quarta-feira, 20 de agosto de 2025

O covarde contra o corajoso

Isto não é guerra. Isto é genocídio. Gaza se tornou um campo de concentração, e a mensagem de Israel é clara: saia ou morra.

Eu vi isso pela primeira vez quando era menino, num pátio de escola, em 1965: o covarde que se fortaleceu em grupo e escolheu sua vítima. Sessenta anos depois, vejo o mesmo padrão — desta vez nos líderes de Israel e no presidente dos Estados Unidos.

Esta noite estou cansado. Como sempre, termino o dia lendo as notícias: Haaretz, DN, Expressen, Dagens, etc. As histórias são as mesmas — genocídio em Gaza, imagens de sofrimento e morte. Sinto desespero, sinto desesperança. Mas esta noite, também sinto raiva.

Quando fecho o computador, uma velha lembrança me vem à mente. Tenho doze anos e estou no pátio da escola. Um garoto mais velho que eu — tímido quando sozinho, mas encorajado por outros quatro — escolhe seu alvo. A surra só para quando um professor intervém. Sua força não vinha da coragem, mas do medo, e do prazer de ver sua vítima desabar.


Essa mesma dinâmica se repete agora. Netanyahu não é um líder forte. Ele é inseguro, ávido por controle, carente de empatia e dependente de outros para se manterem firmes. Um covarde com poder demais. E, como o menino no pátio da minha escola, ele se cerca de outros iguais a ele — homens dispostos a apoiar a limpeza étnica e o genocídio.

O covarde teme a verdade. É por isso que jornalistas internacionais são impedidos de entrar em Gaza, repórteres locais são silenciados e até mesmo alvejados. Recentemente, o exército israelense bombardeou uma tenda de imprensa. Não foi um erro. A ordem veio de cima. Seis jornalistas foram mortos naquele dia, seis que deram suas vidas para que pudéssemos saber o que está acontecendo. Eles se juntam aos mais de 200 jornalistas já assassinados.

O retorno de Trump só tornou Netanyahu mais ousado. Com ele vieram armas, cobertura política e um parceiro que o espelha: a mesma falta de empatia, a mesma covardia disfarçada de força. Juntos, eles lançaram um dos exércitos mais avançados do mundo contra um povo que não tem nada com que se defender.

E, no entanto, Gaza não se rende. Dois milhões de pessoas, presas atrás de muros e cercas, recusam-se a desaparecer. Perderam casas, água, escolas e hospitais. Mas se apegam a algo que falta aos seus opressores: dignidade.

É tentador chamar isso de guerra. A linguagem de soldados e armas, baixas e ruínas, sugere guerra. Mas isso não é guerra. Isso é genocídio. Gaza se tornou um campo de concentração, e a mensagem de Israel é clara: saia ou morra.

É sempre o covarde contra o corajoso. E sabemos quem são os covardes.

Soberania financeira do Brasil diante de um império caduco

Nas últimas semanas, medidas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos contra o Brasil trouxeram à tona um episódio até então inédito: os serviços de pagamentos, do qual o PIX é parte importante, foram colocados no centro de uma investigação por supostas (e infundadas) práticas desleais contra empresas norte-americanas. A ofensiva ganhou contornos mais graves quando, em um desdobramento político, o ministro Alexandre de Moraes foi enquadrado na chamada Lei Magnitsky, bloqueando operações financeiras em dólar e atingindo suas transações em redes de pagamentos internacionais através da Visa, Mastercard, Google Pay e Apple Pay. Desta maneira, as ações chegaram concretamente ao sistema financeiro brasileiro, acendendo alertas sobre possíveis consequências – como restrições a transações internacionais, sanções a bancos brasileiros com operações nos Estados Unidos, entre outras.

É preciso lembrar que esse embate não acontece no vácuo e, muito menos, de maneira isolada. Insere-se, em um contexto de disputa pela liderança global, com a ascensão da China, a reorganização de países do Sul Global e pelo desenvolvimento de inciativas autônomas desses últimos na área financeira que têm escapado ao controle de grandes empresas estadunidenses. E, diante de uma ameaça à hegemonia de seu país, o governo Trump vem recorrendo a ações autoritárias, como sanções e taxas, mascarados de defesa de interesses empresariais. O mundo está se movendo em um momento de “lusco-fusco”, como formulado por Gramsci, com o ocaso da velha ordem já podendo ser vista no horizonte e o novo lutando para nascer. Neste contexto, busca-se, a todo custo, manter as finanças e as plataformas digitais (as chamadas “big techs”), elementos centrais do capitalismo contemporâneo, sob o controle de um império caduco.


Assim, um dos alvos dessa ofensiva tornou-se o sistema digital de pagamentos regulado pelo Estado brasileiro, que desde 2020, com criação do PIX, tem alterado a dinâmica do mercado no país, chegando a impactar (em certa medida, como será visto) grandes empresas estadunidenses de cartões (caso da Visa e Mastercard) e o avanço das plataformas digitais no ramo de pagamentos. Além disso, o presente ataque também possui motivações políticas em um momento interno delicado, com a possível condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, que pode ser, inclusive, um exemplo para outros países.

Mas as questões ligadas ao PIX não se restringem ao Brasil. Elas repercutem, inclusive, por conta de um movimento mais amplo no Sul Global. Em países da América Latina, como o México, Argentina, Peru e Bolívia, os bancos centrais vêm reestruturando há mais de duas décadas os seus respectivos sistemas de pagamentos, oferecendo condições para digitalização do dinheiro e fortalecendo transações em suas respectivas moedas nacionais – a Bolívia chegou a impor limites ao uso do dólar em determinados pagamentos. A Índia, com o UPI, também ofereceu condições para uma adesão massiva da população ao mercado de pagamentos. O Quênia, por sua vez, no leste africano, lançou o M-Pesa em 2007, transformando transações financeiras cotidianas por meio da telefonia móvel e antecipando soluções ligadas aos pagamentos instantâneos em diversos países (como a criação em 2013 de um número de identificação para pagamentos semelhante ao que hoje é a “chave PIX”). A expansão do M-Pesa foi avassaladora desde então, fomentando o processo de digitalização e de expansão das plataformas no território queniano e, inclusive, para outros países africanos. Estas iniciativas evidenciam, portanto, uma relativa soberania financeira nos países do Sul – e que não foi dada, simplesmente, de antemão, mas construída ao longo do tempo.

E, assim, inevitavelmente, podemos questionar: o ataque ao PIX seria um recado a outros países do Sul que estabeleceram iniciativas autônomas em seus sistemas financeiros? Caso este ataque prospere, quantas nações, com menos poder de defesa política e econômica que o Brasil, conseguiriam resistir às pressões para conceder vantagens às empresas norte-americanas?

No caso brasileiro, a disputa precisa ser lida, ainda, dentro de uma longa trajetória de inovação tecnológica e de construção do sistema de pagamentos. Desde os anos 1960, o Banco Central e grandes bancos nacionais atuaram para a automação das transações no território nacional. A reorganização do sistema de pagamentos brasileiro em 2001 contribuiu para a formação de uma infraestrutura e de uma regulação públicas eficientes, capazes de suportar o aumento das transações digitais com a popularização dos cartões de débito e crédito, das plataformas digitais, do comércio eletrônico e dos novos serviços de pagamento instantâneos.

Apenas para se ter uma dimensão desse universo de transações, segundo os dados mais recentes do Banco Central sobre o mercado de cartões, o Brasil alcançou em 2024, o total de 235 milhões de cartões de crédito ativos (superando a sua população total após um crescimento de 14% em relação a 2023) e de 74 milhões de cartões pré-pagos ativos (aumento anual de 9%), embora tenha havido uma queda de 5% no número de cartões de débito ativos (de 162 milhões em 2023 para 154 milhões em 2024). Ainda assim, em 2024 houve avanço no número de transações em todos estes instrumentos em relação ao ano anterior, de 11% para os cartões de crédito, 19% para os pré-pagos e de 2,5% de débito. Houve igualmente aumento nas transações online de 27% e de 4%, respectivamente, com cartões de crédito e débito e, também, naquelas por aproximação para ambas as modalidades, respondendo a 35% do total transacionado para os cartões de crédito e de 44% para os de débito. No total, as transações apenas com cartões de crédito movimentaram mais de R$ 4 trilhões apenas em 2024, com 45% do consumo das famílias sendo feito através deste instrumento. Não é preciso ser um grande matemático para observar a importância e a expansão desse mercado no país, já que as empresas atuantes cobram taxas por cada transação. Entretanto, é necessário lembrar que o incentivo ao consumo, as taxas de juros cobradas e o uso desenfreado de cartões de crédito são também responsáveis pelo endividamento da maior parte das famílias brasileiras.

E, nesse processo, a Visa e a Mastercard (empresas estadunidenses) tiveram até 2013 um duopólio concedido pelo Estado brasileiro sem qualquer abertura para concorrência externa, controlando e definindo as taxas cobradas pelas transações feitas nas maquininhas no território brasileiro. Mas, desde então, o Banco Central abriu este mercado para a competição – sem atuar para diminuir a dominância prévia de ambas as corporações. Tratou-se de fazer uma abertura com muitas barreiras para quem quisesse entrar e competir. O resultado foi uma desconcentração tímida e com a proeminência ainda hoje da Mastercard (dominando mais de 50% do volume transacionado com cartões no país) e da Visa. Em outras palavras, essas corporações ainda faturam e muito. Nesse contexto, algumas empresas nacionais foram criadas, como foi o caso da Elo, formada pelo consórcio entre bancos brasileiros, e que concorre com as gigantes dos Estados Unidos em uma posição muito inferior nesse mercado. O PIX é simplesmente parte deste conjunto de ações que afetou o crescimento e a dinâmica desse mercado. Essa abertura para a concorrência é, assim, um dado fundamental que confere e dá concretude a ações soberanas do Brasil na conjuntura atual.

Trata-se, em suma, de uma situação complexa, sendo importante aproveitar o debate público atual para compreendê-la. O que está em jogo não é a possibilidade de empresas competirem e oferecerem seus serviços de pagamentos em igualdades de condições, mas, a bem da verdade, da capacidade de um país do Sul Global regular seu próprio dinheiro digital e disputar um mercado estratégico, que foi, até pouco, monopolizado por corporações norte-americanas. A tentativa de deslegitimar e de colocar o PIX sob este fogo cruzado é, portanto, um movimento para tentar retomar privilégios e a dominância deste mercado.

A resposta brasileira, corretamente, está voltada para a defesa da sua soberania. Quando o seu sistema de pagamentos se torna alvo de disputas internacionais, o que está em questão é poder, soberania e a tentativa de um império caduco para manter o mundo sob seu domínio. Essa disputa, assim, é mais ampla e desvela uma nova reconfiguração da ordem global, com todas as contradições envolvidas, diante de uma maior autonomia relativa de países do Sul para formular estratégias, desenvolvendo soluções e serviços sofisticados, incluindo em áreas que até pouco não dominavam – como é o caso do dinheiro e das finanças.

Guerra cultural da direita chega à Alemanha

Alguma coisa acabou de acontecer na Alemanha. Uma jurista altamente respeitada, indicada pelo Partido Social Democrata (SPD, na sigla em inglês) para integrar a Corte Constitucional do país, saiu da disputa após uma campanha implacável de difamação por parte de jornalistas e políticos de direita. Pior ainda, foi o próprio parceiro de coalizão do SPD, a União Democrata Cristã (CDU, na sigla em inglês), de centro-direita, que subitamente deixou de apoiar a candidatura de Frauke Brosius-Gersdorf e passou a considerá-la inaceitável.

Essa sabotagem de um procedimento até então consensual é um teste para trazer a política de guerra cultural à moda americana para a Alemanha. O objetivo é afastar cada vez mais membros da centro-direita que a ex-chanceler Angela Merkel liderou no passado e avançar em direção ao arranjo já implementado em algumas outras democracias europeias: uma aliança entre a centro-direita e a extrema direita populista.

É verdade que o Tribunal Constitucional da Alemanha, embora seja um dos mais respeitados e influentes do mundo, nem sempre esteve acima de controvérsias. Em meados da década de 1990, atraiu a ira dos conservadores quando determinou que as escolas não-confessionais da Baviera não poderiam exibir crucifixos em suas paredes. Mas o processo de nomeação de juízes sempre foi poupado do espetáculo que é muito familiar nos Estados Unidos. Em vez de realizar audiências altamente divulgadas, televisionadas e que polarizam de forma confiável, os partidos se reúnem a portas fechadas para propor uma lista equilibrada de indicados, cada um dos quais precisa obter o apoio da supermaioria na Câmara Baixa.

Como em muitas outras coisas na política europeia, esse processo foi complicado pelo sucesso dos populistas de extrema direita. A Alternativa para a Alemanha (AfD, no original em alemão), agora o segundo maior grupo no parlamento, tem exigido seu “juiz próprio”, opondo-se ao fato de que os partidos alemães menores - os Democratas Livres e os Verdes, pró-mercado - têm o direito de nomear membros do tribunal. Num Estado federal, a Turíngia, onde o AfD venceu as últimas eleições, o partido na prática bloqueou a nomeação de novos juízes como protesto contra o que considera sua exclusão injustificada.

Mas não foi principalmente a extrema direita que derrubou Brosius-Gersdorf. Em vez disso, ela enfrentou uma campanha mais ampla de críticas que procurou pintá-la como uma radical de esquerda que supostamente quer liberalizar completamente o aborto e introduzir vacinas obrigatórias contra a covid-19. Não apenas um colega professor de direito alterou o verbete sobre ela na Wikipédia para fazê-la parecer uma “ativista”, mas o arcebispo de Bamberg a atacou em um sermão - apenas para admitir, após uma conversa pessoal com a candidata, que havia sido “mal informado”.

A Alemanha nunca teve o equivalente à Fox News (enquanto a França agora tem a CNews, e um de seus principais jornalistas chegou a se candidatar à presidência da França em 2022). No entanto, startups de extrema direita relativamente pequenas - que afirmam ser “a voz da maioria” - têm ganhado cada vez mais influência dentro da CDU. Recentemente, um membro do partido declarou, de fato, que qualquer pessoa que não adira às doutrinas do direito natural não pode atuar como juiz. De repente, a suposta corrente dominante do partido está ecoando o discurso populista de que os tribunais devem principalmente “representar o povo” (em vez de defender a Constituição).

Os guerreiros da cultura de direita de hoje são empreendedores da polarização. Buscam dividir o eleitorado em amigos e inimigos, e atacaram o ponto fraco da centro-direita. Sob pressão, a CDU achou que precisa provar a seus eleitores que são de fato conservadores

A CDU está em crise intelectual há algum tempo. Hoje, quase ninguém consegue articular os princípios fundamentais do partido. É verdade que, assim como os conservadores no Reino Unido, os democratas-cristãos alemães há muito tempo se orgulham de seu pragmatismo, cultivando uma imagem de partido governamental competente e padrão. Além disso, o pensamento do direito natural era de fato proeminente entre os democratas-cristãos no período pós-guerra. Mas, justamente por estarem interessados no poder, os democratas-cristãos - assim como os conservadores britânicos - se adaptaram de modo cuidadoso a uma sociedade em transformação. O resultado irônico é que agora eles estão difamando como “radical” uma jurista que, na verdade, parece representar “o povo” - na medida em que ela costuma defender pontos de vista que contam com o apoio da maioria.

Tradicionalmente, os democratas-cristãos adotaram uma estratégia política de buscar a mediação entre grupos e interesses diferentes, buscando o que a doutrina social católica há muito tempo apresentava como visão de harmonia social. Nesse sentido, Merkel - sempre ansiosa para equilibrar e fazer concessões - ainda estava praticando o modelo tradicional.

Porém, os guerreiros da cultura de direita de hoje são empreendedores da polarização. Muitas vezes armados com desinformação, eles buscam acirrar os conflitos e dividir o eleitorado em amigos e inimigos, e isso os levou a atacar o ponto fraco da centro-direita. Sentindo a pressão da extrema direita, os democratas-cristãos acham que precisam provar a seus eleitores que ainda são de fato conservadores - ao contrário da supostamente über-liberal Merkel, que acabou concordando com reformas como o casamento de pessoas do mesmo sexo.

Embora o arcebispo de Bamberg tenha se disposto a falar diretamente com a candidata, os membros do parlamento da CDU aparentemente se recusaram a fazê-lo. Esse comportamento representa um desvio gritante da posição da CDU, da cultura de compromisso e moderação que impediu a politização da mais alta corte da Alemanha no estilo norte-americano. A quebra de normas da CDU é análoga à recusa dos republicanos americanos em considerar o indicado de Barack Obama para a Suprema Corte em 2016.

Apesar das alegações dos líderes da CDU, de que são a última defesa da democracia contra a extrema direita em ascensão, o partido está caindo nas armadilhas da guerra cultural que a extrema direita preparou para eles. Não é inevitável que o último grande país com uma muralha para conter a extrema direita siga o rumo que tantas outras democracias europeias já seguiram. Mas esse cenário está se tornando mais realista. (Tradução de Fabrício Calado Moreira)

Jan-Werner Mueller, professor de política na Universidade de Princeton, autor de “Democracy Rules”(O jogo democrático)

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Os Estados Unidos que conhecemos estão sumindo diante de nossos olhos

De todas as coisas terríveis que Donald Trump disse e fez como presidente, a mais perigosa aconteceu no início deste mês. Trump, na prática, ordenou que nosso confiável e independente escritório governamental de estatísticas econômicas se tornasse tão mentiroso quanto ele.

Ele demitiu Erika McEntarfer, chefe da secretaria de Estatísticas Trabalhistas (BLS, na sigla em inglês), confirmada pelo Senado, por trazer-lhe notícias econômicas que não lhe agradaram. E, nas horas imediatamente seguintes, ocorreu a segunda coisa mais perigosa: os principais responsáveis do governo Trump pela condução da economia —pessoas que, em seus negócios privados, jamais cogitariam demitir um subordinado por apresentar dados financeiros desfavoráveis— simplesmente aceitaram a decisão.

O que eles deveriam ter dito a Trump era o seguinte: "Senhor presidente, se não reconsiderar esta decisão —se demitir a principal estatística do BLS por trazer más notícias econômicas— como alguém, no futuro, poderá confiar nesse escritório quando ele divulgar boas notícias?" Em vez disso, acobertaram o ato imediatamente.

Como destacou o Wall Street Journal, a secretária do Trabalho, Lori Chavez-DeRemer, havia declarado na Bloomberg TV, ainda na manhã daquele dia, sexta-feira, 1º de agosto, que apesar da revisão para baixo dos números de emprego em maio e junho, "temos visto crescimento positivo do emprego". Mas, poucas horas depois, ao saber da demissão da diretora do BLS, que se reportava diretamente a ela, escreveu no X: "Concordo plenamente com @POTUS [o perfil do presidente americano no X] que nossos números de emprego devem ser justos, precisos e nunca manipulados para fins políticos."


O jornal perguntou: "Então os dados de emprego que eram ‘positivos’ de manhã foram fraudados à tarde?" Claro que não. Mas daqui em diante, quantos funcionários públicos terão coragem de transmitir más notícias sabendo que seus superiores —como o secretário do Tesouro, Scott Bessent, o diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett, a secretária do Trabalho Chavez-DeRemer e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer— não apenas deixarão de defendê-los, como também os oferecerão como sacrifício a Trump para manterem seus cargos?

Vergonha para cada um deles —especialmente para Bessent, ex-gestor de fundos de hedge, que tinha conhecimento e não interveio. Que covarde. Como disse sua antecessora, Janet Yellen —ex-secretária do Tesouro e também ex-presidente do Fed, o banco central americano, alguém com verdadeira integridade— a meu colega Ben Casselman sobre a demissão no BLS: "Esse é o tipo de coisa que só se esperaria ver em uma república de bananas."

É importante notar como o exterior enxerga essa situação. Bill Blain, operador de títulos em Londres que publica um popular boletim entre especialistas do mercado chamado Blain’s Morning Porridge, escreveu na segunda-feira seguinte: "A sexta-feira, 1º de agosto, pode entrar para a história como o dia em que o mercado de títulos do Tesouro dos EUA morreu. Havia uma arte em interpretar os dados americanos. Ela se baseava na confiança. Agora, isso se quebrou —se não se pode confiar nos dados, no que se pode confiar?"

Em maio, a diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, demitiu dois altos funcionários de Inteligência que supervisionaram uma avaliação contradizendo as afirmações de Trump de que a gangue Tren de Aragua operava sob direção do regime venezuelano. Essa avaliação enfraqueceu a frágil justificativa legal invocada por Trump —a raramente usada Lei dos Inimigos Estrangeiros de 1798— para permitir a expulsão de supostos membros da gangue sem devido processo legal.

E agora essa tendência de autocegueira se espalha para outros setores do governo.

Uma das principais especialistas em guerra cibernética dos EUA, Jen Easterly, que foi diretora da Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura durante o governo de Joe Biden, teve sua nomeação para um cargo de docência na Academia Militar de West Point revogada no fim de julho pelo secretário do Exército, Daniel Driscoll, depois que Laura Loomer, uma conspiracionista de extrema direita, conhecida por comentários racistas e homofóbicos, publicou que Easterly seria uma "agente" da era Biden.

Leia essa frase novamente, devagar. O secretário do Exército, agindo sob a orientação de uma seguidora delirante de Trump, revogou a nomeação de ensino de —qualquer um confirmaria— uma das mais qualificadas especialistas apartidárias em cibersegurança dos EUA, ela mesma formada em West Point.

Eis a resposta de Easterly no LinkedIn: "Como independente ao longo da vida, servi nossa nação em tempos de paz e em combate sob administrações republicanas e democratas. Liderei missões no país e no exterior para proteger todos os americanos contra terroristas brutais. Trabalhei minha carreira inteira não como partidária, mas como patriota —não em busca de poder, mas a serviço do país que amo e em lealdade à Constituição que jurei proteger e defender contra todos os inimigos."

E ela acrescentou um conselho aos jovens cadetes de West Point que não terá a honra de ensinar: "Todo membro da Longa Linha Cinzenta [referência a West Point] conhece a Oração do Cadete. Ela pede que escolhamos ‘o caminho mais difícil, mas correto, em vez do caminho mais fácil, mas errado’. Essa linha —tão simples, mas tão poderosa— tem sido minha estrela-guia por mais de três décadas. Em salas de reunião e em salas de guerra. Em momentos silenciosos de dúvida e em atos públicos de liderança. O caminho mais difícil e correto nunca é fácil. Esse é justamente o ponto."

Essa é a mulher que Trump não quis que ensinasse a próxima geração de combatentes.

E essa ética —sempre escolher o caminho mais difícil, porém correto, em vez do mais fácil e errado— é uma ética que Bessent, Hassett, Chavez-DeRemer e Greer desconhecem —sem falar do próprio Trump.

Por isso, caro leitor, embora eu seja um otimista nato, pela primeira vez acredito que, se o comportamento que esta administração exibiu em apenas seus primeiros seis meses continuar e for ampliado ao longo de quatro anos, a América que você conhece terá desaparecido. E não sei como a recuperaremos.

O aleitamento do caos

Da triste arruaça no Congresso, permanece nas retinas a imagem de uma deputada tumultuária com um bebê de quatro meses no colo, sequestrando a cadeira do presidente da Câmara. Essa persistência ótica é o que Roland Barthes, a propósito da fotografia, chama de "punctum", um ponto de convergência do olhar que centraliza o sentido da imagem (em "Câmara Clara"). A parlamentar admitiu, depois, que pretendia usar a criança como escudo durante a balbúrdia.

Não mais funcionam adjetivos como "chocante" para o grotesco do extremismo político nacional. Da baderna na Câmara, poderia ficar como ponto de mirada o esparadrapo na boca dos desordeiros. Seria, porém, mero clichê diante do risco assumido pela parlamentar na mesa diretora. Por maior cuidado que se possa dispensar a um recém-nascido, numa tropelia física, é alta a probabilidade de um impacto aleatório em ossos (a moleira, a sutura) fragilíssimos. Em princípio, mãe nenhuma aceitaria o risco.

A deputada aceitou. Não era caso de aleitar filho no trabalho, o Congresso estava em recesso. Queria usá-lo como escudo, ela própria afirmou, o que suscita interrogações sobre esse comportamento puerperal em grau de anomalia coextensiva a uma turba violenta. A motivação é complexa: ponto cego numa explicação sócio-histórica para esse tipo de bizarrice, segundo a qual não se trataria de déficit moral ou cognitivo dos agentes, mas da precária interlocução política no espaço público. É uma hipótese que aposta no poder agregativo da ideologia.

A lógica do diálogo público não dá conta, entretanto, da anômala surdez seletiva no predomínio mental da informação sobre a experiência prática. Confinados a suas golpistas bolhas informativas, os deputados amotinados eram surdos à liturgia parlamentar e à percepção de que perpetravam o que não se pode em uma República: a desmoralização do Congresso.

A realidade paralela nas redes bolsonaristas equivale à desintegração socioemocional nos agentes do caos. Uma infantilização adulta que faz lembrar a revolta sem causa da adolescência. Em vez de consciência de si, delírio performativo, com um fio condutor: o golpismo que, sem ousar dizer o seu nome, dá lugar de fala à doença. Mas não se trata de doença mental entendida em termos individuais como delírio e sofrimento passíveis de uma remissão psiquiátrica. Não há cura possível para uma afecção de natureza grupal alimentada por ódio e mentira. O único caminho para uma resposta cívica é a imprescindível punição institucional.

Em modo permanente, esse ativismo delirante suprime sentimentos. "Ghosting" é designação corrente, não apenas na internet, para o brusco desaparecimento de um contato. Mas, a fragmentação afetiva, provocada pelas redes e pelo socionarcisismo emergente, é simultânea ao ghosting do sentimento de nação, da convivência democrática e, pelo visto, da maternagem. Um ponto crítico de mirada para o aleitamento do caos.

A crise no Congresso Nacional é também estética

Na semana passada, quando vi um vídeo que mostrava um deputado sentado como se fosse uma múmia, com os olhos, o ouvido e a boca tapados com fita adesiva em pleno Congresso Nacional, tive um ataque de riso que demorou a passar.

Como podem os deputados, que são autoridades eleitas pelo povo, agirem desse jeito? A cena seria engraçada mesmo se o indivíduo em questão fosse um "garoto birrento” do jardim de infância brincando de múmia. Como se diz por aí, a crise também é estética.

Eu ri, mas talvez tenha sido de nervoso. Afinal, o "motim", quando parlamentares aliados ao presidente Jair Bolsonaro ocuparam as Mesas Diretoras da Câmara e do Senado foi, acima de tudo, revoltante e deprimente.

Os congressistas em questão protestavam contra a prisão domiciliar de Bolsonaro. Na prática, fizeram uma "chantagem", uma forma de "política" em "moda" esses dias por parte da extrema direita. É também o caso do (ainda) deputado Eduardo Bolsonaro que, morando nos Estados Unidos, vive ameaçando o Estado brasileiro.

No caso dos parlamentares, eles impediram o trabalho legislativos para promover uma lista de pedidos, incluindo uma "anistia”.

Durante as 30 horas do motim e ocupação das mesas, muita coisa ridícula aconteceu. Um grupo de parlamentares tapou a boca com adesivos e se acorrentou. O deputado Paulo Bilynskyj (PL) agrediu o jornalista Guga Noblat, do ICL Notícias. Houve xingamentos ao microfone, empurra-empurra, muitas selfies, gritos que mais pareciam de torcidas de futebol, orações e por aí vai. Uma vergonha. Uma cena perfeita do "sanatório geral”, como Chico Buarque definiu o Brasil na música Vai Passar, dos anos 80.

Olhando o Congresso Nacional, é difícil não sentir vergonha (alheia? do país? da gente mesmo?).



Existem deputados e deputadas sérias lá, não tenho dúvidas. Mas o comportamento desse grande grupo sem decoro e elegância faz o Brasil cair de novo no clichê de que "esse não é um país sério", mas sim uma "república das bananas" (por mais que esse termo seja problemático e preconceituoso).

É chato, mas esse vexame (mais um!) acontece em um momento em que muitos (e me incluo) sentem orgulho do país ao ver, por exemplo, o trabalho do Supremo, que vem investigando, punindo e julgando os responsáveis pelos atentados à democracia que culminaram no 8 de janeiro de 2023, quando uma horda de fanáticos invadiu os prédios da Esplanada em Brasília.

Por anos, ouvimos a frase "no Brasil tudo acaba em pizza", que se refere à impunidade, principalmente de ricos e poderosos. Agora, quando sentimos esperança de que as coisas podem não ser sempre assim, os parlamentares aprontam essa e jogam nosso orgulho no lixo.

Essa não é a primeira vez que o Congresso mostra que é uma arena que concentra boa parte do que há de pior no Brasil. Não há decoro, bom senso, nada. Há anos vemos gritaria e brigas físicas, comportamentos que seriam inaceitáveis em qualquer ambiente de trabalho.

Em abril, por exemplo, uma discussão entre os deputados Paulo Bilynskyj e Lindbergh Farias (PT) quase virou uma briga física. Outros deputados se envolveram, chegou a turma do "deixa disso" e até a Polícia Legislativa foi chamada. Imagina se você briga com um colega, todo mundo do escritório se mete, e vocês só param quando a polícia chega? Vocês seriam demitidos, certo? Nem é possível imaginar isso em um ambiente de trabalho normal.
A noite do impeachment

Um momento marcante, no qual o "horror" do Plenário da Câmara se revelou para muitos de nós, foi a votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Naquela noite de 2016, vimos deputados fantasiados, muitos dedicando votos a netos e netas, a torturadores (o então deputado Jair Bolsonaro dedicou seu voto ao coronel Brilhante Ustra e levou uma cusparada de Jean Wyllys) e por aí vai.

Assistir àquilo foi como ver um filme de terror. O "motim” mostra que esse horror continua e só piorou com a ascensão da extrema direita no Brasil.

E pensar que, quando eu era adolescente, assisti empolgada à abertura da Constituinte (que aconteceu em 1988), comandada por Ulysses Guimarães, e acreditei que aquele, no futuro, seria um ambiente sério... Quanta ingenuidade.

Fome: um crime de guerra não processado internacionalmente

Os apelos para processar o crime de guerra da fome estão se tornando mais intensos e frequentes.

"[A fome] é uma arma de guerra que está sendo usada em todo o mundo neste momento. Mas isso tem que acabar; é contra o direito internacional humanitário", disse recentemente Shayna Lewis, consultora sênior para o Sudão do grupo americano PAEMA (Prevenção e Fim das Atrocidades em Massa). Ela se referia à cidade sudanesa de El Fasher, sitiada há um ano e onde os suprimentos de comida para cerca de 30 mil pessoas presas ali estão se esgotando. "É um crime internacional e deve ser processado como tal", argumentou Lewis.

Organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch , fizeram alegações semelhantes sobre o bloqueio israelense de ajuda e fornecimento de alimentos à Faixa de Gaza .

"Israel está matando Gaza de fome. É genocídio. É um crime contra a humanidade. É um crime de guerra", disse Michael Fakhri, relator especial da ONU sobre o direito à alimentação, ao jornal britânico The Guardian na semana passada.

Especialistas apontam que um dos motivos pelos quais há mais pedidos hoje para processar a fome civil como um crime de guerra é que há mais fome causada por conflitos.

Durante a primeira década deste século, houve muito pouca fome, escreveram pesquisadores da World Peace Foundation (WPF) em uma coletânea de ensaios de 2022 intitulada " Responsabilização pela Fome ". Mas, nos últimos tempos, isso mudou.

"Este é um fenômeno antigo; as partes em conflito o utilizam há séculos", disse  Rebecca Bakos Blumenthal, consultora jurídica do projeto Starvation Accountability, da fundação jurídica holandesa Global Rights Compliance (GRC). Ela acrescentou que a tática ressurgiu desde 2015.

Na última década, fomes relacionadas a conflitos ocorreram na Nigéria , Somália , Sudão do Sul, Sudão, Síria e Iêmen. Especialistas em segurança alimentar sugerem que os ataques russos ao setor agrícola da Ucrânia também podem ser considerados tentativas criminosas de usar alimentos como arma.

Em essência, eles argumentam que esse crime de guerra está acontecendo novamente com maior frequência.

"Mesmo com a melhora da segurança alimentar global, a incidência da fome está aumentando", escreveu Alex de Waal, professor da Universidade Tufts (EUA) e chefe da pesquisa do WPF sobre fome em massa, na semana passada. "Isso nos diz que a segurança alimentar global é mais volátil e desigual. E isso é consistente com o uso da fome como arma."

A privação deliberada de alimentos ou outros itens essenciais para a sobrevivência de civis é classificada como crime de guerra por muitos países, bem como em várias formas de direito internacional, incluindo as Convenções de Genebra e o Estatuto de Roma (aplicado pelo Tribunal Penal Internacional).

Mas até agora, aqueles que usaram essa "arma" nunca foram levados a julgamento: o crime de guerra de fome nunca foi processado em um tribunal internacional como um crime independente, apenas como parte de cerca de 20 outros casos de crimes de guerra.

E o fato de civis estarem morrendo de fome em um conflito não significa automaticamente que um crime foi cometido. "Uma das questões legais é a questão da intenção", disse De Waal. "O crime de guerra de fome exige que o perpetrador aja com intenção."

A fome ocorre a longo prazo, ressalta De Waal, e alguns estudiosos do direito argumentam que deve ser provado que o perpetrador teve a intenção de matar de fome desde o início, por exemplo, em um cerco ou bloqueio.

Mas a maioria dos especialistas jurídicos acredita que também pode haver "intenção indireta", explica De Waal. Ou seja, deve ser evidente que a fome ocorrerá "no curso normal dos eventos" e que o perpetrador sabia disso, teve oportunidades de evitá-la e não o fez. Outro obstáculo legal relacionado à fome é a falta de precedentes e a questão de quais tribunais internacionais ou nacionais têm jurisdição sobre supostos criminosos de guerra.

Até alguns anos, a fome era frequentemente vista como uma questão de desenvolvimento ou humanitária, explica Blumenthal, do GRC. Mas agora mais atenção está sendo dada aos seus aspectos criminais.

"Tenho trabalhado nessa questão há alguns anos, e as coisas estão caminhando lentamente", admite Blumenthal, que estuda o assunto desde 2020. "Mas acho que a situação está mudando, e passos importantes foram dados nos últimos 10 anos."

Em 2018, o Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade a Resolução 2417, "condenando o uso da fome contra civis como método de guerra". Em 2019, o Estatuto de Roma foi alterado, classificando a fome como crime de guerra em conflitos armados não internacionais, não apenas internacionais. Também houve comissões de inquérito da ONU sobre os conflitos no Sudão do Sul e na Etiópia-Tigre, com foco específico na fome como crime de guerra, observa Blumenthal.

"Estamos vendo muito mais organizações internacionais e locais, juntamente com mecanismos de responsabilização, denunciando isso. E exemplos chocantes, como o caso em Gaza hoje, ampliaram muito a conscientização sobre esse crime", observa ele.

De fato, os mandados de prisão emitidos pelo TPI em novembro de 2024 contra o presidente israelense Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant, que mencionam especificamente o crime de guerra de fome, são um "marco histórico", enfatiza Blumenthal. É a primeira vez que mandados internacionais são emitidos para a fome como um crime independente. O TPI também mantém uma investigação aberta sobre o Sudão, acrescenta.

"A questão certamente recebeu mais atenção nos últimos 10 anos", confirma De Waal. "Os marcos legais já estão em vigor. O que falta é vontade política para agir."

Ainda há desafios jurisdicionais, disse De Waal. "Mas estou confiante de que há muitos casos em que as condenações são possíveis. Tudo o que é necessário é levar os réus ao tribunal."

Blumenthal concorda. "Existem ideias equivocadas sobre isso, e muitas pessoas acreditam que [a fome] é uma parte inevitável da guerra", comenta. "Mas, em nossas investigações aprofundadas, é surpreendente a rapidez com que fica claro que, em muitas situações, uma estratégia deliberada pode ser identificada." Blumenthal está cautelosamente otimista de que aqueles que deliberadamente matam civis de fome em breve enfrentarão a justiça. "Essa é certamente a esperança", conclui. "É para isso que todos estamos trabalhando."
Cathrin Schaer

A infância roubada

No Brasil, a infância tem sido abreviada por duas forças opostas, mas complementares: a pobreza estrutural e a cultura do consumo midiático. De um lado, milhões de crianças são obrigadas a assumir responsabilidades adultas cedo demais, cuidando de irmãos, ajudando no sustento da casa ou, simplesmente, sendo empurradas para o trabalho infantil. De outro, crianças das classes médias e altas são induzidas a vestir-se, comportar-se e consumir como se fossem adultas em miniatura, pressionadas por agendas lotadas, padrões de beleza e a lógica da performance.

Nos últimos dias, o tema da adultização infantil, termo utilizado para se referir a crianças expostas a comportamentos, linguagens e contextos não correspondentes à idade, ganhou grande repercussão, depois que o youtuber e humorista Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, lançou um vídeo sobre o assunto na internet. A peça também denuncia possíveis casos de pedofilia nas redes sociais. Mostra perfis que usam crianças e adolescentes com pouca roupa, dançando músicas sensuais ou falando de sexo em programas divulgados nas plataformas digitais com objetivo de monetizar esse conteúdo, gerando dinheiro para os donos dos canais.


As instituições políticas (Senado, Câmara Federal, Assembleias Legislativas e Câmara Municipais) e entidades da sociedade civil abriram espaço para o debate. O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta, prometeu de dar prioridade à votação de projeto de lei regulamentando a matéria. Uma comissão geral, liderada por Hugo, contando com a participação de especialistas e de organizações da sociedade civil, deu início ao debate.

A sociedade, por meio de suas entidades representativas, entra no foro de debates. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) solicitou à Câmara dos Deputados, urgência na aprovação do Projeto de Lei (PL) nº 2.628/2022, que estabelece regras e mecanismos para prevenir, identificar e coibir o abuso e a exploração sexual infanto-juvenil em plataformas digitais. O texto já passou pelo Senado.

O fato é que a adultização infantil não é uma abstração. Segundo o IBGE, mais de 1 milhão de meninos e meninas ainda trabalham no país, apesar de a prática ser proibida por lei. Quem anda pelas ruas das capitais ou pelas feiras do interior não precisa de estatísticas para constatar: crianças vendem balas nos semáforos, carregam sacolas em mercados, catam recicláveis. A infância lhes é negada em nome da sobrevivência.

Mas não é só a miséria que rouba o tempo de ser criança. A cultura midiática brasileira, marcada pela exposição precoce de meninos e meninas em programas de TV, reality shows e redes sociais, incentiva a sexualização e a pressa em “crescer”. Pequenas já desfilam de salto alto, fazem coreografias de músicas adultas e reproduzem padrões de consumo de influenciadores digitais. Nesse cenário, o brincar — elemento essencial do desenvolvimento infantil — perde espaço para a exibição e a competitividade.

A contradição é cruel. Enquanto uns carregam sacos de cimento, outros carregam a pressão da fama e da estética. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: a negação da infância. Crianças deixam de experimentar a leveza do jogo, da imaginação, da descoberta sem pressa, e assumem papéis que não lhes cabem.

O problema é cultural, social e político. Não basta responsabilizar apenas famílias ou escolas. É preciso uma ação coordenada: fiscalização rigorosa contra o trabalho infantil, regulação mais firme da publicidade dirigida às crianças, educação crítica para o uso da mídia e, sobretudo, valorização da infância como um bem coletivo.

Quais são as consequências? Entre elas, o trabalho infantil persistente que, apesar de proibido ainda envolve mais de 1 milhão de crianças e adolescentes segundo o IBGE; a sexualização precoce (pesquisas mostram aumento da iniciação sexual em idades cada vez mais baixas, muitas vezes associada à falta de orientação adequada); a perda do brincar, bastando ver que crianças de classes médias e altas, embora não trabalhem, vivem sob agendas lotadas (escola, idiomas, esportes, cursos), o que as aproxima mais de adultos do que da ludicidade infantil.

A sociedade brasileira precisa se perguntar: que adultos formamos quando roubamos das crianças o direito de ser crianças? Um país que não protege sua infância planta adultos ansiosos, inseguros e despreparados para a vida em comunidade. Recuperar o tempo da infância é, antes de tudo, um investimento no futuro.

A adultização infantil no Brasil tem um pé na pobreza estrutural e outro no consumismo midiático. Enquanto milhões de crianças trabalham cedo para sobreviver, outras são empurradas ao universo adulto por estímulos de mercado, moda e mídia. Em ambos os casos, a infância — que deveria ser tempo de descoberta e formação — acaba reduzida.

sábado, 16 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Os pascácios se divertem

O mundo enlouquece de quando em quando. O Brasil não fica atrás. Também tem seus acessos de loucura, mais ou menos sincrônicos com os problemas que afetam o grande vizinho do norte. Os norte-americanos viveram o desastre da queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929, o que aqui correspondeu à Revolução de Trinta, depois que os mecanismos oficiais fracassaram em remediar os problemas daquela época difícil. Nos momentos anteriores à Segunda Guerra Mundial, surgiu no país o movimento integralista, que reuniu milhares de correligionários, vestidos de camisa verde, com o sygma, desenhado na manga da camisa. Eles desfilavam por grandes cidades do país, anunciando a vitória, em breve, do nazismo na Europa e das novas forças políticas no Brasil.


Falar em integralismo hoje é pesquisar na história. Ninguém gosta de lembrar que o padre Helder Câmara foi integralista, entre outros muitos conhecidos. E até Vinicius de Moraes, que se transformaria em poeta e seresteiro, teve seu chamego com a doutrina autoritária estimulada por nazistas, fascistas e empresários poderosos da época. O integralismo prosperou sob o comando de Plínio Salgado, paulista de São Bento do Sapucaí, cujo prestígio não se combinava com sua figura. Ele era baixinho, olhos tristes, orelhudo e bigode estilo escova de dentes. No palanque, contudo, era o arrebatador das massas, o líder, o grande orador. “Se a geração velha não soube acreditar em coisa alguma e sucumbiu no pântano dos imediatismos, a nova geração saberá crer! E, se isto é loucura, bendita a loucura sagrada que salva as pátrias do bom senso que as destrói, enxovalha e avilta!”

Por ação natural da política, surgiu a Aliança Nacional Libertadora, em 1935, uma espécie de frente ampla que se contrapunha à ascensão do nazismo. A ANL era composta por socialistas, comunistas, tenentistas, sindicalistas, liberais, reformistas, sociais democratas, marxistas teóricos e antifascistas, além de políticos rompidos com o caudilhismo de Getúlio Vargas. Seus adeptos conseguiram fazer o movimento crescer muito em todo o país. Em uma de suas grandes assembleias, o estudante Carlos Frederico Werneck de Lacerda, 21 anos, lançou o nome de Luiz Carlos Prestes para comandar o movimento. Prestes estava exilado em Moscou desde 1931. Não poderia estar presente no movimento. Mas seu nome foi aclamado. Seria a garantia de que a ANL atuava em todo o território nacional e era conhecida dentro e fora do país.

Getúlio Vargas extinguiu, por decreto, os dois movimentos. Implantou uma ditadura feroz que iria perdurar até 1945, quando terminou a Segunda Guerra. Ao longo desse período ainda ocorreu o levante dentro das Forças Armadas que ganhou do poderoso homem de imprensa, Assis Chateaubriand, criador dos Diários Associados, a designação de Intentona Comunista. Seus principais líderes foram presos, inclusive Prestes, que estava escondido numa casa no Méier, rua Honório 279, no dia 6 de março de 1936. Ele foi levado para a Polícia Central, na rua da Relação, onde iniciaria um longo período de prisão. Sua companheira, Olga Benário, foi para a Casa da Detenção, no Estácio. Nunca mais se viram. Ela morreu em campo de concentração na Alemanha.

O bolsonarismo representa a repetição da história, sem qualquer grandeza. Nele não há sequer o brilho dos grandes discursos, das citações surpreendentes ou da gesticulação teatral. Tudo é muito raso. É a iniciativa dos pascácios, dos idiotas que se levantam de tempos em tempos ao sul do Equador em nome de alguma narrativa razoável. Nos anos trinta, contudo, ninguém teve a audácia de tramar contra o país no exterior. Havia espiões nazistas no Brasil, ou políticos favoráveis às ações de Berlim, mas não há registros de pessoa que se passou para o adversário com objetivo de prejudicar seu país. Essa é a novidade. Os meninos Bolsonaro trabalham contra o país na suposta defesa de seu papai, que, como está largamente comprovado, conspirou contra as instituições nacionais.

O tempo vai solucionar essas questões, embora o governo brasileiro, em especial o ministro Fernando Haddad, relute em reconhecer a tensão entre Brasília e Washington e ainda tente negociar o inegociável, neste momento. Buscar alternativas nos mercados dos países com os quais o Brasil mantém boa relação é a melhor solução para a emergência do momento. Não há como dialogar com um presidente dos Estados Unidos que entende ser o Brasil um país comunista, onde se exerce uma feroz ditadura. Muito diferente da Coreia do Norte e de El Salvador, dois países democráticos, segundo o Departamento de Estado. A sabedoria é deixar o tempo passar. Ele se encarrega de recolocar os temas nos seus devidos lugares. Os extremismos perdem sempre.

Quem quiser saber mais sobre o Brasil dos anos trinta e quarenta, precisa ler o delicioso Trincheira tropical, a Segunda Guerra Mundial no Rio, de Ruy Castro.

A continuidade do golpe

Todo o cenário do processo político indica que o golpe continua. O atrevido envolvimento direto de Trump e da diplomacia americana na soberania brasileira indica que a direita quinta-coluna bolsonarista não está a fim de abrir mão do retorno ao poder para ficar.

Fica claro que está em andamento um novo desenho da geopolítica de hegemonia americana. A de uma América debilitada pelo declínio do capitalismo americano numa circunstância de transformação no capitalismo internacional.

O capital não tem pátria e menos ainda com o notável fortalecimento da economia chinesa e, de vários modos, a unidade e diversidade do capitalismo europeu.

Transformações econômicas e políticas impensáveis na época de Marx e mais recentemente na Guerra Fria fragilizam os EUA e propõem perigosos dilemas para um país como o Brasil.

Não teria passado pela cabeça de ninguém que um poderoso Partido Comunista, como o chinês, se transformasse no patrono de capitalismo que desafiasse a maior potência econômica e militar do mundo.

No entanto, o lugar do capitalismo na construção do socialismo está muito claro na obra de Marx e de Engels. O socialismo não é o antagônico do capitalismo. Como radical oposição de confronto ele é insuficiente.

Ele só é viável como realização do capitalismo e superação de suas contradições e irracionalidades. As que indicam a carência histórica de um sistema político que corresponda a essa carência do capital.

Aparentemente, a China montou um sistema de gestão socialista das irracionalidades sociais do capitalismo. A China não se mete nas particularidades políticas e históricas dos outros. Durante a ditadura militar neonazista de Pinochet, os chineses mantiveram relações diplomáticas com o governo chileno.

Eles gostam de observar os efeitos corrosivos das contradições econômicas e suas decorrências políticas. Eles não padecem da impaciência pelos ganhos ilimitados do capital.

O que fascinou Marx no capitalismo foi que nele se gestava um modo de produção que ampliava significativamente a produção de bens, a modernização da economia que tornaria possível a modernização da política e a modernização social. A superação das diferenças sociais geradas pelo desenvolvimento desigual do capital.

Até porque sua obra ficou inconclusa, Marx não avaliou na devida abrangência a diversidade das contradições próprias do capitalismo. Não avaliou seus herdeiros reducionistas e materialistas da interpretação marxista vulgar e até mesmo antidialética. O obscurecimento da reprodução ampliada do capital como reprodução ampliada das contradições sociais. E as decorrentes técnicas sociais de bloqueio da produção das inovações sociais e políticas.

O “boom” das ciências sociais e das técnicas científicas de desvendamento das condições da práxis de transformação social e política e da práxis repetitiva. Esta já agora desdobrada na descoberta de Henri Lefebvre, o sociólogo francês que incluiu na tridimensionalidade da práxis a práxis mimética. A falsa práxis que mimetiza até mesmo a práxis revolucionária para bloquear a possibilidade da revolução social. O que dá direção à práxis repetitiva, a necessária à reprodução do capital e da sociedade capitalista tais como se dão a ver e como as veem e vivenciam os que das anomalias da reprodução se beneficiam e as personificam.

Portanto, a contenção do campo do possível e da nova sociedade que o capitalismo cria e possibilita. Nisso, sua potencial salvação está cada vez mais reduzida.

A alienação social tornou-se o grande inimigo da condição humana. O acobertamento ideológico do substrato econômico de reprodução dos diferentes níveis e formas de miséria que aparecem como miséria social. Os mecanismos sociais de exclusão sob a forma de inclusão social perversa. Os que brutalizam a condição humana como forma de impedir que todos os seres humanos desenvolvam uma consciência crítica de sua situação adversa. Que se traduza numa práxis poiética, criativa e transformadora, libertadora.

O capitalismo se transformou apenas em um modo de produção e reprodução da desumanização do homem. O chamado neoliberalismo econômico de Milton Friedman e outros é a proposta ideológica, não científica, de um minimalismo econômico excludente. É uma doença política que reduz a condição humana à mera possibilidade de ascensão social a limites mínimos de realização pessoal. Essa é a grande pobreza própria do neocapitalismo da exclusão social. A pobreza de esperança.

Nossa versão desse declínio é o bolsonarismo, a ideologia de esterilização da consciência social por um falso evangelismo da prosperidade, consumista. O de um novo deus, subornável, produzido pelo afã de poder e dinheiro.

José de Souza Martins

Tolerância e democracia

O Congresso é a casa da democracia. Numa República, há o compartilhamento do poder e a segmentação das funções. Os Poderes Executivo e o Judiciário dividem o palco. Isto faz parte do sistema de freios e contrapesos, eficiente vacina contra tentações autoritárias. Mas é no parlamento onde encontramos a expressão política da pluralidade e diversidade presentes na sociedade.

Nos últimos dias, assistimos cenas de intolerância, sectarismo e negação do diálogo como ferramenta em nosso parlamento. Cenas desalentadoras e pouco edificantes.


As sociedades contemporâneas são cada vez mais fragmentadas. São múltiplos, os interesses. Isso se reflete no mundo das ideias. E as ideias buscam representação política. É natural certo nível de polarização, polêmica e divergência. Formam-se correntes ideológicas. Partidos políticos se organizam. Lideranças emergem e sintetizam bandeiras e causas. Em cada momento formam-se maioria e minoria. A correlação de forças nunca é definitiva e imutável. A grande qualidade do processo democrático é seu caráter dinâmico, um aprendizado coletivo constante com permanente correção de rumos. A alternância no poder é a expressão máxima do livre jogo político. Às vezes, ganha a esquerda. Em outras, é a vez da direita governar. Em outro momento, posições centristas dominam. Isso aconteceu, no Brasil, nestes 40 anos de redemocratização. O que não dá é a minoria eventual querer ganhar o jogo no grito e na força.

A democracia não pode ser disfuncional, tem que produzir soluções. As legítimas divergências sobre os temas centrais da vida do país não podem ter efeito paralisante. É preciso produzir consensos progressivos a partir do dissenso natural. Para que a democracia avance, é fundamental a observação de alguns princípios: respeito às regras permanentes do jogo, reconhecimento da legitimidade dos adversários, contenção no uso do poder para não afetar as condições da competição, aceitação da alternância no poder, primazia para o interesse nacional e social, acima das correntes políticas. Não adianta só produzir barulho para as bolhas. Redes sociais podem até derrubar governos, mas não garantem o apoio para governar.

A democracia moderna nasceu para dar vazão à liberdade individual, ao livre mercado e à livre iniciativa, às luzes na cultura, à participação cidadã em eleições livres, substituindo o poder absoluto da monarquia e a excludência radical das sociedades feudais. Com a pulverização partidária, a formação de maioria parlamentar e a governabilidade ficaram mais complexas. Não só no Brasil. Aqui a capacidade de diálogo e de construção de convergências são ainda mais importantes.

Em tempos confusos, onde patriotas se enrolam na bandeira americana contra os interesses nacionais, autoritários gritam contra uma ditadura inexistente, democratas evitam falar sobre excessos e desvios e progressistas adotam ideias retrógradas, seria bom ouvir o líder da nossa redemocratização. Tancredo Neves daria alguns conselhos: “eu sou pragmático e conciliador na ação, mas inflexível em matéria de princípios”, “ninguém consegue governar bem com arrogância”, “na vida política, quem guarda ressentimentos morre envenenado” e “não se pode fazer política sem emoção, mas as decisões em política devem ser cerebrais”.

Saudades de Tancredo e Ulysses!

Trumpismo seria o Brasil de amanhã?

O que pode ocorrer de pior do que o embargo econômico americano sobre o Brasil, causado pela aliança entre o presidente Trump e o bolsonarismo? Quase nenhuma notícia dos últimos 40 anos foi tão ruim como essa, com exceção da pandemia de covid-19, sobretudo pela forma desastrosa como o presidente Bolsonaro lidou com essa crise.

Mas há algo ainda mais grave que pode acontecer: a vitória de um grupo político em 2026 que defenda as mesmas ideias do trumpismo. Entender o que seria esse efeito Orloff é um bom exercício para compreender os riscos presentes na eleição geral de 2026.

Para quem não lembra, o efeito Orloff relacionava-se com uma propaganda de bebida da década de 1980. Nela, o protagonista acordava com uma baita ressaca, gerando a célebre frase: “Eu sou você amanhã”. Essa ideia comparou Brasil e Argentina, principalmente nos anos 1990, pensando sempre que o que estava ruim num lugar se repetiria depois no outro.


Eram dois países classificados como não desenvolvidos, competindo para ver quem errava menos - ou torcendo para que o outro repetisse os erros do primeiro. Numa reversão impressionante da história, o perigo da cópia do desastre vem hoje do hemisfério Norte desenvolvido, mais especificamente do país mais rico do mundo.

Agora os Estados Unidos de Trump podem ser o novo efeito Orloff do Brasil. No espelho do que eles têm feito hoje pode-se pensar no que poderemos ser amanhã, caso copiemos a fórmula trumpista, hoje defendida fortemente pelos bolsonaristas e envergonhadamente por governadores que querem os votos dos eleitores de Bolsonaro, embora tentem não ficar com a marca do radicalismo.

O trumpismo está produzindo uma série de males para os EUA, país cuja democracia sempre inspirou o mundo e com alavancas de desenvolvimento que eram invejadas por todos. O desastre trumpista passa especialmente pelas suas ações destinadas a enfraquecer as instituições americanas. Há muita coisa calamitosa sendo feita aqui, todas feitas em prol do aumento do poder autocrático de Trump.

Entre essas tragédias, três poderiam ser destacadas porque podem dialogar com o caso brasileiro: a tentativa de o governo federal comandar os estados e as grandes cidades, a redução drástica de importância do Congresso Nacional no processo decisório e a destruição da administração pública federal.

Antes de analisar esses três desmantelamentos institucionais, vale lembrar que a briga com as instituições já havia ocorrido no primeiro governo de Trump. Foi uma guerra que deixou sequelas na democracia americana, mas ao final o trumpismo perdeu duas vezes, na eleição presidencial (vencida por Biden, em 2020) e na tentativa fracassada de golpe de Estado, no fatídico 6 de janeiro.

O segundo governo se dá num novo cenário: Trump está mais forte, montou um modelo em que não há nenhum contrapeso a ele e os defensores da democracia estão zonzos, com dificuldades de segurar o arcabouço institucional montado a muito custo por quase 250 anos. Assim, sua capacidade de alterar o governo americano e o papel dos EUA no mundo é quase de um poder revolucionário, pronto para redesenhar bruscamente as regras e práticas do jogo interno e externo.

O enfraquecimento do federalismo é um dos principais objetivos do segundo governo Trump. Ele precisa enfraquecer, deslegitimar e até humilhar em praça pública governantes subnacionais que sejam do Partido Democrata - claro que se algum mandatário republicano não seguir os passos do chefe federal, também será punido.

No modelo federativo americano pensado por James Madison, os estados e, mais recentemente, as grandes cidades são contrapesos à concentração indevida de poder na União. Foi esse equilíbrio federativo que evitou o pior na pandemia da covid-19, quando Trump adotou uma política equivocada.

Transformar os governos estaduais e das grandes cidades em correias de transmissão do governo federal é um tiro no coração da democracia americana. Em sua proposta de autocracia centralizadora, é isso que está ocorrendo sob Trump: um governo central capaz de intervir cotidianamente no poder dos governadores e prefeitos mais importantes. Imagine se isso se repetir no Brasil.

É preciso que os governadores brasileiros e os candidatos a tal posto se manifestem se querem o modelo trumpista por aqui, dizendo aos seus eleitores que o orgulho estadual do gaúcho, do paulista, do mineiro e do cearense são menos importantes que a obediência ao presidente todo-poderoso de Brasília. Não adianta dizer que isso não se repetirá em nossa Federação. Quem apoiar e for apoiado por Trump, tenderá a seguir os mesmos métodos.

Trump enfraqueceu também o Congresso de uma forma inédita na história americana. Ao obter maioria em ambas as casas, mesmo que tênue, conseguiu transformar os congressistas republicanos em meros seguidores do presidente, como aqueles robôs das redes sociais. As grandes decisões nacionais estão passando ao largo do Legislativo.

Seria inimaginável antes desse segundo governo trumpista acontecer uma revolução nas tarifas aplicadas aos outros países sem que isso fosse minimamente discutido e votado pelos deputados e senadores. Dito de outra forma: a maior revolução de política externa das últimas décadas está sendo decidida solitária e autocraticamente por Trump.

Se o modelo trumpista de tornar o Congresso pouco ou quase nada relevante nas políticas públicas repetir-se num Brasil comandado pelo satélite bolsonarista, duas consequências negativas são esperadas. A primeira e óbvia é o reforço do poder do Executivo federal, que sem contrapesos parlamentares poderia deixar a boiada das medidas autocráticas passar. No bojo desse processo, o grupo político que mais perderia poder de barganha no processo decisório seria o Centrão.

Muito se pode criticar o grupo que congrega a maioria dos congressistas brasileiros, mas ele tem sido, muitas vezes, um poder moderador de qualquer tentativa de concentração de poder. O Centrão precisa acordar para o risco de se repetir o modelo Trump em terras tropicais, que, se vier com mais força num bolsonarismo turbinado, será pouco relevante saber quem serão os futuros presidentes da Câmara e do Senado.

O trágico nesta história é que lideranças de partidos de centro-direita e direita continuam alimentando os corvos que poderão comer seu poder no próximo quadriênio.

A destruição da administração pública federal é outro desastre provocado pelo trumpismo. Demissões em massa, destruição de áreas estratégicas da burocracia, a enorme redução dos recursos federais voltados aos mais pobres, a destituição da secretária de Estatísticas Trabalhistas (Erika McEntarfer), responsável pela mensuração do desemprego e a ameaça de processo contra o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. Desmantelar a estrutura burocrática tem um objetivo básico: governar sem contrapesos técnicos, como os reis e autocratas podem fazer.

A reprodução desse modelo no Brasil é bem provável se houver uma volta dos bolsonaristas ao poder. A burocracia federal foi fundamental para resistir a muitas das decisões equivocadas e autocráticas de Bolsonaro. Mas num segundo governo esse vetor tende a vir mais forte, até como vingança em relação àqueles que seguraram o SUS e evitaram uma mudança drástica na política externa, por exemplo. Daí que o eleitorado e o funcionalismo público de todo o país precisam ser avisados de mais um efeito deletério de se copiar o trumpismo.

A política trumpista tem muitos outros equívocos cuja reprodução no Brasil seria uma catástrofe. Por exemplo, se ficarmos alinhados de forma carnal com o governo Trump, haverá uma pressão para se escolher entre os EUA e a China, e o enfraquecimento das relações com a potência asiática significará a perda de milhões de empregos no Brasil e a bancarrota de grande parte do agronegócio brasileiro.

Sabotar as universidades e a educação pública, como está ocorrendo tragicamente nos Estados Unidos, seria ainda pior no caso brasileiro, porque ainda estamos muito atrasados no campo educacional, com efeitos enormes na desigualdade e no padrão de desenvolvimento.

Ainda haverá muitos com dúvida se isso pode se repetir no Brasil. Afinal, quando foi presidente, Bolsonaro tentou várias dessas medidas, mas não conseguiu se tornar um autocrata. Porém, os estragos foram grandes: desmatamento recorde, destruição do MEC, um enorme absurdo de mortos por covid-19, emparedamento diário dos governadores, ameaças constantes a todos os Poderes da República e, como corolário, a tentativa de um golpe do Estado, cujas consequências continuam envenenando o ambiente político, dificultando que o país se concentre nas questões relevantes para seu futuro.

Uma nova vitória do bolsonarismo ou de alguém apoiado pelo bolsonarismo selará uma aliança de subordinação com o trumpismo, num grau de subserviência não só entre os países, mas entre os dois grupos governantes, com um domínio incontrastável de Trump sobre os seus parceiros da extrema direita brasileira.

Eduardo Bolsonaro está anunciando essa possibilidade, e ela é crível. Por isso, a reprodução subordinada do modelo trumpista no Brasil, com todas as suas vicissitudes, deveria ser um dos temas principais da campanha eleitoral de 2026.

O declínio da popularidade de Trump

Trump foi eleito por 49,9% contra 48,5% de Kamala Harris no voto popular em 2024. Na pesquisa Gallup, o maior instituto de pesquisa do mundo, Trump, após sua posse em 20 de janeiro, apresentou popularidade de 47% nos Estados Unidos, na pesquisa de 21 a 27 de janeiro, caindo para 37% na última pesquisa deste 7 a 21 de julho.

Esta é a mais baixa popularidade de um Presidente dos Estados Unidos aferida após 200 dias de governo na história do Instituto Gallup, fundado em 1935. Para o mesmo período de 200 dias de governo, a popularidade de Biden ficou em 50%, Trump no primeiro mandato em 38%, Obama 57%, W. Bush 55%, Clinton 43%, H.W. Bush 66%, Reagan 59%, Carter 65%, Nixon 61%, Kennedy 75%, Eisenhower 71%.

Outras pesquisas de renomados institutos e organizações americanas são compatíveis com os resultados do Gallup em relação à aprovação de Trump: YouGov 39%, Reuters/Ipsos 40%, Massachussets University 38%.

Trump erra em suas medidas políticas e econômicas. Em verdade, agrada a seu núcleo mais próximo, mas não ao eleitorado em geral. A ocupação de Los Angeles pela Guarda Nacional, e o recente anúncio de ocupação de Washington e New York não são do agrado geral. E as tarifas de Trump, para o protecionismo à indústria americana, não vão resolver o problema econômico do país, com a geração de inflação. Trump erra ao ir contra os fundamentos da nação, o da liberdade que gera o consenso para a ação política, e o do mercado que gera a competição com a eficiência na economia.

Nas tarifas contra o Brasil, é clara a discordância da imprensa americana em relação às medidas tomadas por Trump. As tarifas são consideradas mais como políticas do que econômicas. Certamente que os danos para o Brasil serão muitos, mas os americanos, de certa forma, também sentirão. O New York Times lamenta que os americanos “vão sentir a dor da ausência do café (brasileiro)”. E o Texas Roadhouse, uma das mais representativas redes de barbecue dos Estados Unidos, com cerca de 800 restaurantes em 49 estados, subiu os preços dos steaks em 1,4% no final deste primeiro semestre, projetando 4% para até o final do ano, devido aos “custos da carne bovina e potenciais impactos tarifários”. O aumento em 4% nos steaks, a comida predileta dos americanos aos fins-de-semana, em uma economia estável, é altamente significativa para o consumidor, que têm seus proventos, em geral, já bem ajustados a um padrão definido de consumo de bens e serviços.

Trump acerta em suas medidas para o seu núcleo mais próximo, proporcionando a ira e a má educação, mas erra para o total da população, já que, como no dito popular, o ódio “não põe mesa”. Como diz Fernando Blanco em recente artigo, o “sofrimento do americano” será o nosso “maior aliado” para que haja uma maior negociação à frente.

Ainda estamos aqui, apesar de vivermos tempos que nos lembram a Alemanha de 1930

“Reductio ad hitlerum”: é esta a resposta contra-ataque que se ouve quando se destacam as muitas semelhanças entre o ar dos tempos de hoje e a Europa, e em especial a Alemanha, dos anos 1930, que potenciou a ascensão do nazismo. Dizem os críticos mais sofisticados a este tipo de análise que apontar semelhanças históricas se trata de uma falácia lógica que consiste em tentar invalidar uma ideia simplesmente por associá-la a Adolf Hitler ou aos nazis. A esses, eu respondo dizendo que estão a entrar em modo espantalho, também uma falácia, mas a que cria uma versão distorcida do argumento do oponente para facilitar a refutação.

Espantam, mas não convencem.

Porque é mesmo preciso conhecer a História e aprender com ela. E as semelhanças são gritantes – só não as vê quem não quer:


Vivemos tempos de deceção e frustração com os problemas de um sistema que não consegue atender a todos, tal como na Alemanha dos anos 30.

Há líderes populistas e carismáticos de direita radical que sabem tirar partido do ressentimento, oferecendo respostas simplistas para problemas complexos, tal como na Alemanha dos anos 30.

Atribuem-se culpas coletivas e escolhem-se bodes expiatórios para apontar o dedo, tal como na Alemanha dos anos 30.

Procura-se voltar atrás no tempo e recuar a um passado imaginário, tal como na Alemanha dos anos 30.

Temos novas tecnologias disruptivas que catapultam a propaganda, tal como na Alemanha dos anos 30.

E tenta-se descredibilizar os média tradicionais que denunciam as mentiras, os engodos e os perigos destes, tal como na Alemanha dos anos 30.

Quero hoje, excecionalmente de volta às páginas da VISÃO nestes dias cruciais de resistência e luta, focar-me neste último ponto.

Também na Alemanha nazi, houve casos paradigmáticos. O Münchener Post, por exemplo, foi um pequeno jornal de ideologia social-democrata na Baviera que desde cedo identificou, ainda nos anos 1920, um “certo senhor chamado Hitler” e se lançou numa cruzada contra ele. Hitler rapidamente fez dele mais um alvo a abater, pois claro: passou a referir-se ao jornal e aos seus jornalistas como a “peste de Munique” e dizia que cozinham os seus textos “com veneno”. (A jornalista Silvia Bittencourt tem um bom livro sobre o tema, chama-se Cozinha Venenosa – Um Jornal contra Hitler).

Os repórteres e colunistas heróis foram perseguidos, vítimas de intimidação e violência, e o jornal foi encerrado em 1933, assim que Hitler chegou ao poder. Mas alguns conseguiram resistir: Edmund Goldschagg, ex-editor de política, veio a fundar, anos mais tarde, o prestigiado Süddeutsche Zeitung.

Uma das primeiras vítimas mais notáveis desta perseguição aos média foi Carl von Ossestzky, diretor do Weltbühne, que logo em 1933 foi preso e levado para um campo de concentração. Ruth Andreas-Friedrich foi outra jornalista alemã notável, que viveu uma vida dupla. Trabalhava sob o jugo da censura, mas protegia e abrigava perseguidos políticos e judeus, ajudando-os a fugir.

A imprensa livre morreu muito antes de Hitler ser o genocida que conhecemos. Em poucos meses, todos os órgãos de comunicação social passaram a ser controlados pelo Ministério da Propaganda, debaixo da batuta implacável de Joseph Goebbels, que decidia tudo o que era publicado e punia severamente todos os que ousassem sair da linha definida, da mesma forma que queimava livros e cortava o acesso a rádios estrangeiras, afastando “espíritos não alemães” de todo o espaço público.

O ataque sistemático aos órgãos de comunicação social fez sempre parte das cartilhas dos regimes autoritários, dos dois lados do espectro político. Salazar, Mussolini, Estaline fizeram o mesmo, tal como aconteceu na China, em Cuba, na Coreia do Norte, no Irão, em Mianmar, etc. A lista é longa, e a vida de jornalista livre e crítico uma profissão de risco em todas as geografias, e tanto pior dependendo do tipo de regime que está no poder.

Nos dias de hoje, Donald Trump inaugurou um novo estilo de atacar a imprensa livre. Com os seus “engenheiros do caos”, lançou-se numa concertada estratégia de descredibilizar os jornalistas e os órgãos de comunicação social mainstream, que logo apelidou de lamestream (lame significa “aleijado” ou “coxo”) e fake news. Uma moda copiada por todo o globo. Em português nasceu a expressão “jornalixo”, para atacar todos os jornalistas e órgãos de comunicação social tradicionais e, sobretudo, os não abertamente alinhados com o discurso da nova direita radical.

O que é que tudo isto tem a ver com a VISÃO?, perguntarão. Pois tem tudo.

Há duas semanas, André Ventura foi um dos primeiros a congratular-se com a possibilidade de fecho da VISÃO, e depois logo seguido por vários obedientes deputados. “Parece que a Visão vai à falência. É normal, quem fez da sua vida atacar o Chega e atacar-me a mim, é normal que as pessoas tenham dito chega. É para aprenderem: quando atacam aqueles que defendem o povo, o povo é que acaba por olhar para o lado e dizer ‘vocês é que têm de acabar’”, publicou num vídeo nas redes sociais, repetindo a ideia em vários posts.

São várias mentiras em tão poucas palavras, como é costume: 1. A VISÃO foi fundada em 1993 e tem uma vida de jornalismo de qualidade muito antes de aparecer o Chega; 2. A VISÃO não fez vida a atacar o Chega, e sim a denunciar violações aos valores fundamentais em que foi fundada: a democracia, a liberdade, o humanismo (valores que, infelizmente, o Chega detesta e ataca); 3. Não foi a VISÃO que foi à falência, mas o grupo Trust in News que detém outras 15 revistas e que foi vítima de dívidas acumuladas pelo acionista, sendo que a VISÃO foi sempre o motor que deu margem de contribuição positiva para o grupo e que, ainda agora, no meio deste caos, vende cerca de 9 000 exemplares, tem à volta de 6 000 assinantes e fatura perto de muitos milhares de euros por mês. Se a VISÃO fechar, não será certamente por falta de leitores ou de mercado: será sim por causa de uma gestão gravemente danosa e incompetente – esta é a minha opinião e assumo-a (e foi ela que me levou a pedir a demissão no final de 2023).

A liberdade de imprensa incomoda. Esta semana, o ex-jornalista e comentador incisivo Filipe Santos Costa foi atacado em direto na CNN Portugal, num momento de entrevista a Ventura por um painel, com acusações de “representante do Partido Socialista”.

A alegria seria idêntica se uma iminência de falência batesse às portas do Expresso, do Público ou do Polígrafo. Centenas de jornalistas empurrados para o desemprego, prejuízos avultados para credores? Pouco importa. É claro que para André Ventura e “sus muchachos” a vida ficaria muito mais fácil se só existisse a sua Folha Nacional, o jornal do Chega que publica sondagens imaginárias e alucinações de seita.

Deixem-me fazer um ponto de honra. O jornalismo, nacional e internacional, cometeu e comete muitos erros. Tem falhas, engana-se, facilita, vai por caminhos ínvios, dá tiros nos pés, tem dificuldade em lidar com os novos tempos digitais. Eu também terei cometido muitos, certamente, no tempo em que fui diretora da VISÃO. Mas a esmagadora maioria do jornalismo que os média tradicionais de referência fazem em Portugal procura ser isento, honesto e comprometido com a busca da verdade.

A palavra “jornalixo” é todo um tratado de ataque não apenas aos média, mas à democracia e à liberdade. Quem a usa fica irremediavelmente apresentado. Porque não há democracia sem imprensa livre e de denúncia. Porque não há liberdade sem jornalistas incómodos e opinadores críticos.

Na música do genérico do belíssimo filme Ainda Estou Aqui, lê-se: “Estou envergonhado / Com as coisas que eu vi / Mas não vou ficar calado / No conforto, acomodado / Como tantos por aí.” Sim, ainda estamos aqui. E, como jornalistas incómodos, havemos de continuar por aí a denunciar, a criticar e a opinar. Gostem os poderes instalados e os líderes autoritários ou não.

Nada mais antigo do que o passado recente

Notório autor de frases de efeito, o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues dizia que “não há nada mais antigo do que o passado recente”. Relembrado por ocasião dos 100 anos do jornal “O Globo”, do qual foi colunista, o autor de “Vestido de Noiva” afirmou em uma crônica de 1968 que “a toda hora e em toda parte, a vida injeta o passado no presente”.

Atualmente, brasileiros assistem, perplexos, à vida injetando o passado de ações intervencionistas dos Estados Unidos no Brasil. Em 201 anos de relações diplomáticas, prevaleceram a amizade e alianças políticas e comerciais entre os dois países, com respeito mútuo pela soberania, mas com incidentes pontuais.

Lembre-se que em 1952, quando o presidente Harry Truman pressionou Getúlio Vargas a enviar soldados para lutarem ao lado dos americanos na Guerra da Coreia, o mandatário brasileiro recusou-se. Para não se indispor com o aliado, Getúlio propôs um acordo militar, envolvendo a exploração em solo nacional de matérias estratégicos, como urânio e terras raras. Tal qual se deu no passado, atualmente, o interesse americano pelas mesmas terras raras, abundantes no Brasil, pode ajudar a reconstruir a relação entre os dois países.

No pós-Segunda Guerra, Getúlio costurou com o presidente Franklin Roosevelt, em 1945, a retirada das bases americanas do Brasil. Essas instalações deram apoio logístico à aviação americana, e reforçaram a segurança da região, num cenário em que submarinos alemães haviam abatido embarcações brasileiras.

No início de 1946, o então ministro das Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, foi cobrado pela permanência de algumas dessas bases no país. Ele ponderou que o processo de desocupação estava em curso, e exaltou a soberania nacional: “O Brasil cultiva o espírito de cooperação panamericana no mais alto grau, mas dentro de seu território só pode flutuar uma bandeira - a nossa”.

Em 1952, coube ao mesmo João Neves - desta vez, como chanceler de Getúlio - costurar com sua contraparte americana o acordo de cooperação militar com os Estados Unidos. A negativa de Getúlio ao envio das tropas para a Coreia era ousada pela sensibilidade da conjuntura internacional, e, igualmente, pela dependência econômica do Brasil do vizinho americano. Em plena guerra fria, o conflito na Coreia tinha um viés ideológico, porque o apoio dos EUA à Coreia do Sul simbolizava o combate à expansão do comunismo, já que do lado oposto lutavam Coreia do Norte e União Soviética.

Mais de 70 anos depois, o passado invade o presente nas relações entre EUA e Brasil, quando o presidente Donald Trump adiciona o viés ideológico às relações comerciais entre ambos. Ele o faz ao condicionar o fim do “tarifaço” à intervenção do governo brasileiro no Supremo Tribunal Federal (STF), na ação penal sobre a tentativa de golpe, que tem como um dos réus o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Nos anos 50, os termos do acordo militar do governo Getúlio foram considerados excessivamente favoráveis aos americanos. Os minerais estratégicos que eram objeto do acordo, como as areias monazíticas, ricas em urânio e terras raras, não poderiam ser negociados pelo Brasil com outro país, sem o consentimento prévio de Washington. Em paralelo, a contrapartida americana foi considerada genérica, ao prever assistência ao Brasil em equipamentos, materiais ou serviços. Em 1977, o presidente Ernesto Geisel encerrou o acordo, gerando novo foco de tensão entre os dois países.

Em outro capítulo, somente muitos anos depois veio à luz o envolvimento dos Estados Unidos no golpe militar de 1964. O historiador Carlos Fico, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revelou que se tropas legalistas resistissem, os EUA posicionariam um porta-aviões, petroleiros e contratorpedeiros na costa brasileira para reforçar o contingente empregado na deposição de João Goulart.

Nessa quinta-feira (14), Donald Trump voltou a atacar o Brasil, que chamou de "péssimo parceiro comercial", além de qualificar o julgamento de Bolsonaro de “execução política”. As premissas são falsas, porque os EUA são superavitários nos negócios com os brasileiros, enquanto o ex-presidente teve direito ao devido processo legal, com ampla defesa e contraditório.

Lula rebateu Trump, alertando que o Brasil “não vai ficar de joelhos”. A tensão está literalmente no ar, num momento em que Trump despachou tropas das forças aéreas e navais americanas para o sul do Mar do Caribe. No passado, na Segunda Guerra, as bases americanas no Brasil foram devidamente acordadas entre Getúlio e Roosevelt.

A dependência do Brasil das exportações para os EUA já foi maior. Em 1989, representava 23,94%, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), e esse volume caiu para 12%, no acumulado até junho. Mas Trump já mostrou que a briga é política, e não comercial.

Um diplomata lamentou que seja a “maior crise em 201 anos de relação”, e disse à coluna que só muito trabalho de bastidor para revertê-la, e cientes de que a pressão vai continuar até o julgamento de Bolsonaro, com a perspectiva de se agravar. A vida injeta o passado no presente, mas é o futuro que nos aflige.
Andrea Jubé