock (1755-1816), que fora membro do Parlamento e 13 vezes prefeito da cidade. Tinha um lema, que a placa consagra: “O que vocês chamam corrupção, eu chamo influência”. Explicava seu criativo modo de criar riqueza e poder.


Está sepultado, santamente, numa pequena igreja próxima da casa em que vivera e em que triunfara como empreendedor. Nela, hoje, há um restaurante italiano.

Dessa cultura, uma palavra que teima em se infiltrar em nosso vocabulário é “empreendedorismo”. Como se fosse um conceito socialmente inovador. Em inglês tem sentido mais especificamente econômico, relativo a ganho e lucro, do que aqui.

O sentido da palavra agora vulgarizada vem de Joseph Schumpeter (1883-1950), economista tcheco, que foi ministro da economia da Áustria. Acabou emigrando para os EUA, tornou-se cidadão americano e lá morreu.

Bem examinada a coisa, não se trata de mera inovação vocabular, mais uma palavra dentre tantas palavras estrangeiras que se incorporam a uma língua que já não é, propriamente, a nossa velha língua portuguesa com sotaque nheengatu.

Durante o período bolsonarista de nossa decadência política, “fake news” foi designação “chique”, porque em inglês, para uma prática aqui antiga nem um pouco chique, a mentira como instrumento da esperteza e dos espertalhões. Não apenas para juntar riqueza, mas também para juntar poder, um instrumento novo de nossa corrupção antiga.

Empreendedorismo, tudo sugere, é vulgarização ampliada da concepção do mesmo Schumpeter, a de empresário inovador, aquele que em busca do lucro toma decisões econômicas de risco, inova porque antecipa-se nas práticas de obtenção do lucro que o diferenciam dos concorrentes.

Schumpeter deu à centralidade de sua concepção de inovação o sentido de “destruição criativa”. Ela impulsiona o progresso industrial e destrói as práticas econômicas obsoletas. Promove o desaparecimento de indústrias antiquadas e o surgimento de novas.

De certo modo, a concepção de economia de Schumpeter e a cultura do empreendedorismo já não dizem respeito, propriamente, ao que o filósofo Karl Marx (1818-1883) e seu parceiro de obra, o empresário do ramo têxtil Friedrich Engels (1820-1895), definiram como modo capitalista de produção e reprodução do capital, uma teia de relações sociais e de consciência social, as relações sociais de classe.

Com Schumpeter, dizem respeito a crescimento econômico, a quantidades, a ganhar com a inovação econômica para ganhar primeiro e, assim, ganhar mais. Já não dizem respeito a desenvolvimento econômico com um modo determinado e cambiante de desenvolvimento social. O lucro extraordinário da inovação já não resulta de relações sociais de superação de contradições da reprodução do capital. Mas da solidão do empreendedor criativo.

A transformação dessa mudança em cultura do meramente lucrar, em mediação da mentalidade pós-moderna, espalha-se rapidamente e promove a transformação redutiva e funcional das mentalidades. Já não se trata apenas do ganhar como lucro, mas do ganhar no amplo sentido de ganhar dominação, poder e riqueza, de uma economia sem socialidade.

Na “Ética protestante e o espírito do capitalismo”, de Max Weber, o enriquecimento era indício do favorecimento de Deus ao cumpridor de uma ética de moderação, do consumo ao sexo. Deus entrava indiretamente num modo de vida que favorecia o enriquecimento da pessoa por ele beneficiado.

As igrejas pentecostais, nos EUA e depois em outros países, como o Brasil, através da teologia da prosperidade reinventaram Deus e o tornaram sócio do empreendimento. O crente investe o que tem na compra da benevolência de Deus e cada templo é, de certo modo, um balcão de negócios.

Diferentemente da tese schumpeteriana, o ganho não é aí produto de um risco criativo e calculado. É investimento e compra. É expressão da coisificação da pessoa e de uma modalidade de alienação que a liberta dos valores da tradição, como a do pensamento crítico, para torná-la escrava de uma vida que é o cativeiro de um modo materialista de empreender.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

A desigualdade explicada às crianças

O céu está por cima da nossa cabeça, agora quase todo cinzento, com laivos de azul esmagados sob o peso das nuvens do outono, e um ventinho agudo e cortante, que regressa por esta altura, como todos os anos. Mudar de estação é um recomeço com sabor a passado. Andamos para a frente, voltando para trás. A mim, outubro lembra-me o cheiro da madeira dos lápis no estojo, a mochila às costas, a borracha a esfarelar-se sobre os erros que se apagam e uma página com um desenho de um cacho de uvas roxas no livro da escola. O mundo começa todos os dias, mas nunca do zero.

Da primeira vez que levei a minha filha mais velha à praia, tive a ilusão de poder descrever-lhe o mundo como se ele não tivesse existido antes dela. Esta é a areia e esta é uma concha. E ali está o mar, que cabe dentro deste búzio. O azul que te cega é salgado. O chão que pisas escorrega-te pelos dedos. E os gritos que te embalam são das gaivotas, que sempre aqui estiveram, mas parecem hoje novas como nunca. Tudo parece novo e diferente, porque estamos a vê-lo pela primeira vez, como se nunca antes ninguém o tivesse visto.


Mas a invenção do mundo faz-se por camadas. “As pessoas que vêm de África cozinham melhor do que as outras?”, perguntou-me certo dia o meu filho mais novo enquanto deambulávamos pela cidade. Franzi o rosto. Não percebi a pergunta. “É porque são sempre as pessoas mais escuras que trabalham nas cozinhas.” Fiquei com a pergunta a remoer na cabeça. E a única coisa que consegui dizer é que a cor da pele não nos diz em que país alguém nasceu e que África nem sequer é um país, mas um continente grande, cheio de gentes diferentes e países com as suas histórias de reis, exércitos e cidades.

Quase um ano depois, a mesma inquietação surge com outra pergunta. “Porque é que as pessoas morenas trabalham mais nas limpezas?” E a resposta que andei a cozinhar já me sai mais completa, mas não é fácil de contar. A desigualdade é uma coisa que só parece óbvia quando caímos no conto de fadas que nos diz que ela é tão natural e antiga como o céu que está sobre as nossas cabeças. Mas não é. A desigualdade é difícil de contar porque ela é muito antiga, sim, tem raízes com milhares de anos, mas não nasceu com o início do mundo. E arrancá-la da terra pode mesmo ser a única forma de evitar o fim do mundo.

Ensaiei, como pude, uma explicação que os meus filhos pudessem entender. Sem dourar o que é sombra. Mas voltando à ideia de que a única vez que nascemos iguais já foi há milhares de anos. Depois disso, cada um de nós foi nascendo num mundo antigo, herdando tudo o que já cá estava. E sabendo, enquanto o dizia, que dizê-lo não pode nem deve impedir-nos de querer inventar o mundo. O barro com que trabalhamos é duro, mas não deve faltar-nos nunca a coragem, a imaginação e até a alegria para o moldarmos.

Comecei, então, a contar. Houve um tempo em que os mais fortes decidiram explorar os mais fracos. Houve um tempo em que se decidiu que os tons da pele podiam ser uma escala de ser humano. Quanto mais escuros, menos humanos, para que pudéssemos explorá-los como se arrancam pedras das minas ou se colhem frutos das árvores. Para que parecesse natural o que nunca o foi. Marcaram-se assim, na pele, os fortes que tudo podem e os fracos que nada têm.

Quem chegou ao mundo muitos séculos depois da invenção da raça já nasce marcado por ela. Não só pela cor que lhe cobre a pele, mas pela pobreza que recebeu de herança. Não há nada que dite tanto a sorte de alguém como o berço em que nasceu. Contam-nos histórias de heróis, que cabem nos dedos das mãos, para deixar na sombra os milhões que nunca deixarão de ser pobres pelo simples facto de que foi assim que nasceram.

O esforço não conta nada? Conta alguma coisa. Mas é muito diferente correr com um menir às costas ou de braços vazios. Começa-se sem os alimentos que nos tornam mais saudáveis e fortes, sem as brincadeiras que nos estimulam, sem o tempo para que nos cuidem e ganhemos o sentido de sermos alguém que merece. Depois vem a importância de sobreviver, de nos fazermos à vida para ter o que comer. Não há o luxo dos livros, das viagens e dos museus. E a vida transforma-se numa corrida de obstáculos, em que alguns nascem com asas e outros com pernas curtas.

Explico muitas vezes aos meus filhos que os pobres são, quase sempre, os que mais trabalham. Só que vivem na mentira de que o trabalho que fazem não vale nada e são ensinados a odiar quem tem menos. O desempregado que passa o dia no café irrita-os mais do que o bem-nascido que vive das rendas das casas herdadas. É que esse é aquele que eles queriam ser. No fundo, sabem que vale mais esse privilégio de berço do que as migalhas dos subsídios. Mas não o dizem em voz alta, com medo que pareça inveja.

Os malfadados subsídios foram muitas vezes a forma de repor alguma justiça, entre os que já nascem com prédios e contas no banco e os que só nascem com fome. Foram também uma forma de colar a cuspo uma certa paz, adormecendo estômagos famintos com algumas côdeas, para lhes entorpecer a raiva. Mas enganar a fome não é o mesmo que matá-la. E é aí que têm razão aqueles que se inflamam contra os subsídios, que tentam mascarar a desigualdade em vez de a abalar verdadeiramente.

A fome só se mata com a paz, o pão, habitação, saúde, educação. Sim, lá vem outra vez essa velha cantiga. Hei de cantá-la até enrouquecer. Porque é por isso que anseiam os que lutam pela liberdade, mas também muitos dos que agora a veem como sua inimiga. É nas falhas desse muro que nascem as ervas daninhas, bem regadas por aqueles a quem interessa ver ruir tudo. Para que tudo volte a ser aquilo que se inventou há milhares de anos. Teremos de as arrancar com os dedos e de plantar no seu lugar as sementes do amor e da igualdade.

“Volta para a tua terra” não é sobre nós, brasileiros

Quando emigrei para Lisboa, em 2019, tornei-me Outra pela primeira vez. O processo de tornar-se Outro é, por si só, dramático. Já havia começado meu letramento racial no Brasil há alguns anos, com alguma consciência mais formal por volta de 2014, mas, em Portugal, a branquitude se movimentou dentro e fora de mim com dinâmicas que me ultrapassavam em termos teóricopráticos.

O privilégio branco de poder escolher tornar-se o Outro traz também a responsabilidade que implica em mecanismos e dinâmicas que, parafraseando Audre Lorde, lucram com opressões de outras partes de nossas identidades — mulher, latina, etc.

Como todo processo, há, na consciência racial somada à migração, movimentos, descobertas, retrocessos, desvios — é contraditório, humano e vivo. Mas algo me parece deslocado quando, no coletivo da nossa bolha, a branquitude intelectual brasileira de esquerda que emigrou nos últimos anos parece ter um prazer curioso em se colocar como alvo principal da violência xenófoba

Não podemos rir dos bolsonaristas em Portugal que parecem gostar do país justamente pelos avanços de bem-estar social que são frutos de políticas de esquerda — e/ou parecem não perceber que também são imigrantes. Não percebermos nós a incongruência quando, por exemplo, dizemos lutar pelos direitos reparativos da memória colonial, mas não olhamos a nossa própria ascendência também colonial.

Há que se “devolver o ouro”. Mas não a nós.

Somos todos brasileiros e carregamos as violências da construção (e preservação) nacional dentro de nossa identidade, passado e presente individuais e coletivos. Entretanto, como bem sabemos pela experiência cotidiana no nosso país de origem, o racismo não tem ponderações no momento de operar. O fenótipo é a sentença.

Eu, enquanto brasileira branca de cara, de classe média independente dos 10 euros na conta, se estiver quieta pelas ruas de Lisboa, serei bem tratada até abrir a boca. Uma pessoa brasileira dos muitos outros brasis que compõem o nosso país, provavelmente, terá outro tratamento desde o começo.

Isso, para restringir a discussão aos brasis que vivem aqui, sem entrar em outras migrações e/ou diásporas. E deixamos para outro texto as lutas seculares dos movimentos negros portugueses.

Nós não deixamos de ser brancos por sermos latinos na Europa. Nós não deixamos de reproduzir a estrutura por termos nos deslocado dela.

Não dá para falar sobre xenofobia sem falar de racismo, capitalismo e suas dinâmicas. Obviamente, dentro dos nossos lugares de fala — e, “se branco só escuta branco” —, já passou da hora de nós, aqueles que se interessam pelo assunto — e não só —, termos essa conversa de forma honesta e não condescendente.
Maria Pinheiro

Espectadores do genocídio

“Quando perdi minha perna, fiquei muito triste. Saí do hospital e passei o dia na loja. Não queria fazer nada, não queria ver ninguém. E então, quando precisei voltar para o hospital, percebi no caminho e no hospital que agora a maioria das pessoas em Gaza é como eu. Quase todo mundo perdeu uma perna ou um braço. Então está tudo bem.” A história do menino cuja perna (e muito mais) foi roubada pela guerra foi contada pela psicóloga Letícia Furlan, da organização Médicos Sem Fronteiras, no Museu das Memórias (In)Possíveis, uma instituição que acolhe as histórias daqueles que não têm lugar. Era 11 de outubro, um dia após o cessar-fogo de Israel sob o “acordo de paz” imposto por Donald Trump. Os palestinos tiveram que engolir um acordo que, mais uma vez, os humilha e os mantém sem soberania em seu próprio país, porque era a única maneira de impedir que Israel continuasse a matá-los até que não restasse nenhum deles. Eles tiveram que engolir isso devido à inação de muitos países, especialmente na Europa. Mas e os espectadores do genocídio?

Muito já foi escrito sobre a cumplicidade de alemães comuns no genocídio nazista e sobre a falha, ano após ano, de governos e cidadãos ao redor do mundo em agir. Sempre será obsceno que todo esse horror tenha sido ignorado por anos. A Europa e os Estados Unidos não se opuseram à Alemanha na Segunda Guerra Mundial pelo extermínio dos judeus, mas por razões geopolíticas e econômicas. Mas agora, na terceira década do século XXI, como podemos explicar a falha dos governos em agir? Porque os palestinos não precisavam de discursos vazios enquanto os israelenses reduziam seus corpos a escombros humanos. Ao contrário do genocídio nazista, escondido da maioria das pessoas em uma era sem internet, a destruição em massa de palestinos tem sido documentada diariamente em vídeo, áudio e texto pelas famílias das vítimas, profissionais de saúde e jornalistas que se arriscaram a cobri-la — pelo menos 252 foram mortos pelas forças israelenses. Então, como podemos explicar a falha da maioria das pessoas ao redor do mundo em agir?


Em um manifesto poderoso, um grupo de mais de 50 intelectuais, incluindo Angela Davis, Virginie Despentes e Benjamin Seroussi, pediu apoio às ações dos ativistas da flotilha que se dirigia a Gaza, cujo espírito humanista “quebra o estupor”. No texto, eles distinguem entre os assassinos, os mortos e os espectadores: “O espetáculo do genocídio nos atordoa, mas a destruição não é o fim de tudo: inaugura novas formas de governar, e em todos os lugares, muito além de Gaza, novos sujeitos aparecem, desvitalizados, atordoados, paralisados. Gostemos ou não, a cena tem três atores: os assassinos, os mortos e os espectadores. Nós, os espectadores, nos tornamos uma população reduzida a nos percebermos — com vergonha e raiva — impotentes, presos em nosso ponto mais fraco: nossa sensibilidade ao obsceno, misturada ao medo e ao fascínio, seguida por uma gradual dessensibilização ao próprio espetáculo.” Para eles, os espectadores consentiram com o genocídio por omissão, ao não reagirem ao horror e ao sofrimento que estavam vendo na tela.

Tantas vezes acusadas de encenar um espetáculo, as flotilhas, ao contrário, denunciaram a transformação do genocídio em espetáculo, quebraram a paralisia, humanizaram a resposta e arriscaram seus corpos na luta pela dignidade. Greta Thunberg foi repetidamente atacada por membros do governo israelense e insultada em diversas línguas na internet por incorporar a conexão entre colapso climático e genocídio, entre colonialismo e genocídio. Quando Greta foi libertada, Trump, o “pacificador”, chamou-a de “encrenqueira” e a aconselhou a ir ao médico para “controlar sua raiva”. Mas será que Greta é o problema? Não deveriam ser os espectadores, aqueles que dia após dia consentem por omissão que crianças explodam ou morram de desnutrição, os causadores do choque? Como uma reação de solidariedade diante do genocídio se tornou um “problema” que deveria ser tratado por um médico?

Ainda temos tempo para, coletivamente, deixarmos de ser espectadores. Não haverá paz se Benjamin Netanyahu e os membros de seu governo não forem responsabilizados por seus crimes e terminarem suas vidas na prisão. Não haverá paz, não apenas para a Palestina, mas para o mundo, se o genocídio permanecer impune. O destino da Palestina depende do nível de pressão que os cidadãos exercem sobre seus líderes, de sua solidariedade ativa com o povo devastado. Devemos a eles uma resposta aos 67.000 assassinados, mais de 20.000 deles crianças, números deliberadamente subestimados, pois há milhares de outros sob os escombros. Essas estatísticas também não incluem os 461 mortos por fome, que Israel transformou em arma de guerra. Devemos a eles uma resposta à criança de Gaza que terá que viver sem uma perna entre os escombros de sua terra, e às 21.000 crianças que a máquina de horror israelense deixou com alguma deficiência. Continuar a aquiescer por omissão destruirá a todos nós.

É dever das escolas ensinar a ter empatia

Não é por acaso que empatia se tornou matéria obrigatória, por lei, em todas as escolas da Dinamarca. Uma vez por semana, crianças e adolescentes, de 6 a 16 anos, se reúnem na “klassens tid”, a “hora da turma”.

Conversam sobre sentimentos, convívio, dificuldades, conflitos, atitudes. O professor é mediador. O objetivo é estimular a cooperação, o respeito, a escuta ativa, reduzir o bullying e o preconceito contra diferentes.

Acho o máximo. Explica também por que esse país escandinavo é o segundo mais feliz do mundo, no ranking da ONU. Ensinar, desde cedo, a ter empatia ajuda a construir uma sociedade mais justa e equilibrada.


Forma cidadãos, não indivíduos. Adultos mais conscientes, capazes de ouvir e suportar opiniões diferentes. Privilegia a cooperação, a solidariedade, no lugar da competição exagerada e estéril.

No Brasil, sobretudo nas grandes cidades, um de nossos incômodos é a falta de empatia. Não falo só de prefeitos e parlamentares que não estão nem aí para a população e não escutam o eleitor. Falo de todo mundo que a gente encontra na rua, na praça, no bar, até mesmo amigos ansiosos para brigar.

Empatia é palavra batida. Resumindo, significa conseguir se colocar no lugar do outro. Sentir o que o outro sente, perceber que o outro precisa de você. Mas não basta entender o significado. Tem que praticar. As pessoas confundem empatia com simpatia, bondade, sorrisos. É outra coisa.

Há mais de 30 anos a Dinamarca incluiu no currículo escolar o ensino de empatia. Em círculo, alunos discutem como foi a semana, se alguém se sentiu desprezado, agredido, ridicularizado. É uma disciplina tão importante quanto matemática.

Na “klassens tid”, não existem notas boas ou ruins, a ideia é cultivar o “hygge”, que significa aconchego, junto a pessoas queridas. Rejeitar ambientes hostis. Construir uma convivência respeitosa. O inverso do que vemos nas redes sociais e em muitos grupos de WhatsApp. E entre parentes.

Ensinar empatia é ensinar humanidade. Seria impossível a Dinamarca eleger um presidente que defendesse tortura, por exemplo. Ou que não se importasse com 700 mil mortos na pandemia e achasse falta de ar um mimimi. Inimaginável.

Bom saber que, no Brasil, existem escolas que tentam transmitir noções de cidadania. Uma é a Escola Parque, na Gávea. A partir do sexto ano, os alunos se reúnem uma vez por semana com a psicóloga. Para aprender a refletir. A disciplina se chama PEMSA. Psicopedagogia em sala de aula.

“Nós aprendemos sobre acolhimento, respeito, não pensar mal das pessoas antes de conversar e tentar entender, discutimos valores éticos, vemos vídeos e escutamos histórias de superação, falamos de bullying, racismo”, disse Nina Rezende Prada, 12. Minha neta.

Em nosso Brasil de tantas carências, falta muito para que o ensino de empatia seja promovido a política pública. Um luxo ou uma necessidade? Essa preocupação continua restrita a escolas de elite – e é uma pena, porque vemos e sofremos todo dia episódios de agressão gratuita, de incivilidade absurda.

É evidente que não dá para comparar as duas sociedades. A Dinamarca e o Brasil são países diametralmente opostos em quase tudo. A população dinamarquesa é quase igual à da cidade do Rio de Janeiro.

Mesmo assim, há muitos pontos em comum na juventude dos dois países. A necessidade de se sentir amado e acolhido é universal. Uma hora por semana para aprender a ouvir, falar e compreender não é tanto tempo assim. Ajuda a reduzir o assédio, a inadequação ou a solidão entre adolescentes.

E quem sabe, poderíamos almejar, na idade adulta, a um convívio cotidiano mais cordial e equilibrado, porque a falta de educação virou uma praga no Brasil.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Isto não é um acordo de paz

“Paz” é, provavelmente, nos tempos atuais, a palavra mais vazia do mundo. Três letras para meter num pin e usar ao peito, a atestar que ali está alguém com humanidade porque “é pela paz”. A paz até compra recantos no céu, como explicou Donald Trump em agosto, no programa Fox & Friends, justificando a sua ânsia por alcançar um acordo de paz entre russos e ucranianos e, assim, ganhar o Nobel da Paz. “Quero tentar ir para o céu, se possível. Ouvi dizer que não estou bem [posicionado]”, disse ele.


Muita gente pensou, com razão, que o Presidente norte-americano estava a gozar. Afinal, quem exibe um complexo messiânico de quem se sente imbuído de missão divina na Terra não iria ter medo de poder vir a girar pelos nove círculos do inferno. O facto é que Donald Trump, agora com 79 anos, está obcecado com a hora de encarar São Pedro. E, como não ganhou o Nobel da Paz, outra obsessão, voltou ao tema no domingo: “Não tenho a certeza se conseguirei ir para o céu, mas tornei a vida muito melhor para muitas pessoas.” E um inferno para muitas outras.

No dia seguinte, segunda-feira, lá estava ele a caminho do Egito para a chamada Cimeira da Paz. Tudo o que é líder de grande potência ocidental quis lá ir, o francês Macron, o inglês Starmer, o alemão Merz, o turco Erdogan, a italiana Meloni, dois portugueses – António Guterres e António Costa –, o espanhol Sánchez… Todos para o momento em que a paz seria alcançada em Gaza. Só faltaram mesmo os que andam em guerra, Israel e o Hamas.

A geopolítica é recheada de ironias e esta, certamente, ficará num qualquer top. Benjamin Netanyahu não foi, informou o seu gabinete, por ser o dia do feriado judaico de Simchat Torah. Na verdade, a extrema-direita do governo de Netanyahu ameaçou com demissões caso o primeiro-ministro israelita fosse à cimeira, conta o jornal The Guardian.

Pormenores… Para Donald Trump, interessam as grandes frases. Discursando no Parlamento israelita antes de chegar ao Egito, e depois de o Hamas libertar os últimos 20 reféns em seu poder, o Presidente dos EUA disse que este é “o fim da era do terror”, “um dia histórico para o Médio Oriente e um triunfo incrível para Israel e para o mundo”. Estava tão embalado no espírito que chegou mesmo a dizer “estar pronto” para um acordo de paz com o Irão também. E tudo é fraternidade.

Só que nem tanto. Pelo menos até ao fecho desta edição, o plano dos EUA era o de um cessar-fogo, não um acordo de paz. Cessar-fogo esse que implicava a libertação de todos os reféns por parte do Hamas e a libertação de 1 968 prisioneiros palestinianos detidos por Israel. Nesta primeira fase, Israel deverá também retirar parcialmente o seu exército para uma “linha amarela”, demarcada pelos EUA.

E enquanto os “países mediadores” discutem no Egito o futuro da Palestina – e a Comissão Europeia até mostrou alguma abertura para chegar ao momento em que levantará sanções que tem agora contra Israel –, uma sombra paira sobre o futuro desta paz: o desarmamento total do Hamas, algo impensável para o grupo terrorista. Ou o alcance da retirada do exército de Israel.

Esta paz é como o plano de Donald Trump: vaga, ambígua, insegura, podendo desabar a qualquer momento. E ficar em ruínas, como a Faixa de Gaza, com os seus milhares de refugiados a chegarem agora às suas casas, sob os escombros.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Pensamento do Dia


O Brasil caminha para um futuro sem dinheiro em espécie

O dinheiro sempre foi mais do que um simples instrumento de troca; ele é uma construção simbólica e política que expressa a soberania de um Estado e a confiança de uma sociedade em si mesma. Desde as primeiras moedas cunhadas pelos impérios antigos, a emissão do dinheiro representou o poder de uma autoridade sobre o território e o destino econômico de seu povo. Michel Aglietta, em  La violence de la monnaie, afirma que a moeda é uma “instituição social da confiança”, um elo entre os indivíduos e a coletividade que legitima o poder soberano. Cada cédula, cada símbolo impresso, carrega não apenas o valor de compra, mas um sentido de pertencimento e identidade. O real, o dólar ou o euro não são apenas unidades monetárias, são expressões da história, da cultura e do pacto de confiança que sustenta um país.

O avanço tecnológico que hoje desmaterializa o dinheiro, transformando-o em impulsos eletrônicos, códigos e senhas, ameaça não só o papel físico das cédulas, mas também o significado social que elas carregam. Ao substituirmos o dinheiro tangível pelos pagamentos digitais, como o Pix, os cartões por aproximação ou as carteiras virtuais, caminhamos para um regime de abstração, onde o valor é administrado por algoritmos e corporações globais. Georg Simmel, em  Filosofia do Dinheiro, já havia percebido que a modernidade transforma o dinheiro em uma forma pura de mediação, reduzindo as relações humanas a equivalências calculáveis. Essa “abstração monetária” reconfigura as interações sociais, esvaziando o contato direto e concreto que antes havia nas trocas face a face.

A desmaterialização do dinheiro, portanto, não é apenas uma mudança tecnológica, mas uma mutação da experiência social. O dinheiro físico é sensorial, palpável, partilhado já que ele passa de mão em mão, produz vínculo, gesto e confiança imediata. O dinheiro digital, ao contrário, é invisível, automatizado, mediado por sistemas. David Graeber, em  Debt: The First 5,000 Years, lembra que as trocas sempre foram também formas de reconhecimento moral, de reciprocidade e de obrigação mútua. O dinheiro físico permite ver e sentir o valor que se transfere, enquanto o dinheiro digital dissolve a materialidade da troca e, com ela, uma parte do vínculo social.

A digitalização integral dos pagamentos transfere também o poder de controle da moeda. O Estado, que sempre foi o emissor e guardião da soberania monetária, passa a dividir ou mesmo ceder esse papel para bancos digitais, empresas de tecnologia e plataformas globais. André Orléan chama esse processo de dessouverainisation monétaire, a perda da soberania monetária diante de atores privados que controlam a infraestrutura digital das transações. Quando o dinheiro deixa de ser uma criação do Estado e passa a ser administrado por sistemas corporativos, a moeda deixa de representar uma nação e passa a representar uma rede, sem rosto, sem território e sem identidade coletiva. 


A pesquisa recente do Opinion Box (2025) evidencia o alcance dessa transformação: 83% dos brasileiros afirmam usar cada vez menos dinheiro físico, e 87% utilizam o Pix como principal meio de pagamento. Esse dado não é apenas estatístico, é sociológico. Ele revela uma mudança nas formas de sociabilidade, na temporalidade da vida cotidiana e na percepção de valor. O ato de pagar, que antes implicava um gesto – abrir a carteira, escolher a nota, entregar o troco – torna-se instantâneo e silencioso. As transações se aceleram, mas também se desumanizam. As relações econômicas, antes mediadas pela presença física, tornam-se mediadas por interfaces digitais, e com isso, a própria noção de confiança desloca-se: confiamos menos nas pessoas e mais nos sistemas.

Há também riscos sociais e políticos. Uma sociedade sem dinheiro físico é uma sociedade em que toda transação é rastreável. Isso amplia o controle, mas reduz o anonimato e a autonomia. Para os milhões de brasileiros que ainda vivem à margem do sistema bancário, o dinheiro físico é não apenas um meio de pagamento, mas um meio de existência. Ele permite circular, comprar, vender e participar da vida econômica sem intermediações. Quando o dinheiro físico desaparece, parte da população desaparece com ele, expulsa para fora do sistema digital.

Do ponto de vista sociológico, a questão central é compreender como essa transformação afeta o tecido das relações sociais. O dinheiro, como observa Karl Marx em  O Capital, é uma forma de mediação social que transforma as relações humanas em relações entre coisas. Na era digital, essa mediação torna-se ainda mais opaca, pois agora as “coisas” são dados, algoritmos e fluxos invisíveis. A economia torna-se um sistema de signos autorreferenciais, em que o valor já não se ancora no trabalho, mas na informação. A moeda, que antes representava o produto da força humana, passa a representar o produto da codificação tecnológica.

Ao mesmo tempo, Maurizio Lazzarato, em O governo do homem endividado, mostra que a financeirização da vida cria sujeitos permanentemente endividados, dependentes de crédito, cartões e limites. Nessa lógica, o pagamento instantâneo e a ausência de cédulas físicas criam uma ilusão de poder de compra, mas reforçam a submissão às estruturas financeiras. A liberdade de consumir se confunde com a servidão ao crédito.

Essa revolução digital do dinheiro tem, portanto, um duplo rosto: de um lado, traz eficiência, segurança e modernidade; de outro, corrói formas tradicionais de convivência, desmaterializa a experiência social do valor e ameaça a soberania simbólica do Estado. A moeda é um dos pilares da identidade nacional porque traduz em valor comum a confiança coletiva. Quando ela se torna apenas um dado flutuante, essa confiança se desloca para fora das fronteiras, para servidores, plataformas e instituições que não respondem à lógica do interesse público.

O futuro sem dinheiro físico pode ser inevitável, mas ele não precisa ser cego. A sociologia deve olhar para esse fenômeno não como simples progresso técnico, mas como um processo de reconfiguração da vida social. Estudar o dinheiro é estudar o poder, a confiança e o modo como as pessoas se relacionam. O desafio está em garantir que a inovação digital não apague a dimensão simbólica e política da moeda. O dinheiro, afinal, sempre foi, e continuará sendo, um espelho da sociedade que o cria.

Novos surdos

A nossa sociedade corre o risco, devido aos audiovisuais, de emudecer, ou seja, de haver cada vez mais uma minoria com grande capacidade para falar e uma maioria crescente limitada a ouvir, não entendendo sequer muito bem o que escuta.

José Saramago

Gaza: o frágil fim de uma guerra que ainda não acabou

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas trouxe um alívio tático, mas não uma solução estratégica. Gaza permanece o epicentro da instabilidade regional — um espelho das contradições do sistema internacional e da fadiga moral de um mundo incapaz de sustentar a paz que proclama. A trégua interrompeu o ciclo imediato de violência, mas não alterou as causas estruturais do conflito: a ausência de confiança, a fragmentação política palestiniana e o impasse entre segurança e soberania.

A chamada “vitória diplomática” resulta, em larga medida, de uma exaustão coletiva. O prolongamento da guerra provocou desgaste interno em Israel, colapso humanitário em Gaza e crescente pressão internacional por uma pausa. A trégua mediada por Washington, Cairo, Doha e Bruxelas foi menos um avanço político do que um travão de emergência — uma suspensão do horror, não o início da paz.

Os desafios do pós-guerra são múltiplos e interdependentes: desmilitarizar o Hamas, retirar as forças israelitas, reconstruir o território e restabelecer uma autoridade política legítima. Cada um desses passos exige coordenação internacional e um compromisso sustentado — algo que, historicamente, tem faltado ao processo de paz no Médio Oriente.


A desmilitarização do Hamas é o ponto mais sensível. O grupo consolidou-se como uma entidade híbrida — simultaneamente militar, religiosa e administrativa —, preenchendo o vazio deixado por um Estado palestiniano inexistente. Um desarmamento total, sem um plano alternativo de governação e apoio social, seria politicamente inviável e socialmente arriscado. A única via possível seria um processo faseado, supervisionado por organismos internacionais, com uma forte componente de apoio humanitário e de reconstrução institucional.

A retirada das forças israelitas representa outro dilema estratégico. Israel argumenta que a permanência militar é necessária para evitar novos ataques, mas essa presença prolongada alimenta a perceção de ocupação e mina qualquer possibilidade de reconciliação. Uma retirada abrupta, por outro lado, criaria um vazio de poder que poderia precipitar o caos. O equilíbrio passa por uma saída gradual, condicionada a garantias multilaterais de segurança — um modelo que exige um bem escasso na região: confiança.

A questão da liderança em Gaza é igualmente crítica. O Hamas, enfraquecido e deslegitimado, perdeu espaço político. A Autoridade Palestiniana, dominada por Mahmoud Abbas, carece de credibilidade e de ligação real à população local. A proposta de uma administração transitória sob tutela da ONU e da Liga Árabe é vista como uma solução de curto prazo, ainda sem consenso. Sem legitimidade política, a reconstrução corre o risco de se tornar uma mera operação logística, sem impacto social duradouro.

No terreno, a devastação é quase total. A infraestrutura civil colapsou: energia, saneamento, hospitais e escolas foram destruídos. Estima-se que a recuperação ultrapasse os 50 mil milhões de dólares e demore décadas. Mas a reconstrução não será apenas um esforço de engenharia; será um teste à capacidade de ação governativa global. A transparência na gestão dos fundos e a coordenação entre doadores internacionais determinarão se Gaza se reerguerá como território viável ou permanecerá dependente da ajuda externa.

O papel dos Estados Unidos nesta nova fase é central. A postura de Donald Trump, que apoiou um acordo baseado nas resoluções da ONU e aceitou mediadores árabes, representa uma inversão tática face ao seu discurso anterior. É um gesto pragmático, talvez calculado, mas que revela o reconhecimento de que mesmo o poder unipolar necessita de alianças regionais para sustentar a estabilidade. Netanyahu, por sua vez, enfrenta um dilema interno: equilibrar as exigências da segurança com a crescente erosão do apoio popular.

Gaza é hoje mais do que uma crise humanitária — é um teste aos limites da diplomacia contemporânea. A guerra revelou a incapacidade das potências de conciliar princípios morais com interesses estratégicos e expôs a fragilidade das instituições internacionais. Mostrou também que a paz, quando reduzida a cálculo político, deixa de ser um ideal e torna-se um expediente.

O futuro do Médio Oriente dependerá menos de tratados e mais de vontade política. Nenhuma reconstrução será sustentável sem um pacto mínimo de justiça — territorial, social e histórica. O verdadeiro desafio não é militar nem financeiro, mas ético: determinar se o século XXI será capaz de produzir uma paz que não seja apenas a pausa entre duas guerras.

Gaza simboliza essa encruzilhada. A forma como o mundo responderá à sua destruição dirá mais sobre a civilização contemporânea do que sobre o próprio conflito. Porque, se voltar a cair, não tombará sozinha — arrastará consigo a ilusão de que a humanidade ainda é capaz de aprender com o sofrimento que semeia.

As coisas desimportantes

O tempo é de grandes manchetes. Uma aposta, ainda controversa, na paz do Oriente Médio. Uma guerra de tarifas entre Estados Unidos e China. A instabilidade política na Europa. Enquanto isso, bem longe das primeiras páginas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai a Roma e fala da fome no mundo. Fora de sintonia ou muito antenado?

O discurso aconteceu na cerimônia de comemoração dos 80 anos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), na capital italiana. Poucas horas antes da assinatura do acordo de cessar-fogo em Gaza, com a presença do presidente americano Donald Trump. Para onde, é claro, se dirigiram todos os holofotes.


Pode ser que acordo abra o caminho a uma paz duradoura no Oriente Médio. O retorno de reféns israelenses a Tel Aviv e a libertação de prisioneiros palestinos, recebidos com festa em Gaza, pelo menos reduziram o alto grau de tensão na região. Embora, é claro, existam pelo caminho ainda muitos pontos de interrogação.

Mais ao leste, a China informou em alto e bom som que estará pronta para reagir a uma nova rodada de elevações de tarifas por parte de Washington. Apenas outro capítulo de uma longa novela que promete fortes emoções na disputa pela hegemonia econômica do mundo.

A Europa, amedrontada, acompanha passo a passo a longeva guerra na Ucrânia. E procura no rearmamento uma resposta ao expansionismo russo.

Guerras sempre houve. Conflitos, econômicos ou militares, são o arroz de festa da História. E as rivalidades atraem mesmo atenções. Seja pela torcida por um dos lados, seja pela ameaça que essas disputas representam à estabilidade do planeta.

Mas as disputas e as guerras não são as únicas ameaças a essa estabilidade. Existem questões que não se limitam a uns contra outros, mas que afetam grandes partes da humanidade – especialmente nas áreas mais pobres do planeta.

Entre essas questões estão a crescente desigualdade global, a persistência da pobreza, a fome, a crise no meio ambiente e a mudança climática. Segundo a velha visão realista, questões sempre menores em relação às disputas pelo poder em um mundo caótico.

Assim será? Como observou Lula em Roma, usando números da própria Organização das Nações Unidas, o mundo gasta atualmente cerca de US$ 2,7 trilhões em armas. E com US$ 315 bilhões seria possível erradicar a fome no planeta. Ou 12% daquele total.

Com esses US$ 315 bilhões, prosseguiu o presidente brasileiro, seria possível garantir três refeições diárias a 673 milhões de pessoas que, segundo a FAO, experimentam a insegurança alimentar. Aproximadamente o dobro da população dos Estados Unidos. Ou quase metade da população da China.

E como conseguir esse dinheiro? Um imposto global de 2% sobre os super-ricos, nos cálculos expostos pelo presidente, seria capaz de arrecadar o montante necessário. Imposto visto por muitos economistas como inviável e ineficaz. Ou não?

“A fome é irmã da guerra, seja ela travada com armas e bombas ou com tarifas e subsídios”, disse Lula durante seu discurso em Roma. “Conflitos armados, além do sofrimento humano e da destruição da infraestrutura, desorganizam cadeias de insumos e alimentos. Barreiras e políticas protecionistas de países ricos desestruturam a produção agrícola no mundo em desenvolvimento”, completou.

Segundo a leitura do presidente brasileiro, favorável a uma reestruturação da ordem global, da “tragédia em Gaza” à paralisia da Organização Mundial do Comércio, em tempos de armas tarifárias, “a fome tornou-se sintoma do abandono das regras e instituições multilaterais”.

Instituições que estarão novamente à prova em Belém, dentro de um mês, durante a realização da COP 30, onde mais uma vez estará em debate a crise climática. Crise, é bom lembrar, que tem como principais responsáveis históricos os países mais ricos do planeta – e não aqueles que sentirão mais de perto os efeitos da mudança do clima.

Ao longo da última semana, em Brasília, no Festival Curicaca de inovação e tecnologia, promovido pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, empresários, especialistas, acadêmicos e agentes governamentais detalharam planos sobre como o Brasil pode, ao mesmo tempo, combater os desafios da pobreza e da mudança climática.

Se o evento de Roma terá sido eclipsado por outros temas, o festival tampouco recebeu muita atenção. Ali, de fato, não se esboçaram grandes soluções para o planeta. Mas se relataram pequenos passos para garantir maior dignidade às pessoas mais pobres e mais segurança ao meio ambiente, além de uma aposta na economia verde.

Pequenos exemplos como os de grupos de produtores de açaí, cupuaçu e castanha, na Amazônia, que começam a operar mini refinarias do tamanho de um contêiner capazes de processar antigos resíduos e transformá-los em combustíveis, fertilizantes ou plástico.

“O Brasil tem o potencial de ser um dos grandes líderes da agenda da economia verde no mundo”, observou, durante o evento, a economista Laura Carvalho, diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Fundação Open Society.

“Outros países estão fazendo suas políticas industriais verdes”, recordou Laura. “Se a gente não fizer o mesmo rapidamente, vai perder muitas oportunidades”.

Talvez soe demasiadamente ingênuo falar de fome, pobreza, florestas e clima quando estão sobre a mesa grandes e perigosas disputas globais, capazes de levar o planeta a um pouco mais perto do precipício.

A busca de uma solução para as guerras pode e deve, naturalmente, permanecer no centro das atenções globais, pelo seu próprio potencial de desestabilização e destruição. Mas não sozinha. Os grandes desafios sociais e ambientais precisam forjar seu caminho em direção ao topo da agenda global.

Como lembrava o poeta mato-grossense Manoel de Barros, às vezes é preciso trocar as nossas lentes, para melhor enxergar o mundo.

“Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes”, escreveu Barros. “Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis”.